Mercado de Trabalho e Desemprego
11 Conceitos e Factos
Uma pessoa desempregada tem menor poder de compra, menor amor próprio, e, tende, em geral, a perder qualificações. Estes efeitos são particularmente acentuados no caso do desemprego de longa duração, ao qual está frequentemente associado um grande sofrimento, da pessoa desempregada e da sua família.
A existência de desemprego significa que os recursos produtivos da economia não são plenamente aproveitados. Produzem-se menos bens e serviços do que aqueles que seria possível produzir, dados os recursos e a tecnologia existentes. Isto reflecte-se no bem-estar das gerações presentes e futuras.
As pessoas empregadas também suportam os custos do desemprego, directa e indirectamente. Os sistemas de segurança social transferem recursos para as pessoas desempregadas (subsídio de desemprego). Além disso, uma maior taxa de desemprego implica uma maior taxa de criminalidade, uma maior taxa de subsídio, e um maior nível de tensão social.
Uma pessoa diz-se desempregada se, num período de referência, verificar simultaneamente as seguintes condições:
i) não possuir emprego;
ii) procurar activamente emprego;
iii) estiver apta/disponível para trabalhar imediatamente.
A população activa (NS) é o conjunto das pessoas que, num período de referência, manifestam disponibilidade para trabalhar, podendo estar empregados ou desempregados.
1 Este texto de apoio foi elaborado pelo Professor João Correia da Silva para a disciplina de Macroeconomia II da Facludade de Economia do Porto e gentilmente cedido para utilização dos alunos da Licienciatura em Ciências da Comunicação da Universidade do Porto.
A população inactiva (Pop-NS) é o conjunto das pessoas que, num período de referência, não estão empregadas nem desempregadas. Inclui crianças, estudantes, reformados, e todos aqueles que não procuram emprego ou não estão aptos para trabalhar.
A taxa de actividade (NS/Pop) é o rácio entre a população activa e a população total.
Aumentou muito significativamente na segunda metade do século XX, com a entrada das mulheres no mercado de trabalho.
A taxa de desemprego (u) é o rácio entre a população desempregada (U) e a população activa (NS).
1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005
População Activa 5.096 5.136 5.226 5.325 5.408 5.460 5.488 5.545
População Empregada 4.844 4.910 5.021 5.112 5.137 5.118 5.123 5.123
População Desempregada 252 226 206 214 271 342 365 422
População Inactiva 5.020 5.020 4.985 4.959 4.950 4.975 5.016 5.018
População Total 10.129 10.167 10.223 10.294 10.366 10.445 10.509 10.563
Taxa de Actividade 50,3% 50,5% 51,1% 51,7% 52,2% 52,3% 52,2% 52,5%
Taxa de Desemprego 4,9% 4,4% 3,9% 4,0% 5,0% 6,3% 6,7% 7,6%
Estatítisticas de Emprego e Desemprego em Portugal (Fonte: Instituto Nacional de Estatística).
Em 1962, Arthur Okun observou que o desemprego tem flutuações cíclicas, inversamente relacionadas com as flutuações cíclicas do produto. Este facto estilizado ficou conhecido como a Lei de Okun.
Fonte: Gordon (2005), “Macroeconomics”, 10th ed., Addison-Wesley.
Dado este comportamento, faz sentido decompor o desemprego em desemprego natural (UN) e desemprego cíclico (U-UN), ou desemprego de longo prazo e desemprego de curto prazo.
A taxa de desemprego natural (uN) está associada ao produto natural (YN). Quando o desemprego é inferior (superior) ao natural, o produto é superior (inferior) ao natural, e a inflação tende a aumentar (diminuir).2
A estimação empírica da Lei de Okun aponta para que um aumento de 1% da taxa de desemprego esteja associado a uma diminuição de 2% a 3% do produto da economia.
2 Equilíbrio no Mercado de Trabalho
O salário real de equilíbrio, w*, do mercado de trabalho é aquele para o qual são iguais a quantidade oferecida e quantidade procurada de trabalho. A esta quantidade de trabalho que é oferecida e procurada chamamos emprego de equilíbrio, N*.
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DUm factor que afecte positivamente a oferta de trabalho tem como efeito uma diminuição do salário real de equilíbrio, e um aumento do emprego de equilíbrio.
2 A designação anglo-saxónica da taxa natural de desemprego é NAIRU: Non-Accelerating Inflation Rate of Unemployment.
Exemplos destes factores são o aumento da taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho, o aumento populacional, e a imigração.
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*Os factores que afectam positivamente a procura de trabalho fazem aumentar o salário real de equilíbrio e o emprego de equilíbrio. Exemplos destes factores são o progresso tecnológico e o aumento do stock de capital.
