UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA RAFAELA HAWERROTH
TRIBUNAL DO JÚRI:
A (I)LEGALIDADE DO ABANDONO DE PLENÁRIO
Palhoça 2017
RAFAELA HAWERROTH
TRIBUNAL DO JÚRI:
A (I)LEGALIDADE DO ABANDONO DE PLENÁRIO
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de graduação em Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina como requisito parcial à obtenção do título de bacharel.
Orientador: Prof. Eliana Becker, Esp.
Palhoça 2017
RAFAELA HAWERROTH
TRIBUNAL DO JÚRI:
A (I)LEGALIDADE DO ABANDONO DE PLENÁRIO
Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado à obtenção do título de bacharel em direito e aprovado em sua forma final pelo Curso de Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina.
Palhoça 2017
Dedico o presente trabalho de conclusão de curso a Deus, aos meus pais, meus avós paternos, minha irmã, meu noivo e a todas as pessoas que não mediram esforços para me apoiar durante toda a jornada acadêmica.
AGRADECIMENTOS
Primeiramente agradeço a Deus pelo dom da vida e por me socorrer nos momentos de dificuldade.
Aos meus pais, Cirnei Hawerroth e Nazareno Hawerroth, pelo amor incondicional e pelo apoio e auxílio durante todos os anos de graduação, sei o quanto foi árduo o trabalho de vocês para que eu chegasse até aqui.
Aos meus avós, Bertolina Hawerroth e Raulino Hawerroth, a minha irmã, Débora Hawerroth, e ao meu noivo, João Sorio, por todo o amor, suporte e apoio.
A minha professora, Eliana Becker, pelo zelo dedicação do seu precioso tempo para me orientar na confecção da presente monografia.
Agradeço a todas as pessoas que participaram direta e indiretamente de todos esses anos de estudo e dedicação.
"O sucesso nasce do querer, da determinação e persistência em se chegar a um objetivo. Mesmo não atingindo o alvo, quem busca e vence obstáculos, no mínimo fará coisas admiráveis." (José de Alencar).
RESUMO
O presente trabalho monográfico discorre acerca do tribunal do júri. O objetivo geral do trabalho consubstancia-se na verificação da (i)legalidade do abandono de plenário no tribunal do júri. Para tanto, o método de abordagem utilizado é o dedutivo. Enquadra-se na natureza qualitativa e o procedimento é o monográfico, com técnicas de pesquisa bibliográfica e documental. Os principais conceitos nesse trabalho são: tribunal do júri, origem, princípios, legalidade e abandono de plenário. O tribunal do júri já sofreu inúmeras alterações desde sua criação até a incorporação na constituição vigente. Dentre tantas mudanças advindas com o decorrer do tempo, tem-se deparado atualmente com o surgimento do abandono de plenário, ocasionado pela defesa ou pelo representante do Ministério Público, o que está gerando grandes polêmicas e controvérsias no mundo jurídico. Portanto, foi necessário discutir sobre o tema e verificar a sua legalidade, chegando-se a conclusão de que apenas em hipóteses excepcionalíssimas poderá o plenário do tribunal do júri ser abandonado, desde que presente o motivo imperioso ou a escusa legítima.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 11
2 ASPECTOS HISTÓRICOS DA INSTITUICAO DO JÚRI E SUA CRIAÇÃO NO BRASIL ... 13
2.1 ORIGEM MOSAICA ... 13
2.2 ORIGEM NA GRÉCIA E ROMA ANTIGA ... 15
2.2.1 Origem Grega ... 15
2.2.2 Origem Romana ... 16
2.3 ORIGEM INGLESA ... 18
IMPERIAL DE 1824 ... 19
DE 1891 ... 23
2.5.1 O Tribunal do Júri na Constituição de 1934 ... 23
2.5.2 O Tribunal do Júri na Constituição de 1937 ... 24
2.5.3. O Tribunal do Júri na Constituição de 1946 ... 25
2.5.3 O Tribunal do Júri na Constituição de 1967 ... 26
2.5.4 O Tribunal do Júri na Constituição de 1988 ... 27
3 PRINCÍPIOS GERAIS DO PROCESSO PENAL E ESPECÍFICOS DO TRIBUNAL DO JÚRI ... 28
3.1 PRINCÍPIO DA LEGALIDADE ... 28
3.2 PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO ... 32
3.3 PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE, PROPORCIONALIDADE E SOBERANIA DOS VEREDICTOS ... 34
3.3.1 Princípio da Razoabilidade ... 35
3.3.2 Princípio da Proporcionalidade ... 36
3.3.3 Soberania dos Veredictos ... 37
3.4 SIGILO DAS VOTAÇÕES ... 38
3.5 PLENITUDE DE DEFESA ... 41
4 ABANDONO DO PLENÁRIO NO TRIBUNAL DO JÚRI ... 43
4.1 DIFERENÇA ENTRE RECUSA EM REALIZAR O JULGAMENTO EM PLENÁRIO E SEU ABANDONO ... 43
4.2 ABANDONO DE PLENÁRIO ... 45
4.3 PENALIDADES PARA A DEFESA EM DECORRÊNCIA DO ABADNONO DE PLENÁRIO ... 49
4.4 PENALIDADES PARA O MEMBRO DO MINISTÉRIO PÚBLICO EM
DECORRÊNCIA DO ABADNONO DE PLENÁRIO ... 51
4.5 PENALIDADES PARA A DEFENSORIA PÚBLICA EM DECORRÊNCIA DO ABANDONO DE PLENÁRIO ... 52
4.6 MULTA DO ARTIGO 265, CAPUT, DO CPP. AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE (4398) STF ... 54
4.7 CARACTERIZA DESACATO O ABANDONO DE PLENÁRIO? ... 57
5 CONCLUSÃO ... 60
1 INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem como foco o tribunal do júri, um dos mais antigos órgãos de julgamento do mundo, que mesmo dentre várias alterações ocorridas com o transcurso do tempo perdura até os dias atuais.
A Carta Magna brasileira, outorgada em 1988, introduziu a instituição do júri no seu artigo 5º, inciso XXXVIII, com competência para julgar os crimes dolosos contra a vida, tendo como princípios norteadores: a plenitude de defesa, o sigilo das votações e a soberania dos veredictos.
Com o advento do tribunal do júri na constituição pátria e, diante de suas mudanças com o decorrer do tempo, surge a adoção do abandono de plenário. Apesar de que, nos últimos tempos, tem-se ouvido, e muito, a prática de tal ato, o mesmo ainda gera grandes controvérsias quanto a sua legalidade e aplicação no mundo jurídico. Sua prática deve buscar coibir decisões arbitrárias por parte do poder público, assim como proteger o acusado de possíveis injustiças, que possam afetar, dentre outros, o princípio da plenitude de defesa.
Deste modo, trata-se de tema com grande relevância, pois será verificado as hipóteses (i)legais para o abandono de plenário. Tal assunto está em grande discussão, atualmente visto que mencionada conduta está ocorrendo de forma gradativa nos julgamentos, até mesmo em casos de homicídio que geraram bastante comoção no Brasil.
O pesquisador se motivou pelo presente tema após presenciar um caso em que houve o abandono de plenário por um advogado que atuava em um julgamento no tribunal do júri. A pesquisa colabora tanto com o poder judiciário como com a sociedade em geral, demonstrando quais as hipóteses legais em que poderá o plenário do tribunal do júri ser abandonado, tendo em vista que muitas vezes tal conduta é utilizada como uma estratégia, pois o juiz não tem como prosseguir com o julgamento sem a defesa ou sem o representante do Ministério Público.
Referido comportamento poderá causar muitos prejuízos ao acusado, e desrespeito, entre vários princípios relacionados ao processo penal, ao princípio da duração razoável do processo, já que acarreta na necessidade de designar nova data para a realização do plenário do tribunal do júri.
Além disso, quando se tem o abandono ilegal e aquele que o deu causa não é sancionado a pagar as despesas do julgamento, referida conduta poderá causar prejuízo ao erário público, considerando o custo de uma sessão plenária o qual é pago, através de impostos, por toda uma sociedade.
Nesse contexto, o presente trabalho de conclusão de curso se propõe a discutir acerca da (i)legalidade do abandono de plenário.
Logo, questiona-se: é legal a conduta em que a defesa ou a acusação abandona o plenário do tribunal do júri?
Para a construção da presente monografia tem-se como objetivo geral verificar a legalidade do abandono de plenário promovido pela defesa ou pelo representante do Ministério Público no tribunal do júri.
