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Percepções sobre educação ambiental entre professores e estudantes da EJA / Perceptions on environmental education between EJA educators

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761

Percepções sobre educação ambiental entre professores e estudantes da

EJA

Perceptions on environmental education between EJA educators

DOI:10.34117/bjdv6n3-348

Recebimento dos originais: 10/02/2020 Aceitação para publicação: 24/03/2020

Ione Coelho de Sousa

Mestranda do Programa de Pós-Graduação EAD pela Atenas CollegeUniversity. Docente da Rede Estadual de Pernambuco

E-mail: [email protected]

Silmia Pereira Alves da Silva

Mestranda do Programa de Pós-Graduação EAD pela Atenas CollegeUniversity. Docente da Rede Estadual de Pernambuco.

E-mail: [email protected]

Laís Coelho Amorim

Pós graduação Especialização em educação, cidadania e pobreza UFPI. E-mail: [email protected]

José Gusmão Coutinho

Doutor em Biologia pela Faculdade UFPE. Professor dasFaculdades Alpha e Unibra, Pernambuco.

E-mail: [email protected]

RESUMO

A dimensão ambiental da educação é um instrumento importante de transformação social. Este artigo tem por objetivo investigar as percepções sobre Educação Ambiental dos professores e estudantes de uma escola da rede pública estadual de Petrolina-PE, bem como de que forma o tema está sendo desenvolvido em sala de aula, considerando o potencial que tem a Educação Ambiental de contribuir para a reorientação teórico-metodológica e formação cidadã. Ao final, conclui-se que a inserção da temática ambiental no planejamento escolar ainda é um desafio importante para a Instituição, porém há forte aliada: a ecopedagogia. Ela dispõe de estratégia pedagógica capaz de transformar o ato pedagógico em um ato político e libertador.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761

ABSTRACT

The environmental dimension of education is an important instrument of social transformation. This article aims to investigate the perceptions about environmental education of educators and students of a school of the Petrolina-PE state public network, as well as how the theme is being developed in the classroom, considering the potential of environmental education. to contribute to the theoretical-methodological reorientation and citizen formation. In the end, it is concluded that the inclusion of environmental issues in school planning is still an important challenge for the institution, but there is a strong ally: ecopedagogy. It has a pedagogical strategy capable of transforming the pedagogical act into a liberating political act.

Keywords: Environmental Education; Ecopedagogy; Citizenship

1 INTRODUÇÃO

Nas últimas décadasa humanidade vem passando por profundas transformações econômicas, culturais e socioambientais, refletindo diretamente no meio ambiente, este que é afetado pela atividade humana devido ao modelo de progresso que está em prática, colocando as sociedades contemporâneas diante de um de seus maiores desafios – estabelecer a harmonia do humano com o meio no qual está inserido.

Há quem diga que estamos nos autodestruindo e fatos como a Revolução Industrial, o crescimento populacional, o advento das inovações científicas etecnológicas têm contribuídopara a sociedade do consumo que tanto ameaça a vida dos ecossistemas da Terra. Somando-se a essas questões, a maior parte da humanidade migrou da zona rural para a urbana, tornando a crise socioambiental ainda mais complexa.

As décadas de 60 e 70 foram marcadas por importantes manifestações, as quais levantaram diversas bandeiras, como a reivindicação para a não destruição do planeta e não violência; tivemos ainda o movimento das feministas que lutaram por liberdade, igualdade e juntamente com hippiesse juntaram em defesa do meio ambiente, dando início a um amplo debate político e científico sobre o tema na Conferência de Estocolmo, em 1972.

No mesmo período houve muitos desequilíbrios socioambientais, como problemas climáticos, degradação, secas, enchentes, conflitos, consumismo, desertificação, miséria, intolerância e desigualdade social. Tais desequilíbrios sinalizaram (e sinalizam) a urgência de se pensar num currículo educacional de forma que desse conta de trazer para o ambiente acadêmico discussões e ações voltadas a esta realidade tão desastrosa – a degradação do meio ambiente.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761 De acordo com o Ministério da Educação(BRASIL 2007), 94% das escolas brasileirasse declaram praticantes da Educação Ambiental, porém, na prática, atitudes e comportamentos contradizem a teoria, uma vez que é comum presenciarmos em escolas públicas, principalmente,descarte incorreto do lixo, destruição do patrimônio público, desperdício de água, energia, lanche, material escolar, além de outros problemas.

Aqui no Brasil há dispositivos legais que preconizam sobre as políticas públicas para inserção do tema ambiental nas práticas pedagógicas, como as Diretrizes da Política Nacional de Educação Ambiental, instituída pela Lei n.º 9.795\99; os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN); a Res. N.º 02/2012 que dispõe sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Ambiental(2012a) e outros.

À luz de teóricos, a presente pesquisa objetiva investigar as concepções sobre Educação Ambientalde professores e estudantes de uma escola públicade Educação Básica no ano de 2019,localizada em Petrolina – PE (Brasil) tendo como partícipes –35 estudantes da modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA), de Ensino Médio, e cinco professores da referida escola.

Consideramos relevante este estudo, uma vez que pode contribuir para implementação de novos instrumentos educacionais e uma efetiva reorganização acadêmica, curricular e metodológica capaz de transformar a escola e promover uma educação plena de acordo com os princípios sustentáveis.

