ECONOMIA
23 de julho de 2018
Relatório de Crédito
Inadimplência: Bem Melhor do que Parece
Maurício Molan
Divulgamos recentemente dois relatórios de crédito que chamam a atenção para as fortalezas relacionadas à oferta e à demanda nesse mercado ao longo dos primeiros cinco meses do ano, tanto no caso das famílias (“Não é Por Falta de Crédito – Parte I: Pessoas Físicas, clique aqui), quanto das empresas (“Não é Por Falta de Crédito – Parte II: Pessoas Jurídicas”, clique aqui). Argumentamos que, apesar de a greve dos caminhoneiros ocorrida em maio ter reduzido as projeções para o crescimento do PIB, os bons fundamentos do mercado de crédito sugerem perspectivas positivas para a recuperação ao longo do segundo semestre de 2018.
A análise da inadimplência reforça essa tese.
Os dados divulgados pela autoridade monetária brasileira ilustram de forma inequívoca que houve substancial e generalizada melhora da capacidade de pagamento de indivíduos e empresas endividadas ao longo de 2017, o que persistiu também no início de 2018.
A continuidade da forte contração, na margem, do estoque de provisões sugere que os indicadores de inadimplência como percentual do crédito tendem a retomar a trajetória descendente ao longo do segundo semestre. Essa conclusão parece ainda mais válida para o caso das empresas, cujo estoque de dívida não honrada decresceu a um ritmo de 4% nos últimos três meses.
Do ponto de vista regional, destaca-se o desempenho de alguns estados das regiões centro-oeste e sul (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Rio Grande do Sul e Santa Catarina), além de Piauí e Rondônia, pelos baixos níveis de créditos não honrados mesmo com uma dinâmica favorável de expansão dos empréstimos e elevado estoque de endividamento como proporção do PIB.
Em relação a setores, chama a atenção a redução da inadimplência com maior intensidade no comércio varejista, serviços de informação e educação. Essa dinâmica está alinhada com a percepção de recuperação da economia com base no consumo. Importante notar também o desempenho da indústria extrativa, a despeito da forte contração do crédito verificada no ano passado, o que sugere perspectiva favorável para a retomada. Figura 1. Variação do Estoque de Recursos Considerados
Inadimplentes (% interanual), Bancos Públicos e Privados
Figura 2. Inadimplência e Crescimento do Crédito em 2017, por Unidade da Federação
Fonte: Banco Central do Brasil
-21.3% -12.7% -17.2% D ec -14 M ar -15 Ju n -15 Se p -15 D e c-15 M ar -16 Ju n -16 Se p -16 D e c-16 M ar -17 Ju n -17 Se p -17 D e c-17 M ar -18 Bancos Públicos (inclui BNDES) Bancos Privados Total 2.0% 2.5% 3.0% 3.5% 4.0% 4.5% 5.0% 5.5% 6.0% 0.0% 2.0% 4.0% 6.0% 8.0% 10.0% 12.0% Crescimento do Crédito PF em 2017 In ad imp lên cia DF PR RS MS MT SC AM RO AP ES RJ PA CE MG SP RR MA GO PI AL BA RN TO SE AC PE PB
Introdução
Divulgamos recentemente dois relatórios de crédito que chamam a atenção para as fortalezas relacionadas à oferta e à demanda nesse mercado ao longo dos primeiros cinco meses do ano, tanto no caso das famílias (“Não é Por Falta de Crédito – Parte I: Pessoas Físicas
clique aqui), quanto das empresas (“Não é Por Falta de Crédito – Parte II: Pessoas Jurídicas” clique aqui). Argumentamos que, apesar de a greve dos caminhoneiros ocorrida em maio ter reduzido as projeções para o crescimento do PIB e certamente provocado distorções nos indicadores referentes ao período imediatamente posterior às paralisações, os bons fundamentos do mercado de crédito sugerem perspectivas positivas para a recuperação ao longo do segundo semestre de 2018.