Como objetivos específicos, este trabalho segmentar-se-á em três capítulos de desenvolvimento acrescidos da introdução e conclusão.
O primeiro capítulo de desenvolvimento tem como foco demonstrar uma síntese histórica do tribunal do júri. E, para que haja um melhor entendimento sobre a instituição, será demonstrado não só a origem, mas um retrospecto desde a sua criação até a incorporação e regulamentação do júri no Brasil, analisando as evoluções em seus aspectos essenciais.
No segundo capítulo de desenvolvimento busca-se, em suma, verificar os princípios basilares pertinentes ao processo penal como um todo, assim como analisar os princípios relativos ao procedimento do tribunal do júri.
O terceiro capítulo de desenvolvimento, por sua vez, tem por objetivo discutir acerca da (i)legalidade do abandono do plenário no tribunal do júri. Inicialmente, será realizada uma diferenciação entre o abandono do plenário e a sua recusa. Posteriormente, será abordado o abandono propriamente dito, assim como as possíveis consequências para quem o abandona (acusação e defesa). Seguidamente, será comentado acerca da polêmica multa do artigo 265, do Código de Processo Penal, e o posicionamento atualmente adotado quanto a sua aplicação nos processos relativos ao tribunal do júri. E, finalmente será debatido a respeito da aplicação do crime de desacato para quem abandona o plenário do tribunal do júri. O método de abordagem utilizado é o dedutivo com natureza qualitativa. Enquadra-se no procedimento monográfico, com técnicas de pesquisa bibliográfica e documental.
O presente trabalho não tem como finalidade exaurir a discussão acerca da temática escolhida, apenas gerar reflexão e incentivo a novas pesquisas sobre esta importante conduta praticada no tribunal do júri.
2 ASPECTOS HISTÓRICOS DA INSTITUICAO DO JÚRI E SUA CRIAÇÃO NO BRASIL
O presente capítulo abordará a origem e criação do tribunal do júri, discutindo acerca do seu surgimento desde a era mosaica, grega e romana, inglesa, até sua incorporação e evolução no Brasil, desde a constituição Imperial de 1824 até a constituição de 1988, vigente até os dias atuais.
2.1 ORIGEM MOSAICA
Alguns autores ousam mencionar que a origem da instituição do júri se deu entre os hebreus, sob as leis de Moisés, alegando que essa é a primeira aparição de um tribunal para julgar os cidadãos.
Segundo entendimento de Rocha:
Não é no tribunal dos heliastas ou nos dikastas, como pretende a corrente dos helenistas, que procuraremos a origem da instituição. As leis de Moysés, ainda que subordinando o magistrado ao sacerdote, foram, na antiguidade oriental, as primeiras que interessaram os cidadãos nos julgamentos dos tribunaes.
Muito antes de, na Grécia, ser chamado o povo para decidir todas as grandes questões judiciárias, em plena praça pública, no exercício da justiça atheniense, antes da constituição d‟esse tribunal, que era composto de cidadãos escolhidos entre os que todos os annos a sorte designava, para julgarem collectivamente ou divididos em dez secções, muito antes da existência desses juízes populares, aos quaes, como requisitos, eram apenas exigidas a idade de trinta annos, reputação ilibada e quitação plena do thesouro público, muito antes do apparecimento d‟esse tribunal dos pares, já o Deuteronômio, o Êxodo, o Levítico e os Números, na formosa e simples linguagem do direito mosaico, fallavam do Tribunal Ordinário, do Conselho dos Anciãos e do Grande Conselho.
Na velha legislação hebraica encontramos nós o fundamento e a origem da instituição do Jury.1
Nesse contexto, Gomes afirma que havia três espécies de tribunais: (1) O Tribunal Ordinário; (2) O pequeno Conselho dos Anciãos; (3) O Grande Conselho d‟Israel. Alega, ainda, que:
O ordinário compunha-se de três membros [...] Era composto por três cidadãos; cada parte escolhendo um e os escolhidos designavam o terceiro. Cabia recurso, da sua
decisão, para o pequeno Conselho dos Anciãos e deste para o grande Conselho d‟ srael 2
Nesse enredo, de acordo com Joseph (apud Rocha):
[...] escolhia-se em cada cidade sete homens de provada virtude, hábeis e sábios de negócios referentes à justiça. As sentenças proferidas por esses magistrados eram executadas, salvo caso provado de se terem deixado corromper por dadivas ou quando fosse manifesta a injustiça do julgado. Se os juízes tinham difficuldade em decidir certas questões, como acontece muitas vezes, deviam, sem dar opinião sobre ellas, leval-as a Jerusalém, onde o pequeno conselho tomava conhecimento do caso, em gráo de appelação e cuja decisão havia recurso para o Conselho Geral.3
Moisés, em suas leis, não definiu o número de membros que deveriam compor o Conselho, apenas mencionava que o julgamento deveria acontecer aos olhos do povo, pelos pares. Quando, em algum caso, havia somente a confissão do acusado, esta não tinha relevância jurídica alguma. Interessante anotar que quando o réu era condenado à morte a lei obrigava as testemunhas a desfechar os primeiros golpes.4
Em alguns aspectos as regras seguidas pelo tribunal mosaico, apesar de criadas na antiguidade, acabam sendo invejadas nos dias atuais, visto que, segundo Gomes, haviam regras estabelecidas para o julgamento, tais como: ampla publicidade nos debates, necessidade de mais de uma testemunha para haver condenação, além de uma certa garantia contra os falsos testemunhos.5
O mesmo é o argumento de Rocha, ao afirmar que:
Conforme a lei, uma só testemunha era nulla; tornavam-se precisas pelo menos duas ou três que tivessem assitido o facto. A testemunha que denunciava um indivíduo era conduzida a presença dos Sacerdotes e dos juízes para jurar diante do Eterno que dizia a verdade.
Então, os juízes tomavam informações exactas e, no caso de falso testemunho provado, o imprudente denunciante soffria a pena que deveria ser applicada a quem denunciava e cuja honra havia exposto ao perigo e humilhação. Os debates entre o accusador e o accusado tinham lugar na presença da assembléia do povo.6
2GOMES, Abelardo da Silva. O Julgamento pelo Júri – em face de sua origem, evolução histórica e da
formação jurídico política da nação brasileira. Florianópolis, 1953.p. 19.
3ROCHA, Pinto da. O Jury e a sua evolução. Rio de Janeiro: Leite Ribeiro e Maurillo, 1919. p. 19. 4ROCHA, Pinto da. O Jury e a sua evolução. Rio de Janeiro: Leite Ribeiro e Maurillo, 1919. p. 19-24. 5GOMES, Abelardo da Silva. O Julgamento pelo Júri – em face de sua origem, evolução histórica e da
formação jurídico política da nação brasileira. p. 18-19.
Assim, pois, os primeiros vestígios de um tribunal do júri se deram na era mosaica e suas regras foram escritas por Moisés, no Pentateuco7, contemplado nos primeiros livros da Bíblia.
2.2 ORIGEM NA GRÉCIA E ROMA ANTIGA
Dentre tantas divergências quanto a origem do tribunal do júri, observa-se que alguns doutrinadores remetem sua criação a Roma e Grécia antiga, que será abordado a seguir.
2.2.1 Origem Grega
Na Grécia, os órgãos julgadores eram divididos basicamente em: elil ia e re pago Sobre o assunto raújo e lmeida explicam que:
[...] Na Atenas clássica, duas instituições judiciárias velam pela restauração da paz social: o Areópago e a Heliéia. Ambas apresentam pontos em comum com o júri. O Areópago, encarregado de julgar os crimes de sangue, era guiado pela prudência de um senso comum jurídico. Seus integrantes, antigos arcontes, seguiam apenas os ditames de sua consciência. A Heliéia, por sua vez, era um tribunal popular, integrado por um número significativo de heliastas (de 201 a 2501), todos cidadãos optimo jure, que também julgavam, após ouvir a defesa do réu, segundo sua íntima convicção. Parecem elementos bastantes para identificar aqui os contornos mínimos, o princípio ao qual a idéia de justiça popular historicamente se remeteria.8
Em continuidade, Gomes alega que, consoante as Leis de Atenas, poderiam compor os julgamentos somente os homens com mais de 30 anos de idade, que não devessem ao Estado e que possuíssem reputação ilibada, argumentando ainda que:
elil ia, era o principal col gio de thenas e era formado por elementos do povo, em número de quinhentos membros, escolhidos por sorte. Reunia-se em praça pública e era presidido pelo archonte, a quem cabia decidir pela declaração de culpa de um cidadão. A Heliléia era formada por tantos dikastérios quantos fôssem necessários para julgar tôdas as causas cíveis e criminais. Dikastas eram os membros
7BRAZ, João. Significado de pentateuco: “ Pentateuco, do grego, "os cinco rolos", composto pelos cinco primeiros livros da íblia , cuja autoria atribuída a Mois s” Disponível em: <https://goo.gl/egafNs >. Acesso em: 12 jul. 2017.
