CIDADE: ESPAÇO DA ALIENAÇÃO
Ivone dos Santos Portilho1
RESUMO:
Este estudo tem como objetivo a compreensão do ambiente urbano buscando entender as formas de alienação desse espaço no universo do seu morador. Discutiremos como o urbano é programado pelos diversos agentes que modulam a cidade e como o planejamento do morar se transforma em terrorismo para o morador. Buscaremos fazer tal análise a partir do papel do trabalhador na construção de um espaço do qual ele desconhece a lógica de funcionamento mas se apropria dela, transformando-a e construindo o lugar a partir de uma estratégia de sobrevivência em um espaço programado a sua revelia.
Palavras-chave: Cidade. Lugar. Alienação. Localização
1. A ESTRUTURAÇÃO DA CIDADE
A sociedade capitalista tem na cidade o palco das atividades industriais e do comércio que, a cada dia se intensifica ainda mais como produto da divisão do trabalho, essa divisão concentra na cidade as atividades secundárias e terciárias, essa atividades possuem o poder de atrair um contingente populacional ávidos pelas possibilidades de conquistas criadas pela cidade. População que, no processo engendrado pelo capital, é expulso do campo e chega a cidade como parte de uma mesma dinâmica.
A consolidação do modo de vida urbano foi conseqüência das transformações ocorridas no século XVIII e XIX, essas transformações exigiram uma mudança de estrutura referente ao comportamento, costumes e idéias. O modelo de vida urbano foi constituído pela automação de atos, pela homogeneização e pela programação do tempo e do espaço. A cidade, pela diversidade que apresenta em idéias, pessoas e sentimentos, cria a ilusão de que nela cabe o mundo. O mundo da proximidade do convívio cotidiano, dos encontros, dos desencontros. Parece o lugar do encontro mas, se revela também o lugar da solidão na multidão. Este mesmo lugar é visto como o lugar das possibilidades. Possibilidade do convívio social, da apropriação,
da luta pelo direito, pela cidadania, da construção dos lugares, do ser. A cidade, esse lugar de tantas identidades, precisa de normas para seu bom funcionamento.
A maioria da população mundial, vive em cidades, de acordo com a ONU. Nesse ambiente, produze-se a maioria daquilo que é consumido no mundo. Essa mudança na localização da população consolida um modo de vida urbano num tempo cada vez mais acelerado. O contínuo aumento da população morando em cidades, exige uma organização da produção espacial do lugar para sustentar a estrutura econômica, social e política. Diante de tal realidade nasce a estruturação do planejamento da urbano que tem neste recurso a estratégia de definição das demanda a serem atendidas e como serão atendidas. O atendimento das necessidades da população tanto na cidade como no campo tem uma escolha política clara. Fixos e fluxos precisam ser organizados de maneira que o meio urbano mantenha uma dinâmica ajustada aos interesses dominantes. Como atesta Jameson (1996), o capitalismo é um sistema de produção que vive em crises cíclicas causadas em determinados momentos por grande produção e em outros momentos por recessão. Para tanto, necessita ajustar a organização das relações de trabalho dada as exigências de cada momento histórico. No momento atual, a flexibilização da economia e o projeto neoliberal que substituiu o Estado de Bem-Estar social sobrecarrega o trabalhador com despesas em serviços como saúde, educação e habitação, além das exigências de especialização e qualificação diversificada. O avanço tecnológico, o baixo desenvolvimento econômico e a automação são apontados como elementos agravantes da crise de início de século que tem no desemprego estrutural a conseqüência mais cruel para o trabalhador.
Do fordismo em que o trabalhador não passava de uma espécie de extensão da máquina de produção em massa que operava ao atual estilo de produção flexível há cada vez mais exigências acerca da formação e capacidade do trabalhador que é chamado de colaborador, membro da família empresarial e assim sendo, esse trabalhador, precisa ter opinião, tomar decisão e assumir riscos. Essa lógica de produção requer mão-de-obra qualificada, intuitiva e criativa. Qualidades que foram embotadas por décadas no processo de produção fordista que antecipou o atual momento.
Nesse contexto de tamanhas mudanças a cidade mantém-se como o lugar do capital, ela torna-se um valor de troca. É em essência o locus da concentração dos
também um elo na divisão espacial do trabalho na totalidade do espaço (CARLOS, 1995).
