OS FRAGMENTOS DAS OBRAS PERDIDAS
DE ARISTÓTELES
EM TRADUÇÃO PORTUGUESA
Desde 2004, um projecto editorial pioneiro promovido pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e coorde-nado pelo investigador daquela unidade António Pedro Mes-quita vem lançando em Portugal, e agora também no Brasil, a tradução dos escritos de Aristóteles, no que pretende ser a primeira edição integral da obra aristotélica em língua portu-guesa.
A colecção engloba, além dos escritos reunidos por Ima-nuel Bekker, em 1831, na primeira edição moderna da obra aristotélica (a qual inclui tanto tratados autênticos, como es-púrios e duvidosos) e do texto só posteriormente redescober-to da Constituição dos Atenienses, a redescober-totalidade dos fragmenredescober-tos (uma vez mais, autênticos, suspeitos e pseudepígrafos) e ainda as sete obras apócrifas que circularam em época tardia sob o nome de Aristóteles, designadamente o Livro das Causas, o
Segredo dos Segredos ou a Teologia.
Ao propor-se levar a cabo a tradução colectiva deste con-junto, estas Obras Completas são, assim, a nível internacional, as primeiras e, até ao momento, as únicas a englobar a to-talidade do legado aristotélico, uma vez que nenhuma outra inclui estas últimas.
A edição, que é apoiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia de Portugal, é garantida pela editora pública por-tuguesa Imprensa Nacional – Casa da Moeda, que desde o primeiro momento se associou com entusiasmo à iniciativa.
Em Portugal, saíram já por esta colecção onze volumes:
Introdução Geral (António Pedro Mesquita).
Tópicos (tradução de José Segurado e Campos, que
obte-ve o prémio de tradução científica e técnica da União Latina relativa ao ano de 2007).
Geração e Corrupção (tradução de Francisco Chorão). Sobre a Alma (tradução de Ana Maria Lóio).
288
História dos Animais I-VI (tradução de Maria de Fátima
Sousa e Silva).
História dos Animais VII-X (tradução de Maria de Fátima
Sousa e Silva).
Partes dos Animais (tradução de Maria de Fátima Sousa
e Silva).
Económicos (tradução de Delfim Leão).
Retórica (tradução de Manuel Alexandre Júnior, Abel
Nascimento Pena e Paulo Farmhouse Alberto).
Problemas Mecânicos (tradução de Rodolfo Lopes). A Teologia Aristotélica (tradução de Catarina Belo).
De registar que, destes nove primeiros tratados publica-dos, sete nunca haviam sido antes traduzidos para português directamente a partir do original.
Por outro lado, a Teologia Aristotélica constitui o pri-meiro apócrifo tardio a surgir na colecção, das sete previstas, facto que, como indicado, singulariza a nível internacional a presente edição. Para além disso, este texto, apenas disponível num original árabe, constitui também a primeira obra da co-lecção a ser traduzida a partir desta língua.
O público brasileiro pode agora também aceder directa-mente aos textos incluídos na colecção.
Com efeito, graças a um protocolo firmado entre o Cen-tro de Filosofia da Universidade de Lisboa, a editora portu-guesa Imprensa Nacional – Casa da Moeda e a editora brasi-leira Martins Fontes, as traduções publicadas em Portugal por aquela começaram, desde 2011, a sair igualmente no Brasil, em edição preparada por esta.
Foi o que aconteceu já com os Económicos (2011), a
Re-tórica (2012) e, mais recentemente, o Sobre a Alma (2013).
Seguir-se-lhes-á, no próximo ano, o primeiro tomo da
Histó-ria dos Animais.
Na colecção original, o próximo volume a sair será o primeiro contendo os fragmentos das obras perdidas de Aris-tóteles, no que constitui também uma première em língua portuguesa, a juntar-se, aliás, a um conjunto muito restrito de traduções dos fragmentos aristotélicos em qualquer língua.
O volume reunirá os Fragmentos dos Diálogos e Obras
Exortativas, em tradução de António de Castro Caeiro, da
Universidade Nova de Lisboa, com revisão científica de Antó-nio Pedro Mesquita, da Universidade de Lisboa.