8 , dia de M , icardo tribunal do júri nos estados unidos – sua evolução hist rica e algumas reflex es sobre seu estado atual Revista Brasileira de Ciências Criminais. v. 15. p. 200 – 216, | Jul/Set. 1996. Disponível em: < https://goo.gl/tozbHY>. Acesso em: 12 jul. 2017.
do Dikastério. [...]. Ainda na r cia, existia o re pago, uma esp cie de ribunal alto, composto pelos archontes, ao qual competia o julgamento dos homicídios premeditados e dos sacrilégios.9
No Areópago havia a possibilidade de uma espécie de sigilo nas votações, de modo que, quando os juízes estivessem receosos em relação ao acusado o julgamento se dava no período noturno, de forma que estes não pudessem ver o rosto daqueles.10
As atribuições de julgamento que, em um primeiro momento, pertenciam aos Archontes, foram sofrendo restrições, passando estes a aplicar somente a imposição de multas e a atribuição de julgamento passou a ser exercida pelo povo.11
Feitos estes apontamentos em relação a forma de julgamento dos gregos, passa-se agora a estudar como era exercido o julgamento pelos romanos.
2.2.2 Origem Romana
Alguns doutrinadores defendem a origem do júri na Grécia ou Roma antiga. Contudo, entre tantas divergências quanto a sua criação, Maximiliano (apud NUCCI) afirma que “[...] as origens do instituto, vagas e indefinidas, perdem-se na noite dos tempos [...]”.12
Dissertando sobre a criação do júri romano, Silveira esclarece que:
[...] Em Roma, são três os períodos em que se desenvolveu o processo penal romano: o processo comicial, o acusatório e o da cognitio extra ordinem.No sistema acusatório, com o surgimento das quaestiones perpetuae, é que se visualiza mais nitidamente os traços da instituição do Júri como hoje a conhecemos. Eram os julgamentos dos judices jurati [...]. 13
As questiones perpetuae foram, na Roma antiga, a primeira espécie de jurisdição penal. A quaestio era formada pelos jurados, chamados de iudices iurati, que eram dirigidas pelo pretor, denominado quaesitor. O magistrado, index quaestiones tinha como tarefa “ examinar a acusação preliminarmente; decidir sobre a competência; receber juramento das partes; escolher e convocar jurados; presidir as discussões; e fazer executar a sentença” s
9GOMES, Abelardo da Silva. : em face de sua origem, evolução histórica e da formação jurídico política da nação brasileira. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1981. p. 21.
10ROCHA, Pinto da. O Jury e a sua evolução. Rio de Janeiro: Leite Ribeiro e Maurillo, 1919. p.34. 11ROCHA, Pinto da. O Jury e a sua evolução. Rio de Janeiro: Leite Ribeiro e Maurillo, 1919. p.34.
12NUCCI, Guilherme de Souza. Tribunal do júri. 6. ed. rev., atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2015. n.p. Disponível em: < https://goo.gl/RDdVvW> Acesso em: 13/07/2017.
13SILVEIRA, Amorim. Tribunal do Juri – Origem Histórica. Publicado em 29/04/2011. Disponível em: <http://www.as.adv.br/site/index.php/2011/04/tribunal-do-juri-origem-historica/>. Acesso em: 15/07/2017.
votações, que primeiramente se davam de forma oral, passaram a ser por escrito. Ao final do julgamento haviam placas onde era escrito: “ (absolvo [absolver]), C (condemno condenar ), ou (non liquet sem evidencias ), significa esta uma instrução mais ampla” 14
Destaca-se que foi em Roma que surgiu o voto secreto, instituído pela lei Cassia e pela lei Gallia. Ao contrário do número exorbitante de jurados que havia na Grécia, em Roma houve uma diminuição do número de jurados, passando a ser apenas um pequeno grupo de cidadãos.15 Outra diferença também se dá quanto a capacidade das mulheres, que “[...] somente podiam acusar em caso de ofensa aos seus parentes próximos”.16
Com efeito, ocorre que o júri romano se corrompeu em decorrência da corrupção e das falsas acusações, pois as cédulas com os votos eram abertas de modo que poderiam ser facilmente substituídas por cédulas falsas, ocorrendo, até mesmo, compra de votos.17
Destarte, mesmo havendo casos de corrupção, o povo romano organizou seus julgamentos de modo que até hoje são utilizadas algumas de suas estruturas. Tucci analisa algumas relações entre os julgamentos realizados pelos romanos com aquele adotado pelo Brasil:
a) idêntica forma de recrutamento (cidadãos de notória idoneidade, cujos nomes constam de lista anualmente confeccionada pelo juiz-presidente);
b) mesma denominação dos componentes do órgão judicante popular – jurados; c) formação deste mediante sorteio;
d) recusa de certo número de sorteados, sem necessidade de qualquer motivação; e) juramento dos jurados;
f) método de votação (embora realizada secretamente), com respostas simples e objetivas – sim ou ;
g) decisão tomada por maioria de votos; h) soberania do veredicto;
i) peculiaridades da atuação do juiz-presidente; e
j) at pouco tempo atrás, indispensabilidade de comparecimento do acusado, para realização do julgamento.18
Pode-se perceber uma incrível semelhança entre os julgamentos ocorridos em Roma com os do tribunal do júri da atualidade. Passa-se, agora, a estudar a origem inglesa do tribunal do júri.
14MARTINS, Marta Regina Sachetti. Aspectos históricos acerca da origem e evolução do tribunal do júri.
Revista Jurídica da Unisul. v.5, n.9/10. Jul/jun. 2003/2004. p. 147-148.
15ROCHA, Pinto da. O Jury e a sua evolução. Rio de Janeiro: Leite Ribeiro e Maurillo, 1919. p.34, 36. 16 , og rio auria estudo sobre a mais democrática instituição jurídica brasileira. ão Paulo: Revista dos Tribunais, 1999. p.20.
17ROCHA, Pinto da. O Jury e a sua evolução. Rio de Janeiro: Leite Ribeiro e Maurillo, 1919. p.43, 44. 18 , og rio auria : estudo sobre a mais democr tica instituição jurídica brasileira ão Paulo: Revista dos Tribunais, 1999. p.24.
2.3 ORIGEM INGLESA
Alguns estudiosos apontam que “ instituição, na sua visão moderna, encontra sua origem na Magna arta, da nglaterra, de 1 1 ” 19 Bonfim, em concordância, insinua que:
Aliás, na nglaterra que se pode buscar as origens do Júri moderno, uma vez que a instituição inglesa nasceu de um procedimento antigamente usado na Normandia (parte da França), levado a solo britânico após a tomada da Inglaterra por William, o Conquistador (1 ) ssim, depois que o julgamento das ord lias foi proibido pelo Papa Inocêncio III, em 1215, por ocasião do Concilio de atrão, a nglaterra se orientou no sentido de um então novo modelo de Justiça, estabelecendo para tanto, àquela época, o número de 12 jurados, em alusão aos 12 apóstolos do Evangelho.20
Reforçando o mesmo entendimento, Gilissen argumenta que a norma judiciária se inicia com Henrique II, em sua luta contra as ordálias.21 Denota-se que em meados de 1166 o rei instituiu o wirt, sendo de responsabilidade do sheriff reunir 12 homens da vizinhança para realizarem o julgamento. Com o passar do tempo as questões criminais passaram a ser entregues ao povo e não mais ao funcionário, que funcionava como uma espécie de Ministério Público. Mais tarde, o chamado Grand Jury era responsável por denunciar os crimes mais graves (homicídios, roubos, etc.) aos juízes. O júri de acusações era composto por 23 jurados em cada condado e por 12 jurados cada centena. Os jurados não poderiam decidir com base em provas, mas sim com base naquilo em que se falava sobre o caso, pois cabia aos 12 jurados (Petty jury), escolhido entre os vizinhos, ocupar-se quanto as provas. Lembrando que foi somente nos séculos XV e XVI que o Petty Juri passou a ouvir as testemunhas e julgar o caso somente com as provas colhidas.22
O julgamento se dava pelos pares (no sentido de igualdade entre julgador e réu), de modo que “ Magna arta de 1 1 , promulgada pelo ei oão em erra, consagrava: „Ninguém poderá ser detido, preso ou despojado de seus bens, costumes e liberdades, se não em virtude de julgamento de seus pares, segundo as leis do país‟ ” (grifo nosso).23 Vale
19NUCCI, Guilherme Souza. Manual de processo penal e execução penal. 14. ed.. Rio de Janeiro: Forense, 2017.p.697. Disponível em: < https://goo.gl/p5kUk5>. Acesso em: 16 jul. 2017.
