Estrangeirismos nas Artes Marciais
ARTIGO ORIGINAL
MACHADO, Beatriz de Araújo [1], PEREIRA, Maria Luiza Iubel de Oliveira [2], OLIVEIRA, Alisson Julio de [3], MIYAKI, Cristina Yukie [4]
MACHADO, Beatriz de Araújo. Et al. Estrangeirismos nas Artes Marciais. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 11, Vol. 21, pp. 91-130. Novembro de 2020.
ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/letras/estrangeirismos-nas-artes
RESUMO
Este artigo explora o uso dos estrangeirismos no âmbito das artes marciais por meio de um estudo em múltiplas camadas que envolve uma investigação acerca da utilização de palavras estrangeiras na atualidade no contexto esportivo, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, (incluindo termos do inglês e do japonês), e investiga os principais processos de formação desses termos. Examinando uma trajetória significativa da dicionarização de palavras estrangeiras nos dicionários esportivos, o estudo esclarece o processo de aplicação de tais termos e em qual proporção são utilizados, considerando o ambiente e qual tipo de arte marcial está sendo observada. Para a realização da escrita do artigo, foram utilizadas duas estratégias de pesquisa: uma análise quantitativa de dados de um corpus dos principais termos empregados com maior ocorrência pelos usuários dentre todo o vocabulário da área disponível, com base em entrevistas com atletas; e qualitativa: que explora cuidadosamente o processo de dicionarização de palavras ao longo dos anos na amplitude esportiva. Os dados foram coletados de entrevistas, arquivos, livros, sites e artigos acadêmicos publicados. Conclui-se que há um padrão bastante visível em relação à disparidade da incidência dos processos de formação, visto que em um conjunto de 20 palavras bastante utilizadas, a tendência de se encontrar estrangeirismos do japonês formados por composição por justaposição é quase que uma regra invariável, pois tal processo possui grande ocorrência, e que é mais comum encontrar estrangeirismos do inglês nas artes marciais formados por composição por justaposição do que termos de mesma origem formados por derivação sufixal.
Palavras-chave: Estrangeirismos, Artes marciais, morfologia, derivação sufixal, composição por justaposição.
1. INTRODUÇÃO
A língua portuguesa apresenta diversas palavras que possuem raízes em outras línguas, como o latim, o grego e o tupi. Essa utilização do vocábulo de outra língua é um fenômeno que acontece com frequência e denomina-se estrangeirismo. A ocorrência desta condição pode ser observada em diversas áreas do cotidiano, como, por exemplo, na gastronomia, dança, esportes, entre outros. Neste artigo foram analisadas especificamente as palavras que fazem parte do vocabulário das artes marciais e, para entender quem são os usuários desse corpus e quais os espaços sociais que ocupam, foi apresentado brevemente o conceito das artes marciais em específico. É importante ressaltar, ainda, a importância de tais palavras estrangeiras e incorporadas à língua portuguesa para a representatividade e a produtividade do corpus analisado.
É de grande relevância, portanto, conhecer a área da Morfologia que se aplicará aqui para explorar a seleção de palavras que será apresentada. O termo estrangeirismo é utilizado, na esfera dos estudos linguísticos, para designar termos, expressões e construções que chegam e são utilizados com a grafia original no novo idioma. É, em grande parte, através dos estrangeirismos que a língua, sendo produto social, registra os contatos de povos ao longo dos tempos. É muito comum que, devido à globalização presente na sociedade atual, esses termos infiltrem-se com facilidade e rapidez em virtude do descomplicado contato entre diferentes nações e culturas. “O que se deve combater é o excesso de importação de línguas estrangeiras, mormente aquela desnecessária por se encontrarem no vernáculo palavras e giros equivalentes” (BECHARA, 2009, p. 599).
O objetivo desta análise de corpus é apresentar a tendência de estrangeirismos para o tratamento de termos das artes marciais e analisar os processos de formação de tais palavras das línguas estrangeiras demonstradas, notadamente o inglês e o japonês. Os resultados apresentados ao longo do artigo nos permitirão entender qual o processo de formação mais comum na formação destas palavras e como elas estão inseridas de maneira natural dentro da língua portuguesa - uma vez que tais expressões e termos são empregados em sua língua original e não foram “aportuguesadas”.
O problema que fundamenta a pesquisa é: quais são os principais processos de formação de palavras em termos das artes marciais?
