Universidade de Aveiro 2019
Departamento de Línguas e Culturas
Beatriz Lopes Jardim
RELATÓRIO DE ESTÁGIO NAS EDIÇÕES
Universidade de Aveiro 2019
Departamento de Línguas e Culturas
Beatriz Lopes Jardim
Relatório de Estágio nas Edições Salesianas
Relatório apresentado à Universidade de Aveiro para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Estudos Editoriais, realizado sob a orientação científica do Doutor João Torrão, Professor Catedrático do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro.
o júri
presidente Professora Doutora Maria Cristina Matos Carrington da Costa
Professora Auxiliar da Universidade de Aveiro
arguente Professor Doutor António Manuel Lopes Andrade
Professor Auxiliar da Universidade de Aveiro
orientador Professor Doutor João Manuel Nunes Torrão
agradecimentos Gostaria de agradecer:
Ao Professor Torrão e à Professora Carrington pela ajuda prestada e o interesse demonstrado.
Ao Padre Rui Alberto que me abriu as portas das Edições Salesianas e me supervisionou durante o estágio, assegurando-se que aprendia e fazia o máximo possível.
A todos os membros das Edições Salesianas, que me acolheram e fizeram o seu melhor para responder às minhas questões sobre a história e o dia a dia da organização.
À minha família, aos meus amigos e à Misaki.
palavras-chave Edição; revisão; mercado editorial; mercado editorial religioso; livros
resumo O presente documento é o relatório de estágio curricular realizado nas Edições Salesianas (Porto) entre 3 de dezembro de 2018 e 5 de abril de 2019 para cumprimento do Mestrado de Estudos Editoriais (Universidade de Aveiro).
Na primeira parte narra-se a história das Edições e como é que elas se encontram atualmente no mercado editorial. Na segunda parte descrevem-se as tarefas realizadas durante o estágio e a experiência adquirida com elas.
keywords Publishing; revision; publishing market; religious publishing market; books
abstract The present document is a report on the internship at Edições Salesianas (Oporto, Portugal) between December 3rd 2018 and April 5th 2019. This internship was done as part of the Publishing Masters at University of Aveiro (Portugal).
The first part focuses on the history of the Edições and their current circumstances. The second deals with the work done during the internship and the experience gained in consequence of it.
Índice
1.
Introdução... 1
2.
A empresa: Edições Salesianas ... 3
2.1.
A sua História em Portugal ... 5
2.2.
A editora na atualidade ... 10
2.3.
Análise SWOT das Edições Salesianas ... 15
3.
O estágio ... 21
3.1.
Análise da viabilidade de livros ... 23
3.2.
Criação de normas de estilo ... 28
3.3.
Revisão/recuperação de texto... 31
3.4.
Pedido de orçamento ... 36
3.5.
Outras tarefas ... 40
a) Escrita de resenhas ... 40
b) Processo de etiquetagem ... 41
c) Verificação de stock ... 42
3.6.
Pesquisa e análise de capas ... 44
4.
Conclusão ... 51
5.
Referências bibliográficas ... 55
5.1.
Editoras referidas ... 56
6.
Anexos ... 57
6.1.
Resenhas para a plataforma Juvenil 2.0 ... 57
6.2.
Capas de livros do Papa Francisco em português ... 58
6.3.
Capas de livros do Papa Francisco em inglês ... 61
6.4.
Capas de livros do Papa Francisco em francês ... 66
6.5.
Capas de livros do Papa Francisco em espanhol ... 70
6.6.
Capas de livros do Papa Francisco em italiano ... 73
6.7.
Capas de livros do Papa Francisco em alemão ... 75
Índice de figuras
Figura 1: Memórias do oratório ... 3
Figura 2: As festas da catequese ... 8
Figura 3: Cavaleiro da Imaculada ... 9
Figura 4: Revista Juvenil ... 10
Figura 5: Plataforma Juvenil 2.0 ... 10
Figura 6: Rezar na Quaresma ... 11
Figura 7: Caminho para Amadurecer ... 12
Figura 8: Alexandrina. Nos caminhos do crucificado ... 13
Figura 9: Demonstração da página de trabalho ... 14
Figura 10: Autores/livros analisados ... 23
Figura 11: Dados dos autores ... 24
Figura 12: Dados dos livros ... 25
Figura 13: Pronomes divinos ... 30
Figura 14: Comparação de orçamentos ... 37
Figura 15: Comparação de cotações ... 39
Figura 16: Análise de documentos papais ... 45
Figura 17: Dados e análise das capas ... 48
Figura 18: Cristo Vive ... 49
Figura 19: Os Jovens, a Fé, o Discernimento Vocacional ... 50
Figura 20: Folheto Quaresma/Páscoa... 41
Figura 21: Objeto religioso ... 42
Figura 22: Como Estrelas no céu ... 32
Figura 23: Catequiz – Perguntas e respostas sobre parábolas e milagres de
Jesus ... 32
1. Introdução
Realizado no âmbito do Mestrado de Estudos Editoriais da Universidade de Aveiro, este relatório tem como objetivo a obtenção do grau de mestre nesta área através da demonstração das competências adquiridas ao longo do percurso de aprendizagem e da aplicação dessas aprendizagens durante o estágio curricular realizado nas Edições Salesianas de 3 de dezembro de 2018 a 5 de abril de 2019.
As Edições Salesianas, situadas no Porto, são uma editora religiosa-católica, sendo esta a primeira vez que receberam um estagiário de uma universidade (recebem, anualmente, muitos estagiários na área do design que estudam no Colégio Salesiano do Porto). As Edições fazem parte dos Salesianos, uma grande congregação com mais de dois séculos de história e com traços pelo mundo inteiro.
É também a primeira vez que este Mestrado se debruça, direta ou indiretamente, sobre a edição religiosa. No começo do estágio, tive desígnios de explorar o mercado da edição religiosa de forma aprofundada, mas acabei por concluir que uma panorâmica da empresa, cuja história em Portugal está espalhada por obras biográficas e testemunhos, seria de maior importância. Assim, embora este relatório mencione muitas outras editoras neste mercado, estas são apenas notas de fundo, denotando a existência de empresas rivais e parceiras.
Este trabalho começa então com um resumo da história das Edições Salesianas, desde os primórdios da congregação com S. João Bosco, até ao possível futuro com o apoio de uma análise SWOT. Aqui, analisamos o ano editorial, os mais importantes projetos da editora e alguns pormenores interessantes sobre a forma como trabalham.
A maior parte do relatório, porém, trata do estágio, descrevendo as atividades realizadas, enquadrando-as no Mestrado sempre que possível, e explicando o grau de experiência adquirido com elas.
2. A empresa: Edições Salesianas
Não se pode falar sobre as Edições Salesianas sem contextualizar a sua existência no vasto universo da sociedade religiosa Salesiana.
Em 1859, S. João Bosco (1815-1888), também conhecido por dom Bosco em Portugal, fundou a Congregação Salesiana com o objetivo de educar e evangelizar os rapazes pobres e a viver em más condições em Turim, na Itália. Para concretizar este propósito, dom Bosco fundou escolas de temática religiosa, chamadas “Oratórios”, que não só ensinavam o básico como também instruíam os jovens num ofício: sapataria, alfaiataria, carpintaria, e, essencial para as Edições Salesianas, encadernação e tipografia (Wirth, 2000, cap. III).
Dom Bosco acreditava em evangelizar através do meio de comunicação social que ganhou força no século XIX: a imprensa. Publicou o seu primeiro livro em 1844 e foi um autor prolífero em vários temas (tais como história cristã/da igreja e bibliografias), trabalhando com muitas casas de impressão, que naquele tempo eram indistinguíveis de editoras, até 1861. Nesse ano, abriu a primeira oficina de tipografia salesiana em Turim
– ao mesmo tempo uma escola para os seus jovens e uma editora/casa de impressão. O Figura 1: Memórias do oratório
Capa da obra de dom Bosco publicada pelas Edições Salesianas em 2012 (edição comentada por Aldo Giraldo).
primeiro livro saiu em maio de 1862 (Alberto, s.d., p. 79), com autoria de dom Bosco, que tanto éautor como objeto de muitas obras salesianas e católicas.
