DANIELA LEAL
COMPENSAÇÃO E CEGUEIRA:
um estudo historiográfico
DOUTORADO EM EDUCAÇÃO: PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO
DANIELA LEAL
COMPENSAÇÃO E CEGUEIRA:
um estudo historiográfico
2013
Banca Examinadora
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“Assim termina A história de uma viagem Que vocês viram e ouviram. E viram o que é comum O que está sempre ocorrendo. Mas a você nós pedimos: No que não é de estranhar Descubram o que há de estranho! No que parece normal Vejam o que há de anormal! No que parece explicado Vejam quanto não se explica! E o que parece comum Vejam como é de espantar! Na regra, vejam o abuso E, onde o abuso apontar Procurem remediar”.
Não há nada como o sonho para criar o futuro. Victor Hugo
À Professora Dra. Mitsuko Aparecida Makino Antunes que ao longo desses oito anos – mestrado e doutorado – me acolheu com toda a sua atenção e sabedoria, mostrando-me que no caminho das pedras sempre há uma semente a ser descoberta e cultivada. Cada momento de conversa e orientação foram fundamentais para o meu crescimento pessoal e profissional.
À Professora Dra. Claudia Leme Ferreira Davis que, com suas palavras amigas, sempre me levaram a grandes reflexões e incentivaram-me no desafio de querer ser pesquisadora. Um especial agradecimento pela sementinha colocada durante a qualificação e que mudou alguns dos passos tomados para a conclusão desta tese.
À Professora Dra. Maria do Carmo Guedes pelas contribuições dadas para o delineamento da pesquisa e pela oportunidade, ao longo desses anos, de participação no NEHPSI.
Ao Amigo, Professor Dr. Nilson Berenchtein Netto, que ao longo desses quatro anos compartilhou de seus conhecimentos, pesquisas, referências e interesses pela educação das pessoas surdo-cegas com minha pessoa e que prontamente aceitou fazer parte da banca de defesa, meu profundo agradecimento.
À Professora Dra. Aliciene Fusca Machado Cordeiro pela atenção, disposição e por todas as contribuições dadas para a pesquisa.
nas traduções fidedignas citadas nesta tese.
Um agradecimento em especial à Rosana Portela que além de tradutora, professora de espanhol e amiga, auxiliou-me significativamente durante os dois meses de curso e pesquisa na Espanha.
À minha mãe e avó, meus pilares de vida e ensinamento por toda a vida, pois sem elas não seria nem a metade do que sou, nem alçaria tantos voos como alcei ao longo desses anos de ensinamento, carinho, dedicação e muito amor.
À minha família como um todo, pois sem o apoio incondicional dessas pessoas, esta longa jornada seria muito árdua e difícil de ser cumprida.
Aos Amigos e amigas que fizeram parte deste longo processo e que carinhosamente compreenderam meus desafios, minhas indagações, minhas angústias e alegrias, meu crescimento pessoal e profissional e, principalmente, minhas ausências.
Um agradecimento em especial aos amigos do grupo “No Limite” – Andrea Wuo, Carla Andréa Silva, Henrique Castro, Magna Celi Mendes da Rocha, Marcelo Gianini, Mariana Vieira, Nilson Berenchtein Netto e Vivian Carla B. Rachman –, que me ensinaram, ao longo desses anos, que ao lidar com grandes situações de risco, que nos colocam em situações limite, podemos construir grandes laços de amizade, independente dos momentos que vivemos ou da distância que a vida nos impõem. Se esqueci alguém, me desculpe.
À amigas Chris Mazzotta e Amanda Tojal que me instigaram no desafio de dar um curso na Itália durante o período de elaboração desta tese, permitindo-me, assim, conhecer o Instituto Francesco Cavazza, em Bologna, e o Instituto para Cegos de Milão, ambos referência na história da cegueira.
Ao CNPq que, pelo auxílio financeiro concedido, possibilitou o desenvolvimento desta pesquisa.
LEAL, Daniela. Compensação e Cegueira: um estudo historiográfico. 2013. 264p. Tese (Doutorado). Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: Psicologia da Educação, PUC-SP, São Paulo.
Esta pesquisa teve por objetivo compreender o conceito e o processo de compensação no desenvolvimento da pessoa cega, ao longo da história, bem como a compreensão dos antecedentes da formulação de Vigotski. O interesse específico pelo processo de compensação das pessoas cegas encontra-se relacionado à prática profissional da pesquisadora (docência para alunos com cegueira em espaços regulares de ensino, mais especificamente no ensino superior), bem como dar seguimento à pesquisa de mestrado realizada entre os anos 2006/2008. Para tanto, optou-se por uma pesquisa de cunho histórico, buscando o conceito de compensação desde as origens mais remotas, até chegar às discussões propostas por Vigotski, como um processo que valoriza as capacidades das pessoas com deficiência, em vez de priorizar suas limitações, suas incapacidades ou seus “defeitos”. Busca-se, assim, a compreensão da ciência como produção humana que visa satisfazer suas necessidades, por elas determinadas e nelas interferindo, pois acredita-se que ao compreender um dado, um fato, um momento ou um conceito por intermédio da pesquisa histórica encontra-se na própria informação histórica o que tornará possível a compreensão de um conjunto de produções nas quais ela própria é um efeito. Com isso, chegamos à conclusão de que, ao compreender o processo de compensação como um recurso, como um instrumento que nos auxilia no desenvolvimento das pessoas cegas e, não somente como um meio de compensação do órgão – na ausência da visão, da audição ou do tato se encarregam de dar suporte à função –, conseguiremos encontrar um dos fundamentos para o que hoje denominamos de inclusão ou educação para todos.
LEAL, Daniela. Compensation and Blindness: a historigraphic study. 2013. 264p. PhD Thesis. Graduate Program of Educational Studies: Educational Psychology, PUC-SP, São Paulo.
This research aims to comprehend the concept and the process of compensation in the blind person´s development throughout history, as well as the comprehension of the background in Vigotski´s formulation. The specific interest in the compensation process of blind people is related to the researcher´s professional practice (teaching of blind students in regular teaching spaces, specifically in higher education), as well as proceeding with the Master´s research conducted between the years 2006/2008. In order to do so, a historical point of view has been chosen, searching for the concept of compensation from its most remote origins, until we get to the discussions proposed by Vigotski, as a process that values the abilities of the impaired person, instead of prioritizing their limitations, their incapacities or their “flaws”. This way, we seek to comprehend science as a human production that aims to fulfill its needs, determined by them and interfering on them, for it is believed that when comprehending a data, a fact, a moment or a concept through historical research, it is found in the historical information itself what makes the comprehension of a set of productions possible, in which it is an effect itself. Therewith, we get to the conclusion that, when comprehending the process of compensation as a resource, as an instrument that helps us in the development of blind people and, not only as a means of organ compensation – in the absence of vision, hearing or touch becomes in charge of supporting its function -, we will be able to find one of the fundamentals for what we now refer to as inclusion or education for all.