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*Na situação de equilíbrio, não há desemprego (involuntário). Todas as pessoas que pretendem trabalhar ao salário real vigente estão empregadas. Só não estão empregadas aquelas que não estão aptas ou não estão disponíveis para trabalhar.
Muitas não oferecem trabalho por considerarem insuficiente o salário vigente. Nesse caso, não fazem parte da população activa, e, portanto, não são consideradas desempregadas. O desemprego voluntário não é considerado como desemprego de facto.
3 Desemprego Estrutural
O desemprego estrutural, Ue, resulta do facto de o salário real não se ajustar de forma exacta e imediata ao valor do salário real de equilíbrio. Sendo o salário real superior ao valor de equilíbrio, verifica-se um excesso de oferta de trabalho relativamente à procura, de modo que nem todos os agentes que oferecem trabalho obtêm emprego.
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'Seria de esperar que o salário real diminuísse, dado que os agentes desempregados estariam dispostos a trabalhar por um salário inferior ao vigente. Mas observa-se que o salário nominal é bastante rígido à baixa (isto é, não diminui instantaneamente em resultado de um excesso de oferta). Uma das origens da rigidez nominal dos salários é a influência dos sindicatos.
Os movimentos sindicais procuram aumentar o poder negocial dos trabalhadores.
Invocam que a relação entre patrão e empregado não é paritária, o que origina uma partilha do rendimento entre salários e rendimentos do capital que não está de acordo com a produtividade marginal dos factores.
Sendo os salários determinados por negociação bilateral entre o patronato e os sindicatos, o mercado de trabalho não funciona em condições de concorrência perfeita.
Em geral, se compararmos a oferta de um monopolista com a oferta concorrencial, verificamos que o monopolista vende uma menor quantidade de produto a um preço mais elevado. É de esperar que a influência dos sindicatos implique salários superiores, mas menos emprego. Chamamos oferta colectiva de trabalho, NC, à oferta agregada de trabalho que resulta das ofertas individuais e da influência dos sindicatos.
De certa forma, os sindicatos defendem os interesses dos indivíduos empregados (salários mais elevados) à custa dos indivíduos desempregados (menos emprego). Este tipo de conflito entre um grupo instalado e um grupo excluído designa-se por conflito insiders/outsiders.
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*A fixação de um salário mínimo também contribui, evidentemente, para a rigidez nominal dos salários. O objectivo do Governo ao fixar um salário mínimo é o de limitar a compressão artificial dos salários por parte de empregadores com elevado poder negocial e o de evitar a exploração do emprego juvenil. A presença de um salário mínimo desencoraja as empresas a recrutar trabalhadores com baixa produtividade, como por exemplo as crianças e os idosos não qualificados.
Em maior ou menor medida, a produtividade dos trabalhadores depende do empenho e dedicação com que encaram o trabalho. Se uma empresa não observar perfeitamente
o esforço dos seus trabalhadores, é natural que estes se esforcem tanto mais quanto mais motivados estiverem.
Um salário superior pode proporcionar ao trabalhador uma motivação adicional, que se reflecte na sua produtividade. Pode interessar, portanto, às empresas, pagar aos seus trabalhadores um salário superior ao salário de reserva. O salário que, nestas condições, maximiza o lucro da empresa designa-se por salário de eficiência.
O facto de as empresas pagarem salários de eficiência (superiores ao salário de equilíbrio) origina desemprego no mercado de trabalho. Por sua vez, um maior nível de desemprego é geralmente um factor adicional de motivação para as pessoas empregadas. Passa a ser maior o custo de perder o emprego, dado que os desempregados demorarão, em princípio, mais tempo a encontrar um novo emprego.
Em suma, os salários de eficiência podem permitir:
- obter maior dedicação e esforço por parte dos trabalhadores, que pretendem evitar o despedimento ou conseguir uma promoção, estão mais motivados, e estão mais saudáveis;
- contratar trabalhadores mais produtivos, dado que o excesso de oferta de trabalho permite maior selecção no processo de recrutamento;
- diminuir a rotatividade dos trabalhadores e os consequentes custos associados à formação e à fuga para a concorrência.
4 Desemprego Friccional
O desemprego friccional resulta do dinamismo inerente ao normal funcionamento da economia e do mercado de trabalho em particular. Em cada momento são criados novos postos de trabalho, desaparecendo outros, e há novos trabalhadores que entram no mercado, saindo outros. Existe desemprego friccional porque é necessário tempo para que se encontrem um trabalhador (que procura um emprego) e uma empresa (que pretende preencher um posto de trabalho) com características compatíveis.
