Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em História Contemporânea, realizada sob a orientação
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Agradecimentos
Em primeiro lugar devo o meu agradecimento ao Professor Doutor Fernando Rosas pela disponibilidade manifestada em aceitar orientar o meu trabalho, pela indicação de alguma bibliografia relevante para o tema em estudo, pelos profícuos comentários, sugestões e esclarecimentos, pela revisão científica do texto e pela prontidão em colaborar sempre que necessitei.
Agradeço também a ajuda e disponibilidade do Professor Doutor Luís Farinha, as suas valiosas indicações em muito enriqueceram o trabalho.
Estou igualmente muito grata ao Doutor Sérgio Ribeiro pela partilha da sua sabedoria e pelo apoio manifestado a esta causa, que creio ser também um pouco sua.
Expresso também a minha gratidão a Artur Pinto e a Carlos Brito pelos testemunhos e vivências partilhadas, pois a História faz-se de protagonistas e sem eles ficaria certamente empobrecida.
Ao Dr. Paulo Adriano agradeço a disponibilidade e prontidão em contribuir de uma forma tão generosa para este trabalho.
À Dr.ª Susana Martins que, não me conhecendo, deu preciosas indicações sobre os locais de arquivo que devia seguir.
Pela atenção e simpatia quero também deixar o meu agradecimento a todos aqueles que me acolheram nos vários arquivos por onde trabalhei.
Aos meus amigos, sobretudo à Ana Rita, à Carla e ao Bruno, agradeço o apoio e força em todos os momentos. Ao David Fialho agradeço o profissionalismo e carinho.
À minha mãe a minha reconhecida gratidão pelo apoio e encorajamento constante. À minha irmã um agradecimento especial pelas críticas e sugestões, pelo apoio incondicional e amizade de sempre.
Ao Nelson, meu marido, à Catarina, à Alice e ao Simão, meus filhos, um pedido de desculpa pela ausência quando a dedicação ao trabalho exigiu mais do meu tempo e um reconhecimento especial pelo carinho, pela compreensão inestimáveis, pelo apoio e força, que ajudaram a atenuar momentos de maior impaciência e dificuldade.
Acima de tudo, um agradecimento especial ao meu pai, que mesmo não estando entre nós, sempre me ensinou a nunca desistir
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[RESUMO]
Aljube: uma cadeia política
PALAVRAS-CHAVE: Aljube, cadeia, Estado Novo, prisão política
O edifício do Aljube de Lisboa está ligado, pelo menos desde a presença muçulmana em Portugal e até aos anos 70 do século XX, à história de uma prisão, muito embora o tempo lhe tenha atribuído características diferentes.
No período medieval foi prisão para os delinquentes em matéria eclesiástica, vertente que se prolongou até à implantação do liberalismo no século XIX, altura em que se extinguiu o foro eclesiástico e todos os cidadãos passaram a ter uma justiça comum.
Entre os finais do século XIX e inícios do século XX, o edifício do Aljube serviu de prisão de mulheres. Contudo a sua história é sobretudo marcante no período em foco neste trabalho, ou seja, entre 1928 e 1965. Nesta época, o Aljube de Lisboa serviu inteiramente os interesses do poder instituído, albergando todos aqueles que eram suspeitos de atentar contra a segurança do Estado, pondo em causa a ordem pública, fundamental e estruturante para a sociedade saudável que se pretendia criar.
Embora tenha sido uma, entre outras prisões políticas criadas em Portugal, o Aljube assume uma especificidade particular no panorama repressivo, sobretudo a partir dos anos 40. Desde esta altura e até à data do seu encerramento em 1965, o Estado Novo usava o Aljube como cadeia para encarcerar os presos políticos na fase instrutória dos processos, pois nela existia um conjunto de celas individuais, num total de treze, que muito embora não correspondessem às exigências regulamentares exigidas, permitiam o isolamento dos presos. Era nos chamados curros que os presos permaneciam em regime de incomunicabilidade até ao término das investigações da polícia política, que depois os encaminhava para as outras prisões existentes quer em Portugal (Peniche, Caxias, Angra do Heroísmo), quer para os territórios coloniais portugueses (Cabo Verde, Timor, Angola…).
O Aljube ficou assim marcadamente presente na memória de todos aqueles que lá passaram. Se a prisão já por si era uma pena por excelência, a incerteza do tempo que iriam permanecer na cadeia, uma vez que a polícia política tinha autonomia e autoridade para
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prorrogar esse tempo para além da pena a que eram condenados; a inércia (quase total) que o isolamento lhes trazia e a certeza que as idas à sede da polícia política, na Rua António Maria Cardoso, ali tão próxima, eram sinónimo (quase sempre) de mais torturas, faziam da passagem pela cadeia do Aljube um local non grato.
Contudo e apesar de todas as arbitrariedades e iniquidades de que foram alvo, a história do Aljube também se fez de resistentes, homens que não vergaram aos interesses do Estado, mas que lutaram em nome de uma liberdade e justiça que almejaram ver instituídas no país que lhes conferia a nacionalidade.
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[ABSTRACT]
Aljube: a political prison
KEYWORDS: Aljube, prison, New State, political prison
Aljube building in Lisbon is connected, at least since the Muslim presence in Portugal until the 70´s of the 20th century, to the history of a prison, although time has
given it different characteristics.
In the medieval period it was used as a prison for ecclesiastical offenders, at least until the implantation of liberalism in the 19th century, when the ecclesiastical forum was
extinguished and all citizens stated to have a common justice.
Between the late nineteenth and early twentieth century, the building served as a women's prison. But its history is particularly important during the period which is the focus of this work, between 1928 and 1965. At this time, the Lisbon Aljube served fully the interests of the established power, imprisoning all of those who were suspect of harming state security, undermining public order, considered fundamental and structuring for the healthy society that was intended to be created.
Although it was only one, among other political prisons created in Portugal, Aljube assumes a particular specificity in repression, especially since the 40s. From this time until the date of its closure in 1965, the New State used the Aljube prison to incarcerate political prisoners during the instruction processes because it had a set of 13 individual cells, which, even though they didn’t correspond to the necessary regulatory requirements, allowed the isolation of prisoners. It was in the so called curros that prisoners remained incommunicable until the end of the investigations of the political police, who later directed them to other existing prisons in Portugal (Peniche, Caxias, Angra do Heroísmo) or for the Portuguese colonial prisons (Cape Verde, East Timor, Angola ...).
The Aljube became markedly present in the memory of all those who went there. If being arrested was a sentence by itself, the uncertainty of the time that a prisoner would remain in jail, since the political police had the autonomy and authority to extend the
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sentences time beyond the condemnation period; the inertia (almost total) that the isolation brought to them and knowing that visits to the headquarters of the political police, in António Maria Cardoso street, were synonymous (almost always) of more torture, made the passage in Aljube prison an unpleasant period.
However, and despite all the outrages and inequities that prisoners were subject to, the history of Aljube is also made of brave men who have not submitted to the interests of the regime, which strived in the name of freedom and justice that they aspired for Portugal.
