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Love is Blind e o Mito da Beleza: a propagação de padrões estéticos na busca pelo amor 1

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Academic year: 2021

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“Love is Blind” e o Mito da Beleza: a propagação de padrões estéticos na busca pelo amor1

Ketlyn Victoria de Oliveira Ramos2 Luísa Guimarães Lima3

Centro Universitário IESB, Brasília, DF Resumo

O artigo tem como objetivo principal analisar se o reality show ​Love is Blind

realmente questiona, assim como promete, a aparência como determinante no campo dos relacionamentos afetivos. Para isso, foi realizada análise de conteúdo, levando em consideração os participantes e seus comportamentos. Foram abordadas as relações do reality a partir do conceito de Mito da Beleza, de Naomi Wolf. Ademais, o artigo apresenta reflexões sobre representatividade feminina nos meios de comunicação e como a falta de representação afeta a autoestima e a vida das mulheres ao redor do mundo.

Palavras-chave

Representatividade; Mito da beleza; Love is Blind; Relacionamentos afetivos. 1. Introdução

A aparência física possui grande importância no campo dos relacionamentos afetivos. Alan Feingold (1990) aponta, em pesquisa, a beleza como determinante na avaliação que o homem realiza dos demais. O estudo revela que os estereótipos criados socialmente são grandes influenciadores nas escolhas de parceiros afetivos e, quando se trata de gênero, Feingold aponta os integrantes do sexo masculino como os que mais valorizam a beleza (FEINGOLD, 1990).

Os aplicativos de relacionamento atuais, por exemplo, reforçam esse padrão ao utilizarem como principais formas de obtenção de relacionamentos a imagem dos usuários. O famoso “match” vem após a curtida na foto de quem está do outro lado da tela. No Brasil, um a cada cinco usuários de internet possui pelo menos um aplicativo de relacionamento instalado em seu dispositivo móvel (CANAL TECH, 2017).

1Trabalho para a IJ04 – Audiovisual, da Intercom Júnior – XVI Jornada de Iniciação Científica em Comunicação, evento componente do 43º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação.

2 Estudante de graduação do sétimo semestre do curso de Jornalismo do Centro Universitário Iesb, e-mail: [email protected].

3 Orientadora do trabalho. Doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB). Professora do curso de Jornalismo do Centro Universitário Iesb, e-mail: [email protected]

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O livro O Mito da Beleza, de Naomi Wolf, é parte da fundamentação teórica deste artigo e discute a perda da liberdade da mulher, conquistada ao longo de lutas feministas, devido à necessidade de seguir padrões de beleza. Se a mulher não é bonita, muito dificilmente encontrará a felicidade e o amor. A falta de representatividade de fenótipos diversos nos meios de comunicação contribui para esse quadro.

Porém, algumas produções buscam reverter essa relação entre os padrões de beleza e a busca pelo amor. Além de ser utilizado como método de pesquisa, como feito por Feingold em “Diferenças de gênero nos efeitos da atratividade física na atração romântica” (1990), os “encontros às cegas” já fazem parte de obras cinematográficas há décadas, como no filme norte-americano “Encontro às escuras”, de 1987.

Este artigo busca, através da análise de conteúdo do reality show ​Love is Blind (​Casamento às Cegas​, na tradução para o português), responder se a produção da Netflix realmente questiona a aparência como determinante no campo dos relacionamentos afetivos e qual a relação da produção com o Mito da Beleza apresentado por Naomi Wolf. Entre os objetivos específicos estão: apresentar o novo reality da Netflix e os pontos que tornam a sociedade atual ligada à aparência, debater a questão da representatividade feminina e sua importância, além de questionar se o reality show realmente coloca a aparência em segundo plano, conforme promete.

