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OS ADOLESCENTES EM CONFLITO COM A LEI E A ESCOLA

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Academic year: 2022

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Departamento de Psicologia

OS ADOLESCENTES EM CONFLITO COM A LEI E A ESCOLA

Aluno: Mariana Soares Avillez

Orientador: Maria Helena Rodrigues Navas Zamora

Introdução

A presente pesquisa denominada “Adolescente em conflito com a lei e a escola: falam os educadores”, ocorreu entre 2011 e 2012, na PUC-Rio, sob a coordenação da Professora Maria Helena Zamora. O objetivo foi investigar como educadores veem os adolescentes em conflito com a lei, no contexto do cumprimento de medida socioeducativa de Liberdade Assistida (ou em seguimento de seu processo educativo, após cumprimento de medida e desligamento do sistema) e inseridos na escola. Participaram das discussões 1.158 educadores, atuando em es- colas públicas regulares de Ensino Fundamental, em diversos estados brasileiros. A partir de análise de conteúdo, pretende-se saber como esses jovens são vistos, que possíveis dificuldades esses profissionais têm e compreender que práticas concretas ocorrem nas escolas, planejadas com o fim de favorecer a inclusão dos adolescentes. Discutiu-se os resultados do estudo, em que as concepções dos professores sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) foram analisadas à luz dos princípios dos direitos humanos e sob reflexão crítica apoiada nos conceitos provenientes da Análise Institucional e outros teóricos afins.

A partir do processo desta pesquisa, e dos resultados encontrados nela, ficou claro ao grupo de pesquisadores que a discussão sobre a inserção do jovem, no contexto socioeducativo, no ambiente da escola havia chegado a um esgotamento. Estes resultados apontam para a am- pliação do estudo tendo como atual foco os demais atores do Sistema de Garantia de Direitos (SGD). Estes, junto aos educadores, formam a rede de proteção integral, seguindo a concepção garantista presente na atual legislação brasileira.

Cabe, atualmente, ao grupo de pesquisa um estudo do amplo campo do SGD e da atu- ação de seus diversos atores. Para tal abrangência a pesquisa conta com atividades específicas, as quais alternam entre frentes investigativas próprias - para cada integrante, e bolsista, e o retorno deste material coletado ao grupo - e frentes investigativas grupais - discussão do mate- rial, encontros com profissionais atuantes no SGD e estruturação estratégica dos passos a serem seguidos. Estas atividades visam compor um panorama atualizado do funcionamento sistêmico da rede de proteção integral, tendo como foco a atuação do psicólogo neste contexto.

A seguir serão apresentados alguns resultados das atividades levadas a cabo pela pre- sente bolsista, tais como o levantamento bibliográfico, tanto das bases históricas, que possibil- itaram a atual formulação do Sistema de Garantia de Direitos; quanto de literatura específica acerca da atuação do psicólogo neste contexto.

Levantamento bibliográfico A. Bases históricas

O Sistema de Garantia de Direitos (SGD) deriva de um histórico de conquistas democráti- cas à nível mundial. Aqui serão brevemente descritos alguns desses marcos históricos mais sig- nificativos que valorizam, e buscam assegurar, preceitos básicos de Direitos Humanos assim como a “efetivação do direito instituído pelo próprio homem - o direito civil” (Batista, 2012).

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Algumas dessas situações são: a Carta Magna de 1215 na Inglaterra limitando o poderio real; a Revolução Inglesa em 1640; a instituição do Habeas Corpus em 1679; a Declaração de Direitos de 1689; a Declaração dos Direitos de Virgínia, nos Estados Unidos, em 1776 e a Declaração da Independência dos Estados Unidos Americanos neste mesmo ano; a Declaração dos Direitos do Homem, na França, no contexto da Revolução Francesa em 1789; a Revolução Russa em 1917 (Batista, 2012). Os primeiros marcos regulatórios internacionais de direitos básicos humanos se deram após as guerras mundiais quando algumas reformulações jurídicas foram assinadas na Organização das Nações Unidas: a Declaração Universal dos Direitos do Homem em 1948;

a Declaração Universal dos Direitos da Criança em 1959; e a Convenção sobre os Direitos das Crianças em 1989.

Durante o caminho de conquistas garantistas nas legislações internacionais, o Brasil passava por momentos de privação de direitos democráticos com a implementação de um re- gime ditatorial e militar (1964 a 1985).

