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Nota dos editores. ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 35, p. 7 9, 2. sem. 2013

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Nota doseditores

O Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFF tem passado por inúmeras mudanças na condução de uma política acadêmica e científica que privilegie a excelência da produção dos seus discentes e docentes.

Através da revista Antropolítica, buscamos consolidar um canal de comu- nicação que permita a difusão e democratização da produção antropoló- gica (e de outros campos das Ciências Humanas), acolhendo a produção intelectual de professores do Programa, assim como de pesquisadores nacionais e internacionais. Neste número 35 da Antropolítica, correspon- dente ao segundo semestre de 2013,  publicamos artigos de excelência reconhecida no campo intelectual das Ciências Sociais que vem fortalecer as redes de pesquisadores no Brasil e no exterior com as quais mantemos intercâmbios sistemáticos através de inúmeros convênios internacionais e parcerias institucionais.

Iniciamos este número pela publicação do dossiê temático Exílios: Etno- grafias de campos de Refugiados Palestinos no Líbano organizado por Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto e Gisele Fonseca Chagas. Os artigos aqui reunidos abordam a situação dos refugiados palestinos que se fixa- ram em campos no Líbano, no contexto de desagregação da unidade territorial e social palestina ao longo dos séculos XX e XXI. Ainda que considerando a forma extremamente dramática assumida por estes assen- tamentos e a situação liminar de sua população, os textos etnográficos aqui apresentados, procuram mostrar como estes refugiados reconstroem suas vidas no interior das sociedades que as acolhem, apesar da rejeição que frequentemente sofrem.

Abrimos a sessão de artigos com Uma Experiência Etnográfica no Sentido Pleno: Notas Sobre uma mostra Fotográfica no Arraial de Ponta Grossa dos Fidalgos de Arno Vogel, Carlos Abraão Moura Valpassos e Thais Nas- cimento. Trata-se de um relato de uma experiência na qual o material de pesquisa de Luiz de Castro Faria produzido numa série de visitas ao arraial de Ponta Grossa dos Fidalgos, RJ, entre os anos 1930 e 1940, é retomado muitas décadas depois. Sob a liderança de Arno Voguel, um grupo de es- tudantes realiza uma exposição do material fotográfico de L. C. Faria no próprio arraial de pescadores. Este artigo aborda como a visualização das imagens pretéritas proporcionou aos habitantes locais uma oportunidade para revitalizar memórias, exumar narrativas e tecer interpretações sobre as transformações ocorridas no povoado ao longo dos últimos 60 anos.

Em seguida, publicamos o artigo de Eduardo Martinelli Leal intitulado

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TECNOLOGIAS DE GOVERNO E O CURSO DA VIDA: estudo antro- pológico com jovens em execução de medidas socioeducativas em Porto Alegre- RS. O artigo propõe um estudo antropológico na área da execução das medidas socioeducativas em meio aberto em Porto Alegre-RS, tendo como foco a progressão de medida de internação (Fundação de Apoio Socioeducativo-FASE-RS) e rotina das entrevistas de Liberdade Assistida. O autor lança mão da noção de “cursos da vida” (Debert, 1997) para pensar o modo como a reflexão sobre a assunção à maioridade é incorporada nas tecnologias de governo. Na sequência publicamos CONFLITOS E DIS- PUTAS NA FRONTEIRA BRASIL-BOLÍVIA: A INTERDIÇÃO DA FEIRA BRAS-BOL EM CORUMBÁ-MS de Gustavo Villela Lima da Costa. Netes texto, o autor analisa a interdição da “Feira Bras-Bol” em 2013, espécie de

“camelódromo” na cidade de Corumbá-MS, cujos trabalhadores são, em sua maioria, bolivianos. São interpretados discursos oficiais e da imprensa, além dos argumentos jurídicos utilizados para legitimar esta interdição.

O autor dialoga com Pierre Bourdieu, explorando a hipótese de que houve um processo de fetichização do direito, baseado na ocultação dos mediadores, dos conflitos sociais e dos processos políticos em jogo, de modo a legitimar vontades políticas locais de grupos sociais específicos, como a Associação Comercial de Corumbá. Publicamos ainda nesta sessão o artigo Revalorización urbanística, prostitución callejera y corrup- ción administrativa. Primera aproximación etnográfica a la calle d’en Robador de Barcelona de Miquel Fernández. Este artigo trata de implementar a vasta literatura sobre a “regeneração urbana” do bairro de Raval de Barcelona. Neste sentido, descreve os processos de estigmatização em um bairro, área e forma de aquisição de subsistência: prostituição nas ruas. A investigação centrou-se em uma parte do Raval, rua d’en Robador.

Ele examina como o estigma produz e reproduz no bairro, a prostituição, bem como o seu tempo de serviço para permitir e justificar fortes interven- ções urbanas. Finalizamos esta sessão com o artigo A paz começa dentro da família. Intrigas e questões no sertão do São Francisco de Leonardo Vilaça Dupin e Sheila Maria Doula. Os autores exploram a participação de sujeitos locais em uma passeata pela paz, em uma pequena cidade do interior. Durante o evento, algumas falas pronunciadas são importantes pelo o que revelam e escondem. O ritual põe em relevo as relações de poder, solidariedade e dependência, as formas de apaziguamento e a articulação de múltiplas esferas sociais, como a família e a política, que se expõem visceralmente no ato.

Na sessão Olhares Cruzados deste número publicamos um artigo de Márcio De Paula Filgueiras intitulado Considerações sobre a experiência de bolsa Capes/Fulbright entre 2010 e 2011: internacionalização do conhecimento,

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aspectos institucionais e informais da experiência de “estar lá”. Neste tex- to, o autor explora sua experiência durante o período da bolsa sandwich Capes/Fulbright na Universidade de Stanford, na Califórnia, EUA, entre os anos de 2010 e 2011, sob supervisão do professor James Ferguson. O texto reúne tanto aspectos pessoais, quanto aspectos mais formais e profissionais da experiência.

Continuamos a receber submissões de interesse para a área das Ciências Sociais, em regime de fluxo contínuo. Mantemos o nosso e-mail (antro- [email protected]) para contato e indicamos o site em que estão dis- poníveis os demais números da revista http://www.uff.br/antropolitica/

antropoliticanumeros.html. As submissões podem ser encaminhadas por meio do site http://www.revistas.uff.br/index.php/antropolitica, no qual podem ser encontradas as normas de publicação e outras informações.

Comitê editorial

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Antropolítica Niterói n. 35 p. 1-280 2. sem. 2013 ISSN 2179-7331

A n t r o p o l í t i c A

N

o

35 2

o

semestre 2013

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© 2013 Programa de Pós-Graduação em Antropologia UFF

Direitos desta edição reservados à EdUFF – Editora da Universidade Federal Fluminense – Rua Miguel de Frias, 9 – anexo – sobreloja – Icaraí – CEP 24220-900 – Niterói, RJ – Brasil – Tel.: (21) 2629-5287 – Telefax: (21) 2629-5288 – http://www.editora.uff.br – E-mail: [email protected] É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Editora.