20BONFIM, Edilson Mougenot. Curso de processo penal 11 ed ão Paulo: araiva, 1 p isponível em: < https://goo.gl/JHQL2h>. Acesso em: 19 jul. 2017.
21 rd lios significa “no direito germânico antigo, [...] juízo ou do julgamento de Deus. Era qualquer tipo de prova, da mais variada sorte baseada na crença de que Deus não deixaria de socorrer o inocente [...]”. 22GILISSEN, John. Introdução histórica ao direito. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. p. 214. Disponível em: <https://goo.gl/Ph34M2>. Acesso em: 19 jul. 2017.
23NUNES, Adeildo. Comentários à lei de execução penal. 1. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2016. p.197. Disponível em: < https://goo.gl/6J8fsB>. Acesso em: 21 jul. 2017.
lembrar que na Inglaterra a discussão e o veredictum entre os jurados se dava em sala reservada, longe dos olhos do povo. 24
Após a edição da Magna Carta do Rei João sem Terra, local em que muitos defendem a origem da instituição, o júri expandiu-se, saindo da Inglaterra para a Europa e depois para outros países. Contudo, apesar de afirmar que o júri não nasceu na Inglaterra, Rangel informa que “[...] o júri não nasceu na Inglaterra, mas o júri que hoje conhecemos e temos, no Brasil, é de origem inglesa em decorrência da própria aliança que Portugal sempre teve com a Inglaterra [...]” 25
Após analisar o surgimento da instituição do júri nos mais distintos lugares, passa-se agora a averiguar sua incorporação no ordenamento jurídico brasileiro através da constituição imperial de 1824.
2.4 MP 1824
A constituição Imperial de 1824 foi a primeira constituição brasileira, outorgada pelo imperador D. Pedro I. Tratou-se de uma constituição sem qualquer participação popular, tanto direta quanto por representação. D. Pedro I, instalou no dia 3 de maio de 1823 uma assembleia que, primeiramente, iria compor a constituição. No entanto, a assembleia foi fechada após o imperador perceber que os constituintes estavam tentando limitar seus poderes, chamando, então, 10 homens de sua confiança para redigi-la.26
A constituição representava apenas uma minoria de pessoas brancas e mestiças. Sobre o assunto, Bethell e Murilo de Carvalho esclarecem que:
Na segunda metade de 1823, a oposição ao imperador tanto na Assembleia Constituinte quanto na imprensa tornou-se cada vez mais forte. Finalmente, em 12 de novembro de 1823, a Assembleia foi dissolvida à força e, entre outros, José Bonifácio e seus irmãos mais jovens e mais liberais Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva e Martim Francisco Ribeiro de Andrada, foram presos e banidos para a França. O próprio Dom Pedro criou imediatamente um Conselho de Estado, que rapidamente redigiu uma constituição. [...] os eleitores deviam ter uma
24ROCHA, Pinto da. O Jury e a sua evolução. Rio de Janeiro: Leite Ribeiro e Maurillo, 1919. p.74
25RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 24. ed. rev. e atual. São Paulo: Atlas, 2016. p.603. Disponível em: <https://goo.gl/wXNPPw>. Acesso em: 21 jul. 2017.
26CASTILHO, Ricardo. Direitos humanos ed ão Paulo: araiva, 1 p 1 isponível em: https://goo.gl/YkU2NV> Acesso em: 21 jul. 2017.
renda mínima de 200 mel-réis. O imperador nomeava os juízes do supremo tribunal.27
Posteriormente, ante vários acontecimentos, D. Pedro I optou pela abdicação do trono no Brasil, voltando a ocupar o de Portugal, que estava na posse do seu irmão D. Miguel, deixando no Brasil, seu filho (D. Pedro II), com apenas cinco anos de idade. Diante desses episódios e da pouca idade de D. Pedro II, incapaz de comandar um país, o Brasil passou a ser regido por figuras políticas (período chamado de regência) que tentavam estabelecer uma nova estrutura de leis.28
Sobre a criação do tribunal do júri, realizada antes da independência do Brasil, Nucci argumenta que:
[...] em 18 de junho de 1822, por decreto do Príncipe Regente, instalou-se o Tribunal do Júri no País, atendendo-se ao fenômeno de propagação da instituição corrente em toda a Europa. Era inicialmente um tribunal composto por cidadãos “bons, honrados, inteligentes e patriotas”, prontos a julgar os delitos de abuso da liberdade de imprensa, sendo suas decisões passíveis de revisão somente pelo Regente.29
Dessa forma, o júri foi inserido no Brasil pela primeira vez pelo Decreto de 1822, sendo competente para julgar os crimes de imprensa. Já a constituição de 1824 ampliou sua competência podendo julgar tanto as causas penais quanto as cíveis, ficando os Estados-Membros responsáveis pela legislação penal e assim cada estado decidia quais crimes seriam julgados pelo júri.30
No entanto, apesar de estar contido na constituição de 1824 o primeiro tribunal popular foi instalado somente em 1825, na cidade do Rio de Janeiro. 31
Quanto aos requisitos para ser jurado, Rangel aduz que em 29 de novembro de 1832 passou a vigorar o Código de Processo Criminal do Império, promulgado pela Regência Permanente Trina, estabelecendo que poderiam ser jurados apenas aqueles que eram eleitores.
27BETHELL, Leslie; CARVALHO, José Murilo de. O Brasil da Independência a meados do século
XIX. História da América Latina. Vol III. Da independência a 1870. São Paulo: EDUSP, 2001.p. 700.
Disponível em <https://goo.gl/Y4Nmxu>. Acesso em 14 ago. 2017.
28RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 24. ed. rev. e atual. São Paulo: Atlas, 2016. p.608. Disponível em: < https://goo.gl/XLUo6X>. Acesso em 23 ago. 2017.
29NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de processo penal e execução penal. 14. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2017. p.698. Disponível em: < https://goo.gl/STjRjF>. Acesso em: 16 ago. 2017.
30VASCONCELOS, Clever. Curso de direito constitucional atualizado ed ão Paulo: Saraiva, 2016. p.226. Disponível em: < https://goo.gl/RSHKaH>. 23/07/2017.
31VAINSENCHER, Semira Adler; FARIAS Angela Simões de. úri popular: algumas possibilidades de condenação ou absolvição Revista de informação legislativa, v. 34, n. 133, p. 17-22, jan./mar. 1997, p.17. Disponível em:< http://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/189>. Acesso em: 25 jul. 2017.
Destaca-se que nessa época poderiam ser eleitores apenas aqueles que possuíam uma boa capacidade econômica. 32
O júri era basicamente uma cópia do modelo Inglês (Grande júri e pequeno júri). Pois, de acordo com Almeida Júnior:
O nosso Código de Processo consagrou os dois júris, dando ao grande júri o nome de Júri de acusação e ao pequeno júri o nome de Júri de sentença; entretanto, não seguiu completamente o sistema inglês, isto é, não admitiu que a queixa ou denúncia pudesse ser diretamente apresentada ao Júri de acusação. Os arts. 144 e 145 determinavam, neste ponto, o sistema do nosso Código: – o Juiz de Paz, a quem era apresentada a queixa ou a denúncia, depois de proceder às diligências, inquirições, interrogatório, em suma, aos atos da formação da culpa, pronunciava ou não o indiciado, declarando procedente ou improcedente a queixa ou denúncia.33
Rangel, em sincronia, afirma que “[...] o grande júri exercia o papel que hoje é dado ao juiz togado na decisão interlocutória de pronúncia [...]”. Salienta-se que após “Decidido, pelos 23 jurados, que o réu seria julgado pelo Conselho de Sentença, este, formado por 12 outros jurados, decidiria sobre o mérito da acusação. Tratava-se do, agora, pequeno júri, que decidia debatendo a causa entre si, a sós [...]”.34
A constituição de 1824 possuía ampla competência, podendo julgar tanto causas cíveis quanto criminais. O Código de Processo Criminal de 1832 também possuía uma gama de competências, que passou a ser restringida apenas em 1842, com a entrada em vigor da Lei nº 261.35
Rangel esclarece que:
A decisão da procedência (ou não) da pretensão acusatória não mais pertencia aos jurados (grande júri) e sim às autoridades policiais e aos juízes municipais, sendo que, quando a decisão de pronúncia fosse dada pelos delegados e subdelegados de polícia, ela dependeria de confirmação por parte do juízes municipais. Os delegados, subdelegados e juízes municipais eram nomeados pelo Imperador, sendo que os dois primeiros poderiam ser também pelos Presidentes das Províncias, o que retirava deles a independência para proferir um decisão que desagradasse a Corte. E mais: quem elaborava a lista dos jurados eram os delegados de polícia, que escolhiam os
32RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 24. ed. rev. e atual. – São Paulo: Atlas, 2016. p.609. Disponível em: < https://goo.gl/qhSBpu>. Acesso em: 27 jul. 2017.
