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Prática[s] de Arquitectura

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Academic year: 2023

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Do foge-foge às ilustrações ep

Insistem para que escreva uma nota, por curta que seja, uma nota.

Uma nota que acrescente, subentendem. Mas uma nota que acrescente só um novo P A, subentendo eu. Subentendidos à parte, sobram umas anotações.

Dez anos após a realização “Prática[s] de Arquitectura”, editar um registo da multiplicidade de acontecimentos que, em circunstância escolar, agitaram e movimentaram colectivo e acção – e já agora, Escola – nada tem de saudade ou nostálgico, antes cumprir o que à data ficou por cumprir do contrato de financiamento – o que está em causa é, pois, um agradecimento, mesmo que tardio. E (a)largado à bolina deste, transita a chama do quanto a escola nos importa, mesmo agora que todos estamos fora, ou talvez mesmo especialmente por isso.

Sublinho escola. Escola que nos marcou no quotidiano e na causa, na vivência e no estudo, nas práticas do projecto, investigação, escrita.

Escola que se procurou merecer, acordando (n)um quotidiano de aprendizagem libertadora duma formação aberta à relação entre lugares e tempos, entre geografias e saberes. Um desafio, um exercício que nem sempre se fizeram macios, presente o que o aparelho institucional burocratiza, maquina, como património disciplinar e cultural a reproduzir à saciedade como alma, memória, material, sob um ventilador de comunidade participada.

Aprendizagem libertadora formação aberta que (e)laboraram comprometidas nesse e por esse praticar de (in)fidelidade que dá corpo ao agir da vocação que espacializa temporalizando e temporaliza espacializando – criação, pensamento, conhecimento.

Aprendizagem libertadora formação aberta que, na (des)locação projectiva desse comum que formou escola, cultivaram uma atenção futurante – condição mínima de “distância” operativa, de comunicação e intervenção de projecto crítico de futuros de figurino.

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Ou não fosse “esse comum que formou escola” algo que se colheu e soltou na “Sala 35”; algo que se fez “árvore, caminho, tanque antes da casa” numa lição de resistência pela cidadania da arquitectura, pela expressão da autonomia de um saber, de uma competência.

Ou não fosse esse comum alimento do gesto político que faz da arquitectura voz, comunicação, casa, na medida em que desenho é sedimento e distância, construção corporal e mental, histórica e cultural – vida como propositiva e sinteticamente lhe chamava Távora com uma naturalidade desconcertante.

Estar dentro da escola, estar fora da escola, pesem especificidades de tempos e de estâncias, de gerações e de experiências, configuram um movimento de complementaridades de circunstâncias – na vocação, na causa, no serviço, o lugar é o mesmo, como o problema em essência é o mesmo:

“Projecto, casa, escola”.

“Para o caderno do arquitecto bricoleur”.

“Arquitectura e mirada, projecto e distância – construção e movimento de uma coerência aventurosa”.

Estar dentro estar fora é o problema. Talvez melhor, é (ainda) parte do problema. Uma parte, reforço, já que é no acolhimento do outro que criação, pensamento, conhecimento se descobrem e se fazem projecto, investigação, escrita, realização: gestos de humildade e simplicidade, desafio e (dis)senso, de quem prossegue processo, de quem persegue pauta para desassossegos da arte da casa-mãe – a Arquitectura –, na dinâmica transformadora da paisagem política, social, geo-cultural do que talvez se possa nomear de casa Mundo casa comum.

Estar dentro estar fora não é parte do problema.

“Un cuarto también es un texto”.

Viva a casa Tótó.

Porto, 25 de Outubro de 2022

Presente a condição histórica de um lugar, de uma comunidade particular – o Porto – queremos tomar como referência a

“aventura comum percorrida por três personagens”1 – Fernando Távora, Álvaro Siza, Eduardo Souto de Moura – e por um círculo variável de amigos. Uma experiência que partilhou, que partilha, o sonho de resgatar Portugal do seu isolamento e, ao mesmo tempo não renunciar à sua identidade histórica – projecção de uma prática da arquitetura que se libertou, que se liberta, das formas históricas, mas não do carácter profundo da sua cultura.

Sinal e sedimento de uma identidade não linear, talvez sejam tão só a reunião de gestos de simplicidade de quem procura (procurou) processo e pauta para a elevação da cultura do lugar, para a transformação de uma paisagem – desassossegos da arte da casa-mãe, a Arquitectura.

Arquitectura que é afinal um modo de aprender a modificar a circunstância criando nova circunstância, foi, tem sido, princípio e experiência, manifesto e espaço de uma cumplicidade mínima para (a)firmar um projecto para o ofício da arquitectura, estendido, transportado e traduzido, sem grande distância criativa mas com mágica convicção, como atmosfera festiva, como abraço instalador de prática de escola. Prática mansamente cultivada como escola hospitaleira e plural na evolução do “território da arquitectura”.2

Mas na agitação dessa condição ou na inteligibilidade desse processo, temos como seguro que os passos de hoje ou próximos interseccionam, atravessam, tocam diferentes confabulações e derivações, cruzamentos e desvios.

1 DORIGATI, Remo, “Prólogo”, Eduardo Souto Moura, conversas com estudantes.

Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 1008.

2 GREGOTTI, Vittorio, Il Territorio dell’Architettura. Milano: Feltrinelli, 1977 (1966).

Prática[s] de Arquitectura Projecto | Investigação | Escrita

Manuel Mendes

III II

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Hoje, sabemo-lo bem, aquela aventura serve a muitas outras hospitalidades, de muitos outros lugares, de muitos outros praticáveis de conhecimento e desenho, de estudo e investigação, de ensino e aprendizagem. É que em boa verdade “fazer um projecto é construir uma distância objecto-sujeito para, nesta distanciação, inventarmo-nos a nós próprios e, simultaneamente, o projecto”.3 Hoje, talvez seja instrutivo e operativo aceitar que projecto, investigação, pensamento são estações problemáticas na agitação do argumento e na manifestação de sentido da marca “Escola do Porto”.

Hoje, talvez seja exigência: libertar o projecto na evolução da arquitectura enquanto encontro controverso entre prática disciplinar e experiência artística – criação, pensamento, conhecimento;

averiguar, problematizar na investigação sobre a capacidade propositiva da arquitectura para a definição de lugares, a produção de significados, a sinalização de uma linguagem; tematizar, aprofundar na história o sentido de fundação, de perturbação, de (in)fidelidade do que o que aqui se foi proporcionando e partilhando como arquitectura, como escola, como lugar.

Criação, pensamento, conhecimento são, seguramente, condição disponibilidade de acolhimento do outro: gestos de simplicidade de quem prossegue processo e pauta para desassossegos da arte da casa-mãe – a Arquitectura – na transformação de uma paisagem.

À mobilidade dos significados e à complexidade dos materiais que se oferecem à construção da arquitectura, de que forma servir criativamente o destino desta como expressão e projecção física da imaginação, como experimentação e experiência, como conhecimento e acontecimento, sem subverter a sua “coerência aventurosa” pela manipulação arbitrária e/ou abusiva da complexidade dos materiais que a movimentam, que a constroem?

3 VALDERRAMA APARICIO, Luz, La Construcción de la Mirada: Trés Distancias.

Sevilla: Universidad de Sevilla/Secretariado de Publicaciones, 2004.