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Índice
Agradecimentos ... ..v
Resumo ... ..vii
Abstract ... .. ix
Lista de abreviaturas ... ..xiii
Introdução ... ..1
Capítulo I: ... 3
I. Objeto da tese... 3
II. Âmbito cronológico ... 6
III. Estado da questão ... 7
IV. Caminhos trilhados ... 8
Capítulo II: «Nada contra a Nação. Tudo pela Nação» Contextualização histórica ...11
Capítulo III: ...37
História patrimonial ...37
Capítulo IV: «Aljube, a história de uma prisão ...49
I. Os Interrogatórios ...52
II. Curros ...60
III. Outras salas ...72
IV. Quotidiano na prisão . ...74
V. Tratamento diferenciado dos presos ...78
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V. ii – Diferenciação entre os presos políticos ...81
VI. Fugas da cadeia ...84
VI. i – 4 de abril de 1932 ...85
VI. ii – 23 de maio de 1938 ...86
VI. iii – 16 de maio de 1948 ...87
VI. iv – 27 de abril de 1955 (tentativa gorada) ...89
VI. V – 25 para 26 de maio de 1957 ...91
Conclusão ...95
Lista de figuras ...97
Bibliografia ...99
xiii
Lista de abreviaturas
CIA Central Intelligence Agency DGS Direção Geral de Segurança
DGSP Direção Geral dos Serviços Prisionais FCSH Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
GNR Guarda Nacional Republicana
IHRU Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana
PCP Partido Comunista Português
PIDE Polícia Internacional de Defesa do Estado PSP Polícia de Segurança Pública
PVDE Polícia de Vigilância e Defesa do Estado
SIPA Sistema de Informação para o Património Arquitetónico SPN Secretariado de Propaganda Nacional
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Introdução
A partir do golpe militar de 28 de maio de 1926, que instituiu em Portugal um regime Ditatorial e até ao término do Estado Novo (1933/1974), assistiu-se ao encarceramento de vários cidadãos que, segundo o poder vigente, colocavam em perigo a desejada segurança do Estado.
Com o recurso à prisão pretendia-se prevenir «novos delitos» e acima de tudo, intimidar a população pelo exemplo. Era a política do terror do exemplo que ditava a agenda diária do regime. Se este objetivo foi de algum modo conseguido, a esperança de «reformar os comportamentos subversivos» dos presos, durante o período de tempo em causa, foi um projeto gorado, já que, na grande maioria dos casos, a resistência manteve-se firme, mesmo que atrás das grades.
O regime político português entre 1926 e 1974, partindo da premissa que a segurança da Nação e do Estado estavam acima de todos os interesses individuais, usou o castigo aos infratores e a exemplaridade da pena a que sujeitava os indivíduos que caiam na sua teia como uma forma de reduzir o número de indivíduos com comportamento desviante à moral desejada. Era a política da pedagogia do medo que se impunha. Mas para aqueles a quem o exemplo da prisão de outros não limitou a sua ação contra as medidas do governo e para os que não conseguiram escapar à gigantesca teia policial montada pelo regime, a história da sua vida passou inevitavelmente pelas prisões políticas portuguesas.
No entanto, o projeto, no qual o Estado depositou grandes esperanças, em torno do qual a prisão era usada como fórmula de gerir e minimizar a «delinquência política», falhou. Apesar das prisões políticas, pedra basilar da arquitetura repressiva do regime, terem marcado a história penal e policial da Ditadura e do Estado Novo, esta não se fez sem que se tivessem levantado várias vozes discordantes e nalguns períodos fez mesmo abanar a estrutura política imposta pelo regime, que para se manter se viu obrigado a encetar algumas mudanças. Muito embora estas mudanças, como se irá constatar, tivessem sido apenas uma questão cosmética. A estrutura permaneceu mais ou menos intacta, apenas mudou a sua aparência, suavizando-se a sua nomenclatura.
Assistiu-se, deste modo, entre a imposição do regime ditatorial de 1926 até à revolução dos Cravos a 25 de abril de 1974, a um constante atropelo à maior de todas as leis de um país, a Constituição, privando os cidadãos de todas as liberdades e garantias
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fundamentais, sempre que estas colocavam em causa aquilo que o Estado, pela mão dos governos deste período, considerava um bem supremo, ele próprio.
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Capítulo I
I - Objeto de tese
É propósito desta investigação evidenciar o papel da cadeia política do Aljube de Lisboa, entre os anos de 1928 e de 1965.
Apesar de se fazer uma articulação com outras prisões que serviram os interesses arbitrários do regime, o presente estudo pretende retratar a história do edifício, enquanto estrutura arquitetónica; a história da prisão, enquanto local onde decorria a fase instrutória dos processos, assim como o quotidiano daqueles que se viram privados da sua liberdade e até da dignidade humana. Explicar a forma como as detenções aconteciam, articulando-as com a legislação prisional em vigor na época, será também objeto de análise.
Para além de retratar a vida na prisão dos detidos políticos, pretende-se analisar as diferenças de tratamento dos presos militantes dos partidos políticos, que se opunham ao regime vigente, conforme a sua posição no partido, o seu nível cultural ou a sua origem social e ainda analisar o código de comportamento a que estavam sujeitos estes indivíduos quando encarcerados.
Embora a maioria da população prisional no Aljube tivesse encarcerada por motivos políticos, no período em foco neste trabalho, procurar-se-á também estabelecer uma comparação entres as condições dos presos políticos e a dos presos de delito comum, pois estas ajudam a perceber toda a série de iniquidades a que estavam expostos os suspeitos e/ou acusados de fazer perigar o regime.
No quarto capítulo haverá também lugar para se perceber que o espaço prisional, para além de sujeitar os detidos à pena, [já que a prisão era, nestes casos, por si só a pena por excelência] era um local onde se subjugava os presos a toda a sorte de constrangimentos físicos e psicológicos. Estes eram particularmente vincados no período em que os presos se encontravam na fase instrutória dos processos e por isso encarcerados no Aljube, onde, a partir da década de 40, as celas individuais colocavam o preso na mais rigorosa incomunicabilidade. O Aljube especializou-se, assim, como cadeia de isolamento na fase dos interrogatórios e é esta especificidade que o individualiza das outras cadeias para presos políticos.
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Não cabe, no âmbito deste trabalho, fazer uma análise exaustiva nem das outras prisões políticas em território nacional (como por exemplo: Caxias, Peniche e Angra do Heroísmo), nem da colónia penal do Tarrafal em Cabo Verde, para a qual já existe uma extensa bibliografia. Embora se faça referência às várias cadeias que o regime usou para encarcerar indivíduos por delitos políticos, dada a sua importância no enquadramento teórico deste trabalho, seria incomportável fazer um estudo detalhado de todas elas, correndo o risco de tornar o trabalho demasiado ambíguo e pouco profundo.
As prisões políticas, para além de marcarem a história do século XX português, permanecem como um elemento precioso da memória coletiva, como um importante espaço de vivências, de testemunhos marcados por uma vida em que a democracia e a liberdade, serviram de estandarte a todos aqueles que não lograram calar-se perante a impunidade com que se violaram tais direitos.
Irene Pimentel no seu artigo A Memória Pública da Ditadura e da Repressão, publicado na edição portuguesa de fevereiro de 2007 do Le Monde Diplomatique, refere que o papel da História é pegar na exclusividade e fidelidade das memórias particulares e temperá-las com equidade e verdade, contribuindo deste modo para transformar a «memória infeliz em memória feliz, pacificada, em justa memória»1.
Este trabalho pretende de alguma forma contribuir para criar uma justa memória por todos aqueles que foram vítimas das arbitrariedades de um Estado que erguia a bandeira de amor e respeito à pátria, como se os homens e as mulheres que acorrentou, na sua ação de limpeza da sociedade enferma, não fizessem parte dessa pátria.
Apesar de não ter a ambição de sarar as feridas que o aparelho repressor do Estado Novo possa ter causado às centenas de homens e mulheres que se viram privados da sua liberdade, quer pela mordaça da censura, quer pelas grades que os aprisionavam nas várias cadeias políticas em Portugal e nas colónias, este trabalho pretende dar à História as estórias que marcaram todas as fases do Aljube de Lisboa.
Independentemente de algumas vítimas do regime estado-novista terem passado para papel o seu testemunho, onde descrevem as violências e iniquidades que foram alvo, parece faltar na historiografia portuguesa um estudo sistemático e preciso sobre esta cadeia política.