LEAL, Daniela. Compensación y Ceguera: un estudio historiográfico. 2013. 264p. Tese (Doctorado). Programa de Estudios Pos-Graduados en Educación: Psicología de la Educación, PUC-SP, São Paulo.
Esta investigación tuvo por objetivo comprender el concepto y el proceso de compensación en el desarrollo de la persona ciega, a lo largo de la historia, así como comprender los antecedentes de la formulación de Vygotsky. El interés específico por el proceso de compensación de las personas ciegas se encuentra relacionado a la práctica profesional de la investigadora (docencia para alumnos con ceguera en espacios regulares de enseñanza, más específicamente en la enseñanza superior), además de dar continuidad a la investigación de maestría realizada entre los años 2006/2008. Para tanto, se optó por una investigación de carácter histórico, buscando el concepto de compensación desde los orígenes más remotos, hasta llegar a las discusiones formuladas por Vygotsky, como un proceso que valora las capacidades de las personas con deficiencia, al contrario de priorizar sus limitaciones, sus incapacidades o sus “defectos”. De ese modo, se busca la comprensión de la ciencia como producción humana que visa satisfacer sus necesidades, por ellas determinadas y en ellas interfiriendo, pues se cree que al comprender un dado, un hecho, un momento o un concepto por intermedio de la investigación histórica se encuentra en la propia información histórica lo que volverá posible la comprensión de un conjunto de producciones en las cuales ella propia es un efecto. De esa manera, llegamos a la conclusión de que, al comprender el proceso de compensación como un recurso, como un instrumento que nos ayuda en el desarrollo de las personas ciegas y, no solo como un medio de compensación del órgano – en la ausencia de la visión, de la audición o del tacto se encargan de dar suporte a la función –, conseguiremos encontrar uno de los fundamentos para lo que hoy denominamos de inclusión o educación para todos.
LEAL, Daniela. Compensation et cécité: une étude historiographique. 2013. 264p. Thèse (Doctorat). Programme d´Études Supérieures en Éducation: Psychologie de l´Éducation, PUC-SP, Sao Paulo.
Cette recherche a voulu comprendre le concept et le processus de compensation dans le développement de la personne aveugle, tout au long de l´histoire, aussi bien qu´à comprendre la compilation des donnés qui Vygotsky a utilisé comme formule de sa théorie. L´intérêt spécifique pour le processus de compensation des personnes aveugles est liée à la pratique professionnelle du chercheur (comme enseignant des élèves atteints par la cécité en milieu ordinaire d´enseignement et, plus spécifiquement, dans l´enseignement supérieur), ainsi que celle de donner suite à la recherche d´étude supérieure (Pos Master) en psychologie de l´éducation réalisée entre les années 2006/2008. De cette façon, nous avons opté pour une recherche de caractère historique, en cherchant le concept de compensation dès les origines les plus éloignées, jusqu´à arriver aux discussions proposées par Vygotsky, comme un processus que reconsidère de façon évaluative les capacités des personnes handicapées, au lieu de prioriser leurs limitations, leurs incapacités or leurs « défauts ».L´objectif est donc comprendre la science comme production humaine que vise répondre leurs propres besoins, déterminées par elles et en interférant en eux, une fois la possibilité, grâce à la recherche historique, de découvrir à partir des données, des faits, des moments ou d´un concept, l´information souhaitée comme possible d´emmener à la compréhension d´un ensemble de productions dans lesquelles, elle est le propre effet. De cette façon, nous pouvons conclure que, au moment que nous comprenons le processus de compensation comme un recours, comme un instrument qui nous soutient dans le développement des personnes aveugles et, pas simplement comme un moyen de compensation de l´organe – dans l´absence de la vision, de l´ouïe ou du toucheur ils se chargent de donner supporter à la fonction -, nous trouverons l´un des fondements pour ce qu´aujourd´hui nous désignons d´inclusion ou de l´éducation pour tous.
Lista de Tabelas ... 15
Lista de Ilustrações ... 16
Prefácio – “Eu”, os “outros” e a “deficiência”: um caminhar nessa longa jornada ... 17 Referências Bibliográficas ... 22
Introdução – Da escolha inicial aos passos trilhados: a trajetória de uma pesquisa ... 23 Separar, reunir, transformar: os procedimentos metodológicos da pesquisa em cena ... 25 Separado, reunido: transformando informações em referências .... 35
Referências Bibliográficas ... 40
Capítulo I – Olhares sobre à cegueira: as palavras e os conceitos na história ... 41 A cegueira na história ... 44
Pré-História ... 45
Idade Antiga ... 48
Idade Média ... 50
Idade Moderna ... 56
Capítulo II – Compensação – da palavra ao conceito: um caminhar
por sua etimologia ... 71
Referências Bibliográficas ... 83
Capítulo III – Do conceito ao processo: os avanços na teoria da compensação ... 85 Compreendendo o sentido da visão ... 98
Compreendendo a compensação ... 107
Compensação e deficiência: a cegueira em evidência ... 123
Referências Bibliográficas ... 137
Considerações Finais – Algumas construções, algumas ideias nessa longa jornada ... 140 Referências Bibliográficas ... 151
Bibliografia Consultada ... 152
Anexos – Algumas ideias, alguns constructos: uma síntese do conhecimento ... 157 Anexo I: Los Ciegos en la Historia – Tomo I ... 158
Anexo II: Los Ciegos en la Historia – Tomo II ... 172
Anexo III: Los Ciegos en la Historia – Tomo III ... 191
Tabela 1: O defeito e a compensação – alguns teóricos ... 26
Tabela 2: Os teóricos e suas obras I ... 29
Tabela 3: A criança cega – outros teóricos ... 30
Tabela 4: Os teóricos e suas obras II ... 32
Tabela 5: Os sentidos e a visão – teóricos que se destacaram ... 34
Foto 1: Hope, de George Frederic Watts ... 17
Foto 2: La parabola dei ciechi, de Pieter Bruegel ... 23
Foto 3: Le mendiant aveugle, de Bastien Lepage Jules ... 41
Foto 4: O cego rabequista, de José Rodrigues de Carvalho ... 71
Foto 5: Il Cieco, Albano Vitturi,... 85
Foto 6: El ciego músico, Ramón Bayeu ... 140
PREFÁCIO
“Eu”, os “outros” e a “deficiência”: um caminhar nessa longa jornada
Figura 1: Hope1, 1885, George Frederic Watts, Óleo sobre tela, 142,2 x 111,8, Tate National Gallery, Londres.
