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Entre a cruz e a espada: a influência do Seminário de Olinda no discurso revolucionário de Frei Caneca

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Academic year: 2021

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PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO

VAGNER MELO DA COSTA

ENTRE A CRUZ E A ESPADA:

A INFLUÊNCIA DO SEMINÁRIO DE OLINDA NO DISCURSO REVOLUCIONÁRIO DE FREI CANECA.

Linha de Pesquisa: Educação, Estudos Sócio-históricos e Filosóficos.

Natal 2020

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VAGNER MELO DA COSTA

ENTRE A CRUZ E A ESPADA:

A INFLUÊNCIA DO SEMINÁRIO DE OLINDA NO DISCURSO REVOLUCONÁRIO DE FREI CANECA.

Tese de Doutorado apresentada ao Programa

de Pós-Graduação em Educação da

Universidade Federal do Rio Grande do Norte como requisito parcial à obtenção de grau de Doutor em Educação.

Linha de pesquisa: Educação, Estudos Sócio-históricos e Filosóficos.

Orientadora: Prof.ª Dr.ª Marlúcia Menezes de Paiva

Natal 2020

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Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI

Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial Moacyr de Góes – CE

Costa, Vagner Melo da.

Entre a Cruz e a Espada: a influência do Seminário de Olinda no discurso revolucionário de Frei Caneca / Vagner Melo da Costa. - Natal, 2020.

180 f.: il.

Tese (Doutorado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação. Orientador: Profa. Dra. Marlúcia Menezes de Paiva.

1. Frei Caneca - Tese. 2. Seminário de Olinda - Tese. 3. Revolução Pernambucana - Tese. 4. Confederação do Equador - Tese. 5. Educação - Tese. I. Paiva, Marlúcia Menezes de. II. Título. RN/UF/BS Moacyr de Góes CDU 37.013.73

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Tese de Doutorado apresentada por Vagner Melo da Costa ao Programa de Pós-Graduação em Educação, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sob o título “ENTRE A CRUZ E A ESPADA: A INFLUÊNCIA DO SEMINÁRIO DE OLINDA

NO DISCURSO REVOLUCIONÁRIO DE FREI CANECA”, orientada pela Professora

Doutora Marlúcia Menezes de Paiva e aprovada pela Banca Examinadora formada pelos professores doutores:

Marlúcia Menezes de Paiva

Presidente – UFRN

Antônio Basílio Novaes Thomaz de Menezes

Examinador Interno – UFRN

Olivia Morais de Medeiros Neta

Examinadora Interna – UFRN

Alysson André Régis Oliveira

Examinador Externo – IFPB

Luciene Chaves de Aquino

Examinadora Externa – UFPB

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AGRADECIMENTOS

Agradecer é um ato tão nobre, mas não estamos habituados a fazê-lo com frequência. Não sei se é pela pressa do cotidiano ou pela falta de reflexão sobre como a teia que nos envolve faz com que nossa caminhada só exista porque temos uns aos outros.

A jornada do Doutorado não foi fácil. Sentimentos muito fortes estiveram presentes durante os quatro anos de curso: alegria, felicidade, tristeza, melancolia. Não necessariamente nesta ordem. Mas, posso dizer que iniciou com alegria e termina com uma felicidade enorme.

No entanto, inicialmente eu falei em agradecer e ainda não o fiz. Seria um problema dos acadêmicos em exporem suas vidas e demonstrarem seus caminhos? Talvez! Mas, de uma coisa eu tenho certeza: eu só estou aqui hoje, escrevendo nesta madrugada, porque eu tive pais que souberam o valor da educação e que tinham certeza de que era única herança que conseguiriam me deixar. Por isso, meu primeiro agradecimento vai para eles. Obrigado meus pais, sei e fui testemunha de todo esforço feito para garantir que um dia eu tivesse uma vida melhor.

Meus pais foram os primeiros que me deram incentivo ao longo da construção da minha formação acadêmica, mas não foram os únicos. Ao longo do Ensino Fundamental e Ensino Médio eu consegui encontrar com professores que amavam o que faziam e que me influenciaram a ser apaixonado pelos livros, pela pesquisa, pela discussão. Meu agradecimento especial à minha professora de Sociologia e Filosofia Arminda que me fez ver o mundo como ele realmente é. E isso fez toda a diferença.

O conhecimento é uma construção que é feita aos poucos e a conclusão deste curso me remete à minha primeira graduação (Ciências Contábeis), à minha primeira especialização (Planejamento Tributário) e ao meu mestrado (Gestão Pública). Nestes cursos, eu tive a oportunidade de encontrar alguns professores maravilhosos que me fizeram acreditar na importância da Academia. Agradeço a esses professores por me demonstrarem a responsabilidade que estava em nossas mãos.

No Doutorado, eu tive a oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas que estiveram ao meu lado durante toda essa difícil jornada e uma outra que não conseguiu presenciar esse momento. Pessoas com quem ri, me lamentei, esbravejei.

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Falo dos meus colegas e amigos de João Pessoa que iam semanalmente à Natal para aulas e orientações. Quantos momentos! Guardarei todas as viagens no meu coração, mas em especial às viagens com Bruna, Lívia, Lucyana, Clara, Lâmara e Vera.

Nunca vou esquecer das horas no telefone com Bruna, falando sobre o Doutorado, e da ida ao congresso internacional de educação em Madri, na Espanha. Que dias maravilhosos foram aqueles...

Não dá para esquecer de todo incentivo e força de Verinha. Você é uma pessoa que não existe! É o tipo de amiga que está sempre disposta a ajudar a todos e isto já é raridade no mundo em que vivemos.

Mas, perdemos alguém nesse caminho, alguém que nos incentivava tanto. Confesso que está difícil continuar escrevendo essas linhas: minhas mãos tremem, meus olhos se encheram de lágrimas. Falar de Francineide é difícil porque nós acompanhamos os momentos difíceis vividos por ela, sem nos darmos conta da gravidade do que ocorria dentro dela e não conseguimos agir. Mas, tenho certeza de que ela sabia o quanto era importante para nós. Franci, você mora no meu coração para sempre!

O Doutorado também me deu a oportunidade de conhecer outra pessoa incrível, que tem uma força de vontade para fazer as coisas, que é uma verdadeira inspiração. Acredito que quem nos conhece já sabe de quem estou falando. Professora Marlúcia, que grata surpresa a conhecer! Não tenho palavras para descrever a pessoa incrível que é esta professora. Sabe aquela pessoa que você fica de longe, admirando e que você não consegue dizer “não” a ela? Essa pessoa é Marlúcia. Uma mulher guerreira, corajosa, que aceita os desafios e os executa como ninguém. E como se não bastasse, é excepcional professora, digna de ser reconhecida como uma verdadeira educadora. Professora, obrigado pelas aulas, pelas conversas, pelas orientações, enfim, por tudo!

Ainda não agradeci a todos. Eu deixei para o final para agradecer à pessoa mais importante da minha vida. Há 10 anos, quando o conheci, não imaginei tudo que atravessaríamos juntos e nem que decorrido todo esse tempo ainda estaríamos juntos, felizes e nos amando mais do que nunca. Ele foi e é minha grande paixão. É o homem da minha vida e o meu verdadeiro amor. Sem o seu amor, o seu incentivo, o seu companheirismo, eu nem teria feito a seleção do Doutorado. Ele é pedra

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fundamental na minha vida, meu alicerce e meu amparo. Obrigado, Charles. Te amo mais que tudo!

Como eu falei no início, nós vivemos em uma teia e eu sou muito grato pela teia em que vivo, porque sou fruto dela e com ela encerro mais esse ciclo na minha vida. Meu muito obrigado a todos!

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RESUMO

O objetivo deste trabalho foi o de verificar a influência do Seminário de Olinda no discurso revolucionário de Frei Caneca. O Seminário de Olinda foi uma escola-seminário fundada em 1798 com o objetivo de formar jovens para se tornarem cidadãos, possuindo um viés liberal. Frei Caneca estava inserido dentre os estudantes da primeira turma do Curso de Filosofia da instituição. Ele foi preso pela suposta participação na Revolução Pernambucana (1817), recebeu o perdão Real (1821), e se tornou um dos líderes da Confederação do Equador (1824). Por intermédio de seus escritos, publicados no jornal que fundou, conseguiu alertar à população pernambucana sobre os atos covardes do governo imperial e divulgar as bases que dariam suporte à Confederação do Equador. Para atender ao objetivo pretendido por este trabalho, foi necessário analisar os textos publicados por Frei Caneca que ensejaram na sua prisão em 1824 e estabelecer uma relação com os conteúdos estudados no Seminário de Olinda. Concluiu-se que os escritos de Frei Caneca foram, ainda que de forma indireta, influenciados pelo Seminário de Olinda, já que: havia a presença de citações de autores que faziam parte do currículo do colégio, que eram utilizados por ele como ferramenta de argumentação; seu discurso estava alinhado com os objetivos do colégio, presentes na oração acadêmica de inauguração da instituição; ele enaltece de forma contumaz o colégio em um dos seus últimos escritos.

