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Pesquisa com crianças na Comunicação: um relato de experiência

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Pesquisa com crianças na Comunicação: um relato de experiência

Marta Maria Azevedo Queiroz

1 Professora do Departamento de Métodos e Técnicas de Ensino-DMTE/EDUCAÇÃO e do Programa de Pós-graduação em Comunicação-PPGCOM da Universidade Federal do Piauí-UFPI, [email protected]

Resumo: O artigo é um relato de experiência da pesquisa de doutoramento1 intitulada Eu não quero ser a

mulher saliente! Eu prefiro ser a Isabella Swan! Apropriações das identidades femininas por crianças na recepção midiática, com participação de dezessete crianças, entre dez e treze anos de idade, que teve como objetivo analisar os sentidos produzidos por elas sobre as identidades femininas na recepção midiática. Apresentamos o recorte teórico-metodológico da pesquisa, com fundamento na transmetodologia e multimetodologia (Maldonado, 2012, 2013, 2015). Essa perspectiva parte da compreensão que a realidade e seus processos são apropriados na sua multidimensionalidade e interdisciplinaridade. Assim, recorremos a múltiplas fontes de dados: Diário de Campo, Questionário, Desenho, Produção de Texto, Internet (Google e Redes Sociais) e Rodas de Conversa. Os resultados indicaram fortes relações entre as escolhas das crianças e as identidades femininas veiculadas na mídia, e que estão entranhadas nas experiências vivenciadas na sua cotidianidade.

Palavras-chave: Ciências da Comunicação; Mídias; Crianças; Transmetodologia; Identidades femininas. Research with children in Communication: an experience report

Abstract: The article is an experience report from the doctoral research entitled I do not want to be the

sassy woman! I'd rather be Isabella Swan! Appropriations of the female identities by children in media reception, with the participation of seventeen children, aged between ten and thirteen years, that had as purpose to analyze the senses produced by them about feminine identities in media reception. We present the theoretical-methodological clipping of the research, based on the transmetology and multi-methodology (Maldonado, 2012, 2013, 2015). This perspective starts from the understanding that reality and its processes are appropriated in their multidimensionality and interdisciplinarity. Thus, we use multiple sources of data: Field Diary, Questionnaire, Design, text Production, Internet (Google and Social Networks) and Conversation Wheels. Thus, we used multiple data sources: Questionnaire, Drawing, written production, Internet (Google and Social Networks) and Conversation Circles. The results indicated strong relationships between the children’s choices and the feminine identities conveyed in the media, which are embedded in the experiences lived in their daily life.

Key-words: Communication Sciences; Media; Children; Trans-methodology; Women's Identities.

1 Introdução

A metodologia de investigação torna-se uma questão premente no ato de pesquisar e uma das primeiras lições que aprendemos é ser impossível assumir abstratamente métodos rigorosos e herméticos, mormente na área das Ciências Humanas e Sociais. Na perspectiva de Certeau (1998), por exemplo, a pesquisa exige diferentes aproximações e táticas em função não apenas das características concretas dos objetos investigados, sempre móveis e em mutação constante, como também em face das questões levantadas pelo campo e sujeitos partícipes.

1 Na área de Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos-UNISINOS, Rio Grande do Sul, Brasil, com orientação da Dra. Denise Cogo.

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Assim, a metodologia de uma pesquisa não deve se restringir a receituários, mas a processos de tomada de decisões e invenções, pois é no percurso do caminho que identificamos os indícios, as marcas, os rastros e detalhes até a constatação dos fatos, afirma Ginzburg (2009).

Nessa seara, o exercício da pesquisa qualitativa apresenta maior complexidade e demanda acurada capacidade perceptiva e de reflexão. Ipso facto, o que abordamos aqui é um relato de experiência de uma pesquisa de doutoramento na área das Ciências da Comunicação intitulada Eu não quero ser a

mulher saliente! Eu prefiro ser a Isabella Swan! Apropriações das identidades femininas por crianças na recepção midiática, que teve como objetivo analisar os sentidos produzidos por elas sobre as

identidades femininas2 na recepção midiática. A imagens a seguir fazem parte dos desenhos

produzidos pelas crianças: 1) Isabella Swan, personagem da saga Crepúsculo, uma adolescente tímida que se torna vampira e 2) a mulher saliente, descrita fumando e com uma tatuagem na barriga.

