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Capítulo IV: «Aljube, a história de uma prisão

II. Curros

Na fase em que decorriam os interrogatórios, os detidos eram colocados em celas individuais, em incomunicabilidade uns com os outros. Estas celas, na famosa sala 2161,

como lhe chamavam os carcereiros [figura 9], ficaram conhecidas como curros ou gavetas, dada a sua dimensão e pelo facto de estar mergulhadas, quase todo o dia, numa escuridão quase total.

Figura 9: Desenho da prisão de Jaime Serra – Sala 2 Fonte: PT-TT-PIDE-E010-96-19050 c0064

A atribuição do nome curro vem da semelhança entre as dimensões das celas dos presos e a dos curros onde se guardavam os touros na praça, antes de entrarem na arena. Tal como os presos ficavam limitados nos movimentos, nestes compartimentos de pequena dimensão, o animal fica impossibilitado de se mexer. Artur Pinto refere que a designação de gaveta vem da semelhança com o uso quotidiano que se faz das gavetas, ou seja, são locais onde se colocam coisas e aí ficam esquecidas, tal como os presos que aí ficavam até que a PIDE decidisse o seu destino.

161 Antes dos curros terem sido construídos, a sala 2 era uma sala coletiva com capacidade para

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O decreto lei n.º 26 643 de 28 de maio de 1936, à semelhança do que já acontecia com a lei de 1 de julho de 1867, defendia que os presos que ainda não tivessem sido julgados deveriam estar em isolamento, pelo menos por um período de trinta dias, apesar de deixar em aberto a possibilidade de prolongar esse espaço de tempo. Este isolamento pretendia assim garantir a genuinidade dos interrogatórios e impedir que os presos trocassem ideias, sobre os acontecimentos, entre si.

O preâmbulo do citado decreto tece duras críticas às edificações prisionais existentes, a quem imputa a responsabilidade de gerar resultados antagónicos aos objetivos delineados. Assim, e para responder a esta necessidade de garantir o isolamento dos presos na fase instrutória, procedeu-se à alteração interior da cadeia do Aljube, criando as celas para os presos em regime de incomunicabilidade.

Não foi possível, durante a investigação, chegar a uma data precisa sobre a edificação dos curros, no entanto, pelo testemunho de Francisco Miguel sabe-se que no início de janeiro de 1938, data correspondente à sua prisão, as celas de isolamento ainda não existiam no Aljube. Segundo este, depois de passar pela Rua António Maria Cardoso, foi levado para a Esquadra de Arroios, pois até à data os períodos de incomunicabilidade eram geralmente passados nas esquadras da polícia. Francisco Miguel esteve «cerca de sete meses incomunicável nas esquadras e, por último, na sala 2A do Aljube».162

A invisibilidade lateral e a permanente vigilância a que estavam sujeitos os presos incomunicáveis, refletiam uma medida de economia e eficiência do aparelho de vigilância, através do seu caráter preventivo. «Estar incessantemente debaixo dos olhos dum inspetor é perder de facto a capacidade de fazer o mal e mesmo sequer o pensamento de o desejar».163 A incomunicabilidade proporcionada pela separação das celas transformava o

preso num «objeto de informação e nunca sujeito de comunicação».164

As celas, alinhadas ao longo do corredor, constantemente vigiado pelos guardas, eram de tal forma pequenas que, quando se baixava os catres basculantes (bailiques), o preso ficava impedido de «passear». Nas gavetas ou curros do Aljube os presos eram lançados numa «enxovia estreitíssima, de um metro de largura por dois de comprimento»,165

162 Francisco Miguel, Das prisões à liberdade, Coleção Resistência, Edições Avante! Texto organizado por

Fernando Correia, Lisboa 1986, p. 45

163 Bentham, in José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal Uma biografia política – O Prisioneiro (1949-1960), vol. 3,

Temas e Debates, Lisboa, p. 156

164 Irene Flunser Pimentel, A História da PIDE, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 6ª edição, 2009, p. 414 165 Alexandre Manuel, Rogério Carapinha, Dias Neves (coord.), Pide a História da repressão, Jornal do Fundão,

Editora Fundão, p. 35; Aljube – a Voz das Vítimas, catálogo da exposição, Fundação Mário Soares, Instituto de História Contemporânea e Movimento Não Apaguem a Memória, Lisboa, 2011, p. 36

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limitando o movimento a três ou quatro passos para a frente e para trás. «Feitos à medida de um homem estendido ao comprido, os curros pareciam sarcófagos»166.