Didaticamente, o texto está subdividido em três partes: inicialmente discutimos sobre a Educação Ambiental e suas implicações na sociedade a luz de autores, como Gadotti (2009; 2012), Fazenda (2011; 2013), Leff (2015), Soller( 2017), Sorrrentino (2019) e outros; no segundo momento abordamos o processo metodológico e o resultado da pesquisa e as implicações no currículo e no processo educativo; e por último, tecemos as considerações finais.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 EDUCAÇÃO AMBIENTAL: DISCUSSÕES INTRODUTÓRIAS

A Educação Ambientaldomina o centro dos debates políticos e educacionais há décadas e continuará sendo tema central nos próximos anos. Desde dos anos 70 que este tema ganha cada dia mais espaço em conferências nacionais e internacionais, mas o debate ainda não chegou na sala de aulade forma realmente efetiva, e o trabalho realizado, na maioria das

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761 vezes, segue uma perspectiva de enfatizar apenas o aspecto ecológico, sendo vista como um tema de conteúdos das disciplinas de Ciências e Biologia, ignorando o aspecto social, político e pedagógico.

Não há como negar quehá muitas práticas bem-sucedidas em escolas visionárias em todo País, mas se trata de casos isolados. Em linhas gerais, o educador contemporâneo ainda tem uma longa caminhada para consolidar a Educação Ambiental enquanto assunto do currículo.

A história da Educação Ambiental não é recente. Em 1972 o discurso entrou para a pauta da agenda política na Conferência Internacional de Estocolmo, Suécia, com a pauta centrada no resultado do relatório do Clube de Roma, publicado com o título ”Limites do Crescimento,” alertando o mundo para o risco de um colapso dos recursos naturais com o atual modelo de desenvolvimento econômico. Na época, surgiram duras críticas entre governantes e empreendedores, que temiam que as alternativas de mudanças apresentadas iriam congelar o desenvolvimento econômico das nações, discurso que impera até os dias atuais entre as principais potências econômicas do planeta.

A temática socioambiental veio ganhar destaque na década de 80, considerada uma década perdida pelos impactos da crise econômica, desigualdades sociais, guerras, aquecimento global e degradação ambiental -momento em que se percebe que, pela complexidade do problema, não tinha sentido as ciências sociais ficarem fora desse debate. É aí quando a dimensão social entra realmente para a discussão.

A partir de 1987 o debate ambiental foi marcado com o resultado das análises do “Relatório de Brundtland” ou “Nosso Futuro Comum”1 - encontro que definiu o termo

desenvolvimento sustentável, propondo um desenvolvimento que atendesse às necessidades do presente sem comprometer as gerações futuras, dando ênfase à educação de gênero e meio ambiente, a paz e direitos humanos. Este documento teve repercussão mundial e influenciou um marco regulatório com leis específicas para construção de nova postura ética, gestão de novo modelo de desenvolvimento econômico compatível com a racionalidade socioambiental, tendo como destaque a importância das relações entre os setores econômicos, políticos, tecnológicos e sociais para melhor enfrentar os desafios da complexa problemática ambiental.

1Em 1987, a divulgação do Relatório Brundtland, intitulado Nosso Futuro Comum, pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas (1988), popularizou a expressão "desenvolvimento sustentável" e sua definição.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761 A Rio-92 também foi uma conferência de grande repercussão, naépocafoi aprovado o Tratado de Educação Ambiental para as Sociedades Sustentáveis e a Responsabilidade Global, este que foi o principal documento da Cúpula, que, no capítulo nº 36 foi dedicado à Educação Ambiental.

Depois da Rio-92 foram criados dois mais importantes dispositivos – a Carta da Terra -, trazendo os princípios norteadores da Educação Ambientale a Agenda 21 - com um plano de ação para o desenvolvimento sustentável. O Tratado ressalta a importância do engajamento e participação entre todos os atores sociais: governos, iniciativa privada, Organizações Não-Governamentais e sociedade civil,para, em uma ação conjunta, construírem uma cultura de paz para recuperação e preservação dos ecossistemas e melhor qualidade de vida.

No Brasil, a primeira referência à Educação Ambiental aconteceu em 1981, quandoa Lei n.º 6.938 instituiu a Política Nacional de Meio Ambiente. Na Constituição Federal de 1988, o Art. nº 225, atribui ao Estado “o dever de promover a Educação Ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente.” (BRASIL, 1988).

Com a intencionalidade de cumprir as recomendações da Rio-92, a Lei Federal n.º 9.795 de1999, instituiu a Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA) e definiu Educação Ambiental como “processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades e atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e a sua sustentabilidade” (BRASIL,1999).

Esse documento vem legitimar a Educação Ambiental a partir dos princípios e objetivos com perspectivas pedagógicas e ambientais, conforme preconiza os Art. 2º e 3º do PNEA “extrair algumas diretrizes comuns na relação entre ambiente, cultura e sociedade, o caráter crítico, político, interdisciplinar, contínuo e permanente a serem desenvolvidos em cada nível e modalidade da educação formal” (BRASIL, 1999).

O PNEA constitui um dos principais instrumentos para consolidar a Educação Ambiental do País, momento que insere as dimensões sociais, culturais, econômicas, políticas e éticas para o alcance de uma educação plena.

A partir desse momento, a dimensão social começa a ser inserida nas políticas públicas educacionais, porém continua o entrave nas barreiras institucionais no que concerne à mudança de método e currículo,à contextualização do livro didático, à inserção da temática socioambiental na formação de professores e outras questões inerentes

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761 A Base Nacional Comum Curricular (2019), define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais a todas as etapas e modalidades da Educação Básica, e assegura que a educação deve firmar os valores e ações que conduzam a formação plena dos estudantes, alinhada aos princípios sustentáveis, conforme trecho abaixo:

Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta (BRASIL, p.9, 2019).

Diante do exposto questionamos: de que forma a Educação Ambiental vem sendo difundida na escola? Quais atividades são realizadas na modalidade formal? Quais saberes ambientais são apreendidos, internalizados e praticados pelos estudantes? Jacobi (2003) relata que os temas predominantes sãolixo, proteção do verde, o uso e degradação dos mananciais, ações para conscientização da população em relação à poluição do ar, entre outros.Ainda segundo o autor, pouco se refere à dimensão social aoabordar a temática ambiental nas práticas pedagógicas.