Palavras-Chave: Frei Caneca; Seminário de Olinda; Revolução Pernambucana; Confederação do Equador; Educação.

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ABSTRACT

The objective of this work was to verify the influence of the Olinda Seminar on the revolutionary speech of Frei Caneca. The Olinda Seminar was a seminary school founded in 1798 with the aim of training young people to become citizens, having a liberal bias. Frei Caneca was among the students of the first class of the Philosophy Course at the institution. He was arrested for his alleged participation in the Pernambucana Revolution (1817), received Royal pardon (1821), and became one of the leaders of the Confederation of Ecuador (1824). Through his writings, published in the newspaper he founded, he managed to alert the population of Pernambuco about the cowardly acts of the imperial government and publicize the bases that would support the Confederation of Ecuador. In order to meet the objective intended by this work, it was necessary to analyze the texts published by Frei Caneca that gave rise to his imprisonment in 1824 and establish a relationship with the contents studied at the Olinda Seminar. It was concluded that Frei Caneca's writings were, albeit indirectly, influenced by the Olinda Seminar, since: there was the presence of quotes from authors that were part of the school curriculum, which were used by him as an argumentation tool ; his speech was in line with the school's objectives, present in the institution's academic opening prayer; he consistently praises the school in one of his last writings.

Key words: Frei Caneca; Olinda Seminar; Pernambucana Revolution; Ecuador Confederation; Education.

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RESUMEN

El objetivo de este trabajo fue verificar la influencia del Seminario Olinda en el discurso revolucionario de Frei Caneca. El Seminario Olinda fue una escuela de seminarios fundada en 1798 con el objetivo de capacitar a los jóvenes para convertirse en ciudadanos, con un sesgo liberal. Frei Caneca fue uno de los estudiantes de la primera clase del Curso de Filosofía en la institución. Fue arrestado por su presunta participación en la Revolución de Pernambucana (1817), recibió el perdón real (1821) y se convirtió en uno de los líderes de la Confederación del Ecuador (1824). A través de sus escritos, publicados en el periódico que fundó, logró alertar a la población de Pernambuco sobre los actos cobardes del gobierno imperial y publicitar las bases que apoyarían a la Confederación del Ecuador. Para cumplir con el objetivo que pretende este trabajo, fue necesario analizar los textos publicados por Frei Caneca que dieron lugar a su encarcelamiento en 1824 y establecer una relación con los contenidos estudiados en el Seminario de Olinda. Se concluyó que los escritos de Frei Caneca estaban, aunque de manera indirecta, influenciados por el Seminario Olinda, ya que: había presencia de citas de autores que formaban parte del plan de estudios de la escuela, que él utilizó como herramienta de argumentación. ; su discurso estuvo en línea con los objetivos de la escuela, presente en la oración de apertura académica de la institución; constantemente alaba a la escuela en uno de sus últimos escritos.

Palabras clave: Frei Caneca; Seminario Olinda; Revolución pernambucana; Confederación de Ecuador; Educación

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LISTA DE ABREVIAÇÕES E SIGLAS

PPGEd – Programa de Pós-Graduação em Educação S. m. – Sua majestade

S. m. i. – Sua majestade imperial

S. m. i. c. – Sua majestade imperial constitucional UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte V. exc. – Vossa excelência

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LISTA DE QUADROS

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Solicitação de Frei Caneca para estudar na Universidade de Coimbra...70 Figura 2 – Certificado de estudos de Frei Caneca...71 Figura 3 – Carta de Frei Caneca enviada ao regente D. João...73 Figura 4 – Mapa dos alunos que frequentaram o Seminário de Olinda em 1800...75

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SUMÁRIO

1. O INÍCIO DE TUDO... 15

2. REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO ... 20

2.1. História Social das Ideias ... 34

3. O SEMINÁRIO DE OLINDA ... 37

3.1. Os Estatutos do Seminário de Olinda... 44

3.1.1. A economia, a hierarquia e as funções no Seminário de Olinda ... 44

3.1.2. A moralidade e a religiosidade no Seminário de Olinda ... 52

3.1.3. A pedagogia, as funções acadêmicas e o currículo no Seminário de Olinda .. 54

4. FREI CANECA E SEU DISCURSO REVOLUCIONÁRIO... 68

4.1. Frei Caneca ... 68

4.2. Processo de Julgamento ... 83

4.2.1. Interrogatório de Frei Caneca ... 84

4.2.2. Interrogatório das testemunhas ... 87

4.3. Escritos de Frei Caneca ... 89

4.3.1. Defesa ... 89

4.3.2. Demais escritos de Frei Caneca citados no Processo de Julgamento ... 92

4.4. Sentença do Processo de Julgamento ... 117

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS... ... 119

REFERÊNCIAS... ... 122

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1. O INÍCIO DE TUDO

“O que um contador está fazendo em um Doutorado em Educação?”. Esta foi a última pergunta que ouvi na entrevista da seleção de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEd) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

A resposta para esta indagação me pareceu muito simples: paixão pela docência e interesse por História – já que a linha de pesquisa que optamos foi a de Estudos Sócio-históricos e Filosóficos da Educação.

A docência foi inserida em minha vida logo após adentrar no curso de Mestrado. Era algo tão latente que me fazia sentir um prazer imenso, esquecendo de tudo que estava fora da sala de aula. Ao mesmo tempo, me fazia questionar sobre o poder da educação na vida das pessoas. Mas, eu mesmo era – e sou – um uma prova deste poder.

Estudei em escola privada até os onze anos de idade, momento em que, por questões financeiras, meus pais me direcionaram a uma escola pública no subúrbio de Recife – estado de Pernambuco. Era a quinta série (atual sexto ano). Recordo-me que senti a diferença de uma atenção mais individualizada, de turmas de 20 alunos, em escola privada, para uma turma de 60 alunos, em uma escola pública, com uma infraestrutura precária.

Foram sete anos estudando nesta escola até concluir o Ensino Médio. Nessa jornada aprendi que você precisa se esforçar, muitas vezes de maneira solitária, mas em outras, você conta com professores que marcam sua vida de uma maneira ímpar. Como esquecer do exemplo de superação da professora de Geografia que perdeu a visão ainda jovem, ou esquecer das lições das aulas de Filosofia e Sociologia que me fizeram pensar criticamente ao final do ensino Fundamental e durante todo o Ensino Médio, ou a saudade da professora de História que nos deixou pelo câncer?

Destas, no entanto, a que mais me marcou foi Arminda, professora de Sociologia e Filosofia. Ela definitivamente nos tirava da zona de conforto. Suas aulas eram repletas de provocações, que nos faziam refletir, analisar e argumentar sobre diversos temas, em especial os mais atuais, sempre se referendando nos grandes pensadores. Que professora, que exemplo!

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Acredito que somos frutos daquilo que vivenciamos. O que vivenciei durante a minha vida escolar influenciou de forma categórica em quem sou hoje. Mas, até que ponto o convívio escolar pode nos influenciar? Até que ponto os conteúdos vistos em sala de aula podem influenciar nossa forma de falar, argumentar e agir? Estes questionamentos ficaram em minha cabeça durante algum tempo.

Questionamentos estes que só aumentaram quando eu comecei a estudar sobre a Revolução Pernambucana – como bom pernambucano que sou – e sobre a Confederação do Equador, e seus partícipes, momento em que verifiquei que alguns deles eram professores ou alunos do Seminário de Olinda, colégio fundado no final do Século XVIII.

Durante o período de funcionamento do seminário-colégio (1800-1836) eclodiram dois grandes movimentos revoltosos em Pernambuco, um deles a Revolução Pernambucana de 1817 e o outro, a Confederação do Equador de 1824, ambos com a presença de religiosos, incluindo o padre Miguelinho – líder e mártir da Revolução Pernambucana – e Frei Caneca, aluno do Curso de Filosofia da primeira turma do Seminário de Olinda e um dos líderes da Confederação do Equador.