33ALMEIDA JUNIOR, João Mendes. O processo criminal brasileiro. 4. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1959. v. I, p. 233-234.
34RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 24. ed. rev. e atual. São Paulo: Atlas, 2016. p.610. Disponível em: < https://goo.gl/a1n3Hd >. Acesso em 29 jul. 2017.
35CAPEZ, Fernando. Curso de processo penal ed ão Paulo: araiva, 1 p isponível em: https://goo.gl/FR8drU>. Acesso em: 05 out. 2017.
cidadãos que podiam ser eleitores, excluindo da lista os que não tivessem bom senso, integridade e bons costumes (arts. 27, 28 e 29 da Lei no 261, de 1841).36
Em continuidade, esclarece que, nesse momento histórico havia a possibilidade de pena de morte, prevista no artigo 66 da Lei 261. No entanto, a Lei 2.033 de 1871, que revogou o artigo 66 da Lei 261, posteriormente o reestabeleceu no artigo 331, do Código de Processo Criminal:
[...] O que significava dizer: as decisões do júri passavam a ser tomadas por duas terças partes de votos; somente para imposição da pena de morte é que era necessária a unanimidade, mas em todo o caso, se houvesse maioria, impor-se-ia a pena imediatamente menor (art. 29, § 1ª). Na dúvida, haveria condenação mesmo que a pena menor.37
De acordo com Vainsencher e Farias: “[...] Em 1850, foram retirados da sua competência vários delitos: moeda falsa, roubo, homicídio nos municípios de fronteira do Império, resistência, tirada de presos e bancarrota[...]”.38 Posteriormente, tais competências foram reinseridas com a reforma processual de 1871.
Após, houve nova alteração pela Lei nº 2.033, de 20/9/1871, regulada pelo Decreto nº 4.824, de 22/11/1871 que aboliu as atribuições dos chefes de polícia, delegados e subdelegados para a formar a culpa e pronunciar os acusados, transferindo tal atribuição para os juízes das comarcas (artigo 4º da Lei no 2.033, de 20/9/1871). O objetivo dessa reforma era separar as funções da polícia das do Poder Judiciário. Com a abolição dos cargos acima mencionados foi criado a estrutura do inquérito policial.39
Nesse ínterim, de acordo com Mendes, Canotilho, Sarlet e Streck: “Com a proclamação da República, o júri ampliado para a esfera federal, por meio do
Decreto nº 848, de 11 de outubro de 1890, passando a ser composto por doze jurados, número que retoma a ideia original inglesa do início do primeiro milênio [...]”.40
36RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 24. ed. São Paulo: Atlas, 2016. p.612. Disponível em: < https://goo.gl/JLTg6n >. Acesso em: 29 jul. 2017.
37RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 24. ed. São Paulo: Atlas, 2016. p.614. Disponível em: < https://goo.gl/eNHKVR>. Grifo do autor. Acesso em: 01 ago. 2017.
38VAINSENCHER, Semira Adler; FARIAS Angela Simões de. Júri popular: algumas possibilidades de condenação ou absolvição. Revista de informação legislativa. 1997. p.17 Disponível em:<
http://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/189>. Acesso em: 25 jul. 2017.
39NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de processo penal e execução penal. 14. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2017. p.102. Disponível em: < https://goo.gl/AEGCeV >. Acesso em: 03 set. 2017.
40MENDES, Gilmar Ferreira et al. ão Paulo: araiva lmedina, 1 p.380. Disponível em: < https://goo.gl/MQAqG7 >. Acesso em: 01 ago. 2017.
Destarte, supracitada constituição foi fundamental para o avanço em relação às competências, separando a competência da polícia e do poder judiciário. Passa-se agora a examinar a instituição do júri na constituição brasileira de 1891.
2.5 1 1
De acordo com Rangel, após a proclamação da república que se deu em 15 de novembro de 1889, como a Inglaterra não apoiava a república, o Brasil passou a se aproximar dos Estados Unidos. O Brasil tinha como objetivo ser uma das maiores potências sul-americana e, diante dos novos ideais, optou por estabelecer uma nova constituição.41
De acordo com Castilho:
Foi a primeira Constituição do período republicano, tendo vigorado por toda a chamada República Velha. Com a Proclamação da República, o Marechal Deodoro da Fonseca, chefe do governo provisório, convocou o Congresso Nacional Constituinte de 1890 para elaborar o documento. Esse congresso foi presidido por Joaquim Saldanha Marinho, e dele participaram, entre outros, Américo Brasiliense, Francisco Rangel Pestana e Ruy Barbosa. A Carta foi promulgada em 24 de fevereiro de 1891.42
Na constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 1891, foi mantida a instituição do júri nos moldes anteriores, prestigiado na Seção II, que tratava das declarações dos direitos. Seu artigo 72 abordava que a “Constituição assegura a brasileiros e a estrangeiros residentes no País a inviolabilidade dos direitos concernentes à liberdade, à segurança individual e à propriedade, nos termos seguintes: §31 – “ mantida a instituição do júri” 43
Sem muitas alterações advindas com a promulgação da constituição de 1891, passa-se a averiguar a inserção do tribunal do júri na constituição de 1934.
2.5.1 O Tribunal do Júri na Constituição de 1934
A constituição de 16 de julho de 1934 também consagrou o tribunal do júri. egundo angel “ onstituição de 1 inspirava-se no modelo alemão de Weimar (cidade
41RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 24. São Paulo: Atlas, 2016. p.614. Disponível em: < https://goo.gl/RBQooh >. Acesso em: 03 ago. 2017.
42CASTILHO, Ricardo. Direitos humanos ed ão Paulo: Saraiva, 2015. p.191. Disponível em: < https://goo.gl/q9efZu >. Acesso em: 03 ago. 2017.
43BRASIL. Constituição da Republica dos Estados Unidos do Brazil de 1891.Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao91.htm>. Acesso em: 06 ago, 2017.
onde a Constituição foi elaborada), ou seja, na República que existiu na Alemanha entre o fim da Primeira Guerra Mundial e a ascensão do nazismo”.44
O artigo 72 continha a seguinte menção: “ mantida a instituição do júri, com a organização e as atribuições que lhe der a lei” 45
Ou seja, restou mantida a instituição do “Tribunal do Júri nos mesmos moldes que a anterior, porém voltou a trat -lo no capítulo destinado ao Poder Judiciário”46, e não mais no capítulo referente aos direitos dos cidadãos, como na constituição de 1891.
Não advindo grandes mudanças com a constituição de 1934, passa-se a estudar a incorporação do júri na constituição de 1937.
2.5.2 O Tribunal do Júri na Constituição de 1937
Em 10 de novembro de 1937, o Brasil sofreu um grande golpe com a instituição do Estado Novo, que dissolveu o Congresso e extinguiu a constituição de 1934. Iniciou-se, então, a elaboração de uma nova constituição, conhecida como Polaca, devido sua inspiração na constituição da ditadura polonesa.47
Nesse ínterim, Rangel reza que:
O júri que, até então, integrava a Constituição brasileira, sofreu com o novo regime que iria instalar no país.