“Tenho apenas uma preocupação: que o leitor não adote apressadamente minhas conclusões, porque nesse caso sua leitura ser-lhe-ia prejudicial. Por isso quero preveni-los: o caminho que escolhi para atingir a minha finalidade não é nem o mais curto, nem o mais cômodo, entretanto, ele é o melhor para mim, porque
é o meu caminho. Eu o encontrei com o trabalho e com o sofrimento e somente depois de ter compreendido que todos os livros, experiências e opiniões alheias não expressam a verdade”.
Januzs Korkzac2 (s/r)
Escrever não é uma tarefa das mais fáceis, mas ao colocar no papel o que
pensamos, sentimos ou mesmo o que queremos concretizar (sonhos,
expectativas, objetivos etc.) parece-nos que fica mais fácil alcançar o que se
almeja. Sinal disso é a tese que aqui se inicia: um dia ela já foi sonho, expectativa
e objetivo, mas hoje ela se concretiza ao expor a trajetória em busca da origem do
conceito de compensação ao longo da história, principalmente na história da
cegueira.
Cabe alertar que essa jornada não é de hoje, de ontem e nem tem
pretensão de findar. É uma jornada que envolve o “eu”, que vem se
metamorfoseando a cada nova descoberta, os “outros”, que de uma forma ou
outra (pessoal ou impessoal) contribuíram para a discussão do tema em várias
áreas do conhecimento (medicina, filosofia, história, psicologia e educação) e,
finalmente, a “deficiência”, que me apresentou grandes pessoas, que me fizeram
enxergar uma luz no fim do túnel quando eu não a conseguia ver ou,
parafraseando Korkzac (s/r), me ajudaram a escolher um caminho nessa longa
jornada da qual não poderia voltar atrás.
Revelando-me que, ao deixar de lado tudo o que me era familiar e
confortável há alguns anos atrás – a educação somente das pessoas ditas
normais –, pude embarcar em uma jornada que me revela a cada dia novas pistas
para se chegar a conhecimentos sobre um processo que considere mais as
pessoas por suas possibilidades do que por suas deficiências.
Cabe aqui fazermos um pequeno parênteses, até mesmo para entender
porque optamos por utilizar nesta tese as terminologias cegueira/cego. A
preocupação com a forma de se referir às pessoas cegas de forma não pejorativa
deu-se, mais precisamente, entre os séculos XIX e XX, quando estas passaram a
ser vistas como parte da sociedade e, portanto, com direitos iguais aos demais.
Se antes essas pessoas eram chamadas de inválidos, pessoas com limitações,
pessoas com restrições para o desenvolvimento e/ou para participar, enfim,
“modos diferentes para referir-se àqueles seres humanos que possuem um 2
defeito, uma enfermidade ou um déficit”3 (GONZÁLEZ, BENITO E VEIGA, 2003, p.27, grifos do autor)4, em seguida passam a ser conhecidas, em um primeiro
momento, como pessoas portadoras de deficiência visual ou portadoras de
necessidades especiais, deficiente visual e, atualmente, pessoas com deficiência
visual5, com baixa visão, pessoa com cegueira ou cega. No entanto, tais
modificações de nomenclatura ou de consideração à pessoa cega suscitam,
ainda, breve questionamento:
[...] [se] as palavras que usamos para designá-las, a maneira perversa de ver o significado utilizado, carregando-o de conotações pejorativas que se desprendem de atitudes e crenças profundamente arraigadas na sociedade, fazendo com que devam ser substituídos periodicamente por outros, inicialmente neutros,
para referir-se ao mesmo significado6, [será que as nomenclaturas
que adotamos atualmente deixam de lado todas essas conotações para de fato ver quem é essa pessoa cega?]. (GONZÁLEZ, BENITO E VEIGA, 2003, p.27).
No momento, acreditamos e queremos crer que a utilização de termos
como pessoas com cegueira ou cegas, pessoas com deficiência visual ou
pessoas com baixa visão venham imbuídos de uma preocupação baseada no
respeito, tendo como princípio que cada pessoa é um ser único e diferente e que,
independentemente de seu déficit de visão ou perda, este não deverá perder sua
identidade como pessoa e de sua condição humana, pertencente a uma dada
sociedade.
Esta tese resultou, portanto, do encontro entre o objetivo inicial da
pesquisadora – conhecer as concepções de Lev S. Vigotski que dão base a sua
teoria sobre os fundamentos de defectologia7, principalmente no que se refere ao
3 “[...] modos diferentes para referirse a aquellos seres humanos que tienen un defecto, una enfermedad o un déficit” (GONZÁLES, BENITO E VEIGA, 2003, p.27).
4 As traduções realizadas são de responsabilidade da autora.
5 De acordo com o Ministério da Educação (MEC) no conceito de deficiência visual encontra-‐se o espectro que vai da cegueira até a visão subnormal (GIL, 2000); por esse motivo respeitaremos a grafia dos autores e/ou legislações consultados, apesar de mantermos os termos cegueira, cego (a).
6 “[...] las palabras que usamos para designarlas, vean pervertido el significante usado, cargándolo de connotaciones peyorativas que se desprenden de actitudes y creencias profundamente arraigadas en la sociedad haciendo que deban ser sustituidos periódicamente, por otros inicialmente neutros para referirse al mismo significado” (GONZÁLES, BENITO E VEIGA, 2003, p.27).
processo de compensação8 nas relações de aprendizagem das pessoas com
cegueira – e o processo que levou a outro objetivo que se espera ter sido atingido
neste trabalho.
Pretendia-se inicialmente realizar um estudo histórico sobre a obra de
Vigotski, especificamente dos fundamentos de defectologia, que se encontra em
um único tomo de suas Obras Escolhidas. Todavia, a partir desse estudo, surgiu o
interesse pela análise do conceito e do processo de compensação na história,
contribuindo para a compreensão dos antecedentes da formulação de Vigotski.
O interesse específico pelo processo de compensação das pessoas cegas
encontra-se relacionado à prática profissional da pesquisadora (docência para
alunos com cegueira em espaços regulares de ensino, mais especificamente no
ensino superior), bem como em dar seguimento à pesquisa de mestrado realizada
entre os anos de 2006/20089.