Mais uma vez eu me deparei com a Filosofia, aquela disciplina marcante dos meus tempos de escola, mas agora imbricada na vida de Frei Caneca. Neste ponto eu me intriguei com o seguinte: teria sido Frei Caneca influenciado pelo aprendizado que teve durante os dois anos que cursou a disciplina de Filosofia no Seminário de Olinda? A que conteúdos ele foi exposto naquele colégio-seminário em pelo Brasil-Colônia?

Pensando isto, me concentrei em entender não o discurso do professor, mas o discurso de alunos que tivessem participação nos movimentos. Encontrei, desta forma, na figura de Frei Caneca o representante ideal para tentar identificar a influência da escola – o Seminário de Olinda – na sua vida de revolucionário.

Diante desse contexto, a pergunta norteadora da tese é a seguinte: Qual a influência do Seminário de Olinda no discurso revolucionário de Frei Caneca?

Em tese, acreditamos que o Seminário de Olinda, através de seus professores, do seu material didático, do acesso dado aos livros e das discussões em sala de aula, influenciou no discurso político e revolucionário de Frei Caneca.

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Dito isto, o objetivo da pesquisa foi identificar a influência exercida pelo Seminário de Olinda no discurso revolucionário de Frei Caneca – figura decisiva para a Confederação do Equador de 1824. Para atender a isto, foi realizada uma pesquisa historiográfica e documental, tanto relacionada ao seminário de Olinda, quanto aos movimentos de 1817 – pelo qual Frei Caneca foi preso – e 1824 – o qual se tornou mártir –, além da vida e obra de Frei Joaquim do Amor Divino Caneca.

A delimitação temporal do tema e consequentemente do objeto de análise foi entre o período de 1798, ano da publicação dos Estatutos do Seminário de Olinda e 1825, ano da morte de Frei Caneca.

Além disso, a pesquisa consiste em estudar a relação de Frei Caneca, enquanto aluno oriundo do Seminário de Olinda, com a Revolução Pernambucana de 1817 e com a Confederação do Equador de 1824, não abrangendo outros movimentos que tenham ocorrido no período.

A relevância do estudo está na necessidade de analisar a relação de estudantes do Seminário de Olinda com movimentos que, a priori, não deveriam interessá-los, como é o caso de movimentos nativistas. Além da verificação do estímulo exercido pelo colégio, através de ideias iluministas presentes à época da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador de 1824, centrado na figura de Frei Caneca.

A relação direta do Seminário de Olinda e de seus alunos com os movimentos separatistas ainda não foi objeto de estudo profundo. O que se tem conhecimento, até então, é que religiosos, alguns pertencentes à instituição, participaram de ambos os movimentos.

A pesquisa que mais se aprofundou no estudo do Seminário de Olinda foi a pesquisa da tese defendida em 1991 pelo pesquisador Gilberto Luiz Alves (2001) que gerou posteriormente o livro O Pensamento Burguês no Seminário de Olinda. Nela, Alves (2001) procurou evidenciar a análise dos estatutos e planos de estudos do seminário e de seu idealizador, o Bispo Azeredo de Coutinho. No entanto, apesar de comprovar a linha burguesa estabelecida através daqueles e de pensamentos iluministas em alguns conteúdos, ele não chegou a pesquisar a relação do seminário ou se seus estudantes com os movimentos separatistas ocorridos em Pernambuco no início do Século XIX.

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Passados mais de 20 anos da pesquisa de Gilberto Alves, ainda existe esta lacuna a ser preenchida. O próprio Alves (2001) afirma ao final do capítulo IV que uma investigação mais específica poderia ser feita na busca de identificar a relação do Seminário de Olinda com a Revolução Pernambucana de 1817, a ideologia presente através dos docentes e os choques ocorridos entre segmentos da Igreja Católica.

Além da Revolução Pernambucana de 1817, nossa pesquisa abarca a Confederação do Equador de 1824, já que o nome de Frei Caneca foi ligado aos dois movimentos.

O envolvimento de Padres, em ambos movimentos, e alguns destes egressos do Seminário de Olinda foi exposto por Carvalho (1980, p. 15) ao dizer que

as revoluções pernambucanas de 1817 e de 1824, esta conhecida como Confederação do Equador, tiveram algo de comum e bastante original: ambas foram marcadas pela presença e por uma profunda atuação do clero regional, a ponto de a primeira ter sido denominada a revolução dos Padres e a segunda ter todo um frade, o famoso Frei Caneca, como o seu líder e ideólogo. (CARVALHO, 1980, P. 15).

Todos estes fatos demonstram o caráter inédito da pesquisa, que contribui, do ponto de vista acadêmico, com o arcabouço teórico-científico, podendo ser utilizada como fonte de pesquisa sobre o tema que foi estudado.

Para isto, se fez necessário entender o contexto em que estava inserido o Seminário de Olinda através de uma revisão da literatura. Então, no Capítulo 2, fizemos uma análise histográfica da educação brasileira no período colonial e imperial que propiciou o surgimento de seminários-escola, dentre elas o Seminário de Olinda. Além disso, foi possível estabelecer uma relação entre o Seminário, a Revolução Pernambucana e a Confederação do Equador, trazendo os fatos históricos que os relacionam.

Especificamente quanto ao Seminário de Olinda, tivemos um olhar mais aprofundado no Capítulo 3, perpassando por sua origem e uma análise detalhada dos seus Estatutos, que davam as diretrizes para uma formação ilustrada e liberal.

Reservamos o Capítulo 4 para tratar sobre Frei Caneca, fazendo um paralelo entre sua origem, formação acadêmica no Seminário de Olinda e sua participação em movimentos separatistas ocorridos no início do Século XIX em Pernambuco. Além disso, fizemos uma análise minuciosa dos principais escritos de sua obra, buscando relacionar seu discurso revolucionário com sua formação no Seminário de Olinda.

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Por fim, trazemos no Capítulo 5 uma reflexão acerca das conclusões que nos deparamos em nossa pesquisa.

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2. REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO

Ao estudar sobre a nossa educação regular, desde seus primórdios, percebe-se que ela percebe-sempre foi movida por diversos interespercebe-ses – como ainda o é atualmente – dos vários segmentos da sociedade.

O período entre o descobrimento do Brasil, ano de 1500, e a declaração da independência, ano de 1822, é conhecido como o período colonial, já que neste período o Brasil foi colônia de Portugal.

A educação colonial no Brasil inicialmente não foi uma prioridade de Portugal, uma vez que o Brasil era uma colônia de economia essencialmente agrícola, e que para desempenhar esta atividade não havia a necessidade de uma formação especial. Sendo assim, os portugueses se restringiram à extração do pau-brasil e expedições exploratórias entre os anos de 1500 e 1530, tendo apenas neste último, o início, de fato, da colonização ao ser instituído o sistema de capitanias hereditárias.

A partir de então, a educação regular começa a ser implementada no Brasil. Alguns historiadores dividem a educação colonial em três fases: a primeira, a do predomínio dos jesuítas; a segunda, a das reformas pombalinas, intensificadas após a expulsão dos jesuítas do Brasil em 1759; e a terceira, a crescente institucionalização de escolas advindas da chegada da Corte Real de Portugal ao Brasil em 1808. Esta é a divisão temporal adotada neste capítulo, pois antecede aos movimentos revolucionários que despertaram o interesse desta pesquisa: Revolução Pernambucana (1817) e Confederação do Equador (1824). Ambos os movimentos tiveram, teoricamente, a participação ativa de Frei Caneca – foco da nossa pesquisa –, que se transformou no líder deste segundo movimento, tendo sido um de seus mártires.

A primeira fase se inicia após o fim do sistema de capitanias hereditárias. Saviani (2013) argumenta que o Rei de Portugal, Dom João III, foi convencido de que a Monarquia portuguesa precisaria intervir na ocupação da colônia, instituindo, assim, um governo geral através da nomeação de Tomé de Sousa para assumir o posto de governador geral.

Ribeiro (2010) ao tratar do declínio do sistema de capitanias hereditárias e da implantação do Governo Geral expõe a normatização das diretrizes básicas que seriam adotadas por esta nova forma de gestão das terras brasileiras – que foi

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adotado para sanar as dificuldades do sistema de capitanias. Em relação às diretrizes, Ribeiro (2010, p. 8) afirma que “é encontrada uma referente à conversão dos indígenas à fé católica pela catequese e pela instrução”. A autora complementa relatando que em 1549 chegam ao Brasil quatro padres – dentre eles o Padre Manoel da Nóbrega – e dois irmãos jesuítas junto com Tomé de Souza – primeiro governador geral –, sendo eles chefiados por Manoel da Nóbrega, a fim de cumprir o Regimento constituído (RIBEIRO, 2010).