A análise da inadimplência desenvolvida a seguir reforça essa tese.
Inadimplência em Tendência Consolidada de Queda
Os dados divulgados pela autoridade monetária brasileira ilustram de forma inequívoca que houve substancial e generalizada melhora da capacidade de pagamento de indivíduos e empresas endividadas ao longo de 2017, o que persistiu também no início de 2018. Como já havíamos chamado a atenção, no caso das pessoas jurídicas é relevante avaliar a dinâmica diferenciada entre o crédito
concedido pelos bancos privados e aquele oferecido pelos bancos públicos (especialmente pelo BNDES). No primeiro caso, a redução é bem mais intensa e menos volátil, enquanto que no segundo a relação inadimplência / ativos parece ter oscilado ao redor da estabilidade nos meses iniciais de 2018, o que poderia sugerir enfraquecimento da tendência (ver Figura 3).
É sabido que a atuação dos bancos públicos permaneceu agressiva nos momentos iniciais da recessão, contrastando com a cautela das instituições privadas, que se anteciparam ao cenário mais desafiador a se manifestar em 2015 e 2016. Em consequência, a inflexão do indicador de inadimplência dos primeiros tardou quase um ano em relação aos segundos (o gráfico abaixo ilustra bem esse ponto).
Da mesma forma, é interessante observar a dinâmica da retomada nas concessões de crédito refletindo, e ao mesmo tempo, afetando a melhora dos indicadores de inadimplência, que ocorreu mais cedo no caso das instituições privadas do que das instituições públicas.
Figura 3. Taxa de Inadimplência (% do Estoque de Crédito) Bancos Públicos e Privados
Figura 4. Variação do Estoque de Recursos Considerados Inadimplentes (% interanual), Bancos Públicos e Privados
Fonte: Banco Central do Brasil
Uma forma alternativa de analisar o que se passa com a capacidade de pagamento de famílias e empresas consiste em eliminar o efeito denominador, isto é, avaliar apenas o comportamento do estoque de saldos inadimplentes. A Figura 4 (acima) mostra a variação interanual deste saldo. Repare quão significativas são as magnitudes: redução total ao redor de 17% no estoque de recursos inadimplentes em maio de 2018, ante mesmo mês do ano anterior.
Considerando que os dados, na margem, seguem mostrando recuo dos estoques de empréstimos considerados inadimplentes, a estabilização ou retomada do crescimento do crédito esperada para o segundo semestre de 2018 certamente levará a reduções adicionais das estatísticas de inadimplência / ativos.
2.2 3.1 3.5 3.0 3.6 4.5 4.4 3.5 2.8 3.7 3.9 3.3 Feb -1 5 M ay -15 A u g-15 N o v-15 Feb -1 6 M ay -16 A u g-16 N o v-16 Feb -1 7 M ay -17 A u g-17 N o v-17 Feb -1 8 M ay -18 Bancos Públicos (inclui BNDES) Bancos Privados Total -21.3% -12.7% -17.2% D ec -14 M ar -15 Ju n -15 Se p -15 D e c-15 M ar -16 Ju n -16 Se p -16 D e c-16 M ar -17 Ju n -17 Se p -17 D e c-17 M ar -18 Bancos Públicos (inclui BNDES) Bancos Privados Total
A análise dos dados separados entre pessoas físicas e jurídicas permite conclusões semelhantes. Enquanto o índice de inadimplência parece ter estabilizado em ambos os casos ao longo dos últimos meses (Figura 5), a continuidade da contração, na margem, dos montantes inadimplentes sugere que os indicadores tendem a retomar a trajetória descendente. Essa conclusão parece ainda mais válida para o caso das empresas, cujo estoque de dívida não honrada decresceu a um ritmo de 4% nos últimos três meses.