Para tanto, optou-se por uma pesquisa de cunho histórico, buscando o
conceito de compensação desde as origens mais remotas, até chegar às
discussões propostas por Vigotski, como um processo que valoriza as
capacidades das pessoas com deficiência, em vez de priorizar suas limitações,
suas incapacidades ou, como descreve o próprio autor, seus defeitos10. Busca-se,
assim, a compreensão da ciência como produção humana que visa satisfazer
suas necessidades, por elas determinadas e nelas interferindo, pois acredita-se
que ao compreender um dado, um fato, um momento ou um conceito por
8 De acordo com Vigotski (1983/1997), a partir da segunda metade do século XVIII, em decorrência de concepções biológicas sobre a deficiência, acreditava-‐se que quando da carência de um órgão, compensava-‐se o mesmo com o funcionamento e o desenvolvimento acentuado de outros órgãos. O autor coloca, no entanto, que ao contrário do que se pensava, a experiência social é a ferramenta que ajudará no processo de compensação, superando as consequências da deficiência, ou seja, a compensação não ocorre de forma mecânica e automática, mas nas relações que o sujeito estabelece com seu meio e os estímulos que lhe são dados para o desenvolvimento de outros sentidos. Mencionamos aqui somente uma ideia do que vem a ser o processo de compensação, pois este será discutido ao longo desta tese. 9
A pesquisa em questão resultou na dissertação “A constituição da identidade de uma aluna com deficiência visual: um estudo sobre o processo de inclusão escolar”, defendida no Programa de Pós-‐graduandos em Educação: Psicologia da Educação da PUC-‐SP, que teve por objetivo pesquisar a trajetória de uma aluna com deficiência visual, que passou pelos processos de exclusão, segregação, integração e inclusão, e a constituição de sua identidade frente ao processo de inclusão escolar, tendo Vigotski e sua teoria sobre os fundamentos de defectologia como um dos principais referenciais teóricos para explicar os processos de desenvolvimento e aprendizagem, bem como de inclusão ou não da aluna em questão.
10
intermédio da pesquisa histórica encontra-se na própria informação histórica o
que tornará possível a compreensão de um conjunto de produções nas quais ela
própria é um efeito (CERTEAU, 1975/201011).
Para a exposição desta tese, organizou-se o trabalho em quatro partes.
Na introdução serão apresentados a definição do problema, objetivos,
método e procedimentos metodológicos que constituem esta pesquisa.
O primeiro capítulo trará uma breve discussão histórica sobre a cegueira e
a visão que se construiu ao longo da história, sobre quem é essa pessoa, como
se dá seu desenvolvimento e as crendices que rondam essa condição até hoje.
No segundo capítulo apresentam-se as origens etimológicas da palavra
compensação e algumas áreas de conhecimento nas quais o conceito é utilizado.
O terceiro capítulo trará os antecedentes históricos do conceito de
compensação até chegarmos à compreensão do conceito como processo de
desenvolvimento das pessoas cegas e a criação de recursos para superar a
deficiência do órgão/sentido ausente, como proposto por Vigotski.
Nas considerações finais tecer-se-ão algumas conclusões sobre o conceito
pesquisado ao longo desta tese relacionando-o às possíveis implicações no
desenvolvimento das pessoas cegas.
11
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CERTEAU, M. A Escrita da História. 2ª ed. Trad. Maria de Lourdes Menezes. Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 2010.
GIL, M. (org.). Deficiência Visual. Brasília: MEC – Secretaria de Educação a Distância,
2000.
GONZÁLEZ, R. P.; BENITO, J. C.; VEIGA, P. D. Deficiencia visual. Aspectos conceptuales y repercusiones funcionales. In: BENITO, J. C.; VEIGA, P. D.; GONZÁLEZ,
R. P. (coord.). Psicología y Ceguera – Manual para la intervención psicológica en el
ajuste a la deficiencia visual. 1ª ed. Madrid: ONCE, 2003.
LEWOWICKI, T.; SINGER, H.; MURAHOVSCHI, J. Janusz Korczak – Perfil Lições “O
Bom Doutor”. São Paulo: Edusp, 1998.
VYGOTSKI, L.S. Fundamentos de defectología. Obras Escogidas. Tomo V. Madrid: Visor,
INTRODUÇÃO
Da escolha inicial aos passos trilhados: a trajetória de uma pesquisa
Figura 2: La parabola dei ciechi12, 1568, Pieter Bruegel, Tempera, 86 x 154 cm, Museo di Capodimonte, Napoli.
“O passado se apresenta ao historiador como uma trama desmedida de textos da mais
diversificada natureza, textos esses que são desmontados e decifrados pelo historiador, a partir de
uma pergunta que ele coloca a partir do seu presente”.
Pietro Costa (2010, s/p)13
12 A tela, assinada e datada de 1568, ilustra a parábola do Novo Testamento, retirada do Evangelho segundo Mateus (XV 14) e Lucas (VI 39): "E se um cego conduz outro, ambos cairão no buraco”. Bruegel, triplicando o número de pessoas mencionadas nas Escrituras, representa as várias fases de queda, acentuando o sentido da narrativa bíblica.
Quando “desmontamos” e “deciframos” textos para descrever como se
consolidaram as diversas formas de conceber a pessoa cega e seu
desenvolvimento ao longo da história, o conceito de compensação sempre se fez
presente: seja este interpretado como um dom divino concedido pelos deuses ou
divindades; seja como um processo natural, quase que automático – na falta de
um sentido, outro compensa –, seja como ponto de partida e principal força para
criar possibilidades e estímulos para a supercompensação (Adler, 1898, 1930),
seja, ainda, como um processo de reestruturação de todas as forças do
organismo e da personalidade, além de meios e instrumentos diferenciados para
a pessoa cega alcançar suas metas e desenvolvimento (Vygotski, 1983/1997).
Pode-se dizer, assim, que conhecer a realidade histórico-social em que o
conceito foi criado e seu impacto sobre a pessoa com cegueira nos tiram “da cega
aceitação da sutil, insidiosa e muitas vezes poderosa Selbstverständlichkeiten14 que compõe o Zeitgeist dentro do qual nós trabalhamos” (WERTHEIMER, 1998, p.39). Afinal, de acordo com Certeau (1975/2010, p.123), quando se busca
compreender algum dado, fato ou momento por intermédio da pesquisa histórica,
não se quer com isto “fugir para a ideologia, nem dar um pseudônimo ao que
permanece oculto. [Mas] encontrar na própria informação histórica o que a tornará
possível”, pois, segundo o autor,
[...] a história não é uma crítica epistemológica. Ela permanece um
relato. Conta seu próprio trabalho e, simultaneamente, o trabalho
legível num passado. [...] compreende-se a si mesma no conjunto e na sucessão de produções das quais ela própria é um efeito (CERTEAU, 1975/2010, p.53).
