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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 792.812 - RJ (2005/0180117-9)

RELATOR : MINISTRO LUIZ FUX

RECORRENTE : FAZENDA NACIONAL

PROCURADOR : GUSTAVO MAGNO GOSKES BRIGGS DE ALBUQUERQUE E

OUTROS

RECORRIDO : LATIFE ADAS

PROCURADOR : IVO TEIXEIRA GICO JÚNIOR E OUTROS

EMENTA

TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA. AUTUAÇÃO COM BASE APENAS

EM DEMONSTRATIVOS DE MOVIMENTAÇÃO BANCÁRIA.

POSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DA LC 105/01. INAPLICABILIDADE DA SÚMULA 182/TFR.

1. A LC 105/01 expressamente prevê que o repasse de informações relativas à

CPMF pelas instituições financeiras à Delegacia da Receita Federal, na forma do art. 11 e parágrafos da Lei 9.311/96, não constitui quebra de sigilo bancário.

2. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça está assentada no sentido de que:

"a exegese do art. 144, § 1º do Código Tributário Nacional, considerada a

natureza formal da norma que permite o cruzamento de dados referentes à arrecadação da CPMF para fins de constituição de crédito relativo a outros tributos, conduz à conclusão da possibilidade da aplicação dos artigos 6º da Lei Complementar 105/2001 e 1º da Lei 10.174/2001 ao ato de lançamento de tributos cujo fato gerador se verificou em exercício anterior à vigência dos citados diplomas legais, desde que a constituição do crédito em si não esteja alcançada pela decadência" e que "inexiste direito adquirido de obstar a fiscalização de negócios tributários, máxime porque, enquanto não extinto o crédito tributário a Autoridade Fiscal tem o dever vinculativo do lançamento em correspondência ao direito de tributar da entidade estatal " (REsp 685.708/ES, 1ª

Turma, Min. Luiz Fux, DJ de 20/06/2005).

3. A teor do que dispõe o art. 144, § 1º, do CTN, as leis tributárias procedimentais ou

formais têm aplicação imediata, pelo que a LC nº 105/2001, art. 6º, por envergar essa natureza, atinge fatos pretéritos. Assim, por força dessa disposição, é possível que a administração, sem autorização judicial, quebre o sigilo bancário de contribuinte durante período anterior a sua vigência.

4. Tese inversa levaria a criar situações em que a administração tributária, mesmo

tendo ciência de possível sonegação fiscal, ficaria impedida de apurá-la.

5. Deveras, ressoa inadmissível que o ordenamento jurídico crie proteção de tal nível

a quem, possivelmente, cometeu infração.

6. Isto porque o sigilo bancário não tem conteúdo absoluto, devendo ceder ao

princípio da moralidade pública e privada, este sim, com força de natureza absoluta. Ele deve ceder todas as vezes que as transações bancárias são denotadoras de ilicitude, porquanto não pode o cidadão, sob o alegado manto de garantias fundamentais, cometer ilícitos. O sigilo bancário é garantido pela Constituição Federal como direito fundamental para guardar a intimidade das pessoas desde que não sirva para encobrir ilícitos.

7. Outrossim, é cediço que "É possível a aplicação imediata do art. 6º da LC nº 105/2001, porquanto trata de disposição meramente procedimental, sendo certo

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que, a teor do que dispõe o art. 144, § 1º, do CTN, revela-se possível o cruzamento dos dados obtidos com a arrecadação da CPMF para fins de constituição de crédito relativo a outros tributos em face do que dispõe o art. 1º da Lei nº 10.174/2001, que alterou a redação original do art. 11, § 3º, da Lei nº 9.311/96 " (AgRgREsp 700.789/RS, Rel. Min. Francisco Falcão, DJ 19.12.2005). 8. Precedentes: REsp 701.996/RJ, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ 06/03/06;

REsp 691.601/SC, 2ª Turma, Min. Eliana Calmon, DJ de 21/11/2005; AgRgREsp 558.633/PR, Rel. Min. Francisco Falcão, DJ 07/11/05; REsp 628.527/PR, Rel. Min. Eliana Calmon, DJ 03/10/05.