2.2 A ECOPEDAGOGIA E A PERSPECTIVA TEÓRICA-PRÁTICA

A educação é um processo dinâmico que muda de acordo com o processo histórico, econômico e sociocultural de cada época. Sabe-se que o mundo passou por profundas transformações nas últimas décadas, mas nosso sistema educacional continua tradicional, necessitando de outros enfoques pedagógicos que visem contribuir para solucionar os problemas socioambientais que nos cercam. Neste sentido, podemos afirmar com veemência que a questão socioambiental é complexa, envolve muitos fatores interdependentes, e exige uma problematização de conteúdos integrados entre as disciplinascom estratégias pedagógicas voltadas ao saber ambiental.

Para Leff (2015), este saber problematiza o conhecimento para ressignificaros processos econômicose tecnológicos, ajustando-os ao equilíbrio ecológico, à justiça sociale à diversidade cultural, produzindo novos processos civilizatórios. Assim, surge a ecopedagogia

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761 -processo utilizado como estratégia pedagógicaque dispõe de meios para inserir a Educação Ambientalno espaço escolar e para o alcance da vida sustentável.

Vale salientar que o termo ecopedagogia surgiu na Rio-92 (Fórum Global), como proposta pedagógica para a formação de sociedades sustentáveis e, atualmente, já dispomos da Carta da ecopedagogia.

Sobre este termo Soler (2017) esclarece que a ecopedagogia possibilita a inclusão nas propostas curriculares do tema em tela, onde há desdobramentos de ações que envolvem a prática educativa favorecendo a dinâmica das interações entre os sujeitos e o meio ambiente na instrumentalização de uma práxis libertadora, inclusive autores renomados de diversos campos das ciências como como Freire (1976), Hammes (2004) e Fazenda (2013) corroboram com a teoria da ecopedagogia.

A ação educativa praticada nas escolas tem como princípio norteador a cultura da competitividade, que não contribui para formação plena do sujeito. É aí que entra a ecopedagogia ou “Pedagogia da Terra,” compreendida como a pedagogia da cidadania planetária, inserida nas experiências da vida cotidiana como uma prática de liberdade, que conduz o sujeito à construção de uma cultura de sustentabilidade.

De acordo com aCarta da Terra, ecopedagogia é o subsídio para ações educativas com a finalidade de reorientar o olhar das pessoas, tendo como propósito a formação de cidadãos com consciência local e planetária, que valorizem a autodeterminação dos povos e a soberania das nações. (INSTITUTO PAULO FREIRE, 1999, p.1).

Paulo Freire (1987) diz que a educação é um ato político que possibilita o estudante a compreensão do seu papel no mundo e de sua inserção, mas as práticas pedagógicas conservadoras e corporativistas não abrem caminhos para que a educação cumpra seu papel social e emancipatória. Para que aconteça essa quebra de paradigma educacional é imprescindível mudanças de pensamentos, atitudes, práticas e ações dos atores sociais do sistema educacional -os professores.

Ainda sobre ecopedagogia, Gadotti (2009) argumenta:

A ecopedagogia, como pedagogia holística, desloca-se deste referencial antropocêntrico, situando-se em outro campo[...]. Ela supera o antropocentrismo das pedagogias tradicionais, e concebe o ser humano em sua diversidade e em relação com a complexidade da natureza. A Terra passa a ser considerada também um ser vivo, como Gaia. Por isso, seria melhor chamar a ecopedagogia “Pedagogia da Terra”; (GADOTTI, 2009, p.2)

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761 Vale lembrar que a ecopedagogia não substituie nem compete com a Educação Ambiental, ao contrário, ela a incorporae ofereceestratégias, propostas e meios para a sua realização concreta, conforme afirma Gadotti (2009).Além disso, valoriza o conhecimento, a educação, estudantes e professores; permite que estes dialoguem com suas produções; interpretem e juntos, produzam conhecimento sobre o tema e se transformando em verdadeiros agentes socioambientais. Neste sentido, surge outra demanda: uma “ecoformação de professores”, conforme argumenta o autor (GADOTTI, 2012).

A ecopedagogia é a pedagogia da complexidade e da problematização, e deve se materializar por meio de um exercício interdisciplinar – exigência formal dos BaseNacional Comum Curricular e dos antigos PCNsdo Ensino Fundamental e Médio -, a partir de uma visão holística e integrada de assuntos prioritários entre as disciplinas de forma inter e transdisciplinar.

Fazenda (2003) enfatiza que a atitude interdisciplinar se identifica pela ousadia de busca, de pesquisa, da transformação.Defende que deve haver muita discussão a respeito do termo interdisciplinaridade o qual , segundo ela, não se ensina e nem se aprende, mas se vivencia.

As propostas de mudanças de método e de currículo ainda encontram muita resistência no universo acadêmico, mas a ecopedagogia é uma oportunidade de construir novas bases epistemológicas para construção de espaço educativo que despertem interesse de investigar, aprender, sonhar, participar, cooperar e construir uma aprendizagem que faça sentido para a vida, conforme argumenta Leff (2015). Desta forma, percebe-se que é importante ressignificar as práticas educacionais de maneira em geral, o pensamento da comunidade acadêmica e principalmente as práticas pedagógicas.

2.3 EDUCAÇÃO PARA A CULTURA DA CIDADANIA E SUSTENTABILIDADE

A cidadania está no centro do debate político, e é um tema indissociável da sustentabilidade - ambas exigem uma mesma racionalidade socioambiental. A cidadania é um caminho para a sustentabilidade. Para Santose Silva (2017), a sustentabilidade éum ideal sistemático constituído pela ação e permanente busca entre preservação do ecossistema e desenvolvimento socioeconômico.