1.1 ARTES MARCIAIS E O CONTEXTO
Antes de analisar as palavras que compõem o vocabulário de artes marciais é preciso conceituar o que são as artes marciais. Segundo Franchini e Del Vecchio (2007), as primeiras lutas que se aproximam das atuais modalidades esportivas de combate ocorreram na Grécia Antiga em competições para adoração do deus Ares e tais disputas foram adaptadas pelos romanos de forma mais espetacularizada em homenagem ao deus da guerra denominado por eles de Marte. “‘Arte Marcial’ faz referência a um conjunto de práticas corporais que são configuradas a partir de uma noção aqui denominada de ‘metáfora da guerra’, uma vez que essas práticas derivam de técnicas de guerra como denota o nome” (FRANCHINI, 2008;
FRANCHINI; DEL VECCHIO, 2007, p. 1).
Ao longo dos anos, vários estilos de artes marciais foram desenvolvidos em diversos países, como por exemplo o judô, o karatê, o boxing (ou boxe) e o muay thay, que podem ser vistos como construções identificadas do patrimônio de cada lugar. Cada um desses estilos tem seu próprio conjunto de técnicas:
alguns sistemas de luta enfatizam ataques, enquanto outros se concentram em chutes, assim como determinadas práticas prezam pela luta realizada no chão, outras, pela luta estando de pé. Tais modalidades oferecem ao praticante um meio de defesa pessoal, mas, também, o desenvolvimento social.
Franchini defende que as artes marciais podem ser realizadas tanto como atividade competitiva quanto como recreação, programa de inclusão e até mesmo terapia.
O judô teve sua origem no Japão no final do século XIX, após derivar-se do Ju-Jutsu - arte marcial com técnicas de alavanca. O lutador Jigoro Kano decidiu catalogar golpes dessa modalidade com base em leis da aerodinâmica para formar a nova arte marcial. Em 1882 Kano funda o Instituto Kokodan e desenvolve uma linha filosófica baseada em um código moral de conduta dos praticantes e na luta pelo golpe perfeito (ippon-shobu), com o intuito de fortalecer a mente, o físico e o espírito de forma integrada. No Brasil, a introdução do judô ocorre com a imigração de japoneses no começo do século XX, com nomes como Tatsuo Okoshi (1924) e Sadai Ishihara (1932).
O boxe ou boxing, por sua vez, teve seus primeiros registros no Egito antigo, em cerca de 3.000 a.C. e em 668 a.C. tornou-se modalidade olímpica nos Jogos Olímpicos da Antiguidade e assim permanece por mais de 2.600 anos. Na era moderna, a primeira participação do esporte ocorre em nos Jogos Olímpicos de 1904 em Saint Louis, nos Estados Unidos e em 1926 é criado a Federação de Boxe. Dentre os grandes nomes do esporte estão Rocky Marciano, Sugar Ray e Muhammad Ali (nascido Cassius Clay).
O Wrestling ou luta livre utiliza-se de técnicas de combate como torções, chaves e socos em uma variedade de estilos. Este esporte também é datado na Antiguidade, tendo feito parte dos Jogos Olímpicos de 708 a.C. Na era moderna, o wrestling fez parte dos Jogos Olímpicos de 1896 em Atenas, com dois estilos de luta distintos: o estilo Grego-romano e o estilo Livre. No Brasil, a Confederação Brasileira de Wrestling foi criada em 1988.
As artes marciais estão inseridas na sociedade brasileira de uma maneira intensa e possuem adeptos de várias faixas etárias e com condições sociais diversas. As lutas desenvolvem nos praticantes, além da habilidade física, a capacidade de se integrar à comunidade e à formação do caráter. Para entender o contexto das artes marciais, faz-se necessário entender o vocabulário aplicado para os praticantes e utilizados em sites, jornais e variados veículos de comunicação. No entanto, muitas palavras são utilizadas no idioma original e, por isso, é necessário compreender o fenômeno do estrangeirismo na língua portuguesa.
Esse fenômeno não é algo novo e está inserido em diversos contextos da sociedade (no ramo da culinária, no Direito, na âmbito de jogos digitais, entre outros), tornando-se cada vez mais comum em nosso vocabulário. É importante ressaltar que o estrangeirismo não é exclusivo da língua portuguesa e que essa utilização de termos estrangeiros torna as línguas mais ricas e, ainda, podem derivar novas palavras para o vocabulário do falante.