2. Procedimentos Metodológicos

Para o desenvolvimento deste artigo, foram utilizadas os seguintes procedimentos metodológicos: pesquisa bibliográfica e análise de conteúdo. A primeira, como o próprio nome explicita, é a leitura aprofundada de quaisquer obras relacionadas ao assunto que será tratado no trabalho. Essa metodologia parte do pressuposto de que, para avançar na pesquisa de determinado tema, é necessário conhecer o que já existe sobre ele. Jorge Duarte e Antônio Barros (2005) acreditam que a pesquisa bibliográfica é fundamental para qualquer trabalho de pesquisa, visto que através dela é possível reunir ideias, refletir sobre conceitos, concordar ou discordar de opiniões passadas e expor os novos conceitos do pesquisador.

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Neste artigo, essa metodologia é de suma importância visto que o objetivo geral gira em torno de uma referência bibliográfica: a obra ​O Mito da Beleza​, de Naomi Wolf (1992). Ademais, foram utilizados diversos autores para mergulhar nos conceitos que dão sentido ao objeto de pesquisa.

A segunda metodologia, análise de conteúdo, oferece uma perspectiva tanto quantitativa quanto qualitativa dos materiais que compõem o objeto de estudo. Neste artigo, a investigação utilizada para aplicação dessa metodologia é da pesquisadora francesa Laurence Bardin (1977). Para Bardin, o método de análise de conteúdo é extremamente relevante pois permite que o pesquisador analise de fato o discurso que está por trás daquela obra.

O esforço do analista é, então, duplo: entender o sentido da comunicação, como se fosse o receptor normal, e, principalmente, desviar o olhar, buscando outra significação, outra mensagem, passível de se enxergar por meio ou ao lado da primeira (CÂMARA, 2013, p. 182).

A metodologia, portanto, será aplicada no artigo a fim de alcançar os objetivos gerais e específicos citados anteriormente.

3. Fundamentação teórica

Para dar início às discussões sobre o reality show, é necessário mergulhar no mito da beleza e na falta de representatividade de mulheres plurais nos meios de comunicação de massa. Esses conceitos são apresentados a seguir:

3.1 O Mito da Beleza

As mulheres vêm conquistando seus direitos políticos e sociais ao longo da história. Em 1879, elas conquistaram o direito de cursar uma faculdade no Brasil. Em 1918, na Inglaterra, o movimento sufragista garante ao sexo feminino o direito ao voto. No Brasil, esse fato só foi conquistado em 1932. Já em 1945, a Carta das Nações Unidas reconhece igualdade de direitos entre homens e mulheres. A sociedade patriarcal, porém, encontrou outro mecanismo para oprimir o sexo feminino: a busca incessante pelos padrões de beleza e pela aprovação do outro.

Estamos em meio a uma violenta reação contra o feminismo que emprega imagens da beleza feminina como uma arma política contra a evolução da mulher: o mito da beleza. [...] Essa reação opera com a finalidade de eliminar a herança deixada pelo Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação

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feminismo, em todos os níveis, na vida da mulher ocidental (WOLF, 1992, p. 12-13).

O mito da beleza, apresentado por Naomi Wolf, aponta que após a construção da força e independência feminina em aspectos materiais, a sociedade contemporânea busca enfraquecer a mulher ocidental sob o ponto de vista psicológico. “O arsenal do mito consiste na disseminação de milhões de imagens do ideal em voga” (WOLF, 1992, p. 20).

A felicidade e o sucesso, antes deixadas nas mãos dos homens, só são alcançados quando a mulher se enquadra nos estereótipos atuais. As mulheres não só precisam trabalhar mais para garantir salários equivalentes aos masculinos, mas também fazer parte de padrões estéticos para serem consideradas relevantes na sociedade. Para Tânia Maria e Maria Regina (2009), a superexposição do ideal corporal são fatores contribuintes para esse quadro, reforçando o mito da beleza apresentado por Wolf. “A mídia contemporânea expõe somente corpos que se encaixam em um padrão estético perfeito e “aceitável”, mediado pelos interesses da indústria de consumo”, (PEREIRA, Tânia; LEITE, Maria. p. 2828).

Os reflexos dessa estereotipação da mulher são encontrados em todo o globo. De acordo com a segunda edição da pesquisa A Real Verdade Sobre Beleza, realizada pela psicóloga de Harvard Nancy Etcoff para a Dove, apenas 4% das mulheres no mundo se consideram bonitas (um aumento de 2% em relação a primeira edição, em 2004). O estudo ainda vai além e constata que 72% das garotas sentem uma imensa pressão para serem belas (DOVE, 2014).

