Introdução ao Estudo do Direito II
I.Regra Jurídica 1.Noção
A regra Jurídica comporta como elementos: A previsão ( elemento da regra jurídica, que define as condições em que ela é aplicada, tem um caráter representativo e constitutivo porque constitui um determinado facto com relevância jurídica e ainda tem um caráter referencial, porque se refere a um facto) e a estatuição ( elemento da regra jurídica na qual se define a consequência jurídica que decorre da sua aplicação. Tem 2 elementos, o operador deôntico que mostra o que a regra pretende transmitir ao destinatário e o objeto, que estabelece a relação da regra com um “estado de coisas” a “constituir ou evitar”, tem ainda um caráter auto-referencial, porque a própria constrói a sua referência).
a. Aspetos Gerais
Toda a regra é necessariamente um critério que permite apreciar e
ordenar os fenómenos, para o Direito a regra é meramente um critério de decisão, ela surge como medianeira da solução jurídica de casos
concretos. No entanto nem todo o critério jurídico de decisão é uma regra jurídica, os critérios podem ser: materiais (critérios normativos) e formais (a equidade por exemplo, dá uma orientação que permite através de uma valoração alcançar em concreto a solução do caso). A regra jurídica é um critério material , ela própria contém uma apreciação sobre uma categoria de situações, esta apreciação pode ser expressa pela
palavra qualificação. A regra jurídica permite portanto qualificar os casos concretos e torna por esse meio possível a decisão.
b. Princípios e jurídicos e regras jurídicas
Dworkin define “princípio “ como: um padrão que deve ser observado não para assegurar uma situação económica, politica ou social vista como desejável, mas como um requisito da justiça ( exemplo: O
princípio de que o homem não deve lucrar do próprio erro ou fraude).A distinção entre princípios e regras pode ser feita por vários critérios (defendidos por Alexy), nomeadamente:
● Generalidade: Princípios ( normas com grau de generalidade alto,
por exemplo: Liberdade de Crença) e as Regras ( normas com grau de generalidade relativamente baixo, por exemplo: todo o preso tem o direito de converter outros presos à crença)
● Existem algumas distinções tipícas (determinabilidade dos casos
de aplicação; forma do seu surgimento; caráter do conteúdo
axiológico; importância para a ordem jurídica; referência à ordem jurídica), que não permitem a distinção concreta como as
distinções da tese que se segue;
● Princípios como mandamentos de otimização: os princípios são
normas que ordenam que algo seja realizado na maior medida possível dentro das possibilidades jurídicas e fácticas existentes ( ou seja mandamentos de otimização. São caracterizados por poderem ser satisfeitos em graus variados, a sua satisfação depende de possibilidades fácticas, mas também jurídicas; as
regras, são sempre satisfeitas ou não satisfeitas ( se a regra é válido deve fazer-se aquilo que ela exige);
● Colisões de Princípios e de Regras (também apresentado por
Dworkin): quando as regras colidem, só pode ser solucionado se uma das regras tiver uma cláusula de exceção ( Por exemplo, os alunos só podem sair quando soa a campainha, mas em caso de exceção como se soar o alarme de incêndio podem também sair), ou por invalidez de 1. Se os princípios colidirem, um terá de ceder (não significando a invalidade), e serão resolvidos numa dimensão de peso:
-Lei da Colisão: o princípio da integridade física entra em conflito com o princípio da operabilidade penal, porque um indivíduo não consegue parecer perante uma audiência, devido à tensão que lhe causa um derrame cerebral. A solução seria o estabelecimento de uma relação de precedências condicionadas ( 1 princípio tem precedência face a outro) - Caso de Lebach: Emissora televisiva alemã passa documentário sobre um
dos condenados pelos mesmo crime que estaria quase a sair da cadeia ,por decisão do Tribunal;
● Caráter “prima facie”. O princípio não contém mandamento
definitivo, apenas “prima facie” e exigem que algo seja
realizado na maior medida juridicamente possível). As regras se não tiverem qualquer exceção são definitivas;
● Distinção de Dworkin: Princípios têm peso e importância pelo
que podem ser aplicados pelos juízes em diferentes medidas , já as regras jurídicas têm um caráter do ( “all or nothing”).
c)Generalidade e Abstração
Procurando características jurídicas das regras em si surge a
generalidade, num preceito se a regra não se referir a pessoas ou a casos singulares, consiste-se a generalidade. A generalidade contrapõe-se à individualidade. É geral o preceito respeitante aos cidadãos, individual o respeitante ao cidadão X; geral o preceito sobre os chefes de repartição individual o preceito sobre o chefe de repartição 1º de uma Direção Geral. Sempre que há um sujeito na situação prevista o preceito é
individual? Não, o que interessa para a generalidade é que a lei fixe uma categoria. Se o preceito refere o Presidente da República é geral, se refere a pessoa a exercer o cargo em determinado momento é individual ( de notar que o CC no seu artigo 1º considera leis todas as disposições genéricas).
A abstração contrapõe-se ao que é concreto (o que é ambíguo). Quando se fala de abstração como característica da regra jurídica quer-se
normalmente dizer que os factos e as situações previstas pela regra não hão de estar já verificados; são factos ou situações do futuro que se prevê que sobrevenham. Se se ordena que todos entreguem as armas que
possuírem nos postos, temos generalidade mas não abstração. Se se mandar que as armas que sejam adquiridas futuramente sejam apresentadas nos postos há abstração. Para ser caracterizada pela
abstração, a regra jurídica deveria ser posta sempre para vigorar só de futuro.
d. Previsão e Estatuição:
A divisão das regras jurídicas em previsão e estatuição, corresponde à formulação habitual, pois que nelas a estatuição está normalmente condicionada por uma previsão (p.e. artigo 483º CC). A estatuição determina a consequência jurídica que decorre da verificação da situação. Entre a previsão e a estatuição das regras jurídicas há uma relação de implicação normativa: se ocorrer o facto representado na previsão, então aplica-se o dever estabelecido na estatuição.
i.Caráter Hipotético:
As regras jurídicas são hipotéticas quando só são aplicáveis se se
verificar a sua situação ou o facto que estão previstos na sua factispécie: toda a regra que contém uma previsão. O caráter hipotético refere à circunstância de a aplicação da regra depender da verificação do facto ou da situação que constitui a sua previsão, o que é hipotético é a
verificação. A justificação deste caráter hipotético exprime-se na dificuldade em definir regras que devem ser aplicadas em todas e quaisquer circunstâncias.
ii. Caráter Geral
A regra jurídica pressupõe um tipo um tipo ou um facispécie , nos termos anteriormente referidos , não se referindo a individualidades ou pessoas singulares, constituindo assim a generalidade.
