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EDUCAÇÃO PRISIONAL: CONTEXTO HISTÓRICO E A COMPLEXIDADE DO TRABALHO DO PROFESSOR

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EDUCAÇÃO PRISIONAL: CONTEXTO HISTÓRICO E A COMPLEXIDADE DO TRABALHO DO PROFESSOR

DIAS, Maria Letícia da Silva1 [email protected]

INTRODUÇÃO

Esta pesquisa se insere no Grupo de Estudos e Pesquisas História, Educação, Sociedade e Política (GHESP-Cnpq), a partir da análise bibliográfica e documental. O trabalho tem por tema a complexidade do trabalho do professor nos sistemas prisionais, a partir de um percurso histórico desses espaços e suas mudanças, com foco no estado do Paraná.

Para compreender a educação no sistema prisional, buscou-se a análise das leis que garantem a educação dos aprisionados, aspectos relevantes contidos no Plano Estadual de Educação no Sistema Prisional do Paraná, produzido em 2012 pela Secretaria de Estado Educação em parceria com Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos.

Com a perspectiva da historicidade, é possível compreender com mais clareza a sociedade que estamos inseridos e como ela funciona. Conforme afirma Saviani:

O tipo de sociedade em que nos encontramos é inerentemente excludente, portanto intrinsecamente incapaz de assegurar a humanização e a inclusão de seus membros. Daí a pertinência da inversão do foco indagativo. Dado o caráter excludente desta sociedade, cumpre indagar sobre que tipo de sociedade poderia assegurar a inclusão (SAVIANI, 2019, p.).

Percebe-se que vivemos em uma sociedade excludente que não permite que todos tenham as mesmas oportunidades, por isso há de se pensar em que tipo de sociedade que possibilitaria uma maior inclusão.

A cultura prisional é uma questão de importante reflexão, pois ela trata das questões particulares do funcionamento desses espaços. De acordo com Onofre “a cultura prisional, caracterizada pela repressão, pela ordem e disciplina, visa adaptar o indivíduo ao cárcere e aponta para um tempo-espaço que determina mecanicamente as ações dos indivíduos”.

1 Graduanda do curso de Licenciatura em Pedagogia no Centro Educacional Internacional UNINTER. A produção

do presente artigo contou com a orientação da Prof.ª Desiré Luciane Dominschek, coordenadora do grupo de pesquisa Ghesp: Grupo de História, Educação, Sociedade e Política no Centro Educacional Internacional UNINTER.

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(ONOFRE, 2012, p.206). O professor precisa ter uma boa desenvoltura, empatia, organizar um bom trabalho e saber lidar com as adversidades, que por vezes podem desmotivar esse educador, visto que essa função é de extrema importância nesses espaços.

EDUCAÇÃO PRISIONAL: PANORAMA DO ESTADO DO PARANÁ,

CONTRADIÇOES E DESAFIOS

Na antiguidade, respectivamente nos séculos XVII, XVIII e início do XIX práticas de extermínio eram comuns, aqueles que tinham cometido crimes, eram eliminados em locais públicos. John Howard foi um estudioso e um percursor dos estudos das prisões e trouxe a proposta de recuperar esses indivíduos para a sociedade.

Como não poderia deixar de ser, o trabalho aliado ao confinamento solitário e ao silêncio total foi considerado estratégico para educar o corpo enquanto a severa disciplina carcerária e as preleções religiosas se encarregavam de iluminar a mente do prisioneiro. O sistema penitenciário se instala em vários países europeus e nos Estados Unidos na primeira metade do século 21 recolhendo lições várias vezes seculares das casas do trabalho casos de correção e “hospitais”. (BRESCIANI, 1986 p.19).