3.2 Representação e Representatividade

De acordo com pesquisador Stuart Hall (2016), nós concedemos sentido às coisas pela maneira como as representamos, “as palavras que usamos para nos referir a elas, as imagens delas que criamos, as maneiras como as classificamos [...] enfim, os valores que nelas embutimos”. Com a disseminação de representações inventadas por determinadas sociedades, são criados os estereótipos, padrões estabelecidos pelo senso comum.

Uma cultura, para se manter estável, busca manter os estereótipos e eliminar ou recriminar qualquer coisa que não faça parte dele. “O que desestabiliza a cultura é a ‘matéria fora do lugar’ - a quebra de nossas regras e códigos não escritos. [..] O

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que fazemos com ela é varrê-la, jogá-la fora e restaurar a ordem do local (HALL, 2016, p. 157).

A falta de representatividade e a insistência nos padrões representados pela mídia influenciam não só na imagem que as pessoas, especialmente as mulheres, possuem sobre si mesmas, mas também a sua forma de consumo. É o que aponta Naomi Wolf no mito da beleza.

Nos últimos cinco anos, as despesas com o consumo duplicaram, a pornografia se tornou o gênero de maior expressão, [..] e trinta e três mil mulheres americanas afirmaram a pesquisadores que preferiam perder de cinco a sete quilos a alcançar qualquer outro objetivo (WOLF, 1992, p. 12).

4. Netflix e ​Love is Blind​: a história

Fundada em 1997 por Reed Hastings e Marc Randolph, a Netflix surgiu como uma locadora de filmes local. Em 2013, já considerada a maior plataforma de streaming do mundo, a Netflix passou a produzir conteúdos originais como ​Stranger Things​, ​You e ​Orange is the New Black​, que somam milhões de espectadores. Há 6 anos, a Netflix tornou-se a primeira rede de televisão por internet a ser indicada para o Emmy e chegou a mais de 50 milhões de assinantes no mundo todo. Vencedora do Oscar, a plataforma já alcança 190 países em todos os continentes.

Recentemente, a Netflix vem expandindo o seu catálogo original com a produção de realities shows. ​Love is Blind​, foco da análise do artigo, foi produzido pela Kinetic Content e gravado em novembro de 2018. O programa de dez episódios estreou na Netflix em 13 de fevereiro de 2020, e conta com um episódio extra gravado em 2020 para contar como os casais se encontram atualmente. De acordo com a plataforma de streaming, ​Love is Blind foi o programa mais assistido nos Estados Unidos em fevereiro, além de figurar entre os dez mais assistidos da plataforma no mundo inteiro.

4.1 Proposta

Em ​Love is Blind​, a Netflix reúne 15 homens e 15 mulheres em busca do “amor de suas vidas”. Os participantes, que se relacionam através de cabines nas quais não podem se ver, passaram dez dias confinados realizando mais de 16 horas de encontros diários, além de só poderem interagir pessoalmente com pessoas do mesmo sexo. A proposta da empresa era fazer com que o elenco criasse conexões

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emocionais, sem se basear na aparência física do parceiro. Para deixar as cabines, era necessário que um dos componentes do casal firmasse um compromisso com o outro através de um pedido de casamento. O objetivo final do reality, após os 38 dias de gravação, era responder à pergunta “o amor é cego?”.

Em entrevista para a Entertainment Weekly, o criador do reality show, Chris Coelen, fala sobre a premissa que adotou para a criação da série:

É muito simples. Pensamos sobre o que é verdade entre cada ser humano na Terra. Qual é a coisa mais identificável quando se trata de relacionamentos? Que todo mundo quer ser amado por quem é por dentro. Se você está procurando um relacionamento de longo prazo, não quer ser amado por seu dinheiro, ou por de onde você é, por sua aparência ou por sua falta em qualquer uma dessas categorias. Você quer ser amado por você. Toda pessoa quer ser quem é, certo? Não importa onde você mora ou qual é a sua situação. [...] Aqueles aplicativos de namoro fazem com que muitas pessoas se sintam muito descartáveis. É uma experiência muito superficial 4​ (WEEKLY, 2020, tradução da autora).