Não demoraria muito e o mundo assistiria a uma ascensão das ideias totalitárias e autoritárias que ganhavam força na Europa: Benito Mussolini, na Itália fascista, em 1922; Josef Stalin, na União Soviética, e Adolph Hitler, na Alemanha nazista, em 1933; além de Portugal ser governado por um regime totalitário e o General Francisco Franco sufocar a democracia na Espanha. Getúlio Vargas sentiu-se autorizado pela ordem mundial e pelas várias crises políticas e econômicas que ocorreram a fazer o mesmo no Brasil, instituindo a ditadura brasileira, em 10 de novembro de 1937. 48
44RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 24. Ed. São Paulo: Atlas, 2016. p.618. Disponível em: < https://goo.gl/K8VEWq >. Acesso em: 06 ago. 2017.
45BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1934. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao34.htm>. Acesso em: 08 ago. 2017.
46VASCONCELOS, Clever. ed ão Paulo: Saraiva, 2016. p.226. Disponível em: < https://goo.gl/NwuRfo>. Acesso em: 08 ago. 2017.
47JÚNIOR FERRAZ, Tércio Sampaio. Constituição Brasileira e Modelo de Estado: Hibridismo Ideológico e Condicionantes Históricas. Revista de Direito Constitucional e Internacional. v. 17. p. 38-49, Out./Dez. 1996. Disponível em:< https://goo.gl/6QvKnF>. Acesso em: 10 ago. 2017.
48RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 24. ed. São Paulo: Atlas, 2016. p.618. Disponível em: < https://goo.gl/9yGPvD>. Acesso em: 10 ago. 2017.
A constituição de 1937 silenciou a respeito do instituto do tribunal do júri e, por tal motivo, o Decreto nº 167, de 5 de janeiro de 1938 passou a regulá-lo, suspendendo a soberania dos veredictos, de modo que, passou a ser permitindo aos tribunais de apelação a reforma do mérito dos julgamentos.49 O artigo 96, do decreto supra, aduzia que o tribunal de apelação poderia aplicar a pena justa, ou até mesmo absorver o réu, caso entendesse, através das provas produzidas, que a decisão dos jurados não encontravam apoio nos autos. Previa, também, em seu artigo 7º que “Os jurados devem ser escolhidos dentre os cidadãos que, por suas condições, ofereçam garantias de firmeza, probidade e inteligência no desempenho da função”. Salienta-se que cabia aos jurados tanto a pronúncia quanto o julgamento (artigo 3º).50
Segundo Mendes e Branco com a edição do Decreto nº 167 cabia a instituição do júri julgar “[...] os crimes de homicídio, infanticídio, induzimento ou auxílio ao suicídio, duelo com resultado morte ou lesão corporal seguida de morte, roubo seguido de morte e sua forma tentada” 51
Nesse período histórico que foi criado o Código Penal vigente, pelo decreto-lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940, durante a ditadura, na era Vargas.52
Cabe destacar que foi justamente nessa época de abolição da soberania dos veredictos que ocorreu no Brasil o caso dos Irmãos Naves, conhecido nacionalmente devido o erro judiciário imensurável.53
Destarte, mencionada constituição sofreu um grande golpe, primeiramente por não consagrar a instituição do júri e, posteriormente, porque o decreto que passou a regulá-lo nada mencionou acerca da soberania dos veredictos, permitindo que os tribunais superiores reformassem o mérito do julgamento.
2.5.3. O Tribunal do Júri na Constituição de 1946
49FLEURY, Aldrovando. Foi Mantido o Tribunal do Júri? Doutrinas Essenciais Processo Penal. v. 4. p. 69 – 71. Jun / 2012. Disponível em:<https://goo.gl/V7HLbG>. Acesso em: 12/08/2017.
50BRASIL. Decreto-Lei nº 167, de 5 de janeiro de 1938. Regula a instituição do Juri. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/1937-1946/Del0167.htm>. Acesso em: 12 ago. 2017. 51MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de direito constitucional 11 ed ão Paulo: araiva, 1 ( rie P) p isponível em: https: goo gl n z 1v cesso em: 12 ago. 2017. 52BITTENCOURT, Matheus Boni. Revista Simbiótica. Universidade Federal do Espírito Santo. Núcleo de Estudos e Pesquisas Indiciárias. Departamento de Ciências Sociais. ES. Brasil. v.2, n.2, dez., 2015 p.134. Disponível em: < https://goo.gl/ZeoVra>.Acesso em: 13 ago. 2017.
53GILABERTE, Bruno. Blog do prof. Bruno Gilaberte. 2009. Disponível em: <https://goo.gl/a2tHqq >. Acesso em: 15 ago. 2017.
A constituição de 1946 trouxe de volta ao seu texto o tribunal popular, reinserindo-o no capítulo referente aos direitos e garantias individuais e ressuscitou a soberania dos veredictos, revogando, portanto, os artigos que permitiam ao tribunal superior reformar a decisão dos jurados. O parágrafo 28, do artigo 141, expõe:
§ 28 - É mantida a instituição do júri, com a organização que lhe der a lei, contanto que seja sempre ímpar o número dos seus membros e garantido o sigilo das votações, a plenitude da defesa do réu e a soberania dos veredictos. Será obrigatoriamente da sua competência o julgamento dos crimes dolosos contra a vida. 54
Percebe-se que a constituição de 1946 voltou a regular o tribunal do júri, atribuindo-lhe competência em razão da matéria, de crimes dolosos contra a vida, além de reestabelecer a soberania dos veredictos.
2.5.3 O Tribunal do Júri na Constituição de 1967
Após o golpe militar ocorrido em 1964, a constituição de 24 de janeiro de 1967 optou por manter a instituição do júri, e consagra-lo em seu artigo 150, § 18, que assim mencionava: “São mantidas a instituição e a soberania do júri, que terá competência no julgamento dos crimes dolosos contra a vida”.55
Entretanto, a instituição do júri sofreu um grande abalo com as alterações advindas com a Emenda Constitucional nº 1º, de 17 de outubro de 1969, que aduzia em seu artigo 153, § 18 que “ mantida a instituição do Júri, que ter competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida”, olvidando a soberania dos veredictos.56
Destarte, apesar da omissão em relação à soberania dos veredictos, entendeu-se pela manutenção dessa qualidade nas decisões tomadas no tribunal do júri.57
Dentre tantas mudanças advindas com tal emenda, a mesma passou a ser intitulada por alguns autores, entre eles Silva, como uma nova constituição.58
54BRASIL. Constituição dos Estados Unidos do Brasil de 1946. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao46.htm>. Acesso em: 15/08/2017.
55BRASIL. Constituição do Brasil de 1967. Disponível em: < https://goo.gl/Be70Ry>. Acesso em: 15 2017. 56RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 25. ed. São Paulo: Atlas, 2017. p.628. Disponível em: < https://goo.gl/B8pm7X>. Acesso em: 29 out. 2017.
57GRECO FILHO, Vicente. Manual de processo penal. 11. ed. ão Paulo: araiva, 1 isponível em: https://goo.gl/ZRz1Up>. Acesso em: 16 ago. 2017.
58SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 25. ed. 2005. Malheiros, 2005, p. 87. Disponível em: < https://goo.gl/9UsXWw >. Acesso em: 16 ago. 2017.
Confeccionadas as informações supracitadas, passa-se agora a averiguar a instituição do júri contida na constituição de 1988, vigente até os dias atuais.
2.5.4 O Tribunal do Júri na Constituição de 1988
Com o fim da ditadura militar o Brasil supera o estado crítico que estava passando. A Constituição da República Federativa do Brasil foi promulgada em 5 de outubro de 1988, na era de Sarney.59 O júri, inserido no Título I, referente aos Direitos Fundamentais, preceitua em seu artigo 5º que:
XXXVIII - e reconhecida a instituição do júri, com a organização que lhe der a lei,
assegurados:
a) a plenitude de defesa; b) o sigilo das votações; c) a soberania dos veredictos;
d) a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida;60
Salienta-se que a constituição consagrou o tribunal do júri como um dos direitos de garantias individuais e, por consequência, o mesmo encontra-se dentro das chamadas cláusulas pétreas (artigo 60, § 4º, inciso IV). Exigindo, deste modo, que sejam respeitados os seus princípios basilares (plenitude da defesa, sigilo das votações, soberania dos veredictos e a competência mínima para julgamento dos crimes dolosos contra a vida).61 Aliás, o tribunal do júri “[...]Nos dias de hoje, significa a democratização do julgamento, submetendo-se o réu ao julgamento de seus concidadãos, de seus pares, de seus iguais”.62
Após a breve abordagem acerca da origem e desenvolvimento histórico do tribunal do júri, passa-se a examinar alguns princípios utilizados no processo penal, bem como aqueles relativos ao procedimento do júri.