iii. Caráter abstrato:
A abstração não é característica de todas as normas jurídicas, pois existem normas que se referem ao passado ou mesmo ao presente, para ser caracterizado pela abstração, a regra jurídica deveria ser posta sempre para vigorar só de futuro;
2. Classificação
A factispécie pode incluir situações e factos, cumulativa e
disjuntivamente. Quer uns quer outros podem pertencer à previsão normativa. Preenche a previsão normativa pode ter por pressuposto realidades meramente fácticas, como o nascimento ou a morte. Pode também referir-se a situações já valoradas por outras regras, que daquela são pressuposto.
i.Regras Principais e Derivadas:
Quando de uma regra jurídica preexistente se retira uma regra ulterior, pode denominar-se a primeira principal e a segunda derivada;
b. Critério de Sentido i.Regras Autónomas
A regra autónoma é a que tem por si um sentido completo; a não autónoma é a que só obtém em combinação com outras regras
ii. Regras de Conflitos:
Destinam-se a resolver conflitos no espaço e no tempo, quer em relação a qual regra de determinado ordenamento jurídico se deve usar como qual regra entre uma nova e uma antiga é aplicável aquando de uma transição de regras;
iii. Regras de Remissão:
Equiparam 2 situações distintas, aplicando a uma delas o regime jurídico que está previsto para outra;
iv. Regras interpretativas
É a que se limita a fixar o sentido juridicamente relevante de uma declaração preceptiva já produzida ou futura. Pode ainda destinar-se a fixar o sentido de fontes de direito ou negócios jurídicos.
Conceitos de extensão variável, ou seja são conceitos vagos que comportam, quanto ao seu significado um núcleo e um halo ( zona iluminada e zona da penumbra). Um núcleo de significado certo é rodeado por um halo de significado que dissipa gradualmente. Está preenchido não só quando a situação concreta se inclua no seu núcleo, mas também quando essa situação ainda possa ser incluída no halo ou na penumbra desse conceito.
Modalidades:
- indiscutivelmente aplicável ( porque a situação concreta se integra no núcleo do conceito, como as condutas que violem a boa fé)
- manifestamente aplicável ( porque a situação concreta está para além do que pode ser abrangido pelo seu halo; como o comportamento de um trabalhador que foi, pelo que não lhe pode ser imputada nenhuma
violação grave e culposa dos seus deveres profissionais);
- nem manifestamente aplicável, nem claramente aplicável ( sendo certo a situação concreta não cabe no núcleo do conceito, não é no entanto certo que ela não possa ser abrangida pelo seu halo; como a alteração de circunstâncias depois da conclusão do contrato)
Ficções Legais: consideram duas realidades diferentes como idênticas; permitindo-se que a norma que regula o facto Y também que se aplique ao facto X. As ficções são regras não regulam diretamente certa matéria, mas têm de ser combinadas com outras regras para obter o regime
aplicável. O objetivo das ficções é aplicar a um facto diferente as consequências jurídicas de outro facto.
Presunções legais – quando o legislador, devido às dificuldades
decorrentes da prova de certos factos ou situações, entende que provada a existência de um facto, também se considera provada a existência do outro.
i)Separação das ficções nas ficções sabe-se que os factos são diferentes, embora sejam tratados como iguais; nas presunções desconhece-se o
traçado exato do facto ou situação a regular, razão pela qual se recorre a outros já regulados pelo Direito
ii) Tipos de presunções:
Absolutas – insuscetíveis de afastamento através de prova em contrário Relativas – afastadas por prova em contrário
Presunções iuris et de iure- o facto base, por exemplo a outorga num documento de uma certa data faz com que se tenha essa data por adquirida ocorrendo “um elemento de juízo suficiente e concludente a
favor do facto presumido”.
Presunções iuris tantum -a regra de prova legal atribui um resultado probatório parcial ao meio de prova e presume-o iuris tantum com
resultado conjunto da actividade probatória, admitindo em consequência, a incidência dos eventuais meios de prova adicionais desvirtuem o
resultado
c) Critério dos efeitos:
Regras preceptivas-são as que impõe uma conduta. Por exemplo: as normas que impõem a comparência em juízo ou a entrega de certos produtos em armazéns gerais.
Regras proibitivas- são as que se vedam em condutas. Quase todas as normas penais são proibitivas.
Regras permissivas- são as que permitem certa conduta. Assim, a norma que atribui ao proprietário faculdades de uso, fruição e disposição das coisas que lhe pertencem é uma regra permissiva ( como subdivisão existem as sivassubordinantes que são aquelas em que a permissão dada a uma pessoa que tem como contrapartida necessária a sujeição, imposta a outra das consequências daquele agir. Como as regras que atribuem os direitos potestativos, como os de separação ou de divórcio);
Regra Especial- uma regra é especial em relação a outra quando sem contrariar substancialmente o princípio naquela contido a adapta a um domínio particular
Regra Excecional- definem um regime jurídico contrário àquele que consta da regra geral. Portanto, enquanto as regras especiais adaptam o regime geral, as regras excecionais contrariam o regime geral.
e) Critério da Disponibilidade:
Segundo este critério as regras tanto podem ser injuntivas como supletivas: Regras Injuntivas- são as regras que são aplicadas ainda que haja uma manifestação contrária dos seus destinatários.
Regras Supletivas- são as regras que apenas são aplicadas na falta de regulação da matéria pelos interessados.
II.Interpretação, integração e aplicação de regras jurídicas:
1. Aspetos comuns: a) Hermenêutica Jurídica:
Uma orientação cuja premissa essencial é a de que não há significados, mas antes atribuições de significados com base em certas regras. Resulta quer do caráter prático da interpretação e da sua ligação com o caso, quer da posição de que “o significado de uma palavra é o seu uso na linguagem e de que compreender uma regra é saber aplica-la
2. Interpretação a) Justificação:
A interpretação jurídica é a atividade através da qual se compreende uma fonte de direito. A interpretação é o meio através da qual o intérprete compreende o sentido do texto, que se lhe tinha deparado como problemático.
b) Finalidade:
● Interpretação Subjetivista: a finalidade da interpretação é a
reconstituição da intenção do legislador subjacente á produção da lei; ● Interpretação Objetivista: a finalidade da interpretação é a
determinação do significado objetivo da lei, que tenha sido a intenção do legislador;
Estas desdobram-se em:
- subjetivista historicista- o significado da lei é aquele que o legislador lhe deu no momento da sua elaboração;
-subjetivista atualista- significado da lei é aquele que o legislador lhe daria se tivesse de legislar na atualidade;
- objetivista historicista- significado da lei é aquele que ela tinha no momento da sua criação;
- objetivista atualista- o significado da lei é aquele que ela tem na sua atualidade;
Interpretação autêntica: Pressupõe dois requisitos:
- A interpretação é autêntica é vinculativa para todos os aplicadores do Direito ainda que esteja errada;
- Deve ser feita por uma nova norma que se dirige a fixar o sentido da norma anterior e que tem valor igual ou superior ou igual;
c) Elementos de interpretação:
Interpretar uma fonte de direito é inferir através da aplicação da fonte a certos casos, a regra que nela se contém. A aplicação tem de observar diversas regras específicas da interpretação jurídica denominadas de
elementos da interpretação. Estas regras possibilitam , escolher entre várias interpretações possíveis da fonte interpretada e determinar se a
interpretação realizada é correta ou incorreta.