Desde então que os Salesianos têm um vasto interesse no mundo da edição, sendo o melhor exemplo disto o “Boletim Salesiano”. Dom Bosco iniciou a publicação desta revista sobre as obras salesianas em 1877 em Turim; rapidamente se expandiu para fora de Itália: foi publicada em francês em 1879, espanhol em 1886, inglês em 1892 e português em 1902 (Wirth, 2000, cap. XX). Atualmente, é publicado em 31 línguas e 66 edições mundialmente.
Os Salesianos chegaram a Portugal em 1896, quando assumiram a direção das Oficinas de S. José de Lisboa. Foram uma presença assídua até 1910, quando a Implantação da República forçou a suspensão das obras portuguesas (Wirth, 2000, cap. XX). Na prática, isto significa que continuaram uma presença assídua, mas clandestinamente: as Oficinas de S. José, por exemplo, reabriram em 1912 durante alguns meses até serem forçadas a cerrar portas de novo. Só retomaram oficialmente em 1920, com a fundação das Edições Salesianas a ocorrer 27 anos depois em 1947.
2.1. A sua História em Portugal
Até 1947, a produção editorial salesiana era esparsa e desorganizada, resumindo-se, essencialmente, a traduções do italiano (não contando com o Boletim Salesiano, que está a cargo da sede da Província Portuguesa da Sociedade Salesiana, e só se relaciona com a editora pelo logótipo e razões fiscais). A mais importante destas traduções, obra do padre Humberto Pasquale, foi o primeiro catecismo popular, “Onde não há padres”, publicado em 1939, cuja primeira edição vendeu mais de oitenta mil exemplares, e a segunda, em 1981, mais de quarenta mil. A publicação deste livro está na origem das Edições Salesianas:
[Humberto Pasquale] manda imprimir um catecismo popular, traduz livros para português, difunde um boletim bimensal para as paróquias, dando origem a uma mini editora que hoje é grande e tem notável influência na produção e difusão da catequese em Portugal, as Edições Salesianas do Porto. (S. Pedriali, 2014, p. 18)
A editora conseguiu uma sede física em 1947 através de um episódio imortalizado na história dos salesianos através das palavras de Humberto Pasquale:
Uma quinta-feira (…) corri para a paragem do eléctrico, para voltar a casa. Chovia. Passou junto de mim um senhor que me disse: «Padre, passou o eléctrico há pouco, agora deverá esperar vinte minutos». Mesmo que me molhe, pensei, é melhor ir a pé. Não tinha guarda-chuva. Passando as contas do terço (…) pedi o que há muito tempo desejava: uma casa para a livraria.
(…) Uma voz me fez parar: «É esta! É esta!». Já era noite. Olhei à volta: não havia ninguém.
À minha esquerda havia um muro alto sobre o qual despontavam os ramos de um grande pinheiro. Certamente deveria ser do jardim de alguma casa senhoril. Diante de mim, depois da rua Fernandes Tomás, à minha esquerda, havia um palácio de quatro andares, mas todo às escuras. Então ignorava como se chamasse a rua com que fazia ângulo. Notei que sobre os vidros das janelas
também em Portugal se temia a aviação de guerra. Atravessei a rua Fernandes Tomás, passando diante do palácio revestido de azulejos de cerâmica castanhos. Na minha mente girava o pensamento da casa para as edições.
No sábado, pela repetida insistência de uma piedosa senhora, Elisa da Rocha, fui ao almoço da primeira comunhão de um seu filhinho. (…). Entre outros, estava presente uma certa senhora Júlia de Sousa. Conversando, pedi-lhe que me ajudasse a encontrar uma casa para a livraria. «Aqui no centro não se encontra, seria mais fácil na periferia».
«Mas uma livraria na periferia não dá certo», respondi. Mas acrescentei logo: «Quinta-feira, passei na rua Fernandes Tomás, onde se encontra a Capela das Almas, e vi à minha esquerda um palácio de quatro andares, com azulejos de cerâmica: estava todo às escuras».
«Esse palácio é quase todo de uma certa senhora, Filomena Mesquita. Vive lá, em poucos quartos, com uma velha criada. (…)»
«Se por acaso a encontrasse, não poderia dizer-lhe se me aluga alguns quartos para a minha Obra? Mais tarde poderei mesmo comprá-la».
A senhora, na segunda-feira seguinte, encontrou a dona Filomena em oração na igreja paroquial. Aproximando-se dela, perguntou-lhe: «O padre Humberto, o padre da rua, encarregou-me de lhe pedir alguns quartos de aluguer para uma obra. Poderia dar-lhe esse gosto?».
Depois de alguns instantes de silêncio, respondeu: «Eu não alugo a minha casa, nem a vendo. Ao padre Humberto, dou-lha. Durante a semana irei eu mesma falar com ele». (S. Pedriali, 2014, p. 157-159)
Filomena Mesquita doou parte da sua casa (o primeiro andar, um quarto no segundo e outro no terceiro pisos, e a cozinha e a sala de jantar no quarto andar) na Rua Dr. Alves da Veiga aos salesianos. Quando Filomena Mesquita e os outros inquilinos se decidiram mudar, os salesianos tomaram posse de toda a residência, que passou a ser não só a
editora, mas também a primeira livraria salesiana e armazém. A sede das Edições manteve-se ali durante cerca de setenta e um anos, até 2018.
A mudança da Rua Dr. Alves Veiga para a Rua Duque de Palmela foi a mais drástica modificação que a editora sofreu desde o seu começo. Iniciou-se com o encerramento da residência salesiana, e teve como consequências a alteração do funcionamento da editora de uma forma radical: passou-se de escritórios particulares para open space; a livraria do Porto foi separada da editora e do armazém pela primeira vez; e todo o material gráfico (que garante a impressão de cartazes, folhetos e tiragens pequenas) e de edição de som mudou não para a editora, por falta de espaço, mas para o Colégio Salesiano do Porto.
No que toca à direção, apesar de ser o fundador, o padre Humberto Pasquale dirigiu as Edições durante apenas um ano. O diretor das Edições era, até 2012, o diretor da comunidade salesiana portuguesa por inerência; este é um cargo que tem um mandato de seis anos (três anos, seguidos de eleições, e mais três anos se reeleito) e tem várias funções políticas.
No total, as Edições Salesianas tiveram quinze diretores até 2019, sendo que apenas o último, o padre Rui Alberto, foi escolhido somente para esta posição sem processos eleitorais. No entanto, a hierarquia das Edições Salesianas continua ligada à congregação: o diretor editorial responde, por esta ordem, ao administrador da editora, ao diretor dos Salesianos do Porto e ao Provincial de Portugal e Cabo Verde. Em termos práticos, contudo, as Edições Salesianas são apenas mais um ramo desta grande Congregação, pelo que apenas o administrador, que também trabalha nas Edições, tem contacto direto com a empresa, participando no seu dia a dia. Por sua vez, o diretor dos Salesianos do Porto é um autor frequentemente publicado pela editora:
Devido ao curto espaço de tempo que cada diretor detinha para realizar a sua política editorial, e porque as responsabilidades de cada um iam muito além da editora, é praticamente impossível analisar o crescimento das Edições Salesianas de uma forma linear. Sabe-se que a livraria de Évora foi aberta entre 1965 e 1966, e a de Lisboa em 1981; que, em certo momento nos anos setenta, as Edições passaram de uma editora generalista religiosa para uma orientação mais catequética, cujos frutos podem ser vistos no projeto “Ligações”; e que a casa na Rua Dr. Alves da Veiga sofreu renovações sob a direção do padre João Machado (1977-1983). Não é possível conhecer detalhes mais precisos, contudo, pois não foram registados pela congregação e os membros não os recordam.