Figura 1. Imagens selecionadas dos desenhos produzidos pelas criança.

Ressaltemos que, inicialmente, a proposta da pesquisa tinha como observável as revistas impressas3,

na perspectiva de compreender como tais discursos instituíam as posições de diferenças e de normalidades acerca do gênero na infância. Essa perspectiva nos inquietou, já que o lugar de fala dos sujeitos nas revistas revelava tão somente a visão adultocêntrica sobre a as crianças e as infâncias. Se concebíamos as crianças como sujeitos produtoras de cultura (Corazza, 2004; Sarmento, 2018), tínhamos que escutá-las, saber das suas escolhas e do que lhes são ofertados, das percepções e sentidos que produzem, refutando as perspectivas que identificam na recepção – o público infantil – o polo passivo do processo comunicativo.

A recepção passou a ser o lugar da investigação que, de acordo com Lopes (1999, 2014), não deve ser vista apenas como uma área de pesquisa sobre mais um dos polos que compõem o processo de comunicação, ou um momento do ato de comunicação, e sim como uma perspectiva entranhada à produção e ao consumo (Orozco, 2011; Canclini, 2010). Uma complexa rede de relações permeada de contradições e conflitos, poder e resistência.

2 Compreendemos, de acordo Louro e Goellner (2007), que os atributos culturais e sociais conferidos ao gênero são construções sociais, culturais e históricas acopladas ao corpo biológico.

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Um campo de produção e reprodução social dos sentidos envolvidos nos processos culturais, e que não se restringem apenas uma questão de sentidos, mas principalmente de poder (Moraes, 2016). Assim, utilizamos como fundamento a transmetodologia, de premissa multimetodológica (Maldonado, 2012, 2013, 2015). Essa perspectiva parte da compreensão que a realidade e seus processos são apropriados na sua multidimensionalidade e interdisciplinaridade. Assim, recorremos múltiplas fontes de produção de dados: Diário de Campo, Questionário, Desenho, Produção de Texto, Internet (Google e Redes Sociais) e Rodas de Conversa. Foi assim que produzimos conhecimento, em movimentos interativos de idas e vindas, do voltar atrás e revisar as decisões tomadas, sem descuidar da acuidade do pensamento crítico-refllexiva, desnovelando os embaraços, contingências e nuances encontradas no seu percurso, pois sabemos que é impossível retratar os fatos como aconteceram, já que nos encontramos sempre no meio do caminho ou no caminho do meio das coisas (Queiroz, 2013).

2 Imersão no campo: desafios e possibilidades

Assumimos na pesquisa, conforme Guber (2004), que o campo não é dado, mas construído ativamente na relação que se estabelece entre o investigador e os sujeitos da investigação, entre fenômenos observáveis e os significados que os sujeitos dão ao vivido, às suas ações, que integram suas práticas e ideias, seu comportamento e suas representações, e que estão imbricados nas relações de poder e resistências, é “[...] en principio, de todo aquello con lo que se relaciona el investigador, pues el campo es una cierta conjunción entre un ámbito físico, actores y actividades” (p.47). Guber (2011) afirma que o campo não é somente um espaço geográfico e sim um espaço de tomada de decisões, desvios, observações, questionamentos que vai demarcando áreas, envolvendo os sujeitos sociais e interpretando as informações nas processualidades. Foi, assim, que imergimos no campo em 2011 e 20124. Foram momentos de muitos questionamentos e incertezas, entre elas a

formação do grupo de crianças e o local dos encontros, na família ou na escola5. Escolhemos, porém,

realizá-los na escola, uma pública e uma privada6, na cidade de Teresina, Estado do Piauí, Nordeste

do Brasil. A escola pública é gerida pelo município, localiza-se no bairro Água Mineral, zona norte da cidade, e iniciou suas atividades em 1983. A Escola Privada é gerida pelos padres Jesuítas, localiza-se no centro da cidade, e foi construída em 1906. Realizamos a pesquisa com dois grupos de crianças, um da escola pública e, outro, da escola privada. Pretendíamos contemplar a diversidade do universo infantil quanto à classe social para analisar os sentidos que as diversas classes sociais atribuem àquilo que se apropriam acerca das identidades femininas. Na escola, algumas dificuldades surgiram no processo, a exemplo dos horários de encontros. Eles não poderiam ocorrer no horário regular de aula. Uma atividade no contraturno representaria um esforço maior para as crianças, que tinham muitas atividades extras a realizar. Diante das limitações apresentadas pela gestão das escolas e pelas próprias crianças, restava acomodação ao tempo e espaço que foram destinados para a realização das atividades, em acordo com as crianças.