289
Oportunamente, seguir-se-lhes-ão dois outros tomos, um dedicado aos fragmentos das obras lógicas, de retórica e poética e das obras éticas, filosóficas e físicas e outro dedicados aos fragmentos das obras biológicas e históricas e aos discur-sos, cartas e poemas.
Em seguida, publica-se uma apresentação do volume que se encontra no prelo, da autoria do tradutor, o índice dos fragmentos a editar no conjunto dos três tomos e excertos do primeiro e do último diálogos de Aristóteles incluídos na tra-dução que se encontrará disponível dentro de alguns meses. apresentação
António de Castro Caeiro*
O que nós hoje temos sob a designação de “fragmentos de Aristóteles” são citações de (e referências a) escritos perdi-dos de Aristóteles, mas que não foram introduziperdi-dos na edi-ção histórica de Andronico de Rodes. Por isso mesmo, não foram conservados.1 Os fragmentos foram coligidos a partir de obras de outros autores e cobrem um período que vai de Teofrasto, o discípulo e sucessor de Aristóteles no Liceu, até à tradução latina dos Económicos, em 1259, por Guillaume Durand, Bispo de Mende no Languedoc, mas apenas im-presso no século XV. 2 Este longo período de quase dois mil anos após a morte de Aristóteles, abrange obras dos mais lídimos representantes da escola neoplatónica, como Porfí-rio, Jâmblico, Proclo e Simplício, mas também autores axiais para a introdução da tradição grega na latina, como Cícero, Plínio e Santo Agostinho.
A versão dos fragmentos gregos e latinos dos livros per-didos de Aristóteles que agora se põe à disposição do público português foi fixada por Valentin Rose, filólogo e bibliotecá-rio por inclinação.3 Trabalhou desde 1855 na Biblioteca Real em Berlim, onde a partir de 1886 foi responsável pelo depar-tamento de manuscritos.4
A sua dissertação inaugural com o título De Aristotelis
librorum ordine et auctoritate commentatio, de 2 de Agosto de
1854, editada em Berlim pela Georg Reimer, está na base da sua primeira viagem ao mundo dos manuscritos. Ela revela já em si tanto o interesse por Aristóteles quanto pelo
desenvol-*Universidade Nova de Lisboa
1. Cf. H. Flashar, U. Dubielzig, B. Breitenberger,
Aristoteles: Fragmente zu Philosophie Rhetorik, Poetik, Dichtung, Berlin, Akademie
Verlag, 2006, p. 9. 2. Valentin Rose, De
Aristotelis librorum ordine et auctoritate commentatio,
Berlim, Georg Reimer, 1854, p. 258.
3. Chamava à Biblioteca ”a sua velha pátria e Igreja” (Selbstanzeige des
Egidius, Mitteilung aus
dem Teubnerschen Verlag, 1907, n-3, citado por Emil Jacobs em Ein Nachruf, pp. 15-16).
4. Emil Jacobs, Valentin
Rose, Ein Nachruf. Sonderabdruck aus dem “Zentralblatt für Bibliothekswesen”, Band xxxiii (1917), Heft 5/7,
Lepzig, Otto Harrassowitz, 1917, p. 2.
290
vimento da perícia da leitura e catalogação de manuscritos. Fique como exemplo de paciência, capacidade técnica e pe-rícia a decifração de todos os títulos dos manuscritos gregos e latinos do espólio da Biblioteca Real de Berlim no âmbito da Medicina. Foram necessários cinco anos a Rose para levar a cabo tal tarefa.5
Na base dos fragmentos coligidos por Rose está um livro de 728 páginas, publicado em 1863 com o título: Aristoteles
Pseudepigraphicus.6 Nele, defende-se a tese geral da multipli-cação de livros falsamente imputados a autores consagrados não apenas devido a erro técnico, mas também por decisão consciente. Foram sobretudo imitados os diálogos de Platão e o género epidíctico, porque, diz Rose: “são fecundos em imi-tadores e imiimi-tadores zelosos”. Segundo ele, também Aristóte-les não escapou ao processo de falsificação. Por isso, as citações e referências que constam alegadamente como fragmentos de livros de Aristóteles não são da sua autoria na sua esmagadora maioria.