9. Consectariamente, consoante assentado no Parecer do Ministério Público (fls.

272/274): "uma vez verificada a incompatibilidade entre os rendimentos

informados na declaração de ajuste anual do ano calendário de 1992 (fls. 67/73) e os valores dos depósitos bancários em questão (fls. 15/30), por inferência lógica se cria uma presunção relativa de omissão de rendimentos, a qual pode ser afastada pela interessada mediante prova em contrário."

10. A súmula 182 do extinto TFR, diante do novel quadro legislativo, tornou-se

inoperante, sendo certo que, in casu: "houve processo administrativo, no qual a

Autora apresentou a sua defesa, a impugnar o lançamento do IR lastreado na sua movimentação bancária, em valores aproximados a 1 milhão e meio de dólares (fls. 43/4). Segundo informe do relatório fiscal (fls. 40), a Autora recebeu numerário do Exterior, em conta CC5 , em cheques nominativos e administrativos, supostamente oriundos de “um amigo estrangeiro residente no Líbano” (fls. 40). Na justificativa do Fisco (fls. 51), que manteve o lançamento, a tributação teve a sua causa eficiente assim descrita, verbis: “Inicialmente, deve-se chamar a atenção para o fato de que os depósitos bancários em questão estão perfeitamente identificados, conforme cópias dos cheques de fls. 15/30, não havendo qualquer controvérsia a respeito da autenticidade dos mesmos. Além disso, deve-se observar que o objeto da tributação não são os depósitos bancários em si, mas a omissão de rendimentos representada e exteriorizada por eles."

3. Recurso especial provido.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, os Ministros da PRIMEIRA TURMA do Superior Tribunal de Justiça acordam, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas a seguir, por unanimidade, dar provimento ao recurso especial, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Teori Albino Zavascki, Denise Arruda, José Delgado e Francisco Falcão votaram com o Sr. Ministro Relator.

Brasília (DF), 13 de março de 2007(Data do Julgamento)

MINISTRO LUIZ FUX Relator

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RECURSO ESPECIAL Nº 792.812 - RJ (2005/0180117-9)

RELATÓRIO

O EXMO. SR. MINISTRO LUIZ FUX (Relator): Trata-se de recurso

especial interposto pela FAZENDA NACIONAL, com fulcro na alínea "a" do permissivo constitucional contra acórdão prolatado pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região, cuja ementa restou vazada nos seguintes termos:

CONSTITUCIONAL, ADMINISTRATIVO E TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA DE PESSOA FÍSICA. “É ilegítimo o lançamento do imposto de renda arbitrado com base apenas em extratos bancários” (Súmula 82/TFR). Apelo da impetrante provido, prejudicados o apelo da UNIÃO FEDERAL, bem como a remessa necessária.

Noticiam os autos que LATIFE ADAS impetrou mandado de segurança em 28/09/2000, objetivando a anulação do auto de infração lavrado em 25/08/97, relativo à cobrança de imposto de renda retido na fonte, apurado mediante a análise de sua conta corrente bancária, onde foram depositados cheques nominativos provenientes do exterior. Sustentou a decadência do direito de lançar, a impossibilidade de constituição do crédito tributário com base apenas em documentos bancários, o caráter confiscatório da multa imposta, e a impossibilidade de aplicação da Taxa SELIC como taxa de juros moratórios.

O juízo federal de primeiro grau julgou parcialmente procedente o pedido, concedendo a ordem tão-somente para determinar a exclusão da taxa Selic do crédito definitivamente constituído em âmbito administrativo, objeto do auto de infração referido. Fundou-se o decisum nos seguintes argumentos, verbis :

"Como dito às fls. 114:

"O trecho do relatório da ação fiscal contra a qual insurgiu-se a Impetrante, transcrito às fls. 81, permite concluir que houve investigação e contraditório, do que resultou inexplicada a fonte de rendimentos provenientes do exterior, rendimentos esses que não foram declarados pela Impetrante.

A Impetrante não demonstrou a origem dos depósitos, logo, válida a assunção, pela Fazenda Nacional, de que os mesmos importaram em acréscimo do patrimônio daquela, já que desvinculados da autuação de qualquer outra pessoa que estivesse, direta ou indiretamente, relacionada com aquela manifestação exterior de capacidade contributiva.

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Não há que se falar, ainda, em decadência, já que o prazo extintivo qüinqüenal inicia-se a partir do primeiro dia útil do exercício financeiro seguinte ao em que ocorrido o respectivo fato gerador. (...)"