Outra atividade comum a época era utilizar o trabalho para “educar” esses indivíduos, as chamadas casas de trabalho, que buscavam corrigir esses prisioneiros, por meio do ofício. Essa prática era muito vantajosa para os donos das fábricas, por se tratar de mão de obra barata. Pobres que eram vistos vagando pelas ruas sem uma ocupação, eram recolhidos em casas de correção. Conforme a fala de Bresciani:

O poder moralizador do trabalho para aqueles que por terem somente a propriedade do próprio corpo deveriam trabalhar, sem interrupção para sobreviver tornou-se uma máxima que as igrejas protestantes e católicas assumiram cabalmente (BRESCIANI, 1986 p.22).

Com o passar do tempo, e com ideias como a do citado John Howard, execuções públicas começaram a ser vistas como atos impensáveis, pelo seu teor de violência, isso causou algumas mudanças no decorrer do tempo. Atualmente existem leis que permitem o acesso dos apenados a educação, uma delas é Parecer CNE/ CEB nº 4 /2010

Compreendendo a educação como um dos únicos processos capazes de transformar o potencial das pessoas em competências, capacidades e habilidades, e o educar como ato de criar espaços para que o educando, situado organicamente no mundo, empreenda construção do seu ser um termos individuais e sociais, o espaço carcerário deve ser entendido como um espaço educativo, um ambiente socioeducativo. Assim sendo, todos que atuam nessas unidades - dirigentes, técnicos e agentes - são educadores e devem estar orientados nessa condição todos os recursos e esforços devem convergir, com objetividade e celeridade, para o trabalho educativo. (p.14).

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É possível perceber pelo parecer, que o educar não se trata apenas dos professores, mas abrange toda a equipe que faz parte do espaço carcerário. Outro aspecto importante de analisar, é a responsabilidade do Estado, para garantir condições aos indivíduos, bem como a orientação para uma reinserção na sociedade. Conforme a lei de execução penal nº 7210 de 11 de julho de 1984 no artigo 10,6, 1 capítulo 2: "assistência ao preso e ao internado é dever do Estado objetivando prevenir o crime e orientar o retorno a convivência em sociedade" (p. 12, 13).

O presente trabalho, pretende focar nos espaços prisionais do Estado do Paraná, analisando o contexto histórico do estado, a formação dos professores para trabalhar nesses espaços e a reinserção do indivíduo em sociedade. O Paraná formulou um documento no ano de 2012, o Plano Estadual de Educação no Sistema Prisional do Paraná, o documento foi escrito pela Secretaria de estado da Educação do Paraná em conjunto com a Secretaria de estado de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, traz as concepções do sistema prisional, um breve histórico do Estado, principais leis, normas, regras, um panorama geral do Estado, e planos de ação para a melhora do que for necessário.

A historicidade aponta para o surgimento da primeira penitenciária em 1909, afirmando que a intenção do Estado sempre foi a busca pela educação e por “repaginar” o indivíduo para que após o cumprimento da pena, ele pudesse voltar a viver em sociedade. Com a Resolução nº 65/SEJU de 12 de julho de 1993, o Secretário de Estado da Justiça e da Cidadania, José Tavares, aprovou o Regimento Interno da Escola Penitenciária do Paraná, conforme consta no documento: “passou a ter normas específicas para as suas finalidades. Nesse período, foram realizados cursos de formação para novos agentes penitenciários advindos de concurso público para essa função”. (p.29). Atualmente o órgão responsável é o Departamento Penitenciário (DEPEN). De acordo com o plano, há uma preocupação com a padronização das condutas da equipe de trabalho, o DEPEN produziu um material denominado “Cadernos do Depen”, nele constam algumas instruções a respeito do trabalho a ser desenvolvido, o intuiito é obter um trabalho eficiente. A implementação dos processos educativos nos espaços prisionais do Paraná, ocorreu o ano de 1982. De acordo com o documento:

Um convênio que ampara o funcionamento de Centros Estaduais de Educação Básica de Jovens e Adultos no interior de unidades penais. Nessa parceria, a Secretaria de Estado da Educação – SEED provisiona professores, diretores, pedagogos, pessoal administrativo, material didático, além de certificar os alunos que concluem o ensino fundamental ou médio (p.94).