Ainda em 1885, no prefácio à edição dos Fragmenta de 1886, Rose reitera a tese:
Quanto ao mais, para além dos Problemas, não há ne-nhuma das obras do próprio Aristóteles que, na verdade, se tenha perdido, a não ser talvez partes da Política, da Poética e da Metafísica, que já se tinham perdido antes da própria época dos gramáticos alexandrinos. Por isso, os fragmentos de livros perdidos de Aristóteles não existem nem nunca existiram. 7
Para Rose, tratam-se de textos que imputa à figura do
Aristoteles pseudepigraphicus, isto é, textos que ou são
falsa-mente atribuídos a Aristóteles ou são assinados por um falso Aristóteles.8 Isto é, tratam-se de Aristotelis qui ferebantur li-brorum fragmenta, “fragmentos que se considera ser de livros de
Aristóteles”, tese que mantém até ao fim da vida.9
Apesar de a Academia ter levantado reservas relativa-mente à hipótese exegética de Rose, premeia o texto e publica--o na colecção das obras completas de Aristóteles de Imma-nuel Bekker. Por essa mesma razão, o Volume III da Academia contém efectivamente fragmentos de livros atribuídos a Aris-tóteles. Para Bekker, tratam-se, antes, de reliquiae librorum
deperditorum Aristotelis (“vestígios remanescentes dos livros
perdidos de Aristóteles”).10 5. Emil Jacobs, Nachruf, p. 4.
6. Valentin Rose, Aristoteles
Pseudepigraphicus, Lepzig,
Teubner, 1863. 7. Citado por Flashar,
Aristoteles: Fragmente, p. 1.
8. Por exemplo, há alguns fragmentos do excerto retirado do livro Acerca
dos Sinais de Teofrasto
que, por vezes, são atribuídos ao próprio Aristóteles (cf. Aristoteles
Pseudepigraphicus, p.
243-246). Tal atribuição é, segundo Rose, um erro. Erro semelhante é a atribuição a Aristóteles do Acerca dos Ventos, que é de Teofrasto, de cujo excerto foram retirados os fragmentos 26 e 48.Também no que toca aos livros sobre animais, Rose apresenta apenas aqueles que, pelo menos, são citados em título pelos autores anteriores a Teofrasto (cf. Aristoteles
Pseudepigraphicus, p. 279).
Segundo ele, também os livros que Eliano cita são manifestamente de Teofrasto (frs. 363-366).
9. Cf. H. Flashar,
Aristoteles: Fragmente,
pp. 9-10. Ainda assim, como refere Flashar, nada do que era investigação de ponta nos estudos aristotélicos do seu tempo lhe terá escapado, embora não tivesse podido considerar os Commentaria in Aristotelem Graeca publicados entre 1882 e 1908 na Reimer nem a descoberta monumental de papiros em 1891. Rose morre aos quase 88 anos, no dia 25 de Dezembro de 1917.
291
As versões ulteriores de Walzer11 e de Ross,12 ao aceita-rem a tese de V. Rose, tendem naturalmente a desvalorizar a importância dos fragmentos para os estudos aristotélicos (o que acontece também com a edição de R. Laurenti13 e de A. Vallejo Campos14), fragmentando ainda mais o número de textos já fixados.15 Nem a monumental edição de Olof
Gi-gon16 conseguiu vingar. A imensa quantidade de texto
inseri-do torna quatro vezes maior a edição inseri-do que a de Rose. Sem dúvida, permitirá compreender melhor a contextualização do autor que cita o fragmento. Mas, se não ofuscar o leitor para o zooming sobre Aristóteles, não consegue em todo o caso me-lhorar substancialmente a compreensão de um texto já de si fragmentado. Contamina-o com ruído de fundo.17
Qualquer que seja a decisão, a edição de Rose perma-nece incontornável, quer quando é aceite sem reservas, quer quando se tenta corrigi-la.
A edição da Teubner de 1886 serve de base a esta tra-dução.
10. Essa a razão pela qual a Academia das Ciências tinha levantado reservas à hipótese exegética do autor. Mas, para Rose, as consequências eram também práticas, porquanto, tal como o seu antecessor de Rodes, Andronico, ele deixa de fora do catálogo das obras completas de Aristóteles os textos a que pertencem os fragmentos, porque considera que não são da sua autoria (Cf. Nachruf, p. 13). 11. R. Walzer, Aristotelis
dialogorum fragmenta in usum scholarum selegit Ricardus Walzer, Firenze, G.