O mesmo não se pode dizer da chancela das Edições Salesianas, o Cavaleiro da
Imaculada, cujo nascimento e evolução estão bem documentados.
Fundado em janeiro de 1960 pelo padre Ismael Matos, e baseado num jornal com o mesmo nome polaco, o Cavaleiro da Imaculada começou como um jornal quinzenal dedicado “à divulgação da fé e da moral” e de distribuição gratuita. Foi um enorme sucesso: saíram três mil exemplares do primeiro número, divididos em três edições, entrando em “hospitais e cadeias (…) levado para muitas paróquias do Continente, Missões do Ultramar e centros de emigrantes portugueses no estrangeiro” (Belo, 2019, 138-139).
Figura 2: As festas da catequese
Obra da autoria do padre Pedrosa, diretor dos Salesianos do Porto (edição atualizada de abril de 2016).
Ao contrário das Edições, este jornal foi sempre dirigido de forma independente, tendo tido apenas três diretores até 2019. Atualmente, também é dirigido pelo padre Pedrosa, diretor dos Salesianos do Porto, embora a maioria dos assuntos diários sejam tratados por um Salesiano Cooperador que trabalha com o jornal há cerca de meio século (um Salesiano Cooperador é um membro dos Salesianos que não faz parte do sacerdócio).
A chancela Cavaleiro da Imaculada foi fundada como editora por volta da sua origem como jornal português, mas, em termos práticos, nunca criou a sua própria “personalidade” diferenciada das Edições Salesianas. Assim, e por motivos de reorganização interna, tornou-se uma chancela da editora em 2014. O jornal continua a ser distribuído mundial e gratuitamente em várias línguas, sendo um dos melhores meios de divulgação e de promoção da editora. É o único jornal/revista salesiano/a que sobrevive na sua forma original.
Figura 3: Cavaleiro da Imaculada
Capa da edição de julho de 2019. Pode ser encontrada na íntegra no endereço:
https://issuu.com/ppsslisboa/docs/c i-201907.
2.2. A editora na atualidade
Anteriormente, mencionei que o jornal Cavaleiro da Imaculada era o único sobrevivente no seu estado original; na verdade, o Juvenil, jornal fundado em 1952, deixou de ser editado em papel, em junho de 2016, mas regressou em abril, 2017,
online.
Figura 4: Revista Juvenil
Última capa da edição física do
Juvenil, publicada em junho de 2016.
Como o nome indica, o Juvenil era dirigido aos jovens e distribuído pelos alunos salesianos dos oratórios e colégios. Os seus temas recorrentes eram a vida religiosa de jovens santos, anedotas da bíblia, educação e saúde das crianças… (Belo, 2016, 122-123). Em 1965, apresenta-se como uma revista de dezasseis páginas. O padre Ismael Matos foi o seu diretor até junho de 1970, altura em que passou para as mãos do padre Pedrosa Ferreira até junho de 2016. Tendo em conta que os jovens estão muito mais presentes online e raramente compram revistas de papel, as Edições fizeram reviver o
Juvenil como um site, contratando uma pessoa específica com o objetivo de o gerir.
No que toca ao calendário de publicação, o ano editorial das Edições Salesianas está dividido em quatro momentos de grande importância em redor dos quais funciona: o início do ano, a Quaresma/Páscoa, o período das festas religiosas entre maio e junho e o Advento/Natal. Para cada um destes períodos são preparados produtos específicos, como por exemplo, livros infantojuvenis como prendas de Natal e livros para aprender a rezar para maio/junho.
É também nestas épocas que são publicados os mais rentáveis livros da editora: “Rezar na Quaresma” (que vendeu cerca de 74 000 exemplares no ano de 2018) e “Rezar na Páscoa” (cerca de 20 000); “Rezar com Maria”, para o mês de maio (11 000); e “Rezar no Advento” (75 000); no total, são vendidos mais de 180 000 exemplares por ano a 1,30€, ou a 60 cêntimos em packs de cem ou mais.
Figura 6: Rezar na Quaresma
Rezar na Quaresma é publicada com pouco tempo
de diferença de Rezar na Páscoa, mas ambas são extremamente rentáveis. Esta é a capa da versão de 2019.
Cada um destes livros tem à volta de trinta páginas, cada uma com uma mensagem e imagem personalizadas para o dia em questão. São vendidos, maioritariamente, para as paróquias, onde cada pároco depois se encarrega de distribuir os seus exemplares como entender.
Atualmente, o outro grande projeto da editora é o “Ligações. Itinerário de educação à fé”, uma série de produtos para os previstos doze anos de catequese católica (em agosto de 2019 estão apenas disponíveis os materiais para o 1.º, 4.º, 5.º, 7.º, 8.º e 10º anos). Acontece que esta área do mercado editorial religioso era dominada pela Paulinas Editora, a única que fornecia catecismos. O “Ligações” tem como propósito oferecer uma outra opção, apoiada na metodologia de ensino salesiana. Além dos catecismos para as crianças e dos guias de catequese para os catequistas, este projeto é constituído também por uma pasta de apoio (que inclui diplomas para as festas anuais e materiais com uso previsto durante as catequeses em, por exemplo, trabalhos manuais), um CD de áudio e um DVD. Todos os produtos relacionados ao “Ligações” podem ser encontrados em https://edisal.salesianos.pt/index.php/loja/catequese-e-evangelizacao/ ligaçoes.
Figura 7: Caminho para Amadurecer
Este guia do catequista do 10.º ano é acompanhado por uma panóplia de outros produtos, todos com a mesma capa para serem facilmente identificados.
Relativamente a outros produtos editoriais, tendem a realizar tiragens curtas com escoamento veloz. Devido à longa vida da editora, muitos dos seus títulos estão fora de
stock; para resolver isto, nos casos em que se justifica, propõem reedições de dimensão
adequada ao público de chegada. Tal aconteceu com a obra Alexandrina. Nos caminhos
do crucificado, que se autodenomina uma “edição renovada”; e está previsto acontecer
com Delinquência: textos a pretexto. Este livro foi impresso pela última vez em 1989, pelo que não existia uma cópia digital. Durante o estágio procedeu-se então à “recuperação” do texto, um processo sobre o qual se falará mais no ponto 3.7, e sua revisão com o propósito de ser reeditado a pedido do autor.
Quanto ao fluxo e à divisão do trabalho, as Edições Salesianas usam o OpenProject, um sistema de gestão de projetos online. O editor cria o projeto, insere a obra a que ele se refere e cria as tarefas a ser completadas (revisão, tradução, paginação, entre outras, dependendo do artigo), indicando quem deve realizá-las. Todas as pessoas que trabalham nas Edições Salesianas têm a sua própria conta no OpenProject, podendo Figura 8: Alexandrina. Nos caminhos do crucificado
Breve biografia da beata Alexandrina também da autoria do padre Pedrosa.
aceder aos ficheiros que têm de tratar e colocar as versões atualizadas. Desta forma, várias pessoas podem ocupar-se do mesmo projeto em simultâneo e toda a comunicação pode ser realizada por esta plataforma. Os problemas inerentes a um sistema como este (seria possível, por exemplo, que o designer comece a trabalhar um ficheiro que está atualmente a ser revisto, criando dois ficheiros, um paginado, outro revisto, em vez de um) não se verificam, pois o OpenProject mostra a todos os intervenientes quando é completada cada tarefa: assim, quando a revisão do ficheiro é terminada essa tarefa aparece como “Fechada”, indicando ao paginador que pode iniciar o seu trabalho. Para melhor demonstrar esta situação apresento um rascunho da página à qual todos têm acesso:
TÍTULO DO FICHEIRO
Tarefa Situação Prioridade Atribuição Início Prazo Progresso Tradução Fechado Normal R 2019-01-01 2019-01-02 100% Revisão Em progresso B 2019-01-03 2019-01-04 10% Paginação Novo P 2019-01-05 2019-01-06 0% Capa Em progresso J 2019-01-01 2019-01-07 50% Revisão paginação Novo B 2019-01-07 2019-01-07 0%
Figura 9: Demonstração da página de trabalho
A editora tem o que se pode chamar uma rede de pessoas conectadas ao mundo religioso que traduzem e reveem por preços baixos. Igualmente, tem conexões com editoras religiosas estrangeiras com as quais detém uma relação privilegiada: apontam-se a Editorial CCS, a Editora Dom Bosco, e a Elledici, propriedade dos Salesianos, respetivamente, em Espanha, no Brasil e em Itália1.