Carlos Brito, isolado cinco meses na cela 7 do Aljube, descreveu esta experiência penosa pois «uma pessoa com os braços abertos tocava nas duas paredes e o comprimento era pouco mais do que o de uma cama».167 Tal como se observa na figura 10, as celas dos

incomunicáveis, num total de treze, tinham sensivelmente a mesma largura, embora o comprimento fosse variável, sendo que as cinco primeiras apresentavam um comprimento menor. Existiam apenas dois corredores a separar os cerca de vinte metros por onde se estendiam todos os curros.

Figura 10: Cadeia do Aljube, 4.º pavimento, data provável 1956 Fonte: IHRU/SIPA – DES. 0109577 (armário 4, gaveta 2)

A largura da cela era de tal forma exígua que quando o bailique se abria, o preso ficasse apenas com vinte a vinte e cinco centímetros de espaço, ao ponto dos joelhos tocarem a parede, se o preso se sentasse no bailique.

Na memória descritiva, datada de novembro de 1957, proponha-se de demolição quase total do quarto e quinto pavimentos, de forma a «dar às celas individuais as medidas aproximadas às regulamentares e situar como se pretendia, um núcleo central rodeado por galerias para melhor circulação e consequente vigilância» [figura 11]. 168

166 Francisco Horta Catarino, in Irene Flunser Pimentel, A História da PIDE, Temas e Debates, Círculo de

Leitores, 6ª edição, 2009, p.432.

167 Entrevistas conduzidas por Miguel Medina, Esboços: antifascistas relatam as suas experiências nas prisões do

fascismo, Câmara Municipal de Lisboa, Imprensa Municipal, Lisboa, 1999, vol. 2, p. 11

168 No catálogo da exposição Aljube – A voz das Vítimas é sugerida para esta planta a data de 1943. No

entanto, a data sugerida é pouco provável. Assim, o que se apresenta a tracejado, neste caso as celas individuais dos presos em regime de incomunicabilidade, é aquilo que deve ser destruído e não o estudo para a sua construção. No decorrer da investigação verificou-se que pela numeração do armário e da gaveta em

63 Figura 11: Estudo das obras de remodelação e beneficiação da Cadeia do Aljube – 4.º e 5.ºpavimentos, planta correspondente à memória descritiva de novembro de 1957

Fonte: IHRU/SIPA – DES. 0109580 (armário 4; gaveta n.º 5; 9345)

No entanto, o ofício n.º 103/58 S.A. – 2ª. Secção de 6 de fevereiro de 1958, notifica que só o 4.º pavimento [figura 12]169 será alvo de remodelação, devido à ampliação do

depósito de presos no Reduto Norte do Forte de Caxias. Em consequência desta alteração pretendia-se que as celas existentes desaparecessem e fossem substituídas por outras em número correspondente ao das janelas, para que cada uma das camaratas recebesse diretamente ar e luz natural.

que o documento se encontra arquivado, a data é posterior à sugerida. Ou seja, os documentos encontram-se arquivados representando, o número do armário e da gaveta e do próprio documento, a antiguidade do mesmo. Quanto maior for o número da gaveta e do armário mais recente é o documento. Outro facto que permitiu chegar a esta conclusão prende-se com a memória descrita datada de novembro de 1957, que corresponde à planta apresentada e que se pode consultar no anexo (II).

169 Para esta planta o catálogo Aljube – A voz das vítimas também apresenta a data de 1943. No entanto, e

atendendo novamente ao número do armário, da gaveta, do documento e após a leitura dos documentos textuais, esta planta parece corresponder às alterações exigidas no ofício n.º 103/58, de fevereiro de 1958.

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Figura 12: Proposta de remodelação do 4.º pavimento da Cadeia do Aljube Fonte: IHRU/SIPA – DES. 0109583 (armário 4, gaveta 5, 9993)

Contudo, esta remodelação não chegou a efetivar-se, pois nela previa-se a destruição das celas dos incomunicáveis, representados na figura 5 a tracejado, facto que só ocorreu mais tarde, visto existirem relatos de testemunhas que na década de sessenta estiveram encarcerados nos chamados curros.

Aqui a luz e o ar entravam por um postigo de 15X20cm, filtrados através de duas férreas portas, postigo que permanecia permanentemente fechado, [figura 13] conferindo um caráter de semiobscuridade às celas. «A falta de luz estava associada a todo um quadro de tortura e de violência física e psicológica a que o preso estava submetido».170 Artur Pinto

afirma que «em dias sem sol, não se distinguia o dia da noite», situação que prolongava a angústia e ansiedade dos presos.