C. Sanzoni, 1934. 12. W. D. Ross, Aristotelis
fragmenta selescta recognouit breuique adnotatione instruxit W. D. Ross,
Oxford, At the University Press, 1955.
13. R. Laurenti, I
frammenti dei dialoghi,
Napoli, Luigi Loffredo, 1987. 14. A. Vallejo Campos, Aristóteles: Fragmentos, Madrid, Gredos, 2005. 15. Cf. Flashar, Aristoteles: Fragmente, p. 10. 16. O. Gigon, Aristotelis
Opera. Volumen tertium: Librorum deperditorum fragmenta collegit et adnotationibus instruxit Olof Gigon, Berlin,
New York, Königlichen Preussischen Akademie der Wissenschaften, 1987. 17. O tradutor permite-se corroborar a posição de Helmut Flashar (op. cit., p. 11)
ÍNDICE DOS FRAGMENTOS
EDITADOS POR VALENTIN ROSE
1i. Diálogos (fr. 1-110/111) Acerca da filosofia: fr. 1-26. Acerca do bem: fr. 27-31. Mágico: fr. 32-36.
Eudemo ou Acerca da alma: fr. 37-48. Acerca da prece: fr. 49.
Protréptico: fr. 50-61.
Acerca da educação: fr. 62-63. Nerinto: fr. 64.
Sofista: fr. 65-67.
Acerca da retórica ou Grilo: fr. 68-69. Acerca dos poetas: fr. 70-77.
Político: fr. 78-81.
Acerca da justiça: fr. 82-90. Acerca da nobreza: fr. 91-94. O amante: fr. 95-98. Banquete: fr. 99-110/111.
ii. obraslógicas (fr. 112-124) Acerca dos problemas: fr. 112. Divisões: fr 113-115.
Registos (de assuntos lógicos):2 fr. 116. Categorias: fr. 117
Acerca dos contrários (acerca dos opostos):3 fr. 118-124.
iii. obrasDeretóricaepoética (fr. 125-179) Recolha da arte de Teodecto: fr. 125-135. Recolha de artes: fr. 136-141.
Dificuldades hómericas: fr. 142-179.
1. No presente volume, dedicado aos fragmentos e obras exortativas, serão publicados apenas os fragmentos pertencentes à primeira secção. Os restantes serão integrados nos tomos 1 e 2 do volume XI (respectivamente, as secções II-VI e VII-X). 2. Hupomnêmata (logika). 3. Peri enantiôn (peri
294
iV. obraséticas (fr. 180-184)
Excertos da República de Platão: fr. 180.
Regras para as refeições tomadas em conjunto: fr. 181. Acerca da vida conjugal do marido e da mulher: fr. 182-183. Regras para o marido e a mulher: fr. 184.
V. obrasfilosóficas (fr. 185-208) Acerca das ideias: fr. 185-189. Acerca dos pitagóricos: fr. 190-205.
Acerca da filosofia de Arquitas: fr. 206-207. Acerca de Demócrito: fr. 208.
Vi. obrasfísicas (fr. 209-278) Problemas físicos: fr. 209-245.
Acerca das cheias do rio Nilo: fr. 246-248.
Acerca da pedra de Héracles: fr. 248 (continuação). Acerca dos sinais:fr. 249-253.
Acerca dos metais: fr. 254-266. Acerca das plantas: fr. 267-278.
Vii. obrasbiológicas (fr. 279-380)
Diversas obras biológicas: fr. 279-361.
Selecta de dissecções: fr. 362. Acerca dos animais: fr. 363-372. Medicina: fr. 373-379.
Óptica: fr. 380.
Viii. obrashistóricas (fr. 381-644) Constituições, fr. 381-603. 4 Costumes: fr. 604-611. Reclamações: fr. 612-614. Vencedores píticos: fr. 615-617. Didascálias: fr. 618-630. Registos históricos: 5 fr. 631-636. Peplo: fr. 637-644.
4. A recolha incluirá apenas os fragmentos 472-603, uma vez que os anteriores (381-471) pertencem à
Constituição dos Atenienses,
cuja versão completa foi entretanto descoberta, já após publicada a edição de Rose. Constituirá o tomo 3 do volume VII das Obras
Completas de Aristóteles.