A Quarta Turma do TRF da 2ª Região, por maioria, julgou procedente a apelação da impetrante, tendo restado prejudicados o recurso voluntário da Fazenda e a remessa necessária, em aresto cuja ementa encontra-se retro-transcrita.

A União opôs embargos de declaração, alegando omissão quanto ao art. 333, I, do CPC, porquanto incumbia à impetrante provar que os valores encontrados em sua conta-corrente não eram de sua propriedade; ao art. 43, I e II do CTN, uma vez que os fatos narrados no auto de infração subsumem-se nas hipóteses de incidência tributária; e à possibilidade de aplicação da taxa SELIC a título de juros moratórios.Os embargos não foram conhecidos, nos seguintes termos:

PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO. Afirmando o v. acórdão recorrido, na esteira da Súmula 82/TFR, a ilegitimidade do lançamento do imposto de renda arbitrado com base apenas em extratos bancários, não devia se pronunciar, obrigatoriamente, sobre o art. 333, I, do Código de Processo Civil. Nem, tampouco sobre o que disposto no art. 43, I e II do CTN, vez que, o voto condutor, reproduzindo os dizeres do Parquet, registrou que “a presunção da Receita, aliás, conflita diretamente com o verbete sumular e a jurisprudência nele inspirada, ao preconizar que o simples depósito feito na conta corrente bancária da interessada prova a sua disponibilidade econômica e jurídica, passível de tributação, até que o titular da conta logre infirmar essa presunção” . Provido o apelo do Impetrante para invalidar o ato impugnado, não deveria o Tribunal manifestar obrigatoriamente sobre a aplicabilidade, ou não, da incidência da taxa SELIC, no débito fiscal invalidado. Embargos de declaração não conhecidos.

Os embargos declaratórios foram renovados pela Fazenda Nacional, que foram providos para "reconhecer contradição existente no v. acórdão embargado e, atribuindo

efeitos infringentes ao presente recurso, saná-la para declarar que os primeiros embargos declaratórios da ora recorrente restaram improvidos".

A União intentou recurso especial, alegando violação dos arts. 333 e 535, II, do CPC, 43 e 161, § 1º, do CTN e à Lei 9.250/95. Reiterou os argumentos expendidos em sede de embargos de declaração: o ônus da impetrante em provar que os valores encontrados em sua conta-corrente não eram de sua propriedade; que os fatos narrados no auto de infração

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subsumem-se nas hipóteses de incidência tributária do imposto de renda, uma vez que houve o acréscimo patrimonial; e a possibilidade de aplicação da taxa SELIC a título de juros moratórios.

Foram apresentadas contra-razões ao apelo nobre, que recebeu crivo positivo de admissibilidade na instância de origem.

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RECURSO ESPECIAL Nº 792.812 - RJ (2005/0180117-9)

EMENTA

TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA. AUTUAÇÃO COM BASE APENAS EM DEMONSTRATIVOS DE MOVIMENTAÇÃO BANCÁRIA. POSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DA LC 105/01. INAPLICABILIDADE DA SÚMULA 182/TFR.

1. A LC 105/01 expressamente prevê que o repasse de informações

relativas à CPMF pelas instituições financeiras à Delegacia da Receita Federal, na forma do art. 11 e parágrafos da Lei 9.311/96, não constitui quebra de sigilo bancário.

2. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça está assentada no

sentido de que: "a exegese do art. 144, § 1º do Código Tributário

Nacional, considerada a natureza formal da norma que permite o cruzamento de dados referentes à arrecadação da CPMF para fins de constituição de crédito relativo a outros tributos, conduz à conclusão da possibilidade da aplicação dos artigos 6º da Lei Complementar 105/2001 e 1º da Lei 10.174/2001 ao ato de lançamento de tributos cujo fato gerador se verificou em exercício anterior à vigência dos citados diplomas legais, desde que a constituição do crédito em si não esteja alcançada pela decadência" e que "inexiste direito adquirido de obstar a fiscalização de negócios tributários, máxime porque, enquanto não extinto o crédito tributário a Autoridade Fiscal tem o dever vinculativo do lançamento em correspondência ao direito de tributar da entidade estatal " (REsp 685.708/ES, 1ª Turma, Min. Luiz Fux,

DJ de 20/06/2005).