Como elementos da interpretação há que considerar o elemento literal e lógico. A interpretação da lei é realizada através da interpretação da letra da
lei artigo 9º CC, que na sua alínea nº1 explica que pretende que o intérprete encontre o seu espírito da lei a partir da sua letra com base na sua história, na sua sistemática e teleologia.
Hierarquia dos elementos:
No âmbito de um sistema móvel ( sistema cujos elementos têm uma
importância distante em situações diferentes), é possível entender que não há nenhuma hierarquia rígida entre os elementos da interpretação. È
indispensável distinguir uma hierarquia relativa ao método da interpretação e uma hierarquia relativa ao método da interpretação e respeitante ao
resultado da interpretação.
Hierarquia relativa ao método da interpretação- interpretação deve reconstituir o pensamento legislativo a partir dos textos, o que permite concluir que o elemento gramatical tem primazia em relação aos vários elementos não literais. Só depois de determinado o significado literal da lei e de encontrada a sua dimensão o significado literal da lei e de encontrada a sua dimensão semântica é possível reconstituir o pensamento legislativo através dos elementos não literais e procurar a dimensão pragmática da lei Hierarquia relativa ao resultado- pelo artigo 9º.1, inversa à anterior pois o intérprete deve reconstituir o pensamento legislativo a partir do texto da lei com base nos elementos não literais e porque qualquer divergência entre a letra da lei e o seu espírito é resolvida através da prevalência deste último, elementos não literais prevalecem sobre o elemento gramatical.
Elemento literal:
A interpretação da lei deve começar pela análise da sua letra e compreensão do seu significado, a letra da lei, a base textual da interpretação.
Historicismo vs Atualismo
Perspetiva historicista- o intérprete tem de atribuir à letra da lei o significado que ela tinha no momento da formação da fonte
Perspetiva atualista- o intérprete tem de atribuir à letra da lei o significado que ela possui no momento da interpretação. É indiscutível que a letra da lei deve ser interpretada de acordo com o seu significado atual. Só essa
solução pode garantir que as leis permaneçam adequadas ao tempo em que são aplicadas;
Concretização:
O elemento literal tem uma dimensão sintática e uma dimensão semântica: ● Dimensão sintática - estrutura gramatical da lei e considera-se na
totalidade do seu enunciado, sendo relevante, por exemplo para a compreensão de uma oração relativa ou de uma exceção perante uma regra;
● Dimensão Semântica- significado das palavras utilizadas na lei no contexto da sua estrutura; Há que evitar a atribuição de significados incompatíveis a certas regras sendo portanto irrelevantes o género, número entre outros. O significado a atribuir às palavras utilizadas na lei, importa distinguir que as de linguagem jurídica devem ser
interpretadas com o significado que têm para o direito em geral. As palavras técnicas devem ser interpretadas com o significado que elas
têm no ramo de conhecimento a que procedem exceto se forem empregadas com o seu sentido mais corrente. Por exemplo: Lei considera justificadas as faltas de trabalho se associar a esterilidade a algo que pode ser “curado” através de tratamentos médicos, sendo suficiente para possivelmente ser considerada por lei como doença. Elemento lógico:
- Elemento Histórico:
Respeita a justificação da fonte, saber o que é que motivou a produção da fonte nomeadamente que factos levaram o legislador a produzir uma lei sobre determinada matéria; Há que considerar aspetos:
● Objetivos ( respeitam a situação social e jurídica existente no momento de feitura da lei);
● Subjetivos ( referem-se à intenção do legislador que produziu a lei); Aspetos Objetivos:
● Precedentes Normativos: normas nacionais e estrangeiras por volta da altura da formação da lei;
- Históricos ( referem-se às leis que antecederam a lei);
- Comparativos ( referem-se às leis vigentes em outros ordenamentos jurídicos no momento da formação da lei);
● Precedentes doutrinários: relevância do conhecimento do ambiente doutrinário na altura da feitura da elaboração da lei;
● Occasio Legis –condicionalismo que rodeou a formação da lei. A realidade política, social, económica, cultural no momento da formação da lei;
Aspetos Subjetivos:
● Exposições oficiais de motivos;
● Trabalhos preparatórios ( comportam os estudos que foram
elaborados para a preparação da lei, como os debates parlamentares); ● Preâmbulos dos diplomas legais;
Aspeto evolutivo:
Trata-se de saber qual a interpretação que tem sido dada após o inicío da sua vigência, trata-se de averiguar que novas necessidades, diferentes daquelas que justificaram a usa produção, têm sido entendidas como satisfeitas pela lei;
-Elemento sistemático:
Orientação de que os institutos jurídicos constituem um sistema e apenas conexão com este sistema podem ser completamente compreendidos e baseia-se no “ conjunto de regulação dentro da qual realiza uma
determinada função);
O elemento sistemático orienta-se pelo princípio da igualdade o que é igual deve ser tratado de forma igual em todo o sistema jurídico. Permite evitar contradições valorativas dentro do sistema. Permite resolver a polissemia semântica das palavras, porque a partir do seu contexto conseguiriam determinar se a palavra designa uma conduta humana;
O elemento sistemático pode ser considerado através de uma perspetiva: ● Historicista- intérprete tem de considerar a integração sistemática
que existia no momento da formação da lei;
● Atualista – intérprete tem de considerar a integração sistemática da lei na atualidade;
O elemento sistemático exprime-se em 2 vertentes:
● Relação de contexto- intérprete só pode interpretar a lei depois de a ter enquadrado no conjunto mais vasto em que ela se integra;
● Princípio de Consistência – uma consequência da unidade do sistema jurídico, como um postulado da construção dessa unidade;
O elemento sistemático traduz-se em duas regras interpretativas:
● Regra positiva- impõe que o significado a atribuir à lei deve ser o que melhor se harmoniza com outras fontes ou com outros preceitos da mesma fonte;
● Regra negativa- Impede que o intérprete atribua à lei um significado que não seja consistente com outras fontes ou com outros preceitos da mesma fonte ou que seja redundante em relação a outras fontes; No enquadramento sistemático da interpretação de uma lei há que dispor:
● Contexto vertical- implica que na interpretação da lei, deve ser considerada a sua coordenação com a respetiva fonte de produção. Por exemplo: a interpretação de uma lei ordinária que regula o exercício de um direito fundamental deve ser aquela que mais se aproximar da fonte constitucional que atribui esse mesmo direito. ● Contexto horizontal- implica que a interpretação da lei deve
considerar outras leis da mesma hierarquia ( contexto inter-textual) ou outros preceitos da mesma lei ( contexto intra-textual). Assim deve atender a todas as leis que, em conjunto com a lei interpretada, contribuem para a solução do mesmo caso. Por exemplo: se está a interpretar uma lei que estabelece a nulidade de um determinado ato jurídico, há que considerar o regime jurídico desse desvalor jurídico; -Elemento teleológico:
Respeita à finalidade da lei: através deste elemento procura-se determinar quais são os objetivos qua lei pode prosseguir, visando responder à
pergunta “ para que é que serve a lei?” o intérprete procure descobrir a
ratio legis. Só percebendo o que a lei estatui ( o que ela permite, proíbe ou
obriga) é possível determinar a sua finalidade.