295
iX. Discursosecartas (fr. 645-670)
Apologia contra Eurimedonte sobre a acusação de impie-dade: fr. 645.
Sobre a realeza: fr. 646-647.
Alexandre ou Acerca das colónias: fr. 648. Elogio de Alexandre: fr. 649.
Elogio de Platão: fr. 650. Cartas: fr. 651-670.
X. poemas (fr. 671/672-675)
Xi. apênDice (fr. 676-680)
Fragmentos suspeitos: fr. 676-680. 6 6. Estes fragmentos
não serão incluídos na recolha. Após a edição dos fragmentos, Rose apresenta ainda as três vidas antigas de Aristóteles preservadas para além das de Diógenes e Hesíquio, a saber, a Vita
Marciana, a Vita Vulgata e
a Vita Latina, que também não serão transcritas. Para o respectivo conteúdo, veja-se o “Breve Conspecto da Biografia Aristotélica”, incluído no primeiro volume das Obras
EXCERTOS DO PRIMEIRO E DO ÚLTIMO
DIÁLOGOS DE ARISTÓTELES
INCLUÍDOS NESTA TRADUÇÃO DOS
FRAGMENTOS
1: acercaDafilosofia
Fragmento 1
(Plutarco, Adversus Colotem 20 = Moralia 1118c)
O “conhece-te a ti mesmo” parecia ser o mais divino de todos os epigramas de Delfos. Foi este, com efeito, que deixou Sócrates em dificuldades1 e o fez começar a investigar desta
maneira, tal como disse Aristóteles nos diálogos platónicos.2
...
Fragmento 8
(Proclo, apud João Filópono, De aeternitate mundi II 2, 31.17-32.8 Rabe)
Dir-se-ia que não havia nada que aquele homem <Aris-tóteles> rejeitava mais em Platão do que a hipótese das ideias, não apenas nos escritos lógicos, mas também nos éticos, nos físicos, e, sobretudo, nos metafísicos. E até nos diálogos gritou com a mais límpida nitidez que não conseguia simpatizar com aquela doutrina [a teoria das ideias], ainda que não se possa deixar de pensar que o contradizia mais por uma espécie de gosto pela disputa.3
(Plutarco, Adversus Colotem XIV = Moralia 115b-c)
A respeito das ideias, que censurava a Platão, Aristóte-les – movendo-lhes questões por toda a parte e levando-as a toda a espécie de apuros,4 tanto nas reflexões éticas, como nas
metafísicas, nas físicas e ao longo dos diálogos exotéricos –, parecia a alguns comportar-se com a doutrina platónica mais pelo gosto da disputa do que por um motivo verdadeiramente
1. Aporiai.
2. En tois platônikois. Neste contexto, “nos diálogos platónicos” não significa “nos diálogos de Platão”, mas “nos escritos em forma de diálogo como os de Platão”.
3. Philoneikian. 4. Aporian.
298
filosófico,5 como se se tivesse proposto desprezar a filosofia de
Platão: tão longe estava de a seguir.
Fragmento 9
(Siriano, In Metaphysica commentaria 159.33-160.5 Kroll)
O facto de que ele próprio <Aristóteles> admite que não tinha dito nada contra as hipóteses deles <dos platónicos an-teriores a Xenócrates> e que não acompanhava os números ideais,6 caso fossem diferentes dos matemáticos, encontra-se
atestado por estas palavras do segundo livro do seu Acerca da
filosofia: “De tal forma que, se as ideias são um outro número
que não o matemático, não teríamos nenhuma compreensão dele. Pois quem, de entre a maioria de nós, tem compreensão de outro número?” Assim, também aqui7 construiu as suas
refutações para a grande maioria, que não conhece senão o número composto por unidades,8 sem nem sequer chegar a
atingir o princípio do pensamento daqueles homens divinos.
