Superior Tribunal de Justiça
AgRg no RECURSO ESPECIAL Nº 1.304.262 - PB (2012/0031977-1)
RELATOR : MINISTRO JORGE MUSSI
AGRAVANTE : ROGÉRIO JORGE DE FRANÇA ADVOGADO : DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO AGRAVADO : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
EMENTA
AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL.
INSTALAÇÃO E OPERAÇÃO CLANDESTINA DE RADIODIFUSÃO PARA PRESTAÇÃO DE SERVIÇO DE ACESSO À INTERNET . CRIME CONTRA AS TELECOMUNICAÇÕES. ART. 183 DA LEI 9.472/97. CONDUTA TÍPICA. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. INAPLICABILIDADE. CRIME DE PERIGO ABSTRATO. INSURGÊNCIA DESPROVIDA.
1. Ao agravante é atribuída a conduta de prestar, sem autorização da ANATEL, o serviço de acesso à internet à terceiros, mediante a instalação e funcionamento de equipamentos destinados para tal fim.
2. No âmbito do Superior Tribunal de Justiça prevalece o entendimento no sentido de que tal conduta, nos moldes como narrada na exordial acusatória ofertada na hipótese, é apta a configurar, em tese, o delito previsto no artigo 183 da Lei n. 9.472/97. Precedentes.
3. O fato do artigo 61, § 1º, da Lei n. 9.472/97 disciplinar que não constitui serviço de telecomunicação qualquer serviço de valor adicionado não implica no reconhecimento, por si só, da atipicidade da conduta atribuída ao agravante, tendo em vista que a prestação de serviço à internet engloba as duas categorias de serviço mencionadas.
4. Esta Corte Superior de Justiça também já firmou posicionamento no sentido de que o princípio da insignificância não tem aplicabilidade na hipótese, já que se trata de delito de perigo abstrato. Precedentes.
5. Agravo regimental desprovido.
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas a seguir, por unanimidade, negar provimento ao agravo regimental.
Os Srs. Ministros Gurgel de Faria, Newton Trisotto (Desembargador Convocado do TJ/SC), Leopoldo de Arruda Raposo (Desembargador convocado do
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TJ/PE) e Felix Fischer votaram com o Sr. Ministro Relator.
Brasília (DF), 16 de abril de 2015(Data do Julgamento)
MINISTRO JORGE MUSSI Relator
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AgRg no RECURSO ESPECIAL Nº 1.304.262 - PB (2012/0031977-1)
AGRAVANTE : ROGÉRIO JORGE DE FRANÇA ADVOGADO : DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO AGRAVADO : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
RELATÓRIO
O SENHOR MINISTRO JORGE MUSSI (Relator): Trata-se de agravo regimental interposto por ROGÉRIO JORGE DE FRANÇA, contra a decisão monocrática de fls. 216/220, por meio da qual, com fundamento no artigo 557, § 1º-A, do Código de Processo Civil, combinado com o artigo 3º do Código de Processo Penal, foi dado provimento ao recurso especial ministerial para cassar o acórdão proferido pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região por ocasião do julgamento do HC n. 4444/PB, determinando-se o prosseguimento da ação penal.
Sustenta o agravante, representado pela Defensoria Pública da União, que a conduta que lhe foi atribuída na exordial acusatória seria atípica, pois não configuraria atividade clandestina de serviços de telecomunicações, de acordo com o que preceitua o artigo 61, § 3º, da Lei n. 9.472/97.
Alega que a atividade exercida no Brasil pelos provedores de acesso à
internet seria considerada serviço de valor adicionado, razão pela qual não tipificaria
o delito previsto no artigo 183 da Lei Geral das Telecomunicações.
Defende, ainda, que a conduta que lhe foi atribuída não ocasionou nenhuma lesão a bem jurídico tutelado pela norma penal, razão pela qual deveria ser reconhecida a sua atipicidade material, aplicando-se o princípio da insignificância.