Para que a cidade desenvolva seu papel de lugar do capital é necessário que esta se apresente organizada com seus diversos elementos constituintes devidamente localizados em espaços específicos permitindo o ciclo permanente de produção/distribuição. Assim, a escola, o escritório, a fábrica, o comércio, o abastado, o despossuído precisam ocupar espaços de acordo com um modelo de planejamento, em outras palavras, devem estar no seu devido lugar. Tal organização constitui uma paisagem fragmentada pela divisão do trabalho e ao mesmo tempo articulada para atender aos interesses do capital e daqueles que nela vivem. Desta maneira, a cidade reflete seus contrastes sociais e de classes. Para que a cidade se realize como lugar de consumo, os agentes produtores da cidade criam estratégias de organização desse ambiente através da manipulação da informação e da circulação dos homens e das idéias. As estratégias de manipulação do ambiente da cidade impõem regras e não permite a apropriação da cidade de forma justa. O que chamamos de ordem vai permeando as relações humanas em todas as suas esferas. A ordem planejada por um grupo reflete um meio de grandes contrates.
A determinação das localizações na cidade dada pelo planejamento vai mantendo o equilíbrio da sociedade burocrática de consumo dirigido. Tudo é planejado pelo representante da classe dominante: o Estado. Se a cidade, desde suas ruas, calçadas, prédios, praças e casas é planejada, e planejada pelo Estado, que é o representante da classe dominante, esse planejamento não poderia ser de maneira nenhuma neutro. Com o poder de legislar e executar as ações que programam o ambiente urbano, o Estado não fica ileso de pressões dos diversos agentes que fazem e refazem a cidade. O Estado é o principal agente programador do urbano não necessitando de muito esforço ao observar as diversas paisagens da cidade para perceber as ações de controle do Estado no que diz respeito a oferta de serviços públicos, a infra-estrutura, a arrecadação e distribuição de benfeitorias. A localização do morar, do lazer, da produção, do comércio tudo é determinado pelo poder público que regulamenta o uso da cidade e expulsa dela aqueles que não podem pagar por ela.
Todavia, o Estado não poderia manter-se atendendo apenas a classe dominante no beneficiamento da maximização de lucros e retornos de investimentos, uma vez que o solo urbano é visto como fonte de renda, valor e troca. É necessário que o Estado administre a luta de classes atendendo a interesses dos excluídos como forma de amenizar e embotar a realidade conflitante existente na cidade que, mesmo quando atende as demandas dos trabalhadores, adota estratégias que, quase sempre, revertem-se em ganhos para o capitalista no atendimento de necessidades que objetiva a melhoria de vida dos trabalhadores, melhorias que se voltam contra o trabalhador, exemplo disso é a oferta de serviços público como pavimentação de ruas na periferia que em pouco tempo ajudam a elevar os impostos e vão expulsando seus antigos moradores que não poderão mais pagar pelos novos valores trazidos pelo benefício conquistado.
A cidade oferece, para aqueles que podem pagar, opções das mais sofisticadas as menos elaboradas em termos de moradia desde mansões até apartamentos de médio e pequeno porte com acesso a infra-estrutura urbana e algumas em algumas dessas habitações, até podem desfrutar de amenidades como visão do mar, da floresta, do pôr-do-sol. Mas, mesmo com todo o acesso a cidade não oculta outro lado: poluição, trânsito problemático, violência, a miséria nas ruas, enfim, o lado perverso da cidade moderna. Para aqueles que não conseguem pagar pelas boas coisas da cidade esta se mostra perversa como na necessidade de deslocamento a grandes distâncias que precisa ser percorrida entre o trabalho e a casa todos os dias em ônibus lotado, a falta de segurança, de dinheiro, de alimentos, de saúde, de moradia. Mesmo que se esforcem e se desdobrem em atividades diferentes nem sempre é possível pagar por um lugar e as pontes e viadutos passam a servir de abrigo para aqueles que não possuem recursos suficientes nas grandes cidades.
A casa própria, nem sempre representa um conforto ou uma opção melhor de qualidade de vida, mas que isso, significa ficar livre do aluguel, não importando se melhor ou pior do que antes. O interessante é libertar-se da carga que representa os gastos com aluguel na cidade.
A problemática da moradia nas cidades médias e cidades pequenas mudam de intensidade, ritmo, mas não de natureza. É comum encontrar nessas cidades habitações em condições de miséria, problema de transporte coletivo e saneamento tão graves e profundos como das grandes cidade, bem como a violência, o medo e a insegurança.
O estilo de vida individualizado e agitado comum nas nas metrópoles ainda não chegou a maioria das cidades pequenas onde as relações de vizinhanças e de solidariedade figura como uma marca destas cidades. Nas cidades pequenas determinadas comportamentos de convívio ainda se mantém como prática comum de relações entre os moradores. Mas problemas como o acesso a moradia fazem parte do dia-a-dia dessas cidades caracteristicas das estruturas desiguais do modelo capitalista.
O Brasil possui uma soma significativa de déficit habitacional. Diante do difícil acesso a esse bem, a casa própria é parte do sonho de muitos trabalhadores. Ter para onde voltar no final do dia de trabalho é representação de segurança e não apenas uma busca de status de proprietário. Limitado pelo estatuto de propriedade privada do
Diante do contexto de necessidades e lutas por moradia no País, das vilas operárias no início do século XX - instrumentos de redução de custos e de controle de gastos com os trabalhadores via empresas -, até os casebre miseráveis e as favelas ao longo do século, a luta pela moradia viveu instantes marcantes. Na década de 1960, os militares, que através de um golpe, chegam ao poder, elaboraramm uma política habitacional para o país. Militares no poder, o Estado promoveu o desenvolviemento da cosntrução civil e do mercado imobiliário tendo, o Estado, assumido para si o financiamento das infra-estruturas. Paralelo a essa dinâmica incutiu-se na cabeça do trabalhador a ideologia das facilidades da casa própria a partir do Banco Nacional de Habitação (BNH) como parte da política habitacional que financiava casas populares em prazos de até vinte e cinco anos. Os recursos para o financiamento vinham do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), que recolhia 8% do salário do trabalhador.
Da mesma maneira que as vilas operárias, os conjuntos habitacionais construidos pelo BNH, não deram conta de resolver os problema da moradia. Mas o trabalhador ficou por longo tempo refém das prestações da casa própria consequentemente depente de uma fonte de renda, um emprego.
Na década de 1980, com o fim da ditadura militar, a politica habitacional também se altera, o BNH é extinto e a Caixa Econômica Federal passa a ser o responsável pelo financiamento da casa própria que em nada melhorou as condições de fiananciamento nem promoveu políticas mais eficazes de acesso a moradia. Essa constatação nos revela o caráter implícito das políticas habitacionais: a manutanção da crise habitacional para atender interesse financeiros, econômicos e políticos de uma classe.
3. A CIDADE COMO LUGAR DA ALIENAÇÃO
Engels (1976), ao analisar a cidade de Londres, afirma que a questão da moradia é um problema estrutural do capitalismo, uma vez que a raiz do problema está na propriedade privada do solo urbano, na concentração dos meios de produção nas mãos de um grupo e na exploração do trabalhador, estrutura esta, que pouco se alterou ao londo do século XX. E mesmo para aqueles que conseguem uma casa o direito a cidade não é garantido, para o morador, a luta pela cidade se mantém no cotidiano.
A alienação do trabalhador se apresenta como uma das características da sociedade de consumo dirigido, isto é, a separação entre o trabalhador, os meios de produção e o produto do trabalho. No entendimento de Bottmore (1993), a alienação é sempre de si próprio ou a auto-alienação, a alienação do homem em relação a si mesmo (as suas possibilidades humanas), através dele próprio. A alienação de si mesmo não é apenas uma entre outras formas de alienação, mas a essência e a estrutura básica da alienação.
Mészários (2006), afirma que ao estudar a alienação, Marx aprofunda a investigação nos aspectos históricos e sistemáticos-estruturais, as formas de pensamento que dão suporte a tal estado de reprodução do ser. A auto-alienação de si e a alienação do trabalho espraia-se pelos demais campos da existência humana.
A existência dessa alienação do trabalhador dá as cidades um perfil em que se percebe a alienação da relação com o meio, uma vez que a cidade, é, segundo Correa (1989), a própria sociedade em uma de suas dimensões, a mais aparente, materializada nas formas espaciais. Esse processo de alienação se mostra como empecilho na conquista do direito à cidade, da construção da cidadania, da consciência de si enquanto sujeito de sua história, da consciência do que é a cidade.
O processo de produção socializada e a apropriação privada da riqueza produzida coloca o homem em uma cena de estranhamento com o produto de seu trabalho, de seu meio. Assim, este ser, perde a idéia de sujeito histórico capaz de se engendrar mudanças no rumo de sua existência. Nesse estágio não conhece a si mesmo nem tão pouco o outro. Há um estranhamento de si, do outro, do meio. O estranhamento se faz também com relação a natureza, marcada pela necessidade de sobrevivência em uma sociedade que tem como marca principal relações desiguais e de exploração que se estabelecem em função do lucro. O homem, além de alienado do trabalho, das idéias, do lazer e do ambiente que o cerca vive em uma sociedade na qual os objetos são criados decididamente para o uso da racionalidade, fazendo-se esses os objetos estranhos a ele, corroborando uma alienação que se apresenta em todas as esferas da vida (SANTOS, 1996).
O ambiente urbano, programado, sugerindo comportamentos, obedece a mesma lógica de alienação. A definição do que fazer, onde fazer, como fazer são regras que impõe barreiras a apropriação da cidade e a construção de elos entre o habitante e o lugar, reforçando o processo de estranhamento. O homem não se reconhece no produto de seu trabalho, a cidade, o que vem a reforçar a alienação deste. Um figurante na sociedade burocrática de consumo dirigido envolvido por uma cultura que lhe é estranha mas que é de maneira fácil absorvida e consumida. Reforçada pelo avanço das tecnologias de comunicação e da informação, a alienação, impõe um ritmo de vida com a impressão de que tudo é fugaz e a felicidade jamais será alcançada, ou essa felicidade está no consumo de mercadoria que obedece o ciclo de reprodução do capital criando e alterando fluxos e fixos impondo uma racionalidade que não abarca a todos, ao contrário, exclui cada vez mais pessoas do acesso as novidades tecnológicas do nosso tempo e da compreensão da dinâmica global que sempre muito veloz. A felicidade pode estar no próximo objeto (estranho) a ser adquirido.
Assim, o homem anda pela cidade sem saber o que busca de fato, relaciona-se com objetos eletrônicos até mais que com pessoas e distancia-relaciona-se do real e, mergulhando no imaginário vai perdendo a noção dos fatos que acontecem no dia-a-dia. Num viver que mantém uma relação de estranhamento com a natureza, com a cidade, com o outro, com ele mesmo. A felicidade que não se completa em um cotidiano cada vez mais programado e limitado. Programação que vem junto com o obstáculo do reconhecimento do seu lugar na cidade pelo homem.
através de atitudes extremadas é geradora de violências mas que também pode ser geradora da festa, da alegria, das pequenas soluções diárias que se constroem no silêncio gestando novas maneiras de lidar com o programado.
Segundo Carlos (1996), as duas dimensões do cotidiano: o estranhamento e o reconhecimento marcado pela riqueza existente na relação do homem com o seu lugar de moradia, de trabalho e de lazer por mais alienado que seja, ainda assim, o homem se reconhece em algum momento em algum lugar.
A cidade nas suas diversas instâncias revela estratégias de sobrevivência a todo momento. O reconhecimento, a apropriação do ambiente urbano, do bairro, da rua são práticas que rompem com as determinações impostas, mesmo que não haja por parte do morador da cidade a percepção de tal fato. A tomada de cosnciência dessa programação imposta pode fornecer os elementos que subsidie a compreensão da sociedade urbana e indique novos caminhos para a superação deste modelo que aí está.
Para concluir, nos ocuparemos da importante contribuição ao entendimento geográfico do lugar que é dado por Martins (2009): o sentido de localização. Já vimos que a cidade e seus lugares específicos determinam as tramas de relações. Essa trama de relações precisa ser entendida a partir do sentido de localização, saber onde estou, porque estou aqui e não ali e, porque a localização do outro é aquela. Responder tais questionamentos e, mais que isso, saber quem é o outro e ter noção do quanto ele me define pode explicar muito mais da nossa geografia urbana do que imaginamos. Para o autor, é a partir da cosnciência da localização de si e das coisas em geral em relação ao outros que podemos compreender uma realidade que não se ordena aleatoriamente, ao contrário, obedece a um motivo claro de distribuição. A localização é relativa, e isso, nada mais é que a existência. A partir desse entendimento é possível desvendar o sentido geográfico do lugar. Responder os questionamentos de onde estão as coisas e porque estão onde estão pode representar a contribuição da geografia no entendimento do sentido da complexidade urbana.
3. Bibliografia
CARLOS, A. F. A (re)produção de espaço urbano. São Paulo: Edusp, 1995. CORREA, R. L. A rede urbana. São Paulo: Ática, 1989
LEFEBVRE, H. O direito à cidade. São Paulo: Ed. Moraes, 1991.