A teleologia da lei pode ser considerada em 2 perspetivas:
● Historicista ( intérprete tem de procurar encontrar a finalidade que o legislador intentava prosseguir com a lei, ou finalidade que a lei podia realizar no momento da sua elaboração);
● Atualista ( intérprete tem de atribuir à lei um significado
correspondente à finalidade que ela pode realizar no momento da sua interpretação);
A teleologia da lei não pode ser determinada em si mesma; a finalidade é aquela que se pode prosseguir em função de fatores que lhe são estranhos. Para determinar a teleologia é indispensável atender ao ambiente
sócio-económico, político e cultural em que a fonte é interpretada;
Este elemento possui uma grande importância na interpretação, pois é ele que melhor permite controlar a correção dessa interpretação. Permite também utilizar valores éticos, políticos ou económicos na procura da otimização do principio que subjaz à lei que interpreta;
Conjugação dos elementos:
Nenhum dos elementos da interpretação é suficiente, para determinar o significado da lei, mas cada um deles é um contributo para essa
determinação. A conjugação da fonte resulta da conjugação de cada um daqueles contributos;
Resultado da Interpretação:
A reconstituição do pensamento legislativo a partir do texto da lei pode originar situações de coincidência ou de não coincidência entre o
correspondem à interpretação declarativa e as de não coincidência à reconstrutiva.
Interpretativa declarativa:
Aquela que resulta da coincidência entre o significado literal e o espírito da lei: a letra fornece um certo significado. De acordo com a influência dos elementos não literais pode distinguir-se entre:
● Interpretação declarativa lata- aquela quele em que o significado é o mais extenso possível. Por exemplo: a palavra “homem” como utilizada no artigo 362º, abrange naturalmente pessoas do sexo masculino e feminino;
● Interpretação declarativa restritiva- é aquela em que o significado literal é o menos extenso possível. Por exemplo: a palavra culpa no princípio de responsabilidade civil (artigo 493º);
● Interpretação declarativa média- aquela em que o significado literal é o que corresponde ao significado mais frequente da palavra, as
palavras têm o significado mais comum; Interpretação reconstitutiva:
O significado literal e o espirito da lei podem não coincidir: há que reconstituir o significado da lei a partir do seu texto com apoio no seu espírito. Há que observar o limite imposto pela letra da lei: só pode valer como espírito da lei aquele que tenha o mínimo de correspondência com a sua letra. A letra pode levar a atribuir um significado à lei e os vários elementos da interpretação podem impor a atribuição de um significado mais amplo ou mais restrito. Daqui saem duas modalidades;
● Interpretação extensiva:
O resultado da interpretação é mais amplo do que o significado literal da lei: o espírito da lei vai além da sua letra, pelo que essa fonte permite inferir uma regra que não está abrangida na sua letra. Ocorre sempre que a letra se refira à espécie e o seu significado deva abarcar, por imposição dos
subjacente um juízo de agregação. Na interpretação extensiva, a letra da lei comporta uma exceção implícita que não é admitida pelo seu espírito. Interpretação extensiva //Interpretação declarativa lata:
A interpretação extensiva não se confunde com a interpretação declarativa lata, porque enquanto na interpretação extensiva o significado da lei vai além do seu significado literal, na interpretação declarativa lata ou
significado da lei é o seu significado da lei é o seu significado literal mais extenso;
Exemplo: “ Avós” de acordo com o seu significado gramatical comum são os pais dos pais, todavia vendo os elementos lógicos da interpretação, em especial ao elemento teleológico, parece que a proibição do artigo 877º também se estende a bisavós e bisnetos, pretende-se assegurar que os netos e filhos restantes não sejam tratados em modo desigual e por outro lado assegurar o princípio da intangibilidade da legítima, valores que seriam iguais para o caso de bisavós e bisnetos;
● Interpretação restritiva:
O resultado da interpretação é mais restrito do que o significado do que o significado literal da lei: o espírito da lei fica aquém da letra da lei, pelo que não se justifica que se infra uma regra que seja aplicável a todos os casos que são abrangidos pela sua letra. Na interpretação restritiva, o mundo é mais pequeno do que a letra da lei, pois que há casos abrangidos por esta letra que não devem ser abarcados pela lei;
Na interpretação restritiva, a letra da lei é “ derrotada” pelo seu espírito, dado que, apesar de essa letra não comportar nenhuma exceção, o espírito da lei implica que ela seja interpretada como comportando uma exceção Interpretação restritiva// Interpretação declarativa restrita
A interpretação restritiva o significado da lei fica aquém do seu significado literal, na interpretação declarativa restritiva o significado da lei é o seu significado literal menos extenso;
Consequências:
- Quando a interpretação restritiva implica que o caso não tem relevância jurídica e pertence ao espaço livre do direito;
- Quando esta modalidade deixa espaço para a aplicação de uma outra lei também vigente no ordenamento;
- Quando esta modalidade não conduz à aplicação de uma outra lei vigente no ordenamento, porque este não comporta nenhuma lei aplicável;
Exemplo:
“Estado mental”( 282º.1) é uma situação psicológica em que certa pessoa se encontra, que pode abranger vários estados ( como depressão, nervosismo). Aplicando o elemento lógico parece que não abrange todos estes estados, no entanto aplicando o elemento sistemático, podemos determinar que o estado aqui previsto é um negativo ou frágil, tal como elemento teleológico até porque seria estranho anular o negócio desta natureza que se encontrasse lúcido.