Corroborando, Bello (1978, p.9) elenca os missionários envolvidos na missão educacional brasileira que, além do Padre Manoel da Nóbrega, contava com “[...] os padres Leonardo Nunes, Antonio Pires, João de Aspicuelta Navarros, e os irmãos Vicente Rodrigues e Manuel da Paiva [...]”.

O momento de chegada dos jesuítas ao Brasil marca o início, propriamente dito, da educação regular brasileira, através da criação do Colégio dos Meninos de Jesus, na Bahia, em 1550. Inicialmente, os esforços foram envidados no ensino dos índios e filhos de colonizadores. Este foi o primeiro colégio de muitos outros instituídos pelos jesuítas, além dos seminários e da criação de escolas que se espalharam em várias regiões do território colonial brasileiro (SAVIANI, 2013).

Na educação colonial brasileira há profundas raízes com a Igreja Católica. Paiva, J. (2015) argumenta que durante a colonização do país pelos portugueses, os jesuítas tinham a missão de estabelecer escolas para alfabetizar os índios. O autor acrescenta que esta era uma forma de estabelecer a cultura portuguesa em terras brasílicas (PAIVA, J., 2015).

Paiva, V. (2003) argumenta que através dos Regimentos, instituídos por Dom João III, em 1549, houve uma mudança de postura do governo português, adotando uma nova política colonizadora no Brasil em que a atividade prioritária era converter os índios ao catolicismo por intermédio da instrução e catequese, e disto dependia o êxito da colonização portuguesa. A autora diz ainda que este procedimento “tratava-se da aculturação sistemática dos nativos através da educação” (PAIVA, V., 2003, p. 66).

É interessante perceber que o governo luso não queria apenas instruir os habitantes nativos do Brasil, havia a necessidade de convertê-los à fé católica, demonstrando a íntima relação existente entre igreja e governo. O Padre Manoel da

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Nóbrega elaborou um plano de ensino adaptado ao Brasil em que estavam contidos o ensino de português e a doutrina cristã.

O envolvimento da Igreja Católica na educação se fez de maneira tão latente que Hansen (2015) argumenta que a orientação dada na IV sessão do Concílio de Trento, em 1546, foi de que as novas ordens de combate à heresia, caso da Companhia de Jesus, deveriam exercer o magistério e o ministério da igreja. O Concílio definiu também que a mommunitas fidelium (comunidade dos fiéis) abrangia as populações gentias das terras conquistadas, tanto por espanhóis, quanto por portugueses, incluindo, assim, o Brasil (HANSEN, 2015).

Os jesuítas vieram ao Brasil, sobretudo, para ensinar a doutrina cristã. Por este motivo, ministravam diariamente aulas de religião cristã, além de aulas de língua portuguesa. Apenas após o domínio da língua portuguesa oral e de terem começado no conhecimento teórico e prático do Evangelho é que passavam a frequentar a escola de ler e de escrever (TOBIAS, 1972).

A escola de ler e escrever era entendida como o ensino primário. Passados por este estágio, os alunos teriam dois caminhos que correspondiam ao curso médio da época: ou seguiam para uma aprendizagem profissional e agrícola; ou tinham aulas de Gramática Latina. Aquelas perduraram até a morte do Padre Nóbrega em 1570, quando o curso médio passou a ser composto por aulas de Gramática, Humanidades e Retórica (TOBIAS, 1972).

Tobias (1972) afirma que após a morte do Padre Nóbrega, o ensino médio passou a ter por finalidade, principal e exclusiva, a preparação para o curso superior. Segundo o autor, na prática, o objetivo era a formação de padres jesuítas, já que o ensino superior no Brasil tinha basicamente esta finalidade.

Para que toda essa questão educacional se firmasse no Brasil, os jesuítas organizaram aulas, colégios e seminários. A instituição destes seminários foi determinada pela XXIV sessão do Concílio de Trento, em 1563, através do Canon IV do Decretum de reformatione. O atendimento ao decreto demorou a acontecer, não havendo seminários na maioria dos párocos em 1700. Faz-se importante frisar, neste momento, que apesar do Concílio ser uma determinação religiosa, o então rei de Portugal, D. Sebastião, declarou como lei todos os decretos ali firmados, tendo em vista a importância da Igreja para reino (HANSEN, 2015).

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Como forma de manter os colégios jesuíticos, a Coroa Portuguesa adotou em 1564 o plano da Redizima. O plano consistia em destinar dez porcento dos impostos arrecadados pela colônia brasileira para a manutenção dos colégios (SAVIANI, 2013).

Os colégios, organizados pelos jesuítas, tinham como objetivo a formação de padres, no entanto, muitos dos seus estudantes, principalmente da elite, usufruíam deles por serem os únicos colégios existentes.

Os jesuítas fundaram várias faculdades no litoral e chegaram até a colocar em funcionamento a Universidade do Brasil na cidade de São Salvador. No entanto, esta não logrou êxito já que foi “oficialmente reprovada e condenada por El-Rei e pela Universidade de Coimbra [...]” (TOBIAS, 1972, p. 81). A Universidade de Coimbra era a única universidade permitida em Portugal e no Ultramar, sendo assim, a Universidade do Brasil desapareceu, deixando como opção ao ensino superior, apenas a Universidade de Coimbra.

Os jesuítas estabeleceram um sistema educacional durante os mais de duzentos anos que nortearam a educação no Brasil. No entanto, em 1759, eles – que formavam a Companhia de Jesus –, após desentendimentos com o Marquês de Pompal, foram expulsos de Portugal e de todas suas colônias.

Quando da expulsão, funcionavam no Brasil, conforme Ferreira (1966), vinte colégios: Real Colégio da Bahia (Salvador); Real Colégio de Olinda (Pernambuco); Colégio do Rio de Janeiro; Colégio de Santo Alexandre de Belém do Pará; Colégio de Vigia (Pará); Colégio de São Luiz do Maranhão; Colégio de Alcântara (Maranhão); Colégio de Fortaleza (Ceará); Colégio do Piauí; Colégio da Paraíba (João Pessoa); Colégio de Recife (Pernambuco), Colégio de Ilhéus (Bahia); Colégio de Porto Seguro (Bahia), Colégio de Santigo (Vitória – Espírito Santo); Colégio de São Vicente (São Paulo), Colégio de São Paulo; Colégio de São Miguel (São Paulo); Colégio do Paranaguá (São Paulo); Colégio do Desterro (Florianópolis) e o Colégio da Colônia Militar do Sacramento (sobre o Rio da Prata).

Além desses colégios, Ferreira (1966) afirma que havia também um colégio feminino – o Colégio Feminino de Salvador (Bahia) – e duas casas de recolhimento feminino – o Recolhimento do Sagrado Coração de Jesus (Igarassú – Pernambuco) e o Recolhimento Feminino do Maranhão.

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Ainda de acordo com Ferreira (1966), haviam, no momento da expulsão do Jesuítas, doze seminários: Nossa Senhora das Missões de Belém do Pará; Seminário de São Luiz do Maranhão; Seminário de Aquirás (Ceará); Seminário da Paraíba (João Pessoa); Seminário de Olinda (Pernambuco); Seminário da Cachoeira (Bahia); Seminário da Giquitaia (Bahia); Seminário da Conceição (Bahia); Seminário de São Paulo; Seminário de Mariana (Minas Gerais); Seminário de Parnaíba (Maranhã); e Seminário de Itapicuru (Maranhão).

Apesar dos Jesuítas terem organizado e aparelhado todas estas instituições, Carvalho (1978, p. 39) expõe que “nas publicações antijesuíticas da administração do Marquês de Pombal, transparece claramente a preocupação em atribuir aos inacianos a principal responsabilidade pela decadência em que se encontravam os estudos em Portugal”. Na visão de Pombal, havia a necessidade de uma mudança no sistema de ensino, que seria concretizado com a expulsão dos Jesuítas, mas sem um planejamento para implementar um novo sistema no lugar do que por eles era utilizado.

A educação jesuítica firmada em todas escolas foi suprimida em 1759, momento em que os jesuítas foram expulsos de Portugal e de suas colônias pela intervenção do Marquês de Pompal, Primeiro-Ministro de Portugal no período de 1750 a 1759, que, após conflito com a Companhia de Jesus, conforme fora dito, atribuiu a esta a intenção de se opor ao governo português.