Figura 5. Taxa de Inadimplência (% do Estoque) PF e PJ
Figura 6. Variação do Estoque de Recursos Considerados Inadimplentes (% interanual), PF e PJ
Fonte: Banco Central do Brasil
Outro fator que fatalmente afetará de forma favorável a dinâmica da inadimplência é a aprovação recente do cadastro positivo. O sistema tende a baratear o custo do crédito via redução da assimetria de informações. Os maiores beneficiários com a redução do custo do crédito e ampliação do acesso ao crédito provavelmente serão os pequenos e médios tomadores e credores, com a redução das ineficiências do sistema. Estudo realizados para a economia dos Estados Unidos indicam que poderia ocorrer uma redução de até 40% da inadimplência registrada, ao longo de alguns anos, como resultado da implantação de um arcabouço de cadastro positivo.
Visão Regional
Os gráficos a seguir ilustram os níveis de inadimplência (Pessoas Físicas) em função do crescimento do crédito (Figura 7) e da penetração dos empréstimos (Figura 8), por unidade da federação. Destaca-se, em primeiro lugar, o desempenho de alguns estados das regiões centro-oeste e sul (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Rio Grande do Sul e Santa Catarina), além de Piauí e Rondônia, pelos baixos níveis de créditos não honrados mesmo com uma dinâmica favorável de expansão dos empréstimos e elevado estoque de endividamento como proporção do PIB.
Como já expressamos anteriormente, o bom desempenho da produção agrícola no ano passado e início deste ano explica a performance acima da média.
Figura 7. Inadimplência e Crescimento do Crédito em 2017, por unidade da federação
Figura 8. Inadimplência e Penetração do Crédito (Crédito s/ PIB), em cada unidade da federação (2017)
Fonte: Banco Central do Brasil 2.0 3.0 3.0 3.8 4.1 4.0 3.6 2.8 3.7 3.3 Fe b -1 5 M ay -15 A u g-15 No v-15 Fe b -1 6 M ay -16 A u g-16 No v-16 Fe b -1 7 M ay -17 A u g-17 No v-17 Fe b -1 8 M ay -18 PJ PF Total 15.2% 46.1% -25.3% 7.1% -6.7% 7.1% -17.2% Fe b -1 5 M ay -15 A u g-15 N o v-15 Fe b -1 6 M ay -16 A u g-16 N o v-16 Fe b -1 7 M ay -17 A u g-17 N o v-17 Fe b -1 8 M ay -18 PJ PF Total 2.0% 2.5% 3.0% 3.5% 4.0% 4.5% 5.0% 5.5% 6.0% 0.0% 2.0% 4.0% 6.0% 8.0% 10.0% 12.0% Crescimento do Crédito PF em 2017 In ad imp lên cia DF PR RS MS MT SC AM RO AP ES RJ PA CE MG SP RR MA GO PI AL BA RN TO SE AC PE PB 2.0% 2.5% 3.0% 3.5% 4.0% 4.5% 5.0% 5.5% 6.0% 15.0% 25.0% 35.0% 45.0% 55.0% 65.0% Crédito s/ PIB In ad im p lên cia DF PR RS MS MT SC AM RO AP ES RJ PA CE MG SP RR MA GO PI AL BA RN TO SE AC PE PB
Já entre os estados com inadimplência mais elevada estão Rio de Janeiro, Amazonas, Pará e Amapá. Este último destaca-se inclusive por ter apresentado expansão acentuada dos empréstimos no ano passado.
Visão Setorial
Do ponto de vista setorial, chama a atenção a redução quase generalizada da inadimplência, com maior intensidade no comércio varejista, serviços de informação e educação. Essa dinâmica está alinhada com nossa visão de recuperação da economia com base no consumo. É importante chamar a atenção para a redução do indicador também na indústria extrativa, a despeito da forte contração do crédito verificada para o segmento no ano passado, o que sugere uma perspectiva mais favorável para 2018.
Por sua vez, o setor de construção tem sido o principal destaque negativo, mas essa dinâmica adversa pode ter sido influenciada pela redução dos estoques de crédito, o que está em processo de reversão no ano corrente.