Ou, como descreve Engels, citado por Vigotski (1934/1982/2001, p.200)15,
O processo histórico de pensamento começa onde começa a história, e o seu ulterior desenvolvimento não é senão um reflexo, em forma abstrata e teoricamente coerente, do processo histórico, um reflexo realizado porém corrigido segundo as leis que a própria realidade historicamente nos ensina, pois o método histórico de
investigação permite estudar qualquer momento do
desenvolvimento em sua fase mais madura, em sua forma mais clássica.
14
De acordo com The Language Portal – PONS.eu (http://en.pons.eu/german-‐english/Selbstverst%C3%A4ndlichkeiten) a palavra Selbstverständlichkeiten significa “evidente por si mesmo”.
15
No que se refere aos procedimentos metodológicos a serem adotados,
concordamos com Massimi (2010, p.103), quando afirma que,
[...] a utilização de uma determinada terminologia e de determinados rótulos deveria ser especificada a cada vez no âmbito do específico projeto de pesquisa a realizar, de modo que os conceitos abordados possam ser analisados conforme a complexidade que assumiram no período histórico estudado.
No nosso caso, adotaremos o que Certeau denomina, no universo da
investigação histórica e do material historiográfico, de documentos-vestígios do
nível do que é pensável em determinado período histórico. Nas palavras do autor,
esse tipo de material
[...] leva o historiador às hipóteses metodológicas de seu trabalho, à sua revisão através de intercâmbios pluridisciplinares, aos princípios de inteligibilidade suscetíveis de instaurar pertinências e de produzir “fatos” e, finalmente, à sua situação epistemológica presente no conjunto das pesquisas características da sociedade onde trabalha. (CERTEAU, 1975/2010, p.46).
Nesse sentido, toda pesquisa histórica começa com o gesto de separar,
reunir, transformar em documentos os materiais que são encontrados.
Separar, reunir, transformar: os procedimentos metodológicos da pesquisa
em cena
Para começar a descrever o estudo dos materiais, documentos que
serviram de base a esta pesquisa, utilizo-me dos termos separar, reunir e
transformar, citados por Certeau (1975/2010) para descrever a ação de ir em
busca dos documentos, de extrair da prateleira os livros e/ou documentos
preciosos para o estudo, bem como de dar um tratamento aos mesmos, com base
no objetivo central da pesquisa, e que serviram de inspiração em cada encontro
com um novo livro, com um novo documento ou artigo, ou, ainda, com cada novo
teórico e sua forma de retratar o conceito de compensação. A cada nova
separação, reunião e transformação novas possibilidades se abriam para seguir
um ou outro caminho, para dar o fio da meada que se pretendia, mas também
apresentar outras possibilidades que aqui não poderiam ser contempladas –
tempo de conclusão da tese e objetivo –, mas que não serão deixadas de lado
Antes de contar como foi o processo, faz-se necessário um breve
comentário sobre o documento que motivou esta pesquisa. Como anunciado no
prefácio, a pesquisadora, em sua dissertação de mestrado, utilizou-se como
referência para a análise de um sujeito – história de vida de uma aluna de
pós-graduação lato sensu com deficiência visual – o Tomo V das Obras Completas de Lev S. Vigotski, Fundamentos de Defectologia, porque, em muitas passagens da
história de vida da entrevistada, ao relatar como se deu seu desenvolvimento e
sua aprendizagem, encontramos a explicação na teoria em questão,
principalmente no que se refere ao processo de compensação. Levando-nos,
assim, no primeiro momento, a uma leitura geral da obra para estabelecimento de
relações com os dados da pesquisa que estava sendo realizada, mas, em um
segundo momento, ao questionamento, especificamente, do processo de
compensação, que é amplamente citado na história das pessoas cegas ao longo
dos séculos.
Nesse sentido, a primeira etapa consistiu na releitura do Tomo V para um
melhor tratamento das informações que se referiam exclusivamente ao conceito
de compensação e, depois, em uma segunda etapa, o conceito de compensação
relacionado à cegueira. Buscando, assim, realizar um levantamento das
concepções do autor, mas também informações que nos levassem à busca de
autores e obras que levaram Vigotski à discussão do processo de compensação e
indícios ou pistas da origem do conceito.
A primeira etapa foi realizada, especificamente, com base na leitura do
artigo “O defeito e a compensação” (1927), no qual Vigotski descreve o conceito de compensação, pautando-se inicialmente na conceituação dada por alguns
autores para depois apresentar sua concepção. Encontramos menções a onze
autores como fonte de referência, como vemos na tabela a seguir.
Tabela 1: O defeito e a compensação – alguns teóricos Teóricos/Pensadores Ano Citação Citações
William Stern 1921, 1923
“Aquilo que não mata, me fortalece”, implicando que a força surge da fraqueza, das habilidades da deficiência (p.41).
organismo completo, enquanto que as anormalidades singulares são valorizadas somente na medida em que se compensem normalmente ou não, através de outras funções do organismo” (p.46). 16
Alfred Adler 1927 Otto Rühle (1926)
“[...] os órgãos deficientes, cujo funcionamento se encontra dificultado ou perturbado por causa de defeitos, necessariamente entram em luta, em conflito com o mundo exterior, devendo adaptar-‐ se” (p.42).
“A sensação de insuficiência dos órgãos é para o indivíduo um constante estímulo no desenvolvimento de sua psique” (p.43). 17
Charles Darwin não mencionado (n/m.)
“Charles Darwin nos mostrava que a adaptação surge da inadaptação, da luta, da morte e da seleção” (p.44). 18
Kretschmer n/m.
“[...] a constituição inata determina a estrutura do corpo, a personalidade e ‘todo o desenvolvimento ulterior personalidade humana nada mais é que do que o desdobrar passivo do tipo biológico básico que congenitamente é inerente ao homem’” (p.44). 19
Wittels n/m.
“Wittels denomina a pedagogia como o terreno fundamental de aplicação da psicologia adleriana” (p.45). 20
Theodor Lipps 1907
“T. Lipps via nisso
[compensação/supercompensação] uma lei geral da atividade psíquica que denominou lei de dique. ‘Se um fato psíquico interrompe ou é inibido em seu curso natural [...] ocorre uma inundação’. [...] No lugar do dique, é inerente à energia, à tendência a desviar-‐se. O objetivo que não se pode alcançar pelo caminho direto, se consegue graças à força da inundação, por um desses circuitos’”
16 “Aquello que no mata, me hace más fuerte” (VYGOTSKI, 1927/1983/1997, p.41)./ “En medicina se fortalece cada vez más la opinión de que el único criterio de salud o enfermedad es el funcionamiento adecuado o inadecuado del organismo íntegro, mientras que las anormalidades singulares se valoran sólo en la medida en que se compensen normalmente o no, a través de otras funciones del organismo” (VYGOTSKI, 1927/1983/1997, p.46).