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Projecto | Investigação | Escrita

Fevereiro 2023

Prática[s] de Arquitectura

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Prática[s] de Arquitectura

Projecto | Investigação | Escrita Manuel Mendes Preâmbulo Colectivo Prática[s] de Arquitectura Para o caderno do Arquitecto Bricoleur A Estufa Doméstica João Gaspar

Inhabiting, pleasure and luxury for all Jean-Philippe Vassal Arquitectura Resgatada

Inquietações disciplinares a partir de três estímulos recentes Nuno Travasso

Da “prática”: a motivação nos constrangimentos Joana Restivo, Filipe Moreira da Silva

Siete pilares, parámetros, palabras. Federico Soriano Arquitectura, Feitiço e Território.

Matéria e impulso de libertação na obra baiana de Lina Bo Bardi Godofredo Pereira

Los tiempos de la arquitectura Francisco Jarauta da Produção da Arquitectura Diogo Silva Alison + Peter Smithson, Urban Structuring:

Un análisis terminológico Maurici Pla

Fragmentos ilustrados sobre a ‘Escola do Porto’

Alexandre Alves Costa

Projecto, casa, escola. Orlando Gilberto-Castro Bairrismo/Universalidade:

A Escola do Porto Jorge Figueira Living in Berlin

Notas de um processo projetual

António Pedro Faria, Marisa Oliveira, Tiago Ascensão

O Ensino Moderno da Arquitectura na Escola do Porto:

fundamentos para a Escola de Coimbra Gonçalo Canto Moniz

Souvenir de Constantinople.

Notas sobre arquitectura e (estetização da) política.

Pedro Levi Bismarck

Correspondências José Miguel Rodrigues História Marta Oliveira

Arquitectura e mirada, projecto e distância – construção e movimento de uma coerência aventurosa Luz Fernández Valderrama

Casa Totó

experiências de projecto para uma casa comum Luís Piteira

Un cuarto también es un texto Luis Martínez Santa-María

I 13

21 31

35

65 69

83 91 97 105

117 135 139

149

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189 201 227

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265 279

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Colectivo Prática[s]

de Arquitectura

Preâmbulo

O colectivo Prática[s] de Arquitectura nasce de um conjunto de acções e acontecimentos espontâneos, dinamizados ou participados por alunos e professores da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP), a partir de 2008, que faziam parte da rotina da Escola e dos seus intervenientes durante aquele período.

A grande maioria dessas acções e acontecimentos surgiriam em resposta a um contexto de agitação mundial, do país, do ensino superior e da arquitectura. O despontar de uma crise estrutural, económica, social e política, a nível global; a demonstração das desigualdades sociais, que apenas se tornavam mais visíveis, bem como da fragilidade do país perante esses acontecimentos; o desemprego; a emigração massiva, que incluía o pessoal qualificado, que incluía os arquitectos e que incluía os jovens arquitectos; a vigência do “Processo de Bolonha”; as mudanças dos estatutos, dos meios de financiamento e das figuras legais das instituições do ensino superior, com graves prejuízos para a sua independência científica e de investigação; a perda, por parte dos estudantes, do assento em órgãos de gestão da Faculdade, que já tinha sido precedida pela perda da paridade entre alunos e professores nos mesmos órgãos.

Havia, então, uma procura pela consciência de um mundo exterior, de uma pluralidade, de uma heterogeneidade, de uma diversidade, de uma relação na diferença, que eram possíveis de observar na forma como o mundo artístico ia construindo o paradigma da contemporaneidade – o tema político, a preocupação com as questões sociais, os novos modos de associação, a transversalidade das práticas, a intersecção entre disciplinas, a reciclagem de materiais, as novas tecnologias e o digital. Imperava a consciência de que tudo estava a mudar muito rapidamente e que era urgente reflectir, adaptar, agir.

Preâmbulo | Colectivo Prática[s] de Arquitectura

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Prática[s] de Arquitectura – Projecto | Investigação | Escrita

Destes acontecimentos informais, que fundam progressivamente o colectivo, permite ainda a memória fazer referência aos encontros Participa(ção) Agora, dinamizados por alunos de 3º ano, que sentiam o apelo de explorar a validade e importância dos processos participativos/participados; às publicações, como Corda e Dédalo, que se dinamizavam dentro da Associação de Estudantes da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (AEFAUP), num momento em que a mesma se via comprometida com a discussão da escola e da cidade; ou ao Colectivo de Arquitectos do Norte, que juntava arquitectos e estudantes de arquitectura, para debater a profissão, as condições laborais, a importância do serviço público, a exclusão e o acesso dos vários sectores da população à arquitectura qualificada.

Paralelamente, a discussão nos trabalhos desenvolvidos pelos alunos em Teoria 2 (ou Espaço Habitável e Formas de Residência, na versão pré-Bolonha), leccionada pelo Professor Manuel Mendes, será a razão pela qual se explica que tenha sido este professor a dar corpo formal ao colectivo e a ocupar o lugar de coordenador científico. A discussão fomentada nas aulas foi progressivamente ocupando outros espaços e tempos, e, assim, foi ganhando regularidade a reunião do grupo de trabalho.

*

2011 é o ano em que o grupo de trabalho ganha nome e se constitui enquanto colectivo, e é curiosamente o ano em que Portugal recorre ao apoio financeiro da troika, o ano em que é iniciada a demolição do Bairro do Aleixo e o ano em que a direcção da FAUP proíbe a livre afixação de cartazes nas paredes da Faculdade.

É também o ano em que se cruzam fortuitamente os planos acumulados de ouvir outras vozes com a vontade de um novo grupo de estudantes de tomar as rédeas possíveis da sua formação.

Discutido amplamente entre o colectivo, o seu coordenador científico, pares e entidades externas, o Ciclo de Lições saiu do papel em direcção à comunidade escolar. Um conjunto de personalidades, dificilmente acessível num mesmo âmbito, ganhou forma, presença, voz. Ao longo do ano lectivo, essas vozes permitiram alargar o quotidiano escolar e, ao acontecerem à noite, foi possível dar às lições um ritmo mais justo e alcançar um público mais abrangente e comprometido.

O impacto interno que tiveram é difícil de quantificar e talvez até de identificar. Foi, em todo o caso, um impacto sentido, não apenas pelo seu contributo individual mas também pelo valor do conjunto que formaram. Assim, em 2012, reuniram-se neste ciclo:

Gonçalo Canto Moniz - 29 de Fevereiro Marta Oliveira - 29 de Fevereiro José Miguel Rodrigues - 29 de Fevereiro Jorge Figueira - 1 de Março

Jacques Lucan - 15 de Março Maurici Pla - 26 de Abril

Luis Martínez Santa-María - 3 de Maio Luz Fernández Valderrama - 17 de Maio Federico Soriano - 24 de Maio

Jean-Philippe Vassal - 29 de Maio Alexandre Alves Costa - 31 de Maio

Com vista a informar estas iniciativas e a prolongá-las no tempo, uma equipa de investigação, dentro do colectivo Prática[s], organizou para cada sessão um caderno complementar à lição, distribuído à assistência. Este conjunto de materiais adicionais tomou a forma de fascículos, reunidos numa caixa de cartão sintomaticamente ilustrada a spray e stencil.

*

Em 2013, devido aos programas de mobilidade, a continuidade da actividade do colectivo foi garantida por um novo grupo de estudantes. Realizou-se, então, a exposição “uma escola do Porto por conhecer: realidade, história, projecto”. Da exposição faziam parte alguns trabalhos para o Concurso para a Obtenção do Diploma de Arquitecto (CODA) de arquitectos formados pela Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP), nascidos cerca de 1930, que se encontravam depositados no Centro de Documentação da FAUP.