Interpretação ab-rogante:
É aquela em que o intérprete reconhece que o sentido da lei é indecifrável, ou seja que é impossível determinar o seu conteúdo. Existe uma
incompatibilidade ou contradição insanável entre o espírito e a letra da lei ( confronto entre a letra e o espírito não é possível retirar qualquer sentido ou significado à lei.
Modalidades (Oliveira Ascensão):
● Lógica ( resulta da incongruência insanável dos preceitos
interpretados, o que leva a uma impossibilidade prática de solução) ● Valorativa ( valores subjacentes às disposições em causa forem
compatíveis entre si, isto é os preceitos interpretados são informados por critérios valorativos opostos e contraditórios)
Admissibilidade da interpretação ab-rogante lógica:
Marcelo Rebelo de Sousa- entendem que só é admissível esta modalidade
da e sempre a título excecional
Oliveira Ascensão- situações em que o artigo não tem sentido após tiradas
conclusões e usados os mecanismos de interpretação; quando remete para um regime jurídico que não existe; quando as leis apresentam disposições contraditórias
Admissibilidade da interpretação ab-rogante valorativa:
Oliveira Ascensão- Apesar de a discutir não é inadmissível, porque se o
legislador pois simultaneamente em vigor 2 regras, a valoração do intérprete não se pode substituir à do legislador, preferindo uma ou considerando as 2 liquidadas
Miguel Galvão Teles- Esta modalidade é permitido quando a
incompatibilidade valorativa entre preceitos for particularmente grave Interpretação corretiva:
Pode manifestar-se tanto na aplicação da lei a um caso que ela exclui, ou seja na eliminação de uma exceção prevista na lei, como na não apreciação da lei a um caso que ela abrange, isto é na construção de uma exceção não prevista na lei.
Interpretação corretiva // Interpretação restritiva
Os elementos não literais conduzem a uma restrição ou a uma extensão do significado literal da lei. A interpretação corretiva, pelo contrário, a letra e o espírito da lei são ambos desconsiderados, da do que essa interpretação implica que a lei deixa de ser aplicada a um caso que ela abrange;
3.Integração
a) Determinação de Lacunas:
A Lacuna decorre da inexistência de uma regra para regular um caso jurídico, só existe uma lacuna quando de nenhuma fonte do direito possa ser inferida uma regra para regular o caso;
As lacunas ocorrem devido a:
- O legislador não querer regular uma determinada matéria ( solução ainda não se encontra suficientemente amadurecida);
- A técnica legislativa pode ser deficiente ( legislador pode não ter previsto todas as situações que devia ter previsto);
- Fonte pode não ter valor jurídico; - Evolução Social ou tecnológica
A lacuna pressupõe também uma incompletude no sistema jurídico, que decorre de uma fator negativo ( ausência de regulamentação legal) e um fator positivo ( exigência dessa regulamentação). No entanto KELSEN, diria que o sistema jurídico está sempre completo pois “ facto de que, quando a ordem jurídica não estatui nenhum dever de um indivíduo de realizar determinada conduta, permite essa conduta”, ou seja “o que não é proibido é permitido”.
b) Classificação de Lacunas:
As lacunas podem ser distintas em relação a:
Normativas ( falta de uma regra jurídica ou incompletude de uma regra jurídica) / de Regulação ( decorrem da falta de todo um regime jurídico); Intencionais ( resultam da circunstância de o legislador não ter querido regular uma determinada matéria por considerar que ela deve vir a ser regulada por soluções desenvolvidas primeiro pela jurisprudência)/ Não Intencionais ( decorrem do facto de o legislador, por equívoco ou
imperícia, não ter regulado uma determinada matéria);
Iniciais ( aqueles que se verificam desde o início de vigência de um regime jurídico)/ Subsequentes ( aquelas que sobrevêm, por razões de evolução social)
Patentes ( resultam da falta de uma regra ou de um regime jurídico que é imediatamente detectada) Ocultas ( decorrem de uma interpretação ab-rogante, numa primeira análise parece haver uma regra jurídica. mas após a interpretação ab-rogante, verifica-se que afinal não há nenhuma regra aplicável à situação);
c) Integração de Lacunas i) Justificação:
Perante a existência de uma lacuna, no ordenamento jurídico português o juiz tem de proferir uma decisão sobre o caso omisso, requerendo-se assim que o próprio sistema jurídico faculta ao juiz os meios necessários para a integração da lacuna;
ii)Critérios:
O artigo 10º CC estabelece os seguintes critérios: - Analogia Jurídica ( artigo 10º.1 CC):
A analogia é entendida nos entido de uma comunhão de dois particulares, pressupondo uma identidade quantitativa ao contrário da igualdade , exigindo que duas coisas “ possuam mais igual do que diferente” Proibição da Analogia:
-Regras Penais ( baseado no nullum crimen sine lege, não é permitido o recurso à analogia para qualificar um facto como crime, definir um estado de perigosidade ou até determinar uma pena);
- Regras Fiscais ( as lacunas resultantes de normas tributárias reservadas à AR, não são susceptíveis de integração analógica);
- Regras Excepcionais ( não comportam aplicação analógica, mas admitem a interpretação extensiva);
Modalidades da Analogia:
Analogia Legis: Aquela que se utiliza na procura dos princípios orientadores de um regime jurídico que regula um caso análogo;
Analogia Iuris: Aquela em que se utiliza na busca desses princípios, uma pluralidade de regras jurídicas; A própria possibilidade, vem afastar a possibilidade de afastar uma lacuna, no entanto os dois são normas, os dois orientam a realidade; Existe um princípio jurídico com os dados do sistema que vão determinar que não haja lacuna. Não é no seu “lactu sensu” uma analogia, na realidade é uma indução um processo de generalização. Analogia Legis/ Analogia Iuris : não se resume à utilização de uma única regra jurídica ou de uma pluralidade de regras jurídicas na procura dos princípios que devem orientar uma solução jurídica. A distinção passa também pela existência ou inexistência de uma regra jurídica que regula um caso semelhante, que existe na analogia legis mas não na analogia iuris;
Na falta de um caso análogo omisso, a lacuna é preenchida através da regra que o intérprete criaria se tivesse de legislar dentro do espiríto do sistema ( artigo 10º.3 CC). A regra hipotética só é utilizada como modo de
integração de uma lacuna quando esta não possa ser preenchida através da analogia.
Na construção esta deve-se orientar-se pelos valores da abstração e da generalidade que são características das regras jurídicas.