Dessa forma, podemos pensar sobre algumas questões, sobre o papel do professor nos espaços prisionais, as competências e habilidades que esse profissional precisa desenvolver para

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realizar um trabalho efetivo. De acordo com o plano:

A formação inicial e continuada de servidores que atuam no Sistema Penitenciário do Paraná, seja na educação ou em outra função, tem sido realizada, prioritariamente, pela Escola de Educação em Direitos Humanos do Paraná – ESEDH e pela Secretaria de Estado da Educação - SEED, seja por meio de palestras, grupos de estudos, seminários, cursos de curta ou longa duração, ou ainda, a distância. Porém, há necessidade de que todos eles sejam reconhecidos pela Secretaria da Educação para a progressão dos profissionais da Educação em seu Plano de Carreira.

Percebe-se que o trabalho do professor nos espaços prisionais, possui uma grande complexidade pois, de acordo com Rangel :

As prisões são espaços complexos onde se concentram todas as dificuldades da sociedade em matéria de educação – fracasso escolar, analfabetismo, gestão da diversidade, exclusão social, etc. Nesse sentido, se constitui verdadeiro desafio e compromisso governamental convertê-las em espaços educativos. (ONOFRE,2012,p. 207, apud RANGEL,2012, p.12)

É importante perceber que o professor para exercer com efetividade seu papel, precisa ter múltiplas habilidades, visto que esses espaços possuem uma cultura própria, denominada cultura prisional. Conforme cita Onofre:

Nesse espaço, encontram-se duas lógicas opostas do que significa o processo de reabilitação, ou seja, o princípio fundamental da educação que é por essência transformador, aponta o tempo-espaço da vivência na prisão como possibilidade, enquanto a cultura prisional, caracterizada pela repressão, pela ordem e disciplina, visa adaptar o indivíduo ao cárcere e aponta para um tempo-espaço que determina mecanicamente as ações dos indivíduos. Olhando-se por esse ângulo, estamos diante de uma situação paradoxal, fazendo-se necessária a compatibilização da lógica da segurança com a lógica da educação em um foco de convergência, com o objetivo comum de recuperar o aprisionado, devolvendo-o à sociedade com um projeto de vida adequado à convivência social (ONOFRE, 2012, p.206).

Visto que existem lógicas diferentes no mesmo ambiente, tendo em vista que o professor está ali para propiciar o aprendizado aos educandos, torna-se necessário que o professor desenvolva habilidades para lidar com as adversidades e contradições do ambiente prisional, buscando um tratamento desses aprisionados como alunos, levando em conta seus saberes e os tratando com humanidade e dignidade.

Uma importante questão é sobre a remissão da pena, a cada seis dias de estudo o aprisionado tem a remissão de um dia de pena, enquanto a cada três dias de trabalho, o aprisionado tem direito a um dia de remissão da pena, além do fato que o trabalho propicia um valor mensal, que pode ajudar na renda da família do mesmo. (FRANZIN, 2010, p. 19). Por esse motivo, a autora salienta que muitos indivíduos preferem o trabalho ao estudo.

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Outro fato que merece ser destacado, é a diferença entre o trabalho feminino e masculino. As mulheres trabalham com serviços braçais, nas próprias penitenciárias ou em órgãos públicos como por exemplo o Departamento de Trânsito (DETRAN), as detentas saem de madrugada, trabalham o dia todo, chegam ao fim da tarde e vão para a escola, por esse motivo elas acabam tendo um rendimento inferior aos homens, que são mais ociosos, pois passam os dias em suas celas, a maior parte do tempo deitados ou dormindo. Conforme Franzin salienta: “a rotina das mulheres na prisão é muito mais exaustiva que a dos detentos do sexo masculino”. (FRANZIN, 2010, p. 19).