Ao analisar os estrangeirismos na língua portuguesa presentes no âmbito das artes marciais, o artigo foca, mais especificamente, em suas regras de formação. Por estar presente na esfera esportiva, a comunidade de falantes que usufrui deste corpus estende-se de forma altamente diversificada, pois envolve desde a criança até o idoso, e tanto pessoas do sexo feminino quanto masculino. O padrão social e econômico não é um fator dominante que influencia no corpo social usuário, o que o torna, então, um público bastante sortido por abranger diversas camadas da sociedade.
A coleção de palavras é utilizada nas aulas de artes marciais em escolas e academias desse meio, além de estar presente também em veículos de comunicação (como blogs e sites explicativos da área) e inclusive em competições oficiais realizadas em vários países, especialmente no Brasil, Estados Unidos e Japão - estes particularmente selecionados por abrigarem as línguas que têm maior influência nos estrangeirismos da área e que estão presentes no artigo.
Os termos escolhidos para análise foram: judô; boxing; wrestling; tai-otoshi; ashi-kannuki; hiza guruma;
ashi guruma; sukui-nage; knockdown; overhand; uppercut; knockout; sparring; footwork; armlock;
leglock; sweeping; takedown; finisher; bobbing.
A formação das palavras está em constante transformação como parte do desenvolvimento da língua, por isso é de suma importância saber analisar esse comportamento para compreender tanto a evolução da língua portuguesa quanto o contexto das artes marciais. Dessa forma, para que os grupos de interesse (como estudiosos da língua portuguesa e participantes ativos ou amadores das artes marciais) possam se aprofundar no tema e descobrir suas raízes, este estudo faz-se presente e relevante como conteúdo complementar.
2. MATERIAL E MÉTODOS DE ANÁLISE
A análise partiu da necessidade de estabelecer critérios na escolha do corpus analisado, delimitando para um número de palavras, em sua grande maioria nomes de golpes, com grande ocorrência entre os praticantes de artes marciais. Realizou-se uma busca em diversos veículos de comunicação para encontrar o corpus aplicado e para identificar quem são os usuários de tal vocabulário e o contexto social em que as artes marciais estão inseridas.
Estabeleceu-se, ainda, uma base teórica para realizar a análise gramatical das palavras e como acontece o processo de formação de tais palavras. Tal base foi construída com suporte bibliográfico de alguns textos de fundamentação teórica apresentados em sala de aula, como os estudos de Câmara Jr. (1994), Assis Rocha (1998), Khedi (2007) e Rocha Lima (2013) para compreender o processo de formação das palavras e para aplicar regras de formação de elementos vocabulares. Também foram utilizadas bibliografias complementares, como textos de Carvalho (2019) e Bechara (2001) para compreender acerca dos estrangeirismos e verificar se é possível utilizar termos em língua portuguesa em substituição ao vocabulário original, além de estudar como esse fenômeno encaixa-se na língua portuguesa, referenciando a análise no corpus de artes marciais.
Foram coletados, também, dados dos dicionários etimológicos da língua inglesa e japonesa, além dos dicionários comuns Merriam-Webster, Michaelis Online, Cambridge e do Dicionário Técnico de Termos Japoneses das Artes Marciais.
Por fim, foi realizada uma entrevista com um voluntário praticante de Aikidô, um estilo de arte marcial japonesa que, além das mãos, realiza técnicas com a espada e com o jo-jitsu (bastão curto) para compreender o papel que a tradição tem nestas artes.
3. HIPÓTESE
A formação de palavras nas línguas pode ocorrer a partir de diversos processos, como a formação de
palavras derivadas de uma palavra primitiva, misturas de palavras ou empréstimos linguísticos de um vocabulário originário de outra língua.
Neste artigo, a análise é voltada para a identificação do processo de formação das palavras de língua inglesa e japonesa que compõem o vocabulário específico das artes marciais. A primeira hipótese é de que haja em maior parte a formação de palavras por composição, que, segundo Rocha Lima (2013, p.
251) pode ser dividida, ainda, nas categorias “justaposição” e “aglutinação”.
Outra hipótese levantada pelo artigo é de que há apenas uma pequena incidência da formação de palavras por derivação por sufixação (quando há o emprego do sufixo ao lado do radical, formando uma nova palavra).
Para que as hipóteses sejam verificadas, é necessário entender tais processos de formação de palavras e como elas se aplicam em Língua Inglesa e Língua Japonesa.