Os anos que seguiram ao chamado processo de redemocratização geraram, não só no Brasil como em muitos países da América Latina, uma valorização dos movimentos sociais, das políticas públicas e do mundo jurídico (Mendez & Costa,1994). Neste período foi aprovada a Constituição Federal de 1988, sob uma pressão, tanto nacional, quanto internacional, esta últi- ma devido à cobrança - feita por organizações influentes na Convenção dos Direitos da Criança da ONU - para que mais conteúdos dos documentos das Nações Unidas estivessem presentes na Constituição Federal Brasileira.

A Constituição de 1988 é conhecida como “Constituição Cidadã” e um dos seus mar- cos é passar a considerar, em âmbito legal e jurídico, a população que outrora fora legalmente estigmatizada de maneira preconceituosa - sob a égide da doutrina da situação irregular - como sujeitos de direitos e cidadãos plenos. As maiorias populares (Martin-Baró,1996) passam a ser sujeitos detentores de direitos civis, políticos e sociais, e a garantia destes passa a ser dever do Estado, podendo, agora, serem exigidos por lei. “A partir dela (CF/88), o Estado brasileiro pas- sou a ter o dever jurídico-constitucional de realizar a justiça social” (Batista, 2012). Esta nova situação legal passou a beneficiar diretamente as crianças e adolescentes.

A Constituição Federal Brasileira de 1988 é considerada por por alguns autores como inovadora pois ela acaba por se antecipar à Convenção das Nações Unidas de Direitos da Cri- ança, de 1989. A CF/88 faz um contraponto à doutrina da situação irregular, impulsionando a doutrina da proteção integral. As diferenças entre estas duas concepções serão exploradas mais adiante.

Em 1990 é aprovado o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA - por meio da Lei 8.069, seguindo as concepções garantistas da doutrina da proteção integral e do princípio da cidadania infanto-juvenil presentes na recente Constituição Federal.

Ao basear-se nesta nova legislação e nesta nova proposição paradigmática que a CF e o ECA trazem, em tese, os que antes eram designados, oficial e legalmente, de “menores” pas- sam a ser considerados crianças e adolescentes, e as tão insistentes práticas assistencialistas, conhecidas no Brasil, passariam agora a dar espaço às políticas garantistas. Estas passariam a atuar na centralidade das questões de desigualdade social, isto é, garantindo os direitos básicos à qualquer cidadão: direito à vida, liberdade, propriedade, igualdade perante à Lei, direitos de voz e participação política, bem como à participação na riqueza coletiva, sustentando os três pilares de direitos civis, políticos e sociais respectivamente.

Na situação da doutrina irregular, do Código de Menores (1979), - lógica que já vem em cena no Brasil desde o contexto do Código de Menores de 1927 - há uma afirmação das relações verticalizadas e hierárquicas. Em uma relação hierárquica de poder é sempre preciso que haja um que se submeta aos desígnios de um outro. Neste caso a população em situação de pobreza é a mais subjugada. Esta doutrina pressupõe um modelo centralizado, das instituições totais

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(Goffman, 2013), no qual se compreende que uma organização sozinha dá conta de “cuidar” da totalidade das necessidades dos indivíduos que dela precisam, aqui o “menor” é um mero objeto de todo tipo de intervenção. Na doutrina da situação irregular há a predominância de um caráter assistencialista e correcional/repressivo. O assistencialismo pode ser compreendido como o atendimento, a assistência, àqueles que, como um sintoma, se mostram demandantes de alguma atenção e solucionamento de suas necessidades. O assistencialismo não resolve estruturalmente a situação produtora das demandas, e sintomas, ele tão somente permanece a solucionar, de ma- neira superficial e constante, as exigências que urgem, de maneira já extrema, por uma solução.

A concepção correcional e repressiva evidencia o transbordamento de uma lógica penal, puni- tiva e patologizante nos demais âmbitos da sociedade e das políticas públicas.

Na doutrina da situação irregular há um forte aspecto de preconceito e estigmatização servin- do para a criminalização da pobreza, assim como há também a forte presença da judicialização de questões que possuem uma gênese no social e não no jurídico.

No paradigma da doutrina da proteção integral há uma concepção garantista, na qual passa a ser papel do Estado, da família e da sociedade garantir os direitos a todas as crianças e jovens.

