4. FREI CANECA E SEU DISCURSO REVOLUCIONÁRIO
4.2. Processo de Julgamento
4.2.1. Interrogatório de Frei Caneca
Inicialmente foi perguntado a Frei Caneca o seu nome, naturalidade, estado e idade. Ele “respondeu que se chamava Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, natural desta cidade do Recife, estado de religioso carmelita turonense, idade de 45 anos e cinco meses”. (CANECA, 2001, p. 614)
Em seguida, fora lhe perguntado se ele sabia o motivo da sua prisão. Ele respondeu que foi preso, “por se achar na divisão de tropas que daqui marcharam para o interior da província, na ocasião em que entrara o Exército Imperial”.
Foi também perguntado sobre a publicação de seus escritos. Nesta pergunta vale ressaltar a forma literal de como foi realizada: “Foi perguntado se nunca propagara ou publicara idéias [sic] ou escritos subversivos da boa ordem” (CANECA, 2001, p. 614). Frei Caneca então respondeu que foi
“redator do periódico intitulado o Typhis, no qual se contêm idéias [sic] que ele propagara, as quais eram as mesmas que havia lido em outros periódicos mesmo da Corte; e que não havendo nunca sido chamado a jurados, se regulava pela lei que então existia sobre os abusos da liberdade de imprensa, dirigindo-se sempre ao ministério, todas as vezes que atacava os desmandos públicos”. (CANECA, 2001, p. 614).
Outro questionamento realizado, mas ainda na esteira do anterior, foi referente à possibilidade de seus escritos disseminarem ideias que tivessem o viés de promover a desunião das províncias e atacar o Império. Essa pergunta faz referência à ideia de
independência da província de Pernambucano que vinha desde a Revolução de 1817, mas que nunca foi o objetivo dos dois movimentos. Por isto mesmo, Frei Caneca respondeu que era uma questão de interpretação, mas que nenhuma de suas ideias possuíam esse viés. E de fato, as ideias de Caneca nunca foram de apartar a província de Pernambuco das demais províncias, mas de conscientizar às pessoas para que se indignassem contra os desmandos que eram realizados pela Coroa antes de 1822 e até aquele momento pelo Império.
Frei Caneca também foi questionado sobre o apoio dado à Manuel de Carvalho Paes de Andrade para eleição e conservação da presidência da província de Pernambuco, mesmo contra ordens expressas do Imperador. Quanto a isto, o religioso afirmou que não interferiu na eleição de Manuel de Carvalho, pois não era eleitor, agindo apenas para conservação do cargo, pois foi convocado para um conselho, já que era membro do corpo literário da província, emitindo seu voto, conforme documentos impressos que constam todo o seu teor.
A todo momento o interrogador fazia questionamentos baseados nos escritos dele com a intenção de encontrar alguma contradição nas suas palavras. Sendo assim, as perguntas, mesmo que não fossem diretamente sobre seus escritos, tinham neles um direcionamento e, de certa forma, sempre retomavam a eles. Isto ocorreu no questionamento anterior acerca da eleição de Manuel de Carvalho na Província de Pernambuco, que teve como base o voto escrito apresentado na reunião do Grande Conselho, de 7 de abril de 1824, presidida pelo padre Venâncio Henrique de Resende, e continua nas demais perguntas.
Seguindo com os questionamentos, o interrogador perguntou sobre suas atitudes, como a cooperação para o plano da Confederação do Equador, que segundo foi relatado pelo interrogador foi proclamada por Manuel de Carvalho. A resposta a isto foi que não havia ouvido falar da Confederação do Equador até chegar ao Sertão2,
momento em que ouviu algumas proclamações a esse respeito. Nesse momento o interrogador tentou contradizê-lo, argumentando que as bases da Confederação do Equador haviam sido publicadas no Typhis, jornal o qual era fundador e redator. No entanto, frei Caneca contra-argumentou dizendo que o papel com as bases foi dado
2 O Sertão que Frei Caneca se refere está relacionado com as cidades do interior do nordeste que
por Manuel de Carvalho para publicação, mas com a intenção de que qualquer governo pudesse colocá-las em prática.
Em outro questionamento foi perguntado se ele havia contribuído para que não se aceitasse o projeto de Constituição que foi proposto pelo Imperador. Em resposta, argumentou que foi convocado pela Câmara para dar um parecer acerca do tema, sinalizando que aquela proposta não deveria ser aceita. Assim como respondeu ao questionamento sobre a eleição de Manuel de Carvalho, acrescentou que o seu voto constava nos livros da Câmara e em impressos que foram publicados. Frei Caneca se referia ao voto sobre o juramento do projeto de Constituição oferecido por D. Pedro I que foi apresentado por ele na reunião do dia 06 de junho de 1824 na Câmara e que foi utilizado pelo interrogador para realizar este questionamento, o qual já tinha a resposta, já que o voto é claro para a não aceitação do projeto de Constituição3.
Tendo superadas todas as perguntas que se remetiam, direta ou indiretamente, aos escritos de Frei Caneca, o interrogador passou a questioná-lo sobre o período em que fugiu para o Sertão com os demais integrantes da tropa rebelde.
A primeira pergunta sobre isto foi se incentivou as tropas rebeldes para que atacassem ao exército “cooperador da ordem”4, tendo respondido que houve o
incentivo, pois havia sido oficiado ao inimigo, major Pitanga, que o fariam quando estavam em Barra Grande.
Além do exército supracitado, foi perguntado se incentivou resistência contra as tropas oficiais do Imperador. Quanto a isto, respondeu que nenhuma das suas atitudes podem levar a esta conclusão.
Foi questionado também o motivo para estar acompanhado pela tropa rebelde e ter com ela fugido. A resposta foi que havia acompanhado a tropa, mas que os motivos seriam devidamente apresentados na sua defesa escrita, já que fazia parte da sua estratégia de defesa.
Por fim, foi perguntado se ele tinha algo a mais a acrescentar em sua defesa, mas o Frei argumentou que como era permitido que houvesse uma defesa escrita, ele assim o preferia.
3 A análise deste voto e do voto anterior será realizada no item 4.3.2.