Curso Formação Cidadã
São Paulo, 05 de dezembro de 2014
Aula: Segurança Pública – Pedro Aguerre¹
Premissas para uma visão crítica (1):
•Concepção multicausal do crime e da violência;
•História brasileira, escravismo, legado autoritário, período ditatorial, lei de segurança nacional;
•Cultura brasileira e mecanismos de resolução de conflitos:
a prevalência da esfera privada sobre a esfera pública;
•Pobreza, desigualdade, conflito social, violência e crime;
•Violência institucional do estado;
•Premissas para uma visão crítica (2) :
• Mídia reforça valores de individualismo/
consumismo: modelos de felicidade x espetacularização de situações de violência/diligências policiais. Desenvolvimento de uma cultura da violência, de irracionalidade, da resposta exemplar ao criminoso. Resultado:
fragilização, atemorização social, sensação de impotência, “claustrofilia”.
•Questões estruturais relacionadas a violência e criminalidade
História do Brasil – escravidão, segregação da pobreza, segregação do negro, prioridade para os mais ricos e integrados, o perverso papel do planejamento urbano, do higienismo, do controle social.
Segregação socioespacial, violência e segurança pública: Periferias precárias, concentração da pobreza e da juventude. Visão criminalizadora da pobreza e dos movimentos sociais, das formas de lazer (funk, pancadões, rolezinhos)...
Construção social do estigma do criminoso potencial: linguagem da mídia:
“(mau elemento)”, “marginais”, “homem pardo suspeito”, “características ou atitudes suspeitas”: excessos e abordagens “preventivas”.
Envolvimento da sociedade no problema, a partir da explosão da violência nos anos 90, em São Paulo, até a explosão do conflito na Favela Naval, em Diadema, e a reação da sociedade à epidemia de homicídios no Jardim Ângela.
Legados históricos: Arbitrariedade, tortura e letalidade, Violência doméstica, Mídia e produção de insegurança (legitimação da repressão), Violência e
consumo,
Alguns problemas da atual conjuntura:
Respostas imediatistas do sistema político e governamental:
endurecimento penal, criminalização social, estado de alerta
permanente. Ativismo legislativo / imediatismo. O caso da legislação sobre drogas.
Novos contornos do crime e da violência, especialmente do crime organizado: tema historicamente relevante, que demanda todas as esferas do Estado, e exige políticas públicas. A segurança pública tem que ser vista como algo que diz respeito a toda a sociedade, que tem que constituir uma política pública, inserida em um contexto mais
amplo.
Desafios: ampliar participação social, criar instâncias de debate, reflexão e ação, enfrentar questões sociais, raciais e de gênero.
Faixa de Renda
População (milhões)
Porcentual da riqueza
Valor da riqueza (em bilhões de reais)
Renda per capta por faixa 20% dos mais
ricos
40.000.000 62,6 196,6 4.915,00
60%
intermediários
120.000.000 33,9 106,4 886,66
20% dos mais pobres
40.000.000 3,5 11 275,00
Desigualdade social e econômica no Brasil
Carta na Escola, edição n°50, Renda mínima, por partes
América do Sul 26,0
América Central 22,0
Europa 8,9
Sudeste Asiático 5,8
Pacífico Ocidental 3,4
ÍNDICES DE HOMICÍDIOS NO PLANETA
Índices de violência no mundo (homicídios por 100 mil habitantes)
Relatório Regional de Desenvolvimento Humano
Segurança Cidadã com rosto humano: Diagnóstico e Propostas para a América Latina PNUD - 2013-2014
13910
51043 52198
11,7
28,9
27,1
0 10000 20000 30000 40000 50000 60000
0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 30,0 35,0
Taxa de Homicídios
Evolução da Taxa (Hom. / 100mil Hab.)
e do Número de Homicídios no Brasil - 1980/2011
Número de Homicídios Taxa de Homicídios
Mensurando o problema no Brasil – Evolução das Taxas
Mapa da Violência – 2014: Os jovens no Brasil Julio Jacobo Waiselfisz / Flacso
Mapa da Violência 2014
Mapa da Violência 2014
Mapa da Violência – 2014: Os jovens no Brasil Julio Jacobo Waiselfisz / Flacso
Relatório Regional de Desenvolvimento Humano
Segurança Cidadã com rosto humano: Diagnóstico e Propostas para a América Latina PNUD - 2013-2014
Mensurando o problema no Brasil
•Violência no Brasil:
• Números passam idéia de “explosão de violência”.
