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Cad. Saúde Pública vol.30 número10

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Academic year: 2018

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Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 30(10):2246-2248, out, 2014

RESENHAS BOOK REVIEWS

OS SENTIDOS DA SAÚDE E DA DOENÇA. Czeresnia D, Maciel EMGS, Oviedo RAM. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2013. 119 p. (Coleção Temas em Saúde).

ISBN: 978-85-7541-433-0

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311XRE021014

Os autores se propõem a promover uma discussão em que os conceitos de saúde e doença sejam problemati-zados, contribuindo para o desenvolvimento do espíri-to crítico em relação ao assunespíri-to. Para isso, ancoram-se nas abordagens histórica, filosófica e epistemológica e focalizam, em sua discussão, ao longo dos cinco capí-tulos, os seguintes temas: (1) relações entre os concei-tos de saúde, doença e experiência; (2) construção his-tórica dos conceitos de saúde e doença; (3) prevenção de doença e promoção da saúde no século XX; (4) dis-curso acerca do risco e sua lógica de construção cientí-fica e (5) teorias de doenças no âmbito da biomedicina contemporânea.

Ainda que os autores formatem o seu texto em um espaço relativamente curto em termos de paginação, conseguem dar densidade à sua discussão, sem perder de vista o propósito de estabelecer comunicabilidade com os leitores.

A leitura da obra suscita outras discussões acerca do assunto. Um dos aspectos que pode ser aprofunda-do nessa discussão é a diferença entre sentiaprofunda-dos e sig-nificado. Os autores observam: “Quando alguém sente um mal-estar, busca conferir a ele um significado e um sentido” (p.15). Em termos de processo de significação, em que diferenciaria conferir um sentido e um signifi-cado ao mal-estar? Vygotsky 1 considera que o sentido

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RESENHAS BOOK REVIEWS

ciso do que o sentido. Ele é a base dos sentidos, sendo uma potencialidade para a construção do discurso. As-sim, ao mal-estar ou à doença são atribuídos diferentes sentidos pelas pessoas. Esses, embora possam ancorar-se em significados culturais mais amplos, refletem as percepções e as experiências vividas, configurando-se numa ampla polissemia. Parafraseando Vygotsky, po-demos dizer que, no discurso das pessoas, predomina o sentido da doença e da saúde sobre o significado so-cialmente construído acerca dessas expressões.

Os autores da coletânea em questão destacam que a doença e a saúde relacionam-se às experiências das pessoas. Essas, por sua vez, são, ao mesmo tempo, estruturadas e estruturantes. Segundo Byron Good 2, a

doença constitui-se numa síndrome de experiências e significados. Nesse sentido, tanto as experiências da doença quanto os sinais e sintomas que compõem um léxico médico inserem-se em antigas e resisten-tes redes semânticas que servem de ancoragem para que novas doenças ou categorias médicas adquiram significados.

E o que falar da saúde? Czeresnia, Maciel & Oviedo observam que ela não se constitui apenas na ausência da doença. Sobre isso, Gadamer 3 observa que a saúde

não envolve apenas essa ausência, envolve tanto a pre-venção e a cura da doença quanto a atenção e a pro-moção a ela destinada. Para o autor, por não chamar a atenção para si mesma, a saúde consiste num mistério a ser desvelado. Para ele, a ausência de saúde causa

ofensa à totalidade, à integridade, ao todo do ser hu-mano em sua relação com o mundo da vida. Nesse sen-tido, ser saudável é sentir-se bem, sentir-se como um ser no mundo, sentir-se como uma totalidade humana.

Em síntese, os sentidos da saúde e da doença, con-forme assinalam seus autores, não envolvem apenas a elaboração da ciência. Envolvem, além dessa instân-cia, articulações políticas, éticas, estéticas e filosóficas. Com base nessas considerações, é possível afirmar que a experiência da leitura da obra em tela também se constitui num elemento estruturante do conceito do processo saúde-doença.

Romeu Gomes

Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa, Hospital Sírio-Libanês, São Paulo, Brasil.

Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.

[email protected]

1. Vygotsky LS. Pensamento e linguagem. São Paulo: Editora Martins Fontes; 1987.

2. Good BJ. Medicina, racionalidad y experiencia: una perspectiva antropológica. Barcelona: Edi-cions Bellaterra; 2003.

Referências

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