4 Nessa fase, retornamos às escolas na tentativa de reunir novamente os grupos de crianças de 2011, para aprofundar questões sobre o objeto de estudo, mas sem sucesso. Algumas crianças não estudavam mais nas referidas escolas. Diante de tal dificuldade, resolvemos realizá-la somente na escola pública, com outro grupo de crianças.

5 Sabemos que escola e família são instâncias mediadoras das relações sociais, espaços em que nos constituímos como sujeitos. Entretanto, o objetivo não foi pesquisar as dinâmicas familiares ou escolares, mas definir um espaço de encontros com as crianças. Temos ciência que escola e família têm condicionamentos que são específicos e inerentes as seus espaços e que outros interferentes poderiam ter sido percebidos, caso os tivéssemos explorados.

6 Acordamos com diretores, coordenadores e crianças as diretrizes da pesquisa, como também solicitamos o consentimento dos pais e/ou responsáveis.

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As decisões repercutiam na dinâmica da pesquisa e reordenava o prévio planejamento. Ademais, a cada movimento, novas nuanças se colocavam e exigia mobilização de estratégias novas para os desafios emergentes.

3 As protagonistas da investigação

O grupo foi composto por dezessete crianças7, entre dez e treze anos de idade8, sexo feminino,

estudantes do 6º ano do Ensino Fundamental, que aderiam voluntariamente à proposta. Algumas delas manifestaram interesse em participar, pois tinham a compreensão de que seriam dispensadas das aulas para as atividades de pesquisa. Outras manifestaram alegria, após tomarem conhecimento da possibilidade de manusear o computador e acessar a internet no espaço da escola. No primeiro grupo, participaram oito crianças e, no segundo grupo, nove. No início dos trabalhos realizamos uma roda de conversa, momento de apresentação da proposta de pesquisa e dos partícipes. Aproveitamos o encontro e dialogamos com as crianças sobre sua identificação no trabalho. Elas propuseram ser identificadas por codinomes. Perguntamos, então: se pudesse ser outra pessoa

agora, quem gostaria de ser? Obtivemos as seguintes respostas:

Isabella Swan9. Carla10. Alice Roberta Rihanna11. Fergie12. Avril Lavigne13. Médica Gretchen 14. Ivete Sangalo15. Shakira16. Ana17. Maite Perroni18. Paris Hilton19. Lady Gaga20.

7 A pesquisa foi aprovada no Comitê de Ética da UNISINOS.

8 Utilizamos tanto o Estatuto da Criança e Adolescente-ECA (Lei nº 8.069/90, artigo 2º) que define criança, a pessoa de até doze anos de idade, e adolescente, a pessoa entre treze a dezoito, quanto a perspectiva de Corazza (2004) e Ariès (1981) nos quais as crianças e as infâncias não devem ser vistas como instâncias estáticas e fixas, mas compreendidas nas suas construções históricas e sociais.

9 Personagem principal do filme a saga Crepúsculo, veiculado no Brasil em dezembro de 2008, inspirado em livro homônimo.

10 Personagem adolescente da telenovela Rebelde, versão brasileira, veiculada pela emissora Record, desde março de 2011, e que faz parte de uma banda de música, junto com Alice e Roberta. A emissora SBT veicula a versão mexicana.

11 Cantora caribenha, nascida na ilha de Barbados. 12 Cantora estadunidense, nascida em Los Angeles. 13 Cantora canadense, denominada princesa do pop punk.

14 Cantora e dançarina brasileira, nascida no Rio de Janeiro, e iniciou sua carreira na década de 1970. 15 Cantora brasileira, nascida na Bahia.

16 Cantora colombiana, nascida na cidade de Barranquilla. 17 Uma grande amiga.

18 Personagem adolescente na telenovela Rebelde, versão mexicana. Atua também como cantora. 19 Socialite estadunidense, nascida em Nova Iorque.

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493 Kelly Key21.