Fragmento 10
(Sexto Empírico, Adversus Mathematicos IX 20-23)
Aristóteles disse que a noção dos deuses se gerou nos hu-manos a partir de dois princípios: a partir daquilo que acon-tece à alma;9 e a partir dos fenómenos celestes.10 Mas a partir
do que acontece à alma, a inspiração e a capacidade divinató-ria geram-se nos sonhos. Porque, dizem, quando, no sonho, a alma fica só consigo mesma, recuperando, nessa altura, a sua natureza própria, profetiza e prediz o que está para acontecer no futuro. É também assim que ela existe por ocasião da mor-te, ao separar-se do corpo. Aristóteles admite que também o poeta Homero observou de perto isto mesmo, pois que fez Pátroclo, no momento em que estava a ser morto, predizer a morte de Heitor e Heitor, por sua vez, predizer o fim de Aqui-les. A partir destes exemplos resulta então, disse [Aristóteles], que os humanos supuseram que há algo de divino,11 pois é o
que mais se assemelha por si mesmo à alma e é maximamente capaz de possuir conhecimento. Mas, certamente, o mesmo se dá a partir da consideração dos fenómenos celestes. Pois, ao contemplarem de dia o sol circundante e de noite o movimen-to bem ordenado das restantes estrelas, os homens pensaram 5. Philoneikoteron ê
philosophôteron.
6. Tois eidêtikois arithmois. Trata-se das célebres
Ideias-Números ou ideias de números, que, segundo testemunhos posteriores, Platão teria abraçado na última fase do seu pensamento. 7. Metafísica M 9, 1086a18-21, que Siriano está a comentar (pace Renato Laurenti) 8. Monadikos arithmos. 9. Apo te tôn peri psuchên
sumbainontôn.
10. Apo tôn meteôrôn. 11. Ti theon.
299
que há algo divino,12 causa de um tal movimento e de uma tão
bela ordenação. Assim disse Aristóteles. ...
Fragmento 12
(Cícero, De natura deorum II xxxvii 95-96)
De uma forma esplêndida, então, disse Aristóteles: “Se existissem pessoas que desde sempre tivessem habitado debai-xo da terra em mansões boas e magníficas, embelezadas com estátuas e pinturas e equipadas com tudo aquilo que os que são tidos por felizes13 possuem em abundância; se, além do
mais, nunca tivessem saído para a superfície da terra, mas ti-vessem sabido por um rumor ou por terem ouvido falar que há uma certa divindade14 e o poder dos deuses; e depois de
algum tempo, abertas as fauces da terra, tivessem podido eva-dir-se e escapar das suas moradas escondidas para o lugar que nós habitamos; no preciso instante em que vissem a terra e os mares e o céu, a dimensão das nuvens e a força dos ventos, e tivessem olhado para o sol e tivessem reconhecido não só toda a sua grandeza e beleza como também o poder da sua influên-cia que faz o dia, quando se difunde a luz por todo o céu; se, quando a noite esconde as terras, vissem todo o céu adornado e ornamentado com estrelas e a variedade do brilho da lua ora em quarto crescente ora em quarto minguante e todo o nascimento e ocaso destes astros, bem como os seus percursos imutáveis e fixados desde toda a eternidade – se vissem tudo isto, ajuizariam com toda a certeza que existem deuses e que tamanhas coisas são obra dos deuses.” Assim ele o disse.
... 16:
o banQuete
Fragmento 100 (Ateneu V 178ef)
Homero, exacto a respeito de tudo, não deixa escapar este pequeno pormenor, que é preciso cuidar do corpinho e lavá-lo antes de ir para um jantar. Pelo menos, disse a respei-to de Odisseu antes da festa com os feaces: “A governanta
12. Tina theon. 13. Beati. 14. Numen.
300 15. Odisseia VIII 449.
16. Odisseia IV 48. 17. Ilíada I 470. Stephanos
(“coroa”) e stephanô (“coroar”) querem dizer o acabamento completo de uma determinada obra ou acção. Nós poderíamos dizer qualquer coisa como a cereja em cima do bolo. Não podemos perceber em português a noção de “coroar” o copo com vinho, mas sem dúvida que a espuma que faz nas bordas dá a ideia de coroa, anunciando ao mesmo tempo que está cheio ou completo. 17. Odisseia VIII 170. 18. Ilíada I 470. Stephanos (“coroa”) e stephanô (“coroar”) querem dizer o acabamento completo de uma determinada obra ou acção. Nós poderíamos dizer qualquer coisa como a cereja em cima do bolo. Não podemos perceber em português a noção de “coroar” o copo com vinho, mas sem dúvida que a espuma que faz nas bordas dá a ideia de coroa, anunciando ao mesmo tempo que está cheio ou completo. 19. Odisseia VIII 170.
mandou-o logo lavar-se”.15 E acerca dos companheiros de
Te-lémaco: “Foram até às banheiras polidas e tomaram banho”.16
É inapropriado, diz Aristóteles, chegar a um banquete com-pletamente a suar e cheio de pó. Um homem elegante não deve estar sujo nem por lavar nem deleitar-se com a porcaria, como diz Heraclito.