170 Carlos Brito, Tempo de Subversão, Páginas vividas da Resistência, 2.ª edição, Edições Nelson de Matos, 2011, p.

65 Figura 13: Fotografia da reconstituição de um curro feita para a exposição

Aljube – A voz das Vítimas

Fonte: Fotografia cedida por Artur Pinto, um dos fundadores do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória

Jaime Serra, nos desenhos que fez enquanto esteve em regime de incomunicabilidade, passou para papel o espaço que delimitava o seu horizonte visual e físico [figuras 14].

Figura 14: Desenho da prisão de Jaime Serra – Perspetiva do fundo da cela - 1949 Fonte: PT-TT-PIDE-E010-96-19050 c0064

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Paulo Freire, embora nunca tivesse estado nas celas incomunicáveis, descreve-as, pelas palavras dos outros presos, como sendo pequeníssimas, sem luz nem janela. Apresentadas como restos das clausuras inquisitoriais, estas celas eram a «antecâmara da loucura». Apesar disso, existia aquilo que era reconhecido com «um quarto bom», para incomunicáveis, no entanto, custava 20 escudos por dia.

No mais absoluto isolamento e solidão, os presos incomunicáveis esperavam pela ida aos interrogatórios na sede da PIDE. Numa inércia total o preso não tinha nada material com que ocupar o seu tempo, nem espaço para se mover, no seu horizonte apenas paredes escuras e frias. Varela Gomes refere que a maneira mais sensata e saudável de passar o tempo enquanto esteve preso no Aljube era imaginar-se hibernado, não mantendo qualquer relação com um calendário, de forma a não sentir no corpo o peso da eternidade que os dias pareciam ter.

Vivia-se a «obsessão do tempo imóvel»171, onde tudo se convertia em rotina. Carlos

Brito por seu lado contava o «tempo pelas únicas ocorrências regulares e significativas – as refeições e as rendições».172 Para Artur Pinto, por exemplo, o segredo estava em tentar

esquecer o tempo, sem lhe perder a noção.

Nas celas individuais do Aljube os dias não tinham história, mas a História irá marcar todos os dias que aqui foram vividos.

Ao preso era distribuída uma enxerga apenas com alguma palha e duas mantas, normalmente sujas, já que passavam muito tempo sem serem lavadas. A cadeia não fornecia nem lençóis, nem fronhas, que no entanto podiam ser fornecidos pela família do preso.

Durante o período em que o preso permanecia incomunicável, era-lhe negado o acesso a qualquer material de leitura (livro ou jornal). Apenas chegavam, pontualmente e depois de devidamente censuradas, as cartas de familiares. Carlos Brito referiu que só depois de decorrido aproximadamente um mês e meio desde a sua entrada no Aljube, é que lhe permitiram a entrada de um jornal diário (O Século ou o Diário de Notícias) e que no terceiro, dos cinco meses que passou em incomunicabilidade, teve autorização para receber livros. Na época, disse ler duas vezes a obra-prima de Eça de Queirós, Os Maias.

171 Varela Gomes, Tempo de resistência, 1º período: prisão-hospital (1 jan. a 19 mar. 1962),2º período: Aljube (19 mar. a

set. 1962), Ler editora, Lisboa, 1980, parte I, p. 115

172 Carlos Brito, Tempo de Subversão, Páginas vividas da Resistência, 2.ª edição, Edições Nelson de Matos, 2011, p.

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Contudo, na fase mais intensa dos interrogatórios os presos ficavam isolados do mundo exterior. Tinham apenas contacto com o carcereiro que lhe distribuía as refeições.

Neste espaço físico só o casqueiro de pão que era distribuído diariamente podia fazer companhia ao preso. Tudo o resto ficava fora do seu alcance, inclusive a muda de roupa, o cinto, os cordões dos sapatos ou alguns utensílios higiénicos. Ali, como descreve um dos presos «reinavam a solidão, o silêncio quase absoluto, a escuridão. Entrava-se noutro mundo»,173 ali, «onde o badalar dos sinos da Sé, o barulho das chaves ou uma porta

a bater soavam como estrondo imenso».174 Imperava um silêncio mortal, como se não

existisse vida para lá das portas fechadas dos outros curros. Era proibido falar e qualquer infração era duramente punida.