1 Artigo de Irene Pimentel, O Silêncio da História, A memória pública da ditadura e da repressão, in
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Um ano depois da abertura da exposição Aljube - A Voz das Vítimas, dinamizada pela Fundação Mário Soares, pelo Movimento Cívico Não Apaguem a Memória e pelo Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, sobre as histórias vivenciadas por quem lá passou, parece fundamental dedicar um estudo em exclusivo ao Aljube de Lisboa.
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II – Âmbito cronológico
Apesar de se recuar no tempo para enquadrar o edifício no contexto arquitetónico e histórico, a investigação irá centrar-se sobretudo no período cronológico compreendido entre 1928 e 1965. Assim, o estudo irá abranger a história da cadeia do Aljube de Lisboa a partir do momento em que foi usada para encarcerar todos aqueles que eram considerados desafetos ao regime vigente, logo perigosos para a estabilidade e segurança do Estado. Saliente-se contudo que a cadeia do Aljube recebeu, embora esporadicamente, presos sociais e políticos no período anterior a 1928.
A pedra basilar da investigação culminará com a data de encerramento da cadeia, em agosto de 1965, na sequência de inúmeros protestos nacionais e internacionais, sobretudo da Amnistia Internacional, que denunciavam as péssimas condições a que os presos ali estavam votados.
Salvaguardar-se-á também o período posterior ao seu encerramento, enquanto prisão para presos políticos. Pois, como se verá, o Aljube reabriu as suas portas, inicialmente para receber presos da cadeia do Limoeiro, depois como Instituto de Reinserção Social e já recentemente, albergou a exposição Aljube – A Voz das Vítimas.
No decorrer do trabalho procurar-se-á demonstrar que as prisões, realizadas pela polícia política, foram mais numerosas conforme se tratavam de anos de crise para o regime. Tal como afirma Irene Pimentel, na sua obra A História da PIDE, os anos da Guerra Civil Espanhola corresponderam aos anos de maior repressão em território nacional2. Regista também mais dois períodos de crise, o primeiro balizado entre 1945 e
1949, na recomposição exigida pelo pós II Guerra Mundial e o segundo entre 1958 e 1962, no rescaldo do «terramoto delgadista». Em todos eles se verificou um aumento do número de prisões, que eram usadas para afastar os adversários políticos e assim garantir a manutenção do poder.
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III - Estado da questão
Aljube – uma cadeia política é um trabalho pioneiro, visto não existir nenhuma monografia académica dedicada ao estudo das cadeias políticas, à exceção da Colónia Penal do Tarrafal, na Ilha de Santiago em Cabo Verde.
Existem várias publicações memorialísticas de antigos presos políticos, sobretudo ligados ao Partido Comunista Português (PCP), que, ao retratarem o seu percurso de vida no período do Estado Novo, fazem referência à sua passagem pela cadeia do Aljube de Lisboa. Apesar de servirem de testemunho real e daí terem um valor histórico incontornável, não são, e certamente não pretendem ser, um estudo académico e exclusivo sobre aquela prisão em particular.
A cadeia do Aljube, embora esteja na memória de todos aqueles que trilharam os seus corredores e viveram aprisionados às paredes em que estavam confinados, parece ter sido esquecida pela historiografia, que nunca lhe deu especial destaque. Muito embora, o edifício não seja um majestoso palácio ou revele uma arquitetura exemplar, a investigação, na área artística e arquitetónica, também não lhe dedicou interesse. Na verdade, o Aljube de Lisboa permanece quase como uma figura mítica na voz dos protagonistas da sua história.
Atualmente a única publicação disponível dedicada exclusivamente ao Aljube é o catálogo realizado para a exposição Aljube - A Voz das Vítimas, que esteve patente no edifício de abril a dezembro3 de 2011. No entanto, e reconhecendo-lhe todo o mérito, não
deixa de ser um guia de visita para o público entender os espaços que foram projetados pelos dinamizadores da exposição.
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IV – Caminhos trilhados
Constituiu um desafio incontornável trilhar caminhos na procura de uma resposta para todas as questões que se levantaram quando se esboçou o projeto que iria dar origem ao tema desta investigação. Como (re)criar, em palavras, uma História para e sobre o Aljube de Lisboa?
Fazer uma investigação histórica sobre um tema inédito é, sem dúvida, aliciante, pois lança uma escada de descoberta e oportunidade. Qual navegador que cruza mares nunca dantes navegados. Mas tal como o navegador, que teve de enfrentar um sem número de obstáculos para levar a bom termo o seu barco, fantasiando, no trajeto, um mundo até então desconhecido, a investigação sobre a cadeia do Aljube obrigou a traçar uma rota. Que caminhos percorrer?
Para além do acervo sobre o Aljube se encontrar muito fragmentado, a documentação referente ao edifício, quer como estrutura arquitetónica, quer como cadeia civil, é escassa.
No entanto e apesar de todas as vicissitudes, foi possível seriar fontes que conduziram a investigação para referências sobre múltiplos aspetos da história do edifício, da vida prisional e dos momentos de maior «resistência» ao sistema vigente, que resultaram em memoráveis fugas ou tentativas de fuga.
Fonte preciosa para a reconstituição da história do edifício, enquanto objeto de estudo arquitetónico e patrimonial, foi a bibliografia referente aos edifícios notáveis da cidade de Lisboa, que numa perspetiva quase turística, apresentam ao mundo o Aljube, como é o caso, entre outros, do Lisboa Antiga - Bairros Orientais, Ruas de Lisboa - Notas para a História das vias públicas lisbonenses, Novo Guia do viajante em Lisboa; Guia do Forasteiro em Lisboa,The Stranger’s guide in Lisbon.
O núcleo de documentação existente no Gabinete de Estudos Olisiponense da Câmara Municipal de Lisboa, onde se encontram algumas das obras acima referidas e vários recortes de imprensa alusivos ao tema em estudo, também contribuiu para o estudo da história patrimonial do edifício do Aljube.
Mas a espinha dorsal deste capítulo centrou-se no núcleo de documentação do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU) / Sistema de Informação para o Património Arquitetónico (SIPA), no Forte de Sacavém, onde se encontra o Arquivo da
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Ex-Direção de Edifícios e Monumentos Nacionais. Aqui encontra-se um vasto leque de documentos referentes a remodelações ou obras de maior intervenção de que foi alvo o edifício, sendo o documento mais antigo de fevereiro de 1922. No entanto, as plantas do edifício não se encontram datadas, o que dificulta definir com preciosismo alguns factos relevantes para a história patrimonial do Aljube. Apesar disso, é possível datar algumas plantas depois de as comparar com os documentos textuais relativos à memória descrita das alterações a efetuar. O registo de arquivo, pelo número de armário e de gaveta, também permitem avaliar a antiguidade de uma planta em relação a outra.
Para o capítulo relativo à história da prisão consultei os fundos dos Arquivos: do Ministério do Interior, do Ministério da Administração Interna, de Oliveira Salazar e da PIDE/DGS e ainda o Arquivo Histórico do Sul da Direção Geral dos Serviços Prisionais. Aqui, na imensidão de documentos, foi possível seriar informação sobre as razões que motivaram algumas prisões, as fugas e tentativas de fuga da cadeia, o número de presos aí encarcerados em determinados anos, entre outros aspetos de particular interesse para a investigação em curso.
No trabalho de pesquisa nas bibliotecas, entre as quais a Biblioteca Nacional, recolhi outras fontes que me forneceram o adequado enquadramento teórico, que serviu de base a todo o projeto aqui traçado.
Para se fazer uma história sobre a cadeia do Aljube é de inegável importância dar voz aos (antigos) presos, protagonistas de parte da sua história. Para o efeito recorri a alguns testemunhos, e embora pese a subjetividade inerente às suas vivências, ignorá-las seria negar uma parte imprescindível da realidade sobre o Aljube, pois constituem provas «não censuradas» de uma época que os documentos oficiais não contemplavam.
O trabalho que hoje aqui se apresenta é o resultado de toda esta investigação, que constitui uma possibilidade de interpretar a história sobre a cadeia do Aljube.