59SOUZA, Paulo Rogerio Areias de. O início do processo de redemocratização do Brasil após a Ditadura Militar: o nascimento de uma nova geração de direitos, vinte anos de Constituição Cidadã. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XII, n. 64, maio 2009. Disponível em:
<http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=6239>. Acesso em: 16 ago. 2017. 60BRASIL. Constituição da República federativa do Brasil de 1988. Disponível em: <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 16 ago. 2017. 61 LOPES JUNIOR, Aury. Direito processual penal 1 ed ão Paulo: araiva, 1 p isponível em: https://goo.gl/RKx6FX>. Acesso em: 16 ago. 2017.
62MACHADO, Costa. FERRAZ, Anna Candida da Cunha. Constituição Federal interpretada: artigo por artigo, parágrafo por parágrafo. Costa Machado (Org.) e Anna Candida da Cunha Ferraz (Coord.). 7. ed. Barueri, SP: Manole, 2016.p.31 Disponível em: https://goo.gl/eYgVd2. Acesso em: 16 ago. 2017
3 PRINCÍPIOS GERAIS DO PROCESSO PENAL E ESPECÍFICOS DO TRIBUNAL DO JÚRI
O presente capítulo abordará os mais relevantes princípios inerentes ao processo penal e os princípios basilares relativos ao tribunal do júri.
3.1 PRINCÍPIO DA LEGALIDADE
Primeiramente, importante distinguir princípios e normas jurídicas. Uma das melhores distinções se dá quanto ao grau de abstração e generalidade. Pois, segundo Moraes, mencionando Guerra Filho, os princípios são normas mais genéricas e, por consequência, seu grau de abstração é muito maior em relação às normas jurídicas.63 Quanto aos princípios constitucionais, Lima enfatiza que:
[...] Os princípios compõem os alicerces desse sistema, sendo os seus núcleos fundamentais, uma vez que sustentam toda construção normativa do ordenamento jurídico, servindo-lhe de diretriz Por isso que se fala do caráter de fundamentalidade dos princípios, tanto por conta da sua importância estruturante no sistema jurídico, como por seu papel fundamental no ordenamento, dada a sua posição hierárquica (princípios constitucionais).64
Deste modo, pode-se afirmar que é na constituição que encontra-se os comandos, alicerces e princípios norteadores do Direito Penal.
Em relação ao princípio da legalidade, o mesmo está inserido no artigo 1º, do Código Penal, preceituando que “Não h crime sem lei anterior que o defina Não h pena sem pr via cominação legal (nullum crimen, nulla poena sine lege praevia)”. Por também possuir base constitucional (artigo 5º, XXXIX) o princípio da legalidade não é passível de modificações, pois consagrado como cláusula pétrea.65 Mencionado dispositivo estabelece que: “[...] ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”. 66
63MORAES, Guilherme Peña de. Curso de direito constitucional. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2016. p.122 Disponível em: https://goo.gl/ssQL2q. Acesso em: 17 ago. 2016.
64LIMA, Alberto Jorge C. de Barros. Direito penal constitucional: a imposição dos princípios constitucionais penais. ão Paulo: Saraiva, 2012 p.52,53. Disponível em: < https://goo.gl/rKNzu7 >. Acesso em: 17 ago. 2016. 65GONÇALVES, Victor Eduardo Rios. Curso de direito penal: parte geral. v 1 ão Paulo: Saraiva, 2015. p.60. Disponível em: < https://goo.gl/4yFF2n >. Acesso em: 17 ago. 2017.
66BRASIL. Constituição da República federativa do Brasil de 1988. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 16 ago. 2017.
Sobre a origem de tal princípio há grande controvérsia entre os doutrinadores, no entanto, o jurista Bitencourt esclarece que: “[...] euerbach, no início do s culo , consagrou o princípio da reserva legal por meio da f rmula latina nullum crimen, nulla poena
sine lege[...]”. 67
Para Vasconcelos tal princípio é “[...] basilar do Estado Democrático de Direito e tem o fito de combater a arbitrariedade estatal.”. De modo que, para que haja legalidade não basta unicamente da existência de uma simples norma, mas sim de uma lei, proveniente do Poder Legislativo.68 É mediante o princípio da legalidade, bem como de outras ordens constitucionais que se confere titularidade penal exclusiva ao Ministério Público e, em algumas hipóteses excepcionais, ao ofendido. Havendo lei penal é necessário que se aplique a sanção, independente de quem seja o autor do tipo penal. Notável, todavia, que mesmo havendo o tipo penal, antes de qualquer condenação é necessário que seja respeitado o devido processo legal, formalizado através de um processo, observando-se todos os demais princípios inerentes à uma ação penal.69
Nessa mesma perspectiva, Bitencourt afirma que:
Ao mesmo tempo em que o Estado determina ao indivíduo que se abstenha da prática de ações delituosas, assegura-lhe também que s poder puni-lo se violar aquela determinação, dando origem ao ius puniendi. Isso representa a consagração do princípio nullum crimen, nulla poena sine praevia lege. No entanto, violada a proibição legal, a sanção correspondente s poder ser imposta por meio do devido processo legal, que a autolimitação que o próprio Estado se impõe para exercer o ius persequendi, isto , o direito subjetivo de promover a “persecução” do autor do crime.70
mesmo o entendimento de ucci ao afirmar que: “O Direito Penal, formador do corpo de leis voltado à fixação dos limites do poder punitivo estatal, somente se realiza, no Estado Democrático de Direito, por meio de regras previamente estabelecidas, com o fim de cercear os eventuais abusos cometidos pelo Estado [...]”.71
67BITENCOURT, Cezar Roberto. . 9. ed ão Paulo: araiva, 1 p.109. Disponível em: < https://goo.gl/1w31Lj>. Acesso em: 17 ago. 2017.
68VASCONCELOS, Clever. Curso de direito constitucional . ed ão Paulo: Saraiva, 2016.p.182. Disponível em: < https://goo.gl/PQP3zR>. Acesso em: 20 ago. 2017.
69NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de processo penal e execução penal. 14. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2017. p.54. Disponível em: < https://goo.gl/zqfVfw>. Acesso em: 20 ago. 2017.
70BITENCOURT, Cezar Roberto. ed ão Paulo: araiva, 1 p.388. Disponível em: < https://goo.gl/Zey9wL>. Acesso em: 20 ago. 2017.
71 NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de processo penal e execução penal. 14. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2017. p.27. Disponível em: < https://goo.gl/nmdTRW>. Acesso em: 22 ago. 2017.
Segundo alguns autores como Campos, Theodoro, Bechara e Estefam, o princípio da legalidade possui dois aspectos, o político e o jurídico:
a) Aspecto político: pode-se somente punir fatos posteriores a vigência da lei, sendo incabível a punição de condutas anteriormente consideradas lícitas. b) Aspecto jurídico: deve a lei estabelecer previamente a conduta passível de
sanção penal, bem como o alcance das normas punitivas. 72 Em harmonia, Vastos e Martins assinalam que:
No fundo, portanto, o princípio da legalidade mais se aproxima de uma garantia constitucional do que de um direito individual, já que ele não tutela, especificamente, um bem da vida, mas assegura, ao particular a prerrogativa de repelir as injunções que lhe sejam impostas por uma outra via que não seja a da lei.73
A polícia, uma executora da lei e “[...] em respeito à autoridade que lhe foi outorgada pela sociedade, que exterioriza o princípio da legalidade, deve motivar o ato de indiciar o autor do fato nesse ou naquele tipo penal [...]”.74
Para alguns autores, como Delmanto, o princípio da legalidade se subdivide em: “[...] a) nullum crimen, nulla poena sine lege scripta; b) nullum crimen, nulla poena sine
praevia lege; c) nullum crimen, nulla poena sine lege certa; e d) nullum crimen, nulla poena sine lege stricta [...]”. Explicando que:
a) “nullum crimen, nulla poena sine lege scripta (legalidade)”:
“ ão há crime nem pena sem lei escrita ”. Somente a lei pode determinar o que é crime e indicar qual a respectiva pena. Pode ser punido somente as condutas previamente descritas em lei, com base no direito positivo (ius
positum), múnus de lei federal e do Congresso Nacional. Há exceções em
relação aos costumes, quando estes forem a favor da liberdade do acusado, no entanto, tal conteúdo será abordado posteriormente.