4. ANÁLISE DO CORPUS
Separando as palavras por um contexto de uso e função, estabelecem-se os seguintes grupos:
a) Tipos de luta: Judô, Boxing e Wrestling;
b) Nomes de golpes: Ashi-kannuki, Hiza guruma, Ashi guruma, Sukui-nage, Overhand, Bobbing, Uppercut, Knockout, Armlock, Leglock, Knockdown, Sweeping e Takedown.
c) Técnicas utilizadas para aplicar golpes: Finisher, Footwork, Sparring, Sukui-Nage, Tai-Otoshi e Ao compor o corpus, faz-se necessário, antes de realizar a análise, compreender conceitos sobre Empréstimo Linguístico e Estrangeirismo, além de apresentar como ocorre o processo de formação de palavras por composição e sufixação.
4.1 EMPRÉSTIMO, EMPRÉSTIMO LINGUÍSTICO E ESTRANGEIRISMO
O empréstimo ocorre, segundo Carvalho (2006, p.73) quando é adotado por parte dos falantes um elemento vocabular pertencente a outra língua após estes perceberem alguma lacuna ou inadaptação para nomear algo no acervo lexical da língua nativa. “Nessa tentativa de reprodução de modelos encontrados em outro sistema, nem sempre o falante tem consciência do que está a fazer”. (CARVALHO, 2006, p.
73). Para Xatara (2001, p. 153) o objetivo do empréstimo linguístico é atingir o interlocutor adequadamente, “em conformidade com a modalidade (oral ou escrita), com o registro (formal ou informal) e com o nível de linguagem em questão (padrão ou coloquial, para simplificar)”.
O empréstimo de um elemento vocabular pode ocorrer de duas maneiras: sem a mudança da grafia (estrangeirismo, como “Hiza Guruma”) ou com a mudança na grafia (empréstimo linguístico, como em
“judo” que em português ganhou o acento circunflexo na escrita, “judô”). Na definição de Gonçalves, Ferreira e Cunha (2011):
Em primeiro lugar, temos o estrangeirismo, que vem a ser o emprego de palavras que se originam de
outra língua estrangeira e não possuem uma palavra correspondente a ela na nossa língua, apontadas em nossas normas gramaticais como um vício de linguagem, e que sua pronúncia e escrita não sofre qualquer alteração. No segundo caso o empréstimo (galicismo, anglicismo, etc.) a própria nomenclatura deixa clara a função das palavras, que sofre pouca modificação e passa a fazer parte do léxico, sendo que todas elas hoje classificadas como empréstimo foi um dia estrangeirismo. (GONÇALVES; FERREIRA; CUNHA, 2001, p. 2-4).
Carvalho (2006, p. 73) aponta que os substantivos são os principais elementos emprestados nas línguas, seguidos de verbos e sufixos e sons e desinências. Outro conceito importante quando nos referimos a empréstimos linguísticos é o termo “Escala de Receptividade” elaborado por Otakar Vocadlo (1938), que classificou as línguas em homogêneas e heterogêneas: na primeira o empréstimo permanece segregado como termo não nativo e na segunda as palavras são integradas e adaptadas à estrutura da nova língua.
Faz-se necessário refletir que o emprego do estrangeirismo faz parte do processo de enriquecimento linguístico e, no caso das artes marciais, os termos em japonês ou inglês possuem um forte impacto social, pois já foram difundidos pela mídia e assimilados pela comunidade de falantes. Xatara (2001) aponta:
[...] todos os estrangeirismos, necessários ou não, e amplamente utilizados - até defendidos - por acadêmicos, profissionais liberais, agentes da imprensa e povo em geral não parecem representar de fato nenhuma ameaça à integridade do português brasileiro, embora inegavelmente causem em alguns um certo desconforto, digamos, linguístico. (XATARA, 2001, p. 153).
Ou seja, o fenômeno do empréstimo é algo natural que ocorre nas línguas e faz parte do processo de evolução destas, agregando, por vezes, valor ao vocabulário.
4.2 FORMAÇÃO DE PALAVRAS POR COMPOSIÇÃO
A formação de palavras, segundo Rocha Lima (2010), dá-se por dois meios: derivação ou composição.