3. A teor do que dispõe o art. 144, § 1º, do CTN, as leis tributárias

procedimentais ou formais têm aplicação imediata, pelo que a LC nº 105/2001, art. 6º, por envergar essa natureza, atinge fatos pretéritos. Assim, por força dessa disposição, é possível que a administração, sem autorização judicial, quebre o sigilo bancário de contribuinte durante período anterior a sua vigência.

4. Tese inversa levaria a criar situações em que a administração tributária,

mesmo tendo ciência de possível sonegação fiscal, ficaria impedida de apurá-la.

5. Deveras, ressoa inadmissível que o ordenamento jurídico crie proteção

de tal nível a quem, possivelmente, cometeu infração.

6. Isto porque o sigilo bancário não tem conteúdo absoluto, devendo ceder

ao princípio da moralidade pública e privada, este sim, com força de natureza absoluta. Ele deve ceder todas as vezes que as transações bancárias são denotadoras de ilicitude, porquanto não pode o cidadão, sob o alegado manto de garantias fundamentais, cometer ilícitos. O sigilo bancário é garantido pela Constituição Federal como direito fundamental para guardar a intimidade das pessoas desde que não sirva para encobrir ilícitos.

7. Outrossim, é cediço que "É possível a aplicação imediata do art. 6º da LC nº 105/2001, porquanto trata de disposição meramente procedimental, sendo certo que, a teor do que dispõe o art. 144, § 1º,

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do CTN, revela-se possível o cruzamento dos dados obtidos com a arrecadação da CPMF para fins de constituição de crédito relativo a outros tributos em face do que dispõe o art. 1º da Lei nº 10.174/2001, que alterou a redação original do art. 11, § 3º, da Lei nº 9.311/96 "

(AgRgREsp 700.789/RS, Rel. Min. Francisco Falcão, DJ 19.12.2005).

8. Precedentes: REsp 701.996/RJ, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ

06/03/06; REsp 691.601/SC, 2ª Turma, Min. Eliana Calmon, DJ de 21/11/2005; AgRgREsp 558.633/PR, Rel. Min. Francisco Falcão, DJ 07/11/05; REsp 628.527/PR, Rel. Min. Eliana Calmon, DJ 03/10/05.

9. Consectariamente, consoante assentado no Parecer do Ministério

Público (fls. 272/274): "uma vez verificada a incompatibilidade entre os

rendimentos informados na declaração de ajuste anual do ano calendário de 1992 (fls. 67/73) e os valores dos depósitos bancários em questão (fls. 15/30), por inferência lógica se cria uma presunção relativa de omissão de rendimentos, a qual pode ser afastada pela interessada mediante prova em contrário."

10. A súmula 182 do extinto TFR, diante do novel quadro legislativo,

tornou-se inoperante, sendo certo que, in casu: "houve processo

administrativo, no qual a Autora apresentou a sua defesa, a impugnar o lançamento do IR lastreado na sua movimentação bancária, em valores aproximados a 1 milhão e meio de dólares (fls. 43/4). Segundo informe do relatório fiscal (fls. 40), a Autora recebeu numerário do Exterior, em conta CC5 , em cheques nominativos e administrativos, supostamente oriundos de “um amigo estrangeiro residente no Líbano” (fls. 40). Na justificativa do Fisco (fls. 51), que manteve o lançamento, a tributação teve a sua causa eficiente assim descrita, verbis: “Inicialmente, deve-se chamar a atenção para o fato de que os depósitos bancários em questão estão perfeitamente identificados, conforme cópias dos cheques de fls. 15/30, não havendo qualquer controvérsia a respeito da autenticidade dos mesmos. Além disso, deve-se observar que o objeto da tributação não são os depósitos bancários em si, mas a omissão de rendimentos representada e exteriorizada por eles."

3. Recurso especial provido.

VOTO

O EXMO. SR. MINISTRO LUIZ FUX (Relator): Preliminarmente, merece

conhecimento o presente recurso especial, porquanto devidamente prequestionada a matéria federal suscitada.