• Problema genérico e mal definido.
• Soluções genéricas e mal definidas:
• Redução da maioridade penal
• Endurecimento das penas
• Combate ao tráfico de drogas
• Vigilância das fronteiras
Mensurando o problema no Brasil – Sexo das Vítimas
Mensurando o problema no Brasil – Faixa Etária das Vítimas
27%
73%
População Brasileira por Faixa Etária - 2011
15 a 29 anos
Demais Faixas Etárias
47% 53%
Faixa Etária das Vítimas de Homicídios no Brasil - 2011
15 a 29 anos
Demais Faixas Etárias
Mensurando o problema no Brasil – Meio Utilizado
Mensurando o problema no Brasil
Os novos padrões: interiorização da violência
Mapa da Violência – 2013: Homicídios e juventude no Brasil Julio Jacobo Waiselfisz
Taxa Pos Taxa Pos
Pernambuco 58,7 1º 39,1 5º
Rio de Janeiro 50,5 2º 28,3 17º
Espírito Santo 46,7 3º 47,4 2º
São Paulo 41,8 4º 13,5 26º
Rondônia 40,1 5º 28,4 16º
Mato Grosso 38,5 6º 32,3 13º
Distrito Federal 36,9 7º 37,4 7º
Amapá 36,9 8º 30,4 15º
Roraima 31,7 9º 20,6 23º
Mato Grosso do Sul 29,3 10º 27,0 18º
Sergipe 29,3 11º 35,4 10º
Alagoas 29,3 12º 72,2 1º
Goiás 21,5 13º 36,4 9º
Acre 21,2 14º 22,5 21º
Paraná 21,0 15º 31,7 14º
Tocantins 18,8 16º 25,5 19º
Rio Grande do Sul 17,9 17º 19,2 24º
Ceará 17,2 18º 32,7 11º
Amazonas 16,7 19º 36,4 8º
Pará 15,1 20º 40,0 4º
Paraíba 14,1 21º 42,7 3º
Minas Gerais 12,9 22º 21,5 22º
Bahia 11,9 23º 38,7 6º
Rio Grande do Norte 11,2 24º 32,6 12º
Piauí 9,7 25º 14,7 25º
Maranhão 9,4 26º 23,7 20º
Santa Catarina 8,4 27º 12,6 27º
UF 2001 2011
Mapa da Violência – 2013: Homicídios e juventude no Brasil Julio Jacobo Waiselfisz
Os novos padrões: deslocamento dos polos dinâmicos da violência
Mapa da Violência – 2013: Homicídios e juventude no Brasil Julio Jacobo Waiselfisz
Mensurando o problema no Brasil
Distância Média entre o local de moradia das vítimas de homicídio e o local onde elas foram assassinadas, em 16 favelas da RMBH – 2007/2009
Mensurando o problema no Brasil
• Considerações Preliminares:
• Homicídios no Brasil: problema com características estruturais, específicas, focalizadas e localizadas.
• “Implosão da Violência”: Homens, adolescentes e jovens, não-brancos, pobres, baixa instrução formal, moradores de favelas e bairros pobres de periferia, mortos em via pública, próximos de suas casas, por armas de fogo.