No isolamento da prisão até os pequenos gestos do dia a dia eram motivo de uma cuidada apreciação. As pequenas coisas aqui tomavam dimensões que só a imaginação de cada um podia limitar. O tempo que se passava nos curros permitia ao preso um contínuo jogo de memória, porque, entre quatro paredes, numa quase permanente ociosidade, só os pensamentos ajudavam o tempo a passar.

«Captar todos os sons que chegavam do exterior, rememoriar livros ou filmes, resolver contas de cabeça, fazer ginástica no espaço exíguo, trautear canções de resistência, “jogar à bola” – uma meia cheia de miolo de pão -, comunicar com os curros vizinhos, eram algumas das formas de aguentar as duras condições da prisão e do isolamento»175.

Jaime Serra, na sua segunda prisão, em março de 1949, na sequência da promoção da candidatura do general Norton de Matos, permaneceu seis meses incomunicável numa cela de 2 metros por 1,5 metros, sem cama, apenas com um bailique que se levantava durante o dia para que ele pudesse passear. Com um bocado de lápis, que a sua mulher conseguiu camuflar dentro de uma peça de fruta e com papel higiénico, fazia desenhos que o ajudavam a passar o tempo [alguns dos desenhos encontram-se aqui retratados]. Apesar de não ter alucinações, o facto de estar às escuras, fazia com que ele visse figuras na parede, que depois passava para o papel. Para além desses desenhos, Jaime Serra também fez sair para o exterior várias mensagens, escritas no interior das mangas das camisas ou em folhas

173 Aljube – a Voz das Vítimas, catálogo da exposição, Fundação Mário Soares, Instituto de História

Contemporânea e Movimento Não Apaguem a Memória, Lisboa, 2011, p. 36

174 Idem

175 Aljube – a Voz das Vítimas, catálogo da exposição, Fundação Mário Soares, Instituto de História

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de mortalha 176. Algumas destas mensagens foram apreendidas pela PIDE, como ilustram as

figuras 7 e 8 apresentadas no início deste capítulo [subtema – Os Interrogatórios, pág. 59]. Na sua obra Eles têm o direito de saber, Serra177 contou que este tempo em que esteve

no Aljube foi de facto muito difícil, «sem livros, sem jornais, sem poder escrever e sem visitas, tinha de inventar formas de fazer passar o tempo».178 A única fuga possível ao

espaço exíguo em que se encontrava era as súbitas chamadas à sede da PIDE para ser interrogado, intercalados com uns dias de estátua.

Sérgio Ribeiro, preso a 17 de maio de 1963, no seu livro Porque vivi e quero contar, ao descrever aquilo que era o seu mundo no Aljube, que «alternava entre um metro e sessenta por um metro e dez, quando de pé, e um metro e oitenta por sessenta centímetros, quando deitado»,179 já que com a tarimba levantada tinha 3 passos de comprimento por 2 passos de

largura para «passear», fala da imensa alegria que sentiu, quando depois de alguns dias no isolamento do seu curro descobriu que a diagonal trazia uma nova dimensão ao espaço físico que o encarcerava.

Carlos Brito lembra que a poesia foi a sua grande companheira na fase da incomunicabilidade. Impôs a si mesmo um tempo diário que dedicava a recitar poemas de autores como Florbela Espanca, Miguel Torga, Cesário Verde ou Camões e para compor alguns originais. Este exercício era de importância vital para a sua saúde física e moral, pois para além de exercitar a memória e de fazer uso da sua voz, já que recitava os poemas a meia voz, também o ajudava a quebrar a inatividade a que a prisão o votava.

Na cela disciplinar, n.º 14 [figura 15], situada no final do corredor transversal ao lado da retrete e do chuveiro, o isolamento era ainda mais difícil. Aqui a escuridão era praticamente total, o silêncio absoluto, a incomunicabilidade com os outros presos quase perfeita, o acesso às visitas familiares proibido. José Dias Coelho, na obra A Resistência em Portugal, diz que esta era a pior das celas «todo em cimento e completamente interior, sem luz e quase sem ar, onde é impossível viver, mas que está constantemente habitado por presos castigados».180 Carlos Brito, que também a experimentou, afirma que esta era a

176 Jaime Serra, Eles têm o direito de saber, Coleção Resistência, Edições Avante!, Lisboa, 1997, p. 66

177 Jaime Serra experimentou novamente a agonia de estar no Aljube em prisões posteriores, em 1954 e em

1958.