A editora, além de vender nas livrarias, pelo site https://edisal.salesianos.pt/, e diretamente a determinados clientes em grandes quantidades, também faz uso dos grandes sites de vendas de livros, tais como a Wook e a Amazon, e tem presença assídua em feiras religiosas, tais como a Jornada de Catequistas em Braga ou o Evangelizar, no Porto e Estoril.
1
Os sites das editoras estão disponíveis, respetivamente, em: https://editorialccs.com; http://edbbrasil.org.br; e https://elledici.org.
2.3. Análise SWOT das Edições Salesianas
A análise SWOT (em inglês, Strengths, Weaknesses, Opportunities and Threats; em português, Forças, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças, ou FOFA) é uma ferramenta de marketing que avalia os fatores internos (forças e fraquezas) e externos (oportunidades e ameaças) da empresa de modo a conhecer o ambiente onde ela se insere e prever a forma como as tendências do mercado a afetarão (Kotler e Keller, 2012, 48).
A análise SWOT das Edições Salesianas apresentada seguidamente com base no meu conhecimento da editora foi realizada com três grandes propósitos: compreender melhor a editora tanto dentro do mercado religioso, como no grande mercado editorial português; trabalhar uma das mais importantes ferramentas de marketing num contexto real e sem o suporte das aulas; e expor a situação das Edições Salesianas de forma objetiva.
Forças
Aquilo que a empresa sabe fazer bem, ou aquilo em que é a melhor
A editora dispõe de livrarias e canais de distribuição próprios, tais como a supramencionada rede de contactos, os quais trabalham maioritariamente em centros juvenis e paróquias, e os colégios salesianos sob a direção da província portuguesa (no Porto, Funchal, em Lisboa, Estoril, Évora, Manique [Cascais], Mogofores [Aveiro] e Cabo Verde).
Estas conexões entre a editora e os colégios dos Salesianos podem levar a projetos com um mercado seguro, nomeadamente nas áreas dos livros escolares, didática e juvenil.
A editora também dispõe de designers que trabalham juntamente com a secção de marketing, facilitando os processos de paginação e criação de layouts e capas.
Como já foi aludido, no que toca a livros estrangeiros, a sua rede de contactos fornece traduções gratuitas para várias línguas. Quanto à aquisição de direitos de livros estrangeiros, detém conexões com editoras que trabalham no mesmo campo.
A editora tem um bom desenvolvimento online, como demonstram as constantes atualizações do site, a venda de e-books em várias plataformas, a presença assídua no Facebook2, e o site Juvenil 2.03, que é trabalhado diariamente.
Este bom desenvolvimento online traduz-se numa facilidade de adaptação ao universo digital e ao ponto de vista do utilizador, cada vez mais necessário num mercado conectado pelas redes sociais e plataformas de venda pela Internet.
A editora beneficia da notoriedade da marca “Salesianos” em contextos educativos e catequéticos. Esta é uma marca com mais de duzentos anos de história, tendo aparecido com o fundador, dom Bosco, e sendo desenvolvida pelos seus sucessores pelo mundo inteiro. A página dos Salesianos do Porto abre, de facto, com a seguinte frase:
A marca é salesiana, uma marca de qualidade pedagógica comprovada há já quase duzentos anos e que se espalhou por 132 países do globo abrangendo milhares e milhares de alunos e alunas (…).”
(Disponível em http://www.porto.salesianos.pt/home)
O desenvolvimento do projeto “Ligações” para o 2.º, 3.º, 6.º, 9.º, 11.º e 12.º anos catequéticos prevê o amadurecimento da posição da editora nesta faixa de mercado (catequese).
2
Disponível em https://pt-pt.facebook.com/edicoesalesianas. 3Disponível em https://juvenil.net/.
Fraquezas
Aquilo que a empresa deve melhorar
A editora foca-se num nicho do mercado editorial cada vez menos popular para o público: religioso católico/evangelizar e educar. Em 2018, Stephen Bullivant publicou o relatório Europe’s Young Adults and Religion, cujos dados de 2014-2016 demonstram que 42% dos jovens adultos portugueses entre os 16 e os 29 anos consideram não ter religião, e, dos que têm, apenas 53% são católicos. Isto não é o equivalente a comprar ou não produtos editoriais religiosos, mas é um fator a observar.
A editora tem dificuldade em vender fora dos canais de distribuição (as livrarias religiosas, os sites online, os contactos com as paróquias), motivo pelo qual um projeto de livros infantojuvenis parou na fase inicial – a sua intenção para estas obras seria disponibilizá-las nas livrarias portuguesas mais frequentadas pelo público, tais como a Bertrand e a Fnac. As Edições Salesianas têm em sua posse originais deste género cuja edição não difere da que é familiar à editora, mas hesita por reconhecer que a sua venda nos locais habituais não constituiria um sucesso.
A editora investe pouco e tem esparsos recursos aplicados em novas áreas. As fraquezas expostas anteriormente poderiam ser mitigadas se a editora expandisse o seu catálogo e campos de venda, mas no momento do estágio não se preveem ações nesta direção.
A editora depende do jornal Cavaleiro da Imaculada para promoção e divulgação. Muitos dos clientes das Edições detêm uma idade avançada e, conhecendo o jornal
Cavaleiro da Imaculada desde a sua origem, pensam e confiam nele como parte do seu
dia-a-dia. O facto de este ser gratuito também impele o público a obtê-lo. Os outros meios de promoção e divulgação (redes sociais, panfletos) não partilham a mesma fama.
Oportunidades
Aberturas de mercado que a empresa pode aproveitar
As Jornadas da Juventude em Portugal no ano 2022 podem ser uma oportunidade de promoção/divulgação para a totalidade do mercado editorial religioso, dado que um evento tão massivo pode despertar a curiosidade do público neste tipo de artigos.
O mercado da educação em Portugal tem sido alvo de grande desenvolvimento. A congregação Salesiana tem uma longa e rica história neste campo, e as Edições Salesianas podem aproveitar esta experiência para expandir o seu catálogo. A sua conexão com os colégios salesianos pode assegurar clientes para este projeto.
O Plano Nacional de Leitura e as metas curriculares de Português/Língua Portuguesa estão cada vez mais direcionados para a criação de valores, tais como amizade, respeito e honestidade, os quais vão de encontro aos valores dos produtos da editora.
O mercado espiritual/religioso/autoajuda/bem-estar está em crescimento, com os consumidores a procurar cada vez mais um “propósito para a vida”. O padre Rui Alberto, o diretor das Edições, acredita que os livros religiosos deviam ter uma secção própria, separada dos livros espirituais, mas neste caso a falta de diferenciação pode ser uma oportunidade.
O pontificado do Papa Francisco tem estado mais atento à evangelização juvenil, o que pode atrair um público mais jovem. Esta abertura do Vaticano aos novos projetos digitais está explícita na sua crescente presença nas redes sociais e na criação de blogues como o Click to Pray4, e pode renovar/despertar o interesse no mercado.
A maior parte do público-alvo movimenta-se digitalmente, e as Edições Salesianas, como mencionado, têm experiência em promoção/divulgação online.
No que toca ao projeto “Ligações”, existem poucas barreiras à entrada no mercado catequético. O maior obstáculo é a acomodação do público-alvo aos catecismos da
Paulinas Editora, que dominou este campo durante várias décadas; este problema pode ser ultrapassado com o tempo, conexões e boa divulgação do produto “Ligações”.