Relatório Regional de Desenvolvimento Humano – PROBLEMA DAS DROGAS
Segurança Cidadã com rosto humano: Diagnóstico e Propostas para a América Latina PNUD - 2013-2014
Relatório Regional de Desenvolvimento Humano
Segurança Cidadã com rosto humano: Diagnóstico e Propostas para a América Latina PNUD - 2013-2014
Motivos de prisões de mulheres:
importância do motivo tráfico de drogas no Brasil – 66%
Fórum Brasileiro de Segurança Pública / Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas da
Escola de Direito da FGV / SENASP – Secretaria Nacional de Segurança Pública. Julho de 2014 Opinião dos Policiais Brasileiros sobre Reformas e Modernização da Segurança Pública
Fórum Brasileiro de Segurança Pública / Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas da
Escola de Direito da FGV / SENASP – Secretaria Nacional de Segurança Pública. Julho de 2014 Opinião dos Policiais Brasileiros sobre Reformas e Modernização da Segurança Pública
Fórum Brasileiro de Segurança Pública / Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas da
Escola de Direito da FGV / SENASP – Secretaria Nacional de Segurança Pública. Julho de 2014 Opinião dos Policiais Brasileiros sobre Reformas e Modernização da Segurança Pública
Opinião dos Policiais Brasileiros sobre Reformas e Modernização da Segurança Pública
Fórum Brasileiro de Segurança Pública / Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas da
Escola de Direito da FGV / SENASP – Secretaria Nacional de Segurança Pública. Julho de 2014
Opinião dos Policiais Brasileiros sobre Reformas e Modernização da Segurança Pública
Fórum Brasileiro de Segurança Pública / Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas da
Escola de Direito da FGV / SENASP – Secretaria Nacional de Segurança Pública. Julho de 2014
Relatório Regional de Desenvolvimento Humano
Segurança Cidadã com rosto humano: Diagnóstico e Propostas para a América Latina PNUD - 2013-2014
Relatório Regional de Desenvolvimento Humano
Segurança Cidadã com rosto humano: Diagnóstico e Propostas para a América Latina PNUD - 2013-2014
Relatório Regional de Desenvolvimento Humano
Segurança Cidadã com rosto humano: Diagnóstico e Propostas para a América Latina PNUD - 2013-2014
País Ano Mortos por policiais
África do Sul 2003 681
EUA 2003 370
Argentina 2003 288
Alemanha 2003 15
Reino Unido 2003 2
França 2003 2
Portugal 2003 1
Brasil (RJ+SP+MG) 2004 1.749
(Fonte: Ramos, Silvia. “Violência Policial no Rio de Janeiro: da abordagem ao uso da força letal”, in Direitos Humanos no Brasil 2005- Relatório da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos)
Panorama Internacional das Mortes de Civis por Policiais
Ano Mortos por policiais
2001 459
2002 610
2003 915
2004 663
2005 329
2006 576
2007 438
2008 431
Total: 4.421
Mortos pela polícia no Estado de São Paulo
(Fonte: Secretaria de Segurança Pública/ SP)
Fonte: Participação Popular no Controle Externo da Atividade Policial e das Políticas Públicas
Segurança Cidadã com rosto humano: Diagnóstico e Propostas para a América Latina PNUD - 2013-2014
Relatório Regional de Desenvolvimento Humano
Escola de Governo / Artigos / As muitas violências TEXTO PARA REFLEXÃO: “As muitas violências “
Nos últimos três anos foram assassinadas mais de 140 mil pessoas no Brasil.
Uma média de 47 mil pessoas por ano. Uma parcela expressiva destas mortes, que varia de região para região, é atribuída à ação da polícia, que se respalda na impunidade para continuar cometendo seus crimes. São 25 assassinatos ao ano por cada 100 mil pessoas, índice considerado de violência epidêmica, segundo organismos internacionais, e que se mantém estável, apesar dos esforços do governo federal com o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) da Segurança, lançado em agosto de 2007, e o Pronasci (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania), que tinha por meta reduzir em 50% os assassinatos neste ano de 2010, mas não o conseguiu.
A situação é um pouco melhor que alguns anos atrás: em 2000, o índice era de 26,7; em 2001, de 27,8; em 2002, de 28,45, segundo dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Não fazemos ideia do que esses números significam. Apenas para ter uma comparação, nos três anos mais cruentos da invasão do Iraque (2005-2007) foram assassinados, por atos de guerra, 80 mil civis. Uma média de 27 mil mortes por ano.
Se os assassinatos com armas de fogo são uma face da violência vivida na nossa sociedade, ela não é a única. Logo atrás, em termos de letalidade, estão os acidentes fatais de trânsito, com cerca de 33 mil mortos em 2002, e 35 mil mortes por ano em 2004 e 2005. Isto, sem falar nos acidentados não fatais socorridos pelo Sistema Único de Saúde, que multiplicam muitas vezes os números aqui apresentados e representam um custo que o Ipea estima em R$ 5,3 bilhões para o ano de 2002.
Novamente aqui os jovens são as principais vítimas, e uma pesquisa aponta que 95% dos acidentes de trânsito são de responsabilidade do motorista: desrespeito à sinalização, excesso de velocidade, avanço do sinal.1
Quanto aos atropelamentos, foram mais de 40 mil em 2006, penalizando principalmente os mais idosos.