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Capítulo II
«Nada contra a Nação. Tudo pela Nação»
Contextualização histórica
O movimento militar de 28 de maio de 1926, iniciado em Braga, pôs fim à Primeira República Portuguesa, caindo deste modo, um século de experiência liberal (sob a forma monárquica e republicana)4. No entanto, o seu derrube fez-se por um exército dividido e
politizado e por isso pouco estável. A conjuntura económica herdada quer dos últimos anos da monarquia, quer do governo republicano, e agravada com a participação de Portugal no primeiro grande conflito à escala mundial5, contribuiu para criar algumas
dissidências neste período. Foi neste contexto de crise económica que António de Oliveira Salazar foi convidado a integrar o governo e assumir a pasta das finanças. Titular da pasta a partir de 1928, no governo presidido pelo Coronel Vicente de Freitas, passou a ter «direito de veto sobre todas as despesas de todos os ministérios e poderes vastíssimos para realizar os cortes orçamentais e as reformas fiscais indispensáveis ao equilíbrio do orçamento»6. No
entanto, o homem que assumia publicamente, no discurso de tomada de posse a 28 de abril de 1928, «Sei o que quero e para onde vou», na sombra do equilíbrio orçamental trazia escondido um projeto para o Estado.
O antigo lente da Universidade de Coimbra começou a desenhar, a partir de então, o seu projeto para edificar um Estado forte e capaz de glorificar Portugal, esperando o momento que considerava ser o mais oportuno para o assumir.
Foi com este propósito de criar um Estado forte, longe da instabilidade inerente ao parlamentarismo, capaz de arbitrar as contradições existentes na sociedade, liquidando, através de soluções repressivas, as vozes discordantes e as reivindicações mais acesas, que se caminhou, no período que medeia o movimento militar de 1926 e o advento do Estado Novo, para o estabelecimento de um regime autoritário e antidemocrático em Portugal.
4 Fernando Rosas, Da Ditadura militar ao Estado Novo: a «longa marcha de Salazar», História de Portugal, (dir.) José
Mattoso, vol. VII, Círculo de Leitores, Lisboa, p. 151.
5 A I Guerra Mundial iniciou-se em 1914, após o assassinato do herdeiro ao trono Austro-húngaro por um
estudante nacionalista sérvio e terminou em 1918, com a derrota das forças da Aliança. Portugal entrou na guerra em 1916 ao lado dos Aliados.
6 Dicionário de História do Estado Novo, dir. Fernando Rosas e J. M. Brandão de Brito, Círculo de Leitores, vol.
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A palavra «ordem» tornou-se, neste contexto, a divisa do regime. «Nada contra a Nação. Tudo pela Nação». E foi sob o desígnio, expresso no 10.º ponto do Decálogo do Estado Novo, em que os inimigos do regime eram equiparados aos «inimigos da Nação», contra os quais e ao serviço da qual se podia e devia «usar a força, que realizava, neste caso, a legítima defesa da Pátria», que se legitimaram todas as arbitrariedades cometidas até ao deflagrar da Revolução a 25 de abril de 1974.
Procurando glorificar o epíteto de Salvador da Pátria, que recebera por sanear as finanças portuguesas, Oliveira Salazar, a partir de 1932 já como Presidente do Conselho, e apresentando-se como intérprete da nação autêntica, tinha como missão «curar» a pátria enferma.
O regime considerava-se a «expressão única e exclusiva da essência da nação»7, daí
que a oposição fosse encarada como «um comportamento desviante e criminoso, punível por ser “antinacional”».8 Daí que uma das primeiras preocupações do poder instituído
tenha sido limpar o terreno dos adversários e inimigos políticos. Foi com base nesta estratégia de «limpeza» que o Estado Novo desencadeou uma série de processos tendentes a suprimir as liberdades fundamentais, indispensáveis à reconstrução do país.
Assumido doutrinador e convicto da necessidade de reformar o país e o homem português, objetivo que já havia defendido na sua primeira conferência a 1 de dezembro de 1909 no Liceu Alves Martins em Viseu, no seu discurso «A Restauração», Salazar mostrou-se mostrou-sempre muito zeloso daquilo que acreditava mostrou-serem os valores que a Nação deveria erguer e orgulhosamente defender.
Embora o texto Constitucional de 19339 reconhecesse solenemente aos cidadãos
portugueses «direitos e garantias individuais», existiram decretos posteriores à sua publicação que os anulavam. Na prática, esses direitos e liberdades fundamentais eram regulados por «leis especiais», ficando assim sujeitos ao livre arbítrio do governo.
Após o plesbicito constitucional, a 19 de março de 1933, e a sua promulgação a 9 de abril, procurou-se reorganizar as polícias de caráter político-social herdadas quer da Ditadura Militar quer da I República. Assim, Salazar «cria a Polícia de Vigilância e Defesa
7
Irene Flunser Pimentel, A História da PIDE, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 6ª edição, 2009, p. 522
8Idem
9 Plesbicitada em março de 1933, a Constituição que oficializava o novo regime político em Portugal foi
13
do Estado10 (PVDE); regulamenta, sob a estrita tutela do Governo, o exercício da liberdade
de associação e de manifestação; reorganiza e reforça os serviços de Censura; lança, sob a orientação de António Ferro, o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), e desencadeia, através da legislação fundadora dos grémios e sindicatos nacionais corporativos, de setembro de 1933, o grande e definitivo ataque à liberdade sindical»11. Desta forma garantia
o controlo de tudo o que era essencial à segurança do regime: «polícia política, censura, propaganda, controlo e esvaziamento prático das liberdades fundamentais»12.
Assim, e fazendo jus ao seu legado messiânico, o regime acabou com os sindicatos livres, com o direito à greve, substituiu o pluralismo partidário pelo sistema de partido único, dando início a um período marcado pela repressão contra a oposição. Era o fim da liberdade de associação e de expressão, dando de alguma forma continuidade a alguns dos princípios que vigoravam já desde a imposição do regime ditatorial de maio de 192613.
A atuação do Estado Novo alicerçou-se em três palavras: prevenção, repressão e formação. Procurava-se, deste modo, sanear todos aqueles que audaciosamente ousavam ultrapassar o risco das leis que lhes eram impostas e simultaneamente educar as futuras gerações nos valores que o regime defendia para a criação de um país moldado à imagem das pretensões do seu governo. E foi neste contexto, em que se procurava eliminar e silenciar drasticamente as oposições, «com uma polícia política e uma censura atentas aos mais leves sintomas disruptores»14, que o novo regime se foi consolidando.
Depositário dessa missão salvífica, e tendo como base as exigências da chamada «ordem pública», tal como Salazar a concebia, o regime manifestava grande preocupação na formação da «educação nacional», assim crismada por Carneiro Pacheco em 1936, de forma a criar espíritos obedientes, zelosos dos princípios orientadores que norteavam o regime e mais ainda, subservientes ao governo. Assim, para educar e moldar os espíritos fez atuar os vários aparelhos de inculcação ideológica que edificara.
10A 29 de agosto de 1933 o «Diário do Governo» publica o Decreto-Lei n.º 22 992. Nascia assim a PVDE,
por fusão da Polícia de Defesa Política e Social e da Polícia Internacional Portuguesa. No entanto, a Polícia de Defesa e Vigilância do Estado (PVDE) só passou a ter competência legal em matéria prisional a partir de julho de 1934, altura em que se criou a Secção de Presos Políticos e Sociais. Desde a prisão ao julgamento, a PVDE passou a controlar todo o processo judicial dos crimes políticos e sociais.
11Dicionário de História do Estado Novo, dir. Fernando Rosas e J. M. Brandão de Brito, Círculo de Leitores, vol.