Dito isto, o segundo momento da educação regular se inicia com expulsão dos jesuítas do Brasil. No entanto, até então, não havia nenhum outro sistema educacional. Fato este que é retratado por Romanelli (2012) ao expor que a expulsão dos jesuítas em 1759 causou um verdadeiro desmantelamento no sistema educacional do Brasil. Providências para substituição do sistema vigente – o jesuítico – e de seus educadores só foram tomadas decorridos treze anos da expulsão.

Tobias (1972, p. 107) afirma que “a reforma do Marquês de Pombal, além de procurar mudar a filosofia da educação brasileira, desmantelou o sistema educacional do Brasil”.

Esta ideia é corroborada por Ferreira (1966, p. 223) ao dizer que foi “[...] quebrada a unidade pedagógica e cultural da educação luso-brasileira pelo Marquês de Pombal, em 1759 [...]”.

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Quanto a isto, Paiva, V. (2003) avalia que neste período havia um desinteresse em solucionar o problema (da quebra da unidade pedagógica), tendo em vista que na segunda metade do século XVIII as ideias iluministas já haviam chegado à Europa, fazendo Portugal utilizar uma política de isolamento cultural da Colônia para que não gerasse ideias de emancipação nos nacionais.

Percebe-se, desta maneira, que o objetivo final não era a educação, mas a dominação dos índios através da educação e posteriormente dos nacionais que aqui habitassem. Ou seja, se utilizou da educação como forma de influenciar no comportamento das pessoas.

Neste momento, se pode atentar que a questão política teve predominância sobre a questão educacional – mais uma vez: não é diferente atualmente. Mesmo não havendo um sistema que substituísse o sistema jesuítico de ensino, a força do Marquês de Pompal se sobrepôs às questões educacionais, independentemente das suas supostas intenções para modernização da educação em Portugal e em suas colônias.

De acordo com Saviani (2013), a solução para o problema foi a instituição de aula régias, que eram aulas avulsas e não articuladas entre si, ministradas normalmente na casa dos próprios professores que eram pagos pelo governo, demarcando o início da instrução pública no país.

Para Carvalho (1978) as aulas régias aparecem como uma preparação para a grande renovação das estruturas e processos e da ideologia pedagógica do ensino universitário português. Esta teria sua maior vertente na reforma da Universidade de Coimbra, expressas nos Estatutos da Universidade de 1772.

No Brasil, as aulas régias começaram a ser instituídas em 1772 na cidade do Rio de Janeiro e nas principais cidades brasileiras. Inicialmente foram ofertadas as disciplinas de Gramática latina e de Gramática grega, financiadas com o subsídio literário, imposto criado para financiar a educação em Portugal e na colônia (TOBIAS, 1972).

No total, foram instituídas no Brasil 44 aulas régias para o início desse novo sistema de ensino. Foram “17 de Primeiras Letras, 15 de Gramática Latina, seis de Retórica, três de Gramática Grega e três de Filosofia” (HILSDORF, 2003, p. 21).

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No entanto, para arcar com o sistema educacional havia a necessidade de recursos financeiros. O subsídio literário já não era suficiente e a Coroa não possuía recursos suficientes para tal. O dispêndio financeiro do governo português durante o período jesuítico era infinitamente menor, já que a necessidade a ser provida aos padres era menor.

As aulas régias passaram a ser financiadas por particulares – os nobres que possuíam recursos para tal e tinham aulas privadas –, e pelo governo português, que passou a oferecer ínfimos salários aos professores que tinham interesse em lecionar (TOBIAS, 1972). Este é o início da desvalorização da carreira docente no Brasil.

Portugal passa, então, a estimular que os Governadores das Províncias se encarreguem do ensino, organizando os locais para serem ministradas as aulas régias (FERREIRA, 1966).

Em 1776, no Rio de Janeiro, foi criado um curso, de nível médio, pelos padres franciscanos para formação de sacerdotes. O curso era destinado aos estudos literários e teológicos, baseado na estrutura da Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra, e foi reconhecido oficialmente por Portugal em 11 de julho de 1776 (TOBIAS, 1972).

Ainda quanto às aulas régias, Saviani (2013, p. 108) afirma que “o funcionamento das aulas régias não impediu os estudos nos seminários e colégios de ordens religiosas, tendo sido, inclusive, criadas algumas dessas instituições no espírito das reformas pombalinas”.

Essas reformas refletiram o que acontecia em Portugal através da reforma da Universidade de Coimbra e da criação da Colégio Real dos Nobres, em Lisboa, que eram reflexo do que aconteciam na Europa como um tudo. No Brasil, nos mesmos moldes da Colégio Real dos Nobres foram criados o Seminário de Olinda, em 1798, e o Recolhimento de Nossa Senhora Glória, frutos das ideias burguesas do Bispo Azeredo Coutinho que foi aluno e professor da Universidade de Coimbra (TOBIAS, 1972).

Por não ter logrado êxito em implementar um sistema educacional eficaz no Brasil, o Marquês de Pombal percebeu que os religiosos católicos ainda mantinham grande influência sobre a educação brasileira. Estes instruíam jovens que buscavam

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conhecimento em seus seminários, seja para formação eclesiástica ou apenas instrução regular.

Um desses seminários, supracitado, foi criado ao final do Século XVIII e apresentava um modelo de ensino diferenciado. Tratava-se do Seminário de Olinda que foi apresentado como uma escola com proposta educacional avançada. Este fato foi exposto por Alves (2015, p. 61) ao afirmar que “o colégio-seminário de Olinda tornou-se, mesmo que por um breve lapso, o mais avançado do Brasil-colônia [...]”.

A proposta educacional avançada e diferenciada do Seminário de Olinda, ainda no Brasil-Colônia, era concretizada pela oportunidade que os alunos tinham de ter aulas com professores brasileiros e portugueses, estes vieram ao Brasil exclusivamente para assumir as aulas no colégio-seminário, como é o caso do Frei Miguel Joaquim Pegado que assumiu as aulas de matemáticas. Além desta disciplina, o seminário contava com aulas das seguintes áreas de conhecimento: Teologia Dogmática, História Eclesiástica, Teologia Moral, Filosofia Universal, Retórica e Poética, Língua grega, Gramática latina, Cantochão e Desenho (ALVES, 2001).

Percebe-se que o currículo do seminário era heterogêneo, não privilegiando apenas as disciplinas sacras, o que despertava o interesse de muitos estudantes que não necessariamente queriam seguir a vida eclesiástica.

Estes estudantes foram instruídos por professores como o padre Miguelinho que lecionava retórica e não disfarçava sua formação iluminista, nem mesmo na oração solene feita no dia da inauguração do seminário (ALVES, 2015).

Ressalta-se, neste momento, que a visão iluminista do padre Miguelinho não se limitava ao plano das ideias, já que ele foi um dos líderes da Revolução Pernambucana, tendo sido um de seus mártires.

O terceiro momento, e que foi decisivo para o avanço da educação no Brasil, foi a vinda da Corte portuguesa para o Brasil em 1808. A transferência da sede do governo para o Brasil determinaria a necessidade de uma série de obras de infraestrutura, incluindo uma estrutura educacional para abarcar os novos moradores da colônia portuguesa.

Quanto a isto, Villela (2015, p. 98) argumenta que “[...] a inusitada transferência da Família real e sua Corte vem a colaborar para acelerar um processo que já se encontrava em andamento”. A autora diz isto porque desde a instituição das aulas

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régias várias modificações foram ocorrendo na educação, incluindo a organização de escolas, em um modelo educacional, teoricamente, mais moderno que o jesuítico.

Villela (2015, p. 98) argumenta ainda que várias mudanças ocorreram, desde então, em relação à educação, principalmente para garantir o ensino superior voltado para a elite que no Brasil se estabelecia, “[...] com o objetivo de formar quadros que dariam suporte ao aparelho administrativo que aqui se implantava.”.

Neste período foram criadas diversas escolas e cursos para atendar a demanda que chegava ao país. Havia três níveis de ensino: o primário – com a escola de ler e escrever –, o secundário – com as aulas régias – e o superior.

D. João VI, rei de Portugal, tinha predileção pela criação de escolas, tanto para a formação educacional do povo e da aristocracia, quanto para a formação de oficiais, médicos e engenheiros. Na visão do monarca, o Brasil não poderia subsistir sem a formação destes profissionais (TOBIAS, 1972).