Normalização / Revisão / Projeto gráfi co, capa e editoração: Fabricio Trindade Ferreira ME Revisão de espanhol: Larissa Zanetti

Revisão de inglês: Luiza Aragon

Catalogação-na-Fonte (CIP)

A636 Antropolítica: Revista Contemporânea de Antropologia — n. 35, 2º sem. 2013, (n. 1, 2.

sem. 1995). Niterói: Editora da UFF, 2014.

v. : il. ; 23 cm.

Semestral.

Publicação do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense.

ISSN 2179-7331

1. Antropologia Social. I. Universidade Federal Fluminense. Programa de Pós-Graduação em Antropologia.

CDD 300

Esta edição contou com recursos provenientes do Edital Auxílio Editoração Prppi/UFF 2013.

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE Reitor

Roberto de Souza Salles Vice-Reitor

Sidney Luiz de Matos Melo Pró-Reitor de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação Antonio Carlos Lucas de Nóbrega

Conselho Editorial da Antropolítica

Luiz de Castro Faria (PPGA/UFF) (In memorian) Ana Maria Gorosito Kramer (UNAM – Argentina) Anne Raulin (Paris X – Nanterre)

Arno Vogel (UENF)

Charles Freitas Pessanha (UFRJ) Charles Lindholm (Boston University) Claudia Lee Williams Fonseca (UFRGS) Daniel Cefaï (Paris X – Nanterre)

Edmundo Daniel C. dos Santos (Ottawa University) Eduardo Diatahy Bezerra de Meneses (UFCE) Eduardo Rodrigues Gomes (PPGCP/UFF) João Baptista Borges Pereira (USP)

Josefa Salete Barbosa Cavalcanti (UFPE) Lana Lage de Gama Lima (UENF) Licia do Prado Valladares (IUPERJ) Luís Roberto Cardoso de Oliveira (UNB) Marc Breviglieri (EHESS)

Mariza Gomes e Souza Peirano (UNB) Otávio Guilherme Cardoso Alves Velho (UFRJ) Raymundo Heraldo Maués (UFPA)

Roberto Augusto DaMatta (PUC) Roberto Mauro Cortez Motta (UFPE) Ruben George Oliven (UFRGS) Sofi a Tiscórnia (UBA)

Comissão editorial da Antropolítica Laura Graziela F. F. Gomes (PPGA / UFF) Simoni Lahud Guedes (PPGA / UFF) Fábio Reis Mota (PPGA / UFF) Daniel Bitter (GAP/UFF) Arthur Pecini (UQAM) Secretária executiva Ana Fontes

Editora fi liada à

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S

umário

Nota DoS EDitorES, 7 DoSSiê

Exílios: EtnogrAfiAsdE cAmposdE rEfugiAdos pAlEstinosno líbAno, 13

ApresentAção Paulo Gabriel Hiluda rocHa Pinto

e Gisele Fonseca cHaGas

frontEirAsdooutroEconstruçãodE “si”:

ocAsodospAlEstinos nolíbAno (1947-1952), 17 JiHane sFeir

HAbitArum cAmpodErEfugiAdos pAlEstinos:

ocAsodE bEddAwi, nortE do líbAno, 49 amanda dias

pAlEstinidAdE: rEsistênciA, tEmpo ErituAlno

cAmpodErEfugiAdos pAlEstinos Al-JAlil, líbAno, 77 leonardo scHioccHet

umAntropólogo sobsítio: pEsquisAdEcAmpo

EmcAmpo minAdo (cHAtilA, líbAno), 101 Gustavo barbosa

artigoS

umAExpEriênciA EtnográficAno sEntidoplEno:

notAssobrEumAmostrAfotográficA no ArrAiAl

dE pontA grossA dos fidAlgos, 127 carlos abraão valPassos

arno voGel, tHais nascimento

tEcnologiAs dEgovErnoEocurso dAvidA, 145 eduardo martinelli leal

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conflitosE disputAsnAfrontEirA brAsil-bolíviA: AintErdição

dAfEirAbrAs-bolEm corumbá-MS, 175 Gustavo villela limada costa

usosdElEstigmA. ElpApEl dElAprotitución EnlA rEvAlorizAci-

ón urbAnísticAdElAillArobAdor dEbArcElonA, 197 miquel Fernández

“A pAzcomEçA dEntrodAfAmíliA”: intrigAsE quEstõEsnosEr-

tão do são frAncisco, 225

leonardo vilaça duPin / sHeila maria doula

olharEScruzaDoS

considErAçõEs sobrEAExpEriênciA dEbolsA cApEs/fulbrigHtEn-

trE 2010 E 2011: intErnAcionAlizAçãodoconHEcimEnto, AspEc-

tosinstitucionAisEinformAisdAExpEriênciA dEEstAr”, 251 márciode Paula FilGueiras

rESENha

rEsEndE, JosémAnuEl. A sociEdAdE contrA AEscolA? A so-

ciAlizAção políticAEscolAr numcontExtodE incErtEzA. lisboA:

instituto piAgEt, 2008, 265 boris maia

cousin, sAskiAlEsmiroirs du tourismE. EtHnogrApHiEdElA tourAinEdu sud. pAris : dEscArtEs & ciE, 2010, pp.263, 273 tristan loloum

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oNtENtS

EDitorS NotE, 7 DoSSiEr

ExilEs: EtHnogrApHiEsof pAlEstiniAn rEfugEEcAmpsin lEbAnon

prEsEntAtion: Paulo Gabriel Hiluda rocHa Pinto e Gisele FonsecacHaGas, 13

boundAriEsof tHE “otHErAnd construction oftHEsElf”: tHE

cAsEof pAlEstiniAnsin lEbAnon, 1947-1952, 17 JiHane sFeir

inHAbiting A pAlEstiniAn rEfugEE cAmp: tHE cAsE of bEddAwi, nortHErn lEbAnon, 49

amanda dias

pAlEstiniAnnEss: rEsistAncE, tEmpoAnd rituAl in Al-JAlil pAlEs-

tiniAn rEfugEE cAmp, lEbAnon, 77 leonardo scHioccHet

An AntHropologist undEr siEgE: fiEld rEsEArcH inA minEfiEld

(sHAtilA, lEbAnon), 101 Gustavo barbosa

articlES

notEs on A pHotogrApHicExibit At pontA grossAdos fidAl-

gos: A EtHnogrApHic ExpEriEncEAt it`s fullEst, 127

carlos abraão valPassos / arno voGel / tHais nascimento govErnmEntAl tEcHnologiEs And lifEcoursE: AnAntHropolo-

gicAl studywitH AdolEscEntsundEr socio-EducAtionAl mEAsu-

rEsin porto AlEgrE - rs, 145 eduardo martinelli leal

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conflictsAnd disputEs in brAzil-boliviA bordEr: tHE proHibi-

tion of brAs-bolmArkEt-plAcE in corumbá-ms, 175 Gustavo villela limada costa

urbAn rEnEwAl, strEEtprostitutionAnd AdministrAtivE cor-

ruption. A firstEtHnogrApHic AnAlysisof robAdorstrEEt in bArcElonA “, 197

miquel Fernández

tHEpEAcE bEginswitHin tHEfAmily”: intriguEs And fAmilystru-

gglEsin tHE são frAnciscos HintErlAnd, 225 leonardo vilaça duPin / sHeila maria doula