II, p. 868
12 Idem
13 Em 1926, estabeleceu-se um novo regime mais eficaz e centralizado de censura prévia.
14 Dicionário de História do Estado Novo, dir. Fernando Rosas e J. M. Brandão de Brito, Círculo de Leitores, vol.
14
Ao papel da Igreja Católica, principal instrumento de legitimação ideológica do regime e importante veículo de controlo dos espíritos, juntaram-se o policiamento e a repressão preventiva, com o uso da censura prévia, dos informadores, das delações ou escutas telefónicas. Quer as organizações de juventude, quer a organização corporativa também serviram os interesses do Estado como instrumentos de inculcação ideológica. Estes organismos tinham como missão vigiar, no trabalho, na escola, no lar, e incutir unívoca e autoritariamente os valores do regime, criando um clima geral de acatação e submissão: «manda quem pode, obedece quem deve».
Para reforçar este sistema harmonioso e não permitir que se criassem dissonâncias, os «professores e funcionários públicos passaram a ser selecionados e controlados segundo critérios de fidelidade ideológica informados pela polícia política»15. Assim, ficavam
obrigados a repudiar o «comunismo e todas as ideias subversivas e a aceitar a ordem estabelecida pela Constituição Política de 1933»16. Procurava-se desta forma moldar os
espíritos ao sabor das pretensões do regime. Era o início da «revolução mental» que segundo Salazar faltava realizar.
Estes mecanismos de inculcação ideológica embora representassem uma forma de repressão menos visível, funcionavam com uma série de tentáculos aos quais era difícil fugir, desde a censura, a propaganda, a educação, passando pelas restrições ao exercício da liberdade de associação e pela participação na Mocidade e na Legião Portuguesas. O Estado procurava, deste modo, controlar ao pormenor a vida de todos os portugueses.
A utilização destes mecanismos pretendia «interiorizar no corpo social uma atitude de aceitação passiva»17, só partindo para a intervenção repressiva se os outros mecanismos
se esgotassem. O objetivo não era apenas exercer repressão sobre os comportamentos exteriorizados da população contra o regime, mas sim dissuadir todos os comportamentos que colocassem em perigo a «ordem», mesmo que não fossem exteriorizáveis. Desta forma, o Estado Novo operava como uma máquina que policiava «por dentro e por fora a vida dos portugueses»18, funcionando como uma arma dissuasora de «ulteriores desvios à
mentalidade e ao comportamento que se pretendia incutir ao cidadão»19.
15 Dicionário de História do Estado Novo, dir. Fernando Rosas e J. M. Brandão de Brito, Círculo de Leitores, vol.
II, p. 869
16 Decreto-Lei n.º 27 003, de 14 de setembro de 1936, citado por Irene Flunser Pimentel, A História da PIDE,
Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2007, p. 26
17 Maria da Conceição Ribeiro, A polícia política no Estado Novo 1926-1945, Editorial Estampa, 1995, p. 203 18 Repórter Sombra, pseudónimo, Dossier P.I.D.E., os horrores e crimes de uma «polícia», Lisboa, Agência
Portuguesa de Revistas, 1974
15
Consciente que a propaganda exercia um papel fundamental na construção de uma imagem sobre o país e o regime, onde os conflitos e a miséria constituíam apenas uma miragem, criou-se o já mencionado Secretariado de Propaganda Nacional. A propaganda dava aos portugueses e ao mundo a imagem de um país edificado em nobres valores, onde a justiça e a liberdade eram direitos garantidos. Cartazes, exposições internacionais, livros escolares, cinema e teatro glorificavam as «excelências de um idílico mundo rural sem tensões doentias»20.
Salazar acreditava na premissa de que «o que parece, é», justificando assim o facto da opinião pública ser «dirigida» pelo governo. Nas palavras do jornalista João Paulo Freire, nas suas memórias sobre o tempo em que esteve encarcerado na prisão do Aljube em Lisboa21, por ser um acérrimo defensor da democracia, da justiça e da liberdade, esta
propaganda tinha a agravante de apregoar «ao mundo a beleza dos nossos costumes, a pacífica orientação da nossa política, a justiça do Estado Novo e a bondade dos homens que se encontravam desde 1926, à frente dos destinos da Nação»22. Falseava-se, deste
modo, aquilo que era a realidade vivida em Portugal. No entanto, para Salazar esta conceção sobre a vida em Portugal era fundamental para a manutenção do regime, defendendo que «politicamente só existe o que o público sabe que existe: a ignorância das realidades, dos serviços, dos melhoramentos existentes é causa de descontentamento, de frieza nas almas, de falta de orgulho patriótico, de não haver confiança, alegria de viver»23.
O regime mostrou-se sempre muito zeloso com a tutela da opinião pública, usando para o efeito um elemento essencial do seu projeto viabilizador, a censura prévia. A ditadura salazarista, recusando o conflito e a pluralidade de opiniões, tinha sobre o pensamento e sobre a crítica, a mordaça da censura. Esta funcionava como um elemento regulador da imagem sobre o Estado, não devendo este correr o risco de ver publicado algo que, de alguma forma, fizesse tremer o pedestal onde ele próprio se havia colocado. Neste período entendia-se que «dizer mal» era uma forma de «fazer mal» à Nação, logo justamente punível. Já durante a Primeira República, o regime republicano tinha procurado, de forma sólida e consistente, impedir o acesso do público a textos que eram considerados nefastos para a estabilidade do poder vigente. A censura foi uma constante ao longo de
20Dicionário de História do Estado Novo, dir. Fernando Rosas e J. M. Brandão de Brito, Círculo de Leitores, vol.
II, p. 869
21 João Paulo Freire esteve preso no Aljube de Lisboa por doze vezes entre 1924 e 1940. 22 Memórias dum jornalista [manuscrito]: 99 dias no Aljube, João Paulo Freire (Mário)
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quase todo o século XX em Portugal, pois só com a revolução de 1974 foi restituída aos portugueses a liberdade de expressão e pensamento.
Assim, sob a pena do «lápis azul», era limitado, à população portuguesa, o conhecimento das alternativas sociais, culturais, políticas e ideológicas ao Estado Novo. O desconhecimento das ideias e dos factos criavam assim o clima necessário ao exercício normal do poder. «Submetido a um clima de sujeição e de informação dirigida, gradualmente, o português é forçado a não saber, a não pensar, a não querer, e quási a não desejar»24, transformando-se num objeto do poder.
Em 1957, o n.º 7 do Bulletin de la Comission Internacionale de Juristes25, fazia uma dura
crítica ao governo de Portugal, que aplicava pena de prisão para todos aqueles que imprimissem publicações, panfletos ou outros escritos de caráter subversivo. E embora, a censura, tal como era interpretada pela oposição, fosse negada, todos os jornais tinham a rubrica Visado pela Comissão de Censura. Tendo por base a premissa que o jornal era o alimento do povo, a censura legitimava-se, uma vez que tal como todos os outros alimentos, também o jornal devia ser fiscalizado.26
A tentativa de aniquilamento de todos os centros de possível contestação ao regime infligiu uma ferida, que as diferentes formas de vida cívica, política e intelectual, foram clandestinamente sarando com a sua persistência e empenho na defesa dos valores de justiça e liberdade.
Existiram ainda outros mecanismos, que ao restringirem a liberdade de criação dos autores, acabavam por funcionar como filtro do conteúdo das obras literárias que circulavam em Portugal. Este processo de controlo envolvia «as tipografias, os editores e as próprias entidades que dispunham de meios para publicitar um livro»27. Desta forma, e caso
fosse detetado algum ataque ao interesse nacional, o regime chamava à responsabilidade todos aqueles que estavam, de algum modo, ligados à publicação do livro. Esta repressão, usada a posteriori, e que exigia a apreensão dos livros considerados perigosos, servia assim para corrigir alguma desatenção dos censores e punir o autor da insubmissão cometida.