Por conta disto, D. João VI emitiu vários decretos no sentido de organizar a educação brasileira. Dentre eles, em 1808, criou a Escola de Cirurgia no Hospital Real da cidade da Bahia, uma Cadeira de Ciência Econômica na cidade do Rio de Janeiro, e estabeleceu a Real Academia de Guardas-Marinha; e em 1810, foi criada oficialmente a primeira faculdade do Brasil, a Academia Real Militar (SAVIANI, 2013; TOBIAS, 1972).

Em 1812, surge, em Minas Gerais, a escola de serralheiros, oficiais de lima e espingardeiros. Neste mesmo ano, surge a escola de agricultura e de estudos botânicos na Bahia e um laboratório de Química no Rio de Janeiro (SAVIANI, 2013).

Já em 1816, surge a aula de Agricultura no Rio de Janeiro e o curso de Química, que abrangia a química industrial, a geologia e a mineralogia, na Bahia (SAVIANI, 2013).

Não estavam nos planos do monarca português criar uma faculdade isolada. Até então, nas américas só havia universidades, e não faculdades oficiais. Mas, o rei não quis criar uma universidade no Brasil com receio de que a colônia adquirisse sua independência (TOBIAS, 1972).

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Vale ressaltar que a fundação de escolas superiores era de iniciativa exclusiva da Metrópole, durante o Brasil-Colônia e da cidade do Rio de Janeiro, durante o Brasil Império e durante a República (TOBIAS, 1972).

Toda a estrutura montada no Rio de Janeiro para sediar o governo português gerava custos que começaram a ser questionados pelas demais províncias, desencadeando revoltas. Algumas dessas revoltas tiveram a participação de religiosos, inclusive no papel de liderança, conforme já argumentamos.

Tavares (1969) expõe que em todas as províncias havia o descontentamento com esta situação, gerando as mesmas queixas. Movimentos que tentaram mudar este cenário foram sufocados em Minas Gerais, em São Paulo e em Pernambuco.

Em Pernambuco, esse tipo de movimento não era novidade, já que em 1710 houve uma revolta que tinha o ideário de independência, conforme aponta Tavares (1969, p. 35) ao argumentar que

os moradores de Olinda, quase todos pernambucanos, cansados de sofrer a parcialidade odiosa do Governador, que então os regia, recorreram às armas, e protestaram que não consentiriam jamais a ereção do Recife em Vila, suspeitando com fundamento que sendo ali o ninho dos portugueses, um destes seria promovido ao posto de Capitão-mor. O rancor os transportou ao criminoso excesso de tentarem contra a vida do mesmo Governador, que por acaso pôde escapar a dois tiros contra ele descarregados por alguns dos mais furiosos postados em emboscada na rua das Águas-Verdes (TAVARES, 1969, P. 35)

Essa resistência durou meses, mas, como já fora dito, foi sufocada, tendo os insurgidos presos e levados à Portugal. Porém, ficou acesa a chama da revolta e a vontade de que a República fizesse parte da vida brasileira. Neste intuito, dois movimentos surgiram mais tarde em Pernambuco: a Revolução Pernambucana, em 1817, e a Confederação do Equador, em 1824.

A Revolução Pernambucana surge principalmente da revolta crescente da Província de Pernambuco em relação à extorsão da metrópole. Além do sentimento de roubo, os pernambucanos alimentavam um sentimento nativista que desencadearia na Revolução (QUINTAS, 1985).

Além disso, havia uma crescente rivalidade entre portugueses e brasileiros – estes, considerados inferiores pelos lusitanos –, que era fomentada pelo ministério português, gerando uma insatisfação por parte dos brasileiros, principalmente em custear os excessivos gastos da Coroa (TAVARES, 1969).

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O descontentamento estava presente nas reuniões e festas que eram realizadas nas quatro lojas maçônicas regulares existentes em Pernambuco e gerava revoltas na província. Isto chegara ao conhecimento do Ouvidor da Comarca do Sertão, José da Cruz Ferreira, com a alegação de que os pernambucanos tramavam contra a soberania do trono português, tendo como chefes da suposta conspiração o Padre João Ribeiro da Pessoa – professor no Seminário de Olinda –, Domingos José Martins, Antônio Gonçalves da Cruz e alguns oficiais dos regimentos da 1ª linha. A denúncia foi aceita pelo Ouvidor e encaminhada para o Governador, que convocou o Conselho dos Oficiais Generais Portugueses, excluindo aqueles que eram favoráveis aos pernambucanos, sendo a denúncia acatada e ordenada a prisão dos denunciados (TAVARES, 1969).

Na tentativa de prender os oficiais, supostamente revoltosos, sem que eles percebessem, os comandantes foram orientados a realizar as prisões com cautela. No entanto, os oficiais – que seriam presos – perceberam o que ocorria e se instalou uma confusão que resultou na morte de um oficial português. Com isto, o Governador tentou intervir, mas acabou se refugiando em lugar longe da confusão, junto com sua família, após a morte de um enviado seu (TAVARES, 1969).

A confusão só crescia na cidade e culminou com a soltura dos demais presos que se juntaram ao movimento que já se transformara em revolução. Inclusive, é importante frisar, a revolução só pode ser possível por causa dos oficiais brasileiros que se juntaram ao movimento, dando-lhe peso, e dos religiosos que estiveram à frente dele, como o Padre João Ribeiro da Pessoa (TAVARES, 1969).

Quintas (1985, p. 67) relata que “as ideias democráticas espalhadas pela Revolução Francesa e a independência da América inglesa eram elementos impulsionadores à realização de desejos já seculares.” Tudo isto foi suficiente para desembocar o movimento que tornaria Pernambuco independente.

O movimento de 1817 só pode se concretizar porque teve, além da elite intelectual que o desenhou, incluindo o Clero da Igreja Católica, uma intensa participação da sociedade da camada mais popular (QUINTAS, 1985).

Cavalcanti (1994) é enfático em afirmar que a Revolução Pernambucana de 1817 foi o maior movimento que visava a fundação da república da fase pós-colonial do Brasil. O autor afirma também que o movimento ficou conhecido como Revolução dos Padres por causa da influência dos seminários e do grande número de religiosos

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envolvidos. E diz ainda que a geração idealista de 1817 não surgiria sem a influência de Azeredo Coutinho e do Seminário de Olinda na mentalidade da pátria (CAVALCANTI, 1994).

Corrobora com o autor, os comentários de Bello (1978, p.83), que, ao tratar sobre o seminário-escola, afirma que “[...] padres saídos do Seminário de Olinda ou dele participando, tanto como professores, como alunos [...]” teriam feito parte da Revolução Pernambucana de 1817.

Quintas (1985, p. 102) demonstra o envolvimento do Seminário de Olinda no movimento e o anseio que existia na separação da colônia da metrópole através da independência ao dizer que

Havia no ar um anseio de separação e de república. Encaminhado e dirigido por um grupo de idealistas e intelectuais que procurava educar e orientar a massa para o movimento. A rebelião nasceu da atividade patriótica de Domingos José Martins aliada à inteligência do Seminário representada sobretudo no Padre João Ribeiro. A potencialidade revolucionária à Danton de Domingos José Martins e o intelectualismo daquela geração educada no enciclopedismo e nos princípios do Contrato Social iam, com apoio da oficialidade profundamente nativista, provocar o 6 de março”.

O dia 6 de março mencionado foi o dia em que o movimento proclamou a República em 1817, sendo o primeiro governo composto unicamente por brasileiros (CARVALHO, 1980).

Carvalho (1980, p.19) ao falar sobre as formas de alcançar um nível intelectual no Brasil do início do Século XIX argumenta que “em Pernambuco havia, como alternativa o Seminário de Olinda, um autêntico oásis cultural, onde, não se sabe como, conseguia-se burlar a censura”. Esse oásis cultural a que ele se refere vai no sentido das ideias que circulavam no Seminário no período antecedente à Revolução Pernambucana, que conforme “D. Duarte dirá, bem mais tarde, que nessa época o Seminário de Olinda era um ninho de ideias liberais e subversivas” (CARVALHO, 1980, p. 19).

Leite (1988, p. 130) relata sobre a relação da Igreja com o movimento, conforme já percebe-se com a participação do Padre João Ribeiro, ao afirmar que “houve adesão oficial da Igreja ao movimento que proclamou a República em Pernambuco, em 1817”, pois com a ausência do Bispo de Olinda – que na época era o D. Antônio de São José Bastos –, a responsabilidade eclesiástica em Pernambuco era de três

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padres, identificados como “os patriotas”, que assinaram um documento intitulado de Proclamação da Cúria de Olinda em defesa da República de 1817.