Apesar dos participantes não se encontrarem antes do pedido de casamento, será que a escolha dos membros da trama não foi baseada em estereótipos de beleza pré-existentes? Será que a empresa buscou representar pessoas variadas? Será que a produção comprovou que qualquer pessoa pode ser amada pelo que realmente é, independentemente de sua aparência? Essas são questões que serão respondidas ao longo da análise dos personagens.

Alguns participantes da série revelaram como foram abordados pela produção para participarem do reality, em entrevista à apresentadora Ellen DeGeneres. Damian Powers, parte do elenco, aponta que foi encontrado pela produção no aplicativo de relacionamentos Tinder. A empresa de mídia canadense Vice noticiou a entrevista em seu portal de notícias com o título “Netflix usou táticas desesperadas para lançar ‘​Love is blind​’”​5​ (VICE, 2020, tradução da autora).

5. Análise - Características Físicas dos Personagens

4It’s very simple. We thought about what is true amongst every single human being on earth. What is the most relatable thing when it comes to relationships? That everybody wants to be loved for who they are on the inside. If you’re looking for a longterm relationship you don’t want to be loved for your money, or where you’re from, or your looks or your lack-there-of in any of those categories. You want to be loved for you. Every person wants to be who they are, right? No matter where you live or what your situation is. [...] Those dating apps — make a lot of people feel very disposable. It’s a very surface-level experience.

5​Netflix used desperate tactics to cast ‘Love is Blind’​.

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A discussão central deste artigo gira em torno da escolha dos personagens da trama, especificamente das mulheres, e como essa escolha reforça o mito da beleza apresentado por Naomi Wolf. Para a análise, serão considerados os 12 integrantes principais do reality show, visto que os restantes não são explorados pela Netflix ao longo dos episódios. São eles: Lauren Speed ​​e Cameron Hamilton, Amber Pike e Matthew Barnett, Giannina Gibelli e Damian Powers, Jessica Batten e Mark Cuevas, Kelly Chase e Kenny Barnes, Diamond Jack e Carlton Morton.

5.1 As Mulheres

A análise das participantes a seguir parte do princípio de que os meios de comunicação ainda reforçam um ideal de beleza padrão. Apesar da proposta de apresentar a aparência física em segundo plano, as participantes escolhidas para o elenco não fogem dos estereótipos questionados por muitos movimentos femininos. Entre as seis noivas que ganham maior foco ao longo da trama, não há uma sequer acima do peso, por exemplo. Além disso, os protagonistas da série são, em sua grande maioria, brancos.

O padrão estético de beleza atual, perseguido pelas mulheres, é representado imageticamente pelas modelos esquálidas das passarelas e páginas de revistas segmentadas, por vezes longe de representar saúde, mas que sugerem satisfação e realização pessoal e aludem à eterna juventude (BOHM, 2004, p.19).

De acordo o artigo “O padrão de beleza corporal sobre o corpo feminino mediante o IMC”, a força do mercado estético e da manipulação masculina das imagens de beleza cresceram paralelamente com os novos meios de comunicação. Em ​Love is Blind​, apenas uma mulher se encontra entre os produtores da série.

Alavancadas pela cultura de massa, as indústrias chegam a cifras astronômicas - 33 bilhões de dólares por ano para a indústria das dietas; 20 bilhões por ano para a dos cosméticos; cirurgia plástica estética, com 300 milhões de dólares; [..] O mito da beleza se torna um fenômeno quase universal, invadindo as mais diversas culturas, ampliando o mercado para tais indústrias (FREITAS, LIMA, COSTA, LUCENA FILHO, 2010, p. 395).