No processo de composição há a formação de uma nova palavra pela união de dois ou mais elementos vocabulares. O autor explica que, dentro desse processo, há duas possibilidades de formação:
aglutinação (quando a palavra sofre alguma mudança em sua forma ao unir-se à outra para formar um terceiro elemento) ou justaposição (palavras que conservam sua forma original ao juntar-se com outras).
“Os elementos de uma palavra composta podem apenas justapor-se, conservando cada qual sua integridade de forma e sua acentuação” (ROCHA LIMA, 2010, p. 279).
Como exemplo podemos destacar as seguintes RAEs em que é possível observar que as palavras formadas conservam a integridade de seus elementos formadores:
1. TAI-OTOSHI: [[Tai]s [Otoshi]s]s Significado:
Tai (??): (1): Corpo; (2): Apertar, prender ou fechar por meio de uma gravata;
Otoshi (??): (1): Movimento de cima para baixo; (2): Queda; (3): Idade, período, era.
2. ASHI GURUMA: [[Ashi]s [Guruma]s]s Significado:
Ashi (?): Perna;
Guruma (????): Giro, torção, dobra 3. KNOCKOUT: [[Knock]v [Out]adv]s Significado:
Knock: Atacar algo com um golpe forte;
Out: em uma direção longe do interior ou do centro.
(Para a análise completa das RAEs de todo o corpus ver ANEXO B).
É importante salientar que as palavras, as quais são formadas por justaposição, ao serem traduzidas para o português, têm sua forma invertida. Tai-otoshi significa “queda do corpo”, porém o primeiro termo é a palavra Tai, que significa “corpo”, e Otoshi é “queda”. Não se pode, porém, ao traduzir para o português, formar o termo “Corpo queda”, pois o adequado é “Queda do corpo”. Além da inversão dos termos, adiciona-se a contração “do” entre eles, para que possa obter sentido, que é uma característica que a língua portuguesa possui quando traduz elementos de algumas outras línguas, como acontece tanto no inglês quando no japonês.
Armlock carrega a mesma característica, sendo traduzido como “chave de braço”. Arm, que significa
“braço”, é o primeiro termo que forma a palavra, e Lock, que tem a definição de prender em trava, é o segundo termo. Não se pode, porém, ao traduzir para o português, formar a sentença “Braço trava”, já que a tradução comum se torna “Chave de braço”. Assim sendo, além de inverter os termos, também é adicionada a preposição “de” entre eles, para indicação uma ligação. O que acontece neste caso também é uma adaptação da palavra lock, que não vem traduzida como “trava”, e sim como “chave”. Uma vez que a palavra “chave” em inglês é Key e que esse termo não suportaria tal palavra sem perder o sentido de trava, ou seja, sem significar “chave do braço”, fazendo alusão a “uma chave que pertence a um braço”, o português faz esta adaptação.
4.3 COMPOSTOS ENDOCÊNTRICOS
São aqueles que têm relação de significados com os seus próprios componentes, e em casos assim, o núcleo do composto determina a sua referência.
Podemos evidenciar isso especificamente nas palavras oriundas do japonês do corpus selecionado, como no exemplo de Ashi Guruma, em que Ashi significa “perna” enquanto Guruma significa “torção ou giro”, resultando no golpe “torção de perna”.
Abaixo podemos verificar alguns exemplos de compostos endocêntricos:
Novo-rico - indivíduo de classe social baixa, que enriqueceu rapidamente, apresentando gostos e modos considerados vulgares pelas pessoas de classe mais altas.
Ferrovia - sistema de transporte sobre trilhos, utilizado como meio de carga de pessoas ou fretes.
Erva-doce - Planta herbácea, aromática, utilizada como fins medicinais.
4.4 FORMAÇÃO DE PALAVRAS POR SUFIXAÇÃO
O sufixo, segundo Bechara (2001), é um afixo posicionado ao final da raíz e que tem a finalidade de formar uma nova palavra, “emprestando à base uma ideia acessória e marcando-lhe a categoria (substantivo, adjetivo, verbo, advérbio) a que pertence” (BECHARA, 2001, p.502). O sufixo, portanto, altera a categoria gramatical do radical, relacionando - por exemplo - a aumentativo e diminutivos, nomes pátrios, início de ação ou formação de substantivos e adjetivos.
Para compreender a formação de palavras por sufixação, é necessário ter em mente o que é a Regra de Análise Estrutural, RAE. Rocha (1998) explica que a maior parte das palavras será do que o autor chama de “formas institucionalizadas”, pois já são familiares aos falantes de uma determinada língua. Como falantes ativos, é possível que haja a construção de novas palavras e, para reconhecer a estrutura de formação, o falante terá de aplicar a RAE, explicitada na fórmula: [[X]a - B]]c.