Requer a reconsideração da decisão agravada ou o provimento do agravo para que esta seja reformada, mantendo-se o acórdão proferido pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região que determinou o trancamento da ação penal deflagrada em seu desfavor.
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AgRg no RECURSO ESPECIAL Nº 1.304.262 - PB (2012/0031977-1)
VOTO
O SENHOR MINISTRO JORGE MUSSI (Relator): A insurgência é tempestiva, tendo em vista que interposta aos 19.3.2015 (fl. 228), sendo certo que a Defensoria Pública da União foi pessoalmente intimada da decisão agravada aos 17.3.2015 (fl. 225), respeitado, portanto, o prazo legal.
Da leitura das razões do agravo regimental, constata-se que todos os argumentos declinados pela Defensoria Pública da União foram objeto de análise na decisão agravada, razão pela qual, para que se evite desnecessária tautologia, transcreve-se o seu teor, submetendo-se os seus fundamentos à apreciação do Órgão Colegiado:
Não obstante as ponderações exaradas pela Defensoria Pública da União acerca de óbices ao conhecimento do presente recurso especial, constata-se a viabilidade da análise do seu mérito, tendo em vista que preenche todos os requisitos de admissibilidade.
Com efeito, o objeto da irresignação cinge-se ao debate da possibilidade dos fatos atribuídos ao recorrido na exordial acusatória configurarem ou não o delito descrito no artigo 183 da Lei n. 9.472/97, tema que não demanda qualquer revolvimento de prova apto a atrair a incidência da Súmula 7/STJ, como sugerido nas contrarrazões.
Ademais, o recorrente se desincumbiu a contento do seu ônus de demonstrar a divergência jurisprudencial, tendo em vista que apontou a existência de julgados diversos proferidos por Tribunais pátrios sobre uma mesma base fática, circunstância que autoriza e reclama a atuação desta Corte Superior de Justiça na hipótese. No que diz respeito ao mérito recursal, infere-se que ao recorrido é atribuída a conduta de prestar, sem autorização da ANATEL, o serviço de acesso à internet à terceiros, mediante a instalação e funcionamento de equipamentos destinados para tal fim.
Entretanto, no âmbito do Superior Tribunal de Justiça prevalece o entendimento no sentido de que tal conduta, nos moldes como narrada na exordial acusatória ofertada na hipótese, é apta a configurar, em tese, o delito previsto no artigo 183 da Lei n. 9.472/97, conforme se infere dos
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seguintes precedentes:AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. CRIME CONTRA AS TELECOMUNICAÇÕES. SERVIÇOS DE INTERNET. EXPLORAÇÃO CLANDESTINA. ART. 183 DA LEI N. 9.472/1997. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. INAPLICABILIDADE. AGRAVO NÃO PROVIDO.
1. Conforme entendimento deste Superior Tribunal de Justiça, a transmissão clandestina de sinal de internet, via rádio, sem autorização da Agência Nacional de Telecomunicações, caracteriza, em tese, o delito previsto no artigo 183 da Lei n. 9.472/1997.
2. Inaplicável o princípio da insignificância ao delito previsto no artigo 183 da Lei n. 9.472/1997, pois o desenvolvimento clandestino de atividades de telecomunicação é crime formal, de perigo abstrato, que tem como bem jurídico tutelado a segurança dos meios de comunicação.
3. Agravo regimental não provido.
(AgRg no AREsp 383.884/PB, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em 07/10/2014, DJe 23/10/2014)
AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. REPRESENTAÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO. ESTAÇÃO DE INTERNET VIA RÁDIO. AUSÊNCIA DE AUTORIZAÇÃO LEGAL. CRIME CONTRA A SEGURANÇA DAS TELECOMUNICAÇÕES. ART. 183 DA LEI N. 9.472 /1997. RECURSO MINISTERIAL PROVIDO.