Através das questões discutidas é importante perceber que o professor se vê como um possível transformador da sociedade, no entanto para que isso aconteça é necessário que esse educador tenha colaboração dos carcerários e de toda a equipe participante, pois como afirma Franzin:

Outro problema apontado pelos professores é a atitude dos funcionários, que não compreendem, não aceitam, nem apóiam a educação escolar no presídio. Muitos acham que os encarcerados não merecem e não têm direito à educação e há aqueles que afirmam que os presos não levam a sério os estudos e usam a escola para fins secundários. Os funcionários que pensam assim, geralmente, não aceitam os professores, nem o seu relacionamento com os presos, principalmente quando se

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caracteriza pelo diálogo, respeito e valorização do outro. Muitas vezes, o agente tem uma oposição ao fato dos detentos estudarem, os professores são chamados por esses de babá de preso. Isso se deve à visão do agente penitenciário de que o preso esta lá para sofrer. (FRANZIN, 2010, p. 19). Para transformar um ambiente em um local educativo, é necessário que toda a equipe defina práticas de conduta onde os indivíduos sintam-se respeitados e tratados com dignidade, para que seja possível tornar as penitenciárias locais que possam reabilitar os aprisionados para a vida em sociedade.

Além disso, o ideal seria que os professores tivessem uma maior participação nas definições das políticas educacionais, possibilitando uma maior autonomia no seu trabalho pedagógico. Segundo Onofre “há que se assinalar também, que a participação dos professores na definição das políticas educacionais tem sido limitada, e esse fator prejudica a concretização das mudanças desejadas” (ONOFRE, 2012, p. 209). Muitos avanços ocorreram desde a antiguidade até os dias atuais. Atualmente os sistemas prisionais contam com muitos avanços e políticas que garantem o acesso à educação para os privados de liberdade, no entanto percebe-se a necessidade de uma maior participação nas decisões por parte do professor, para uma verdadeira efetividade de seu trabalho.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com este trabalho conseguimos perceber alguns fatores importantes para reflexão, as leis garantem que os apenados tenham direito a educação, para que após o cumprimento da pena, esses indivíduos possam se reintegrar em sociedade e o professor possuí um papel muito importante para concluir esse objetivo.

Algumas questões como uma maior remissão da pena para os aprisionados que trabalham, incluindo o fato que se recebe um salário que pode ajudar as famílias, fazem com que a muitos indivíduos deem a preferência ao trabalho do que ao estudo. A diferenciação do trabalho de homens e mulheres, gera uma grande sobrecarga nas apenadas do sexo feminino e consequentemente dificulta a possibilidade de estudar.

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Fica evidente que as políticas educacionais dos sistemas prisionais possuem um discurso muito importante e necessário, “reabilitar” o indivíduo para conviver em sociedade. No entanto o funcionamento dessas instituições e a pouca discussão das políticas educacionais com os professores, tornam difíceis e contraditórias as possibilidades de concluir os objetivos propostos e garantidos por leis.

REFERÊNCIAS

BRESCIANI, Maria Stella Martins. Lógica e dissonância. Sociedade de trabalho: lei,

ciência, disciplina e resistência operária. Revista Brasileira de História, v. 6, n. 11, p.

7-44, 1985.

FRANZIN, Karla Fassio. Cela de aula: representações da educação por professores

que trabalham dentro do Sistema Penitenciário. Curitiba, 2010.

GOVERNO DO ESTADO DO PARANÁ. Plano Estadual de Educação no Sistema

Prisional do Paraná. Secretaria de Estado Educação. Secretaria de Justiça, Cidadania e

Direitos Humanos. Curitiba, 2012. Disponível em: <http://www.depen.pr.gov.br/arquivos/File/EducacaoeTrabalho/planoedu.pdf>. Acesso 07. Set. 2020.

ONOFRE, Elenice Maria Cammarosano. Desafio histórico na educação prisional

brasileira: ressignificando a formação de professores... Um quê de utopia?. Revista

HISTEDBR On-Line, v. 12, n. 47, p. 205-219, 2012.

SAVIANI, Dermeval. Pedagogia Histórico - Crítica, quadragésimo ano: Novas aproximações - Campinas, SP: Autores Associados, 2019 (coleção educação contemporânea).

Referências

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