Ao utilizar-se o conceito do processo de sufixação, segundo apresenta Rocha Lima (2013), percebe-se que o sufixo (cujo objetivo é formar palavras da mesma categoria), por si só, não possui significação, portanto precisa unir-se com outro elemento para formar uma palavra. A se aplicar a RAE em palavras como “wrestling”, um falante percebe que haverá a união do verbo (to wrestle) com o sufixo /- ing/ para formar um substantivo.
Após analisar a estrutura da língua inglesa, constata-se que o sufixo /-ing/ é comumente utilizado na formação de verbos, apesar de esta não ser uma regra fixa, como fica claro com os exemplos citados. As palavras como Wrestling, Boxing, Sweeping e Sparring, apesar de em outro contexto serem utilizadas como verbos, no contexto das artes marciais vieram emprestadas como nomes, ou seja, substantivos.
É interessante observar que elas já estão tão relacionadas com o uso esportivo que muitas vezes sua pronúncia fora de contexto é associada automaticamente ao esporte. Cada um destes termos citados tem suas particularidades, pois os termos dos quais derivam, por serem da língua inglesa, são vistos ou como verbos ou como substantivos dependendo do contexto ao qual são expostos. As palavras formadas por sufixação presentes no corpus, são:
Tabela 1 – Palavras formadas por sufixação
Termo RAE
BOXING [[Box]s - Ing]s
SPARRING [[Spar]v - Ing]s
WRESTLING [[Wrestle]v - Ing]s
BOBBING [[Bob]v - Ing]s
SWEEPING [[Sweep]v - Ing]s
FINISHER [[Finish]v - Er]s
Fonte: os autores
Palavras terminadas em CONSOANTE + VOGAL + CONSOANTE tônicas, passam a ter a última consoante dobrada antes do seu complemento ser adicionado (no caso, o sufixo ing), seguindo uma regra fixa da língua inglesa. É o caso das palavras Sparring e Bobbing. Destacando em negrito as sílabas tônicas e sublinhando as terminações em consoante + vogal + consoante, tem-se: SPARRING BOB BING. Assim é possível perceber o motivo pelo qual estas palavras em específico são as únicas que tiveram a consoante final dobrada.
Todos os estrangeirismos formados por sufixação presentes no corpus são substantivos. A singularidade dos termos terminados em ing é que podem, além de ser utilizados como substantivos, ser usados como verbos ou adjetivos.
Em palavras terminadas com a vogal E, como em Wrestle, ocorre a elisão da última vogal para a adição do sufixo /-ing/. Esta regra também é fixa e pode ser percebida em palavras como take (taking), make (making), organize (organizing), write (writing), live (living), give (giving), sprinkle (sprinkling) e dreadge (dreadging).
O sufixo /-er/, quando agregado a um verbo, indica o sujeito que faz alguma coisa (que faz aquilo que o verbo indica). No caso da palavra FINISHER, ao ser adicionado o sufixo /-er/ no verbo finish (finalizar, chegar ao fim), obtém-se, então, um substantivo, “aquele que finaliza” e que pode ser traduzido como
“finalizador”.
As demais palavras, tais quais Boxing e Sweeping, seguem a regra comum da adição de sufixo, sem alteração do radical.
5. REPRESENTATIVIDADE E PRODUTIVIDADE DOS TERMOS
Tanto a composição quanto a sufixação são processos que estão ligados à produção de novos itens lexicais. Isso está relacionado ao potencial que tais termos têm de criar novas palavras. Foi possível observar que em ambos os processos existe uma grande competência para a formação de um novo termo.
A palavra “Knockout”, se separada, apresenta termos que significam, respectivamente, “atacar algo” e
“para fora”. Tais termos, individualmente, podem ser justapostos com outros termos, prefixos ou sufixos, e formar novas palavras, por exemplo: knocked, knocking, knockup, knockabout, knocker, knock-kneed, knockoff, knockdown, além de palavras compostas com o termo “out”: about, bailout, blackout, blow-out, breakout, burn-out, checkout e fallout.