No que pertine à violação do art. 535 do CPC, esta não restou configurada, uma vez que o Tribunal de origem pronunciou-se de forma clara e suficiente sobre a questão posta nos autos. Saliente-se, ademais, que o magistrado não está obrigado a rebater, um a um, os argumentos trazidos pela parte, desde que os fundamentos utilizados tenham sido suficientes para

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embasar a decisão, como de fato ocorreu na hipótese dos autos.

Cinge-se a controvérsia à possibilidade de arbitramento do imposto de renda, pela autoridade fiscal, com base na movimentação bancária do contribuinte.

O acórdão recorrido, fundamentando-se com base no Parecer do Ministério Público assim consignou, in verbis:

"A manifestação do Parquet, às fls. 272/274, foi assim concebida: “De início, correta a sentença quando afastou a decadência, dado que o lançamento ocorrido no curso do ano de 1997 se reporta ao fato gerador do imposto de renda tão somente aperfeiçoado no ano de 1992. A anteceder os aspectos relativos à aplicação da multa e da taxa de juros, cumpre aferir da legalidade da autuação. É certo que houve processo administrativo, no qual a Autora apresentou a sua defesa, a impugnar o lançamento do IR lastreado na sua movimentação bancária, em valores aproximados a 1 milhão e meio de dólares (fls. 43/4). Segundo informe do relatório fiscal (fls. 40), a Autora recebeu numerário do Exterior, em conta CC5 , em cheques nominativos e administrativos, supostamente oriundos de “um amigo estrangeiro residente no Líbano” (fls. 40). Na justificativa do Fisco (fls. 51), que manteve o lançamento, a tributação teve a sua causa eficiente assim descrita, verbis: “Inicialmente, deve-se chamar a atenção para o fato de que os depósitos bancários em questão estão perfeitamente identificados, conforme cópias dos cheques de fls. 15/30, não havendo qualquer controvérsia a respeito da autenticidade dos mesmos. Além disso, deve-se observar que o objeto da tributação não são os depósitos bancários em si, mas a omissão de rendimentos representada e exteriorizada por eles. Uma vez verificada a incompatibilidade entre os rendimentos informados na declaração de ajuste anual do ano – calendário de 1992 (fls. 67/73) e os valores dos depósitos bancários em questão (fls. 15/30), por inferência lógica se cria uma presunção relativa de omissão de rendimentos, a qual pode ser afastada pela interessada mediante prova em contrário (fls. 55)”. Ora, há muito consolidada a exegese sobre ser defeso ao Fisco cobrar imposto de renda com base exclusiva no espelho dos depósitos bancários. Esse o enunciado da Súmula 182 do TFR, abonado, sem restrições, pela jurisprudência atualizada do STJ e dos Tribunais Federais. É bem ver que a temática em questão assumiu particular relevo com a superveniência da CPMF, quando tencionou a Receita cobrar tributos à vista da movimentação bancária. Essa prática veio, de modo uníssono, refutada pela orientação do STJ, como faz certo o acórdão proferido no RESP nº 238356/CE (DJ 2/10/00, pág. 147): “TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA. AUTUAÇÃO COM BASE APENAS EM EXTRATOS BANCÁRIOS.

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IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 182/TFR. “É ilegítimo o lançamento do imposto de renda arbitrado com base apenas em extratos bancários” (Súmula 82/TFR)”. Nessa linha, a manifestação dessa Casa, v.g., nas Apelações Cíveis nº 89.02. 04150/6/RJ , nº 91.02.25325/8/RJ e nº 96.02.25325/8/RJ e na REO nº 97.02.30532/2RJ. Em outras palavras, o que os autos informam, e as cópias do processo administrativo corroboram, é a convicção de que a cobrança dirigida contra a Autora teve como lastro a sua movimentação bancária, exclusivamente, tida como incompatível com os seus rendimentos. A presunção da Receita, aliás, conflita diretamente com o verbete sumular e a jurisprudência nele inspirada, ao preconizar que o simples depósito feito na conta corrente bancária da interessada prova a sua disponibilidade econômica e jurídica, passível de tributação, até que o titular da conta logre infirmar essa presunção (fls. 56)” ."

Com efeito, a LC 105/01 expressamente prevê que o repasse de informações relativas à CPMF pelas instituições financeiras à Delegacia da Receita Federal, na forma do art. 11 e parágrafos da Lei 9.311/96, não constitui quebra de sigilo bancário.