Apesar da magreza ser o principal fator apresentado como padrão em estudos relacionados a estereótipos femininos e masculinos, serão considerados outros aspectos recorrentes nos meios de comunicação atuais, como: tipos, tamanho e cor de cabelo, cor dos olhos e cor da pele. A última, portanto, tem relação direta com o racismo e a falta de representatividade negra na mídia. Veja, a seguir,

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imagens das seis mulheres que compõem o elenco principal do reality show e tabela com características baseadas nas orientações enunciadas anteriormente:

Figura 1 – Elenco feminino do reality

Fonte: Elaboração da autora através de reprodução do Google Imagens. Quadro 1 - Características referentes à imagem das participantes durante o reality6

Fonte: Elaboração da autora.

Uma reportagem da Universidade Estadual Paulista (Unesp) se aprofunda no modelo de mulher criado pela sociedade patriarcal e disseminado através dos meios de comunicação (UNESP, 2018):

A mulher deve ser alta, magra, branca, com os cabelos lisos e loiros, de preferência longos, e sempre muito bem cuidados [...]. E cabelo curto? Nem pensar! A mulher deve evitá-lo, se não logo questionarão sua sexualidade. Ela deve ter os seios alinhados, arredondados e empinados, como os glúteos, e uma cintura bem demarcada (UNESP, 2018).

6 Possíveis mudanças após a gravação da temporada não fazem parte da análise.

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As características apontadas pela autora da reportagem e reforçada pelos especialistas entrevistados apresenta as principais atribuições físicas das mulheres de ​Love is Blind​. Todas possuem cabelos lisos ou alisados, longos e pele clara. Características essas que não representam a população norte-americana e, ainda, demonstram total alinhamento com o mito da beleza apresentado por Wolf. De acordo com relatório do governo americano divulgado pelo jornal O Globo, em 2017, a obesidade já afeta 39,6% da população adulta nos Estados Unidos (O GLOBO, 2017). Apesar de se tratar de um problema de saúde e tema para outros debates, nenhuma dessas pessoas foi representada no reality show.

As que fogem de algum dos padrões como Lauren e Diamond, as únicas participantes negras, são representadas de maneira peculiar ao longo da trama. Diamond, que tem um problema devido a uma discussão sobre a bissexualidade de seu par, deixa o reality no início. Já Lauren, que chega ao casamento com Cameron Hamilton, carrega a sua cor como tema principal durante todo o reality, visto que constrói um relacionamento interracial com Cameron. A abordagem da Netflix sobre o assunto é obviamente importante. Porém, assim como dito por Lauren em suas redes sociais, o tema foi supervalorizado e deixaram de tratar sobre outros aspectos do relacionamento.

Outro caso que merece ser destacado é o de Kelly Chase. Uma das participantes com aspectos físicos mais “naturais”, Kelly aparece constantemente sem maquiagem e, apesar de possuir corpo magro, a participante lutou contra o sobrepeso durante toda a sua vida. Ao fim do programa, do qual sai solteira, Kelly se tornou coach de saúde e, em entrevista para diversos portais, aponta a importância de ​Love is Blind para sua mudança física. A coach, que já possuía um corpo magro na gravação de 2018, mostra ainda menos peso aos seus seguidores. Com foto de antes e depois na sua conta de Instagram, Kelly comenta: “Medo não existe mais. Oportunidades chegam a mim com facilidade. Confiança é minha melhor amiga”. Veja abaixo.

Figura 2 - Participante Kelly Chase após o reality

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Fonte: Kelly Chase no Instagram (2020).

5.2 - Os Homens

Figura 3 – Elenco masculino do reality

Fonte: Elaboração da autora através de reprodução Google.

Mesmo não sendo o foco da discussão, os homens têm papel fundamental na propagação do mito da beleza. Assim como na maioria das representações masculinas, a Netflix não se esforça para trazer diferentes características físicas para os participantes da série, reforçando novamente os estereótipos. A mulher é mais uma das aquisições que o homem branco, alto e forte precisa para completar a sua trajetória de sucesso.

O mito da beleza tem uma história a contar. A qualidade chamada "beleza" existe de forma objetiva e universal. As mulheres devem querer encarná-la, e os homens devem querer possuir mulheres que a encarnem. [...] Os homens fortes lutam pelas mulheres belas, e as mulheres belas têm maior sucesso na reprodução. A beleza da mulher tem relação com sua fertilidade; e, como esse sistema se Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação

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baseia na seleção sexual, ele é inevitável e imutável (WOLF, 1992, p.14-15).