Ao colectivo coube a preparação do dispositivo expositivo e o trabalho de recolha e selecção documental que, para além dos CODA, incluiu também outros trabalhos dos mesmos arquitectos, já realizados no contexto da sua prática profissional.

Integraram a exposição os seguintes trabalhos:

Alcino Soutinho - CODA, Museu de Artes e Tradições Populares, Campo Alegre, Porto, 1959; Casa de Férias na Praia Suave-Mar, Esposende, 1965; Habitação José Pinto A. Soutinho, 1968;

Preâmbulo | Colectivo Prática[s] de Arquitectura

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Prática[s] de Arquitectura – Projecto | Investigação | Escrita

Alcino Soutinho, Álvaro Siza, Augusto Amaral e Lagoa Henriques - Monumento aos Calafates, Porto, 1959;

Alfredo Matos Ferreira - CODA, Edifício de Habitação, Rua Arquitecto Marques da Silva, Porto, 1973; Quinta da Barca D'Alva, Joanamigo, Freixo de Espada à Cinta, 1950-2005;

Álvaro Siza - CODA, Habitação Rui Feijó, Moledo, 1965;

António Menéres - CODA, Da Renovação Urbana, Adaptação do Forte de Leça, Porto, 1961;

Augusto Amaral - CODA, Grupo Residencial Operário, Matosinhos, 1960;

Francisco Melo - CODA, Casa na Praia, Esmoriz, 1958;

Francisco Melo e Jorge Gigante - Uma Moradia, Praça Teixeira Lopes, Porto, 1959; Duas Habitações, Rua de Costa Cabral, 1961;

Joaquim Sampaio - CODA, Uma Habitação, Rua do Padrão, Porto, 1970;

João Serôdio - CODA, Bloco de Habitação em Ala Contínua, Rua Alferes Barros Cerqueira, Santo Tirso, 1957;

Jorge Gigante - CODA, Uma Habitação para um Industrial, Estrada Nacional 222, Avintes, 1958;

José Dias - CODA, Recuperação de Aldeias, Espinhosela, Bragança, 1963;

José Forjaz - CODA, Complexo Cooperativo na Granja de Mourão, 1966;

José Pulido Valente - CODA, Casa Rua das Mercês, Porto, 1963;

Rolando Torgo - CODA, Uma Habitação Rural, Amarante, 1961; Concurso para o Plano de Pormenor da zona da Vila de Amarante afectada pela albufeira da Barragem do Rio Tâmega, 1982;

Vitor Figueiredo - CODA, Habitação, em S. João do Estoril, 1959; Caixa Geral de Depósitos, Beja; Conjunto de Habitações Secundárias, Cabanas de Tavira, Algarve.

Inaugurada com uma conversa com o arquitecto Alcino Soutinho, a exposição foi acompanhada por um conjunto de folhas de sala com informação sobre os projectos expostos e entrevistas realizadas a alguns dos seus autores, dando-lhes voz e contexto.

*

Dez anos após o primeiro acto público do projecto, oferece-se esta publicação como reunião e partilha dos contributos decorrentes do Ciclo de Lições. Assim, marcam presença os textos resultantes das lições do ciclo internacional, da autoria dos conferencistas; e textos da autoria dos membros do Colectivo e de outros alumni da FAUP,

redigidos contemporaneamente ao Ciclo de Lições e em intersecção com as matérias aí leccionadas, na sequência de programas de intercâmbio, da realização das suas dissertações de Mestrado ou de Doutoramento, ou da sua entrada na vida profissional, e que dão nota sobre o seu exercício de arquitectura (projecto, investigação e escrita). É a partir desta intersecção/relação extemporânea que o livro se compromete com o tema da exposição – uma escola do Porto por conhecer –, não com a publicação directa dos conteúdos, mas com o retomar da sua proposição à luz da contemporaneidade.

Os autores foram convidados a introduzir os seus contributos com um preâmbulo que contextualize a oportunidade dos seus textos na actualidade. Passados dez anos, continua-se a compreender a pertinência das matérias tratadas – a condição profissional, a condição artística, o papel da Universidade, a transversalidade ou a autonomia do conhecimento, a globalização, o ambiente.

Com a dispersão geográfica e profissional que uma década pressupõe, o colectivo propôs-se espontaneamente ao retomar dos trabalhos, materializando a vontade de concluir o projecto. Apenas dispondo do excedente de financiamento do IJUP que serviu para custear a impressão, a produção da publicação foi integralmente realizada pelo colectivo – recolha de conteúdos, estruturação, montagem, revisão de textos, paginação – sem recurso a trabalho externo/profissional.

A ordenação e hierarquização de conteúdos, que se reflectem no índice, quis ter como referência a rotina em que se vivia na Escola no período original do Prática[s] – reunidos num todo em dinâmica heterogénea, com uma estrutura fluida e livre, agita-se, propõe-se o conflito, o manifesto, a intersecção de matérias.

Projecto. Investigação. Escrita.

*

Para quem possa tomar agora o primeiro contacto com estes materiais, ou para quem esteja a ser relembrado do seu despontar há dez anos, não é um legado fechado e estanque que pretendemos partilhar. É uma vontade de intersecção, de contaminação, uma vontade de tornar mais complexo e mais rico aquilo que fazemos.

É um entusiasmo e um estado de questionamento que se podem manter para lá dos anos. É um repto: o repto de que se continue a fazer projecto, a fazer investigação, a fazer escrita para além das salas de aula, para além das paredes da escola, para além da nossa esfera primária. Se a arquitectura é feita de prática[s], então que se faça praticando: praticando a liberdade e o sentido crítico, praticando o pensamento, o diálogo, a proposição.

Preâmbulo | Colectivo Prática[s] de Arquitectura

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Prática[s] de Arquitectura – Projecto | Investigação | Escrita

Passaram dez anos desde o início da componente pública do Prática[s], como sempre lhe chamámos. Dez anos desde o momento em que decidimos colectivamente manifestar uma falta e a vontade de a preencher, de lhe dar sentido. Decisão entusiasmada de sujar as paredes (e as páginas) brancas, de propor o conflito como elemento operativo, desejável na formação de arquitectura e de cidadania.

Quisemos o que não nos era dado conhecer, o que não tinha lugar nos planos de estudos. Quisemos coisas outras, sem outro intuito que não o de nos colocarmos noutros lugares, de nos testarmos, de nos munirmos de mais ferramentas. Quisemos partilhar as nossas inquietações e os nossos esforços – e a Faculdade é, e queremos que seja, um espaço onde isso pode acontecer.

O conjunto de lições que então dava corpo público ao projecto ocupou o mesmo auditório que as aulas de todos os dias e, por esse motivo, fez o espaço crescer. Aquelas lições. Naquele auditório.

Só desta forma poderiam as nossas inquietações revelar-se um manifesto; só dando à escuta aquelas pessoas naquele lugar. Assim, foi possível percebermos melhor o que fazíamos: questionar, pôr em causa, discutir os limites, a liberdade de pensamento e de prática perante um contrato escolar invisível, tácito, auto-determinado.

Criámos o espaço para colocar em diálogo o projecto: projecto, investigação e escrita. Demo-nos permissão para olhar de frente as margens e perceber que não estávamos sós.