1. A conduta supostamente típica, imputada ao ora agravante, consubstancia-se na exploração de serviços de comunicação multimídia (Internet via rádio), sem a devida autorização e licenciamento da Agência Nacional de Telecomunicações - ANATEL. 2. O Juiz de primeiro grau indeferiu a representação de busca e apreensão proposta em desfavor do recorrente, nos autos do inquérito policial, por entender que a exploração de serviços de provedor de internet não configura serviço de telecomunicação.
3. Inconformado, o Ministério Público apelou, alegando que a conduta do investigado se enquadra, em princípio, no art. 183 da Lei n. 9.472/97, independentemente de haver ou não comercialização do serviço ou de haver ou não
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incidência do ICMS, tendo a Corte de origem negado provimento ao recurso.
4. A decisão ora impugnada deve ser mantida por seus próprios fundamentos, pois, conforme entendimento da Terceira Seção desta Corte, transmitir sinal de internet, via rádio, de forma clandestina, caracteriza, em princípio, o delito insculpido no art.
183, da Lei n. 9.472/97.
5. Registre-se que as informações veiculadas no site da ANATEL esclarecem que "o provimento de acesso à Internet via radiofrequência, na verdade compreende dois serviços: um serviço de telecomunicações (Serviço de Comunicação Multimídia), e um Serviço de Valor Adicionado (Serviço de Conexão à Internet). Portanto, a atividade popularmente conhecida como "Internet via rádio" compreende também um serviço de telecomunicações".
6. Assim, verifica-se que o agravante não trouxe tese jurídica nova capaz de modificar o posicionamento anteriormente firmado, sendo certo que a sua conduta será melhor investigada nos autos do inquérito policial, após o cumprimento do mandado de busca e apreensão.
7. Agravo regimental a que se nega provimento. (AgRg no REsp 1349103/PB, Rel. Ministro OG FERNANDES, SEXTA TURMA, julgado em 06/08/2013, DJe 02/09/2013)
O fato do artigo 61, § 1º, da Lei n. 9.472/97 disciplinar que não constitui serviço de telecomunicação qualquer serviço de valor adicionado não implica no reconhecimento, por si só, da atipicidade da conduta atribuída ao recorrido, tendo em vista que a prestação de serviço à internet engloba as duas categorias de serviço mencionadas, conforme esclarece a ANATEL:
4. Provimento de acesso à internet via rádio é Serviço de Telecomunicações ou Serviço de Valor Adicionado?
O provimento de acesso à Internet via radiofrequência, na verdade compreende dois serviços: um serviço de telecomunicações (Serviço de Comunicação Multimídia), e um Serviço de Valor Adicionado (Serviço de Conexão à Internet). Portanto, a atividade popularmente conhecida como 'Internet via rádio' compreende também um serviço de telecomunicações. (Em:
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<http://www.anatel.gov.br/Portal/exibirPortalPaginaE special.do?codItemCanal=1266>. Acesso em 13 março 2015.)
Desta forma, atesta-se a potencialidade da conduta atribuída ao recorrido ofender o bem jurídico tutelado pela norma penal prevista no artigo 183 da Lei n. 9.472/97, razão pela qual não há falar em atipicidade.
Ademais, esta Corte Superior de Justiça também já firmou posicionamento no sentido de que o princípio da insignificância não tem aplicabilidade na hipótese, já que se trata de delito de perigo abstrato.
A propósito:
DIREITO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. 1. RÁDIO COMUNITÁRIA. ART. 183 DA LEI Nº 9.472/97. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. NÃO APLICABILIDADE. 2. PARTICULARIDADES DO CASO CONCRETO. AUSÊNCIA DE SITUAÇÃO QUE JUSTIFIQUE A EXCEPCIONAL APLICAÇÃO DO REFERIDO PRINCÍPIO. 3. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO.