ExchaNgiNg pErcEptioNS

considErAtionsAbout A cApEs/fulbrigHtscHolArsHip ExpEriEn-

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rEviEwS

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sociEtyAgAinst tHEscHool? tHEscHoolpoliticAl sociAlizAtion inA contExtof uncErtAinty. lisbon: piAgEtinstitutE, 2008, 273 boris maia

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campos de r efugiados

p alestiNos No l íbaNo

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pAulo GAbriel HiludA rocHA pinto

e Gisele FonsecA cHAGAs

ApresentAção

A questão dos refugiados palestinos constitui um dos dramas políticos mais perenes dos séculos XX e XXI, tendo sido produzido a partir de 1948 pelo próprio conflito que levou à criação do Estado de Israel e a destruição da unidade territorial e social da Palestina; o que é conhecido em árabe como Nakba (Catástrofe). Fugindo do conflito ou sendo expulsos de suas casas pelas forças sionistas, cerca de 70% da população palestina instalou-se nos pa- íses limítrofes, tais como Jordânia, Líbano, Síria e Egito1. Aqueles que tinham posses e/ou conexões familiares puderam integrar-se às sociedades de acolha; já aqueles que não possuíam essas opções foram gradativamente assentados em campos de refugiados cujo caráter provisório foi desmentido pela sua permanência até os dias de hoje.

Impedidos de voltar às suas casas e propriedades pelo Estado de Israel, os refugiados palestinos são o produto do que Ilan Pappe definiu como a

“limpeza étnica da Palestina” 2, e são frequente- mente definidos como estando em uma situação liminar de “não-lugar” (Augé, 1994)3, a qual seria definida pela contradição inscrita na sua condição de eternos refugiados que não possuiriam mais seu pertencimento de origem nem pertenceriam plenamente à sociedade onde vivem. Em nenhum

1 A população árabe da Palestina, tanto cristã quanto muçulmana, era de cerca de 1 milhão de pessoas em 1948. A população total da Palestina era de 1milhao e 500 mil pessoas, com cerca de 500 mil judeus.

2 PAPPE, Ilan. The Ethnic Cleansing of Palestine. London: OneWorld, 2006.

3 AUGÉ, Marc. Não-Lugares: Introdução à uma antropologia da supermo- dernidade. Campinas, SP: Papirus, 1994 (Coleção Travessia do Século).

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lugar essa condição seria mais dramaticamente expressa que no Líbano, onde os refugiados palestinos são sistematicamente excluídos do merca- do de trabalho através de uma série de leis discriminatórias. No entanto, como mostram as etnografias reunidas neste dossiê, o pertencimento identitário dos refugiados a uma Palestina perdida e a frequente rejeição que enfrentam nas sociedades de acolhida não impedem que suas expe- riências biográficas e coletivas sejam efetivamente criadas e moldadas no local onde vivem e, frequentemente, nasceram.

Assim, os textos aqui reunidos trazem novos olhares para a condição dos refugiados palestinos no Líbano, sendo o produto de etnografias feitas por pesquisadores brasileiros ao longo da última década. Essas etnografias somam-se a uma bibliografia já existente sobre imigrantes e refugiados palestinos no Brasil, como mostram os trabalhos de Denise Fagundes Jardim (2000) sobre a imigração palestina para o Chuí no período poste- rior a criação de Israel e o processo local e transacional de construção de uma identidade étnica palestina; o de Roberta Peters (2006), que reflete sobre o papel das festas de casamento e dinâmicas familiares como me- canismos de recriação de uma etnicidade palestina no sul do país; além das etnografias de Sônia Cristina Hamid (2012) e Daniele Regina Abilas Prates (2012) que examinam os processos e nuances que envolveram o reassentamento de refugiados palestinos ,oriundos do Iraque, no Brasil a partir de 2007. A discussão proposta por Sônia Cristina Hamid analisa os processos, as relações e os diferentes atores nacionais e internacionais (Estado Brasileiro, refugiados, ONGs, Alto Comissariado das Nações Uni- das para Refugiados, dentre outros) envolvidos na gestão dos refugiados palestinos no Brasil; já o trabalho de Daniele Regina Abilas Prates aborda os processos de deslocamento e de recriação de conexões transnacionais através de redes familiares entre palestinos reassentados em Mogi das cruzes (SP) e aqueles do campo de Burj al-Barajneh no Líbano4.

O primeiro artigo que compõe este dossiê sobre as diferentes dinâmicas que envolvem a construção das identidades palestinas em campos de refugiados no Líbano é o da historiadora palestino-libanesa Jihane Sfeir.

4 JARDIM, Denise Fagundes. Palestinos no Extremo Sul do Brasil: Identidade Étnica e os Mecanismos Sociais de Produção da Etnicidade. Chuí/RS. Tese de Doutorado em Antropologia Social. Rio de Janeiro: Museu Nacional, 2000. PETERS, Roberta. Imigrantes Palestinos. Famílias Árabes.Um Estudo Antropológico sobre a Recriação das Tradições através das Festas e Rituais de Casamento. Dissertação de Mestrado em Antropologia Social. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2006.

HAMID, Sônia Cristina. (Des)Integrando Refugiados: Os Processos do Reassentamento de Palestinos no Brasil.

Tese de Doutorado em Antropologia Social. Brasília: Universidade de Brasília, 2012.

PRATES, Daniele Regina Abilas. O Fio de Ariadne: deslocamento, heterotopia e memória entre refugiados palestinos em Mogi das Cruzes, Brasil, e Burj al-Barajneh, Líbano. Dissertação de Mestrado em Antropologia.

Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2012.

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Localizando sua análise nos primeiros anos do exílio palestino em território libanês (1947-1952), a autora aborda os processos históricos que envolve- ram as construções e definições físicas e simbólicas das fronteiras entre a Palestina, sob Mandato Britânico e depois sob controle israelense, com o Líbano – país internamente marcado pelo confessionalismo religioso.

Jihane Sfeir aponta para os efeitos desses processos nas construções identi- tárias palestinas e libanesas, acentuando a gradativa mudança nas relações entre ambos, sobretudo em relação às medidas institucionais tomadas pelo Estado libanês para com a população palestina vivendo no seu território.

Os outros três artigos que seguem à discussão tecida por Jihane Sfeir são frutos de etnografias conduzidas por pesquisadores brasileiros em diferen- tes campos de refugiados palestinos no Líbano. Com o título “Habitar um campo de refugiados palestinos: o caso de Beddawi, Norte do Líbano”, Amanda Dias examina a condição de “ser refugiado palestino” no campo de Beddawi, o qual foi criado em 1955 pela Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados no Oriente Próximo e que recebeu diver- sas levas de refugiados nos anos posteriores, ampliando sua extensão e complexidade interna. Com a proposta de compreender os sentidos de

“habitar no campo”, perspectiva que inclui as dinâmicas e dramas que se articulam às tentativas de transformação do campo de refugiados de espaço

“indesejável” a um lugar de intimidade, de “lar”, a autora vai além de abor- dagens que retratam campos de refugiados como um espaço estático, ora concebidos apenas como áreas de pobreza, com os palestinos destituídos de qualquer agência, ora como “ilhas de palestinidade” destacadas da so- ciedade libanesa mais ampla. A autora conclui chamando atenção para as fragilidades que envolvem os refugiados palestinos em campos como o de Beddawi, ressaltando, ao mesmo tempo, que a fabricação da vida cotidiana nos campos faz com que tanto os palestinos quanto os próprios campos em que habitam tenham uma história para além de sua função política.