Redução Teleológica:
LARENZ, diz-nos que quando existem lacunas ocultas, a integração resultará adicionando uma redução que é necessária para lhe conferir o sentido desejado. Visto que a regra é vista como demasiado ampla pelo seu sentido literal, terá de se reduzir o âmbito da sua aplicação, associando-se à palavra “restrição”. Na redução teleológica existe então uma nova
relevância do elemento teleológico, o que vai criar uma exclusão ao regime legal. É diferente da interpretação restritiva, porque esta tem a sua fronteira no significado literal possível, enquanto que a redução teológica, vai ainda mais além ( normalmente estão em causa situações que se subsumem à previsão legal mas que contrariam o seu fim, porque não foram pensados pelo legislador quando fez a lei). “processo imanente, para os casos em que
existe norma que cobrirá o caso, mas depois de interpretar o caso,
podemos rever que apesar da letra da lei abranger o caso, a sua teleologia não o faz,
Exemplo: Artigo 181º BGB, “nulidade no NJ realizado consigo mesmo”, tendo como fim proteger o representado, impedindo que o representante conflitua os seus interesses . Coloca-se a questão, se o representante legal fizer uma doação a um incapaz e ao mesmo tempo a aceitar, será que deve aplicar esse regime? A letra da lei parece abranger a doação, mas isto contraria o preceito do 181º BGB,sendo que a doação é gratuito por isso traz uma vantagem ao representado, se for declarada nula prejudicar o representado, sendo que o STF entendeu fazer uma redução desta mesma norma.
Oliveira Ascensão vê a redução teleológica com dificuldade e nega a sua autonomização, pois considera que ou cai na interpretação abrogante ( via de contradição valorativa) ou corretiva ( pela inadequação).
Miguel Teixeira de Sousa refere às dificuldades da delimitação da redução teleológica em relação à interpretação restritiva e acaba por concluir não haver razão para a sua autonomização.
( Ver posição Sousa e Brito) Aplicação da lei no tempo: Enunciado do problema:
As fontes do direito são produzidas num determinado momento e entram em vigor num certo momento. Quando ocorre o início de vigência da LN verifica-se a revogação da LA (7º.2 ). A revogação evita que vigorem 2 leis sobre a mesma matéria, mas não resolve todos os problemas relativos À lei aplicável já que há situações jurídicas que se constituíram na vigência da LA e que transitam para a vigência da LN. Pode concluir-se que o tempo de aplicabilidade das fontes nem sempre coincide com o seu tempo de
vigência.
Princípios orientadores:
A LN pode referir-se a factos jurídicos, isto é a acontecimentos que ocorreram num determinado momento e num determinado lugar. Há que distinguir 2 modalidades:
- Factos instantâneos ( p.e: celebração de um Negócio Jurídico); - Fatos duradouros ( p.e: decurso dos prazos de prescrição); A LN também pode referir-se a efeitos jurídicos:
- efeitos instantâneos ( efeito translativo do contrato de compra e venda);
- consequências duradouras ( relações patrimoniais entre cônjuges); O princípio de não retroatividade da LN, constitui um reflexo do interesse na estabilidade e uma emanação do princípio da confiança, dado que ela
assegura que factos passados e efeitos já produzidos não são abrangidos pela LN:
Graus de retroatividade:
- Extrema ( quando a LN se aplica a todas as situações com origem no passado, incluindo as definitivamente decididas por sentença transitada transitada em caso julgado, ou seja quando o tribunal já não pode modificar o que suceder);
- Quase extrema ( quando a LN se aplica a todas as situações com origem no passado salvo as definitivamente decididas por sentença transitada em caso julgado)-;
- Agravada ( quando a LN se aplica a todas as situações com origem no passado, mas salvaguarda os efeitos produzidos por decisão judicial equivalente . Nestes casos é respeitado o caso julgado, colocando-se a questão de saber o que significa a expressão de título equivalente. È referida nos casos em que a LN respeita também os efeitos produzidos no passado que tiverem um título que lhes dê reconhecimento especial e para concretizar tais situações têm
recorrido ao artigo 13º CC sobre a retroatividade da lei interpretativa , não se aplicando a LN quando: se vise o cumprimento de uma obrigação, transação, atos de natureza análoga)
- Mínimo ( quando a LN respeita todos os efeitos produzidos no passado isto é produzidos ao abrigo da LA, mas já abrange os efeitos que se produzem na sua vigência , ainda que com origem em
situações geradas no passado)-12.º, n.º 1, 2.ª parte ; A retroatividade da LN significa que:
- A LN não se aplica a factos passados a factos que ocorreram antes da entrada em vigor da LN;
- A LN não se aplica a efeitos passados, isto é a efeitos que se produziram e se extinguiram durante a vigência da LA; A aplicação imediata da LN tem 4 consequências:
- A LN aplica-se a todos os fatores futuros que venham a ocorrer na sua vigência;
- A LN aplica-se a todos os efeitos futuros que venham a produzir-se na sua vigência;
- A LN aplica-se a todos os factos jurídicos que se tenham iniciado na vigência da LA e que ainda estejam em curso no início de vigência da LN;
- A LN aplica-se a todas as situações jurídicas que se tenham
constituído na vigência da LA que não se tenham extinguido antes da vigência da LN;
O direito transitório ( resolve os problemas suscitados pelos conflitos de leis no tempo)e tem 2 modalidades:
- Material ( fixa um regime específico para determinados factos ou efeitos jurídicos, isto é institui um regime que não coincide nem com o da LA, nem com o da LN);
- Formal ( escolhe de entre a LA e a LN qual é a lei aplicável a um certo facto jurídico ou efeito. Comporta regimes específicos, um regime geral e especial. Escolhe se a lei aplicável ao facto ou ao efeito jurídico é a LA ou a LN. Isto constituído por regras de conflitos, isto é por regras que determinam através de uma escolha entre LA e LN, qual a lei competente para regular um certo facto ou efeito jurídico).
Soluções do conflito:
- Aplicação imediata da LN ( artigo 12º.1.1ª parte e 12.2 2ª parte) A lei só dispõe para o futuro, significa então que a LN regula quer os factos jurídicos que ocorram após a sua vigência, quer os factos duradouros que se iniciaram na vigência da LA.
Exemplo: A Lei que altera a lista das doenças prolongadas que permitem que o funcionário requeira a sua aposentação é de aplicação imediata àqueles que se encontrem afetados por alguma dessas enfermidades. Quando referida a efeitos jurídicos instantâneos, a aplicação imediata da LN implica que são abrangidos pela LN os efeitos que se produzam depois do seu início de vigência.