Nesse segmento, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça está assentada no sentido de que: "a exegese do art. 144, § 1º do Código Tributário Nacional, considerada

a natureza formal da norma que permite o cruzamento de dados referentes à arrecadação da CPMF para fins de constituição de crédito relativo a outros tributos, conduz à conclusão da possibilidade da aplicação dos artigos 6º da Lei Complementar 105/2001 e 1º da Lei 10.174/2001 ao ato de lançamento de tributos cujo fato gerador se verificou em exercício anterior à vigência dos citados diplomas legais, desde que a constituição do crédito em si não esteja alcançada pela decadência" e que "inexiste direito adquirido de obstar a fiscalização de negócios tributários, máxime porque, enquanto não extinto o crédito tributário a Autoridade Fiscal tem o dever vinculativo do lançamento em correspondência ao direito de tributar da entidade estatal. " (REsp 685.708/ES, 1ª Turma,

Min. Luiz Fux, DJ de 20/06/2005).

Destarte, a teor do que dispõe o art. 144, § 1º, do CTN, as leis tributárias procedimentais ou formais têm aplicação imediata, pelo que a LC nº 105/2001, art. 6º, por envergar essa natureza, atinge fatos pretéritos. Assim, por força dessa disposição, é possível que a administração, sem autorização judicial, quebre o sigilo bancário de contribuinte durante período anterior a sua vigência.

Tese inversa levaria a criar situações em que a administração tributária, mesmo tendo ciência de possível sonegação fiscal, ficaria impedida de apurá-la.

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Deveras, ressoa inadmissível que o ordenamento jurídico crie proteção de tal

nível a quem, possivelmente, cometeu infração.

Isto porque o sigilo bancário não tem conteúdo absoluto, devendo ceder ao princípio da moralidade pública e privada, este sim, com força de natureza absoluta. Ele deve ceder todas as vezes que as transações bancárias são denotadoras de ilicitude, porquanto não pode o cidadão, sob o alegado manto de garantias fundamentais, cometer ilícitos. O sigilo bancário é garantido pela Constituição Federal como direito fundamental para guardar a intimidade das pessoas desde que não sirva para encobrir ilícitos.

Outrossim, é cediço que: "É possível a aplicação imediata do art. 6º da LC nº

105/2001, porquanto trata de disposição meramente procedimental, sendo certo que, a teor do que dispõe o art. 144, § 1º, do CTN, revela-se possível o cruzamento dos dados obtidos com a arrecadação da CPMF para fins de constituição de crédito relativo a outros tributos em face do que dispõe o art. 1º da Lei nº 10.174/2001, que alterou a redação original do art. 11, § 3º, da Lei nº 9.311/96 " (AgRgREsp 700.789/RS, Rel. Min. Francisco

Falcão, DJ 19.12.2005).

Nesse sentido, confiram-se, à guisa de exemplo, os seguintes precedentes:

DIREITO TRIBUTÁRIO. PROCESSUAL CIVIL. VIOLAÇÃO AO ART. 535 DO CPC. NÃO-CONFIGURADA. SIGILO BANCÁRIO. LC 105/2001 E LEI 10.174/2001. USO DE DADOS DE MOVIMENTAÇÕES FINANCEIRAS PELAS AUTORIDADES FAZENDÁRIAS. POSSIBILIDADE. CONDIÇÕES. APLICAÇÃO IMEDIATA. PRECEDENTES.

1. Não viola o artigo 535 do CPC, nem importa em negativa de prestação jurisdicional o acórdão que adota fundamentação suficiente para decidir de modo integral a controvérsia posta. Precedentes: EDcl no AgRg no EREsp 254949/SP, Terceira Seção, Min. Gilson Dipp, DJ de 08.06.2005; EDcl no MS 9213/DF, Primeira Seção, Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 21.02.2005; EDcl no AgRg no CC 26808/RJ, Segunda Seção, Min. Castro Filho, DJ de 10.06.2002.

2. A Lei 9.311/1996 ampliou as hipóteses de prestação de informações bancárias (até então restritas - art. 38 da Lei 4.595/64; art. 197, II, do CTN; art. 8º da Lei 8.021/1990), permitindo sua utilização pelo Fisco para fins de tributação, fiscalização e arrecadação da CPMF (art. 11), bem como para instauração de procedimentos fiscalizatórios relativos a qualquer outro tributo (art. 11, § 3º, com a redação da Lei 10.174/01).