Já o artigo seguinte, de autoria de Leonardo Schiocchet, analisa a dimen- são coletiva do que o autor conceitua como a “hiperexpressão identitária palestina” no campo de refugiados palestinos de al-Jalil, a qual circunscreve o pertencimento social dos palestinos e marca a vida cotidiana local. Atra- vés de um vívido relato etnográfico que demonstra como, na maior parte do tempo, os palestinos vivendo em al-Jalil refletiam e discutiam sobre suas condições sociais, o modelo analítico proposto pelo autor articula as formas como práticas e símbolos relacionados à causa palestina eram mobilizados pelos diferentes atores sociais sob distintas agendas políticas e religiosas. Práticas sociais e símbolos produzem, assim, uma ritualização

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da própria vida cotidiana no campo, o que marcou, inclusive, a condução do trabalho de campo do autor.

O último texto que finaliza o presente dossiê, de Gustavo Barbosa, dialoga com as especificidades do fazer etnográfico em contextos politicamente ins- táveis como os que envolvem os campos de refugiados no Líbano. O autor nos apresenta uma reflexão sobre os limites que o treinamento profissional do antropólogo que “vai a campo” munido de teorias e métodos de pesquisa encontra em situações de conflito, dor e perda, tendo que reelaborar suas questões e métodos de pesquisa de forma não previstas. Tendo como base seu trabalho de campo em Chatila, um campo de refugiados criado em 1949 e marcado por uma história de perdas e massacres, como o de 1982 e o da Guerra dos Campos em 1985, Gustavo Barbosa chama atenção para o fato das identidades e memória dos palestinos locais serem produzidas discursivamente e ritualmente pelos seus habitantes, sobretudo através das lideranças e patriarcas que narram a história do campo e da Palestina no pós-1948. É participando nos eventos do campo e celebrando seus mortos, por exemplo, que a juventude de Chatila aprende sobre a história da diáspora palestina no Líbano, a qual é obliterada nos livros escolares.

Assim, é através das diversas formas de pertencimento religioso, familiar, de gênero e de acesso a recursos, dentre outros, que devemos entender as especificidades da vida em Chatila.

Os textos reunidos neste dossiê objetivam, portanto, oferecer ao leitor um conjunto de reflexões teóricas e empiricamente embasadas sobre os processos históricos e as dinâmicas que envolvem as vidas de palestinos em campos de refugiados no universo político e cultural libanês. Essas reflexões têm sua importância ampliada pelo próprio drama humano e político da situação dos palestinos, que em breve entrarão na sua sétima década de exílio forçado.

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Tradução por Amanda Dias, Gisele Fonseca Chagas, Gustavo Barbosa e Leonardo Schiocchet, com a supervisão de Amanda Dias.

JiHAne sFeir*

FronteirAs do “outroeAconstrução desi”: ocAsodospAlestinosno líbAno,

1947-1952

Resumo: Este estudo tem como objetivo ana- lisar a identificação dos palestinos durante os primeiros anos de seu exílio libanês (1947- 1952). Trata-se de retornar ao estabelecimento das fronteiras separando o Líbano do Mandato da Palestina e do Estado de Israel pós- 1948.

Em segundo lugar, objetiva-se estudar um conjunto de políticas que definiram a atitude institucional libanesa para com uma população estrangeira. O artigo conclui com uma análise do impacto das fronteiras sobre a formação de novas identidades palestinas e libanesas, da redefinição do espaço nos quais foram constru- ídas as identidades dos habitantes de ambos os lados da linha que separava o Líbano sob mandato francês da Palestina sob domínio britânico, do Líbano independente com o novo estado de Israel.

Palavras-chave: Palestinos no Líbano, fron- teiras, construção de identidades palestinas e libanesas (1947-1952)

* (Doutora em História.

Professora da Université Libre de Bruxelles)

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No Líbano, qualquer estudo sobre os palestinos se refere necessariamente à fundação do Estado libanês com base em um sistema político particular:

o confessionalismo. A análise da população palestina também envolve a identificação das fronteiras e os questionamentos da identidade em termos de assimilação ou exclusão. Se a Jordânia constrói seu território nacional e seu contingente demográfico pela anexação da Cisjordânia e pela atribuição da nacionalidade jordaniana aos refugiados palestinos1, o Líbano, por sua vez, vai construir seu território identitário nacional, em certa medida, com base em uma política de exclusão de estrangeiros em geral e de palestinos, em particular. Esta política tem por base o sistema comunitário que foi formalizado pelos franceses na Constituição de 1926 e reajustado pelos atores da independência no Pacto Nacional de 1943.

A criação de instituições para a gestão dos assuntos palestinos se inscreve, então, em uma política de comunidades confessionais onde os registros dos refugiados são feitos de acordo com as regras libanesas.

Este estudo tem como objetivo analisar a identificação dos palestinos durante os primeiros anos de seu exílio libanês (1947-1952). Trata-se de retornar ao estabelecimento das fronteiras separando o Líbano do Mandato da Palestina e do Estado de Israel pós- 1948. Em segundo lugar, objetiva- -se estudar um conjunto de políticas que definiram a atitude institucional libanesa para com uma população estrangeira. O artigo conclui com uma análise do impacto das fronteiras sobre a formação de novas identidades palestinas e libanesas, da redefinição do espaço nos quais foram construídas as identidades dos habitantes de ambos os lados da linha que separava o Líbano sob mandato francês da Palestina sob domínio britânico, do Líbano independente com o novo estado de Israel.

Para entender o que está em jogo em 1948, temos de voltar aos caminhos que se fecharam atrás dos refugiados. É essa amputação do território íntimo que irá permitir, em seguida, a reconstrução simbólica de uma Palestina dos campos, com toda a conflitualidade que ela ainda carrega fortemente, esta super-simbolização dos enclaves libaneses. Ao mesmo tempo, o Líbano vai descobrir suas franjas meridionais, esta periferia extrema que se torna ao longo dos meses e dos anos o nó doloroso das fraquezas geopolíticas do país.

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ovosespAços

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novAsidentidAdes

A história do Líbano moderno começa com o período do mandato francês.

A “Declaração do Mandato”, adotada em 24 de julho de 1922 pelo Conselho

1 Françoise de Bel-Air, Population; politique et politiques de population en Jordanie 1948 - 1998. Thèse de doctorat, EHESS, Paris, 2003. pp.102-123.

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da Liga das Nações, exige da França a implementação, num prazo de três anos, de uma lei orgânica para o Líbano. A potência mandatária, então, irá proceder a elaboração de um sistema confessional inspirado, em parte, na antiga potência dominante Otomana. Este sistema político baseado na separação religiosa resultará na fixação de fronteiras identitárias que com- partimentam as comunidades em esferas específicas e impermeáveis umas às outras. Este sistema é conhecido por ser operacional em duas formas:

o sectarismo envolvendo o estatuto pessoal e sectarismo político relativo à distribuição de cargos políticos e administrativos. Estas duas formas de sectarismo, profundamente ligadas e complementares, estabelecem as bases da política libanesa e definem a forma de exercê-la.