Tais palavras derivam corradicais, que são palavras que compartilham o mesmo radical e, portanto, o mesmo significado, como por exemplo:
1. JUDÔ: judoka, judogi;
2. SUKUI-NAGE: nage, tomoe-nage, ura-nage, nage-waza, seoinage, shoinage, ippon-seoinage, morote- seoinage, ura-nage;
3. FINISHER: finish, finishing, unfinished, unfinished, affinity, confines, define, definite, definition, definitive, final, fine, finit, fix, indefinite;
(A lista completa de todos os termos e seus respectivos corradicais estão no ANEXO C).
5.1 CONTEXTO DE USO
É importante utilizar os critérios semântico e sintático para compreender quais as funções das palavras em cada contexto específico, pois como já foi citado, muitas das palavras do corpus podem apresentar diferentes classes gramaticais (em especial palavras formadas por derivação por sufixação com /-ing/), dependendo de como são manifestadas nas sentenças.
No caso dos estrangeirismos da língua inglesa presentes nas artes marciais, todos vieram adaptados para o português ou foram levados à outras línguas, como o francês e italiano, como substantivos. Nos casos dos termos japoneses, o princípio se repete, visto que não mudam tal categoria ao serem utilizados em outras línguas. Como exemplo de termos expressos em seus contextos de uso temos:
1. OVERHAND: "Saiba como desferir o Overhand utilizado como contra-golpe."
2. WRESTLING: "Wrestling: Dave Bautista está de volta"
3. JUDÔ: “Teremos uma postura mais ereta e as técnicas fundamentais do Judô, tais como: tai-otoshi, o- soto-gari, o-uchi-gari, kouchi-gari, seio-nage e uchi-mata, voltarão à proeminência”
(O contexto de uso de todas as palavras do corpus estão no ANEXO D).
5.2 ETIMOLOGIAS
A palavra etimologia, etymology em inglês, vem do grego étumos (real, verdadeiro) + logos (estudo, descrição, relato). Define-se por etimologia o estudo científico da origem e da história das palavras.
Conhecer a evolução do significado de uma palavra desde o momento de sua origem é poder compreender seu verdadeiro sentido e conhecê-la de forma mais completa. O estudo etimológico de palavras do corpus mostra as origens comuns e as semelhanças encontradas no plano de vocabulário dos termos. Seguem exemplos de amostra do corpus e suas respectivas etimologias:
1. KNOCKDOWN: Também knock-down, 1680, a partir da frase verbal "knock down" (derrubar).
Atestado a partir de meados do séc. XV no sentido de "caiu no chão"; knock (v.) + down (adv.) como um substantivo aparece a partir de 1809.
2. JUDÔ: 1889, do japonês judo, literalmente "caminho suave" de ju "suavidade, delicadeza, macio" (do chinês jou "suave, gentil") + do "caminho, arte", do chinês tao "caminho". "Uma forma refinada de ju- jitsu introduzida em 1882 pelo Dr. Jigoro Kano, usando princípios de movimento e equilíbrio, e praticada como um esporte ou forma de exercício físico".
3. BOBBING: "Mover-se para cima e para baixo com um movimento brusco e curto", fins do séc. XIV, provavelmente ligado ao bobben do Inglês Médio "para fazer piada cruel, bater; fazer de tolo, trapacear, iludir" (início séc. XIV). É talvez do Antigo Francês "mock, deride", talvez em última análise de origem ecóica. O Bob and Weave no boxe é de 1928.
(A lista completa dos termos e suas respectivas etimologias encontra-se disponível no ANEXO E).
6. CONCLUSÃO
Após as pesquisas realizadas para a investigação do artigo, foi possível estabelecer um padrão bastante visível em relação à disparidade da incidência dos processos de formação das palavras no corpus, que, reiterando, foram retiradas de diversos veículos de comunicação utilizados por praticantes das artes marciais e que representam, portanto, os principais termos empregados com maior ocorrência pelos usuários dentre todo o vocabulário da área disponível.
A comparação dos dois processos examinados no artigo (composição e derivação), se colocada em um gráfico, apresenta visualmente os seguintes resultados:
Figura 1 – Comparação dos processos de formação de palavras das artes marciais
Fonte: os autores
Tal paralelo permite perceber que as palavras estrangeiras empregadas nas artes marciais formadas por composição por justaposição encontram-se em maior número do que palavras originadas por derivação sufixal.