Há cinco décadas discutimos a complexa problemática socioambiental, mas a sociedade parece ignorar que estamos tirando da Terra mais que sua capacidade de

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761 regeneração, nossa convivência é permeada de conflitos sociais em sociedade cada dia mais excludente, preconceituosa, intolerante que clama pelo direito à cidadania, esta que, segundo Gadotti (2012), é um conjunto de princípios, valores, atitudes e comportamentos que demonstram uma nova percepção da Terra como uma única comunidade.

A cidadania é construída de acordo com o nível de organização, cooperação, sensibilização, participação dos sujeitos envolvidos com as questões do seu cotidiano, que depende do nível de alfabetização ambiental dos cidadãos, que, para Dias (2009), é o conhecimento sobre os sistemas, as interrelações e interdependências dos processos que asseguram a vida na Terra; e está diretamente relacionada à promoção e articulação de políticas educacionais, socioeconômicas e formação dos profissionais da educação.

A cidadania planetária impõe uma nova racionalidade ambientalque integra os princípios éticos, as bases materiais, instrumentos técnicos e jurídicos e as ações orientadas para a ação sustentável, conforme afirma Leff (2015).

Ainda para o autor, a construção e materialização dessa racionalidade implica romper com os atuais paradigmas do sistema educacional, ou seja, é um sistema complexo que envolve conflitos de interesses nacionais e internacionais, políticos e econômicos que comprometem o desenvolvimento sustentável e a qualidade de vida, esta compreendida comoo grau de satisfação das necessidades da vida humana como alimentação, acesso à água potável, habitação, trabalho, educação, saúde, lazer e elementos materiais – que têm como referência noções subjetivas de conforto, bem-estar e realização individual e coletiva. (BRASIL, 2012b).

O mundo passou por profundas transformações durante essas cinco décadas de debate sobre meio ambiente, a mais impactante foi o processo de globalização que ocasionou mudanças sociais, políticas, econômicas, culturais, históricas, tecnológicas e educacionais. A globalização com sua força de abertura de fronteira e domínio no mercado afeta a soberania das nações causando disparidades sociais, cultura do consumismo, desemprego, prejudica o desenvolvimento, principalmente, em países mais pobres, atingindo de forma desastrosa a qualidade de vida e o patrimônio socioambiental.

Assim, assumir atitude ecopedagógica é realizar mudanças necessárias para desconstruir essa escola autoritária e construir espaços de cultura de cidadania por meio da pedagogia da complexidade e da problematização. Nesta perspectiva, espera-se reverter a situação e usar os avanços científicos e tecnológicos a nosso favor e promover a globalização da cidadania – caminho para a sustentabilidade.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761 Portanto, a Educação Ambiental é direito de todos e dever do poder público promover políticas efetivas para sua difusão e consolidação da mesma com o fortalecimento dos sujeitos, participação na organização e construção de espaços de cultura e cidadania para enfrentar os problemas concretos do ambiente no qual estamos inseridos.

3 METODOLOGIA

3.1 AMOSTRA

A pesquisa foi realizada no segundo semestre de 2019 em uma escola pública da Rede Estadual de Pernambuco que ofertaEnsino Fundamental e Ensino Médio, de Educação de Jovens e Adultos – EJA, localizada na zona urbana da Cidade de Petrolina – PE, Brasil. Participaram 40 sujeitos, sendo 35 estudantes de 1º Módulo de Educação de Jovens e Adultos (Ensino Médio) e cinco professores (responsáveis por ministrar oito disciplinas) da mesma Unidade de Ensino.

3.2 INSTRUMENTO E AMOSTRA

Foram aplicados questionários semiestruturadospara professores e estudantes, com 18 e 13 perguntas, respectivamente, contendoquestões objetivas e subjetivas. Os docentes participantes são das disciplinas de História, Sociologia, Filosofia, Biologia, Física, Geografia, Língua Portuguesa, Arte e Matemática.

Os questionários foram aplicados em sala de aula, devolvidos imediatamente após as respostas individuais para posterior análise. Nessa primeira e única etapa da pesquisa, efetuamos a coleta das concepções dos sujeitos sobre Educação Ambientalque contribuíram com estudos para possibilidades efetivas de inserção da referida temática no planejamento pedagógico daInstituição de ensino.

No questionáriode docentes foram elaboradas questões subjetivas dispostas a seguir:

1 – Qual o conceito de Educação Ambiental?

2 – Qual a importância do estudo de Educação Ambiental para o exercício da cidadania?

3 - Qual a importância da abordagem interdisciplinar no estudo de Educação Ambiental?

4 – Na disciplina que você leciona, quais são os principais temas relativos à Educação Ambientalque são trabalhados em sala de aula?

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761 A análise dos resultados referentes às questões 1 a 4 constituem os objetivos deste estudo, partindo do pressuposto de que estão diretamente relacionadas à dinâmica da Educação Ambiental.

Da mesma forma, em uma única etapa efetuamos a coleta das concepções dos estudantes sobre o tema em discussão. Foram elaboradas questões objetivas e subjetivas dispostas adiante.

Nos registros referentes aos estudantes participantes da pesquisa verificou-se que 54% são do sexo masculino e 46% do sexo feminino. Quanto à faixa etária, 65% estão com idade entre 15 a 20 anos, 23% entre 21 a 30 anos, 6% entre 31 a 40 anos e 6% entre 51 a 60 anos.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.1 O QUE DIZEM OS PROFESSORES?

No registro referente aos professores, verificou-se que 80% são do sexo feminino e 20% do sexo masculino; têm faixa etária entre 21 a 60 anos; quanto à formação acadêmica, 20% são mestres e 80% possuem pós-graduação latu sensu.Já em relação ao tempo de serviçona docência, varia de um a 20 anos.

Ao realizar a tabulação, as respostas foram sistematizadas em categorias de acordo com a compreensão do professor2 sobre o conceito de Educação Ambiental, conforme segue: Categoria I –Compreensão: instrumento de transformação socioambiental.