Em 1943, o Líbano torna-se independente, com o novo estado construído em torno de um acordo inspirado pelo sistema francês: o Pacto Nacional. É um acordo não escrito, destinado a estabelecer um equilíbrio entre cristãos e muçulmanos, afirmando ao mesmo tempo o pertencimento do Líbano à nação árabe e a existência de relações antigas e indissolúveis com o Oci- dente. Este acordo é tradicionalmente descrito como a carta de fundação do Líbano. A Nação repousa, dessa forma, sobre um “foedus”, um “pacto”, como se ela se limitasse à expressão de um compromisso comunitário, um modus vivendi, um “modo de vida coletiva”2. Este “compromisso ao mesmo tempo medíocre e frágil vem coroar a política comunitária das autorida- des francesas a partir da perspectiva do compartilhamento das funções”3.

• aos Maronitas, a Presidência da República, a pedra angular da Consti- tuição promulgada em 1926, e o comando do Exército;

• aos Sunitas, a Presidência do Conselho de Ministros;

• aos Xiitas, a Presidência do Parlamento;

• aos Gregos ortodoxos, a vice-presidência do Parlamento.

A atribuição da Presidência da República aos maronitas marca a hegemonia desta comunidade na época. A preponderância de cristãos se expressa, da mesma maneira, na Câmara dos Deputados: em 1948, o número de membros é de 55, sendo 30 cristãos e 25 muçulmanos. A atribuição de funções dentro do governo e da administração se faz de acordo com o princípio da paridade e com base no artigo 95 da Constituição, que prevê que “provisoriamente... as comunidades estão representadas de um modo equitativo nos empregos públicos e na composição do ministério ... “

2Edmond Rabbath, La Formation historique du Liban politique et constitutionnel, Beyrouth, Publications de l’Université libanaise, section des études juridiques, politiques et administratives, 1986, p. 90

3 Nadine Picaudou, La déchirure libanaise, Complexes, Bruxelles, pp. 81-82.

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Se os historiadores libaneses consagram este evento como fundador da nação libanesa, ele não deixa de estar na origem de todas as tensões e guerras futuras. O conjunto da sociedade libanesa se inclina diante desta lógica da partilha confessional de cargos e méritos. Segundo Elizabeth Picard, seria mais correto falarmos em pacto “comunitário” do que em pacto “nacional”4. Um compromisso que congela a sociedade libanesa em uma realidade demográfica estagnada em 1932, obscurecendo qualquer perspectiva de renovação da população que possa pôr em perigo o frágil equilíbrio sectário. Deste modo, o estudo demográfico está fortemente relacionado às questões políticas e, até hoje, a realização de um novo censo da população libanesa está fora de cogitação.

À sua chegada em 1948, os palestinos constituem 10 % da população liba- nesa, ou seja, cerca de 120 000 pessoas, das quais mais de 75% são sunitas.

Conseqüentemente, sua assimilação ao mosaico libanês coloca em risco o frágil equilíbrio sectário. Ao mesmo tempo em que os palestinos encontram um refúgio, que esperam ser temporário, junto a estes vizinhos que não lhes são desconhecidos, as fronteiras se desenham e se fecham e a ordem social e política muda radicalmente. Antes de 1948, as fronteiras entre as duas entidades territoriais são porosas e o movimento da população é contínuo em ambos os sentidos. Depois de 1948, o sentido desta fronteira muda radicalmente aos olhos das populações, e permite o questionamento da renovação da relação ao território que ela impõe.

Antes de 1948: Palestina / Líbano, uma fronteira porosa O estudo desta fronteira é um assunto vasto e raramente abordado, exceto pelas pesquisas no campo da geopolítica que lidam principalmente com a elaboração do traçado das fronteiras5. Aqui trata-se de enfatizar, sobretu- do, a conscientização das populações sobre as fronteiras e sua influência sobre os dois grupos. Michel Foucher define as fronteiras como “estruturas espaciais elementares, de forma linear, com a função de descontinuidade geopolítica e de marcação sobre os três registros do real, do simbólico e do imaginário”6. No caso aqui estudado, a fronteira real é imposta primeiro pelas potências mandatórias e depois pelos Estados israelense e libanês.

A fronteira é simbólica na medida em que ela é o invólucro de um grupo

4 Elizabeth Picard, Liban Etat de discorde, Flammarion, Paris, 1988, p. 119.

5 Frederic C. Hof, Galilee Divided : The Israel-Lebanon Frontier, 1916-1984, Boulder and London, Westviaw Press, 1985., ‘Isâm Khalifé, al-houdoud al-janoubiyya li lubnân bayna mawâqef nikhab al-tawâ’ef wa al-sirâ‘ al-duwalî 1908- 1936, (La frontière du Sud -Liban entre positions des élites confessionnelles et conflit international, 1908-1936), Beyrouth, sans éditeur, 1985., Munzer Jâber, Al-charît al-lubnânî al- mouhtal, (La zone occupée libanaise), Institut des Etudes Palestiniennes, Beyrouth, 2001.

6 Michel Foucher, Fronts et frontières. Fayard, Paris, 1991, p. 38-43.

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de pertencimento. Aqui, os palestinos do norte da Galiléia se definem pri- meiro como pertencentes ao seu grupo ou clã hamoulā, em seguida ao seu vilarejo natal e, finalmente, à entidade nacional mais ampla da Palestina.

Quanto aos libaneses do sul, eles primeiro se definem nos limites de seu grupo comunitário (xiita ou cristão), em segundo lugar ao seu vilarejo e, finalmente, as fronteiras da entidade nacional mais ampla do Líbano7. Em ambos os casos, a identidade vinculada ao vilarejo de origem não deve ser entendida apenas como um pertencimento local estreito. Pertencer ao vilarejo é estar inserido nas redes sociais e econômicas que o definem, nas rotas de comércio, nas lógicas matrimoniais e nas famílias extensas;

em suma, em uma densa rede de reconhecimento coletivo que define um território movediço, de densidades diferentes, que transcende facilmente demarcações fronteiriças para além dos limites espaciais impostos pela lógica administrativa do Estado. Nesse sentido, a fronteira é apenas um dos elementos de um imaginário identitário e espacial que começa aquém e continua além dela. O Outro, que a fronteira obriga definir, é também o vizinho, o companheiro de armas, o parceiro econômico de antes de 1948. Um libanês do sul se sente, desse modo, mais próximo de alguém da Galiléia do que de um libanês vivendo em Beirute ou Trípoli. Ele reco- nhece o nome de vilarejos palestinos mais facilmente do que o nome dos vilarejos de seu próprio país que se situam além dos limites de sua região.

Após 1948, este “mapa mental” muda radicalmente. Em primeiro lugar, a criação de Israel afasta os habitantes das fronteiras. A partir de então, o norte da Palestina fica tão distante quanto a África ou a América. Em seguida, há a mudança da representação do Outro. A percepção dos palestinos pelos libaneses muda, eles tornam-se hóspedes perturbadores, refugiados, e mais tarde, durante a guerra, o inimigo interno.