72 FRANCO DE CAMPOS, Pedro. et al. Direito penal aplicado: parte geral e parte especial do digo Penal ed ão Paulo: araiva, 1 p 11 isponível em: https://goo.gl/QEJKkJ>. Acesso em: 22 ago. 2017. 73BASTOS, Celso Ribeiro; MARTINS, Ives Gandra. Comentários à Constituição do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. Vol. 2. São Paulo: Saraiva, 1988-1989. p.23.
74RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 24. ed. São Paulo: Atlas, 2016. p.134. Disponível em: < https://goo.gl/DYtcvp>. Acesso em: 22 ago. 2017.
b) “nullum crimen, nulla poena sine praevia lege (anterioridade e irretroatividade)":
Não há crime sem lei anterior que o defina. Para que um fato seja considerado crime é essencial que antes de praticar o ato haja uma lei, definindo-o como crime e mencionando a respectiva pena. Vale lembrar que as leis não retroagem, salvo para beneficiar o agente.
c) “Nullum crimen, nulla poena sine lege certa (taxatividade)”:
“ Não há crime nem pena sem lei certa ”. A lei não pode ser vaga, devendo delimitar exatamente as condutas passíveis de sanção, seus tipos penais devem ser precisos, ou seja, taxativos, característica de sua função garantista.
d) “Nullum crimen, nulla poena sine lege stricta (lei estrita)”:
Não há crime nem pena sem lei estrita. No direito penal é vedado a utilização de analogia in malam partem, podendo empregada apenas in bonam partem, isto é, para beneficiar o réu. 75
Apesar de que, em matéria penal a fonte utilizada seja a lei escrita, o direito positivo, excluindo a possibilidade de utilização de costumes como fonte normativa que estabeleça delitos e penas, deve-se ressaltar que há uma relativização, no direito penal, quanto ao assunto, visto que os costumes e os princípios gerais do direito podem ser utilizados no mundo jurídico, de forma excepcional, em favor do acusado (in bonam partem), podendo ser empregados através das causas de justificação ou integrando o conteúdo dos elementos valorativos do tipo, sendo que, jamais poderá ser utilizado em prejuízo do réu, na edição de normas incriminados.76
Nesse ínterim, Moraes relata que:
O princípio da legalidade, em conformidade com os arts. 5º, inc. II, e 37, caput, da CRFB, consiste na subordinação ou sujeição das pessoas, órgãos e entidades aos preceitos emanados do Poder Legislativo. Por um lado, o conteúdo do princípio da legalidade, no regime jurídico de ireito Privado, influenciado pela “doutrina do
75DELMANTO, Celso et al. Código Penal comentado. 9. ed. rev., atual. e ampl ão Paulo: araiva, 1 . Disponível em: < https://goo.gl/L4CHEH>. Acesso em: 22 ago. 2017.
76BUSATO, Paulo César. Direito penal: parte geral. Vol. 1. São Paulo: Atlas, 2017. p.39. Disponível em: < https://goo.gl/nM7d9V>. Acesso em: 22 ago. 2017.
comprometimento negativo” (negative Binding), isto é, a legalidade decorre da inexistência de proibição em regra jurídica, de forma que os administrados podem fazer tudo aquilo que não é proibido, posto que a relação entre regra jurídica e administrados não é de contradição. Por outro lado, o conteúdo do princípio da legalidade, no regime jurídico do ireito Público, informado pela “doutrina do comprometimento positivo” (positive Binding), ou seja, a legalidade deflui da existência de permissão em regra jurídica, de modo que a administração pode fazer tudo aquilo que é permitido, vez que a relação entre regra jurídica e administração também é de subsunção.77
Mister que, o Direito Penal visa detalhar e precisar as normas jurídicas, não se tratando de um ramo do direito que objetiva a punição do indivíduo, bem pelo contrário, trata-se de um instrumento que visa o Estado Democrático de Direito, objetivando o bem-estar da sociedade, bem como daquele que sofreu a sanção pena.78
Ultimando, em um estado democrático, o princípio da legalidade é de suma importância para todos os ramos do direito. No entanto, é basilar no processo penal, especialmente no procedimento do júri.
3.2 PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO
O princípio do contraditório está inserido na Carta Magna, que emprega, em seu artigo 5º, V que: “ os litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”.79 Outrossim, além da constituição, o prestigiado princípio do contraditório está contido na Convenção Americana sobre os Direitos Humanos (Pacto de San José da Costa Rica), que aduz, em seu artigo 8º, sobre as garantias judiciais: “Toda pessoa tem direito a ser ouvida, com as devidas garantias e dentro de um prazo razoável, por um juiz ou tribunal” 80
Para que seja consagrado o princípio do contraditório, toda alegação fática ou de apresentação de prova realizada no processo, por qualquer das partes, para que haja um equilíbrio processual, deverá ter seu adversário o direito de se manifestar. Além de ser a oportunidade de o réu rebater as alegações feitas pelo representante do Ministério Púbico, ou
77MORAES, Guilherme Peña de. Curso de direito constitucional. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2016. p.122. Disponível em: < https://goo.gl/pbEKvG >. Acesso em: 25 ago. 2016.
78NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de processo penal e execução penal. 14. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2017. p.27. Disponível em: < https://goo.gl/CkbwNQ>. Acesso em: 25 ago. 2017.
79BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: <
htp://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 25 ago. 2017. 80 GIACOMOLLI, Nereu José. O devido processo penal: abordagem conforme a Constituição Federal e o Pacto de São José da Costa Rica. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2016. p.420. Disponível em < https://goo.gl/K5hfdG>. Acesso em: 28 ago. 2017.
por seu substituto processual, ilustre princípio deve ser respeitado tanto pelo acusador quanto pela defesa.81
O contraditório expressa que as partes devem participar, efetivamente, de todos os atos do processo, de forma que influenciem na formação da convicção do juiz. O mero comunicado dos atos processuais, chamado de contraditório formal, não simboliza o princípio. Assim, o juiz deve ouvir as partes, dar o direito de se manifestarem antes de proferir cada decisão, de modo que, é por meio do juiz, oferecendo as partes possibilidade de argumentação que se obtém elementos necessários para a formação da sua convicção, alcançando, deste modo, o contraditório material. Nesse contexto, Bonfim menciona que “O contraditório, na j clássica definição de anuto Mendes de lmeida, „a ciência bilateral dos atos e termos processuais e possibilidade de contrari -los‟ ”.82
Na mesma perspectiva, Fernandes expressa que:
No processo penal é necessário que a informação e a possibilidade de reação permitam um contraditório pleno e efetivo. Pleno porque se exige a observância do contraditório durante todo o desenrolar da causa, até seu encerramento. Efetivo porque não é suficiente dar à parte a possibilidade formal de se pronunciar sobre os atos da parte contrária, sendo imprescindível proporcionar-lhe os meios para que tenha condições reais de contrariá-los.83
Importante mencionar que pode haver uma mitigação do princípio, que só acontece em casos excepcionais como, por exemplo, no caso de medidas urgentes, como a decretação de prisão preventiva, medidas assecuratórias e etc. 84
O contraditório também não é visto de forma clara na fase do Inquérito Policial (fase inquisitorial, também chamada atualmente de fase investigativa), tendo em vista que não se trata de uma acusação, mas sim de mera investigação e acordo com Pacelli “É que, em tais situações, o contraditório é diferido, ou seja, é adiado – da fase de investigação para a fase de instrução [...]”.85 Entretanto, a Súmula Vinculante número 14 do STF determina que: “ direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo aos elementos de prova
81NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de processo penal e execução penal. 14. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2017. p.37. Disponível em: < https://goo.gl/ugiVF9>. Acesso em: 28 ago. 2017.
82BONFIM, Edilson Mougenot Curso de processo penal 11 ed ão Paulo: araiva, 1 p.93. Disponível em:< https://goo.gl/f11GqV>. Acesso em: 28 ago. 2017.
83FERNANDES, Antonio Scarance. Processo penal constitucional. 5. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007. p. 63.
84BONFIM, Edilson Mougenot Curso de processo penal 11 ed ão Paulo: araiva, 1 p isponível em:< https://goo.gl/RhCjDT >. Acesso em: 30 ago. 2017.
85PACELLI, Eugênio; FISHER, Douglas. Comentários ao Código de Processo Penal e sua jurisprudência. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2016. p.327. Disponível em: <https://goo.gl/ziYr2J>. Acesso em: 30 ago. 2017.