Figura 9. Inadimplência por Setor
Fonte: Banco Central do Brasil
Conclusão
Assim como o bom desempenho do crédito no início de 2018, os dados sugerem tendência de redução da inadimplência ao longo de 2018, a despeito da perda temporária de força da economia que deve caracterizar os meses de junho e julho. A melhora da posição financeira de pessoas físicas e jurídicas, assim como a aprovação do cadastro positivo tendem a contribuir para aumentar a oferta de recursos e sustentar a retomada do crescimento da economia nos próximos anos.
Figura 10. Projeções
Fonte: Banco Central do Brasil
2016 2017 Variação Agricultura, Pecuária, Produção Florestal, Pesca e Aquicultura 3.5 2.9 -0.5
Indústria Extrativas 1.7 0.5 -1.2
Indústria de Transformação 2.8 2.6 -0.2
Construção 5.6 6.8 1.2
Serviços Industriais e Utilidade Pública 0.4 0.9 0.5
Comércio Varejista 7.7 5.9 -1.8
Transporte, Armazenagem e Correio 2.8 1.8 -1
Informações e Comunicação exceto Telecomunicações 5 3.2 -1.8
Educação 4.1 2.3 -1.8
Saúde Humana e Serviços Sociais 1.9 1.3 -0.6
Dec-13 Dec-14 Dec-15 Dec-16 Dec-17 Dec-18 Dec-19 Dec-20 Dec-21
Inadimplência PF (livres) 5.7% 5.3% 6.2% 6.1% 5.2% 4.8% 4.5% 4.3% 4.2% Cheque especial 13.5% 13.8% 18.1% 17.4% 16.2% 14.5% 13.3% 12.0% 11.9% Credito pessoal 4.0% 3.8% 4.3% 4.0% 3.6% 3.3% 3.1% 3.0% 2.9% Veículos (CDC) 5.2% 3.9% 4.2% 4.6% 3.8% 3.4% 3.3% 3.2% 3.1% Cartão de Crédito 6.4% 6.6% 8.1% 7.7% 6.2% 5.6% 5.3% 5.0% 4.9% PJ (livres) 3.1% 3.4% 4.5% 5.2% 4.5% 4.1% 3.6% 3.4% 3.3% Bancos Privados 3.9% 3.6% 4.2% 4.4% 3.8% 3.2% 3.1% 2.9% 2.8% Bancos Públicos 1.8% 2.0% 2.7% 3.1% 2.7% 2.8% 2.6% 2.4% 2.3%
Este material foi preparado pelo Banco Santander (Brasil) S.A. e não constitui uma oferta ou solicitação de oferta para aquisição de valores mobiliários. Ele pode conter informações sobre eventos futuros e estas projeções/estimativas estão sujeitas a riscos e incertezas relacionados a fatores fora de nossa capacidade de controlar ou estimar precisamente, tais como condições de mercado, ambiente competitivo, flutuações de moeda e da inflação, mudanças em órgãos reguladores e governamentais e outros fatores que poderão diferir materialmente daqueles projetados. A informação nele contida baseia-se na melhor informação disponível, recolhida a partir de fontes oficiais ou críveis. Não nos responsabilizamos por eventuais omissões ou erros. As opiniões expressas são as nossas opiniões no momento. Reservamo-nos o direito de, a qualquer momento, comprar ou vender valores mobiliários mencionados. Estas projeções e estimativas não devem ser interpretadas como garantia de performance futura. O Banco Santander (Brasil) S.A. não se obriga em publicar qualquer revisão ou atualizar essas projeções e estimativas frente a eventos ou circunstâncias que venham a ocorrer após a data deste documento. Este material é para uso exclusivo de seus receptores e seu conteúdo não pode ser reproduzido, redistribuído, publicado ou copiado de qualquer forma, integral ou parcialmente, sem expressa autorização do Banco Santander (Brasil) S.A..