Ameaças
Problemas que a empresa pode vir, ou está, a enfrentar
O desenvolvimento de autores/temas no mercado religioso é difícil: ou não há autores interessados, ou os autores interessados carecem de habilidades de escrita publicáveis. Por este motivo, grande parte das obras editadas em Portugal tem origem estrangeira e não nacional.
O mercado é dominado por forte concorrência: a Paulinas Editora, a Paulus Editora, e o Secretariado Nacional da Educação Cristã5 têm uma posição forte no mundo religioso enquanto congregações e provedores de obras religiosas.
As infraestruturas de venda com mais sucesso no mercado editorial (livrarias conhecidas e supermercados) não dedicam muito espaço físico à apresentação de obras de teor religioso; o espaço dedicado, como já foi aludido, é partilhado com artigos espirituais, o que pode confundir e enganar o público. A situação complica-se devido ao facto de as Edições Salesianas não terem experiência em colocar produtos nestes locais.
O envolvimento da Igreja em vários processos judiciais (os chamados “escândalos da Igreja Católica”) pode afetar negativamente o mercado. Apesar de ser um tema que desperta o interesse do público, não faz parte dos tópicos que a editora pretende trabalhar.
De igual maneira, a laicização do Estado afeta o interesse público em consumir obras religiosas. Enquanto ainda existe uma disciplina intitulada “Educação Moral e Religiosa”, o Ministério da Educação admite que, no ano de 2019, os alunos inscritos nela “são menos 8308 do que os do ano passado e quase menos 82 mil do que em 2010/2011” (Inácio, 2019). Estes dados sugerem que os jovens de Portugal, e por
5
analogia os seus encarregados de educação, demonstram cada vez menos interesse no mundo religioso.
3. O estágio
Realizado aproximadamente em quatro meses, de dezembro a inícios de abril, o estágio nas Edições Salesianas foi iniciado cerca de um mês depois das mudanças da Rua Dr. Alves da Veiga para o novo edifício na Rua Duque de Palmela. Apesar de nunca ter entrado no primeiro local, as descrições fornecidas pintam uma renovação intensa que ocupou todos os membros das Edições, demorando oito meses (principiou-se em abril de 2018). Como tal, todas as pessoas que trabalhavam nas Edições Salesianas a tempo inteiro em dezembro de 2018 encontravam-se em fase de adaptação ao novo ambiente.
Como já foi referido, passou-se de escritórios individuais para open space, pelo que foi possível observar e, em determinados momentos, apoiar as várias secções da editora:
- A parte administrativa, de contabilidade, finanças e de vendas estava a cargo de quatro pessoas. Devido à mudança, uma destas passou os últimos meses de 2018 a trabalhar na livraria do Porto. Esta também é a secção de informação, que atende todas as pessoas que ligam para a editora. Tive oportunidade de auxiliar esta secção através de uma série de tarefas que, apesar de não encaixarem na área propriamente dita, estão sob a sua alçada: ajudei com processos de etiquetagem e organização e verificação de stock.
- A parte de design incorpora duas pessoas. Uma trata maioritariamente das capas e de imagens, quando o produto necessita delas; outra, da paginação, da digitalização e conversão de ficheiros aquando da recuperação de obras, e da impressão de pequenas tiragens, que são realizadas com o material gráfico da editora. Trabalhei diretamente com ambos aquando da revisão das várias obras, por exemplo apontando possíveis correções na paginação.
- A secção de marketing está a cargo de duas pessoas. Uma trata especificamente da plataforma Juvenil 2.0 e das redes sociais associadas a esta; a seu pedido, escrevi vários artigos sobre livros para a plataforma. A outra pessoa está encarregada das atualizações do site e do Facebook, e também auxilia na escolha de capas. É alguém em constante contacto com vários elementos da produção da obra, pelo que me auxiliou com a criação das normas da editora.
- À frente do projeto de catecismos “Ligações” estão outras duas pessoas que trabalham em part-time. Estas pessoas são formadas na área da educação e também atuam como catequistas. Espera-se que a familiaridade com crianças e jovens, e a sua própria experiência, torne este projeto realista, mas o mais interessante possível para os respetivos públicos. Muitos dos volumes atualmente presentes no mercado foram revistos por mim.
Fora deste open space trabalham quatro pessoas com espaços próprios: o editor do jornal e chancela Cavaleiro da Imaculada, que tem frequente contacto com clientes interessados em contribuir; o administrador editorial; o diretor editorial das Edições Salesianas, o padre Rui Alberto; e, finalmente, o encarregado do armazém e das encomendas.
A pessoa com quem tive mais contacto foi o diretor editorial, o padre Rui Alberto, meu orientador neste estágio. Pude ver, de forma direta e indireta, quais as suas tarefas principais enquanto único membro do departamento editorial. Estas funções estão de acordo com as que João Bosco Medeiros enumera (2002, p. 22):
- Seleção de novos autores/avaliação de originais: ocorreu enviarem para a editora uma coleção de originais de um autor nunca antes publicado. Como o autor era de uma nacionalidade onde as Edições Salesianas não operam atualmente, não se considerou a sua inclusão no catálogo como viável.
- Normalização de textos: o padre Rui Alberto está habitualmente encarregado da revisão, tarefa que me foi cedida durante o estágio.
- Contacto com os departamentos de ilustração/projetos/produção/marketing: o editor das Edições Salesianas também é o gerente de projetos (através do OpenProject, como referido) e chefe de produção, e a sua intervenção junto dos departamentos de design e marketing é comum.
3.1. Análise da viabilidade de livros
Um dos principais trabalhos de um editor é a escolha dos livros a publicar. Durante o estágio, recebi dois tipos de livros para analisar quanto à sua viabilidade no mercado português. Por uma questão de sigilo, não posso apresentar títulos ou nomes, mas, para manter a situação clara, exponho-os numa breve tabela:
Género/tipo de livro Autores de cada um
Não-ficção de autoajuda A. B & C D & E Ficção infantojuvenil F F G H I I I Figura 10: Autores/livros analisados
Eram dez livros e nove autores no total e, tendo em conta que já tinham sido todos publicados noutro mercado, nomeadamente o espanhol, optou-se por um estudo das suas características externas e não por uma leitura e crítica extensa do conteúdo. O editor não deu qualquer tipo de guia, mas informou-me que já tinha lido a maioria.
Assim, apenas se leram o primeiro e último capítulos para avaliar o estilo da escrita e descobrir o início e o fim. A partir de vários comentários, foi possível expor a maior parte do enredo – pontos de interesse, clímax da história – e analisar diversas opiniões quanto ao produto no seu mercado de origem.
Tomaram-se em conta, então, as características externas e apreciáveis tanto do/a autor/a como do livro.
