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Rev. Bras. Psiquiatr. vol.26 número3

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Academic year: 2018

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Saúde mental na escola:

uma abordagem multidisciplinar

Ana Margareth S Bassols, Paulo Wanderlei Cristóvão, Miriam de Santis, Suzana Fortes, Paulo Berél Sukiennik. Organizadores. Porto Alegre: Mediação, 2003. 2v.

O trabalho com crianças é um procedimento extremamente com-plexo e de alta responsabilidade. Abrange um universo que extra-pola em muito o contato exclusivo com a criança, envolvendo atenção à família – nesse momento evolutivo influência decisiva enquanto presença real. Assim, o trabalho com esses seres impõe um contato com o meio em que vivem, trazendo para o campo operacional múltiplas variáveis que, certamente, influenciarão o curso dos acontecimentos, desde os socioeconômicos e culturais, até os específicos da estrutura de cada família e da inserção de cada criança em sua própria família. Além de lidarmos com questões objetivas e fantasias de cada pequeno indivíduo com que trabalhamos, somos obrigados a lidar com as questões e fantasias de cada família e de cada instituição para com "sua" criança. Somos exigidos, enquanto profissionais, pelas próprias crianças, pelas famílias e pelas instituições envolvidas. E, talvez especial-mente, pelas nossas próprias expectativas, desejos e valores. A complexidade da tarefa diz respeito a serem as crianças seres em desenvolvimento, pessoas que estão em "vir a ser" e a quem deve-mos acompanhar no processo de se tornarem elas mesmas, indi-víduos singulares que possam aproveitar o mais livremente pos-sível seus recursos pessoais.

Essas considerações dizem respeito a todo profissional que tra-balha com crianças. A noção de desenvolvimento – sendo uma noção global, de crescimento físico, mental, psicológico e social –

explica a razão pela qual os profissionais envolvidos nessa tarefa inevitavelmente precisam aprender uns com os outros, pensar e trabalhar em conjunto, resguardadas as especificidades de cada tarefa. Destaca-se, assim, a oportuna iniciativa dos autores desse livro, profissionais da saúde mental com muitos anos de experiên-cia em consultoria escolar. Propõem-se os autores – e o con-seguem, sem dúvida – a oferecer um instrumento de consulta sobre as principais áreas em que problemas de ordem emocional possam interferir no trabalho do educador. Sabemos que, para aprender, o ser humano precisa estar disponível para essa tarefa, o que implica, a princípio, em que suas necessidades básicas este-jam razoavelmente atendidas. Necessidades que extrapolam as físicas, como tão bem ilustra esse livro. Nas palavras dos autores (cap. 7, p. 39), "é possível lançar luz à idéia de que mente e corpo são inseparáveis. (...) O processo de desenvolvimento depende de interações repetidas e variadas entre crianças em crescimento e seu ambiente". Sonia Moojen (cap. 19, p. 98) aborda a dificuldade de estabelecer os limites entre a normalidade e a patologia na aprendizagem, examinando os múltiplos fatores que podem inter-ferir nesse delicado processo e possibilidades de tratamento dos problemas, que vão desde medidas específicas até a necessidade de abordagens multidisciplinares.

A leitura do primeiro volume desse livro (o segundo volume trata mais especificamente do trabalho de consultoria escolar propria-mente dito) possibilita uma aproximação clara e consistente dos problemas de ordem mental que interferem na aprendizagem. Cada capítulo aborda uma patologia, explicitando, de forma clara, como se pode perceber o transtorno e os recursos indicados para o tratamento desses problemas. Acredito ser esse livro um valioso documento que permite não só aos profissionais da educação, a quem se dirige preferencialmente, mas também a todos nós, envolvidos no atendimento de crianças, uma visão global dos transtornos que podem estar sofrendo as crianças e adolescentes sob nossos cuidados.

David Epelbaum Zimerman, no primeiro capítulo do livro, mostra o quanto o fenômeno “aprendizagem” acontece na interação, como, convém salientar, a própria existência humana. Interação cujas motivações inconscientes possibilitam a abordagem múlti-pla proposta nesse livro. Aprendemos, lendo Saúde Mental na Escola, primeiro volume, que temos que trocar experiências, enquanto profissionais, para que cada um possa exercer sua função específica o melhor possível, pois a tarefa de tratar e a tarefa de ensinar exigem competências e abordagens técnicas diversas. Esse livro me parece um importante passo nesse senti-do. De sua leitura saímos nos sentindo mais capazes de ter uma visão geral do campo de problemas que podem interferir no desenvolvimento da criança e do adolescente, além das possibili-dades de atendimento desses problemas desde um ponto de vista interdisciplinar, talvez o que melhor atenda às necessidades des-ses seres em desenvolvimento que nos fascinam e ensinam tanto. E a quem desejamos oportunizar que se tornem os melhores adul-tos que puderem ser.

Eneida Iankilevich

Especialista em Psiquiatria pela UFRGS Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre

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