Para que se verifique a aplicação imediata da LN a essas situações
jurídicas, é necessário que a LN disponha diretamente sobre o conteúdo de certas situações jurídicas, abstraindo dos factos que lhes deram origem. O título não modela o conteúdo da situação jurídica, pelo que nada obsta à aplicação imediata da LN.
O artigo 12.º, n.º 2 CC contém também dois critérios de decisão. Segundo Baptista Machado:
“Desenvolvendo o princípio da não retroactividade nos termos da teoria do facto passado, o art. 12.º, n.º 2, distingue dois tipos de leis ou de normas: aquelas que dispõem sobre os requisitos de validade (substancial ou formal) de quaisquer factos ou sobre os efeito de quaisquer factos (1.ª parte) e
aquelas que dispõem sobre o conteúdo de certas situações jurídicas e o modelam sem olhar aos factos que a tais situações deram origem (2.ª parte). As primeiras só se aplicam a factos novos, ao passo que as segundas se aplicam a relações jurídicas (melhor: Situações Jurídicas) constituídas antes da LN mas subsistentes ou em curso à data do seu início de vigência”. Posto de forma simples, para o primeiro tipo de leis/ normas (artigo 12.º, n.º 2, 1ª parte) vale o princípio da não retroactividade da lei em toda a sua extensão, ou seja, a LN só se vai aplicar a factos novos e aos seus efeitos. Para o segundo tipo de leis/ normas (artigo 12.º, n.º 2, 2ª parte) vale o princípio da não-retroactividade mitigado pelo princípio da aplicação imediata da lei nova, ou seja, permite-se que a Lei Nova seja aplicada aos efeitos futuros de factos jurídicos anteriores ao seu início de vigência. Dito de outra forma, permite-se a retroactividade ordinária da Lei Nova.
ATENÇÃO: Para além destes dois critérios expressamente consagrados, é ainda possível retirar um terceiro critério de decisão a partir da
interpretação a contrario do artigo 12.º, n.º 2, 2.ª parte. Assim, “as leis que regulem o conteúdo das relações jurídicas atendendo aos factos que lhes deram origem (sem abstrair destes factos)” também só poderão ser
aplicadas a factos novos, i.e., a factos que ocorreram após a sua entrada em vigor. Segundo Baptista Machado, é isto que acontece “no domínio dos
contratos, pelo menos em todos os casos em que as disposições estabelecidas pela LN tenham natureza supletiva ou interpretativa”9. Partindo do conjunto dos critérios acima enunciados, Baptista Machado propõe uma fórmula relativamente simples para a aplicação da lei no tempo que assenta na distinção entre constituição e conteúdo das situações
jurídicas. Assim:
“À constituição das situações jurídicas (requisitos de validade, substancial e formal, factos constitutivos) aplica-se a lei do momento em que essa
constituição se verifica; ao conteúdo das situações jurídicas que subsistam à data do início de vigência da Lei Nova aplica-se imediatamente esta lei, pelo que respeita ao regime futuro deste conteúdo e seus efeitos, com ressalva das situações de origem contratual relativamente às quais poderia haver uma como que sobrevigência da LA”
- Sobrevigência da LA (12º.2 1ªa parte)
Verifica-se a sobrevigência da LA sempre que a LN se refere às condições de validade de um ato jurídico ou ao conteúdo de situações jurídicas que não possam abstrair do seu título constitutivo. A essas condições de validade aplica-se a LA.
Exemplo: A LA admitia a celebração de um determinado negócio jurídico por forma verbal; a LN passa a exigir a forma escrita na celebração desse negócio; os negócios que foram verbalmente celebrados durante a vigência da LA permanecem válidos.
Quando a LN disponha sobre o conteúdo de uma situação jurídica de uma situação jurídica e não abstraia do respectivo facto constitutivo, não pode verificar-se a aplicação imediata da LN.
Exemplo sobre critérios de distinção sobre Sobrevigência/ Aplicação Imediata:
Ex:A lei a regular o contrato: se alterar o regime do contrato em si , pode ser supletiva ( o que as pessoas escolheram inicialmente é mais importante- aplica-se a LA) ou injuntiva( provavelmente está a prosseguir os fins da sociedade e os bons fins econômicos ou sociais- aplica-se a LN);
- Retroatividade da LN (artigo 12º.1 2ª Parte e 13º.1)
Quando se aplica factos já ocorridos ou efeitos já produzidos antes da sua entrada em vigor.
Exemplo: A LN que determina o montante indemnizatório que é devido pela prática de um facto ilícito anterior à sua vigência é uma lei retroativa. A LN é retroativa quando produz um efeito jurídico ou extingue um efeito jurídico produzido com base num título modelador anterior à sua vigência. Exemplo: O contrato celebrado pelas partes tinha produzido apenas um efeito jurídico; a LN que extrair um outro efeito jurídico do mesmo contrato é uma lei retroativa.
O princípio é o da não retroatividade da LN com excepções: a LN pode ter eficácia retroativa e a lei interpretativo tem caráter retroativo.
Falando de forma metafórica, a retroatividade da LN implica que o passado se torna, sob o ponto de vista jurídico, diferente daquilo que foi realmente. Quando a LN tenha eficácia retroactiva, presume-se que ficam ressalvados os efeitos já produzidos pelos factos que ela se destina a regular.
Exemplo: Se a LN retroativa regular o cumprimento das obrigações
decorrentes de contratos já celebrados, ela não afeta os efeitos produzidos pelos cumprimentos entretanto realizados.
A lei que realiza a interpretação autêntica de um ato normativo, pressupõe um caráter imperativo ( não inovatório), pelo artigo 13º.1. Esta integra-se na lei interpretada, ficcional-se que o significado estabelecido pela lei interpretativa coincide com o único significado que a lei interpretativa comportou.
A retroatividade da lei interpretativa não é irrestrita, pois não atinge todos os factos passados e todos os efeitos já produzidos ( como o cumprimento da obrigação ou sentença). A lei pode qualificada pelo legislador como
interpretativa e vir a verificar-se que tem um conteúdo inovador. Nesta hipótese é falsamente interpretativa.
A solução é diferente se a LN dispuser que se consideram válidos os atos jurídicos que, tendo sido praticados durante a vigência da LA preenchem os requisitos de validade determinados pela LN. Por exemplo: a LN que
diminui os impedimentos ao casamento pode considerar válidos os
casamentos, subsistentes à data da sua entrada em vigor, que tenham sido celebrados com violação de um impedimento matrimonial que agora deixou de vigorar. É a denominada retroatividade “in mitius”.
O artigo 12.º do Código Civil não foi a única norma geral de direito transitório consagrada pelo legislador civil. Desde logo, importa referir o artigo 13.º CC, uma norma geral que regula a aplicação no tempo das leis interpretativas.