1. Prevalece no Superior Tribunal de Justiça o entendimento no sentido de não ser possível a incidência do principio da insignificância nos casos de prática do delito descrito no art. 183 da Lei nº 9.472/1997. Isso porque se considera que a instalação de estação clandestina de radiofrequência sem autorização dos órgãos e entes com atribuições para tanto - Ministério da Comunicações e ANATEL - já é, por si, suficiente para comprometer a segurança, a regularidade e a operabilidade do sistema de telecomunicações do país, não podendo, portanto, ser vista como uma lesão inexpressiva.
2. Ademais, as particularidades do caso não justificam a excepcional aplicação do referido princípio, pois, conforme assentado no acórdão recorrido, o transmissor tinha potência e transmitia sinais radioelétricos de forma aleatória, o que poderia ocasionar interferência em outros sistemas de transmissão de sinais. Dessa forma, a potência era danosa e susceptível de causar interferência nos meios de comunicação.
3. Agravo regimental a que se nega provimento. (AgRg no REsp n. 1323865/MG, Relator Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, QUINTA TURMA,
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DJe 23/10/2013)PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL. ART. 183 DA LEI N. 9.472/1997. CRIME HABITUAL E FORMAL. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. INAPLICABILIDADE. TIPICIDADE RECONHECIDA. RECEBIMENTO DA DENÚNCIA. POSSIBILIDADE.
1. O crime tipificado no art. 183 da Lei n. 9.472/1997 é habitual, formal e de perigo abstrato, não sendo necessário demonstrar a ocorrência (ou ausência) de prejuízo.
2. Assim, não há como reconhecer o reduzido grau de reprovabilidade ou a mínima ofensividade da conduta, haja vista que, para a configuração do crime em questão, basta a prática habitual de atividade de telecomunicação sem a devida autorização dos órgãos públicos competentes (AgRg no REsp n. 1.257.339/RJ, Ministro Og Fernandes, Sexta Turma, DJe 14/5/2013).
3. Não sendo aptos os argumentos trazidos na insurgência para desconstituir a decisão agravada, deve ela ser mantida pelos seus próprios fundamentos.
4. Agravo regimental improvido.
(AgRg no REsp n. 1186677/DF, Relator Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, DJe 28/10/2013)
Não havendo na irresignação qualquer outro fundamento que justifique a reanálise das teses jurídicas que constituem o objeto do recurso especial, é imperiosa a manutenção da decisão agravada por seus próprios fundamentos.
Ante o exposto, nega-se provimento ao agravo regimental. É como voto.
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CERTIDÃO DE JULGAMENTO QUINTA TURMA
AgRg no Número Registro: 2012/0031977-1 PROCESSO ELETRÔNICO REsp 1.304.262 / PB MATÉRIA CRIMINAL Números Origem: 00107872920114050000 107872920114050000 200882000081124 201003400757
4444 81123920084058200
EM MESA JULGADO: 16/04/2015
Relator
Exmo. Sr. Ministro JORGE MUSSI Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro JORGE MUSSI Subprocuradora-Geral da República
Exma. Sra. Dra. ÁUREA M. E. N. LUSTOSA PIERRE Secretário
Bel. MARCELO PEREIRA CRUVINEL
AUTUAÇÃO
RECORRENTE : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
RECORRIDO : ROGÉRIO JORGE DE FRANÇA
ADVOGADO : EDUARDO VALADARES DE BRITO - DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO
ASSUNTO: DIREITO PENAL - Crimes Previstos na Legislação Extravagante - Crimes contra as Telecomunicações
AGRAVO REGIMENTAL
AGRAVANTE : ROGÉRIO JORGE DE FRANÇA
ADVOGADO : DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO
AGRAVADO : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
CERTIDÃO
Certifico que a egrégia QUINTA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
"A Turma, por unanimidade, negou provimento ao agravo regimental."
Os Srs. Ministros Gurgel de Faria, Newton Trisotto (Desembargador Convocado do TJ/SC), Leopoldo de Arruda Raposo (Desembargador convocado do TJ/PE) e Felix Fischer votaram com o Sr. Ministro Relator.