Hoje, encerramos este ciclo da mesma forma que o abrimos: com o mesmo entusiasmo, com o mesmo sentimento de que algo ainda está em falta, com ainda mais questões por responder, e com a mesma vontade de conferir pluralidade à prática numa escola que continua a ser [a] nossa.

O colectivo Prática[s] de Arquitectura agradece:

aos co-organizadores do projecto, Associação de Estudantes da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (AEFAUP) e Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP);

à Investigação Jovem da Universidade do Porto (IJUP), pelo apoio atribuído através do Concurso para Projectos Pluridisciplinares do IJUP 2011, financiado pelo protocolo U.Porto/Banco Santander Totta;

aos intervenientes no Ciclo de Lições, que dispuseram generosamente do seu tempo para contribuírem para estas sessões e que responderam de forma mais receptiva do que o expectável;

ao público, que, adquirindo bilhete para o Ciclo de Lições, proporcionou condições para a sua realização;

aos patrocinadores e apoios do Ciclo de Lições;

aos autores que fizeram parte da exposição, especialmente aos entrevistados;

à Teresa Godinho, pelo apoio incansável na disponibilização e preparação do material do Centro de Documentação da FAUP;

aos autores dos contributos da presente publicação, pela sua disponibilidade, amabilidade e paciência;

ao professor Manuel Mendes.

Preâmbulo | Colectivo Prática[s] de Arquitectura

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Prática[s] de Arquitectura – Projecto | Investigação | Escrita

João Gaspar

Para o caderno do Arquitecto Bricoleur A Estufa Doméstica

Do processo de bricolage

“O bricoleur dedica-se a realizar um grande número de tarefas, mas, distintamente do engenheiro, não subordina cada uma delas à disponibilidade de matérias-primas e ferramentas concebidas e obtidas segundo a finalidade do projecto. Seu universo de instrumentos é limitado e as regras do jogo são sempre as de actuar com ‘qualquer coisa que esteja à mão’, isto é, com uma sucessão de ferramentas e materiais que é sempre finita e que é também heterogénea (…).”1

1 Claude Levi-Strauss; “Pensamento selvagem’’, citado por Iñaki Abalos, Boa vida.

Visita guiada às casas da modernidade, p. 105.

... em busca do tempo perdido mas com bolos de arroz no lugar de madalenas

Recuperar a efeméride das Prática[s] de Arquitectura, e com ela este texto que na altura recuperava a escrita da tese1, a qual recuperava a construção de uma pequena estufa que em si é uma recuperação de materiais e experiências de arranjos anteriores, à parte da vertigem proustiana, é um exercício que só me pode fazer recuperar os agradecimentos ao colectivo das Prática[s] de Arquitectura.

Primeiríssimo por esse momento de arejo da escola que foram as 14 lições, a fazer lembrar a barrela de fim de inverno nas casas de campo, o sacudir os tapetes e o passar a cera no soalho, aquele cheirinho.... E depois por me porem em cima da mesa proposições deixadas na prateleira durante 10 anos.

O guia de bricoleur que o texto pretendia enunciar está por fazer e pode ser particularmente pertinente pensá-lo à luz dos dias de hoje. Tirar a bricolage da escala doméstica e colocá-la ao serviço da prática profissional nunca me pareceu tão motivado, seja escassez, seja pelos mecanismos que ela tem ao seu serviço: os bancos de materiais, os serviços de desmontagem, as análises de ciclos de vida dos edifícios. À falta desse guia fica o enunciado. Peço tolerância para a verdura às vezes indecifrável da escrita, mudá-la agora era desmanchá-la.

1 Este artigo é elaborado a partir de uma secção da dissertação de mestrado “O que faz uma casa?” apresentada à FAUP . O texto é mantido na sua integridade tendo sido apenas corrigidos alguns aspectos de forma a poder ser apresentado isoladamente.

Entre a multiplicidade de conteúdo da dissertação integra-se a construção de uma pequena estufa, experiência que se revelaria simultaneamente laboratório de experimentação de algumas das teses levantadas nesse trabalho e objecto de estudo indutor de outros desvios, captador de outros temas para o corpo analítico. Esta experiência é assumida como instrumento para a reflexão sobre os territórios de expansão da arquitectura, apontando a intervenção sobre a casa em curso e os modos de operar da bricolage como elementos potenciadores da acção do arquitecto sobre o

espaço [já] construído. Para o caderno do Arquitecto Bricoleur. A Estufa doméstica | João Gaspar

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“Sempre gostei de trabalhar com as sobras, de converter as sobras em coisas(…). Sempre achei que as sobras tinham muito humor.”2

O processo de bricolage envolve uma inversão de papéis de subordinação entre o material e o desenho, não existe um leque virtualmente indeterminado de recursos que servirão as opções do projecto; são os próprios materiais acumulados ao longo de anos, segundo o seu emprego potencial, que em última instância condicionam as opções da obra.

O processo começa assim muito antes de se ter notícia do propósito da obra, das necessidades ou das intenções que a convocarão. A recolha de tudo o que possa vir a servir, resultado das construções e destruições anteriores, marca a rotina do bricoleur.

O sucesso da obra depende da multiplicidade e heterogeneidade desses materiais disponíveis, assim como da capacidade de ler as suas potenciais formas de agregação. Não obstante, tal colecção é em si parte da casa, é lugar de particular intensidade pois reserva simultaneamente a memória de estados anteriores da casa (de onde tais peças provieram), como potencialidades de estados futuros (na especulação da oportunidade de novas aplicações de tais materiais).

Esta densidade emotiva do armazém é facilmente experimentada no percorrer de um ferro-velho, em que se torna inevitável projectar as vidas que se compuseram com tais peças. O elo entre o objecto portador de uma história e a pessoa é de tal forma cultivado que, por vezes, a manutenção da posse de parte do acervo deve-se apenas à sua condição afectiva, esgotada que se encontra qualquer potencial utilidade.

A esta colecção de “matérias-primas” acumuladas corresponde um conjunto de ferramentas, igualmente angariadas ao longo do tempo, que não deverão ser demasiado especializadas, para que o bricoleur a possa operar sem o recurso a técnicos.

O meio ideal do bricoleur não é a natureza perdida do paraíso ou da Floresta Negra3, porque aí não haveria matéria e ferramenta disponível para as suas realizações. O meio híbrido, proliferado de contaminações, de processos de transformação contínuos, é onde

2 Andy Warhol; The philosophy of Andy Warhol (...) citado por Iñaki Abalos, op. cit.

p. 127.

3 Os termos destacados pelas aspas referem-se a temas abordados anteriormente, no decorrer da tese: “natureza perdida no paraíso” refere-se às indagações de Joseph Rykwert sobre a morada de Adão no Paraíso, e a Floresta Negra refere-se à cabana de Martin Heidegger que albergou as suas reflexões sobre a autenticidade do habitar.

a bricolage encontra o seu potencial de realização.4

O processo contínuo de recolha e reciclagem, antes de se comprometer com demandas globais de sustentabilidade (e deve ser consciente delas), serve os apelos desse meio que envolve o bricoleur, responde ao local: seja às necessidades dos sujeitos-habitantes, seja às possibilidades e angariação de matéria-prima.