De acordo com o artigo 13.º, n.º 1 CC, “a lei interpretativa integra-se na lei interpretada”. Daí se retira a conclusão de que, dentro dos limites fixados imediatamente a seguir, a lei interpretativa tem eficácia retroactiva, ou seja, a interpretação por esta estabelecida vai ser considerada como a única correcta, desde a entrada em vigor da lei interpretada.
Assim sendo, a compreensão clara do artigo 13.º CC fica dependente do esclarecimento de duas questões:
O que é uma lei interpretativa, e qual a distinção entre leis interpretativas e leis inovadoras?
Quais são os limites – fixados pelo próprio artigo 13.º CC – à retroactividade da lei interpretativa?
I. Uma lei interpretativa stricto sensu é uma lei que procede a uma interpretação autêntica, i.e., uma lei que vem resolver um problema referente à interpretação de outro acto normativo de hierarquia igual ou inferior. Assim se chega à distinção entre lei interpretada (a primeira a surgir) e lei interpretativa (a segunda, que vem esclarecer o sentido normativo correcto da lei interpretada). Assim, para que possamos
qualificar uma lei como interpretativa, têm de estar verificados alguns requisitos, mormente, (i) a existência de uma lei anterior que coloque dúvidas quanto à sua interpretação, e, (ii), a determinação, por parte da lei interpretativa, de um dos sentidos normativos possíveis como o único correcto. No fundo, a lei interpretativa não tem carácter inovador porque se limita a apontar para um sentido normativo que sempre esteve contido na lei interpretada. No entanto, o legislador nem sempre se preocupa com a (correcta) qualificação das leis interpretativas. Por vezes, o legislador não se pronuncia sobre a natureza interpretativa da lei e cabe ao intérprete, mediante a sua interpretação, identificá-la.
outras vezes, o legislador qualifica de interpretativas leis que são
materialmente inovadoras, i.e., que não se limitam a esclarecer o sentido de outra lei mas, em vez disso, criam, extinguem, ou alteram um regime
jurídico. O que fazer nestes casos? Na primeira hipótese não existe
qualquer problema. Se o intérprete chega à conclusão de que está perante uma lei interpretativa, pode e deve aplicar o artigo 13.º CC no que respeita à sua aplicação no tempo. Na segunda hipótese o caso é mais complicado. O legislador deu à lei uma qualificação errada, possivelmente para que, através do artigo 13.º, esta pudesse ter eficácia retroactiva. Ainda assim, a generalidade da doutrina concorda que o legislador pode fazer isto.
Repare-se que, apesar do princípio geral da não retroactividade, o
legislador pode atribuir eficácia retroactiva às leis que cria (dentro de certos limites constitucionais). Como tal, e como refere Baptista Machado, “[o] legislador pode declarar interpretativa certa disposição da LN, mesmo quando essa disposição é de facto inovadora. E por vezes fá-lo. Em tais casos, tratar-se-á de um disfarce da retroactividade da LN. Quando não existe norma de hierarquia superior que proíba a retroactividade, tal
qualificação do legislador deve ser aceite para efeito de dar a tal disposição um efeito equivalente ao de uma lei interpretativa, nos termos do artigo 13.º. Na verdade, o legislador teria, na hipótese, o poder de declarar retroactiva a LN e definir os limites desta retroactividade”
II. A retroactividade das leis interpretativas não é ilimitada. Conforme decorre da 2.ª parte do artigo 13.º, n.º 1 ficam ressalvados “os efeitos já produzidos pelo cumprimento da obrigação, por sentença passada em
julgado, por transacção, ainda que não homologada, ou por actos de análoga natureza”.
Se tivermos em consideração os diferentes graus de retroactividade delimitados pela doutrina, podemos afirmar que às leis interpretativas é reconhecida uma retroactividade agravada (i.e., afecta alguns efeitos
anteriores ao seu início de vigência, mas não outros). É importante perceber a razão de ser deste regime. A admissibilidade da retroactividade das leis interpretativas decorre do seu carácter não inovador.
Uma vez que estas leis, em vez de criar um regime novo, se limitam a precisar um regime já existente, considera-se que a sua retroactividade não vai violar as expectativas dos seus destinatários. Na verdade, estes
poderiam sempre ter contado com este conteúdo normativo. Contudo, é por esta mesma razão que a retroactividade tem limites. Se a situação jurídica controversa já foi resolvida com carácter de (maior ou menor)
definitividade - por caso julgado, transação, cumprimento definitivo da obrigação, etc. – a retroactividade da lei interpretativa viria destruir essa composição, forçar a reconfiguração de situações já resolvidas e, portanto, atentar contra a segurança jurídica, frustrando as expectativas das partes. Proibições Constitucionais de retroactividade.
- Direito Penal positivo (Artigo 29.º, n.ºs 1, 3, e 4 CRP e 2.º, n.º 4 CP); - Lei que regula a competência do tribunal criminal (Artigo 32.º, n.º 9 CRP);
- Direito Fiscal (Artigo 103.º, n.º 3 CRP);
- Retroactividade extrema (caso julgado – Artigo 282.º, n.º 3 CRP a
fortiori); - Leis restritivas de direitos, liberdades e garantias (Artigo 18.º, n.º 3 CRP).
- Retroconexão da LN (12º.1 1ª parte, implicitamente)
Decorre do preenchimento da previsão da LN com factos passados ou efeitos já produzidos. A retroconexão não conduz a nenhuma alteração do passado, mas à definição do presente face a factos do passado. Exemplo: A LN passa estabelecer a transmissão do arrendamento a quem viva, há mais de 1 ano em economia comum com o falecido arrendatário; dado que esta lei é de aplicação retroativa imediata aos arrendamentos , verifica-se uma situação de retroconexão quando esse prazo já se encontrar completado quando aquela LN entrou em vigor.
A retroconexão pode ser: total ( quando o facto ou efeito que serve de previsão da LN já se verificou totalmente no passado) ou parcial ( quando a previsão da LN engloba quer factos que ocorreram ou efeitos que se
produziram na vigência da LA, quer factos ou efeitos que se verificaram na vigência da LN.
Esta deve obedecer a limites ( no âmbito do direito penal, direitos e garantias) e está implícito a aplicação imediata da LN.
Critério supletivo especial:
O artigo 297º estabelece uma regra especial para a sucessão de leis sobre os prazos. Se a LN estabelecer o prazo mais curto do que a LA, a LN é
imediatamente aplicável aos prazos que já estiverem em curso. - Direito Penal Positivo ( Sempre retroatividade in mitius);
- - Direito Processual ( Aplciação imediata da LN à forma dos factos , artigo 142º.1 CPC)