17 “[...] los órganos deficientes, cuyo funcionamiento se ve dificultado o perturbado a consecuencia de defectos, necesariamente entran en lucha, en conflicto con el mundo exterior, al que deben adaptarse” (VYGOTSKI, 1927/1983/1997, p.42)./ “La sensación de la insuficiencia de los órganos es para el individuo un estímulo constante al desarrollo de su psique” (VYGOTSKI, 1927/1983/1997, p.43).
18
“Charles Darwin enseñaba que la adaptación surge de la inadaptación, de la lucha, la muerte y la selección” (VYGOTSKI, 1927/1983/1997, p.44).
19
“[...] la constitución innata determina la estructura del cuerpo, el carácter y ‘todo el desarrollo ulterior del carácter humano es nada más que el despliegue pasivo del tipo biológico básico que congénitamente es inherente al hombre’ [...]”(VYGOTSKI, 1927/1983/1997, p.44).
(pp.46-‐47). 21
K. Bürklen 1924
“Uma investigação factual demonstrou que a criança cega não experimenta uma elevação automática do tato ou da audição, no lugar da visão faltante (K. Bürklen, 1924). Pelo contrário, não é a visão em si que se recola, mas são as dificuldades derivadas de sua ausência que são resolvidas mediante o desenvolvimento de uma superestrutura psíquica” (p.49). 22
A. Petzeld 1925
“A característica mais marcante da personalidade do cego, em sua opinião, é a possibilidade de assimilar a experiência social dos videntes com a ajuda da linguagem” (p. 50). 23
L. L. Vasíliev 1926
“L. L. Vasíliev e eu descrevemos esses fenômenos [supercompensação] com o nome de processos dominantes [...]” (p.51). 24
Iván Afanásievich
Sokoliánski 1926
Crê que é ingênuo pensar que qualquer defeito se compensa; antes é necessário lucidez de critério e conhecer a direção a seguir.
Helen Keller 1910
“A própria Keller escreve que se houvesse nascido em um meio diferente, haveria estado eternamente nas trevas e sua vida teria sido um deserto, separada de toda comunicação com o mundo exterior (1910)” (p.54-‐55).
A vida de Helen Keller mostra que “o processo de supercompensação está inteiramente determinado por duas forças: as exigências sociais que são apresentadas ao desenvolvimento e à educação, e as forças intactas da psique” (p.55). 25
Todavia, como observado na tabela anterior, o levantamento realizado não
se fez suficiente, pois na maioria das citações não encontrávamos a referência
21 “T. Lipps veía en esto una ley general de la actividad psíquica que denominó ley del dique. ‘Si un hecho psíquico se interrumpe o se inhibe en su curso natural [...] ocurre una inundación’. [...] En el sitio del dique, es inherente a la energía ‘la tendencia a desviarse... El objetivo que no se pudo alcanzar por el camino directo, se logra gracias a la fuerza de la inundación, por uno de esos rodeos’” (VYGOTSKI, 1927/1983/1997, pp.46-‐47).
22 “Una investigación fáctica demostró que le niño ciego no experimenta una elevación automática del tacto o de la audición, en remplazo de la vista faltante (K. Bürklen, 1924). Por el contrario, no es la vista en sí lo que se remplaza, sino que se resuelven las dificultades derivadas de su ausencia mediante el desarrollo de una sobreestructura psíquica” (VYGOTSKI, 1927/1983/1997, p.49).
23 “Lo más característico de la personalidad del ciego, opina, es la posibilidad de asimilar la experiencia social de los videntes con ayuda del lenguaje” (VYGOTSKI, 1927/1983/1997, p.50).
24
L. L. Vasíliev y yo describimos estos fenómenos con el nombre de procesos dominantes [...]”(VYGOTSKI, 1927/1983/1997, p.51).
25
específica à obra dos autores; isso levou-nos a uma pesquisa nos meios
eletrônicos/digitais (sites de periódicos, Google Acadêmico, sites voltados à
psicologia, educação e deficiência visual) e na biblioteca da PUC-SP26, em busca
de obras dos referidos autores, que mencionassem o conceito de compensação e
em quais de suas obras encontraríamos possível menção à temática,
originando-se, assim, uma segunda tabela.
Tabela 2: Os teóricos e suas obras I
Teóricos/Pensadores Obras
William Stern
Referências Internet:
1. The Psychology Methods of Intelligence Testing (1914) 2. General Psychology from the Personalistic Standpoint (1938) Referência Biblioteca:
1. Psicología General – Desde el punto de vista personalítico (1938)
Alfred Adler
Referências Internet:
1. Study of Organ Inferiority and Its Psychical Compensation: A Contribution to Clinical Medicine (1917)
2. The Education of Children (1930)
3. La psicología individual y la escuela (1930)
4. La Compensation Psychique de L’état D’Infériorité des Organes suivi de Le problem de l’homosexualité (1956)
Referências Biblioteca:
1. A ciência da natureza (1967)
2. Practica y teoría de la psicología del individuo (1927)
Charles Darwin Referência Internet:
1. A origem das espécies (1859)
Ernst Kretschmer
Referências Internet:
-‐ Considerado um dois mais importantes psiquiatras da primeira metade do século XX. Seu interesse focava-‐se nas relações entre o físico, o psicológico e os transtornos mentais, propondo uma dicotomia entre demência precoce e doença maníaco depressiva, além de introduzir novos métodos psicoterapêuticos, como a hipnose ativa (GIL, WERBE e BURGMAIR, 2002).
1. Der sensitive Beziehungswahn (1918) 2. Körperbau und Charakter (1921) Referências Biblioteca:
1. Psicologia medica (1922)
2. Estudios psicoterapeuticos (1949)
Wittels Referências Internet:
-‐ Não há menção ao nome completo e/ou referências.
Theodor Lipps Referências Internet:
1. O conceito de inconsciente na psicologia (1897)
Karl Bürklen Referências Internet:
1. Touch Lesung des Blinden (1932)
A. Petzeld
Referências Internet:
-‐ Não foram encontradas referências que informassem o nome completo do teórico.
1. Vorschläge zur Erweiterung der Gymnasien (1830)
L. L. Vasíliev Referências Internet:
-‐ Não há menção ao nome completo e/ou referências.
Iván Afanásievich Sokoliánski
Referências Internet:
-‐ O único registro encontrado sobre Sokoliánski é um verbete do Dicionário de Defectologia.