Entender a dinâmica entre ser humano e meio ambiente, buscando solucionar os problemas criando meios eficazes ( Edu - 1HFS).

É um processo contínuo e permanente em formar pessoas conscientes dos problemas do meio ambiente e da coletividade (Edu - 4LPA)

Uma vertente das ciências ambientais que têm o objetivo de formar indivíduos conscientes do seu papel na sociedade, considerando a temática de forma holística (Edu - 3BF).

Categoria II -Compreensão:ênfase nos aspectos ecológicos.

2A identificação dos professores será feita por números sequenciais e letras correspondendo à disciplina que leciona (1HFS

– História, Filosofia, Sociologia; 2G – Geografia; 3BF – Biologia, Física; 4LPA – Língua Portuguesa, Arte e 5M – Matemática).

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É um processo de construção de consciência dos estudantes para que busquem a preservação, conservação e preocupação com o meio ambiente (Edu - 5M). É uma educação responsável por formar sujeitos preocupados com os problemas ambientais (Edu - 2G)

Categoria III -Compreensão: instrumento para o exercício da cidadania

Ela tem total importância, visto que gera uma consciência sobre o mundo e suas complexidades, pensar e agir para solucionar os problemas do nosso cotidiano (Edu -1HFS).

Tem grande importância para construir um futuro mais justo para as próximas gerações e mudanças de valores sustentáveis (Edu - 4LPA).

Formar cidadãos conscientes dos problemas da realidade, e participação de forma coletiva para construção de um mundo melhor fazendo a interação entre o estudante e o meio (Edu - 3BF).

Categoria IV –Compreensão:ênfase na importância da preservação ambiental.

A preocupação com o meio ambiente (Edu - 2G).

A formação de cidadãos preocupados com o meio ambiente (Edu - 5M).

Categoria V - Compreensão: abordagem interdisciplinar essencial para uma educação integradora e plena.

É de suma importância, sendo que essa temática não se limita a uma disciplina, a interação entre as disciplinas gera algo dinâmico e transformador (Edu - 1HFS). É importante para que o aluno visualize diferentes aspectos relevantes de um tema, melhor interpretação dos conteúdos, podendo melhor conscientizar sobre sua maneira de pensar e agir no meio ambiente, e isso transforma suas atitudes (Edu - 5M).

A interdisciplinaridade permite identificar um tema sobre diferentes visões (Edu - 3BF).

Categoria VI–Compreensão: concepção em processo de construção com atributos da interdisciplinaridade

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761

É tipo um trabalho com outras disciplinas e o estudante tem maior oportunidade de melhor aprendizagem (Edu - 2G).

Unir todas as disciplinas para trabalhar um assunto em cada disciplina, mas de forma diferente, torna o estudo mais atrativo (Edu - 4LPA).

Realizando uma análise destas categorias, nota-se que as II e IV não apresentam elementos sólidos sobre as questões interrogadas. Inclusive existem até semelhança nas respostas no que concerne às dimensões subentendidas, porém a categoria II ausenta-se de elementos importantes, como o papel político e crítico da Educação Ambiental.

De acordo com as respostas da maioria dos respondentes, construiu-se um conceito sólido sobre o tema. Afirmações como: formar pessoas conscientes dos problemas do meio ambiente e da coletividade; formar indivíduos conscientes do seu papel na sociedade; entender a dinâmica entre ser humano e meio ambiente.Essas concepções estão alinhadas aos objetivos da Educação Ambiental, conforme preconiza no PCN (BRASIL, 1997) deste tema transversal ao preconizar que é um ensino voltado suscitar mudanças de comportamento na sociedade, ou seja, construção devalores, novos conhecimentos, atitudes e habilidades que são indispensáveis à conservação do meio ambiente edo patrimônio coletivo

As respostas das categorias II e IV não compreendem os aspectos políticos da Educação Ambiental, podendo-se considerar um nível intermediário do entendimento do conceito, o que revela a necessidade de reflexão sobre o tema, já que esses profissionais são detentores de conhecimentos, e compreendemos Educação Ambiental vai muito além do acúmulo de informações, uma vez que agrega valor socioambiental e humanístico.

Nesta perspectiva, Leff (2015) argumenta que a Educação Ambientalexige novas atitudes dos professores e estudantes;novas relações para a produção do saber ambiental; e novaspráticas pedagógicas para abordar tal discussãoEm outras palavras, para atingir esse nível de entendimento sobre o tema, o professor deve ser detentor de um conhecimento político e, principalmente, pedagógico.

Assim, ofertar uma formação continuada para professores é dever do Estadoe direito do professor participar deações formativas que oportunizem compreender melhor o seu trabalho e como realizar uma prática sedimentada em ações interdisciplinares/transdisciplinares voltadas ao assunto em tela numa perspectiva contemporânea.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761 No que concerne às categorias V e VI, reforçam nossa análise referente às anteriores. A dimensão ambiental é transversal a todas as disciplinas, e assim deve ser trabalhada, tornando-se uma discussão mais atrativa – tanto para docentes como para aprendentes.

A contribuição da interdisciplinaridade na educação vai muito além de sua prática. Para Fazenda (2003, p.64) a inter“reconduz estudantes e professores à dignidade de cidadão que age e decide, pois é na ação desse professor que se encontra a possibilidade de novos pressupostos teóricos em Educação”. Como se percebe, a interdisciplinaridade ressignifica a forma de pensar e agir e reforça a importância da integração de cada área do saber.

Mais adiante questionamos: a Educação Ambiental deve ser tratada em todas as disciplinas? Está sendo inserida no currículo escolar? Em relação a esta pergunta, 60% afirmaram que deve envolver todas as disciplinas e que cada uma deve dá sua contribuição; já os demais,40 %, afirmaram que deve limitar a determinadas disciplinas.