3. Também a Lei Complementar 105/2001, ao estabelecer normas gerais sobre o dever de sigilo bancário, permitiu, sob certas condições, o acesso e utilização, pelas autoridades da

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administração tributária, a documentos, livros e registros de instituições financeiras,

inclusive os referentes a contas de depósitos e aplicações financeiras" (arts. 5º e 6º).

4. Está assentado na jurisprudência do STJ que "a exegese do art. 144, § 1º do Código Tributário Nacional, considerada a natureza formal da norma que permite o cruzamento de dados referentes àarrecadação da CPMF para fins de constituição de crédito relativo a outros tributos, conduz à conclusão da possibilidade da aplicação dos artigos 6º da Lei Complementar 105/2001 e 1º da Lei 10.174/2001 ao ato de lançamento de tributos cujo fato gerador se verificou em exercício anterior à vigência dos citados diplomas legais, desde que a constituição do crédito em si não esteja alcançada pela decadência" e que "inexiste direito adquirido de obstar a fiscalização de negócios tributários, máxime porque, enquanto não extinto o crédito tributário a Autoridade Fiscal tem o dever vinculativo do lançamento em correspondência ao direito de tributar

da entidade estatal" (REsp 685.708/ES, 1ª Turma, Min. Luiz Fux, DJ de 20/06/2005. No mesmo sentido: REsp 628.116/PR, 2ª Turma, Min. Castro Meira, DJ de 03/10/2005; AgRg no REsp 669.157/PE, 1ª Turma, Min. Francisco Falcão, DJ de 01/07/2005; REsp 691.601/SC, 2ª Turma, Min. Eliana Calmon, DJ de 21/11/2005.) 5. Recurso especial a que se nega provimento. (REsp 701.996/RJ,

Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ 06/03/06)

TRIBUTÁRIO – SIGILO BANCÁRIO – INSTAURAÇÃO DE PROCESSO ADMINISTRATIVO COM BASE EM REGISTROS DA CPMF – LEGISLAÇÃO POSTERIOR APLICADA A FATOS PRETÉRITOS.

1. Doutrina e jurisprudência, sob a égide da CF 88, proclamavam ser

o sigilo bancário corolário do princípio constitucional da privacidade (inciso XXXVI do art. 5º), com a possibilidade de quebra por autorização judicial, como previsto em lei (art. 38 da Lei 4.595/96).

2. Mudança de orientação, com o advento da LC 105/2001, que determinou a possibilidade de quebra do sigilo pela autoridade fiscal, independentemente de autorização do juiz, coadjuvada pela Lei 9.311/96, que instituiu a CPMF, alterada pela Lei 10.174/2001, para possibilitar aplicação retroativa.

3. Afasta-se a tese do direito adquirido para, encarando a vedação antecedente como mera garantia e não princípio, aplicar-se a regra do art. 144, § 1º, do CTN que pugna pela retroatividade da norma procedimental.

4. Recurso especial improvido. (REsp 691.601/SC, 2ª Turma, Min.

Eliana Calmon, DJ de 21/11/2005)

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Superior Tribunal de Justiça

BANCÁRIO. ART. 11, § 2º, DA LEI 9.311/96, COM A REDAÇÃO DADA PELO ART. 1º DA LEI Nº 10.174/01. PROCEDIMENTOS DE FISCALIZAÇÃO. RETROATIVIDADE. ART. 144, § 1º, DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. VIOLAÇÃO A DISPOSITIVOS CONSTITUCIONAIS. IMPOSSIBILIDADE. ART. 105, INCISO III, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. ART. 1º DA LEI 1.533/51. FALTA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULA 282/STF.

I - É possível a aplicação imediata do art. 6º da LC 105/2001, porquanto trata de disposição meramente procedimental, sendo certo

que, a teor do que dispõe o art. 144, § 1º, do CTN, revela-se possível o cruzamento dos dados obtidos com a arrecadação da CPMF para fins de constituição de crédito relativo a outros tributos em face do que dispõe o art. 1º da Lei 10.174/2001, que alterou a redação original do art. 11, § 3º, da Lei 9.311/96.

