QUISSAK JR.
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A meu Pai Quissak
Júnior Ernesto QuissakDe plano quero agradecer à estimada
Professora Irmã Olga de Sá e à Professora Sonia Siqueira pelo honroso convite para tecer algumas breves palavras à guisa de apresentação desta edição da prestigiosa Revista Ângulo alusiva ao Artista Quissak Junior. De fato, o vasto acervo de informações, textos e imagens aqui contido fala por si, notadamente por revelar-se cuidadosa obra de garimpo, de pesquisa e estudo da renomada Irmã Olga de Sá e seus colaboradores, trazendo à luz textos inéditos de Quissak Junior, revendo obras pictóricas do artista, além de dados biográficos e uma preciosa entrevista a lhe coroar ao final.
Falar de Quissak Junior é para mim algo singular, pois que foi ele meu primeiro mestre na seara do pensamento em seu aspecto mais esférico. De nossas infinitas conversas e vivências enquanto pai e filho sempre restava eu como seu eterno Aprendiz, coisa que deveras até hoje ocorre, em que pese terem transcorridos dezesseis anos do seu falecimento, ocorrido em 2001. De fato, sua obra – artística, literária e poética – permanece, e aqui nesta edição da Revista Ângulo temos significativo apanhado. O legado artístico de Quissak Junior fala por si, e continuará a levar sua mensagem de Luz, Esperança e Humanidade no curso do tempo a gerações sem conta, pois que é imortal – dom daquilo que carrega a Verdade em sua essência e porque. Deixo assim de repassar dados biográficos outros que aqui nesta obra podem ser encontrados em profusão, citações, informações e referências, que aqui bem restam assinaladas. Deveras, muitos dos textos aqui lançados são inéditos, notadamente os poéticos e filosóficos, e se revelam rico manancial a evidenciar a profundidade do pensador Quissak Junior, autor de extensa obra, não só pictórica, portanto. Textos outros, de conotação política e sociológica, ainda restam inéditos e quiçá venham à luz em oportuna obra. Inobstante, releva notar a abrangência
deste trabalho tão cuidadoso da Professora Irmã Olga de Sá e seus colaboradores: contribuição ímpar para a Cultura nacional, pois que repositório relevante da obra poética e filosófica de Quissak Junior, pontilhando imagens de algumas de suas obras pictóricas, selecionadas dentre as milhares que pintou no curso de longa trajetória artística de mais de cinco décadas. Já na dedicatória, de lavra do próprio Artista, se revela pujante o humanismo que lhe vestia a alma e a sua perene esperança no alvorecer de uma Nova Era, plena de entendimento, amor e fraternidade, onde o Homem, “Suprema Finalidade”, no seu dizer e Norte reiterado, pudesse revelar-se em toda sua grandeza e majestade. Adiante é destacada sua trajetória enquanto professor, conferencista e artista. Suas séries pictóricas contavam com denominações poéticas que indicavam a profundidade do conteúdo artístico de cada qual, bastando citar “A Gaiola Iluminada”, “O Semeador de Invisíveis” e “O Espólio do Poeta”. Catedrático de Geometria Descritiva, afeto ao esquadro e ao compasso, Quissak Junior fez do pincel o malho e da tinta o cinzel, esculpindo e polindo a Pedra Bruta, fazendo brotar do linho frio a Beleza em forma e cor só suas, perfeitamente esquadrinhadas, na Justa e Perfeita Medida. Estudioso de Helena Blavatsky e de esoteristas sem conta, fez dos conhecimentos adquiridos sabedoria em forma de cor e traço, palavra e verso, nos legando imensa obra, que hoje nos é apresentada em parte nesta edição da Revista Ângulo e futuramente, estimo, possa ser objeto de compilação exaustiva e de um Catálogo Raisonné contendo suas milhares de obras.
Por derradeiro, fica minha gratidão desmedida, e de toda a Família Quissak, pela homenagem prestada ao meu amado pai por intermédio desta edição primorosa alusiva à sua obra. Quiçá lá no Oriente Eterno, fazendo par com outros mestres artistas no Grande Atelier Celestial, Quissak Junior continue discursando, pintando e escrevendo, deixando transbordar doutro plano suas cores e palavras, como na presente edição da Revista Ângulo, continuando a iluminar nossos caminhos...
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A Obra e o Homem
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Ernesto Sérgio Silva Quissak, mais conhecido como Quissak Jr., nasceu em Guaratinguetá, velha cidade paulistana, a 18 de setembro de 1935, onde ainda reside (hoje falecido) com sua mulher Wilma Souenir e seus cinco filhos: Ernesto, Wagner, Carla, Sérgio e Cláudia.
É na profundidade e na dimensão da sua vivência em família, que ele constroi seu trabalho, em que procura penetrar no âmbito do mistério e das sensações do homem comum.