Quanto ao tratamento do tema pela escola e inserção no currículo e nas práticas pedagógicas, eles apontaram que “Geralmente fica restrita às disciplinas de Ciências, Biologia e Geografia” (Edu - 1HFS) e que deveria ter trabalhada por meio de projetos de forma transversal, uma vez que “ Na prática é abordado de forma tímida” (Edu - 3BF).

Fazenda (2013)afirma queinterdisciplinaridade é um ato de troca e reciprocidade entre disciplinas e áreas do conhecimento. Neste sentido, atitude interdisciplinar rompe com as fronteiras das ciências, possibilitando professores e estudantes interpretarem melhor a interdependência existente entre os elementos dos ecossistemas e transformar a sala de aula em um laboratório vivo. Ainda para autora, a formação do homem inserido na sua realidade e o seu papel enquanto agente demudanças do mundo são imprescindíveis neste processo. Quanto à forma como o tema em tela estáinseridono currículo e nas práticas pedagógicas, as respostas confirmam uma triste realidade: o estudo da temática, geralmente fica restrito às disciplinas de Ciências e Biologia, e mesmo assim de maneira muito tímida. Pelos relatos, no momento em que a pesquisa foi realizada não havia projeto em execução, mas alguns professores manifestaram desejo de participar de um trabalho coletivo.

Salientamos que é possível inserir este tema transversal no currículo e trabalharde várias formas, como por exemplo por meio de projetos articulados envolvendo toda comunidade escolar, como também de forma transversal em todas as áreas do conhecimento, transitando ainda em todos os espaços escolares - desde a portaria ao pessoal que trabalha no refeitório.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761 Foi possível também verificar que a ação educativa é tradicional, em que o ambiente de aprendizagem se limita à sala de aula.

Quanto à coleta seletiva de lixo, 100% dos docentes declararam não haver processo de coleta. Outra questão levantada por eles: 100% dos respondentes afirmaram que não há práticas pedagógicas para além dos muros escolares, como visita de campo para trabalhar a realidade local sobre as questões socioambientais.

Podemos perceber, neste contexto, que práticas socioambientais elementares ainda não foram adotadas, mesmo existindo um universo a ser explorado, pesquisado, interpretado e contextualizado com a realidade que o cerca.

Questionamossobre os motivos de inserir ou não a discussão ambiental nas práticas de ensino, obtivemos os seguintes feedbacks:

✓ Falta de recursos didáticos adequados;

✓ Falta de articulação entre direção, coordenação e professores; ✓ Não está previsto do Projeto Político Pedagógico;

✓ Não encontra muitas questões para inserir nadisciplina.

Indagados sobre o posicionamento da direção da Instituição de Ensino quanto ao tema, eles responderam.

✓ A gestão atribui a falta de recurso (Edu - 1HFS). ✓ Não há discussão sobre o tema (Edu - 4LPA).

✓ Nunca foi conversado sobre esse tema com a gestão (Edu - 3BF).

A escola é um espaço privilegiado para a discussões diversas que estejam relacionadas aos objetivos educacionais da comunidade acadêmicae de acordo comas Instruções Normativas Educação Ambientalé um tema a ser discutido e trabalhado por todos. Isso significa que primeiramente precisamos ter consciência do quanto é importante cuidar do planeja Terra, ou seja, cada sujeito fazer a sua parte independente de ser da área educacional ou não.

Nesta perspectiva, a escola pode se transformar em um espaço multiplicador de saberes e intervenções, tornando-se um disseminador de valores, atitudes e comportamentos sustentáveis, porém,contraditoriamente, identificamos algumas lacunas quanto à realização de forma efetiva de um trabalho voltado para esta natureza.Educação Ambiental é responsabilidade de todos -governos, empresários,Ongs e sociedade civil como um todo.

Perguntamos aos professoresque temas teriam interesse em abordar em sala de aula. Seguem as opçõese respostas:

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761

✓ Poluição e assoreamento dos rios ✓ Agricultura e uso de agrotóxicos ✓ Esgotamento sanitário

✓ Poluição e degradação ambiental ✓ Pobreza

✓ Descarte, coleta seletiva e reciclagem do lixo ✓ Tipos de energias

✓ Desenvolvimento sustentável ✓ Problemas ambientais locais ✓ Aquecimento global

✓ Saneamento básico ✓ Desorganização urbana ✓ Consumo consciente ✓ Agenda 21 local

✓ Desigualdades e conflitos sociais

Como foi uma questão de múltipla escolha, os resultados somam mais de 100%. Identificamosque o interesse pelo estudo sobre poluição e assoreamento dos rios aparece no topo das preferências dos professores com 80%; em seguida, poluição e degradação ambiental para 60% dos entrevistados; 40% dos professores têm interesse em discutir sobre agricultura e uso de agrotóxicos, descarte, coleta seleta e reciclagem de lixo, desenvolvimento sustentável, saneamento básico, consumo consciente e tipos de energia; aquecimento global; desorganização urbana; agenda 21 local; desigualdade e conflitos sociais. E apenas 20% deles professoresresponderam que gostariam de trazer esses temas para o debate em sala de aula.

Diante dessas premissas, em nossa apreensão, a temática ambiental ocupa pouco espaço nas discussões acadêmicas e ainda está amarradaa matrizes curriculares. E neste sentido, percebe-se a urgência de se implementar ações efetivas que altere esta realidade que ora me concretiza nos ambientes escolares.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761 4.2 O QUE DIZEM OS ESTUDANTES?

Também aplicamos um questionário para os estudantes com perguntas semelhantes às dos professores. Categorizamos e seguem abaixo os resultados. Quanto à concepção de Educação Ambiental:

Categoria I – Concepção: instrumento de transformação socioambiental

É uma educação que nos alerta que precisamos ter consciência que cada um de nós é responsável por nossas ações, ensina conhecer os problemas ambientais, participar, respeitar e ajudar a comunidade e o planeta (Est - 27).