O quadro abaixo apresenta a relação entre as características que formam o estereótipo masculino de beleza e os participantes do reality.

Quadro 2 - Características referentes à imagem dos participantes durante o reality

Fonte: Elaboração da autora.​7

Por coincidência (ou não), cada um dos homens que se enquadra em todos os tipos de padrões pré-estabelecidos saem do reality show com um relacionamento, seja ele casamento ou namoro. Carlton Morton, único homem negro, calvo e sem corpo atlético, deixa o programa no início. Mark Cuevas, o único de menor estatura, tem sua beleza questionada durante todo o reality por sua noiva Jessica Batten, que afirma que Mark não é o tipo de cara que ela geralmente se apaixona. ​A questão é levantada tantas vezes que se torna vergonhoso e até triste para os espectadores do reality que se identificam com Mark. Os outros participantes dentro do padrão não possuem esse problema​.

6. Análise - Comportamento dos personagens em ​Love is Blind​

O aspecto físico dos participantes não é o único fator que reafirma o mito da beleza no reality show. Em ​Love is Blind, fica clara a vontade incessante das mulheres de encontrarem os seus maridos para garantir uma vida feliz e completa, muitas vezes pela pressão social. A Netflix, assim como outras diversas produtoras cinematográficas, não utiliza o espaço que possui para quebrar estereótipos e promover um discurso de emancipação feminina, principalmente nos 7 Possíveis mudanças após a gravação da temporada não fazem parte da análise.

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relacionamentos, mas reafirma a visão machista que a sociedade possui sobre as mulheres. Aqui, a preocupação é apenas ser bela, encontrar um parceiro e viver o “felizes para sempre”. A rivalidade feminina, o homem como provedor e a inferiorização da mulher também são assuntos no reality que se conectam com a realidade. Abaixo são destacados alguns momentos problemáticos que precisam fazer parte da análise.

6.1 Episódio 2 - Jessica e Amber

Após ser rejeitada por Matthew Barnett, Jessica Batten sabe que Amber Pike será a escolhida pelo homem para ser a sua esposa. Sua primeira atitude é, portanto, falar para Amber que Barnett é “um idiota” que se declarou para ela e, por fim, a descartou. A Netflix deixa claro que há uma rivalidade entre as duas ao longo do reality e dá ênfase para a tentativa de Jessica de destruir o casal. As cenas fortalecem a teoria de Naomi Wolf de que “as mulheres são treinadas para serem rivais de todas as outras no que diz respeito à ‘beleza’” (WOLF, 1992, p.99).

A mídia, portanto, apresenta-se como fator fundamental para a propagação dessa representação rival da mulher, influenciando o comportamento de quem assiste e passa a considerá-lo como normal. "A questão é que a mídia utiliza estereótipos que inibem uma construção positiva e liberta de discursos machistas, misóginos [...] porque é assim a visão dominante da sociedade" (SILVA, 2016). 6.2 Episódio 3 - Lauren Chamblin e Barnett

Lauren Chamblin também é rejeitada por Matthew Barnett e protagoniza uma das piores cenas de ​Love is Blind no que se diz respeito ao mito da beleza. O momento é a representação clara de que a mulher, mesmo bem sucedida, sempre acreditará que não é suficiente e que é a culpada por não receber a aprovação de terceiros. Quando recebe a notícia de que não é a escolhida por Barnett, LC aparece aos prantos no depoimento dado a Netflix. “Sinto que eles sempre se assustam e fogem. Não sei o que estou fazendo de errado. Será que eu sou uma pessoa inamável?”, diz a participante. Para Naomi Wolf, “ ​uma ideologia que fizesse com que nos sentíssemos valendo menos tornou-se urgente e necessária para se contrapor à forma pela qual o feminismo começava a fazer com que nos valorizássemos mais”, (WOLF, 1992, p.22). Esse fortalecimento da imagem da mulher culpada também é explicado por Stuart Hall (2016) na fundamentação teórica deste trabalho.