24 Carta ao Presidente da República por elementos da oposição sobre questões sociais, económicas, políticas e
ultramarinas, 1966, in ANTT/AOS/CO-JU3
25 Bulletin de la Comission Internacionale de Juristes – Pour la defense du droit, n.º 7, Imprimerie Trio, S.A., La Haye –
Pays-Bas,in ANTT/AOS/CO/JU-3
26 António Ferro, pref. Oliveira Salazar, Salazar e a sua obra, Empresa Nacional de Publicidade, p. 48
27 Renato Nunes, Miguel Torga e a Pide, A repressão e os escritores no Estado Novo, Coleção Minerva-História,
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Salazar, embora consciente que a censura era injusta e que estava muitas vezes sujeita ao arbítrio dos censores, justificava a sua existência para que não se deturpassem os factos que fundamentassem «ataques injustificados à obra dum governo»28.
A repressão cultural foi assim uma constante em todo o período do Estado Novo. Segundo Carlos Brito reinava a lei de que «tudo o que não estava expressamente autorizado, era proibido»29. Os jornais, por exemplo, cuja entrada era permitida, no Forte
de Peniche, símbolo das cadeias políticas estado-novistas, eram alvo de dupla censura – a do país em geral e a que era feita na própria cadeia. Daí que quando chegavam às celas iam já com inúmeros recortes feitos à tesoura ou mesmo sem páginas inteiras. A entrada de jornais como a República, o Século Ilustrado, O Debate e a Seara Nova foi interdita. Por outro lado, os aparelhos de rádio ou gira-discos não eram autorizados, assim como as conversas sobre qualquer assunto que remetesse para o domínio político. No entanto, a situação prisional em Peniche melhorou significativamente em meados da década de 60, altura em que foi reaberta a biblioteca da prisão, Soeiro Pereira Gomes, e permitida a entrada de uma pequena biblioteca itinerante da Gulbenkian, bem como dos jornais Diário de Notícias e O Século. Diga-se a este respeito que algumas das permissões que os presos políticos conquistaram nas cadeias, foram resultado das suas reivindicações constantes e formas de luta30 que iam encetando.
Para além dos jornais, as cartas das famílias e dos presos também eram alvo da censura, no entanto, esta variava de prisão para prisão. Numas existiam cartas que não sofriam qualquer obstáculo, mas estas não passariam na censura noutras prisões.
A repressão, em todas as suas formas, teve períodos em que se fazia sentir mais visivelmente, sobretudo nos momentos mais conturbados para o poder instituído, contribuindo, juntamente com os outros mecanismos de suporte do Estado Novo, para que este se fosse mantendo.
A este respeito diga-se que a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e com ela a ameaça comunista acabaram por endurecer mais a atuação repressiva do Estado. Este foi o primeiro grande desafio à estabilidade do regime, que encontrou neste acontecimento uma
28Renato Nunes, Miguel Torga e a Pide, A repressão e os escritores no Estado Novo, Coleção Minerva-História,
Edições MinervaCoimbra, Coimbra, 2007, p. 46
29 Irene Flunser Pimentel, A História da PIDE, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2007, p. 438
30 Sérgio Ribeiro recorda que, quando esteve preso em Caxias, uma das formas de luta que os presos usavam
era recusarem-se a receberem visitas, facto que levava ao descontentamento dos familiares, que depois se manifestavam junto dos guardas prisionais, criando alguma instabilidade indesejada. E assim conseguiram um gira-discos que tocava uma hora por dia.
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forma de legitimar o uso da repressão contra aqueles que representavam um «perigoso dissolvente da família, da religião e de todos os valores da civilização que o Estado Novo pretendia simbolizar»31.
De facto, e no que diz respeito à cadeia do Aljube de Lisboa, quer o Boletim Inter-Prisional32 de abril de 1936, onde se lê «o Aljube está a transbordar; cada vez somos mais
na prisão», quer o Boletim da existência de presos33, de 25 de setembro do mesmo ano, que
aponta a existência de 79 presos aí encarcerados, refletem que, e tendo por base a capacidade de lotação34 da cadeia, este período foi um forte momento de repressão em
Portugal. O mesmo é confirmado por Jaime Serra que afirmava, na altura em foi preso pela primeira vez, em janeiro de 1937, que se vivia um período de grande perseguição política, característica de um regime instituído mas não consolidado.
Mas se nos primeiros anos da ditadura a repressão era cega, desencadeando uma vaga de prisões em massa, «nos últimos anos do regime era uma repressão já científica. Seletiva».35 As cadeias políticas irão encher-se de homens e mulheres de todas as fações
políticas. Anarquistas, reviralhistas, comunistas, sindicalistas e, mais tarde também maoístas, socialistas e católicos serão protagonistas da história da repressão em Portugal.
Apesar de no período correspondente à Guerra Civil Espanhola, se ter verificado um grande pico de prisões políticas e muitos dos presos terem sido deportados sem julgamento ou com julgamento sumaríssimo em tribunais militares especiais, o governo viu reforçado o seu poder no plano interno, consolidando política e policialmente a sua segurança e fortalecendo o prestígio de Salazar.
O Estado, que sempre soube jogar com os interesses contraditórios que ele próprio defendia, revelou uma capacidade suprema de «saber durar», organizando e reorganizando os equilíbrios viabilizadores do regime.
Em setembro de 1939 o mundo viu-se envolto na ofensiva das divisões panzer, dando início à II Guerra Mundial, com Hitler a comandar os destinos de uma Europa que
31Maria da Conceição Ribeiro, A polícia política no Estado Novo 1926-1945, Editorial Estampa, 1995, p. 199
32 Nome dado ao jornal manuscrito pelos presos comunistas do Aljube. in
http://www.pcp.pt/jornais_prisao/boletim-inter-prisional%C3%B3rg%C3%A3o-da-c%C3%A9lula-comunista-do-aljube (em 20 de abril de 2012)
33 ANTT – AOS/CO/IN/8C - 1
34 Segundo documentos de 1969 a cadeia, após as obras de remodelação projetadas iria ter capacidade para
receber entre 80 a 100 presos. Saliente-se, no entanto, que até abril de 1936, data da conclusão da enfermaria construída no novo e último andar do Aljube, a capacidade de encarceramento era inferior, atendendo que só estavam acessíveis quatro andares.
35Entrevistas conduzidas por Miguel Medina, Esboços: antifascistas relatam as suas experiências nas prisões do fascismo, Câmara Municipal de Lisboa, Imprensa Municipal, Lisboa, 1999, vol. 2, p. 204
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ficou quase toda subjugada ao seu domínio. Enquanto isso, Salazar para mostrar as virtudes do Estado Novo, lançou-se na criação da Grande Exposição do Mundo Português, na sequência da comemoração do «duplo centenário da nacionalidade» em 1940.
Embora Portugal se tenha mantido à margem deste grande conflito, adotando uma posição de neutralidade36 perante as fações em jogo, o Estado viu-se forçado, à medida que
o seu desfecho se aproximava e se tornava claro de que lado iria estar a vitória, a encetar algumas alterações. Mas, apesar de ter gerido a neutralidade ao sabor das conjunturas da guerra, ora adotando uma postura «equidistante», ora «colaborante», não conseguiu impedir o impacto económico e social do conflito. Neste período verificou-se uma degradação do ambiente social, motivado pela falta de géneros e bens de primeira necessidade. Foi neste contexto de crise social e de iminência da queda do nazi-fascismo que se criaram condições para a recomposição e ofensiva das oposições.
Deste modo, confrontado com a vitória das democracias e com a inevitabilidade de uma mudança política que parecia impor-se, Salazar sabia que a sua manutenção no poder estava de alguma forma dependente da criação de uma imagem externa favorável ao Estado Novo. Apoiando-se nesta lógica, pretendeu criar a ideia de uma certa abertura do regime português. Neste contexto, António de Oliveira Salazar prometeu eleições «livres como na livre Inglaterra» e procurou assegurar a publicação de uma série de decretos com o objetivo de suprimir o regime excecional sobre a segurança do Estado, garantindo de «modo efetivo a liberdade dos cidadãos contra a eventualidade de prisões arbitrárias»37.