É justamente esse fato que o torna tão humano – o artista e o trabalho – que busca num tema aparentemente simples, as suas raízes mais profundas. É o mergulho definitivo ao encontro da verdade transcendental no cotidiano e nas pequenas coisas; dentro deste universo encontra mil nuances e a sua mensagem e o seu delírio são sempre os mesmos: o próprio Homem.
Filho de Elvira e Ernesto Quissak, teve no pai o único mestre; o exemplo é impulsionador, pois este se destacou como educador incansável, considerado também pela crítica da época o maior artista do Vale do Paraíba; autodidata, ingressou aos doze anos na vida artística do Rio de Janeiro e era expositor assíduo dos salões oficiais brasileiros e criador de vários salões de Arte. Poeta, pintor e idealista acima de tudo, foi com ele que Quissak Jr. teve os primeiros ensaios na Arte, e sua primeira fase traz a influência do estilo romântico do pai.
"A Arte nasceu em mim quando meu pai morreu" – com essa frase Quissak Jr. define o que tenha sido o rompimento do invólucro onde estava encerrada toda a sua expansão em termos de originalidade e criatividade. No leito de morte, a comunicação muda entre pai e filho – para ambos a Arte era o meio mais sublime de realização humana – significou a compreensão de todo o caminho que devia percorrer, sem nunca se deter em barreira ou obstáculo algum e isso ele chama o renascimento da Arte em si, o entendimento silencioso do espírito e de seu destino.
As dificuldades que enfrentou sempre no campo financeiro, a responsabilidade de uma família, a crítica dos que se interessavam no seu não-reconhecimento no meio artístico, não puderam arrefecer-lhe essa energia e entusiasmo pelo trabalho. Ao contrário, encarou sempre a sua vocação na Arte como ideal indissolúvel, e tudo o que aprimorou e descobriu foi fruto de pesquisa e renovação constante.
Paralelamente ao seu aprofundamento na Arte, desde cedo também escolheu e se entusiasmou pelo magistério. Realizou seus estudos no Instituto de Educação Conselheiro Rodrigues Alves, formando-se professor em 1954, com dezenove anos. Iniciou-se no magistério, no ano seguinte, efetivando-se em 1957, por concurso, nas cátedras de Desenho Geral e Pedagógico. Há apenas quatro anos pediu exoneração do cargo, no mesmo Instituto onde estudou e seu próprio pai havia lecionado.
Conferencista, preocupou-se, além do ensino, com a divulgação da Arte, ao mesmo tempo em que realizava suas Exposições notadamente em cidades do interior, carecedoras desse tipo de iniciativa. Ele acredita que o homem, principalmente no magistério, não deve ser apenas transmissor de cultura, mas também criador. Assim existe a renovação constante do patrimônio cultural, além de que faz o homem crescer em todos os sentidos.
A criação é analisada em todos os seus aspectos no seu depoimento transcrito posteriormente – e diz:...
"Creio na tecnologia e na sua cola-boração as Artes, mas ‘apenas’ tec-nologia não produz Arte. Ao preten-der ‘encampá-la’ o resultado será uma obra de verdade cientifica – tecnológica possivelmente colorida de beleza e não uma obra estética tecnicamente bem realizada... Creio no consumo e na necessidade de co-municação. Porém não é a quantida-de (programadamente produzida ou promocionalmente consumida) que levará a uma maior comunicação."
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Nota-se uma preocupação constante em valorizar o Homem como ele também diz:
[...] Penso no final positivo e no reconhecimento do Infinito. Não restrinjo pois, a criação, à conside-ração de posicionamento linear e horizontal. Vejo-a, isso sim, numa postura geométrica de absoluta verticalidade, positivamente defi-nitivamente definida mergulhando no mistério que milenarmente de-safia o gênio humano...
Essa postura vertical a que ele se refere -
o reconhecimento do infinito, a integração do Homem ao Todo – é a postura em que ele busca sempre estar, o espírito alertado no imenso manancial de que brotam suas criações.
Para cada série de trabalho existe uma ideia principal e é em torno dela que tudo será desenvolvido. Então ele se encerra em seu atelier, (foi denominado certa vez de o recluso de Guaratinguetá) e nada nem ninguém o perturba nessa criação febril, quando se absorve totalmente no trabalho, até que toda a mensagem tenha sido dita nas inúmeras telas que compõem a série.
Os instrumentos dessa mensagem são figuras humanas, modelo de sua mulher e (ou) seus filhos que retratam uma atmosfera lívida de paz e ternura, reflexo da mesma atmosfera que existe na comunicação entre eles e o mundo interior do artista, que se justifica quando disse certa vez ao pintar uma série de Mães e filhos:
[...] Cabe à mulher o papel ímpar de sendo esposa e mãe, ser a modeladora dos caracteres da própria humanidade. Possui o dom de enaltecer e dignificar o homem. Essa é a força da mulher – pela simples razão de ser esta a força do amor. E ainda em outra ocasião:... Como não posso pintar toda a humanidade, hoje quero pintar a pequena parte dela que vive comigo.