Fragmento 101 (Ateneu XV 674e-675a)
<Safo> exorta os sacrificantes a que se coroem, por-que é mais alegre e agrada mais aos deuses. Aristóteles, por sua vez, diz no Banquete que não oferecemos nada mutila-do aos deuses, mas apenas coisas perfeitas e inteiras. Ora o completo é perfeito e coroar significa uma certa forma de completar. Diz Homero: “Jovens coroavam as taças de bebida”;18 e: “O deus coroa a sua figura com palavras”,19
querendo dizer que, aos que à vista não têm boa figura, completa-a a persuasão do discurso.Por conseguinte, é isto que a coroa pretende fazer. É por isso que, no luto, nos preparamos de forma inversa. Por compaixão para com o morto, mutilamo-nos com um corte de cabelo e retiramos as coroas.
...
Fragmento 105
(Pseudo-Juliano, Epistulae 391bc)
O figo é não apenas agradável no sabor, como também melhor para a digestão. É tão útil para os seres humanos que Aristóteles diz que ele é um antídoto contra todo o veneno e que, ao jantar, não há nada melhor para servir quer antes da refeição quer ao doce, tal como não há melhor antídoto sagrado para eliminar os males provocados pelos alimentos. E, decerto, que o figo é dado como oferenda aos deuses, que se encontra no altar de qualquer sacrifício e que é melhor do que todo o olíbano para a preparação do incenso, não sou só eu que o digo; pelo contrário, quem quer que aprenda as suas utilizações sabe que isto é o que diria um homem sábio e ver-sado nos ritos sagrados.
301
Fragmento 106 (Ateneu X 447ab)
Mas, como diz Aristóteles no Acerca da embriaguez,20 os
que bebem a bebida de cevada, a que chamam “cerveja”, caem de costas para trás. Diz assim: “Acontece algo de peculiar aos que bebem a bebida de cevada chamada ‘cerveja’. Os que se embebedam com todas as outras bebidas caem para todos os lados, seja para a esquerda, para a direita, para a frente ou para traz. Apenas os que se embebedam com cerveja caem [sempre] de costas para traz.”
(Ateneu I 34b)
Aristóteles disse que os que se embebedam com vinho caem de borco, mas os que bebem a bebida de cevada caem com a cabeça para trás. O vinho pesa na cabeça, enquanto que a bebida de cevada é soporífera.
Fragmento 107 (Ateneu X 429cd)
Aristóteles, no seu Acerca da embriaguez, diz que “se o vi-nho for reduzido moderadamente, ao beber embriaga menos”, porque, quando reduzido, o seu poder é enfraquecido. “Os mais velhos”, disse, “embriagam-se mais rapidamente, por causa da es-cassez e fraqueza do calor natural que têm no seu interior. Mas também os que são muito novos se embriagam rapidamente, por causa da quantidade de calor que têm no seu interior: são facilmente dominados pelo calor que o vinho lhes acrescenta. Ademais, também entre os animais irracionais os porcos se em-briagam se alimentados com uva prensada, os corvos e os cães se comem a chamada ‘planta de vinho’ e o macaco e o elefante se bebem vinho. É por isso que se caça os macacos e os corvos embriagando uns com vinho e os outros com planta de vinho.”
Fragmento 108
(Plutarco, Quaestiones convivales III iii = Moralia 650a)
Floro espantou-se que Aristóteles tenha escrito no seu
Acerca da embriaguez que os velhos eram os que mais se
dei-20. Trata-se do subtítulo do
302
xam apanhar pela embriaguez e as mulheres as que menos se deixam apanhar, sem que tivesse apresentado a causa, não sen-do seu costume omitir tal coisa.
Recebido em novembro de 2013. Aprovado em dezembro de 2013.