É a Educação que ensina as pessoas tirar os recursos da natureza sem destruir, cuidar das cidades das pessoas e do planeta com saneamento, básico, coleta seletiva de lixo, ensinando boa convivência entre as pessoas e o meio ambiente (Est - 28).

Categoria II -Concepção: ênfase nos aspectos ecológicos:

- Ensina conservar o meio ambiente (Est – 19).

- Ensina não jogar lixo no ambiente (Educando 7).

- Orienta as pessoas não poluir as ruas, os lugares (Est – 8). - Educação que ensina zelar a natureza (Educando 3). - É o estudo do meio ambiente (Educando– 11). - Ensina preservar o planeta (Educando 20).

- Uma disciplina que ensina viver sem poluir a Terra (Educando 3). - Educação que ensina não destruir a natureza (Educando 1).

A leitura das categorias I e IIreafirmam e refletem as respostas dos docentes professores e a realidade das práticas pedagógicas da escola. As concepções da maioria não estão em consonância com os objetivos da Educação Ambiental. Como se percebe na categoria II, as respostam apresentam uma visão preservacionista.

De acordo com as considerações das categorias I e II, a Educação Ambiental, na teoria e prática ainda é um devir. Não houve entendimento conceitual do termo; compreendem que o saber ambiental é importante no espaço escolar e demonstram que a discussão ainda é insipiente, limitando-se às questões ecológicas do saber ambiental, dissociando o sentido da praxiologia ‘reflexão-ação-reflexão, dos valores existenciais.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761 O entendimento não é incoerente, mas é uma compreensão superficiale generalista - como se o meio ambiente não pertencesse à comunidade e ao mundo. Leff (2015) argumenta que a pedagogia do ambiente implica tomar o ambiente em seu contexto físico, biológico, cultural e social.

Questionados sobre importância do estudo de Educação Ambiental para o exercício da cidadania, obtivemos o seguinte feedback:

Podemos nos conscientizar de que com pequenos gestos podemos ajudar nossa comunidade e viver melhor, porque não sabemos cuidar do nosso meio ambiente, mas devemos aprender (Est - 27).

É importante aprender como tirar do meio ambiente sem destruir a natureza e colaborar e colaborar para que as pessoas vivam melhor (Est - 28).

É importante termos consciência de que fazemos mal ao meio ambiente (Est - 3). Devemos conhecer sobre a natureza, o lixo, as cidades, a poluição (Est- 19). É a Educação Ambiental que ensina como cuidar da terra, do mar, das águas, de tudo (Est -7).

É importante para termos noção do que fazemos com a natureza (Est- 5). Ensina a população não poluir o rio (Est-11).

É importante para aprender tudo sobre o meio ambiente (Est- 2).

Sim, para as pessoas terem consciência e ações corretas com o meio ambiente (Est- 20).

Como se nota nas respostas anteriores, os estudantes têm consciência da importância da Educação Ambiental. E sabem também, o que fazer para contribuir com a sustentabilidade ambiental, conforme resposta abaixo:

Sair em grupo de pessoas para pegar o lixo do rio da cidade, não queimar árvore, não joga lixo na cidade (Est - 28).

Contribuir com a reciclagem, coloca o lixo no local certo (Est - 7). Economizar energia, água, não poluir o ambiente (Est - 27). Evita desperdício (Est - 15).

Não deixar torneira aberta, não jogar lixo no chão, respeitar o ambiente (Est - 1). Posso colocar o lixo no bolso para não jogar no chão (Est -2).

Separar o lixo em cada lugar certo (Est -7).

Evitar jogar lixo na rua, proteger os animais, cuidar da água, das plantas, cada um tem que fazer sua parte para sustentabilidade (Est –19

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761 Ao serem questionados se a escola desenvolve projeto de Educação Ambiental, 63% responderam que não; 17%disseram sim; e 20% não souberam responder.O humano é um ser culturale a partir das respostas, compreende-se a necessidade de aprofundar a natureza das práticas pedagógicas necessitando elevar o patamar do debate ambiental, contemplando todos seus aspectos ede forma efetiva.

As respostas a seguir, referem-se às questões objetivas sobre metodologias, currículos e conteúdos para o desenvolvimento da Educação Ambiental. Para tal, realizamos as seguintes perguntas: Na sua concepção, quais questões estão relacionadas aos problemas ambientais?

Constatou-se que as alternativas com maior percentual estão relacionadas aos problemas ambientais e aos recursos naturais. A alternativa descarte incorreto do lixo, responde por 85% ; poluição do ar, água e terra 71%; desmatamentos e queimadas 71%; destruição do patrimônio natural 63%; falta de saneamento básico 43%; uso de agrotóxico 28%; desorganização urbana 26%; violência 26%; consumismo, produção de energias renováveis e pobreza 14%; conflitos sociais, exclusão social e bullyng, cada um atingiu 11%; e aumento populacional 9% . Verifica-se que não há concepção formada de Educação Ambiental, e apenas dois sujeitos compreendem as ciências sociais como componente importante neste contexto. O item que diz respeito aos aspectos sociais com maior percentual foi saneamento básico com 43%.

Sorrentino (2005, p,289) afirma que o objetivo do estudo da Educação Ambiental, é conduzir os sujeitos “ a sustentabilidade socioambiental, tendo em vista recuperar a concepção e significado de ecodesenvolvimento como possibilidade de transformação do ambiente natural.” Vivemos em um ambiente em constantes e profundas transformações econômicas e socioculturais com severos conflitos de interesses e, infelizmente, os avanços científicos e tecnológicos que impactam muito esses eventos não caminham na mesma velocidade dos avanços éticos e civilizatórios.