A lista da violência alonga-se incrivelmente. Sobre as mulheres, os negros, os índios, os gays, sobre os mendigos na rua, sobre os movimentos sociais etc. Uma discussão num botequim de periferia pode terminar em morte. A privação do emprego, do salário digno, da educação, da saúde, do transporte público, da moradia, da segurança alimentar, tudo isso pode ser compreendido, considerando que são direitos assegurados por nossa Constituição, como outras tantas violências.
Para buscar interpretar estes acontecimentos, não é possível isolar uma única forma de violência, ainda que suas distintas manifestações
requeiram políticas também diferenciadas para enfrentá-las. É o jeito de
viver em sociedade, que assumimos ao longo do tempo, que nos leva a esta situação-limite.
Quando a Justiça não funciona, principalmente para os pobres; quando a polícia mata com impunidade, em vez de garantir a lei e a ordem; quando o que nos ensinam é que temos de tirar vantagem sobre os demais; quando as políticas públicas não garantem a proteção social das famílias; quando os jovens não têm perspectiva de emprego neste modelo de desenvolvimento;
tudo somado, desaparece o que é de interesse comum, a coisa pública, a afirmação dos direitos, as regras de convivência democrática.
É aqui que mora o perigo. Se o domínio privado do espaço público prevalecer, como é o caso das milícias e do narcotráfico nas favelas, assim como dos sistemas de segurança privada nos acessos aos condomínios de luxo e nos shoppings, então continuaremos a viver uma guerra contínua e não declarada que estenderá seu manto de sofrimento por toda a sociedade.
Hannah Arendt valoriza o espaço público como espaço de socialização, da comunicação, do debate, do exercício democrático, do cultivo das liberdades. Claude Lefort, Viveret e toda uma corrente de pensadores nacionais e estrangeiros que defende o exercício da democracia direta pelos cidadãos, falam da (re)apropriação do espaço público, de um processo de (re)fundação democrática que crie novas instituições para um novo tempo, com maior controle social e sentido público.
Sem espaço público não há democracia, e o espaço público é também uma construção associada à construção do próprio Estado, que necessita se abrir para o controle social para produzir políticas que universalizem direitos. As experiências recentes de construção de um novo jeito de viver que ocorrem em países vizinhos, como a Bolívia e o Equador, dizem que este caminho é possível e que existem movimentos fortes na sociedade que bancam estas mudanças.
A maior violência para alguém é estar sozinho, sem trabalho, sem proteção social, desvalorizado perante si mesmo, privado dos seus meios de socialização, de um papel a cumprir na sociedade.
Silvio Caccia Bava é editor de Le Monde Diplomatique Brasil e coordenador geral do Instituto Pólis.
O QUE FAZER?
PREVENÇÂO:
Os investimentos em prevenção são muito eficazes e permitem resultados mais sólidos do que aqueles derivados de repressão e da persecução criminal. Desenvolver projetos concretos de prevenção e alcançar, com eles, reduções significativas nas taxas de criminalidade e nas ocorrências violentas não é algo difícil e que requeira apenas projetos com custo elevado ou de difícil execução. Projetos simples e criativos também são eficazes e podem traduzir resultados extremamente positivos, mostrando que a prevenção ainda é o melhor caminho no combate a violência.
TRANSFORMAÇÃO DO SISTEMA DE JUSTIÇA CRIMINAL :
TRANSFORMAÇÃO DA SEGURANÇA PÚBLICA:
NÍVEL GOVERNAMENTAL:
NÍVEL LEGISLATIVO:
NÍVEL JUDICIÁRIO:
NÍVEL COMUNITÁRIO:
CONTROLE SOCIAL:
PEDRO AGUERRE¹
É graduado em ciências sociais, mestre e doutor em ciências sociais pela PUC-SP, com a tese: “Periferia: um estudo sobre a segregação socioespacial na cidade de São Paulo”. Foi consultor do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania - Pronasci (2008 a 2010) e do Plano Juventude VIVA – SNJ (2012-2013) É membro associado da Escola de Governo de São Paulo e professor da PUC-SP – Faculdade de Economia e Administração.
www.escoladegoverno.org.br Fone: 11- 3256-6338