A obra de bricolage não pode exigir a premeditação e a definição prévia do projecto convencional, a concepção do arranjo continua durante a execução da obra, cede às potencialidades e às limitações que aí podem surgir (e por certo surgirão). No entanto, o arquitecto bricoleur não está demitido dos níveis mínimos de exigência, o seu processo intuitivo, o seu espaço à improvisação, terá que ser sempre submetido à intenção primeira de renovar e enriquecer existências;5 a obra de bricoleur não está isenta da busca (como qualquer obra) pela consistência, deve ser insistente na construção da compatibilidade dos elementos que a compõem, em especial dada a heterogeneidade que os caracterizam.

Numa obra de bricolage o detrimento de tal busca pela consistência, desse compromisso com a qualidade da montagem produzida, vota-a à condição de obra de “chanato”6, o que poderá fazer dela um factor de degradação do ambiente que se propunha enriquecer.

O bricoleur deve assim fazer uso de uma precisão na colagem dos elementos de que se compõe a obra; uma pragmática da possibilidade, na resposta ao necessário com o que está disponível. A formação desta precisão, desta eficácia da obra de bricolage poder-se-á servir dos instrumentos convencionais da arquitectura, de ensaio e simulação de possibilidades: o desenho, a simulação virtual, o ensaio táctil e a intuição construtiva diante a matéria poderão trazer à produção do bricoleur esse rigor do arranjo.

A heterogeneidade do processo da bricolage, dos materiais e das ferramentas, guarda uma empatia com a heterogeneidade e multiplicidade que reconhecemos na experiência da casa.

Esta forma de intervenção imediata sobre espaço da casa constitui uma resposta directa às flutuações das exigências do habitar. A bricolage é parte integrante da experiência de habitar,

4 Nota: a casa que alberga esta estufa encontra na sua proximidade com um parque industrial desactivado donde proveio substancial parte da colecção, e da qual conta já com um sem número de aplicações.

5 nota: expressão de Merleau-Ponty citada por Iñaki Abalos, em Boa vida, página 105:

“[o universo de instrumentos da bricolage] é resultado contingente de todas as ocasiões para renovar e enriquecer existências.”

6 “Chanato: s.m. sapateiro reles, sapato velho, cigarro ordinário.” Dicionário da Língua

Portuguesa; Porto Editora; 5ª edição. Para o caderno do Arquitecto Bricoleur. A Estufa doméstica | João Gaspar

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é um processo aberto, contínuo, que se reformula a cada nova aquisição e seu reemprego.

A esfera expressiva da obra de bricolage parece dominar sobre a da eficácia técnica: seja pelos elementos de que se que compõe, que evocam experiências anteriores que se tornarão povoadoras privilegiadas do território imaterial da casa; seja pela carga afectiva associada à construção por meios próprios que se promove vínculo entre a pessoa e o espaço físico. A relação do cliente com o arquitecto bricoleur deve instituir-se assim de um princípio de cordialidade, o arquitecto, intervindo na casa em curso, deve preservar o território do habitante que continuará a moldar o seu espaço em busca de arranjos cada vez mais consistentes.

Assim a intervenção do arquitecto na obra de bricolage encontra o seu maior potencial em momentos chave de refundação da casa, em que o habitante não encontra resposta justa nas lógicas distantes do mercado (i)mobiliário ou do design.

Do processo de bricolage

A recolha e armazenagem é parte integrante de um modo de vida, quando se trata da gestão das colecções, “guarda o que não que presta, saberás o que é preciso”. Com o mesmo tempo com que se constrói o espólio, se constrói a oficina, se colecionam ferramentas, tendencialmente analógicas, à excepção de algumas eléctricas, sempre sob a condição acessíveis a um utilizador não especializado.

01 e 02 Oficina que partilha o barracão com a Peugeot 404 e o curral das ovelhas.

03 e 04 Coberto onde se conserva (parte da) a colecção; este abrigo é igualmente construído pelos processos da bricolage (a cobertura transita de uma demolição de um parque industrial vizinho, os apoios verticais são de uma sonda de água.

05 Montagem da estrutura defronte da oficina.

06 Preparação do local de implantação.

07 Implantação.

08 Aplicação da película plástica.

09 Conclusão da obra

Da Montagem

O olhar do bricoleur deve percorrer os armazéns antes de qualquer cometimento; mas tais colecções que albergam estão também alojadas no espírito que trata de compor a próxima obra com os instrumentos do inconsciente. Tal plano não é composto por um traçado rigoroso, mas antes por uma solução de montagem, uma compatibilidade entre algumas peças-chave que serão a ignição da obra.

Os constantes ajustes/incorporações durante a obra, o ensaio em tempo real das possibilidades são dados assumidos à partida.

O leque de oportunidade é tal que atinge a improbabilidade limite; o uso futuro de uma peça é tão indeterminado quanto as necessidades que a irão votar à nova função.

O processo de construção desta estufa é prova da indeterminação do processo da bricolage: tanto no que respeita à sua convocação, não sabemos se foi o recente apego ao cultivo, se foi a peculiaridade do material disponível que iniciou o processo; quanto à natureza dos materiais que a compõem: cavaletes das gaiolas de um aviário desactivado tornam-se os suportes verticais; um esqueleto de um toldo de uma esplanada é a cobertura. (Ainda poderíamos encontrar mais algumas recuperações improváveis, uma antiga calha da ração é incubadora de sementes, as ripas de suporte do plástico são um antigo tecto falso da casa em Caxias do tio). O processo de bricolage inclui em si a satisfação da necessidade de expansão de território, faz parte do habitar uma casa; assim ele não deve ser demitido de um desfrute, de um recorrente recurso à pausa para contemplar os resultados e especular os progressos futuros, pausas que quando possível devem incluir uma cerveja e uma sombra.

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O assentamento de uma peça sobre a terra está irremediavelmente associado à nossa condição de ser habitante, tal momento comporta qualquer coisa de primitivo: o convite à terra para receber a obra do homem. Esta estufa representa um grau-zero dessa nossa condição humana de construtores. Esta é a nossa primeira intervenção que aparece numa imagem de satélite.

O saque do direito ao céu e as raízes decepadas da terra a que a habitação por andares nos vota, fazem-nos esquecer a condição de medeio entre estes elementos que tem a arquitectura.

Da vida e da manutenção

A fase embrionária da odisseia agrícola dos sujeitos habitantes afectos a esta estufa, votaram-na a uma fase de “quarentena”

após a conclusão da obra. A resistência à sua ampla ocupação foi prolongada pelo inverno rigoroso que se seguiu. Uma aparente predisposição para estivar as culturas junto às faces laterais, através de sucessivas prateleiras, era contrariada pelo contacto directo com a película plástica que, encontrando-se à temperatura exterior, as “queimava”.

No entanto, a benesse dos meses amenos e o apuramento do modo de usar, depressa expandiram os seus resultados. O sucesso da germinação de sementes amplia o ritmo produtivo de toda a horta; valência que se soma ao cultivo de alguma planta mais frágil. A maturidade destes agricultores domésticos levou à incorporação de um sistema de regulação da renovação de ar (por meios estritamente analógicos: abertura/fecho das abas da cobertura), assim como a um entendimento das “zonas de conforto” dentro da própria estufa.

Dadas as provas da eficácia técnica, a esfera expressiva que reconhecemos integrar o processo de bricolage, encontra também aqui a sua manifestação. Aparte da gratificação que constituiu o seu processo de montagem, o imaginário da visita à horta é dominado pela sua presença vigilante. Também aqui, nesta

10 e 11 Primeiro inverno.