Ana Hickman22.

Os codinomes com os quais gostariam de ser identificadas revelaram uma forte afetação da mídia, produções da cultura de massa e de entretenimento, como o filme Crepúsculo, a telenovela Rebelde, e músicas. A maioria se identificou com celebridades da mídia, nacionais e internacionais. Foram atrizes, cantoras, modelos, apresentadoras de televisão. Somente duas escolheram pessoas fora do circuito midiático. Uma foi Ana que escolheu ser sua melhor amiga. A segunda identificou-se com a profissão de Médica. As respostas sugiram espontaneamente sem que as crianças fossem indagadas

a priori sobre a temática, explicitando elementos importantes acerca de suas escolhas, das

identidades femininas e sua relação com as mídias.

Fischer (2013) enfatiza que a mídia, com todo o aparato da indústria cultural, estão presente no cotidiano e imaginário das crianças, com ofertas sedutoras, incidindo na produção de subjetividades e construíndo identidades. Imersas na cultura do consumo, que transforma as pessoas em mercadoria afirma Bauman (2008), as crianças vão produzindo e reproduzindo identidades hegemônicas, padronizadas e dicotômicas, pois as mensagens midiáticas não vendem apenas produtos, mas valores, ideais e identidades desejáveis que enaltecem a ordem social hegemônica vigente. Ressalte-se que exercer efeitos não é determinar, pois há sempre espaços a serem preenchidos, e isso permite entender as relações de poder, dominação e resistências.

4 Refinando os instrumentais e técnicas da pesquisa:

Para Santos (2005), a/o pesquisador/a está imbricado numa teia de relações e interpretações que emergem de suas ações, de seus movimentos, que vão definindo suas escolhas, sempre tensionadas à realidade vivenciada na trajetória da pesquisa. Capturar essa realidade não é nada fácil, pois seus movimentos são crepusculares e sempre produzem injunções sobre o objeto de estudo, desconstruindo a ideia de que o conhecimento é sempre uma representação exata da realidade. Nessa perspectiva, partimos da estratégia transmetodológica para a construção da pesquisa que [...] parte da premissa de que a investigação científica em comunicação precisa da confluência profunda, cooperativa e produtora da estruturação de métodos mistos, múltiplos [...] (Maldonado, 2013, p.720-721). Ela compreende a epistemologia como uma dimensão do conhecimento que incide no conjunto das dimensões teóricas, lógicas, metódicas e técnicas para sua constituição. Essa perspectiva nos coloca na condição de experimentadores e inventores de novas formas de produção qualitativa do conhecimento no campo das Ciências da Comunicação.

Eis aqui o resultado de um experimento de pesquisa. Nele, afinamos os instrumentos de produção de dados, acoplando-os às necessidades advindas do campo, dos sujeitos e do objeto de estudo. As técnicas e instrumentos da pesquisa foram produzidas em processos de construção e reconstrução constantes, conforme diagrama a seguir, “[…] em um movimento imbricado entre nós e as dezessete crianças, compartilhando conhecimentos em um processo similar ao trabalho das abelhas, que para continuarem (sic) vivas e férteis, precisam alimentar-se e ao seu grupo, e para isso, percorrem um longo caminho para sorver o néctar das flores […]” (Queiroz, 2014, p. 18).

21 Cantora, dançarina e apresentadora brasileira, nascida no Rio de Janeiro. 22 Modelo e apresentadora brasileira, nascida no Rio Grande do Sul.

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Figura 2. Técnicas e instrumentais de produção de dados da pesquisa

Utilizamos o diário, conforme Winkin (1998), para descrever os acontecimentos ocorridos no campo à procura de indícios que evidenciassem a presença do midiático no comportamento e nas falas das crianças. O diário de campo foi importante no registro das experiências vivenciadas com as crianças e permitiu a rememoração das ações naqueles momentos específicos de encontros.

Outra técnica desenvolvida com as crianças foi a entrevista semiestruturada, mas não obtivemos êxito. Nas entrevistas, as crianças se mostravam inquietas, ansiosas e sem disposição para responder às perguntas formuladas, reafirmando o que observam Rocha e Campos (2008) sobre a dificuldade da utilização desse tipo de técnica com o público infantil. Se a intenção era deixar a criança à vontade, as atividades propostas deveriam acompanhá-las em seus tempos, espaços e comportamentos.