Do ponto de vista do Estado, a fronteira, ainda de acordo com Foucher, marca o “ limite espacial do exercício da soberania segundo seus próprios termos, linhas abertas, entreabertas ou fechadas”8. Contudo, este limite que separa o Líbano da Palestina mandatária, longe de ser apenas uma fronteira separando dois países soberanos, é uma construção nova, definin- do espaços fronteiriços que ficam imprecisos não somente aos olhos dos habitantes da região, mas também, em certa medida, aos olhos do próprio Estado libanês. O Líbano soberano acaba de tomar consciência dos limites de seu território após sua independência, e o Estado ainda está longe de impor o exercício do seu poder em todas as áreas de fronteira do sul9.

7 Sabrina Mervin, Un réformisme chiite, Karthala/Cermoc/Ifead, Paris/Beyrouth/Damas, 2000. p. 21.

8 Michel Foucher, Fronts et frontières ..., op. cit. p. 38-43.

9 Ver Munzer Jâber, Al-charît al-lubnânî ... , op. cit.

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Para além da demarcação política no mapa e prática in loco, se coloca a questão do significado desse limite para os habitantes das regiões que ele divide. Pois qualquer nova fronteira, qualquer deslocamento do limite, mesmo que seja de apenas alguns quilômetros, divide territórios e popu- lações anteriormente agrupados. Trata-se, portanto, de aprender a viver com um novo espaço, sendo que às vezes a fronteira perturba antigos comportamentos, corta ligações tradicionais e obriga a reorientações di- fíceis. Como, então, esses habitantes se acomodam com a amputação de uma parte de seu espaço cotidiano?

Fronteiras imprecisas...

Por mais de 500 anos, o Líbano e a Palestina fizeram parte do grande Império Otomano e as únicas fronteiras existentes separavam as provín- cias administrativas dependentes do Império. Os territórios palestinos e libaneses eram, na época, divididos em vários sandjaks (distritos), os quais faziam parte dos wilāyas (províncias) dependentes da Porta. Ao longo do século XIX e até o final do Império, os limites fronteiriços são móveis:

trata-se de limites conversíveis entre diferentes províncias pertencentes a uma única entidade política, jurídica e militar. As fronteiras, neste caso, não delimitam uma localização geográfica unidimensional da vida políti- ca, onde um estado termina e outro começa10, mas regiões com limites difusos que fazem parte do vasto Império Otomano. É assim que, de 1864 a 1918, as áreas do sul do Líbano e do norte da Palestina são administra- das, alternadamente, pelos governadores de Damasco, Sidon e Beirute.

As populações residindo nestas províncias não conhecem fronteiras e circulam livremente entre as diferentes áreas. A ruptura virá mais tarde com o estabelecimento dos mandatos britânicos e franceses na Palestina e no Líbano e a assinatura do acordo Sykes-Picot. A fronteira que parte de Ras al-Nãqoura na costa do Mediterrâneo e termina em Jisr al-Ghajar no rio hasbānī é desenhada em 1920, demarcada em 1921, decretada oficialmente em 1922, ratificada em 1923 e operacionalizada em 192411.

A nova fronteira faz de vários vilarejos xiitas vilarejos palestinos. Com a eclosão da revolta em 1936, britânicos e franceses realizam uma nova demarcação. Apesar da presença física dos limites e seu reconhecimento pela Liga das Nações, que significados devemos atribuir a eles e qual é seu impacto sobre as populações vivendo nas áreas fronteiriças?

...mas áreas de fronteira reais

10 Malcolm Anderson, "Les frontières un débat", in. Cultures & Conflits : Contrôles : frontières, identités. Les enjeux autour de l'immigration et de l'asile, n°26-27, Paris, Hiver 2001.

11 Frederic C. Hof, Galilee Divided..., op. cit.

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Até a criação do Estado de Israel, não podemos realmente falar de limite linear impermeável. Ao contrário, é preciso empregar a noção mais fluida de zonas fronteiriças. As zonas fronteiriças englobam territórios em ambos os lados da fronteira e são valorizadas por fluxos transfronteiriços intensos de pessoas, mercadorias e capitais12. De acordo com Lucien Febvre

:

Não há fronteira quando duas dinastias, instaladas nos territórios que exploram, dividem os custos na implantação de alguns fortes armados ao longo de um campo, ou traçam uma linha ideal de separação a partir de um rio. Há fronteira quando, passada esta linha, nos encontramos na presença de um mundo diferente, de um complexo de ideias, sentimentos, entusiasmos que surpreendem e desconcertam o estrangeiro. Em outras palavras, uma fronteira, o que a “marca” poderosamente na terra, não são nem os soldados nem a alfândega, nem os canhões por detrás das muralhas.

Sentimentos, sim; paixões exaltadas e ódios13.

Partindo desta abordagem da fronteira com base em sua “recepção” pelos habitantes que estão em seu entorno, tentaremos demonstrar como esse limite é criado e agenciado por ambos os grupos. Segundo Abu Khaled, um libanês originário de Saïda, a Palestina e o Líbano sempre foram unidos:

O que é a Palestina? E o que é o Líbano? A terra é comum, as fronteiras artificiais e as relações antigas. Eu me lembro quando havia um casamento em ‘Akka, os cantores vinham de Beirute e de Zahle, os dançarinos de sayf wa tirss (dança tradicional com espada e escudo), de Saïda. A maioria das pessoas de ‘Akka se casava com moças de Saïda14.

O testemunho de Abu Khaled corrobora o de George H., advogado pa- lestino originário de Haifa, refugiado no Líbano em 1948, e empregado pela Liga das Sociedades da Cruz Vermelha para coordenar as operações de ajuda em Beirute. Ele descreve as relações entre libaneses e palestinos como antigas e tradicionais e nos lembra que muitos libaneses iam à Pa- lestina para trabalhar. Seu testemunho, recolhido por um funcionário da Liga, é o seguinte:

É um fato estabelecido que a maioria dos libaneses do sul do Líbano partiu para a Palestina, especialmente nos últimos dez anos anteriores a guerra, durante os quais a demanda de mão de obra não qualificada era grande.

Eles não precisam de visto de entrada e saída no seu passaporte. Eles “se viravam” para atravessar as fronteiras clandestinamente, apesar da existên-

12 Catherine Denys dir., « Frontière et criminalité, 1715-1815 », Cahiers de l'université d'Artois, 18/2000, p.7.

13 Lucien Febvre, Le problème historique du Rhin, Paris, 1931, citado par Catherine Denys na Introdução à obra Frontière et criminalité... op. cit. p.9.

14 Abou Khâled, originário de Saïda, entrevistado por Bushra al Mughrabî, Janeiro 1998, citado em Taghribat Ahmad wa Maryam, op. cit., p. 21.