As palavras de origem japonesa aplicadas no corpus são formadas integralmente pelo processo de composição por justaposição, o qual é um processo canônico na formação de palavras da língua japonesa, assim como em outros termos em japonês encontrados para nomear golpes ou técnicas de luta que não foram incluídos no artigo. Todas as 6 palavras em japonês selecionadas apresentam este processo de
justaposição, totalizando 100% dos termos.
O fato de a língua japonesa possuir ideogramas para designar as palavras pode ser um fator que explique o motivo pelo qual as palavras japonesas são, em sua grande maioria, formadas pelo processo de composição. Um exemplo disso seria a palavra “Ashi-kannuki”, termo presente no corpus que designa um golpe de travamento de perna. Ashi, em sua tradução literal, significa “uma perna”, enquanto kannuki significa “período de transição”. Porém a palavra “kannuki” é uma junção de três ideogramas: ? (conversão) + ? (penas) + ? (período), que, curiosamente, se forem agrupados não trazem um sentido lógico (conversão período penas). Por isso para obter a semântica desejada de “travamento de perna”, os ideogramas são trocados por uma sentença que possui apenas um significado absoluto, não dando espaços a ambiguidades: ??????. Os ideogramas de cada uma destas palavras isoladas do termo Ashi-kannuki, são, respectivamente, ? e ???, porém estes não são redigidos juntos para formar o sentido final da palavra.
Uma vez que “período de transição” não se encaixa para formar um golpe do judô, são utilizados os ideogramas da palavra “kannuki” com sentido de “travamento”: ???. E como “perna” necessita possuir um ideograma que só possa ser encaixado nessa palavra sem permitir ambiguidade alguma, também se transforma em ??.
Percebe-se que a junção de diversos ideogramas com significações próprias e ambíguas forma sentenças ou palavras completas que, muitas vezes, se desagrupadas, passam a ter um significado completamente diferente. Isso explica a ocorrência da formação de palavras por composição tão presente na língua japonesa.
Os termos em inglês apresentaram uma grande ocorrência da formação também de composição por justaposição, uma vez que tais palavras mantiveram suas integridades individuais quando foram justapostas, incluindo pronúncia e significado. Dos 14 estrangeirismos da língua inglesa analisados, 8 foram formados por composição. Os 6 termos restantes foram formados por derivação sufixal. Cinco deles possuem o sufixo /-ing/ enquanto o termo restante (finisher) é acrescido do sufixo /-er/. Grande parte destes termos derivaram de verbos, com a única exceção da palavra Boxing, que se origina de um substantivo (box) acrescido do sufixo /-ing/, formando um também substantivo.
Uma explicação possível para a baixa incidência de termos acrescidos do sufixo /-er/ na língua inglesa nas artes marciais é o fato de que tal sufixo é formador de substantivos a partir de verbos, indicando, mais especificamente, “aquele ou aquilo que executa, faz, toca ou conduz uma ação”, ou seja, designa um indivíduo que executa uma ação, neste caso, alguma ação relacionada às artes marciais. Uma vez que os indivíduos ligados a tais artes possuem designações limitadas (existem os alunos, professores, juízes e atletas), a produtividade de termos formados por sufixação com o sufixo /-er/ é bastante baixa. Algumas palavras que entram neste grupo seleto e que não foram adicionadas ao corpus são: wrestler, kickboxer e boxer.
Figura 2 – Derivação sufixal dos termos em Inglês
Fonte: os autores
Ambas as hipóteses manifestadas no início do artigo são positivamente válidas, necessitando de uma análise mais profunda e estruturada de um corpus excessivamente mais extenso para sua completa confirmação. As pesquisas realizadas pelo grupo indicaram que, verificando um conjunto de 20 palavras bastante utilizadas, retiradas de um amplo vocabulário diversificado das artes marciais de diferentes origens, a tendência de se encontrar estrangeirismos do japonês formados por composição por justaposição é quase que uma regra invariável, pois tal processo possui grande ocorrência.
Também foi possível reconhecer que encontrar estrangeirismos do inglês nas artes marciais formados por composição por justaposição é mais comum do que encontrar termos de mesma origem formados por derivação sufixal. E, dentro desta descoberta, ainda foi possível constatar que os sufixos /-ing/ e /-er/ são utilizados de forma desigual, o primeiro sendo na maior parte das vezes encontrado com mais facilidade no vocabulário das artes.
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ANEXOS
Anexo A – Tabela De Significados
Termo Significado no dicionário
comum
Significado no dicionário técnico da área das artes
marciais