Do/a autor/a, viu-se se já tinha sido publicado em português; escolheu-se anotar a publicação do outro lado do Atlântico porque, neste mercado global, muitas empresas
brasileiras atuam em Portugal. Seguidamente, apreciou-se, através de vários fatores, o seu reconhecimento no país de origem, nomeadamente, em Espanha. Finalmente, avaliou-se a presença online do autor, um fator de divulgação essencial a nível de marketing. Sucintamente, apresentam-se estes dados na tabela seguinte:
Autor Publicado em PT Reconhecimento em Espanha Presença online
A
Em Portugal, pelas Edições Salesianas
Autora prolífera dentro do tema (mais de meia dúzia de livros publicados), o que indica sucesso
Inexistente
B Não Pouco mais de meia dúzia de
livros publicados
Perfil em redes sociais
C Não Menos de meia dúzia de livros
publicados Inexistente
D Não Apenas um livro publicado
E Não Menos de meia dúzia de livros
publicados
Perfil em redes sociais
F Em Portugal, por várias editoras
Autora premiada várias vezes com
mais de uma dúzia de obras Página pessoal G Em Portugal, pela
Editorial Presença
Autora extremamente prolífera
que ganhou vários prémios Página pessoal H Em Portugal, por
várias editoras
Autor extremamente prolífero, com vários prémios
Blogue e perfil em redes sociais I No Brasil, por várias
editoras
Autor prolífero e premiado
Inexistente Figura 11: Dados dos autores
Acerca das obras em si, registou-se o seu ano de publicação e, portanto, a sua atualidade, ou não, quanto aos temas; e a adequação dos mesmos aos princípios da editora e, no caso da ficção infant-juvenil, dos personagens face ao público-alvo – neste último caso, todos os livros se encaixam com os valores das Edições Salesianas. Observaram-se diversas opiniões, as quais expuseram grande parte dos enredos e detalhes de interesse. Por fim, atentou-se na estrutura não só do livro (capas, presença de imagens), mas também da história (texto epistolar, sequelas). Resumem-se estes dados em seguida:
Livro Ano Opiniões Estrutura Não-ficção por A 2015: tema considerado sempre relevante Positivas; o livro tem um objetivo a cumprir e fá-lo bem
107 páginas; presença de exercícios; autora tem muitos outros livros dentro do tema Não-ficção por B e C 2014: tema desatualizado Esparsas e com um certo teor de desilusão 115 páginas; divisão clara dos capítulos, fácil de ler Não-ficção por D e E 2015: tema sempre em evolução e direcionado a um público delimitado Pessoal: há outros recursos mais interessantes a explorar este tema
89 páginas; recomenda frequentemente outras obras espanholas dentro do assunto Ficção infantojuvenil por F 2003: utiliza um recurso epistolar que pode estar desatualizado face às novas
tecnologias
Positivas (ganhou um prémio) mas não parece ser uma história considerada memorável 171 páginas; as imagens são profundamente singulares, e ambas as versões da capa, desinteressantes Ficção infantojuvenil por F 2015: mais uma vez, uso de um recurso epistolar, mais próximo, no entanto, da realidade atual Mistura de críticas positivas e negativas, face à dualidade dos temas e dos protagonistas
249 páginas; contém uma sequela direta publicada em 2017, mas pode ser lido como uma história por si só Ficção infantojuvenil por G 2016: lida com temas intemporais
Mais uma vez, uma mistura de opiniões, dado as histórias interligadas 222 páginas Ficção infantojuvenil por H 2016: lida com temas intemporais, fazendo uso de um reconto Pessoal: ideia original que parece ter passado despercebida 226 páginas; a capa é atraente Ficção infantojuvenil por I 2002: o enredo ocorre em redor de eventos históricos Positivas, o livro mais famoso entre os analisados 237 páginas Ficção infantojuvenil por I 2015: tema extremamente relevante
Positivas 271 páginas; pormenores do enredo dariam uma boa capa/imagens Ficção infantojuvenil por I 2012: temas intemporais, enredo histórico
Positivas 436 páginas; uso de narração epistolar Figura 12: Dados dos livros
Dos três livros de não-ficção analisados, concluiu-se que a obra de não-ficção por B e C publicada em 2014, desatualizada em relação ao tema (informática), não era a melhor opção de publicação.
Porém, as outras duas obras deste tipo eram escolhas viáveis de edição: um livro tinha como tópico as relações entre pais e filhos, o que se encaixa com os princípios da editora; o outro era de uma autora já publicada pelas Edições Salesianas em Portugal (e sobre o mesmo assunto do primeiro livro) e, dado o seu relativo sucesso, seria uma aposta segura.
Foi apontado, contudo, que estas três obras, que pertencem todas à mesma coleção de não-ficção de autoajuda, não estão escritas de forma ágil, tendo em conta o público-alvo: a não-ficção de autoajuda mais bem-sucedida é, geralmente, a de linguagem simples que vai diretamente ao cerne da questão, algo que nenhum dos três livros faz. Assim, se forem publicados, podem ser os últimos desta série com que a editora trabalha.
No que toca aos sete livros de ficção infantojuvenil, não sendo estes uma prioridade para a editora (como já foi mencionado, as Edições Salesianas estavam, no momento do estágio realizado, a ponderar o começo de uma série para adolescentes e jovens adultos, mas não tinham qualquer plano concreto), concluiu-se apenas que a escrita de um dos livros por I era tão densa que, em combinação com o enredo complexo, se tornava difícil para um leitor noviço. Dois outros livros, pelo contrário, um por I e outro por H, eram viáveis em termos de edição por demonstrarem criatividade em relação à forma como apresentam os seus temas, algo difícil num mercado tão saturado como o infantojuvenil; os restantes quatro ficaram num limbo, considerando, por exemplo, a presença de ideias originais em enredos muito familiares. Caso o projeto de livros de ficção infantojuvenil vá em frente, pode iniciar-se com as obras consideradas viáveis e planear de acordo com o sucesso dessas.
Note-se que este trabalho foi efetuado sem qualquer diretriz, dado que costuma ser realizado geralmente apenas pela pessoa que detém todo o poder de decisão – o diretor
das Edições. Ao apresentar uma versão mais completa dos resultados demonstrados anteriormente durante o estágio, elegi dividi-los nas vantagens e desvantagens que a publicação de cada livro poderia representar para a editora. Caso algum dia se decida que esta análise deve passar a ser feita por mais do que uma pessoa, teria lógica existir uma metodologia comum à editora que levasse em conta todas as características já mencionadas e, nesse sentido, seria conveniente criar um guião de análise.
O “Roteiro para análise de um original” na área da não-ficção de Medeiros (2002, p. 374-377) analisa, através de uma série de questões pertinentes, o conteúdo da obra, a sua linguagem e originalidade, a oportunidade no mercado e questões gerais e procedimentos. Muitas das suas perguntas são específicas do género (por exemplo, as relacionadas com bibliografia), mas muitas podem referir-se a todo o tipo de livros. Baseando-me neste roteiro, apresento um modelo de guião para as Edições Salesianas:
Conteúdo
Os temas são claros? A estrutura é consistente? Qual o ponto fraco/forte da obra que pode ser minimizado ou eliminado/ampliado?
Linguagem
O vocabulário é adequado? É necessária uma revisão científica ou estilística? O texto estende-se demasiado/podia focar-se mais em certos pontos?
Originalidade
As ideias são apresentadas de forma nova? Em que é que a obra se distingue das demais? Há alguma coisa que chame a atenção?
Oportunidade no mercado
O mercado precisa de obras nesta área? O consumidor pode pagar o livro? Quais os riscos na sua publicação?
Questões gerais e procedimentos
3.2. Criação de normas de estilo
Devido principalmente à instabilidade na direção editorial das Edições Salesianas, os muitos produtos da editora não apresentam, a vários níveis, coesão entre eles. Numa tentativa de colmatar este problema, criei um esboço de normas de estilo a partir das situações que encontrei diversas vezes durante os processos de revisão. Estas situações tendem a ser de teor linguístico, com algumas importantes exceções. Assim, tendo em mente que este guia iria ter como principais utilizadores pessoas com graus diferentes de conhecimento – por exemplo, os designers não têm a mesma formação dos tradutores –, produzi-o para ser o mais simples e direto possível, com bastantes exemplos.
Estas normas foram então divididas em cinco partes diferentes:
- Normas gerais da língua: tratam de erros frequentes e regras da língua portuguesa. Aqui encontramos, por exemplo, as regras do uso das aspas (usar o mesmo tipo ao longo do documento, tendo-se optado pelas aspas elevadas; dentro das aspas elevadas, usar outro tipo, nomeadamente, aspas em linha), a forma mais correta de escrever os números ordinários (por extenso até ao número 10; a partir dos cinco dígitos, utilizar um espaço em vez de uma vírgula ou de um ponto; usar “milhares de milhões” e não “biliões”), e algumas das maneiras de destacamento num texto no caso de citações e afins, a ser utilizadas uma de cada vez (apontaram-se a indentação e o uso do itálico e de uma fonte/tamanho diferentes). Estas normas devem ser aplicadas principalmente pelos escritores, tradutores e revisores que trabalhem com a editora.