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Para a cultura vigente manter a sua força, é necessário manter a disseminação desses estereótipos, trabalho esse que é muito bem desempenhado pela Netflix na produção.

6.3 Episódio 6 - Cameron e Lauren

O casal queridinho do reality também teve desavenças ao longo da série. No episódio 9, Lauren mostra o medo de perder sua independência após o casamento. Esse comportamento tem raízes em uma conversa do casal na qual Cameron fica muito desconfortável quando Lauren questiona a possibilidade de manter o seu apartamento depois da cerimônia. A cena, do sexto episódio, foi alvo de críticas em colunas como de Jessa Crispin, no jornal britânico The Guardian.

Enquanto os homens falam principalmente de sua busca por um

cônjuge como uma procura para obter o próximo prêmio em sua

busca pela idade adulta - dizendo coisas como, bem, eu tenho uma

casa agora, então acho que seria bom ter uma esposa para colocar

nela - as mulheres sofrem com a falta de intimidade emocional e

companhia que o parceiro romântico supostamente deve oferecer 8

(THE GUARDIAN, 2020, tradução da autora).

6.4 Episódio 6 - Amber e Barnett

Um dos assuntos predominantes no mito da beleza é a constante busca da mulher por procedimentos estéticos e produtos de beleza. Amber Pike, no sexto episódio, conta a Barnett que possui uma dívida em torno de 20 mil dólares e que gasta o seu dinheiro com maquiagem. Matthew, assustado com os valores, é retrucado por Amber que diz: “maquiagem custa caro”. Para Naomi Wolf, “o problema com os cosméticos existe somente quando as mulheres se sentem invisíveis ou incorretas sem eles” (WOLF, 1992, p.363). Essa atitude, porém, não é em vão. À medida que as mulheres encontram a sua independência material, busca-se outro setor para enfraquecê-las: a beleza.

6.5 Episódio 7 - Jessica e Mark

No sétimo episódio, Jessica deixa clara a insegurança que sofre por ser mais velha e ainda não ter alcançado as coisas comuns à sua idade, como o casamento e os filhos. Antes de conhecer a família de Mark, Batten afirma: “ ​Se eu sou a sua mãe e ele trouxesse uma garota 10 anos mais velha para me conhecer, eu não ficaria

8While the men mostly speak of their search for a spouse as a quest to acquire the next prize in their quest for adulthood – saying things like, well, I have a house now so I guess it would be nice to have a wife to put in it – the women suffer from their lack of emotional intimacy and company that the romantic partner is supposed to provide.

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feliz. Acho que serei fuzilada”. O comportamento de Jessica também se relaciona diretamente com as falas de Naomi Wolf no Mito da Beleza.

Aqueles elementos que dão uma identidade única à mulher — a irregularidade inimitável do rosto, as cicatrizes de um acidente na infância, as rugas e linhas de uma vida de pensamento e riso, de mágoa e ódio — esses elementos a excluem das fileiras das belezas míticas e, conforme nos dizem, dos parques encantados do amor (WOLF, 1992, p.229).

7. Considerações Finais

Fica claro que o reality show ​Love is Blind replica os padrões estéticos e comportamentais e reforça a ideia de que, para encontrar a felicidade no amor, a mulher precisa ser vítima do mito da beleza. Assim como outros meios de comunicação, a Netflix apresenta como maioria os estereótipos socialmente aceitos e, os que estão fora dele são logo eliminados ou tratados como “cota” no programa. A representação de pessoas, mulheres ou não, em maior pluralidade no audiovisual é um ponto determinante para mudarmos a visão de “padrão” vigente, como apontado por Stuart Hall na revisão bibliográfica. Enquanto insistirmos nesses estereótipos de beleza e de comportamento femininos, continuaremos vivendo em uma sociedade que busca diminuir o valor da mulher e torná-la refém de seus aspectos físicos. Esse artigo, portanto, busca contribuir com o questionamento sobre representatividade e levantar questões que levem os estudantes e profissionais do meio a refletirem e se posicionarem sobre o tema.

8. Referências bibliográficas

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Referências

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