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cia do tiggart wall (uma cerca de arame farpado com cinco metros de altura construída ao longo da fronteira libanesa/palestina). Eles encontravam um trabalho temporário, a maioria deixava sua família no Líbano15. Seu depoimento confirma as estatísticas apresentadas pelos britânicos em suas estimativas sobre a imigração ilegal na Palestina. Os últimos dez anos do mandato britânico são marcados por uma forte imigração liba- nesa para a Palestina. Em 1945, quase 7.000 pessoas em proveniência do Líbano e da Síria são empregadas clandestinamente e aproximadamente 3.000 mulheres libanesas atravessam a fronteira para se casarem na Pales- tina entre 1935 e 1945. Além disso, os trabalhadores sazonais de ambos os lados atravessam regularmente a fronteira para colheitas em vilarejos

‘āmilites do lado libanês e aqueles da Galiléia16, do lado palestino. O tráfico e o contrabando entre os dois países ocorrem nas fronteiras. Quando os britânicos impõem a restrição da imigração de judeus para a Palestina, taxistas do sul do Líbano continuam a transportar clandestinamente imi- grantes judeus e a voltar carregados com mercadorias da Palestina17. Depois de 1948, eles transportam os palestinos que fogem da guerra buscando refúgio no Líbano.

Politicamente, a região (Síria Palestina Líbano) conhece o mesmo im- pulso para as idéias nacionalistas árabes e os acontecimentos na Palestina afetaram diretamente os países fronteiriços. Assim, a revolta de 1936 na Palestina inspira diretamente os ‘āmilites em sua ação contra a Empresa de Tabaco em Bint Jbayl18.

O movimento constante das populações nessas áreas de fronteira mostra que, mesmo que a fronteira coloque limites administrativos entre os dois países, ela continua a ser uma divisão em grande parte artificial, dese- nhada por potências coloniais para demarcar territórios conquistados e apropriados. As relações entre a Galiléia e o sul do Líbano são ancestrais, baseadas em relações históricas, familiares, sociais, econômicas e políticas.

A proximidade entre as duas áreas é também lingüística. Em ambos os lados da fronteira, fala-se a mesma língua, o que torna mais fluida a circulação de informações, de mercadorias e de populações em ambas as direções.

Apesar dos limites desenhados, do reconhecimento internacional, do dispositivo alfandegário, é difícil falar em fronteiras antes de 1948. Porque

15 Archives de la Ligue des Sociétés de la Croix-Rouge, Genève, Carton : 19742, Dossier : Expériences personnel- les. Interview avec M. Habib Georges H., 30/03/1949. Directeur Régional de la Ligue à Beyrouth et ancien avocat à Haïfa.

16 Voltaremos a esse ponto sobre a dificuldade de identificação desses trabalhadores temporários pelos recense- adores humanitários.

17 Entrevista com S. B‘albakî, originaire de ‘Adayssé (Sud-Liban), le 08/08/2003.

18 Sabrina Mervin, Un réformisme chiite... op. cit. p. 373-407.

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esta demarcação entre a Palestina e o Líbano não está “gravada” na terra, nem nas mentes das sociedades que a habitam. Conseqüentemente, não podemos realmente falar de uma “fronteira natural”, menos ainda de uma

“fronteira histórica”. A fronteira, neste caso, é sobretudo simbólica, na medida em que ela se refere ao pertencimento a uma comunidade (social, religiosa ou familiar) inscrita num território identitário19. É somente com o advento do Estado de Israel que essas regiões serão efetivamente separadas.

Depois de 1948: Líbano / Israel, materialização da fronteira, construção do território nacional libanês O início das hostilidades entre judeus e árabes na Palestina, o engajamento do Líbano na guerra e a fuga de mais de 750 000 pessoas em 1948, iniciam uma verdadeira tomada de consciência das fronteiras. Paralelamente à eclosão da guerra, em 29 de maio de 1948, o Conselho de Segurança das Nações Unidas, na sua resolução 50, decide criar um órgão encarregado de monitorar a trégua e as fronteiras entre Israel e as forças armadas árabes (UNTSO ou UNSTO) 20.

A consolidação dos limites se faz em etapas e se concretiza com a assinatura do armistício entre Líbano e Israel em 1949. Do lado libanês, o fechamen- to da fronteira com Israel rompe uma tradição histórica de trocas e de relações com um território vizinho amigável e estabelece uma situação de guerra com o Estado inimigo nascente. Do lado israelense, trata-se de consolidar os limites do Estado recém-fundado, aplicando práticas de segurança através de controle militar da fronteira. Para os palestinos, um espaço nacional é engolido, mas esta terra ganha em presença simbólica a partir do momento em que os sionistas a tornam proibida21.

A pedido do mediador da ONU Ralph Bunche, contatos militares ocor- rem entre libaneses e israelenses a partir de 14 de janeiro de 1949, em Rhodes. Esses contatos levam à assinatura de um armistício com Israel em 23 de março de 1949 em Nāqoura, no sul do Líbano22. A partir dessa data, os limites entre os dois países são formalmente institucionalizados e regulamentados. O acordo proíbe a violação dos espaços terrestre, aéreo e marítimo de cada país e “qualquer ato de guerra ou hostilidade dirigi-

19 O sul do Líbano é o Jabal ‘Amil, "país" da comunidade xiita que simboliza a fronteira com a Palestina. Segundo Muhsin al-Amîn, as fronteiras do Jabal ‘Amil se estende : "A l'ouest de la Méditerrannée ; au sud la Palestine

; à l'est le Jourdain, la région de Houla, Wâdî al-Taym, la Békaa et une partie du Mont-Liban, qui est derrière Jabal al-Rîhân et Jizzîn. Au nord, le fleuve al-Awwalî. Il n'y a qu'un doute, les frontières avec la Palestine qui peuvent être sur le fleuve al-Qarn" citado na obra de Sabrina Mervin, Ibidem, p. 21-22.

20 www.un.org/french/peace/untso_fp.htm

21 Elias Sanbar, 1948, l’expulsion... op. cit. p. 209

22 Joseph Chami, Le mandat de Béchara el Khoury, Beyrouth 2002, p. 280-281.

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do de um território controlado por uma das partes contra a outra” 23. A presença de efetivos militares defensivos em ambos os lados da fronteira é permitida na zona da linha de demarcação24, tal como definida e reco- nhecida pelas Nações Unidas.

Para a concretização das fronteiras, os dois Estados procuram reunir em suas mãos o direito exclusivo de autorizar e regulamentar a circulação das populações. Através deste acordo, Israel busca impedir os deslocamentos dos palestinos que desejam regressar ao seu território. A segurança da fron- teira com o Líbano se inscreve, portanto, numa política de transferência da população árabe para fora da Palestina. Na lógica de Israel, a fronteira deve ser aberta para as partidas em direção aos países vizinhos e fechada para os retornos. Trata-se de expulsar o maior número de árabes, evitar qualquer retorno e ocupar rapidamente os lugares esvaziados com uma nova população exclusivamente judia25. A fronteira se transforma, muda, ela não é mais um limite fluido separando zonas fronteiriças, mas uma área hemorrágica onde uma terra se esvazia e outra se preenche.

Por sua vez, o Líbano formaliza sua relação com o novo Estado judeu, e compromete-se a respeitar suas fronteiras, impedindo as tentativas de infiltração. Para ambos os países, o monopólio do direito de autorizar e regulamentar os deslocamentos de populações está intrinsecamente ligado às suas construções nacionais. A criação do Estado de Israel e sua delimitação em meio a um espaço hostil que exige segurança nas fronteiras contribui para a consolidação de uma identidade territorial e nacional.