Prescindimos, então, da entrevista e propusemos o questionário23, adequando as perguntas, na

perspectiva de capturar o perfil socioeconômico das crianças como também mapear seu consumo midiático, os seus gostos e preferências. O questionário foi elaborado a partir das sugestões de algumas crianças, sendo respondido individualmente em encontros realizados na própria escola. A vantagem de utilizar esse instrumento, como enfatiza Gil (2008), é a objetividade das perguntas, e isso proporcionou respostas claras e rápidas por parte das crianças.

Utilizamos também o recurso da produção do desenho, pois como defende Gobbi (2009), revela olhares e concepções das pessoas sobre seu contexto social, histórico e cultural, pensados, vividos e desejados, assim como sua oralidade. Nele, solicitamos às crianças que desenhassem pessoas/mulheres24, que gostariam ou não de ser. Em outro momento, solicitamos uma

pessoa/personagem preferida da mídia25. A folha de papel foi entregue às crianças com espaço para

a escrita do desenho e, do outro, para que explicasse a sua escolha26.

23 As crianças indicaram sugestões de perguntas para o questionário e enfatizaram que era melhor para responderem. 24 Com o segundo grupo não direcionamos a escolha somente para “mulheres”, como foi realizada com o primeiro grupo, e

sim para “pessoas”, no sentido de englobar a diversidade de possibilidades de identidades femininas, pois pretendíamos abarcar os diferentes grupamentos sociais assim como entender os “enquadramento” a modelos binários das identidades.

25 Participaram da atividade as crianças do segundo grupo.

26 Além de desenharem as suas personagens preferidas da mídia escreveram o que essa personagem tinha de especial.

Produção de Texto Desenho Diário de Campo Internet Rodas de Conversa PRODUÇÃO DE DADOS DA PESQUISA Questionário

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E, em uma segunda folha, solicitamos que escrevessem acerca do seu entendimento sobre o que é ser mulher27, o que revelou aspectos novos de suas escolhas e de suas compreensões acerca das

identidades femininas.

O resultados dos desenhos ratificaram identificações com mulheres/pessoas visibilizadas pela mídia, semelhante ao que ocorrera na indicação de seus codinomes. Em acordo com Onghena (2005), “Toda identidad es por definición uma identidad continuada y toda identificación es un conjunto de identidades que se suceden las unas a las otras, que se cruzam as veces, se recortam después o se fijan a algún nudo identitário del eje de identidades” (p.61). Com efeito, o desenho, como toda linguagem, é expressão e marca das condições socioculturais das crianças, suas vivências, experiências, necessidades e desejos.

Posterior à atividade de elaboração do desenho, as crianças acessaram a internet. Desde o início da investigação questionavam: professora, quando nós vamos para o laboratório de informática entrar na internet? Inicialmente, não tínhamos o propósito de utilizar a internet na como técnica de pesquisa, mas à medida em que as crianças expressaram o desejo, fomos instadas a incorporá-la. E não foi fácil. Na escola, os laboratórios de informática eram considerados ‘espaços sagrados’, além de funcionarem precariamente, em específico na escola pública. Mesmo diante das dificuldades, as crianças estavam ansiosas e eufóricas para acessar a internet, e sequer perguntaram o que tinham que fazer. Das dezessete crianças, quatro possuíam computador com internet no seu domicílio e treze não possuíam. Das treze, onze acessavam em outros espaços e duas nunca havia acessado. O acesso à internet ocorreu em dois momentos. No primeiro, as crianças acessaram a internet livremente, sem encaminhamentos. No segundo, foi solicitado que selecionassem uma imagem de pessoa/mulher que gostariam de ser e uma que não gostariam de ser, como também imagem de uma pessoa bonita e uma pessoa “não bonita”28. As perguntas foram definidas a partir das escolhas

das próprias crianças em atividades anteriores, em que se identificaram com mulheres/pessoas bonitas, ricas e famosas. Percebemos, nesse momento, a oportunidade de reescrever sobre o que é ser uma mulher, mas as respostas não diferiram da produção inicial. Posteriormente, questionamos essas escolhas nas rodas de conversa.