A autora argumenta também que o Padre Antônio Jácome Bezerra – Vigário do Recife em 1817 – foi um dos implicados no movimento. Ela nos traz ainda a informação que a colocação realizada pelo Governador Caetano Pinto sobre as denúncias que recebeu sobre a Revolução, em depoimento prestado ainda em 1817, em que afirma que o conteúdo de uma das denúncias era de que muitos dos frequentadores da casa de Domingos José Martins – um dos líderes do movimento – eram discentes do Seminário de Olinda (LEITE, 1988).

De posse desta denúncia, se chegou à conclusão de que os líderes da conspiração contra o governo português e seu Soberano eram o Padre João Ribeiro Pessoa – que também era professor no Seminário de Olinda –, Domingos José Martins, supracitado, Antônio Gonçalves da Cruz e alguns oficiais dos regimentos de Primeira Linha (TAVARES, 1969).

A participação de padres no movimento de 1817 e a denúncia recebida pelo Governador também é relatada por Castro (1968) ao apresentar uma carta enviada por um cidadão, contrário ao movimento, chamado João Luís Cardoso Machado, a um amigo em 15 de junho de 1817. João Luís faz um levantamento na carta de alguns fatos que testemunhou e de outros que tomou ciência. Em uma passagem ele diz que o Governador foi avisado sobre a revolta que se armara e que o entregaram uma lista com os traidores. De posse desta lista, o Governador “[...] manda prender Domingos José Martins, o Padre João Ribeiro e Antônio Cabugá, e o cirurgião Peixoto, etc.”. (CASTRO, 1968, p.126).

Em outro momento, o cidadão que escreve a referida carta fala sobre a ação de captura de um sacerdote ao dizer que “Padre João Ribeiro, no Paulista, enforcou-se, cortaram-lhe a cabeça[...]”, e completa dizendo que “[...] veio o Pedroso, sanguinário que foi apupado publicamente, o Padre Caneca do Carmo [...]” (CASTRO, 1968, p.128).

Pombo (1967) também relata a execução de líderes do movimento. No relato, há também a execução do padre Miguelinho no campo da Pólvora.

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A vitória conquistada em 1817 durou apenas 75 dias e foi combatida de forma enérgica, a ponto de levar à morte os personagens supracitados, além da prisão de muitos outros, como foi o caso de Frei Caneca que foi solto anos depois.

Já relacionado à Confederação do Equador de 1824, Carvalho (1980, p. 37) diz que “pode-se dizer que foi a continuação de 1817, pelo menos sob vários aspectos.” Esta afirmação dele faz referência ao fato de nada ter mudado depois da Revolução Pernambucana, apesar da independência do Brasil que ocorreu em 1822.

Corroborando com isto, Lima Sobrinho (1979) argumenta que o regresso dos presos na Revolução Pernambucana veio a reacender a chama da Independência, já que houve a soltura de pelo menos 155 presos políticos.

Sua decretação, segundo Cavalcanti (1994), foi decretada pelo Presidente Manuel de Carvalho Pais de Andrade, pois havia um descontentamento com as medidas que eram tomadas pelo Imperador Pedro I – uma vez que a Independência do Brasil já havia sido declarada por este em 1822 – em relação à província pernambucana.

A Confederação do Equador derivou-se de três vertentes: a liberal, a federalista e a nacionalista, já que

A vertente liberal reuniu tendências resultantes da pregação das Lojas Maçônicas e das Academias do tempo, articuladas com as tendências filosóficas do Iluminismo e presas, de alguma forma, às inspirações da Revolução Francesa de 1789;

A vertente liberal reuniu tendências resultantes da pregação da autonomia regional, como um recurso para que se pudesse evitar o conflito de interesses, que poderia levar ao sacrifício da unidade nacional;

A vertente nacionalista traduzia a preocupação de quebrar todos os vínculos, que concorressem para a continuação do domínio português ou que pudessem valer para o retorno do colonialismo, de que Pernambuco se libertara antes de qualquer outra região brasileira, com a expulsão do famoso Batalhão do Algarves, que dava cobertura militar a esse colonialismo. (LIMA SOBRINHO, 1979).

Há ainda outras referências de religiosos fazendo parte de mais este movimento nacionalista, dentre eles Frei Joaquim do Amor Divino Caneca – conhecido popularmente como Frei Caneca – que se tornou mártir do movimento e era aluno egresso do Seminário de Olinda (CAVALCANTI, 1994).

Frei Caneca utilizou-se do Typhis Pernambucano, jornal que criou em 1823, para difundir suas ideias, informar e traduzir para sociedade o que acontecia no país,

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além de inflamar a sociedade para lutar contra o que estava posto, em busca da liberdade de fato.

Ainda a despeito da Confederação do Equador, Lima Sobrinho (1979) ressalta que o movimento dominou Pernambuco por 72 dias, mas foi derrubado por tropas enviadas pelo Imperador. Como consequência, vários líderes do movimento foram sacrificados, como foi o caso do padre Mororó, considerado por ele como um dos grandes nomes da revolução e de Frei Caneca que teve como punição a degradação eclesiástica, que era uma punição em casos exorbitantes, terminando com seu fuzilamento (LIMA SOBRINHO, 1979).

Tanto a Revolução Pernambucana, quanto a Confederação do Equador tinham um viés nativista. Carvalho (1980, p. 16) argumenta que “em 1817 eles queriam a libertação da pátria em relação ao colonizador português; em 1824 eles lutaram e morreram pela consolidação da Independência conquistada e pela implantação de um regime constitucional”. Todos eles precisam ser lembrados e exaltados, pois estavam em busca de uma sociedade melhor, mais justa, mais igualitária – não é diferente dos nossos desejos de hoje –, e o legado que eles deixaram nos inspiram atualmente e continuarão a nos inspirar no futuro.

2.1. História Social das Ideias

Além dos autores que constam na revisão da literatura supracitada, o referencial teórico-metodológico que conduziu a pesquisa de tese de Doutorado foi a História Social das Ideias, por ser mais adequado ao objeto de pesquisa. De acordo com historiador norte-americano Robert Darnton (2010, p.184), a História Social das Ideias é “[...] o estudo das ideologias e da difusão das ideias [...]”.

A História Social das Ideias cabe perfeitamente no estudo desenvolvido, uma vez que surgiu da necessidade de situar o ideário iluminista com uma maior precisão relacionado ao contexto social (DARNTON, 2010).

Aparentemente não existiria relação entre as ideias iluministas e os seminários, em especial o Seminário de Olinda – objeto da nossa pesquisa –, no entanto, a própria revisão da literatura nos revela que essas ideias já faziam parte do cotidiano daquele seminário.

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A questão do cotidiano, inclusive, é abordada por Darnton em entrevista concedida à historiadora Maria Lucia Garcia Pallares-Burke (2000). Nas palavras de Darnton:

Para se compreender o século XVIII e o Iluminismo precisamos, portanto, de duas coisas: de um lado, entender os textos lendo-os cuidadosamente, não esquecendo de buscar o que está nas entrelinhas, e, de outro, compreender os interesses econômicos e sociais que os rodeavam. Se se puderem juntar esses dois aspectos, então pode-se criar o que chamo de história social das ideias, pois nela as ideias não são tratadas como se vivessem na atmosfera, destacadas da realidade social. A vantagem desse tipo de história, no meu entender, é que pode provocar mudanças na história geral e não só na história do Iluminismo, na medida em que mostra como as ideias se tornam parte do mundo diário [...] (PALLARES-BURKE, 2000, p.257).

Partindo da orientação metodológica de Darnton e da História Social das Ideias, um dos objetivos do estudo desenvolvido foi o de analisar as particularidades do cotidiano do Seminário de Olinda. Teve-se com isto a intenção de entender até que pontos as ideias avançadas e iluministas faziam parte daquele cotidiano, inclusive na relação professor-aluno, podendo ter gerado uma possível adesão dos alunos ou egressos aos movimentos liberais de 1817 e de 1824 em Pernambuco – em especial Frei Caneca, nosso foco de estudo, que foi aluno do Seminário, tendo sido implicado em um dos movimentos e participado ativamente do outro –, além da participação dos próprios docentes nestes. Dito isto, foi analisado o período de 1798 a 1825, ano da publicação dos Estatutos do Seminário de Olinda e ano da morte de Frei Caneca, respectivamente.