Pádua (1997) acrescenta que o conceito de sustentabilidade “ não se restringe só ao ambiente físico, mas também abrange as questões da pobreza, população, segurança alimentar, democracia, direitos humanos e paz. Precisamos cada vez mais problematizar e contextualizar todos os aspectos da atividade humana analisando suas causas e consequências, contemplando diversidade cultural e conhecimento científico e popular para uma educação mais holística.

Quando questionados por meio de uma questão de múltipla escolha sobre quais temas de Educação Ambiental são contextualizados em sala de aula com enfoque ambiental, ou quais têm interesse de estudar, o cenário mudou. Os temas mais trabalhados seguem uma tendência

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761 no cotidiano das escolas: coleta e reciclagem de lixo se destacam com 51%; desmatamento/reflorestamento, elementos da natureza(ar, água, solo) 48%; seguido de revitalização dos rios 29%; segurança alimentar 34%; efeito estufa e conflitos sociais 26%; poluição do ar, solo, água 26%. Os temas sociais são pouco contemplados: cidadania 20%; racismo 17%; sustentabilidade e desenvolvimento sustentável 17%; e consumo consciente com apenas 14%.

Assim como os docentes, os estudantes afirmaram que não há visitas de campo. O discurso sobre as práticas pedagógicas também é coerente no que concerne à transversalidade e interdisciplinaridade praticadas pela instituição. Nesse aspecto, configura - se um ensino entre os muros da escola preso aos textos e aulas entre quatro paredes.

Faz-se se necessário criar estratégias que possibilitem a intervenção da/com comunidade escolar, valorizando a diversidade cultural, desenvolvendo o senso crítico, a sensibilidade e a conscientização da sociedade como um todo.

Quanto aos temas de interesse, aqueles com viés socioambientaise questões do cotidianoapareceram de forma equilibrada. A coleta seletiva, reciclagem de lixo, desmatamento e reflorestamento 71%; revitalização dos rios 68%; cidadania 63%; conflitos sociais 60%; sustentabilidade, consumo consciente, efeito estufa e elementos da natureza57%; racismo 54%; segurança alimentar 51%; desenvolvimento sustentável,poluição do ar, água e solo com 46%; tipos de energias (renováveis e não renováveis) 57%. Apenas um participante respondeu que não tem interesse em nenhum assunto apresentado.

Quanto ao acesso a materiais informativos sobre o tema em tela,23%responderam que têm acesso e 77% declaram que não, indicando a urgência de se ressignificar as práticas educativas voltadas a este assunto. Acrescentamos aqui, que ao realizar uma breve análise dos conteúdos do livro didático que os estudantes utilizam, percebe-se que eles não estão alinhados ao debate da dimensão socioambiental.

Portanto, para além da inclusão da temática ambiental na formação inicial e continuada dos professores, é essencial discutir e construir um currículo que dê conta das demandas sociais e neste sentido, refletir sobre os processos educacionais, currículo, formação docente, práticas pedagógicas e reconhecer a importância do debate da Educação Ambientalé,sem dúvida, primordial para uma educação de qualidade.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa realizada sobre percepção de estudantes e professores sobre Educação Ambiental revela que a maioria dos professores compreendem a proposta pedagógica da concepção de Educação Ambiental enquanto tema transversal e indispensável para difusão do conhecimento.

No entanto, a falta de articulação da equipe gestora, formação sobre Educação Ambiental e contextualização do material didático no que se refere ao tema, sinaliza necessidade de repensar a proposta curricular e metodológica do Projeto Político Pedagógico. Neste contexto, a ecopedagogia tem potencial para contribuir com a construção de espaço escolar capaz de realizar uma verdadeira transformação socioambiental na formação de cidadãos, comprometidos com os problemas da sua realidade e disseminar valores sustentáveis para além dos muros da escola.

Quanto aos estudantes, os resultados revelam pouco conhecimento sobre o saber ambiental e compreendem apenas a dimensão ecológica numa perspectiva estritamente preservacionista. Eles demonstraram interesse nesse estudo, mas ao serem perguntados sobre a preferência de temas relacionados à temática, não incluem assuntos envolvendo os aspectos sociais, econômicos, culturais e políticas da Educação Ambiental, o que sinaliza o nível de analfabetismo ambiental.

Também identificamos que a prática pedagógica é dissociada das vivências dos estudantes, sinalizando aqui, a necessidade de se realizar um amplo debate,reflexão e inclusão de práticas ecopedagógicasna sala de aula. Em outras palavras, há uma urgência de se repensar o currículo e colocar em ação as diretrizes preconizadas pelos diversos instrumentos legais existentes no País, conforme apresentado.

É fato que enquanto profissionais da educação temos o dever de se pensar e discutir propostas que promovam na sala de aula maior sensibilidade e conscientização socioambiental, levando, consequentemente, a sociedade refletir e agir diante de uma urgência tão necessária: a preservação do Planeta Terra. Agindo desta forma, estaremos construindo um ambiente capaz de promover transformações socioambientais - dentro e fora da instituição de ensino. Neste sentido, a escola se torna referência para repensar as experiências de vida, enquanto espaço de reflexão e aprendizagem e, principalmente, das práticas pedagógicas voltadas à Educação Ambiental.

Dessa forma, faz-se necessário promover uma educação capaz de internalizar a diversidade das relações que afetam o meio ambiente, e compreender as causas e

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n 3,p 14416-14440 mar . 2020. ISSN 2525-8761 consequências da ação entrópica do homem no meio ambiente, tornando-a um instrumento essencial para construção de uma educação humanizadora em consonância com os problemas concretos da nossa realidade, que deve acontecer em um processo contínuo e permanente em todos os níveis e modalidades de ensino para que, efetivamente, promova o desenvolvimento da sensibilidade de valores sustentáveis, existenciais consigo mesmo, com outro, com o País e com o Planeta Terra.

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