Quando uma ideia está amadurecida como um fruto esperado e no devido tempo para ser colhido, só aí então, ele se encerra para o trabalho. Seu maior desafio é a tela em branco, onde a imaginação constrói e molda, e seus olhos e sua mente percorrem o espaço vazio até que a ideia do quadro esteja formada.
Esboço rápido são feitos com os modelos das crianças e da esposa. São espaços enormes que ele preenche com cores vibrantes de tinta acrílica e cada pincelada participa do desenho e do tema.
As séries de trabalho têm cada uma o seu título, encerrando um porquê de significado ainda maior, entre elas:
O pequeno festival da crucificação, A máquina de fazer sonhos, Perspectivas do olhar, Meditação circular etc..
Na série A máquina de fazer sonhos, por exemplo, sua mulher Wilma é retratada costurando ou passando a ferro enormes mantos, onde o panejamento cai ondulante com desenhos geométricos. Como o artista imaginou, quando a mulher costura, a máquina a transporta a um mundo de sonhos, viagens por reinos fantásticos que só ela realiza, desprendendo-se de tudo a seu redor. Assim cada trabalho encerra histórias que são contadas silenciosamente a quem se detém e observa.
O importante para Quissak Jr. é justamente seu aprofundamento na maneira de dizer o que sente. Não frequenta rodas de bate-papos entre artistas, e a crítica não interfere em sua maneira de ser ou de transmitir o que acredita ser verdade. A família é importante e seu papel dentro dela é ainda mais; por isso procura equilibrar sua constante atividade artística para não prejudicar esse papel.
Seus trabalhos já foram expostos em dezoito Exposições individuais entre elas na:
- Chelsea Gallery em 1968, 1971, 1972, 1973.
- Na Galeria Bonino em 1969 e 1971 - Na Galeria do Centro Cultural Brasil – Estados Unidos em 1968 e 1970.
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Figurou em muitas Exposições Coletivas, dentre outras no:
- Salão Nacional de Belas Artes. - Associação Paulista de Belas Artes. - Salão de Arte da Galeria das Folhas – 1964.
- No Museu Assis Chateaubriand de São Paulo.
- Salão Esso de Artistas Jovens no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – 1965.
- Exposição Itinerante do Conselho Estadual de Cultura.
- No Paço das Artes da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo de 1969 a 1971.
- No Teatro Brasileiro de Comédia, em 1970.
- Em Nova York e Chicago, em mostras brasileiras organizadas pela Chelsea Gallery em 1970.
- No primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto e sétimo Panoramas da Arte Brasileira do Museu de Arte Moderna de São Paulo de 1969, 1970, 1971, 1972, 1973, 1974 e 1976.
- Em Washington e outras cidades americanas através da “The Inter American Foudation For the Arts” – 1966 em diante.
- Exposição do Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo.
- X Bienal Internacional de São Paulo com desenhos – 1969.
- VIII Bienal Internacional de São Paulo em pinturas e desenhos em 1967.
- Em mostras organizadas pelo Ministério das Relações Exteriores com obras do M.A.M.S.P.. Em vários países – 1971 em diante.
- Em 1965, seu nome explodiu por ocasião da VIII Bienal Internacional de São Paulo, quando teve a totalidade dos
15 trabalhos apresentados (pinturas, desenhos, esculturas) aprovados pelo júri, numa das mais severas seleções já realizadas.
- Figurou na IX Bienal, com a série Polípticos Móveis da Bandeira Nacional, -
Coloquei a Bandeira frente a todos para que o povo participasse diretamente de sua mística e a redescobrisse na gênese de seus elementos e na dinâmica de sua evolução. Esses Polípticos
pertencem agora ao acervo do Palácio Bandeirantes do Governo do Estado de São Paulo.
- Figurou na X Bienal de São Paulo, onde obteve o prêmio Itamaraty, já com obras essencialmente figurativas.
- Participou de coletivas na Galeria Time-Life em New York, na Universidade de Miami, na Universidade de Darmouth, etc.. na mostra Dezessete pintores Latino-Americanos da Fundação Internacional para as Artes.
- Figurou na mostra inaugural do Paço das Artes. Atualmente figura em coletivas organizadas pela Chelsea Gallery em Chicago e New York.
- Possui trabalhos na Galeria do Palácio dos Arcos em Brasília, no M.A.M.S.P., na Pinacoteca do Estado de São Paulo, no Palácio dos Bandeirantes do Governo do Estado de São Paulo, em Galerias de Arte e coleção particulares no Brasil e exterior, no acervo do Museu de Arte Assis Chateaubriand etc..
- Exerceu em 1970 a chefia do Setor de Comunicações Culturais do Conselho Estadual de Cultura de São Paulo.
Após dezessete anos de serviços prestados ao magistério paulista requereu exoneração do seu cargo para dedicar-se exclusivamente à pesquisa e divulgação de Arte, tendo em vista a sua Reumanização e
em função de sua tese – O Homem – Suprema Finalidade.