- O Acordo Ortográfico de 1990: quando e como utilizar o chamado Novo Acordo Ortográfico. A política editorial segue que o acordo é escolhido pelo escritor/tradutor, com as importantes exceções dos livros infantojuvenis, do projeto “Ligações” e do site
Juvenil 2.0, que seguem sempre o Novo Acordo dado o seu público-alvo jovem; e do
jornal Cavaleiro da Imaculada, que nunca o faz, exatamente pelo motivo oposto de o seu público-alvo ser maioritariamente pessoas habituadas ao Acordo Ortográfico de 1945.
Aqui apontam-se sites de interesse nesta matéria, como o sítio onde encontrar o programa Lince, que converte documentos para o Novo Acordo Ortográfico, e algumas das regras principais, como o uso de minúsculas nos dias da semana, meses e estações do ano e a permanência das consoantes mudas.
- Normas técnicas: normas mais apontadas para os designers e paginadores. Estas incluem a posição das palavras nas lombadas (ao contrário da capa, a lerem-se de baixo para cima); a diferença entre reimpressões e reedições (a primeira é impressão da mesma edição, a segunda tem alterações, tal como atualizações ou correções); e quando pedir, e quando não pedir, novos ISBN ou Depósitos Legais (pedir apenas com novas edições, e não quando estas são ampliadas, atualizadas ou reimpressas).
- Normas bibliográficas: como apresentar as referências. Mais uma vez, a política da editora deixa o tipo de bibliografia nas mãos do autor, quando este é português, mas no caso de traduções, escolheu seguir a norma APA, considerando-a a mais completa no que toca aos vários tipos de fontes bibliográficas.
- Normas sobre o universo religioso: regras necessárias ao tipo de produtos com que a editora trabalha. Aqui descobre-se quando traduzir ou não nomes importantes (traduzem-se apenas os mais importantes do universo religioso salesiano, tais como “João Melchior Bosco”, o nome completo de Dom Bosco); e quais são, exatamente, as “maiúsculas divinas”.
Ao investigar sobre este assunto não encontrei qualquer tipo de informação sobre “maiúsculas divinas”. O padre Rui Alberto, porém, explicou-me que são os pronomes pessoais – e apenas os pessoais, nunca os possessivos ou demonstrativos – que ficam em maiúscula quando referem um ente divino. Numa tentativa de facilitar a compreensão, produzi a seguinte tabela:
Singular 1.ª pessoa Eu Me Mim, Migo
2.ª pessoa Tu Te Ti, Tigo
3.ª pessoa Ela/Ele O, A, Lo, La, Lhe, Se Si, Sigo
Plural 1.ª pessoa Nós Nos Nós, Nosco
2.ª pessoa Vós Vos Vós, Vosco
3.ª pessoa Elas/Eles Os, As, Los, Las, Lhes Si, Sigo Figura 13: Pronomes divinos
Durante a redação destas normas pesquisei guias de estilo de outras editoras que se encontrassem online. Foi uma busca pouco frutuosa, o que é compreensível: um guia pode conter informação sensível sobre o modo como uma editora trabalha, informação essa que não querem que esteja disponível para a concorrência. A grande exceção foi em termos bibliográficos, dado que as muitas normas existentes exigem documentos que as expliquem e comparem (neste caso específico, foram usadas as “Referências bibliográficas: manual de normas e estilos” da Universidade de Aveiro).
Este trabalho foi realizado com a contribuição essencial da pessoa encarregada do marketing da editora, que, durante vários momentos, deu a sua opinião acerca do seu desenvolvimento e sugestões sobre potenciais melhorias. No fim, tanto ela como o editor padre Rui Alberto receberam uma cópia das normas (em formatos PDF e Word, considerando que um guia de estilo deve ser atualizado à medida que a língua/editora se modifica), com o objetivo de as enviar aos seus principais utilizadores.
3.3. Revisão/recuperação de texto
A minha principal tarefa durante este estágio foi a revisão de textos de não-ficção de vários géneros. Esta revisão era realizada tanto em formato papel como em computador (documentos Word ou PDF), em textos originalmente portugueses ou traduzidos de outra língua (com ou sem acesso ao texto de partida), para serem publicados pela primeira vez em Portugal ou reeditados.
O nível de intervenção nestas revisões foi bastante restritivo. Neste tipo de abordagem coube-me essencialmente a normalização tipográfica e linguística dos textos, estando todos os aspetos relativos à estrutura a cargo do designer.
Segundo a unidade curricular de Revisão de Texto, uma abordagem extensiva implicaria:
- Revisão de pendor literário, com o objetivo de melhorar a própria linguagem dos textos. De facto, foram feitas algumas alterações neste sentido, principalmente em traduções, mas a política editorial é manter-se o mais próximo da escrita original/tradução quanto possível.
- Revisão de pendor científico, muito oportuna em certos géneros da não-ficção. Considerando o caráter religioso de muitas das obras que revi, e o facto de os autores dessas obras serem geralmente especialistas na sua matéria, este tipo de revisão observou-se maioritariamente em questões de coerência e coesão dentro de cada texto.
- Revisão de adequação da linguagem ao público-alvo, a qual foi desnecessária exceto em casos pontuais relacionados com traduções.
- Revisão de adaptação científica ou contextual, que também não tive oportunidade de trabalhar.
- Textos biográficos e históricos dirigidos a diferentes públicos (crianças, jovens e adultos) com o que isso implica de diferentes níveis de cuidado linguístico e complexidade frásica. Nesta categoria encontramos, por exemplo, Como estrelas no
céu, de Don Pierluigi Cameroni, uma coleção de biografias de Salesianos “glorificados
ou candidatos à santidade”.
- Textos para crianças na norma popular, tais como um conto inserido num livro de colorir, em que o texto devia combinar com as imagens, e vários “Catequiz”, questionários apresentados como jogos sobre temas religiosos.
Figura 14: Como Estrelas no céu
Este foi um dos primeiros livros revistos.
Figura 15: Catequiz – Perguntas e respostas sobre parábolas e milagres de Jesus
- Textos de educação; entre estes encontravam-se os livros do projeto “Ligações” e a edição comentada de A arte de educar: escritos e testemunhos, que reúne vários textos e sobre o estilo de edução dos Salesianos criado por dom Bosco (sendo ele o autor principal, com introdução e notas histórico-bibliográficas de Pietro Braido e colaboração de José Manuel Prellezo García e António da Silva Ferreira), redigida no estilo culto.
- Textos litúrgicos, escritos na norma padrão, tanto por autores portugueses como por autores estrangeiro e, por vezes, colaborações de vários autores que reúnem, por exemplo, diversas orações. Aqui encontramos todas as obras relacionadas com ocorrências religiosas, tais como a via sacra.
- Textos de suporte, ou de autoajuda, com uma linguagem coloquial.
Devido à abordagem restritiva, o processo de revisão inicial mantinha-se basicamente o mesmo apesar dos diferentes géneros textuais, embora o formato do texto implicasse ações distintas – em papel e PDF, por exemplo, podia apenas apontar as alterações necessárias em vez de as realizar.
Figura 16: A arte de educar
No que toca ao chamado “ciclo de revisão”, ou seja, o momento na vida do texto em que ele chega às mãos do revisor e que determina as ações a realizar com vista à sua otimização, trabalhei principalmente com originais e textos recuperados – a recuperação de texto ocorre antes e ao mesmo tempo que a revisão. Como as Edições Salesianas já publicavam antes do advento da era digital, existem livros somente em papel. Quando surge a necessidade de reimprimir, corta-se o livro pela lombada e digitalizam-se todas as páginas. O processo de converter as imagens em texto conclui-se com muitos erros, pelo que é, então, necessária a revisão, o que, por sua vez, leva a uma reedição da obra.
Com textos originais e recuperados, o processo de revisão inicia-se antes da leitura na íntegra com a normalização e preparação para paginação. Nestes casos, tinha sempre a versão digital, pelo que em primeiro lugar distinguia títulos e subtítulos do texto através dos estilos, e, quando o índice já existia (por exemplo, em traduções), confirmava se estavam de acordo.