Esta tríade já sugere a mudança para um paradigma cuja horizontalidade passa a ser a maior referência de como o sistema vai atuar para garantir esses direitos. As organizações públicas e civis devem atuar em rede de maneira co-participativa dividindo as funções e as responsabili- dades para um melhor resultado.

Seguiu-se à aprovação do ECA (1990) a aprovação de outras leis e mecanismos que buscam meios para efetivar a Proteção Integral de Direitos. São estas: A criação do CONAN- DA - Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente - por Lei Federal nº 8.242 em 12 de Outubro em 1991. A função do CONANDA é deliberar sobre a política de proteção à Infância e articular a atuação em rede com os demais atores do Sistema de Garantia de Direitos (SGD). Outro importante marco aprovado é o SINASE - Sistema Nacional de Atendimento So- cioeducativo, Lei nº 12.594 de 2012 - que visa a ser um guia para a implementação do Sistema Socioeducativo. O SINASE tem como função regulamentar a execução da medida socioedu- cativa. Ele reforça a mudança para um paradigma que visa incluir o jovem socialmente tendo como base um referencial ético e pedagógico, e não mais punitivo e correcional.

No Sistema Socioeducativo diversos atores são responsáveis pela formulação, gestão, execução, fiscalização e controle de política socioeducativa, compondo o chamado Sistema de Garantia de Direitos.

O SGD possui, em sua base, três eixos de atuação: o eixo da Defesa dos Direitos Hu- manos, o eixo da Promoção dos Direitos e o eixo do Controle e Efetivação dos Direitos.

No eixo da Defesa dos Direitos Humanos estão os órgão públicos judiciais; ministério público, com especial importância as promotorias de justiça e as procuradorias gerais de justiça;

as defensorias públicas; advocacia geral da união e as procuradorias gerais dos estados; polí- cias; conselhos tutelares; ouvidorias e entidades de defesa de direitos humanos responsáveis por prestar proteção jurídico-social.

No eixo da Promoção dos Direitos há a atuação através de três tipos de programas, serviços e ações públicas. São estes: serviços e programas das políticas públicas, especialmente as políticas sociais; os serviços e programas de execução e medidas de proteção de direitos hu- manos; e serviços e programas de execução medidas socioeducativas e assemelhadas.

No eixo do Controle e Efetivação dos Direitos estão as instâncias públicas colegionadas próprias, que são os conselhos dos direitos de crianças e adolescentes; conselhos setorias de formulação e controle de políticas públicas; assim como os órgãos e os poderes de controle in- terno e externo definidos na Constituição Federal. O controle também é feito pela participação da sociedade através de organizações civis e suas articulações representativas.

Estes são alguns aspectos básicos para a compreensão sobre o Sistema de Garantia de Direitos.

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B. Literatura específica, uma breve apresentação

O levantamento bibliográfico sobre o Sistema de Garantia de Direitos com foco na at- uação do psicólogo dentro deste sistema foi marcado pela dificuldade de encontrar uma vasta bibliografia sobre o tema. A grande maioria dos textos encontrados versavam mais a respeito da área da Assistência Social do que da Psicologia dentro do SGD. Poderia-se dizer que há pouca literatura específica sobre o tema. As pesquisas foram feitas nos seguintes bancos de dados:

Scielo, Capes, Google Academics e Periódicos Eletrônicos em Psicologia (PePSIC).

Um dos textos mais presentes nas buscas foi Algumas reflexões sobre o Sistema de Garantia de Direitos de Myrian Veras Baptista, publicado em 2012 na revista Serviço Social e Sociedade. Este texto possibilita um bom entendimento sobre o SGD, abrangendo desde o período histórico no qual surge, seus pressupostos teóricos; até uma descrição mais focada nas funções dos diferentes atores da rede. Este é um relevante texto para que se possa obter uma compreensão mais didática acerca do SGD. Nele há, em especial, uma significativa revisão a respeito da trajetória dos direitos humanos no Brasil até chegar ao contexto da formação da As- sembleia Nacional Constituinte e a consequente formulação da Constituição Federal de 1988.

Um outro artigo pesquisado concernente ao tema foi Juventude e Sistema de Direitos no Brasil de Hebe Signorini Gonçalves e Joana Garcia, publicado em 2007 na revista Psicologia Ciência e Profissão. Neste artigo há um levantamento e análise das recentes estatísticas, na épo- ca de sua publicação, envolvendo crianças e adolescentes em especial os em conflito com a lei.