12 e 13 Último verão.

arquitectura do imediato, se reconhece um valor da permanência, ainda que ele seja relativo à variabilidade-limite da envolvente vegetal.

A aprendizagem do modo de usar ditou a deslocação da estufa uns metros a norte para a livrar da sombra das sebes que então cresceram, e uma reconstrução madura que permitiu melhorar algumas soluções.

Da estufa doméstica aos territórios da bricolage

A estufa-doméstica emprega os processos de bricolage além do seu campo “convencional” da pequena renovação e de manutenção operada pelo próprio habitante. Tal condição pode constituí- la como contributo válido para avaliar os modos de operar do arquitecto bricoleur.

A casa-quinta que alberga a estufa – como em todas as casas-quinta – face às exigências do seu trabalho de produção, é propensa a coleccionar ferramentas e materiais dos quais depende o sucesso de muitas operações de manutenção e reparação necessárias.

O ritmo desta casa é marcado pelos compromissos com o dia, mas, dependendo da sazonalidade, sobra tempo que tende a ser empregado na casa, nessa aspiração constante de renovar ou enriquecer existências. A apropriação dos seus recintos é parte integrante do habitar da casa-quinta, para isso o espaço não pode ser escasso, as condições de expansão devem ser garantidas. Tal disponibilidade para o trabalho da casa para colecção de peças múltiplas de casas anteriores, não encontra a mesma oportunidade nas “casas de milhões”7 que nem por isso dispensam a mesma necessidade de renovar ou enriquecer existências a que a bricolage tende a responder eficazmente.

A escassez de oportunidade para a bricolage a que as curtas casas de milhões se vêem votadas abrange igualmente a esfera expressiva, limita a realização e a inventividade do habitar.

Outro tipo de abordagem se exige nestes contextos, a procura da possibilidade da bricolage na casa da cidade pode alinhar-se com uma nova categoria de prestação de serviços. A constituição de uma entidade – chamemos-lhe oficina – dedicada à manutenção

7 Nota: o termo “casas de milhões” é usado repetidamente ao longo da dissertação que alberga este artigo, dando, inclusivé, nome a um dos seus blocos, este termo refere-se à habitação na grande cidade, cujas premissas de consistência da obra e entendimento das necessidades de habitar se encontra recorrentemente diminuída face às premissas económicas que a norteiam.

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e transformação da instalação doméstica poderia colmatar o elo em falta para a possibilidade da bricolage em espaços domésticos limitados. Tal oficina deveria contar com a capacidade de recolher e armazenar o material decorrente das intervenções. Não faltaria em tal oficina o conjunto de ferramentas que encontrámos nesta casa-quinta, cuja operação poderia ser delegada ao habitante, ao arquitecto ou a parceiros.

A especulação dos recortes de tal oficina não nos deve dispersar, mas poderemos encontrar outras formas de alargar o seu espectro de acção alinhadas com essa necessidade de aumentar as valências da casa da cidade. A oficina, constituindo-se lugar- comum a várias casas, poderia encontrar formas de permuta (temporárias ou permanentes) de componentes ou espaços que compatibilizassem as diferentes necessidades dos seus sujeitos habitantes.

À semelhança do processo da bricolage, não devemos avançar demais na determinação dos modos em que tal oficina se haveria de constituir, talvez seja a altura de avançar para a obra, com o cometimento, matéria e ferramentas disponíveis e esperar pelas indicações da circunstância.

Para o caderno do Arquitecto Bricoleur. A Estufa doméstica | João Gaspar

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Jean-Philippe Vassal, Lacaton & Vassal

Inhabiting, pleasure and luxury for all

Inhabiting implies pleasure, generosity, the freedom to occupy a space, beyond the functional.

It challenges us to think about the possibilities and capacities of the space around and in front of us.

Designing architecture on the basis of the notion of inhabiting means to construct space from the inside, and not from the outside.

This sets down an intention for precision and attention.

Inhabiting first concerns housing, but more broadly, any space of use.

Every place is inhabited, whether private or public: an office, a school, a museum, the park where we walk.

The space for living must be generous, comfortable, adaptable, flexible, luxurious and affordable.

The dwelling must offer the inhabitant opportunities to move around, to appropriate space, offer freedom of usage to generate possibilities of evolution and interpretation.

In general, the standards of housing are too small, too restricting..

We think it is necessary, in every project, to create living spaces as big as possible, much more generous than the standards or the defined programs, to multiply the space for use and foster appropriation, to create intermediate spaces, between the public and the private.

Enlarging does not mean wasting. It means inventing room and going beyond the norms which reduce the living space.

It means building larger, within the same budget as the standard.

Large spaces bring a vital feeling of freedom.

A dwelling must offer extra space, as much extra space as programmed space.

This extra space is a non-defined space, free for-use. It is added to the traditional spaces of the dwelling or to the programmed space and the combination of both allows freedom and appropriation.

Inhabiting, pleasure and luxury for all | Jean-Philippe Vassal, Lacaton & Vassal

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Every dwelling must have a privative outside space, as a balcony, a terrace, a winter garden, which offers the possibility of living outside, of having a garden, like in a single house.

Building larger means building double, within the same cost to be affordable for everyone, to create other possibilities, other freedom, new ways of inhabiting.

Building double, for any program, to loosen the constraints, to loosen norms and to allow more uses and improvisation.

A dwelling should give the same facilities as a villa.

The idea of luxury is therefore redefined in terms of generosity, freedom of use and pleasure.

Our aim is to redevelop in cities the concept of villas (houses with gardens), in a dense urban context.

Offering twice more space to each person, is necessary and an essential condition to any project of densification.

Density, high-rise, are not only compatible with a better quality of life, but they also offer solutions for a greater generosity of individual space, for the revitalization of community life, for the pleasure of inhabiting in cities.

All this applies for new housing, but also in the transformation and improvement of existing buildings, to enhance their values, bring them a new permanent quality and create optimal conditions for inhabiting.

01 An apartment’s balcony.

Transformation of housing block, Tour Bois le Pretre, Paris.

IMAGES

01 Philippe Ruault.

Inhabiting, pleasure and luxury for all | Jean-Philippe Vassal, Lacaton & Vassal

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Nuno Travasso

Arquitectura Resgatada

Inquietações disciplinares a partir de três estímulos recentes

Nota Prévia

O texto que se segue é uma reacção suscitada por três estímulos recentes:

* Conversa #2 do ciclo Cidade Resgatada1 promovido pela Ordem dos Arquitectos - Secção Regional Norte. Uma conversa entre Alexandre Alves Costa e Álvaro Domingues com moderação de Manuel Carvalho, na Biblioteca de Serralves a 22 de Maio de 2013.

* Editorial do Jornal Arquitectos nº 247, Maio-Agosto de 2013, com o título “Combate e Táctica” e respectivo resumo apresentado na capa da mesma publicação sob o título “Combate”, escritos por André Tavares e Diogo Seixas Lopes, directores da actual equipa editorial da publicação da Ordem dos Arquitectos.

* Re-Act Urban Festival – Take1, promovido pela revista Dédalo.

Evento composto por um workshop e um ciclo de conferências e debates, que teve lugar no auditório da Junta de Freguesia de Campanhã e na Faculdade de Arquitectura do Porto, entre 23 e 27 de Maio de 2013.