II - A tese contida no art. 1º da Lei 1.533/51 não foi objeto de análise pelo acórdão recorrido, carecendo o recurso especial do pressuposto específico do prequestionamento. Incidência da Súmula nº 282/STF.

III - Não é possível a análise à suposta violação a dispositivos constitucionais em sede de recurso especial, ex vi do art. 105, inciso III, da Constituição Federal.

IV - Agravo regimental improvido. ( AgRgREsp 558.633/PR, Rel.

Min. Francisco Falcão, DJ 07/11/05)

TRIBUTÁRIO - CPMF - QUEBRA DE SIGILO BANCÁRIO - PERÍODO ANTERIOR À VIGÊNCIA DO ART. 6º DA LEI COMPLEMENTAR 105/2001 - CARÁTER PROCEDIMENTAL DA NORMA - APLICAÇÃO IMEDIATA - EXEGESE DO ART. 144, § 1º, DO CTN.

1. É possível a aplicação do art. 6º da LC 105/2001, ainda que o período investigado seja anterior à sua vigência, porquanto se trata de disposição meramente procedimental. Inteligência do art. 144, § 1º, do CTN.

2. Recurso especial provido. (REsp 628.527/PR, Rel. Min. Eliana

Calmon, DJ 03/10/05)

Nesse diapasão, consoante assentado no Parecer do Ministério Público (fls. 272/274): "uma vez verificada, in casu, a incompatibilidade entre os rendimentos

informados na declaração de ajuste anual do ano calendário de 1992 (fls. 67/73) e os valores dos depósitos bancários em questão (fls. 15/30), por inferência lógica se cria uma presunção relativa de omissão de rendimentos, a qual pode ser afastada pela interessada mediante prova em contrário."

Consectariamente, a súmula 182 do extinto TFR, diante do novel quadro legislativo, tornou-se inoperante, sendo certo que, in casu , "houve processo administrativo, no

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Superior Tribunal de Justiça

qual a Autora apresentou a sua defesa, a impugnar o lançamento do IR lastreado na sua movimentação bancária, em valores aproximados a 1 milhão e meio de dólares (fls. 43/4). Segundo informe do relatório fiscal (fls. 40), a Autora recebeu numerário do Exterior, em conta CC5 , em cheques nominativos e administrativos, supostamente oriundos de “um amigo estrangeiro residente no Líbano” (fls. 40). Na justificativa do Fisco (fls. 51), que manteve o lançamento, a tributação teve a sua causa eficiente assim descrita, verbis: “Inicialmente, deve-se chamar a atenção para o fato de que os depósitos bancários em questão estão perfeitamente identificados, conforme cópias dos cheques de fls. 15/30, não havendo qualquer controvérsia a respeito da autenticidade dos mesmos. Além disso, deve-se observar que o objeto da tributação não são os depósitos bancários em si, mas a omissão de rendimentos representada e exteriorizada por eles."

Ex positis , DOU PROVIMENTO ao recurso especial.

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Superior Tribunal de Justiça

CERTIDÃO DE JULGAMENTO PRIMEIRA TURMA

Número Registro: 2005/0180117-9 REsp 792812 / RJ

Número Origem: 200051010255501

PAUTA: 13/03/2007 JULGADO: 13/03/2007

Relator

Exmo. Sr. Ministro LUIZ FUX Presidente da Sessão

Exmo. Sr. Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI Subprocurador-Geral da República

Exmo. Sr. Dr. AURÉLIO VIRGÍLIO VEIGA RIOS Secretária

Bela. MARIA DO SOCORRO MELO

AUTUAÇÃO

RECORRENTE : FAZENDA NACIONAL

PROCURADOR : GUSTAVO MAGNO GOSKES BRIGGS DE ALBUQUERQUE E OUTROS

RECORRIDO : LATIFE ADAS

PROCURADOR : IVO TEIXEIRA GICO JÚNIOR E OUTROS

ASSUNTO: Tributário - Imposto de Renda - Pessoa Física

CERTIDÃO

Certifico que a egrégia PRIMEIRA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:

A Turma, por unanimidade, deu provimento ao recurso especial, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator.

Os Srs. Ministros Teori Albino Zavascki, Denise Arruda, José Delgado e Francisco Falcão votaram com o Sr. Ministro Relator.

Brasília, 13 de março de 2007

MARIA DO SOCORRO MELO Secretária

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