Há uma avaliação das intervenções feitas e uma análise críticas destas, bem como a proposição para novos avanços. Há também uma revisão crítica quanto à aspectos da lógica menorista e de sua presença no imaginário social na contemporaneidade.

Adolescentes em conflito com a lei e direitos humanos: desafios para implementação do SINASE, artigo escrito em parceria entre a Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) pelas autoras Aurora Amélia Brito de Miranda, Beatriz Gershenson Aguinsky, Cândida da Costa, Lisélen de Freitas Avila, Maria Jacinta Jovino Carneiro da Silva e Selma Maria Muniz Marques, publicado no ano de 2014 na Revista de Políticas Públicas. Este artigo aborda os principais desafios e questões presentes na implementação do sistema socioeducativo no Brasil, seguindo as diretrizes do SI- NASE. Neste artigo há a articulação de uma pesquisa feita no estado do Maranhão com dados do mapeamento Nacional do Sistema Socioeducativo, traçando um panorama das dificuldades de articulação entre os atores do SGD.

Outro texto levantado foi Acesso e enturmação de adolescentes em conflito com a lei em escolas municipais do Rio de Janeiro, de Juliana G. Pereira. Este texto tem como foco a inserção dos adolescentes em conflito com a lei na escola, apresentando um estudo de caso.

Fora esta especificidade ele traz produtivas informações para que se possa compreender melhor a série de estigmas historicamente direcionados à população negra e em situação de risco.

Resultados e Discussões

A bibliografia levantada traz importantes dados a respeito de uma série de fatores que possibilitam uma compreensão mais precisa acerca do contexto histórico e social que envolvem o SGD, e, por isto, fundamentais para o estudo do tema. Os artigos versam amplamente acerca dos processos jurídicos e políticos que possibilitaram o SGD bem como expõem, de maneira detalhada, como se dá a sua estruturação e o seu funcionamento. Dada a complexidade de fa- tores que formam o campo do SGD é preciso haver um estudo que trate desde os aspectos mais gerais aos mais específicos; no entanto, ao tratar das especificidades do trabalho do psicólogo inserido nesta rede, a bibliografia se mostra escassa.

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Conclusões

A partir do levantamento bibliográfico com foco na inserção do Psicólogo, enquanto um ator do SGD, pode-se concluir que há uma carência de publicações que versem especificamete sobre o tema. Esta lacuna pode sugerir uma série de hipóteses a respeito dessa ausência de liter- atura ao mesmo tempo que afirma a importância, e relevância, de uma pesquisa que dedique-se a esta área.

Referências Bibliográficas

BRASIL (1988). Constituição da República Federativa do Brasil.

BRASIL (1990). Lei Federal n°. 8.069 – Estatuto da Criança e do Adolescente.

BRASIL (2006). Resolução nº 113 de 19/04/2006 do CONANDA.

BRASIL (2012). Lei 12.594. Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo

BAPTISTA, Myrian Veras. Algumas reflexões sobre o sistema de garantia de direitos. Serv.

Soc. Soc., São Paulo, n. 109, p. 179-199, mar. 2012. Disponível em <http://www.scielo.br/sci- elo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-66282012000100010&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em:

29 jun. 2016.

GONCALVES, Hebe Signorini; GARCIA, Joana. Juventude e sistema de direitos no Brasil.

Psicol. cienc. prof., Brasília , v. 27, n. 3, p. 538-553, set. 2007. Disponível em <http://pepsic.

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GOFFMAN, E. Manicômios, Prisões e Conventos. 8ª ed. São Paulo: Perspectiva. 2013.

MIRANDA, A. A. et Al. Adolescentes em conflito com a lei e direitos humanos: desafi- os para a implementação do SINASE. Disponível em: http://repositorio.pucrs.br/dspace/bit- stream/10923/7875/2/Adolescentes_em_Conflito_com_a_Lei_e_Direitos_Humanos_desafi- os_para_implementacao_do_Sinase.pdf. Acesso em: 30 de jun. de 2016.

PEREIRA, Juliana G. Acesso e enturmação de Adolescentes em Conflito com a Lei em escolas municipais do Rio de Janeiro. 37ª Reunião Nacional da ANPEd - 04 a 08 de Outubro de 2015, UFSC - Florianópolis, 2015.

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