Assim e porque «os ventos democratizantes do pós-guerra aconselhavam maiores cuidados terminológicos e processuais»38, Salazar alterou o «nome de algumas das suas
instituições mais conotadas com os regimes fascista e nacional-socialista e civilizou os Tribunais Militares Especiais, que julgavam os crimes políticos, até 1945».39 No entanto,
esta aparente liberalização era falaciosa e traduziu-se num progressivo aperfeiçoamento e endurecimento dos mecanismos repressivos. À polícia política, agora denominada de
36 A política externa portuguesa, definida em nota oficiosa de 2 de setembro de 1939, apresentava ao mundo
um país de costas voltadas para o continente europeu e projetado para o Atlântico e para o Império. Com a neutralidade assumida durante a II Guerra Mundial, Portugal apresentava-se assim como uma «ilha de paz no mundo em guerra».
37 Irene Pimentel, O Tribunal Plenário, Instrumento de justiça política do Estado Novo, Intervenção proferida no
Colóquio Internacional Administração e Justiças na Res Publica, Universidade do Minho, Braga, 15 e 16 março de 2010
38 Fernando Rosas, Da Ditadura militar ao Estado Novo: a «longa marcha de Salazar», História de Portugal, (dir.) José
Mattoso, vol. VII, Círculo de Leitores, Lisboa, p. 151.
39 Irene Pimentel, O Tribunal Plenário, Instrumento de justiça política do Estado Novo, Intervenção proferida no
Colóquio Internacional Administração e Justiças na Res Publica, Universidade do Minho, Braga, 15 e 16 março de 2010
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Polícia Internacional de Defesa do Estado40 (PIDE), foi atribuída competências instrutórias
ainda mais abrangentes do que aquelas que possuía a sua antecessora. Esta alteração, traduziu-se, não só num alargamento dos seus poderes de prisão preventiva, gozando da «capacidade de [a] determinar, com quase total independência»41, como também,
permitiu-lhe, de forma mais eficiente, interferir na aplicação das medidas de segurança, podendo mesmo vigiar os indivíduos a ela sujeitos, «mesmo que estes estivessem entregues à supervisão do ministro da Justiça»42. A PIDE para além de centralizar «todos os
organismos com funções de prevenção e repressão política dos crimes contra a segurança interna e externa do Estado»43, conservava também a instrução preparatória desses
processos.
A título exemplar veja-se que a 27 de maio de 1945, o Boletim de existência de presos e deportados registava, para a cadeia do Aljube de Lisboa, um total de 68 presos44.
O ano de 1947 também se caracterizou por uma forte repressão em todo o país, sobretudo direcionada para os elementos do Partido Comunista Português (PCP), considerados inimigos do regime, logo da nação. No entanto, a repressão da polícia e a consequente prisão também atingiu outros alvos como os militares envolvidos nas tentativas falhadas de sublevação militar da Mealhada de 1946 e da «Abrilada» de 1947.
Se o rescaldo da II Guerra Mundial foi um momento conturbado para o regime, o período entre 1958, na sequência das eleições presidenciais de Humberto Delgado, e 1962, aquando das manifestações estudantis, também fez perigar a estabilidade do Estado Novo.
A candidatura independente do General Humberto Delgado às eleições presidenciais de 1958 originou um verdadeiro terramoto político, representando uma crise séria que o regime teve de enfrentar. O governo reprimiu a agitação popular que varreu o país e impôs a farsa eleitoral que deu a vitória ao candidato da União Nacional, o almirante Américo Tomás. Diga-se que durante o «terramoto delgadista» a continuidade do regime foi assegurada pelas Forças Armadas, que se mantiveram coesas em redor do regime.
40 A vitória dos regimes democráticos exigiu maiores cuidados terminológicos, daí que a polícia política
passou a ter outra designação, em 1945. O decreto-lei n.º 35 046 de 22 de outubro de 1945 cria a PIDE, revogando o decreto-lei n.º 22 992, referente à criação da PVDE.
41 Irene Flunser Pimentel, A História da PIDE, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 6ª edição, 2009, p. 31 42 Ibidem, p. 32
43 Irene Pimentel, O Tribunal Plenário, Instrumento de justiça política do Estado Novo, Intervenção proferida no
Colóquio Internacional Administração e Justiças na Res Publica, Universidade do Minho, Braga, 15 e 16 março de 2010
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Em março do ano seguinte, e na sequência da fraude eleitoral das eleições presidenciais, ocorreu o «golpe da Sé», a malograda conspiração civil e militar que pretendia derrubar o governo de Salazar e que a polícia conseguiu travar com antecedência.
O ano de 1961, conhecido como o «ano de todas as crises» a que Salazar sobreviveu, o annus horribilis do regime, iniciou-se com o assalto ao Santa Maria por Henrique Galvão. Foi também o ano do assalto a um avião da TAP por Hermínio da Palma Inácio; o ano em que estalou a guerra colonial em Angola e que mais tarde se estendeu aos outros territórios coloniais portugueses em África e que se registou a fuga da prisão45 de Caxias no carro blindado de Salazar de vários dirigentes do PCP. Foi o ano em
que Portugal viu os seus territórios de Goa, Damão e Diu, na Índia ocupados pela União Indiana e que se assistiu, no último dia do ano, à tentativa insurrecional no quartel de Beja.
O regime teve ainda de enfrentar, em 1962, a grave crise académica de Lisboa e de Coimbra, que levou à greve às aulas e aos exames e que se traduziu num grande momento de contestação estudantil ao governo. Para além disso, verificaram-se várias manifestações de populares convocadas pelo PCP e de trabalhadores rurais a exigir a redução do horário de trabalho.
Perante este cenário de agitação social o regime reagiu duramente, sendo a «repressão, e até o crime, como último recurso para a defesa do regime a resposta sistemática à radicalização das oposições»46. Nestes períodos as prisões eram povoadas por
um maior número de presos políticos.
O Boletim da Comissão Central do Movimento Nacional Democrático de julho de 1952, por exemplo, acusava o governo de aumentar as «suas forças repressivas, com violência cada vez maior»47, perante a sua incapacidade de abafar os protestos crescentes
das massas populares, dando conhecimento, através da elaboração de um panfleto clandestino, da ilegalidade das prisões e dos julgamentos de vários indivíduos detidos nesta altura. Já o jornal Avante! de janeiro de 1958 publicava que as «celas estão cheias de presos em rigoroso isolamento».48
Referência a um destes períodos de maior contestação ao regime surge, também, pela pena de Jaime Serra, no livro 12 Fugas das prisões de Salazar. Nesta altura, e coincidindo
45 Já no ano de 1960, a 3 de janeiro, se tinha assistido à fuga do Forte de Peniche de dez presos políticos. 46 Dicionário de História do Estado Novo, dir. Fernando Rosas e J. M. Brandão de Brito, Círculo de Leitores, vol.
II, p. 874
47 ANTT – GBT 8-Cx 80-Proc. P 23-N.º 386/52
48 Francisco Miguel, Das prisões à liberdade, Coleção Resistência, edições Avante! Texto organizado por
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igualmente com as obras que decorriam na cadeia do Forte de Caxias, Serra fala da grande concentração de presos políticos na cadeia do Aljube, em 1957. Algumas dessas prisões foram fruto das lutas estudantis, entre dezembro de 1956 e janeiro de 1957, em defesa da manutenção das Associações de Estudantes, que o decreto-lei n.º 40 900 de 12 de dezembro de 1956, queria controlar ferreamente.