Três estímulos, encerrando três discursos distintos que, pelos seus contrastes, me conduziram a uma reflexão, talvez demasiado extemporânea e pouco fundamentada, certamente demasiado ingénua – mas que segue.

1 De acordo com a organização, e tal como se pode ler no folheto informativo que anunciava a conversa, “[o] O Ciclo de Conferências e de Conversas Públicas, denominado A Cidade Resgatada, organizado pela Ordem dos Arquitectos - Secção Regional Norte (Pelouros da Cultura, Comunicação e projecto Norte 41º), aprofunda o debate, iniciado em 2012, sobre os processos de Regeneração Urbana, à escala nacional e internacional. Com este debate não se pretende apenas ‘resgatar’ o protagonismo dos centros consolidados; deseja-se abarcar a cidade mais alargada, sobretudo as franjas e os vazios pós-industriais, procurando perceber o seu papel estratégico nessa regeneração. Deseja-se, enfim, que esses processos sejam participados e debatidos interdisciplinarmente, englobando os contributos do Urbanismo, da Arquitectura, do

Paisagismo, da Geografia, da Sociologia, e da Antropologia.” Arquitectura Resgatada | Nuno Travasso

O texto que agora se publica foi escrito em 2013, por reacção a três estímulos distintos, quase coincidentes no tempo, que tiveram a virtude de expressar de modo contrastante diferentes posições sobre um debate que se instalava então no seio disciplinar.

Estávamos no pico da crise económica e financeira, e perante o seu forte impacto tanto nas condições de vida da população em geral como no sector do imobiliário e da construção em particular.

Os arquitectos deparavam-se com a ausência de encomenda, com a alteração dos modos de produção e com o desemprego.

Ao mesmo tempo, emergiam formas alternativas de praticar a profissão e de procurar intervir em resposta aos muitos problemas sociais que se tornavam evidentes. Estas práticas alternativas constituíam-se também como críticas aos modos de actuar das décadas anteriores que, à luz do novo contexto, eram lidas como totalmente desfasadas das reais necessidades da sociedade que deveriam servir. Foi este contexto que levou à instalação de um debate em torno da função social do arquitecto, dos modos de exercer a profissão e dos limites da disciplina.

O tempo passou, e o debate fez o seu caminho, tornando este texto desactualizado. Valerá agora apenas enquanto testemunho de um momento específico, razão pela qual se optou por publicar o texto na sua versão original – com a excepção de umas vírgulas em falta e da actualização da fonte de dois textos citados que a volatilidade da internet tinha tornado inacessíveis.

Entretanto, também o contexto social, económico e político fez o seu caminho. Assistimos à concentração e intensificação do investimento na reabilitação dos principais centros históricos, destinada ao turismo e à habitação de luxo; processo este em grande parte mobilizado pelas políticas públicas. Para os arquitectos, voltou a haver encomenda privada;

e esperam ainda pela reanimação do investimento público prometido pelo PRR. A concentração do investimento levou ao súbito aumento dos valores fundiários e dos preços da construção; originando uma séria crise no acesso à habitação, que se agrava com as consequências económicas da pandemia e da guerra. Agora, procuram-se novas respostas para mais esta situação de crise, e importa perceber em que medida os arquitectos estão comprometidos com tal procura.

Afinal, talvez o texto não esteja assim tão desactualizado.

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1 | Cidade Resgatada – Conversa #2:

Impasse

Na conversa entre um arquitecto – Alexandre Alves Costa – e um geógrafo – Álvaro Domingues – falou-se exclusivamente de política.

Alexandre Alves Costa lançou o mote. Partindo do nome do ciclo de conferências e conversas, o arquitecto defendeu que “a cidade não está resgatada”. Estará apenas “quando for dos cidadãos”, quando estes tiverem voz e tomarem realmente nas suas mãos os destinos da cidade que habitam e constroem. É por esta razão que Alves Costa considera não ser possível entender a desordem que encontra no espaço urbano contemporâneo como resultado inevitável de dinâmicas e processos instalados, dado tal desordem ser, antes de mais, reflexo, reificação e representação de uma organização política e social acentuadamente desigual e injusta, resultado de décadas de governação devedora dos princípios neoliberais. Considera por isso ser inaceitável qualquer análise que contribua para a legitimação ou estetização da desordem implementada. A análise do contexto contemporâneo deverá, sim, contribuir para informar a necessária construção de um novo projecto de sociedade e de cidade a perseguir. Um projecto partilhado que trace um rumo e guie o desenho. Nesta linha, conclui: “não ter um projecto e uma acção constante de construção da cidade que se faz e desfaz a cada dia, é aceitar a degradação lenta mas contínua da própria democracia.”

Alves Costa clarifica, no entanto, que a participação na construção de uma tal visão partilhada de futuro ultrapassa as competências próprias do trabalho do arquitecto.2 Aos arquitectos cabe interpretar e dar forma a um programa dado. Ir para além desta fronteira e participar na definição do desígnio que o informa é extravasar os limites disciplinares. Será uma acção legítima e até necessária, em que todos os indivíduos se deverão envolver, enquanto cidadãos, políticos ou activistas – mas não enquanto arquitectos.

2 Actualmente, os modos de exercício da profissão, assim como os actos próprios da profissão de arquitecto, configuram um abrangente campo de práticas e formas de intervenção, que vão muito para além da prática de projecto dentro dos moldes tradicionais do profissional liberal (cf. “Estatuto da Ordem dos Arquitectos” Decreto- Lei nº 176/98, de 3 de Julho, Capítulo VI: Exercício da profissão). No entanto, ao falar d’o arquitecto e da sua prática, Alves Costa refere-se exclusivamente a essa imagem de arquitecto projectista enquanto profissional independente. O mesmo entendimento – focado na prática projectual – será assumido ao longo do presente texto.

Invade-nos assim uma dúvida inquietante: face ao cenário de aparente ausência de um programa ou de uma visão de futuro comum a perseguir, qual o papel que se espera que os arquitectos desempenhem? De que forma devem, no exercício do seu ofício, participar na sociedade da qual são parte integrante? O que lhes resta senão esperar por um programa que julguem válido, aceitando a cidade tal como ela se vai fazendo e desfazendo a cada dia;

aceitando, por isso, a própria degradação lenta mas contínua da democracia?

I Seminário Internacional de Arquitectura de Compostela e a autonomia disciplinar

O discurso de Alexandre Alves Costa segue de perto os princípios que estiveram na base da criação do I Seminário Internacional de Arquitectura de Compostela.3 A 27 de Setembro de 1976 pelas 10h00, o seminário dirigido por Aldo Rossi iniciava-se com as palavras do próprio:

“Nos finais dos anos 50, pouco depois do final da guerra, quebrou-se a bela visão da arquitectura do Movimento Moderno; esta bela visão não deveria retornar nunca mais./

Qual era esta visão? Aquela que, confundindo moral e estética, política e técnica, pensava e via na arquitectura o elemento capaz de redimir os conflitos sociais./[…] As polémicas entre arquitectura democrática, socialista e fascista dissolveram-se sob estas ruínas; a arquitectura voltava a ser técnica ou arte e, portanto, instrumento./[…] Hoje sabemos que não existe uma arquitectura moderna enquanto tal mas apenas programas a abordar e problemas a resolver.”