178 Jaime Serra, Eles têm o direito de saber, Coleção Resistência, Edições Avante!, Lisboa, 1997, p. 67

179 Sérgio Ribeiro, Porque Vivi e Quero Contar, Prelo editora/Editorial estampa, 1ª edição, Lisboa, 1983, p. 33 180 José Dias Coelho, A resistência em Portugal, Coleção Resistência, Edições Avante!, Lisboa, 2006,p. 146

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prova que «havia sempre um patamar ainda pior do que aquele em que se estava, por pior que fosse».181

Figura 15: Indicação a vermelho da cela n.º 14, Cadeia do Aljube, 4.º pavimento, data provável 1956 Fonte: IHRU/SIPA – DES. 0109577 (armário 4, gaveta 2)

Francisco Miguel esteve mais de três meses incomunicável na cela 14, «considerada a mais escura daquela já de si sombria e fria cadeia»,182 na sequência da sua prisão em

dezembro de 1939. Descreve estes dias como sendo terríveis, «vividos num outro mundo, rodeado de silêncio e imerso nas trevas, onde a resistência só é possível graças a uma grande força interior, a uma firmeza e determinação inabaláveis».183

O isolamento tinha um implacável efeito demolidor na resistência moral do preso. Ao manter o preso incomunicável com o mundo exterior, os guardas da PIDE pretendiam torná-lo mais vulnerável e como tal mais facilmente manipulável. Era a tentativa de liquidação intelectual e anímica pela via do isolamento e da incomunicabilidade. Este isolamento era depois combinado com a «dureza do tratamento policial, nomeadamente com uma alimentação mal confecionada e insuficiente, muitas vezes excessivamente salgada, reduzindo-se em seguida a distribuição de água».184

A estratégia era levar o preso a desesperar pela incerteza do seu futuro, de tal forma que quando fosse interrompido o seu isolamento, pela presença de um torcionário

181 Carlos Brito, Tempo de Subversão, Páginas vividas da Resistência, 2.ª edição, Edições Nelson de Matos, 2011, p.

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182Francisco Miguel, Das prisões à liberdade, Coleção Resistência, Edições Avante! Texto organizado por

Fernando Correia, Lisboa 1986, p. 52

183Idem

184 Maria da Conceição Ribeiro, A polícia política no Estado Novo 1926-1945, Editorial Estampa, 1995, pp. 234 e

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empregando um discurso mais suave, aparentemente mais simpático, o preso cedia ao novo interrogatório com maior facilidade. Para Edmundo Pedro foi na «determinação, na autoconfiança e na imaginação» que conseguiu arranjar forças para suportar o isolamento.185

Numa tentativa de quebrar o isolamento muitos presos comunicavam entre si, dando leves pancadas na parede e usando um código primário em que cada pancada correspondia a uma letra do alfabeto. Assim, uma pancada correspondia ao A; duas ao B e assim sucessivamente. O objetivo era transmitir pequenas mensagens aos companheiros das celas vizinhas, sistema que para além de ser muito moroso, exigia uma grande proficiência. As mesmas mensagens eram, por vezes, repetidas horas a fio, na esperança que, por um lado, fossem corretamente entendidas e, por outro, tivessem resposta.

Joaquim Pires Jorge, nas suas notas autobiográficas intituladas Com uma imensa alegria, afirma que esta era uma chave clássica sobejamente conhecida, inclusive dos guardas. Por isso, existia também uma outra chave em que a estratégia usada era a «de escrever todo o alfabeto numa quadrícula de 5 por 5».186 O A era 1+1, o B o 1+2, o C 1+3,

o D 1+4 e o E 1+5. Depois o F era o 2+1, o G 2+2, o H 2+3, o I 2+4 e o J 2+5 e assim sucessivamente. Esta era a única fuga possível ao tédio e ao isolamento total a que eram votados os presos.

No entanto, este tipo de comunicação era perigosa e era necessário ter muito cuidado nas mensagens que se transmitiam, pois a polícia, para obter denúncias, também chegou a usar esta estratégia. Ou seja, colocava-se numa cela e através de pancadas na parede comunicava com o preso da cela contígua, conquistando a sua atenção e confiança, para o levar a falar.

Outro esquema que os presos usavam para transmitir informações, notícias ou instruções uns aos outros era através do «truque do espelho à janela».187 Cada passagem do

dedo em frente do espelho correspondia a um código de letras, transmitindo-se desta forma a mensagem pretendida a outra sala, onde um camarada, através do seu espelho, conseguia ver o do outro. Para além desta estratégia, alguns presos recorriam a uma

No documento Aljube, uma cadeia política (páginas 74-86)

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