O jornal Avante! de fevereiro de 1965 publicava igualmente a manifestação estudantil que decorreu junto da cadeia do Aljube, no dia 26 de janeiro. Centenas de estudantes e familiares dos presos concentraram-se ali para reivindicar a libertação dos estudantes presos na sequência da contestação ao sistema de ensino em vigor.
A atuação da polícia política, instituição ao serviço da ordem e do bem comum, velando pela segurança e pela consolidação do regime, era justificada pela tarefa «desagradável mas necessária» de usar da violência e do medo. E apesar das duas operações de cosmética de que foi alvo49, a polícia política do Estado nunca deixou de perder o
caráter de uma instituição fortemente repressiva. Assim, para além de representar uma instância de repressão, que punia todos os desvios à desejada «ordem», a polícia política era também, e mais que tudo, um instrumento fiscalizador e dissuasor, que controlava e oprimia todos os campos de convivência, limitando os direitos cívicos de todos os cidadãos portugueses. Por isso, «quando a sua capacidade «persuasiva» e «educadora» se revelava ineficaz»50, a polícia passava a ser um agente repressivo. Esta dupla face da violência
funcionou como garantia da durabilidade do regime.
Salazar, embora afirmasse que a força era «absolutamente indispensável na reconstrução de Portugal»51, estava consciente que esta teria de ser usada com prudência de
forma a assegurar a continuação da obra.
Na entrevista, dirigida por António Ferro, em 1932, quando o Presidente do Conselho de Ministros, foi confrontado com a prática de maus tratos perpetrada pela polícia aos presos políticos, afirmou que depois de averiguadas essas queixas, concluiu-se que os presos mentiam, na maioria dos casos, embora reconhecesse que algumas vezes falavam a verdade e nesses casos tomaram-se providências imediatas. Acrescentou que «os presos maltratados eram sempre, ou quase sempre, temíveis bombistas que se recusavam a
49 A primeira em 1945, época em que passou a designar-se Polícia Internacional de Defesa do Estado –
PIDE, e a segunda, quando Marcelo Caetano subiu ao poder, período em que passou a designar-se por Direção Geral de Segurança – DGS.
50 Maria da Conceição Ribeiro, A polícia política no Estado Novo 1926-1945, Editorial Estampa, 1995, p. 197 51 Fernando Rosas (pref.), in João Madeira, Irene Flunser Pimentel, Luís Farinha, Vítimas de Salazar, Estado
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confessar, apesar de todas as habilidades da Polícia, onde tinham escondido as suas armas criminosas e mortais. Só depois de empregar esses meios violentos é que eles se decidiam a dizer a verdade. E eu pergunto a mim próprio, continuando a reprimir tais abusos, se a vida de algumas crianças e de algumas pessoas indefesas não vale bem, não justifica largamente, meia dúzia de safanões a tempo nessas criaturas sinistras…».52 Legitimava-se, desta forma,
o uso da violência «sobre alguns como garantia da tranquilidade de todos»53.
Em resposta às acusações de torturas infligidas aos presos, neste caso concreto a um grupo de estudantes, feita no já mencionado n.º 7 do Bulletin de la Comission Internacionale de Juristes, de outubro de 1957, o Gabinete do Ministro refere que mandou averiguar a veracidade das acusações aos arguidos, que apresentavam «de facto, na região dorsal certos sinais de estrias que atribuía a flagelação com um cavalo-marinho». Mas depois do exame médico-legal, «provou tratar-se afinal duma vulgar alteração ou moléstia de pele, sem qualquer relação possível com algum traumatismo de natureza contundente»54.
Poucos portugueses escaparam à vigilância da polícia política, desde monárquicos a elementos das Forças Armadas, passando por católicos. No entanto, esta era mais apertada, quer de forma dissimulada quer ostensiva, sob os indivíduos reconhecidamente «desafetos ao regime», sob «todos aqueles que revelavam uma qualquer dissidência social, política e até religiosa em relação ao regime ditatorial»55.
Os «dossiers individuais de controlo», nome dado às fichas da PIDE, tinham descrições ao mais ínfimo pormenor sobre cada um dos indivíduos, sobre quem recaía a mais leve suspeita de colocar em causa a segurança do regime. Nas palavras de João Paulo Freire, para quem «transformar um crime político ou apenas uma divergência de ideais, num crime superior ao crime comum, para efeitos de castigo», era uma monstruosidade, bastava «uma simples suspeita, um engano, uma intriga…um simples capricho policial ou governamental, para atirar para o Aljube, durante meses, um cidadão pacífico»56.
Apesar de centrar as suas atenções, sobretudo nos grandes centros urbanos de Lisboa, do Porto e de Coimbra e nas zonas tradicionalmente desafetas ao regime, como por exemplo Beja, Évora, Setúbal e Barreiro, a teia da polícia política estendia-se a todos os recônditos lugares do país. Nos meios rurais, onde a implantação da polícia política era
52 António Ferro, prefácio de Oliveira Salazar, Salazar e a sua obra, Empresa Nacional de Publicidade, p. 82 53 Maria da Conceição Ribeiro, A polícia política no Estado Novo 1926-1945, Editorial Estampa, 1995, p. 229 54 Carta do Gabinete do Ministro em resposta ao n.º 7 do Bulletin de la Comission Internacionale de Juristes, de
outubro de 1957, in ANTT/AOS/CO/JU-3
55 Irene Flunser Pimentel, A História da PIDE, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2007, p. 22 56 Memórias dum jornalista [manuscrito]: 99 dias no Aljube, João Paulo Freire (Mário)
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mais fraca, a Polícia de Segurança Pública (PSP) e a Guarda Nacional Republicana (GNR) funcionavam como um importante escudo protetor do regime, servindo não só como um instrumento de prevenção/dissuasão, mas também como meio repressivo com autonomia para proceder a prisões.
Para além dos agentes da polícia, o regime contava ainda com uma série de colaboradores que, à mínima suspeita de atuação política considerada subversiva, sentia-se na obrigação de comunicar com a polícia. Esta «tecera uma teia tal que lhe permitia fazer de cada amigo um potencial denunciante, de cada colega um delator, de cada familiar um insuspeitado informador»57. Esta ampla rede de informadores contribuiu para aterrorizar a
população portuguesa, convencendo-a de que «os olhos panópticos da PIDE os vigiavam por todo o lado e que meio país denunciava outro meio»58. Esta rede de informadores,
associada à cultura da denúncia que caracterizava o comportamento de muitos portugueses, permitiu a difusão da imagem de uma polícia omnipotente e omnipresente.
A polícia usava também a interceção postal e as escutas telefónicas como instrumentos dissuasores de comportamentos desviantes.
No entanto,apesar da polícia política e da censura terem exercido um papel nodal quer na edificação, quer na manutenção dos princípios que enformaram o regime, este não logrou atingir o saneamento esperado, criando assim o mote que legitimaria o uso da violência punitiva.
No Estado Novo as prisões por motivos políticos tinham como principal objetivo desarticular as organizações e as ações dos opositores ao regime. Assim, para garantir a «ordem» e segurança do Estado e em «legítima defesa da Pátria», tomaram-se uma série de decisões políticas, administrativas ou policiais de forma a encarcerar ou banir todos aqueles que de alguma forma atentassem contra o regime. No período da Ditadura Militar, as cadeias políticas funcionavam como um depósito temporário dos presos acusados de atentar contra o poder. Estas tinham como principal função aniquilar politicamente os adversários, sobretudo sindicalistas, revilharistas e anarquistas, e por isso a deportação era usada de forma quase sistemática e arbitrária. Só a partir de 1932/33 é que se verificou uma reorganização séria da repressão. Para isso e procurando dar um caráter legal à necessidade de estabilidade do regime, criaram-se: o decreto-lei n.º 21 942 de 5 de dezembro de 1932 para regular a forma de punição dos delitos políticos e das infrações disciplinares de caráter
57 Nuno Vasco, Óscar Cardoso, A Bem da Nação, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1998, p. 20