No decorrer da pesquisa, realizavámos as rodas de conversa, momentos de socialização das produções. Tínhamos como objetivo debater coletivamente sobre as escolhas feitas individualmente. Nelas, apresentavámos os desenhos produzidos e as imagens selecionadas, com os seguintes questionamentos: o que vocês acham dessas pessoas? O que o grupo de pessoas bonitas tem em comum? O que o grupo de pessoas “feias” tem em comum? Quem gostaria de ser essa pessoa? Podemos chegar a que conclusão sobre essas escolhas feitas? As crianças observavam atentamente as escolhas realizadas e manifestavam suas percepções no coletivo, concordando ou discordando. Assim, percebemos o conjunto de características das pessoas escolhidas e com as quais as crianças ora se aproximavam e ora se afastavam.

É importante ressaltar que o pressuposto central da roda de conversa é a partilha de ideias por meio do diálogo e a construção de novos conhecimentos críticos e modos de ação, pois é a partir do embate e das contradições que se constroem novos significados sobre as experiências de vida (Warschauer, 1993). As rodas de conversa foram espaços importantes de críticas, silenciamentos e ressignificações, pois escutar (e escutar-se) são ações indissociáveis na pesquisa qualitativa. Houve momentos em que algumas crianças não expressavam suas posições, especificamente quando apresentávamos imagens que escolheram de mulheres/pessoas negras ou feias, que destoavam do

27 Primeiramente perguntamos: para vocês, o que é ser menina? As respostas foram confusas e restringiram-se à

compreensão sobre o ser criança. Continuei a indagá-las. Elas disseram: “professora, a senhora quer saber mesmo é o que é ser mulher, não é”. Foi assim que mudamos a pergunta em torno do termo “mulher”.

28 Novamente as crianças interferiram quando solicitadas a escolherem “mulheres/pessoas que não são bonitas”,

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padrão de beleza socialmente estabelecido no Brasil. Nos encontros, as crianças expuseram suas posições, ora concordando ora discordando das suas próprias escolhas ou das outras crianças. As técnicas e os instrumentos de produção de dados foram pensados a partir do grupo de crianças com o qual estávamos interagindo, o espaço institucional da escola em que nos situávamos e do recorte teórico-metodológico realizado. Foram vários os retornos ao campo, na busca de ampliar os horizontes sobre o fenômeno investigado.

5 Conclusões

O trabalho de investigação foi minucioso e cheio de detalhes. Os elementos que compunham as escolhas das crianças ligavam ponto a ponto e explicitavam uma rede de significados e de sentidos sobre o objeto de estudo em questão. Os seus codinomes, as imagens selecionadas na internet e os desenhos produzidos evidenciaram as apropriações das crianças acerca das identidades femininas. Assim como as suas manifestações nas rodas de conversa e nas produções de texto.

Os dados produzidos evidenciaram uma interligação entre o consumo de mídia e as identificações das crianças, que estão entranhadas nas experiências vivenciadas na cotidianidade. As identificações das crianças comportaram uma diversidade de modelos e concepções, com fortes afetações das mídias, definidas nas seguintes categorias:

Figura 3. Categorias analíticas resutantes da pesquisa.

As identificações ora se aproximavam de modelos hegemônicos conservadores e moralistas – socialmente referenciados na sociedade brasileira, ora se afastavam deles, num movimento crítico e emancipatório, o que nos levou a lançar um olhar mais cauto e atilado para as suas manifestações. No processo de construção da pesquisa sempre mantivemos uma relação dialógica e reflexiva com as crianças. Escutamos as crianças (ao tempo que nos escutamos). Procuramos seguir os ritmos, os anseios e as necessidades advindas da pesquisa. As crianças participaram, indicando alternativas metodológicas, às vezes opinando e rejeitando algumas atividades propostas. E isso nos levou a refletir constantemente sobre nossas ações, relações e comportamentos no desenvolver da pesquisa. Esse trabalho inovou em algo – acredito nisso – e certamente foi no tocante aos sujeitos da pesquisa – as crianças.

Entre as mulheres/pessoas fortes, trabalhadoras, mães versus profissionais, estilosas, inteligentes

Entre as mulheres/pessoas recatadas, frágeis, delicadas versus

as salientes, vulgares, exibidas, raparigas, gostosas

Entre as mulheres/pessoas celebridades versus as comuns

Entre as mulheres/pessoas belas versus não belas (feias) CATEGORIAS

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