Relativamente ao mercado de trabalho, um indivíduo pode estar numa de três situações: empregado, desempregado ou inactivo. O desemprego friccional está relacionado com as velocidades de transição entre estes três estados.
A taxa de separação (s) define-se como a fracção de trabalhadores empregados (E) que se tornam desempregados, num determinado período de tempo. Pode também ser interpretada como a probabilidade de um trabalhador deixar de estar empregado. Tem uma componente cíclica, sendo evidentemente superior nas fases de recessão económica, altura em que há uma maior destruição de postos de trabalho.
A taxa de contratação (f), ou taxa de ingresso, é definida como a fracção de desempregados (U) que encontra emprego, num determinado período de tempo. Pode ter interesse interpretar este parâmetro como a probabilidade de um desempregado conseguir emprego. É maior nas fases de expansão económica, altura em que há um aumento dos volumes de produção, e, portanto, um maior ritmo de criação de postos de trabalho. Supondo que a população activa, NS, permanece constante, a variação do desemprego é dada por: ΔU = s·E – f·U. Considerando também como fixos os valores destes parâmetros, podemos estimar o desemprego friccional, como o nível de desemprego estacionário, isto é, aquele para o qual ΔU = 0.
f E U s U
f E s
U = ⇒ ⋅ − ⋅ = ⇒ =
Δ 0 0
Como NS = E + U, podemos determinar a taxa de desemprego friccional.
Naturalmente, esta é tanto menor quanto menor for a taxa de separação e maior for a taxa de contratação.
f s u s f s
f s U E u U U E NS
= + + ⇒
+ =
=
⇒ +
= 1
O ritmo de progresso técnico tem uma influência decisiva nos valores das taxas de separação e de contratação. A inovação torna obsoletos postos de trabalho, produtos, e mesmo indústrias, criando, por outro lado, novos postos de trabalho a serem preenchidos, novos produtos e novas indústrias.
O desemprego friccional também é determinado pelo ambiente social e institucional e pelas restrições legais. A taxa de separação é maior em países com menos restrições legais ao despedimento. A taxa de contratação é maior quanto melhor for a disseminação da informação relativa às ofertas de emprego, e quanto maior for o esforço dos desempregados no sentido de encontrar emprego.
O subsídio de desemprego tem um impacto importante no mercado de trabalho. As condições em que é concedido variam significativamente de país para país. Um sistema de apoio aos desempregados tem como principais características: (1) os critérios de elegibilidade; (2) o nível de substituição do rendimento do trabalho; e (3) o período de duração.
Em Portugal, um desempregado é elegível se tiver obtido remunerações durante 270 dias nos 12 meses imediatamente anteriores à data do desemprego. O montante do subsídio é igual a 65% da remuneração média, tendo como máximo o triplo do salário mínimo e como mínimo o salário mínimo. O período de concessão depende da carreira contributiva do beneficiário e da sua idade, variando entre os 360 e os 900 dias.
Estes apoios fazem aumentar o desemprego friccional, por acomodação da pessoa à situação de desemprego, especialmente se o período de duração for muito elevado. Na medida em que a situação de desemprego acarreta perda de capacidades produtivas, as pessoas podem cair na chamada armadilha do desemprego, tornando-se desempregados de longa duração.
Por outro lado, algumas pessoas aproveitam a situação de desemprego para adquirir novas qualificações profissionais e para procurar um posto de trabalho mais adequado às suas características produtivas. Em casos como estes, a perda económica associada ao desemprego é temporária e pode ser mais do que compensada por um acréscimo da produtividade futura.
Todos estes factores devem ser tidos em conta na definição do sistema de apoio aos desempregados, de modo a que se encontre um bom compromisso entre o grau de protecção social e a eficiência económica.
5 Conclusão
O desemprego natural é um nível de desemprego de equilíbrio, associado ao produto natural e, portanto, à ausência de pressões no sentido de aumento ou diminuição da inflação. Tem uma componente estrutural e uma componente friccional, a primeira de natureza estática, e a segunda de natureza dinâmica.
A componente estrutural do desemprego resulta da diferença entre o salário real estacionário e aquele para o qual são iguais a oferta e a procura de trabalho. Esta diferença deve-se à influência dos sindicatos, à existência de um salário mínimo legal, e à fixação de salários de eficiência por parte das empresas.
Mesmo se o salário real fosse igual ao salário real de equilíbrio, o dinamismo inerente ao processo económico implicaria sempre a existência do chamado desemprego friccional, que é originado pelo processo permanente de criação e destruição de postos de trabalho, e pelos fluxos constantes de entrada e de saída das pessoas do mercado de trabalho.