Para o Líbano, a separação física com a antiga Palestina e a separação econômica com a Síria um ano depois (13 de Março 1950), fortalecem o sentimento de pertencimento a um território nacional em construção, privado dos laços herdados dos períodos Otomano e do Mandato.

A tomada de consciência das fronteiras, a instalação dos palestinos e a materialização de um “inimigo externo” criam uma situação de urgência e definem as novas regras do jogo político libanês. Elas são adaptadas a uma conjuntura excepcional, que exige a restauração das condições ordinárias da vida social e o reestabelecimento da tranqüilidade, da segurança e da ordem política e pública. No entanto, o Líbano, como a Síria, conhece um período de crise interna sobre a qual vem se sobrepor a questão da Palestina .

23 Artigo 3 do texto do armistício líbano-israelense assinado à Nāqoura em 23 de março de 1949.

24 De cada lado da fronteira é estabelecida uma zona desmilitarizada na qual cada exército pode manter, no máximo, 1.500 soldados. Artigo 5 º do texto do armistício líbano-israelense.

25Muitas obras tratam desta política de destruição, cf. Walid Khalidi, All That Remains... op. cit., et Salman H.

Abou Sitta, The Palestinian Nakba 1948: The Register of Depopulated Localities in Palestine, The Palestinian Return Center, Londres, 2000.

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Em 1948, o Líbano entra na guerra e, pela primeira vez em sua história, o novo Estado se confronta a um inimigo. A eclosão da guerra na Palestina coincide com um período de questionamento da política do presidente da república libanesa, Bishara al-Khoury e dos crescentes protestos contra os abusos de seu governo. Para o regime no poder, a guerra se apresenta como uma oportunidade para restaurar sua legitimidade política e sua imagem aos olhos da opinião pública. Nos assuntos internos, a guerra é percebida por Khoury e pelo primeiro ministro, Riad al Solh, como um meio eficaz para apaziguar as críticas e restaurar a confiança na maneira como eles go- vernam. Esta guerra deveria levar ao apoio da oposição para a reeleição do presidente da República e à retomada de sua popularidade junto à opinião pública26. A entrada do Líbano na guerra também se destina a reforçar a posição do regime no poder nos assuntos regionais, através da confirmação da “face árabe” do Líbano independente a partir do Pacto Nacional27. Mas a derrota do Líbano e dos regimes árabes, a fuga dos palestinos e a criação do Estado de Israel produzem o efeito contrário. O Líbano não apenas perde a guerra e acomoda mais de cem mil palestinos, ele também se torna o alvo das forças israelenses que ameaçam suas fronteiras28.

Para além das operações militares, a esperança de encontrar na questão palestina um modo de superar a crise interna se concentrará na fronteira.

A fronteira se torna, a partir desse momento, um forte marcador de um sentimento de pertencimento nacional. A delimitação, o reconhecimento e a designação de Israel como inimigo do Estado e do povo marcam uma nova etapa na construção do nacionalismo libanês. Israel, o inimigo externo, torna-se o catalisador ideal para uma coesão nacional em um momento de crise, coesão que também se constrói em torno da proteção da fronteira.

Para os exilados da Palestina “é o afogamento, a fagocitose de seu país, a negação da existência, o apagamento do seu território”29.

26 O voto da Emenda Constitucional pela Câmara para a reeleição de Bishâra al-Khourî ocorre em 21 de maio de 1948, uma semana após a entrada do Líbano na guerra.

27 Este é um acordo não escrito, destinado a estabelecer um equílibrio entre os cristãos e os muçulmanos, afirman- do a ambos o pertencimento do Líbano à nação árabe e a existência de relações antigas e indissolúveis com o Ocidente. Embora não seja uma solução duradoura, o Pacto Nacional se apresenta como um instrumento ideal para a resolução de conflitos inter-comunitários, pelo menos até 1958.

28 Uma operação militar é lançada pelas forças judias contra o Líbano. Ela começa em novembro de 1948 e termina no início de 1949. Esta operação visa expulsar para o Líbano residentes palestinos que vivem em uma área de 5 a 15 quilômetros ao sul da fronteira norte de Israel e assim, garantir os territórios conquistados na Galiléia, ver Benny Morris, The Birth ...op.cit. p. 237-241.

29 Elias Sanbar, Figures du Palestinien. Identité des origines, identité de devenir. Gallimard, Paris, 2004, p. 212.

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Uma fronteira impermeável: a porta do exílio

Vítimas de despejos sucessivos, os palestinos que atravessam as fronteiras são da ordem de 750.000 no outono de 1948. Eles se deslocam em grupos, em comunidades de vilarejos ou de bairros, primeiro na Palestina e, em seguida, nos países de exílio. A travessia das fronteiras ocorre apenas em um segundo momento. Eles se dirigem para a fronteira quando a cidade ou o vilarejo onde haviam se refugiado na Palestina é derrotado, convencidos de que seu exílio será de curta duração30. Note-se que quando eles saíram da Palestina, o armistício ainda não havia sido assinado e as fronteiras com os países vizinhos não estavam consolidadas. A assinatura do armistício de 23 de março de 1949 com Israel é, desta forma, percebida como uma catástrofe pelos palestinos exilados. A partir desse momento, o retorno é impedido de ambos os lados da fronteira. Rejeitadas pelos libaneses, as pessoas que buscam retornar à Palestina para reencontrar um parente, para recuperar um objeto qualquer ou tratar dos rebanhos ou dos campos, são ameaçados de morte pelo novo exército israelense31. Husayn ‘Ali Hamid, de ‘Ayn al- Zeytoun, um vilarejo situado ao norte da cidade de Safed, na Galiléia, testemunha do assassinato de um de seus companheiros durante uma tentativa de retorno em 1949, nos conta:

Voltamos para recuperar o dinheiro enterrado no pátio da casa. Rachid Khalil foi o primeiro a entrar no vilarejo, ele foi imediatamente morto por um soldado judeu. Constatamos que a situação era muito perigosa e, então, decidimos voltar para o Líbano32.

Para ele, está claro que o retorno à Palestina é impossível. Assim como para Khaled, refugiado de ‘Ayn al- Hilweh no Líbano, que nos diz sobre o retorno decepcionante de seu pai que se infiltra na Palestina, apesar da proibição do exército libanês, para chegar Saffouriyyé e se dar conta da magnitude do desastre.

Meu pai então partiu após seis meses, ele foi capaz de se infiltrar no vilarejo e voltou com um kubch (pacote) de tabaco. Ele estava desmoralizado, ouvi uma conversa com o meu irmão em que ele dizia que nosso vilarejo estava em ruínas, era um monte de pedras33.

Destruição, ameaças de morte, estupro, massacres, tal é a política adotada pelas forças israelenses para fazer partir uma população indesejável. A

30 Elias Sanbar, Figures du Palestinien,... op. cit., p. 203.

31 Salmân Abou Sitta, « Un pays aboli de la carte », in Farouk Mardam-Bey et Elias Sanbar, Le Droit au retour... , op. cit. p. 102.

32 Citado por Nafez Nazzal, em sua obra The Palestinian Exodus from Galilee 1948, IPS, 1978, p.37.

33 Entrevista com Khâled 20/7/2002.

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