E acrescentava: “No estudo da cidade e da tipologia, da arquitectura e da história, devem filtrar-se todos os problemas do homem e da sociedade que nós, enquanto técnicos e apenas enquanto técnicos, não podemos resolver.”4

3 O I Seminário de Arquitectura de Compostela, organizado pelo Colegio Oficial de Arquitectos de Galicia e dirigido por Aldo Rossi, decorreu em Santiago de Compostela entre 27 de Setembro e 9 de Outubro de 1976, tendo contado com cerca de cento e cinquenta participantes, entre estudantes de arquitectura e jovens arquitectos, de várias nacionalidades.

Tratou-se de um seminário de projecto, onde cinco grupos desenvolveram propostas de intervenção para cinco áreas contíguas ao casco histórico de Santiago de Compostela. Para além das sessões de projecto, incluiu um intenso programa de conferências, projecção de filmes e visitas de estudo.

4 ROSSI, Aldo, “Introducción” in Proyecto y Ciudad Histórica: I Seminario Internacional de Arquitectura en Compostela (ed. TARRAGÓ, Salvador; BERAMENDI, Justo).

Santiago de Compostela: COAG, 1977, p. 15-16. Arquitectura Resgatada | Nuno Travasso

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Estávamos em 1976. Acabava de ser demolido o último bloco do Pruitt-Igoe. Com ele ruía também a crença na capacidade da arquitectura para transformar, moldar e determinar a sociedade5. As experiências dos primeiros modernistas não haviam criado o homem novo com que sonhavam. Também os seguidores do Team 10 se mostravam incapazes de criar novas

5 A demolição do complexo habitacional Pruitt-Igoe iniciou-se a 16 de Março de 1972, estendendo-se até 1976. Em 1977, Charles Jencks declara o dia e a hora da morte da Arquitectura Moderna, identificando-a com o momento da segunda e mais mediática demolição (15 de Julho de 1972, às 15h32). Para o autor, o fim do Pruitt-Igoe representava o fracasso do projecto modernista e da ideia de uma nova arquitectura como motor da reinvenção da sociedade. Seria esta a base do projecto: “[…] o estilo purista do complexo habitacional, como metáfora do hospital limpo e salubre, pretendia, pela força do exemplo, induzir nos seus habitantes as virtudes correspondentes. A boa forma deveria dar origem ao bom conteúdo, ou pelo menos, à boa conduta; o desenho inteligente do espaço abstracto deveria promover comportamentos sãos.” (JENCKS, Charles, Le Langage de L’Architecture Post-Moderne. Paris: Denoël, 1984, p. 10). O projecto falhou ante a multiplicação de problemas sociais, forte criminalidade e profunda degradação das construções e espaços públicos, que conduziram à sua demolição.

O Pruitt-Igoe passou a ser apresentado como prova da ideia que então se generalizava: a da incapacidade da arquitectura para promover a emergência da nova sociedade sonhada, e da associação das experiências modernistas a múltiplos problemas sociais de que foram consideradas culpadas. Tal visão esteve na base do recuo face aos princípios modernistas e, sobretudo, do afastamento da arquitectura em relação aos temas sociais e políticos onde sentia ter falhado.

Para Katharine Bristol, o mito do Pruitt-Igoe (e de toda a ideia de fracasso da aventura modernista que o envolve) assenta na manutenção da ideia de que a sua degradação material e social foi responsabilidade do projecto de arquitectura. Contrariando esta visão, a autora analisa a história daquele complexo habitacional, salientando a responsabilidade das instituições sociais e políticas e suas decisões no processo, e conclui: “A defesa de que o fracasso do Pruitt-Igoe foi consequência da agenda para uma reforma social seguidora das ideias de Le Corbusier e do CIAM, não só pressupõe que o desenho do espaço físico é central para o sucesso ou falhanço da habitação social, mas também que o projecto implementado visava levar a cabo a agenda social dos arquitectos.

Aquilo que esta visão esconde é a passividade dos arquitectos face a uma agenda mais ampla baseada não na ideia de uma reforma social radical, mas na economia política da St. Louis do pós-guerra e em práticas de segregação social.

O Pruitt-Igoe foi moldado por estratégias de guetização e revitalização do centro urbano – estratégias que não emanaram dos arquitectos, mas do sistema no qual eles desenvolvem a sua prática.” (BRISTOL, Katharine,“The Pruitt-Igoe Myth”, in Journal of Architectural Education vol.44 nº3, Maio 1991, p. 170).

comunidades significantes a partir da invenção arquitectónica, tal como prometia o Manifesto de Doorn6. A convicção numa prática de arquitectura entendida como intervenção social e política associava- se agora à profunda desilusão que resultava das suas concretizações materiais, conduzindo a disciplina a um tempo de reflexão autocrítica.

Uma reflexão informada pelos princípios estruturalistas de inspiração linguística e pela crítica da Escola de Frankfurt, que afastava a arquitectura de uma prática projectual em cuja eficácia já não acreditava.

Eduardo Souto de Moura viria mais tarde a afirmar pertencer “a uma geração que cresceu na ideia da arquitectura enquanto ciência social, como parte de uma ideologia segundo a qual seria necessário partir da análise para chegar a uma síntese, princípio que tanto era válido para a leitura estruturalista como para a marxista./Todo o suporte teórico assentava no pressuposto de que era necessário observar a realidade para poder modificá-la, e que só graças à observação analítica a arquitectura se poderia manifestar; ou então que seria necessário conhecer a história para poder intervir no seu rumo, fundando novos movimentos./Do ponto de vista da teoria disciplinar, no entanto, nos tempos em que estudei, era o vazio total.”7

Foi em busca dos instrumentos de que sentia falta que Souto de Moura rumou a Santiago de Compostela em Setembro de 1976,8 juntamente com Adalberto Dias, Teresa Fonseca e Graça Nieto Guimarães.

Como afirmou Salvador Tarragó, secretário do 1º SIAC, “o Seminário de Santiago pretendia ser o primeiro passo de uma formulação colectiva e internacional de uma nova e velha maneira de entender a arquitectura”9, assim como a proposta de uma nova

6 O Manifesto de Doorn, redigido em Janeiro de 1954, foi a base da primeira declaração conjunta do grupo Team 10. Sob o título Habitat, o documento elege a criação de comunidades como principal objecto da investigação disciplinar e objectivo primeiro da acção dos arquitectos, remetendo para segundo plano o estudo da casa enquanto entidade autónoma. No oitavo e último ponto do manifesto afirma-se “a adequação de uma qualquer solução deverá vir do campo da invenção arquitectónica mais do que da antropologia social” (SMITHSON, Alison; SMITHSON, Peter,“Habitat” in Team 10:

1953-81, in Search of a Utopia of the Present (ed. RISSELADA, Max; HEUVEL, Dirk van den). Rotterdam: NAi Publishers, 2005, p. 42).

7 SOUTO de MOURA, Eduardo,“Su Aldo Rossi” in Dopo Aldo Rossi, d’Architettura nº23, Abril 2004, p. 185.

8 “Quanto ao meu percurso pessoal, se Siza me forneceu os instrumentos ‘mecânicos’

de projecto, Rossi deu-me a ‘epistemologia’, o suporte conceptual para a leitura da realidade e do projecto. De um modo geral, Rossi teve uma grande influência na arquitectura portuguesa.” (idem, ibid. p. 188).

9 TARRAGÓ, Salvador,“Opiniones sobre el 1er SIAC”, 2C Construcción de la ciudad nº8,

Março 1977, p. 61. Arquitectura Resgatada | Nuno Travasso

Referências

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