-‐ Sokoliánski era um defectólogo soviético, especialista em surdopedagogia e tiflopedagogia. Criou um sistema próprio para o ensino e educação dos surdos-‐cegos, além de organizar em 1923 uma das primeiras instituições científico-‐pedagógicas para surdocegueria.
-‐ “As pesquisas de Sokoliánski não compreendem somente o problema do ensino e da educação dos cegos-‐surdos-‐mudos, mas também estão direcionadas à solução de questões fundamentais da pedagogia para surdos e da pedagogia para cegos” (DIACHKOV, 1982, p.193)27.
Helen Keller Referências Internet:
1. A história de minha vida (1902)
De posse do levantamento realizado e antes de nos dedicarmos à leitura
de cada uma das obras e/ou materiais elencados anteriormente, na segunda
etapa realizamos o levantamento dos teóricos e suas concepções no artigo “A criança cega” (s/d), no qual Vigotski retrata especificamente a relação entre o processo de compensação e a pessoa cega. Nesse artigo encontramos menção a
nove autores, alguns já elencados anteriormente e outros que ainda não haviam
sido mencionados.
Tabela 3: A criança cega – outros teóricos Teóricos/Pensadores Ano Citação Citações
K. Bürklen 1924
Nos cegos “são desenvolvidas peculiaridades que não podemos notar nos videntes, e deve-‐se supor que no caso de uma comunicação exclusiva entre cegos, sem intervenção alguma dos videntes,
27
poderia nascer uma categoria especial de pessoas” (p.99). 28
E. Binder n/m.
“[...] demonstrou que as funções dos órgãos dos sentidos não se trasladam de um órgão para outro [...]” (p.102). 29
Ernst Meumann 1911
“Afirmou que na realidade existe uma espécie de substituição das funções perceptivas (E. Meumann, 1911)” (p.102). 30
Wilhelm Wundt n/m.
“W. Wundt chegou à conclusão de que a substituição no âmbito das funções fisiológicas é um caso particular do exercício e da adaptação” (p.102).
31
A. Adler 1927
“[...] sinalizou a importância e o papel psicológico do defeito orgânico no processo de desenvolvimento e formação da personalidade” (p.103). 32
A. V. Biriliov n/m.
“A. V. Biriliov, um cego extremamente culto, o cego não vê o mundo da mesma maneira que um vidente com olhos vendados. Um cego não vê a luz do mesmo modo que o vidente não a vê com sua mão, ou seja, não sente nem percebe diretamente o fato que está privado da visão” (p.104). 33
A. Petzeld 1925
“O que é mais característico na personalidade do cego é a contradição entre a relativa impotência na relação com o espaço e a possibilidade através da linguagem de uma comunicação completa e absolutamente adequada e de uma compreensão mútua com os videntes (A. Petzeld, 1925), que cabe plenamente no esquema psicológico do defeito e a compensação” (p.107). 34
W. Stern 1921
“A teoria admitiu sobre a compensação e esclareceu como da debilidade nasce a força, das deficiências, os méritos. Em compensação, é acentuada no cego a capacidade de diferenciar o tato, não através de
28 “[...] se desarrollan peculiaridades que no podemos notar en los videntes, y se debe suponer que en el caso de una comunicación exclusiva entre ciegos, sin intervención alguna de videntes, podría nacer una categoría especial de personas” (VYGOTSKI, s.d/1983/1997, p.99).
29 “[...] demostró que las funciones de los órganos de los sentidos no se trasladan de un órgano al otro [...]”(VYGOTSKI, s.d/1983/1997, p.102).
30 “Afirmó que en realidad existe una especie de sustitución de las funciones perceptivas (E. Meumann, 1911)” (VYGOTSKI, s.d/1983/1997, p.102).
31 “W. Wundt llegó a la conclusión de que la sustitución en el ámbito de las funciones fisiológicas es un caso particular del ejercicio y la adaptación” (VYGOTSKI, s.d/1983/1997, p.102).
32 “[...] señalo la importancia y el papel psicológico del defecto orgánico en el proceso de desarrollo y formación de la personalidad” (VYGOTSKI, s.d/1983/1997, p.103).
33
“A. V. Biriliov, un ciego sumamente culto, el ciego no ve el mundo igual que un vidente con los ojos vendados. El ciego no ve la luz tal como el vidente no l ave con su mano, es decir, no siente ni percibe directamente el hecho de que está privado de la vista” (VYGOTSKI, s.d/1983/1997, p.104).
uma real elevação da excitabilidade nervosa, mas sim através do exercício de observação, a valorização e a compreensão das diferenças” (p.110). 35
Scherbina 1916
“Em alguns cegos, como descrevia notavelmente Scherbina, o defeito é compensado organicamente, ‘é criada uma espécie de segunda natureza’ (1916, pág.10), e encontram na vida, apesar de todas as dificuldades vinculadas à cegueira, um encanto particular, que não renunciariam em troca de nenhum tipo de bens” (p.111). 36
Assim como na primeira etapa, sentimos a necessidade de realizar um
novo levantamento em meios eletrônicos e na biblioteca em busca de referências
para conhecimento dos demais teóricos e obras, como observamos a seguir.
Tabela 4: Os teóricos e suas obras II
Teóricos/Pensadores Obras
E. Binder Referências Internet:
-‐ Não há menção ao nome completo e/ou referências.
Ernst Meumann
Referências Internet:
-‐ Psicólogo alemão considerado o fundador da psicologia educacional e da pedagogia experimental.
1. Vorlesungen zur Einführung in die Experimentelle Pädagogik und ihre psychologischen Grundlagen (1907)
2. Bibliographie Ernst Meumann, de Paul Probst (Berzberg, Germany: Traugott Bautz, 1991.
Referências Biblioteca:
1. Pedagogía Experimental (1907)
Wilhelm Maximilian Wundt
Referências Internet:
-‐ Seu livro mais importante foi “Principles of physiological psychology” (Princípios da Psicologia Fisiológica).
Referências Biblioteca:
1. The language of gestures (1921)
A. V. Biriliov
Referências Internet:
-‐ A pesquisa nos meios eletrônicos de busca apontam para a mesma citação descrita por Vigotski, em seu artigo, conforme pode ser observada na tabela anterior.
35 “Admitió la teoría sobre la compensación y esclareció cómo de la debilidad nace la fuerza, de las deficiencias, los méritos. Por compensación se afina en el ciego la capacidad de diferenciar al tacto, no a través de una real elevación de la excitabilidad nerviosa, sino a través del ejercicio en la observación, la valoración y la comprensión de las diferencias” (VYGOTSKI, s.d/1983/1997, p.110).
Scherbina Referências Internet:
-‐ Não há menção ao nome completo e/ou referências.