Em segundo lugar notava o posicionamento do texto na página, nomeadamente parágrafos, indentações, cabeçalhos, rodapés (e respetiva chamada para as notas) e quebras de secção. Nos textos recuperados, a conversão da imagem digitalizada para documento de texto torna cada linha num parágrafo e cada página numa secção, situações que têm de ser corrigidas. Aqui também observava as imagens, normalmente a preto e branco, se estas estivessem presentes, determinando se afetam negativamente a leitura, se estão relacionadas com o tema, se condizem no conjunto e se têm ou não legendas;
Segue-se a normalização básica: pesquisa de espaços a mais (duplos, antes e depois da pontuação) e sua eliminação; correção dos erros ortográficos apontados pelo processador de texto – quando um erro não é apontado, o que ocorre frequentemente com simples gralhas, é encontrado e corrigido durante a leitura do texto; procura e revisão de numerais, abreviaturas, siglas e acrónimos; procura e revisão de hífens e travessões, reticências e três pontos, assegurando que estão nos locais devidos; procura e revisão de parêntesis, cuidando que que sigam as normas da editora.
Nos textos recuperados, a digitalização também acrescenta pontos, acentos, traços e afins, devido à sujidade na página digitalizada. Todas estas adições têm de ser eliminadas.
Finalmente, a leitura do conteúdo textual: no Word, registar alterações; em PDF, realizar comentários; em papel, anotar as modificações com símbolos e palavras, dado que estas revisões partem para o designer, que não conhece a NP 61; se for uma tradução, há maior liberdade para reformular o texto, dependendo do estilo linguístico, principalmente quando se detém o texto de partida e se trata de uma língua de trabalho; quando os textos são originalmente em português, prefere-se apontar possíveis incorreções ou passagens que possam ser melhor concretizadas.
Após esta normalização e preparação, o designer paginava o texto e, por vezes, reenviava-me as primeiras provas – em papel ou PDF. Nestas situações, já revia índices, fichas técnicas, dedicatórias e outras páginas que não fazem parte do miolo, assim como cores, na presença de imagens, antes de proceder, mais uma vez, à leitura integral, certificando-me das correções anteriores e efetuando novas, se necessário.
Não me consta que o autor/tradutor tenha contacto direto com o texto após o seu envio para a editora. Dúvidas ou alterações que requeriam a sua opinião eram tratadas por correio eletrónico com o padre Rui Alberto.
Revisão de Texto foi uma das disciplinas mais práticas do Mestrado, pelo que foi das tarefas para as quais me sentia melhor preparada. A pluralidade de géneros textuais permitiu-me experienciar muitos tipos de linguagem e formas de escrita. No entanto, a abordagem restritiva é constituída por ações repetitivas, e admito que realizar alguma forma de abordagem extensiva teria sido mais útil em construir a minha identidade enquanto editora – a revisão não é o único papel de um editor e, por vezes, nem sequer é parte do seu trabalho. Também gostava de ter tratado de textos de ficção, sendo esta uma faixa enorme do mercado editorial cujo processo de edição não experimentei.
3.4. Pedido de orçamento
Durante o estágio, o editor solicitou a realização de um orçamento para um conto de colorir e deu-me liberdade para dar asas à imaginação, de modo a discutirmos diversas estratégias de marketing possíveis. Com isto em mente, fiz dois tipos de pedido de orçamento – um orçamento realista e seguro, e um orçamento a explorar várias possibilidades, menos seguro – assim como os locais de venda e os “extras” que chamariam a atenção para o produto. Tudo isto está representado na seguinte tabela:
Orçamento seguro Orçamento menos seguro Capa + contracapa Cartolina de 200-300 g (capa mole) 4/0 (quatro cores na parte de fora, branco na parte de dentro) Cartonado (capa semi-dura) 1/0 (preto e branco na parte de fora) Mistura com a folha de rosto (o nome do dono do livro podia ser escrito na capa)
O primeiro orçamento aponta para o exterior de um livro comum.
O segundo orçamento tem como base a ideia de uma capa que a própria criança possa pintar, personalizando-a; a capa semi-dura faria com que o seu uso fosse fácil em qualquer lugar, servindo de apoio; também assume que, no meio de outros livros de colorir, um com a capa branca destacar-se-ia.
Lombada Sem lombada Com lombada Um livro com uma capa semi-dura e cerca de 30 folhas necessitaria de lombada, mas abas num livro infantil de colorir simplesmente não fazem sentido.
Abas Sem abas
Miolo Papel offset 100 ou 120 g 1/1 (preto e branco de ambos lados) Papel offset 120 g 1/1
O miolo seria idêntico em qualquer um dos casos. Papel
offset de 120 g é ligeiramente
mais grosso e impediria que as cores transbordassem tanto entre as páginas.
Acabamento Agrafos Colagem
Uma capa cartonada com lombada não poderia segurar o miolo através de agrafos, daí a colagem.
Tamanho 265x190 270x200
Enquanto a maioria dos livros coloridos é A4, com as medidas de 270 milímetros de largura e 200 por altura faria um formato retangular na horizontal, um pouco como um livro de banda desenhada. Locais/ momentos de venda Livrarias religiosas durante o Natal, a Quaresma/ Páscoa e a época das festas em Maio/Junho Livrarias religiosas durante o mesmo período Hipermercados
Este livro poderia ser usado como ponto de partida para descobrir as melhores maneiras de chegar a um público mais abrangente.
Marketing Deixar que o livro fale por si
Acrescentar um lápis colorido Acrescentar um autocolante relativo à época do ano de venda
Para não deixar qualquer dúvida quanto ao objetivo do livro e atrair a atenção, sugeriu-se a adição de um lápis colorido e/ou de um autocolante de Natal/ Páscoa/Comunhão/outra festa. Figura 17: Comparação de orçamentos
O orçamento final foi baseado maioritariamente no orçamento seguro, com custos, produção, venda e marketing familiares e controláveis:
- Capa/contracapa com gramagem de 300 e impressão couché brilhante a quatro cores por fora;
- Sem lombada ou abas;
- Miolo de 48 páginas com uma gramagem de 100 ou 120 a preto e branco; - Tamanho 190 milímetros de largura por 265 de altura;
- Acabamento por agrafos, com dois pontos de arame; - 300 a 500 exemplares.
não justifica (nomeadamente, um lápis teria de ser empacotado no livro e um autocolante teria de ser impresso).
No que toca à produção em si, as Edições têm uma série de gráficas com quem trabalham habitualmente para diferentes projetos. Para este projeto específico, pediram orçamento a seis:
- À Diana Gráfica (https://dianagrafica.com), sediada no Alentejo, que tratou da revista
catequistas da editora de 2004 a 2014, altura em que passou apenas para publicação
digital até à sua suspensão em maio de 2015. Esta gráfica tem uma longa história com os Salesianos: o seu fundador completou os cursos de comercial e compositor tipográfico nas Oficinas de S. José de Lisboa sob tutelagem salesiana. Ofereceu, contudo, a mais cara das cotações;
- À Invulgar Artes Gráficas (http://invulgar.pt), sediada em Penafiel;
- À Tadinense Artes Gráficas (https://pt-pt.facebook.com/tadinense.artesgraficas), sediada em Braga. Esta gráfica é a responsável pela impressão do jornal Cavaleiro da
Imaculada. São, geralmente, os eleitos para tiragens médias/grandes, especialmente a
preto e branco, e estão habituados a trabalhar com editoras religiosas;
- À Sersilito – Empresa Gráfica Lda. (http://sersilito.pt/content), uma empresa jovem sediada na Maia. Apresenta-se como “especialmente vocacionada para obras de alta qualidade, como livros de arte e de fotografia”, o que não vai ao encontro deste livro infantojuvenil;
- Ao Print Group (http://printgroup.lv), sediado na Polónia. Estão otimizados para pequenas tiragens e não usam acabamento a agrafos, o eleito para este projeto. Realizaram o orçamento com um papel de apenas 90 gramas;
- À Printhaus (http://printhaus.es), sediada em Espanha, que exige o pagamento primeiro, mas assegura o transporte.