Outro procedimento que seguimos do pensamento da História Social das Ideias, que foi crucial na execução da pesquisa sobre o Seminário de Olinda e sobre Frei Caneca, foi a análise documental.

Foram analisados documentos do Seminário de Olinda e documentos escritos por Frei Caneca, tais como o seu “diário de guerra”, seus votos públicos e os diversos escritos publicados em jornais. Os documentos foram extraídos de acervos digitais e de publicações que reuniram os textos de Frei Caneca.

Na visão do historiador social das ideias, o pesquisador ao ter disponível uma papelada (documentos) deve então “[...] ir para os arquivos e mergulhar nela, ao invés de ler Voltaire, caso se queira saber como se dava o entrelaçamento de ideias e política [...]” (DARNTON, 2010, p. 199).

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A busca pelas ideias, pensamentos que permeavam o Seminário de Olinda é primordial para entender como funcionava o Seminário de Olinda e que informações os estudantes tinham acesso, a fim de compreender a potencial influência que o colégio-seminário poderia ter para que um de seus mais brilhantes alunos – Frei Caneca – fosse tomado pela vontade de participar ativamente de movimento que posteriormente tiraria sua vida. Essa busca se inicia, no próximo capítulo, com o histórico do Seminário de Olinda, culminando com a análise dos seus Estatutos.

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3. O SEMINÁRIO DE OLINDA

A Igreja Católica, por intermédio do Concílio Universal de Trento, em 15 de julho de 1546, ordenou que fossem constituídos colégios com a finalidade de educar religiosamente meninos (NOGUEIRA, 1985).

A formação religiosa nestes colégios teria o objetivo precípuo de atender a atribuições específicas da atividade pastoral como a pregação, a liturgia e a práxis sacramental (HANSEN, 2015). Com este, como um dos objetivos, chegaram ao Brasil, na Bahia – sede do governo geral do Brasil –, em março de 1549, os seis primeiros jesuítas, sob a tutela do padre Manuel da Nóbrega (NOGUEIRA, 1985).

Oficialmente os jesuítas tinham como objetivo converter os gentios das terras brasílicas e usariam os colégios para atender a isto. Saviani (2013, p. 26) diz que “[...] os jesuítas criaram escolas e instituíram colégios e seminários que foram espalhando-se pelas diversas regiões do território”.

Com esta finalidade, em julho de 1551, chegaram em Pernambuco os primeiros jesuítas, Padres Manoel da Nóbrega e Antônio Pires. Estes, foram recebidos em Olinda pelo donatário Duarte Coelho e pelos moradores locais (BARATTA, 1972; BELLO, 1978; NOGUEIRA, 1985).

No ponto mais alto de Olinda, o donatário Duarte Coelho havia iniciado, anteriormente à chegada dos padres jesuítas, a construção de uma pequena igreja dedicada à Nossa Senhora da Graça. Com a chegada desses sacerdotes, doou a pequena capela que estava sendo erguida e os terrenos que a cercavam para a Companhia de Jesus para a construção de sua residência estável e de um futuro colégio (BARATTA, 1972).

Em 1559, já com os Padres Manoel da Nóbrega e Antônio Pires na Bahia, dois padres foram enviados à residência de Olinda, que já havia sido edificada, para catequização e aconselhamento dos cristãos. Os dois padres se reuniam, todos os dias, com mais de mil escravos de trabalho, divididos entre o período diurno e noturno, no pátio da casa, para catequizá-los e através disto, civilizá-los. Eles permaneceram em Olinda até 1567, momento em que foram enviados, por seus superiores, à Bahia, sem os devidos substitutos (BARATTA, 1972).

Até então, não havia escola, apesar de o pátio da residência dos padres jesuítas já ser um embrião da escola que logo seria fundada.

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No ano de 1568, um ano após os padres serem enviados à Bahia, outros dois padres – o Padre Rodrigo de Freitas e o Padre Amaro Gonçalves – foram enviados a Pernambuco, além de dois escolásticos. Juntaram-se a eles, posteriormente, o Padre Alonso Gonçalez e o irmão João Martins. Este grupo de religiosos deu início em 1569 ao “núcleo do primeiro e único colégio que durante quase dois séculos existiu em Pernambuco” (BARATTA, 1972, p. 18).

Em 1570, ainda sem colégio, foi inaugurada a primeira aula de latim, tendo o Padre Amaro Gonçalves como o primeiro mestre (FERREIRA, 1966).

Apenas em 1573 o colégio é instituído, apesar de ainda não o ser oficialmente e de ainda ser mantido em uma casa provisória. Houve uma grande festa para iniciar o calendário letivo, e se matricularam 102 alunos, destes, 32 na aula de latim e 70 na aula de ler e escrever (BARATTA, 1972).

Ressalva deve ser feita neste momento a respeito dos alunos. Estes eram todos filhos dos colonos. Os pequenos indígenas contaram com uma escola própria que foi iniciada no mesmo ano (BARATTA, 1972).

Baratta (1975) diz que já em 1575, o novo edifício da escola foi finalizado e o colégio teve sua fundação oficial, passando, assim, a ser mantido pelo governo. O autor argumenta também que “já nesta época o Colégio de Olinda era, além de um Colégio para jovens externos, o noviciado ou escolasticado da província brasileira, uma escola de missionários fundada pelo padre Anchieta quando provincial”. (BARATTA, 1972, p. 26).

Quanto à fundação, Nogueira (1985) argumenta que em 1575, em reunião da Congregação provincial da Bahia, se decidiu pela fundação do Colégio de Olinda. No entanto, só em janeiro de 1576 foi criado oficialmente o colégio por intermédio do Alvará do Rei D. Sebastião.

A partir de então o colégio passou a ser financiado com os recursos governamentais. A quantia destinada ao colégio foi de mil cruzados anuais. Além disto, recebeu, também, uma quantidade de gado e lavoura de mandioca (BARATTA, 1972).

Estes recursos eram oriundos da redízima, que foi um plano criado pela Coroa Portuguesa em 1564, “[...] pelo qual dez por cento de todos os impostos arrecadados

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da colônia brasileira passaram a ser destinados à manutenção dos colégios jesuíticos” (SAVIANI, 2013, p. 50).

Além dos cursos de Latim e de Ler, escrever e contar, que sempre fizeram parte do colégio, foi criado em 1607 o curso de Teologia Moral e há indícios que até 1630 havia o curso de Filosofia (FERREIRA, 1966).

O colégio teve seus tempos áureos entre a fundação oficial e o ano de 1630, chegando a ter 40 jesuítas residentes no ano de 1624. No ano de 1630, a escola foi invadida por tropas inimigas nas denominadas Invasões Holandesas, quando se tornou um quartel general. Condição esta que permaneceu até 1631, quando os holandeses incendiaram a cidade de Olinda e seguiram para Recife. Parte do colégio foi poupado graças a ação rápida dos índios das estâncias vizinhas (BARATTA, 1972).

Ferreira (1966, p. 117) atribui aos piratas holandeses a destruição do colégio, alegando que eles eram “inimigos da cultura como todos os amigos dos bens materiais”.

Apesar de parte do colégio ter sido poupada, conforme fora dito, nenhuma aula podia ser ministrada durante o governo de Maurício de Nassau, sendo permitida, apenas, a celebração de culto católico (BARATTA, 1972).

Após a superação do domínio holandês, em 1654, os jesuítas iniciaram a reconstrução do colégio e no ano seguinte as aulas foram retomadas. Há registros de que em 1671 eram ofertados os cursos de Filosofia e de Humanidades e em 1673 o Curso de Artes (FERREIRA, 1966).

Os cursos ofertados pelos colégios eram tão importantes que em 1687, por Ordem do Rei D. Pedro II – a Provisão Régia –, foi validado o curso de Filosofia do colégio como se o curso tivesse sido realizado em Coimbra, o que gerou o título de Real Colégio de Olinda no Século XVIII (FERREIRA, 1966).

Os cursos só voltaram a ser novamente interrompidos quando da expulsão dos jesuítas, através da intervenção do Marquês de Pombal em 03 de setembro de 1759. Neste momento,

[...] fecharam-se os colégios que dirigiam, os únicos que, então, existiam no Brasil para a juventude secular, em São Paulo, Rio, Bahia, Belém da Bahia, Olinda, Recife, Paraíba e Pará, e as numerosas residências espalhadas por

Referências

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