Paralelamente às duas anteriores, realizamos uma terceira etapa com
levantamento de teóricos que, em suas obras, dedicaram-se à discussão da
importância dos sentidos para o desenvolvimento, ora focando-se
especificamente nos sentidos das pessoas ditas normais, ora nas pessoas cegas
ou com algum tipo de deficiência visual. Fez se a busca nos meios eletrônicos,
posteriormente na biblioteca da PUC-SP, a qual nos levou, inicialmente, ao nome
de vinte e três teóricos, como mencionados na tabela a seguir, bem como menção
ao conceito de compensação nas áreas do direito, fisiologia, neurologia,
sociologia, física, além da psicologia.
Cabe salientar que muitos são os teóricos que se dedicam a falar sobre os
sentidos de uma forma ampla ao explicar como a alma, o humano se desenvolve.
Devido à vastidão de teóricos que encontraríamos, nos restringimos aos teóricos
que se dedicassem a falar sobre a importância do sentido da visão para o
desenvolvimento humano e, no caso de sua falta, quais as implicações expostas,
bem como aos que referiam ao processo de compensação – que ao longo da tese
se observará que alguns teóricos utilizavam-se de outra nomenclatura para se
referir ao processo de compensação.
Com base no conhecimento prévio de algumas obras anteriormente
estudadas, os teóricos inicialmente elencados foram: Aristóteles (paralelo entre a
percepção e o conhecimento – faculdade perceptiva), Avicena (estudo dos cinco
sentidos), Diderot (estudos sobre a cegueira e a compensação), Rousseau (ser
pensante e sensível – expressão pelos sentidos), Müller (teoria das energias
nervosas específicas – nervos sensoriais) e Luria (estudo das funções corticais e
do comportamento); no entanto, como toda pesquisa em história, durante a leitura
inicial das obras selecionadas, outros teóricos e outras obras foram sendo
descobertos, possibilitando a ampliação do conjunto de estudos e teóricos que se
Tabela 5: Os sentidos e a visão – teóricos que se destacaram Teóricos/Pensadores Obra/Ano
Aristóteles (384-‐322 a.C.) De Anima (? a.C.) Avicena (980-‐1037) Livro da Alma (+ 1027)
John Locke (1632-‐1704) Ensaio sobre o entendimento humano (1690) George Berkeley (1685-‐
1753)
Ensaio para uma nova teoria da visão (1709) A teoria da visão, confirmada e explicada (1728) Voltaire (1694-‐1778) Elementos da filosofia de Newton (1738) Diderot (1713-‐1784) Carta aos Cegos (1749)
Jean Le Rond D’Alambert (1717-‐1783)
Discurso Preliminar (1751)
Rousseau (1712-‐1778) Emile (1762) Johannes Peter Müller
(1801-‐1858)
Handbuch des Physiologie des Menschen (1833) Ce qui fait obstacle a la vie (1914)
Sigmund Freud (1856-‐ 1939)
Conceito psicanalítico das perturbações psicogênicas da visão (1910)
Henry Ford (1863-‐1947) My life and work (1923)
C. G. Jung (1875-‐1961) Psicologia do inconsciente (1912) O eu e o inconsciente (1928)
Jean Piaget (1896-‐1980) O nascimento da inteligência na criança (1936) Anna Freud (1895-‐1982) O ego e os mecanismo de defesa (1936)
Gordon Willard Allport (1897-‐1967)
Personalidade (1937)
Arthur Ramos (1903-‐1949) A criança-‐problema: a higiene mental na escola primária (1939) Philipp Lersch (1898-‐1972) Aufbau der Person (1954)
Psicología Social – el hombre como ser social (1967) Oliver Luis Zangwill (1913-‐
1987)
Introducción a la psicología moderna (1950)
Alexander Luria (1902-‐ 1977)
Las funciones corticales superiores del hombre (1973-‐1977) Psicologia Geral (1979)
Estudos sobre a história do comportamento: o macaco, o primata e a criança (1930)
Albert Collete (1915-‐1962) Introdução à psicologia dinâmica: das teorias psicanalíticas à psicologia moderna (1963)
Gérard Lebrun (1930-‐ 1999)
O cego e o filósofo ou o nascimento da antropologia (1972)
Adam Schaff (1913-‐2006) Linguagem e conhecimento (1974) Paul B. Baltes (1939-‐2006) Successful Aging (1990)
Há ainda a quarta etapa, na qual nos dedicamos à busca de referências
que revelassem a história da pessoa cega ao longo dos séculos. Esta se deu,
principalmente, durante os estudos da pesquisadora na Universidade de
precisamente na Biblioteca da Organización Nacional de Ciegos de España,
conhecida como ONCE. Durante visita e conversa com alguns profissionais da
organização tomamos conhecimento da obra “Los ciegos en la historia”, escrita
por Jesús Montoro Martínez37.
A obra em questão está dividida em cinco tomos, sendo esses: Tomo I, da
Pré-história à Idade Média; Tomo II, da Idade Moderna à Idade Contemporânea
(aspectos gerais, América, Espanha, França e Suíça); Tomo III, Idade
Contemporânea (Áustria, Hungria, Alemanha, Checoslováquia, Iugoslávia, Itália,
Bélgica, Luxemburgo, Holanda, Reino Unido, Irlanda, Dinamarca, Islândia,
Noruega, Suécia, Finlândia, União Soviética, Polônia, Romênia, Bulgária, Grécia,
Albânia e Portugal); Tomo IV, Idade Contemporânea (Espanha, de 1808 até
1939); Tomo V, História e Evolução da ONCE (1938 até 1998). Para esta tese
utilizamos apenas os três primeiros tomos como fonte específica para a
construção do capítulo teórico sobre a história da cegueira; os dois últimos tomos
por se aterem especificamente à Espanha e à história da ONCE, foram
estudados, mas não incorporados a este trabalho.
Posto isso e mediante as inúmeras referências encontradas em cada uma
das etapas, nos detivemos à quinta, mas não necessariamente a última etapa: a
leitura de cada uma das obras em busca de indícios sobre o conceito de
compensação que poderiam nos levar à compreensão do mesmo, bem como
servir de referencial para esta tese.
Separado, reunido: transformando informações em referências
Como bem colocado na epígrafe deste capítulo, “O passado se apresenta
ao historiador como uma trama desmedida de textos da mais diversificada
natureza, textos esses que são desmontados e decifrados pelo historiador, a
partir de uma pergunta que ele coloca a partir do seu presente” (COSTA, 2010,
s/p.), ou como diz Certeau (1975/2010), que em história tudo começa com o gesto
de separar, reunir, transformar em documentos certos objetos distribuídos de