Tais fraquezas não são, entretanto, devidas exclusivamente ao autor, mas ao estado geral de conhecimento sôbre a matéria.
O livro de Paulo Motta é, no entanto, ho-nesto e, por isso, sugere lacunas no conheci-mento político do Brasil que podem ser inves-tigadas futuramente.
Ensaios de Sociologia do Desenvolvimento
Em resumo, Movimentos partidários no Brasil pode ser utilizado como livro-texto em cursos de política brasileira e como guia para aquêles que desejam pesquisar sôbre o assunto.
]dANOEL TOSTA BERLINCK
Por Luiz Pereira. São Paulo, Livraria Pioneira Editôra, 1970. 158
p.
O autor nos adverte em sua nota prévia que os quatro textos do livro têm a intenção de "servir como obra didática, tanto pela mfor-mação como pela provocação de reflexões críticas em face das interpretações nêles for-muladas". Vejamos os textos:
1. "História e planificação". Trata-se de uma contribuição ao que seria sociologia do planejamento. Assim, o autor procura carac-terizar o planejamento como processo soeial, estabelecer as conexões entre política e pla-nejamento e identificar as diferentes formas de planejamento. Isto êle faz através da uti-lização de categorias-chave da sociologia es-trutural e da sociologia sistemática. Mostra que como categoria histórica, o planejamento só pode ser percebido no quadro da sociologia estrutural e que no âmbito da sociologia sis-temática pode-se chegar a tipologias. Chega, assim, a uma tipologia do planejamento a partir de um tipo mais amplo: o contrôle social. Tenta, em seguida, inserir a tipologia dentro das preocupações teóricas da sociolo-gia estrutural e, aí, poderíamos perguntar se a didática não se faz em detrimento do mé-todo. Mas é através dela que o autor nos mostra, muito bem, que uma determinada concepção sôbre planejamento implica numa determinada visão de politica e de Estado, bem como da história e esta, por sua vez, numa concepção da teoria do conhecimento. Distinguem-se, didàticamente, três correntes
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principais: realismo, idealismo e materialis-mo dialético. O autor apresenta, então, as posições de cada uma dessas correntes nos quatro diferentes níveis acima mencionados; e, finalmente, a identificação das diferentes formas de planejamento, nas diferentes fa-ses do desenvolvimento capitalista.
2. "Caracterização do subdesenvolvimen-to". Nesse ensaio, o subdesenvolvimento é considerado como categoria histórica. O au-tor apresenta três conjuntos de caracteriza-ções econômicas do subdesenvolvimento: a tendência estruturalista representada por Celso Furtado, Raymond Barre e Elias Gan-nagé; a tendência dinâmica representada por Ragnar Nurkse e Gunnar Myrdal; final-mente, a tendência marxista representada por Charles Bettelheim e Gunder Frank. Através de comparações e uma análise crí-tica, mostra as insuficiências analíticas de certas tendências. Aqui, a didática enriquece o processo analítico do autor e o subdesen-volvimento aparece como "produto da dinâ-mica interna da realização do tipo
macroes-trutural capitalista" (p. 95).
3. "Urbanização sociopática e tensões so-ciais na América Latina". Nesse ensaio, o autor procura mostrar que a instabilidade política é inerente às formações subdesenvol-vidas. A concepção de instabilidade política do autor é insatisfatória (cf. por exemplo,
pág. 80), pois sacrifica o conteúdo à forma e a qualidade à quantidade. Mais instabüidade política na América Latina, com suas formas específicas, não significa que instabilidade política não exista em um grau maior nos Estados Unidos, por exemplo. Somente aqui ela se manifesta com formas diferentes. A França teria sido subdesenvolvida durante a IV República? A menos que política se refira ao nível institucional e se fale em desenvolvi-mento político, tão divulgado entre os cien-tistas sociais, sobretudo norte-americanos. Mas essa é uma visão funcionalista e, por conseguinte, limitada da política que, aliás, o autor não tem em outras partes de seus ensaios. Mas, não deixa de mostrar as dife-rentes concepções de instabilidade política e seu papel no processo .de subdesenvolvimento-desenvolvimento, êste relacionado dinâmica-mente (e esquemàticadinâmica-mente) com o processo de urbanização. Finalmente, o autor tenta responder à pergunta "o que entender por desenvolvimento do tipo macroestrutural
ca-pitalista?" (p. 114 e segs.). Sua crítica a Gunder Frank parece-me bastante justa (p.
118).
4. "Brasil: etapa contemporânea". Trata-se de um texto preparado para o público ale-mão, e é válido dizer que o público brasileiro
Curso de Rotinas Trabalhistas
também aproveitará de sua leitura. Aqui, o autor conclui que "o destino do capitalismo no Brasil está ligado, desde 1964, ao êxito ou fracasso da realização do desenvolvimento associado ou interdependente a que o Estado serve instrumentalmente como agente polí-tico e econômico" (p. 158).
Estamos, portanto, diante de ensaios bas-tante úteis, principalmente ao público espe-cializado. Pois se deve dizer que não se trata de leitura fácil, principalmente para os que não estão habituados com um determinado tipo de terminologia. Ainda mais que a com-plexidade do assunto leva o autor a constan-tes esquematizações, cujo perigo êle não ignora. A outro nível pode-se lamentar certas fórmulas artificiais, compreensíveis no âm-bito das ciências sociais brasileiras no mo-mento atual, pois elas tornam o simples mais complexo e, às vêzes, podem conduzir-nos a erros (a competição subentende, em geral, obediência a certas regras; assim competição política é limitativo do conceito clássico mar-xista). Compreenda-se o autor e diga-se que os objetivos apresentados na nota prévia es-tão justificados.
BRÁS JOSÉ ARAÚJO
Por José Serson. 2. ed. São Paulo, Editôra
LTR,1971.
Como comentar uma obra que procura mo-dificar, ou, mais do que isso, inovar muito do que já foi tratado em matéria de direito trabalhista? Como comentar uma obra que transformou a difícil e complicada linguagem jurídica numa linguagem fácil, simples e de rápida assimilação?
Lógico que não seria tarefa das mais in-gratas ler e comentar a obra. Ocorre que para ter podido elaborar uma resenha que
Abril/Junho 1971
desse ao leitor visão necessária à compreen-são do texto de Curso de rotinas trabalhis-tas (CRT), foi necessária uma conversa bas-tante informal com o seu autor.
José Serson, professor e juiz do trabalho, deu detalhes que podem ser considerados da maior importância. Vamos a um trecho dessa entrevista: