UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA
PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSO EM EDUCAÇÃO FÍSICA
Dieta de baixo ou alto índice glicêmico não interfere no
desempenho em corrida de 3.000 m
Kleber dos Santos Almeida
UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA
PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSO EM EDUCAÇÃO FÍSICA
Dieta de baixo ou alto índice glicêmico não interfere no
desempenho em corrida de 3.000 m
Kleber dos Santos Almeida
Projeto de pesquisa apresentado ao
Curso de Educação Física da
Universidade Católica de Brasília
como parte dos requisitos para
processo de qualificação do curso de
mestrado.
Dissertação de autoria de Kleber dos Santos Almeida, intitulada “Dieta de
baixo ou alto índice glicêmico não interfere no desempenho em corrida de 3.000
m “, requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Educação Física,
defendida e aprovada, em ________________________ de
______________________ de 2009, pela banca examinadora constituída pelos
professores:
_____________________________________________
Prof. Dr.ª Carmen Silvia Grubert Campbell
______________________________________________
Prof. Dr. Herbert Gustavo Simões
_____________________________________________
A Deus por sempre estar ao meu
lado e a todos que sonharam
comigo e que me ajudaram a dar
Agradecimentos
A Deus, meu criador, minha inspiração, por sempre me mostrar o que fazer,
cuidar de mim, me ensinar a amar e a confiar diante das adversidades.
A minha esposa, Ana Cristina, a minha mãe, Divina Santos Almeida, que,
sem o apoio destas duas mulheres, nada teria acontecido. Qualquer agradecimento
sempre será pequeno diante do amor que sinto pelas duas e o profundo sentimento
de gratidão.
A Prof.a Dra Carmen Sílvia Grubert Campbell, por me orientar e me apoiar em toda esta caminhada. Ao Prof. Dr. Herbert Gustavo Simões, pelas sugestões,
opiniões e por me fazer acreditar que sempre é possível fazer melhor. Vocês foram
a principal lição de aprendizado do curo de mestrado.
Aos meus companheiros de curso, Sérgio, Rafael Sotero, Laila, Wesley,
Daisy, que sempre tinham uma palavra de incentivo e auxilio nos momentos
difíceis. Ao amigo e companheiro Marcelo Sales, que sem ele não haveria nada de
concreto. Uma pessoa que admiro muito e que levarei comigo pelo resto da vida.
Ao Prof. Mestre, Carlos Ernesto, e ao Cardiologista Dr. Ronaldo Benford,
pelo auxilio e ajuda sempre que precisei. Se não fosse a colaboração destes dois
este trabalho não teria acontecido.
Ao Grupo de Estudos do Desempenho Humano e das Respostas
Fisiológicas ao Exercício, em especial ao Puga e ao Rafislky, que sempre foram
exemplos a serem seguidos.
Aos estimados voluntários que tornaram tudo possível. Meus sinceros
ÍNDICE
LISTA DE TABELAS...viii
LISTA DE FIGURAS...ix
LISTA DE ABREVIATURAS...xi
RESUMO...xii
ABSTRACT...xiii
1. INTRODUÇÃO ...1
2. OBJETIVOS ...6
2.1. Geral ...6
2.2.Específicos ...6
3. JUSTIFICATIVA E RELEVÂNCIA ...7
4. REFERENCIAL TEÓRICO ...9
4.1. Carboidrato e exercício ...9
4.2. Índice glicêmico ...14
4.2.1. Conceito ...14
4.2.2. Tabelas de IG ...17
4.2.3. Determinação do IG ...18
4.2.4. IG do alimento e IG de refeições ...19
4.3. Índice glicêmico e exercício ...21
4.3.1. Índice glicêmico e desempenho físico ...22
4.3.2 A interferência do índice glicêmico no substrato oxidado ...28
5. METODOLOGIA ...33
5.1.Amostra ...33
5.2. Aspectos éticos e critérios de inclusão ...33
5.3.1. Procedimentos ...35
5.3.2. Procedimentos da primeira visita ...36
5.3.3. Avaliação antropométrica ...37
5.3.4. Avaliação nutricional ...37
5.4. Procedimento experimental ...37
5.5. Recursos necessários para a coleta de dados ...40
5.6. Protocolo dietético ...41
5.6.1. Determinação do valor calórico da dieta do dia anterior ao teste ...42
5.6.2. Descrição da composição e determinação do valor calórico da refeição-teste (RT) ...45
5.6.3. Consumo de água nas sessões experimentais ...47
5.7. Protocolo de exercício ...47
5.8. Coletas de sangue capilarizado (CSC) ...47
5.9. Análises sanguíneas: glicose, lactato ...48
5.10. Coletas dos gases respiratórios ...48
5.10.1. Razão de trocas respiratórias (RER) e oxidação de substrato ...48
5.11. Análise estatística ...49
6. RESULTADOS ...52
7. DISCUSSÃO ...68
8. CONCLUSÕES ...81
9. REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO ...82
ANEXO 1. TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO ...87
ANEXO 2. PROCEDIMENTOS DA PESQUISA – PROCEDIMENTOS PRÉ-TESTE ...90
ANEXO 3. ANAMNESE ...91
LISTA DE TABELAS
Tabela 1. Exemplos do Índice Glicêmico de alimentos ricos em carboidratos ...16
Tabela 2. Estimativa da Taxa Metabólica Basal segundo Henry & Rees (1991) ...43 Tabela 3. Fator atividade física utilizado na determinação do gasto energético total ...44
Tabela 4. Porcentagens e gramatura de carboidrato, proteína, lipídio, calorias e
consumo de água consumida no período de recuperação e classificação do Índice
Glicêmico das refeições ministradas durante os dias de coletas (n = 11) ...46
Tabela 5. Características descritivas da amostra representadas na forma de média
± desvio padrão. (n = 11) ...51
Tabela 6. Valores médios (± DP) obtidos no teste de 3.000 metros nas sessões
experimentais (n = 11) ...51
Tabela 7. Consumo de oxigênio médio (± DP) durante o período pós-prandial, na
corrida e nos momentos de recuperação nas três sessões experimentais (n = 11) ...55
Tabela 8. Razão de trocas respiratórias (RER) no pós-prandial, durante o teste de 3.000 m e nos 60 min de recuperação (n = 9) ...57
Tabela 9. Valores percentuais (%) em média (± DP) e em gramas por minuto (g/min)
da oxidação de carboidrato (CHO) durante o período pós-prandial, na corrida de
3.000 m e no período de recuperação (n = 9) ...60 Tabela 10. Valores percentuais (%) em média (± DP) e em gramas por minuto (g/min) da oxidação de gordura (LIP) durante o período pós-prandial, na corrida de 3.000 m e
no período de recuperação (n = 9) ...62
Tabela 11. Apresentação dos valores médios do percentual de oxidação de CHO e LIP nas três sessões experimentais. Para a comparação foi considerada a média do
LISTA DE FIGURAS
Figura 1. Delineamento do estudo. TCLE: termo de consentimento livre e esclarecido; AIG: Alto Índice Glicêmico; BIG: Baixo Índice Glicêmico; CON: Controle ...35
Figura 2. Esquema ilustrativo de um dia de coleta das sessões experimentais, exemplificando a ordem de ocorrência dos procedimentos e os momentos de coleta
das variáveis ...40
Figura 3. Resposta da glicemia durante as três sessões experimentais. AIG: Alto Índice Glicêmico; BIG: Baixo Índice Glicêmico; CON: Controle. † p< 0,05 para AIG vs
CON: * p< 0,05 para BIG vs CON; # p< 0,05 para AIG vs BIG; †† p< 0,001 para AIG
vs CON; ‡ p < 0,001 para AIG vs BIG. Rep: repouso; 15’pp: 15 min pós-prandial;
30’pp: 30 min prandial; Pre 3 km: pré-teste de corrida de 3.000 m; Pós 3 km:
pós-teste de corrida de 3.000 m; Rec 5’,15’, 30’, 45’, 60’: momentos de recuperação dos 5’
aos 60’ em que as variáveis foram mensuradas ...53
Figura 4. Variação da lactatemia durante os momentos de coleta nas três sessões experimentais. AIG: Alto Índice Glicêmico; BIG: Baixo Índice Glicêmico; CON:
Controle. # p< 0,05 para AIG vs BIG; †† p< 0,001 para AIG vs CON; ** p< 0,001 para
BIG vs CON. Rep: repouso; 15’pp: 15 min pós-prandial; 30’pp: 30 min pós-prandial;
Pre 3 km: pré-teste de corrida de 3.000 m; Pós 3 km: pós-teste de corrida de 3.000 m;
Rec 5’,15’, 30’, 45’, 60’: momentos de recuperação dos 5’ aos 60’ em que as variáveis
foram mensuradas ...54
Figura 5. Consumo de O2, durante as três sessões experimentais. VO2: Consumo de
Oxigênio; AIG: Alto Índice Glicêmico; BIG: Baixo Índice Glicêmico: CON: Controle.
15’pp: 15 min pós ...55
Figura 6. RER: Razão de troca respiratória. Os dados são apresentados na forma de
média ± desvio padrão; AIG: Alto Índice Glicêmico; BIG: Baixo Índice Glicêmico; CON:
Controle. * p< 0,05 ; † p< 0,001 ; ‡ p< 0,001 em relação ao CON no mesmo momento.
15’pp: 15 min pós-prandial; 30’pp: 30 min pós-prandial; 3 km: 3.000 m de corrida
máxima intensidade; Rec 5’,15’, 30’, 45’, 60’: momentos de recuperação dos 5’ aos
60’ em que as variáveis foram mensuradas ...58
Figura 7. Equivalente Metabólico durante as três sessões experimentais. Os dados
são apresentados na forma de média ± desvio padrão MET: Equivalente Metabólico;
AIG: Alto Índice Glicêmico; BIG: Baixo Índice Glicêmico: CON: Controle; * p < 0,001
Figura 8. Resposta da RER na comparação entre o valor médio do período pós-prandial e a média dos últimos 30 min de recuperação para as sessões CON, AIG e
BIG. CON: Controle; AIG: Alto Índice Glicêmico; BIG: Baixo Índice Glicêmico; pp:
Pós-prandial; Rec: Recuperação. * p< 0,001 entre pp e Rec ...63
Figura 9. Resposta da oxidação de CHO na comparação entre o valor médio do período pós-prandial e a média dos últimos 30 min de recuperação para as sessões
CON, AIG e BIG. CHO: carboidrato. CON: Controle; AIG: Alto Índice Glicêmico; BIG:
Baixo Índice Glicêmico. pp: Pós-prandial; Rec: Recuperação. * p< 0,001 entre pp e
Rec ...64
Figura 10. Resposta da oxidação de Lip na comparação entre o valor médio do
período pós-prandial e a média dos últimos 30 min de recuperação para as sessões
CON, AIG e BIG. Lip: Lipídios. CON: Controle; AIG: Alto Índice Glicêmico; BIG: Baixo
LISTA DE ABREVIATURAS
AIG = Alto Índice Glicêmico; ATP = Adenosina Trifosfato; BIG = Baixo Índice Glicêmico; CHO = Carboidrato;
CON = Controle;
FC = Freqüência Cardíaca
Glic = Concentração de glicose sanguínea; IG = Índice Glicêmico;
Lac = Concentração de lactato sanguíneo; Lip = Lipídeos;
Met = Equivalente Metabólico; pp = pós-prandial;
Rec = Recuperação. Dependendo do momento ao qual se refere esta se encontra determinada como, Rec 5, Rec 15, Rec 30, Rec 45 ou Rec 60 que são
referentes aos minutos;
RER = Razão de trocas Respiratórias;
RESUMO
Dieta de baixo ou alto índice glicêmico não interfere no desempenho de corrida de 3.000 m
ABSTRACT
A low or high glycemic index diet does not interfere in the 3000m running performance.
In a general way, the studies on the effect of carbohydrate intake previously exercises cover protocols activities of long term duration and moderate intensity. In the literature, the studies (investigations) about the correlation between previous intake of CHO (carbohydrate) and high intensity exercises are rare. The purpose of this present study was to investigate the effect of high and low glycemic index mixed meals in relation to the glycemic and lactatemic outcomes towards to the performance of a 3000m run for not professional runners. The sample studied was 11 volunteers (male, age:31,4 ..3,6; body weight:...kg; %Fat...) that went through 3 tests in distinct days and in a random way.
1. INTRODUÇÃO
A estratégia nutricional adequada é uma ferramenta importante dentro da
prática desportiva, pois sua intervenção pode propiciar melhores resultados não
apenas os momentos anteriores ao exercício, como também durante a execução
do mesmo e nos momentos de recuperação da atividade (SAPATA, FAYH &
OLIVEIRA, 2006; BIESEK et al., 2005). A relação entre a alimentação e
performance no exercício está associada a processos metabólicos ligados à
melhora do desempenho, ao retardo da instalação de fadiga, à disponibilidade
da fonte energética predominante durante a atividade e à melhora na
recuperação entre os treinos (KIRWAN et al., 2001; STEVENSON et al., 2006).
Segundo o National Research Council Subcommitee (1998) e as
Recomendações de Ingestão Dietética (RID), o carboidrato (CHO) é um
macronutriente indispensável, devendo perfazer a maior parte de uma dieta
equilibrada.
O carboidrato (CHO) pode ser classificado de acordo com sua estrutura
química (ou grau de polimerização da molécula) ou de acordo com a resposta da
glicemia pós-prandial. O Índice Glicêmico (IG), proposto por David Jenkins et al.
(1981), é um parâmetro de classificação que agrupa os alimentos baseado em
sua resposta glicêmica pós-prandial, comparada a um alimento de referência
(WOLEVER, T.; JENKINKS, D. et al., 1986; M.SIU & WONG, 2004; LLONA,
2006).
O IG foi desenvolvido originalmente para auxiliar no controle do Diabetes
Mellitus e, atualmente, tem sido largamente empregado na nutrição esportiva. O
apropriadas na utilização do CHO associado ao exercício (M. SIU & WONG,
2004; STEVENSON et al., 2006).
Thomas et al. (1994) investigaram o efeito de refeições com diferentes IG
no campo da Nutrição Esportiva. Estes autores avaliaram o tempo para a
exaustão de 8 ciclistas que pedalaram, durante o maior tempo possível, a
65-70% do consumo máximo de oxigênio (VO2max). Os atletas se alimentaram 1 hora antes do exercício com refeições de diferentes IG. Os autores verificaram
que a refeição de baixo IG (lentilhas, IG=29) proporcionou tempo de exaustão 20
min maior quando comparada a de alto IG (batata, IG=98) (117± 11 vs 97± 11
min, p<0,05). Concluiu-se no estudo que a refeição de baixo índice glicêmico,
consumida antes de esforços vigorosos, retarda a exaustão.
Kirwan et al. (2001) verificaram que uma refeição rica em CHO, de
moderado IG (~61 MOD-GI), previamente ao exercício de intensidade moderada
(~60% VO2 pico) quando comparada às refeições de alto IG (~82 HI-GI), ou jejum (controle), proporcionou maior tempo para a exaustão (MOD-GI, 165±11;
HI-GI 141±8; Controle, 143±13 minutos). Os autores atribuíram os resultados ao
aumento nos estoques de glicogênio hepático e muscular, maior oxidação de
gordura e menores taxas insulinêmicas e glicêmicas no pós-prandial (M. SIU &
WONG, 2004; STEVENSON et al., 2005(a); ERITH et al., 2006).
Outros estudos relacionando ingestão prévia de CHO de diferentes IG e
performance física têm apresentado resultados conflitantes. Investigações têm
reportado diminuição, aumento ou inalteração no desempenho do exercício
mediante a administração prévia de CHO de diferentes IG (SPARKS, SELIG &
atribuída à diversidade de refeições utilizadas e ao protocolo de exercício
empregado.
A respeito da composição das refeições utilizadas, tem se observado
similaridade nas investigações. As respostas metabólicas de refeições contendo
apenas CHO de alto ou baixo IG são conhecidas. Entretanto, não é comum a
prática de consumir apenas um nutriente por refeição. Normalmente, as
refeições são mistas, ou seja, contêm os três macronutrientes (carboidrato,
proteínas e gorduras). Por esta razão, refeições mistas já têm sido utilizadas
para se investigar a utilização do IG no desempenho físico.
De forma geral, as investigações relacionando o IG e o desempenho
físico abrangem protocolos de exercícios de 30 a 120 min com intensidades
variando de 60 a ~70% VO2max (BURKE et al., 1998; FEBBRAIO et al., 2000; KIRWAN et al., 2001; M.SIU & WONG, 2004; WEE et al., 2005; STEVENSON et
al., 2005(a); STEVENSON et. al., 2005(b); STEVENSON et al., 2005(c);
STEVENSON et al., 2006). Contudo, quanto mais intenso for o exercício, maior
será a dependência em relação ao CHO como fonte energética. Em adição, as
investigações com protocolos de exercícios de alta intensidade e com consumo
de refeições mistas, contendo os 3 macronutrientes de diferentes IG, são
escassas na literatura (STEVENSON (a) et al, 2005; MONRO, 2003).
Além da interferência no desempenho físico, o uso de IG na determinação
do CHO a ser consumido previamente ao exercício parece influenciar o
substrato energético predominante durante o exercício. Alterando-se o tipo do
carboidrato consumido, altera-se a magnitude da resposta de hiperinsulinemia e
hiperglicemia pós-prandial e subseqüente depressão da oxidação de gordura,
FEBBRAIO, 1998; WU et al., 2003; STEVESON, WILLIAM & NUTE, 2005(a); M.
SIU & WONG, 2004; STEVESON et al., 2006).
Stevenson et al. (2005a) investigaram a administração de duas refeições
mistas com IG diferentes, (alto IG: 73; e baixo IG: 34) administradas antes de um
exercício aeróbio de 60 min a 70% do VO2 max, no substrato utilizado previamente e durante o exercício. A refeição de baixo IG proporcionou melhor oxidação de gordura durante o exercício e menor pico glicêmico e insulinêmico
pós-prandial. Ching-Ling Wu et al, (2003), também verificaram predomínio da
oxidação de gordura quando havia o consumo de baixo IG (IG=36.9) quando
comparado ao alto IG (IG=77.) durante o exercício de 60 min a 65% VO2 max. Corroborando com estes achados, Stevenson et al. (2006) também
encontraram melhor oxidação de gordura com refeição mista prévia de baixo IG,
quando comparada a uma de alto IG, durante o exercício de 60 min a 65% VO2 max. O mesmo resultado encontrado no estudo de Ching-Ling Wu et al. (2003).
Estes autores investigaram a influencia do consumo de refeições ricas em CHO
com diferentes IG no substrato utilizado durante um exercício. Nove voluntários
realizaram 3 testes em dias distintos, se alimentavam 3 horas antes de realizar
uma corrida durante 60 min á 65% VO2max, com refeições de diferentes IG (alto IG, HGI= 77,4; baixo IG, LGI= 36,9; Jejum, Fast= 0). A refeição de baixo IG, LGI,
resultou em maior taxa de oxidação de gordura durante o exercício.
Stevenson et al. (2005a) realizaram um estudo em que 9 voluntários
executaram 60 min de corrida em esteira rolante a 70% VO2 max. 3 horas antes da sessão de corrida os voluntários consumiam uma refeição mista de diferentes
oxidação de gordura no pós-prandial com o consumo de uma refeição mista rica
em CHO de baixo IG, quando comparada a uma de alto IG.
A relação dos exercícios aeróbios de alta intensidade e a utilização do IG
em refeições mistas como forma de determinar o planejamento dietético para o
exercício tem sido pouco investigada. Algumas evidências sugerem que a
intensidade do exercício pode interferir nas respostas metabólicas referentes à
aplicação do IG (STEVENSON et al, 2006; STEVENSON et al., 2005(b); ERITH
et al., 2006).
Diante das premissas expostas, o objetivo do presente trabalho foi o de
investigar a influência da administração de duas refeições mistas com diferentes
IG sobre o desempenho em corrida aeróbia intensa em corredores
recreacionais. Como hipótese alternativa admitiu-se que há diferença no
desempenho em exercício aeróbio de alta intensidade entre as três situações
estudadas uma vez que poderia haver diferença na disponibilidade de substrato
2. OBJETIVO
2.1. Geral
Investigar os efeitos de refeições mistas de alto (AIG) e baixo índice
glicêmico (BIG) nas respostas de glicemia e lactatemia no desempenho em
3.000 m de corrida para indivíduos corredores recreacionais.
2.2. Específicos
-Analisar os efeitos do jejum e de refeições mistas de AIG e BIG sobre o
desempenho em corrida de 3.000 m;
- Comparar os valores de glicemia e lactatemia entre as três situações
experimentais (CON, AIG, BIG) nos seguintes momentos:
i- no período pós-prandial;
ii- durante os 60 min de recuperação do teste de desempenho de corrida;
- Analisar as respostas de predomínio do substrato utilizado nos períodos
3. JUSTIFICATIVA E RELEVÂNCIA
A nutrição exerce papel importante tanto no decorrer do período de
treinamento, bem como no desempenho das competições. A inadequação do
planejamento nutricional pode favorecer a instalação da fadiga, influenciar
negativamente no desempenho dos treinos e competições além de comprometer
a recuperação entre as sessões.
O consumo do CHO durante o exercício submáximo (~70%VO2max) prolongado (> 90 min) tem sido indicado por manter o substrato energético para
o desempenho físico e por adiar a instalação da fadiga (BURKE et al., 1998;
KIRWAN et al., 1998). Entretanto, o efeito da suplementação de CHO
anteriormente ao exercício sobre sua performance ainda não está bem
esclarecido. Os estudos apresentam resultados indicando melhora, diminuição
ou nenhuma interferência no desempenho físico. (COCATE & MARINS, 2007).
Somado a isso, em sua maioria, os trabalhos têm utilizado protocolos de
exercício similares, com características de exercícios moderados (duração de 60
min ou mais, intensidade de 60 á 75%VO2max) (SPARKS, SELIG & FEBBRAIO,
1998; CHING-LIN WU et al., 2003; STEVENSON et al. 2006; STEVENSON et al.
2005a). Entretanto, as respostas metabólicas e ventilatórias se apresentam
diferentes dependendo da intensidade do exercício. Constata-se na literatura
atual a carência de orientações seguras a respeito do consumo de CHO antes
de exercícios intensos, especialmente em condições reais de exercício, ou seja,
fora das condições controladas do laboratório.
Com base nestas considerações, o presente trabalho investigou o uso do
IG de refeição mista no desempenho de corrida de alta intensidade, em pista de
pesquisa poderemos oferecer informações mais claras para a formulação de
estratégias nutricionais que aperfeiçoem o desempenho de atletas de corrida de
alta intensidade. Além disso, diante dos resultados, será possível direcionar qual
o substrato energético predominante em um período pós-prandial, de acordo
4. REFERENCIAL TEÓRICO
4.1. Carboidrato e exercício
A relação entre exercício físico e alimentação com o objetivo de melhorar
o desempenho, é alvo de discussão sob diversos parâmetros. O tipo de alimento
consumido, a quantidade de calorias da deita, a distribuição dos nutrientes e o
momento em que estes alimentos são consumidos em relação ao treino, podem
resultar em diferentes respostas no desempenho. (COCATE& MARINS, 2007;
CRAMP et.al., 2004).
De acordo com as RDA, recomendações de ingestão diária, e as
recomendações do National Research Council Subcommmitee (1998), em uma
dieta equilibrada, a maior fonte energética deve ser composta por CHO. A
recomendação para ingestão diária de CHO para indivíduos atletas é de 6 a 10
gramas/kg de peso corporal. Uma dieta contendo de 8 a 10 gramas/kg de peso
corporal é indicada para atletas que praticam exercícios intensos (acima de 70%
VO2max.), sendo que o momento em que este CHO é ingerido interfere diretamente no desempenho do exercício e na sua recuperação (BIESEK et al,
2005).
O consumo adequado de CHO favorece a formação do glicogênio
muscular e hepático, os quais podem afetar as respostas metabólicas e a
utilização de substrato energético durante o exercício (CHING-LIN WU et al,
2003). Estes estoques energéticos são limitados no corpo humano, sendo um
valor aproximado de 1 a 2 % do total de energia. Esta concentração varia de
acordo com o nível de treinamento e estado nutricional do indivíduo (DE SOUSA
Christensen e Hansen, em 1930, estabeleceram a relação entre fadiga e
hipoglicemia. Desde então, as investigações buscam formas de se manter a
normoglicemia durante o exercício e assim aperfeiçoar o desempenho (KIRWAN
et. al., 2001). Esta correta ingestão de CHO repercute em vários mecanismos
como, por exemplo, na ação simpatoadrenérgica que possui papel importante
nos exercícios prolongados; na insulinemia que se apresenta diminuída durante
os exercícios de longa duração, devido ao aumento das concentrações das
catecolaminas e na maior atividade do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal que
resulta em maior liberação de glicocorticóides, contribuindo para alta atividade
catabólica durantes os exercícios. Este quadro metabólico negativo pode ser
atenuado com a administração de CHO previamente e/ou durante o exercício
(De SOUSA et al., 2006).
A ingestão de CHO antes, durante e após a prática de exercícios físicos
tem sido largamente investigada, utilizando diferentes protocolos de exercícios
(BURKE et al., 1998; KIRWAN et al., 2001; M. SIU & WONG, 2004; DE SOUSA
et al., 2006; ERITH et al., 2006; STEVENSON et al., 2006). Está bem
estabelecido que o consumo de CHO durante o exercício pode adiar a fadiga e
melhorar desempenho quando comparado à sua execução em jejum. Com
relação à suplementação de CHO previamente e posteriormente ao exercício, os
dados são controversos (SPARKS, SELIG & FEBBRAIO, 1998; FEBBRAIO et
al., 2000).
Investigando as respostas metabólicas e de desempenho relacionadas à
ingestão de CHO em diferentes intervalos antes do exercício, Moseley,
Lancaster & Jeukendrup (2002) realizaram 3 testes. Oito indivíduos consumiam
(74% VO2max) seguido por um teste de aproximadamente 40 min à 80% Wmax , o qual era referente ao consumo de 685 kJ. Os resultados não indicaram diferença
significativa na performance entre as três condições, mensuradas pelo tempo ou
potência produzida. Não foi verificada diferença significativa nas concentrações
plasmáticas de glicose, lactato e insulina entre as três condições. Houve pico de
glicemia e insulinemia naqueles que consumiram glicose 15 min antes do
exercício. O principal achado deste estudo foi de que o desempenho não foi
afetado pelos diferentes momentos de ingestão do CHO e o início do exercício,
apesar de ocorrerem diferenças nas concentrações de glicemia e insulinemia
pré-exercício.
De Sousa e colaboradores (2006), investigaram os efeitos da
suplementação de CHO, utilizando dois tipos de bebidas (um composto de
malto, glicose e frutose; e um placebo) em um protocolo de exercício
intermitente de alta intensidade. Durante uma sessão de corrida, não
observaram diferenças significativas na insulina plasmática, no cortisol e nos
ácidos graxos livres. Contudo, houve aumento significativo na lactatemia. A
média de lactato sanguíneo foi significativamente mais alta com uso da bebida
de carboidratos (CHO 11,4 ± 4,9 mmol l-1) do que com o placebo (PLA 8,4 ± 5,1 mmol l-1). Essa alteração do lactato associada com supressão da lipólise são fatores que podem interferir no desempenho do exercício.
A respeito da quantidade de CHO a ser consumida previamente ao
exercício, Cramp et al. (2004) investigaram os efeitos da ingestão de refeição de
CHO 3 horas antes de um teste de 93 min de Mountain Bike. Uma refeição com
3 g CHO/kg de peso corporal e uma com 1 g CHO/kg de peso corporal foram
distintos. Os resultados indicaram melhora de 3% no desempenho (2.48 min)
em relação ao tempo, com ingestão de 3 g CHO/kg de peso corporal. Apesar
desta diferença não ter sido significativa, em uma competição de atletas de elite
pode determinar a vitória.
Kirwan, O’Gorman e Evans (1998) investigaram se alimentos ricos em
CHO com diferentes quantidades de fibras aperfeiçoariam a disponibilidade de
glicose e o desempenho para um subseqüente exercício de endurance. Seis
indivíduos realizaram 3 testes, em dias distintos, onde em cada teste foi
consumido alimento com 7g fibras (SRO), ou alimento com 3g de fibras (SOF)
ou consumo de 300ml de água (Con), 45 min antes do início do exercício (60%
VO2 pico até a exaustão). No momento da exaustão, a concentração de glicose, insulina, ácidos graxos livres, glicerol, epinefrina, noraepinefrina, taxa de troca
respiratória e conteúdo do glicogênio muscular realizado por biópsia não
apresentaram diferença entre os três testes. Houve melhora significativa do
desempenho com relação ao tempo de exaustão para SRO, quando comparado
ao controle (SRO 266,5± 13; Con 225,1± 8 min).
Com relação ao uso de CHO previamente ao exercício, Cocate & Marins
(2007) analisando três formas de café da manhã, investigaram a resposta da
glicose sanguínea ao longo de um exercício de baixa intensidade. Os avaliados
recebiam, em dias alternados, uma refeição sólida e líquida (CM1), ou uma
líquida (CM2), ou permaneciam em jejum (CM0), sempre antes de um exercício
Os autores verificaram aumento significativo da glicemia no posprandial
pré-exercício (30 min para CM1 e 20 min, para CM2). Este resultado foi atribuído
à divergência na quantidade de CHO e na consistência do estado físico entre as
refeições que afetam diretamente a velocidade de absorção e assim, modificam
as respostas glicêmicas e insulinêmicas. Porém, as três formas de
café-da-manhã não influenciaram nas respostas fisiológicas de freqüência cardíaca,
percepção subjetiva de esforço, pressão arterial e glicose sanguínea durante o
exercício.
Corroborando com o estudo supracitado, Sapata, Fayh e Oliveira (2006)
compararam o consumo de duas bebidas de CHO (malto e glicose) e um
placebo, 30 min antes de um exercício sub-máximo, intensidade do 2º limiar
ventilatório, até a exaustão ou até completar 60 min (intensidade correspondente
ao aumento simultâneo dos equivalentes ventilatórios de oxigênio (VE/VO2) e de CO2 (VE/VCO2) e da pressão expirada de CO2 (PETCO2). Os autores observaram alteração significativa na glicemia no período pré-exercício com o
consumo de malto (87,4±11,2 para 116,9± 19,6ml.dl-1), contudo, sem promover melhora no desempenho.
Para o período de pós-exercício, as intervenções nutricionais têm
buscado métodos para acelerar o processo de recuperação, e assim melhorar o
desempenho das próximas sessões de treino (STEVENSON et al., 2005(b);
WILLIAMS, 2007). A influência do CHO consumido nas primeiras 4 a 6 horas
após o exercício prolongado tem mostrado influência positiva na taxa de
ressíntese de glicogênio muscular (STEVENSON et al., 2005(b)). Segundo
após o término do exercício, sendo mais eficientes nas primeiras 5 a 6 horas de
recuperação.
Diante destas colocações, está bem estabelecido que o consumo de CHO
durante o exercício pode melhorar o desempenho, quando comparado ao jejum.
Entretanto, com relação ao período prévio e pós-exercício não há consenso. A
controvérsia na literatura é decorrente de fatores metodológicos, como: tempo
da ingestão da refeição estudada; a quantidade do CHO ingerido, o tipo de CHO
ingerido e as respostas glicêmicas e insulinêmicas desencadeadas por ele
(FEBBRAIO et al., 2000). Neste sentido, investigações têm proposto que não
apenas a quantidade, mas também o tipo de CHO consumido possa influenciar
nos benefícios com relação ao desempenho.
Uma proposta para se direcionar o planejamento dietético do CHO é sua
manipulação através do IG. Esta forma de estruturar o planejamento dietético
voltado ao exercício proporciona informações efetivas na manipulação do CHO
que podem influenciar as respostas ligadas ao exercício, (SIU & WONG, 2004;
BURKE et al. 1998; STEVENSON et al. (a)(b)(c) 2005; ERITH et al, 2006;
STEVENSON et al. 2006; FEBBRAIO et al. 2000; KIRWAN et al, 2001).
4.2. Índice Glicêmico
4.2.1. Conceito
O IG é um indicador da qualidade do CHO presente nos alimentos
(SARTORELLI & CARDOSO, 2006). Os alimentos e refeições possuem
diferentes combinações de nutrientes que são oxidados e absorvidos em
diferentes taxas. Isso promove diferentes respostas na glicemia e insulinemia. O
resposta glicêmica (FEBBRAIO, et al, 2000) e tem sido indicado como guia de
seleção de estratégias nutricionais na administração de CHO em nutrição
desportiva (FEBBRAIO, et al, 2000; M. SIU & WONG, 2004; STEVENSON(a),
WILLIAMS & NUTE, 2005).
Além desta indicação, estudos acerca do IG, como critério de seleção de
alimentos, apontam para melhoria de padrões fisiológicos em indivíduos
saudáveis, obesos, diabéticos e/ou hiperlipidêmicos, sendo então de
abrangência não apenas no tratamento das respectivas doenças, mas também
como de coadjuvante na sua prevenção (RIZKALLA et al., 2004;
WYLIE-ROSETT et al., 2004; CHLUP et al., 2004; SARTORELLI & CARDOSO, 2006).
Em 1973 foi publicado o primeiro trabalho a propor a substituição de
alimentos em relação ao seu efeito glicêmico para controlar a glicemia
pós-prandial (MONRO, 2003). O termo pós-pós-prandial refere-se as primeiras 2 horas
após uma refeição (CHLUP et al, 2004). Assim, alterações na glicose sanguínea
no período pós-prandial implicam em alterações na sua concentração, logo após
uma refeição, seguindo até 2 horas após sua ingestão (FOSTER-POWELL et al,
2002). Posteriormente, Jenkins e colaboradores (1981) desenvolveram o
conceito do IG (LLONA, 2006) que se refere:
“ao percentual de aumento da área abaixo da curva glicêmica
produzida por um alimento em relação à área correspondente
produzida pela ingestão da mesma quantidade de um alimento
referência”.
A pêra, por exemplo, é considerada de baixo índice glicêmico, em
relação à glicose ou a 50 gramas de pão francês, sendo estes, ponto de
O IG foi desenvolvido frente à verificação de que as respostas da glicose
sanguínea referentes à ingestão de CHO, não eram decorrentes simplesmente
da quantidade consumida, mas relacionada com interpretação complexa entre
fatores ligados a absorção, digestão, combinação de alimentos, presença de
fibras, técnicas de processamento, dentre outras variáveis (KIRWAN et al., 2001;
LLONA, 2006).
De acordo com os valores apresentados em relação ao alimento de
referência, o alimento pode ser classificado em três categorias: Alto Índice
Glicêmico (AIG) ≥ 70, Moderado Índice Glicêmico (MIG) entre 56 e 69, e Baixo
Índice Glicêmico (BIG) ≤ a 55 (FOSTER-POWELL et al., 2002; LLONA, 2006)
Entretanto, as tabelas não apresentam classificação uniforme, o que ocasiona
divergências nas classificações dos alimentos dependendo da literatura
utilizada. A Tabela 1 apresenta a classificação do IG de alguns alimentos ricos
em carboidratos, de acordo com diferentes referências.
Tabela 1. Exemplos do Índice Glicêmico de alimentos ricos em Carboidratos. Alimentos de
Alto IG IG Alimentos de Moderado IG IG Alimentos de Baixo IG IG Batata Inglesa Cozida **
Arroz Branco **
Pão Branco **
Cornflaks † 135 83 100 116 Spaghetti **
Muesli Flake Cereal ††
Aveia (one minute) ††
Suco de laranja ††
66 68 66 57 Lentilha ** Iogurte †
All Bran Cereal ††
Frutose ††
43
51
42
23
** IG de acordo com Wolever e Jenkins (1986): † IG de acordo com Arvidsson-Lenner et al. (2004):†† IG de acordo com Burke, Collier e Hargreaves (1993).
A quantidade em gramas de CHO presente nos alimentos com alto IG
produz alto pico na concentração da glicemia pós-prandial, enquanto que com
de baixo IG, a área de aumento é ainda menor (CHLUP et al., 2004; BIESEK et
al., 2005).
Após a determinação do IG, surgiu o conceito de Carga Glicêmica (CG)
definido pelo produto do IG pela quantidade de carboidrato (GL= g carboidrato x
GI/100). A CG é uma medida de avaliação da quantidade e qualidade de
carboidratos e é o resultado do efeito glicêmico como um todo, considerando a
resposta da glicemia frente ao consumo de uma porção usual de um alimento
(ARVIDSSON-LENNER et al., 2003; SARTORELLI & CARDOSO, 2006; LLONA,
2006). Por exemplo, o Spaghetti tem IG mais baixo do que a batata. Entretanto,
uma porção de Spaghetti normalmente é maior do que uma de batata. Assim, a
CG pode, ou não, diferir entre estas duas fontes de CHO, dependendo da sua
porção (ARVIDSSON-LENNER et al., 2003).
4.2.2. Tabelas de IG
A primeira tabela com alimentos e seus respectivos IG, foi publicada por
Jenkins et al. (1981). O objetivo foi criar uma forma de tornar o uso do IG mais
difundido na população. Em 1997, um importante comitê, formado pela “Food
and Agriculture Organization” (FAO) e “World Health Organization” (WHO),
revisaram os dados de pesquisas envolvendo o IG e endossaram a sua
utilização como ferramenta importante para a promoção da saúde e para o
tratamento de doenças como obesidade, diabetes e coronariopatias
(FOSTER-POWELL et al., 2002; CHLUP et al., 2004). Após a publicação da primeira
edição da tabela internacional de IG, diversas pesquisas foram realizadas no
sentido de promover a manipulação do CHO por meio do IG, um conceito
nutricional mais importante do que apenas a análise de classificação química do
Atualmente o IG tomou proporções mundiais fazendo surgir diversas
formas de utilização das tabelas de alimentos. Na Austrália, existe uma espécie
de selo no rótulo dos alimentos, informando o IG do produto. Em outros países,
livros de dietas populares apresentam listas extensivas de alimentos com
calorias e seus respectivos IG (FOSTER-POWELL et al., 2002).
Em razão da diversidade de publicações, cientificas ou não, das
metodologias utilizadas e das diferentes características dos alimentos, a
manipulação das tabelas pode apresentar diferenças de valores para um mesmo
alimento (BIESEK et al., 2005). Para contornar essas limitações de comparação,
na publicação da Tabela Internacional de IG e Carga Glicêmica
(FOSTER-POWER et al, 2002), foram incluídos além dos valores de IG, dados da
metodologia empregada, da população pesquisada, do alimento usado como
referência, dentre outros aspectos.
4.2.3. Determinação do IG
O IG é uma forma de se mensurar a capacidade de aumento da
concentração de B-glicose na corrente sanguínea, após consumo de um
alimento. Sua definição envolve a relação de área abaixo da curva incremental
de resposta da B-glicose, de uma refeição testada contendo 50 gramas de CHO
disponível, sobre a área da curva incremental de resposta da B-glicose de um
alimento padrão, por exemplo, 50 gramas de glicose pura (WOLEVER et al.,
1986; CHLUP et al., 2004; LLONA, 2006).
A figura abaixo exemplifica uma equação matemática usada na
determinação do percentual do IG no estudo de Chlup et al. (2004). Neste
dados de base, após isto, determinaram a área abaixo da curva para cada
voluntário com cada alimento separadamente e calcularam a média dos
resultados. Apresentaram também, um histograma dos valores e demonstraram
a freqüência e a escala dos resultados.
IG= AACI X 100 [%]
⅓ (AACIR1+ AACIR2 + AACIR3)
- IG – Índice Glicêmico;
- AACIA – área abaixo da curva incremental de resposta da glicose do
alimento testado;
- AACIR - área abaixo da curva incremental de resposta da glicose do
alimento de referência. Esta é obtida a partir da média de 3 valores
independentes (AACIR1, AACIR2, AACIR3).
De acordo com os dados de Chlup e colaboradores (2004), não houve
diferença significativa na determinação do IG dos alimentos em testes realizados
pela manhã ou no período da tarde, bem como entre homens e mulheres.
As críticas com relação à determinação e ao uso do IG estão presentes
em algumas publicações (CHLUP et al., 2004; WYLIE-ROSETT,
SEGAL-ISAACSON & SEGAL-SEGAL-ISAACSON, 2004; LLona, 2006;). Alguns alimentos
possuem grande variação de valores entre as tabelas, alguns alimentos
regionais não possuem o IG determinado. Entretanto, a maior crítica ao emprego
do IG está na falta de padronização dos métodos que o definem.
4.2.4. IG do alimento e IG de refeições
Existem evidências de que o IG de um alimento difere quando este é
que contenha os três macronutrientes (carboidrato, proteína e gordura) (LLONA,
2006). A presença de lipídeos na refeição retarda o esvaziamento gástrico e a
deposição dos nutrientes na corrente sanguínea, desta forma, há redução no
pico hiperglicêmico pós-prandial. Uma refeição rica em proteínas. Possui ação
direta na hipersecreção de insulina, desta forma, o pico de glicemia é menor no
momento pós-ingestão, o que varia de acordo com a fonte protéica (SATORELLI
& CARDOSO, 2006).
Em seu artigo, redefinindo o IG para a gerência de dietas na glicemia
pós-prandial, Monro (2003) aponta várias limitações ao uso do IG, tais como: a
classificação do alimento não sendo em razão de seu potencial glicêmico; a
relação à quantidade de CHO presente nos alimentos, que não leva em
consideração as alterações na classificação de seu IG; na determinação da área
abaixo da curva. Chlup e colaboradores (2004) relataram ainda que existem
variabilidades inter e intraindividuais na determinação dos valores do IG. Para
muitos alimentos da União Européia, por exemplo, o IG ainda não foi definido,
além disso, os autores também enfatizam que os métodos de definição do IG
não são padronizados.
Entretanto, Wolever e Jenkins (1986), desenvolveram uma metodologia
com intuito de ampliar o uso do IG para refeições mistas. Os autores discutiram
que muitos erros ocorreram por falta de padronização metodológica no emprego
do IG.
Recentemente, Stevenson, Willian e Bisco (2005), Stevenson, Willian e
Nute (2005), Erith e colaboradores (2006) empregaram a metodologia de
Wolever e Jenkins (1986). De acordo com os resultados observou-se diferença
IG de refeições mistas oferecendo suporte para o cálculo do IG de nestas
refeições.
4.3. Índice Glicêmico e Exercício
O conhecimento da nutrição é uma ferramenta importante dentro da
prática desportiva, pois, quando bem orientada, pode reduzir ou, adiar a
instalação da fadiga, permitindo que o atleta tenha melhor desempenho durante
os treinos e/ou no período de recuperação (SAPATA, FAYH & OLIVEIRA, 2006).
Considerando melhora no desempenho ou oxidação de gordura que seja
favorável ao controle ponderal, não é incomum encontrar atletas e/ou
desportistas que possuam dúvidas com relação ao tempo de ingestão e a
composição ideal das refeições pré-competitivas. Alguns sugerem refeições
leves a fim de evitar um possível desconforto gastrointestinal, enquanto que
outros preferem refeições condizentes com o desgaste energético da prova
(CRAMP et al., 2004).
A importância de se conhecer melhor como administrar as refeições
associadas ao exercício se justifica pela real interferência que esta pode exercer
no desempenho da atividade física. Ainda que o IG tenha sido originalmente
desenvolvido para ajudar no controle do efeito glicêmico da dieta em portadores
de Diabetes Mellitus, seu conceito tem sido utilizado mais amplamente
(FEBRBRAIO et al., 2000). O IG tem sido largamente empregado pela nutrição
desportiva com intuito de auxiliar os atletas na seleção apropriada de CHO a
serem consumidos antes, durante e após os exercícios ( STEVENSON et al.,
4.3.1 Índice Glicêmico e Desempenho Físico
A habilidade de sustentar a capacidade aeróbia em exercícios
prolongados é determinada, em grande parte, pela disponibilidade de
combustível (KIRWAN et al., 1998). O glicogênio, formado a partir dos CHO, é
uma das formas de reserva de energia. O glicogênio muscular fornece energia
para a própria célula muscular, já o glicogênio hepático, por intermédio da
enzima glicose-6-fosfatase, é o único que pode ser degradado em glicose para
ser lançado glicose na circulação (GOMES, GUERRA e TIRAPEGUE, 2005).
No exercício físico, os estoques de glicogênio são mobilizados,
principalmente se a intensidade do exercício for alta. Estímulos hormonais como
a secreção de glucagon, adrenalina e hormônio do crescimento (GH) ocorrem
para favorecer o fornecimento de energia a partir do glicogênio. Este processo é
conhecido como glicogenólise, ou seja, hidrólise do glicogênio à
glicose-1-fosfato e, posteriormente, à conversão em glicose-6-glicose-1-fosfato, reação esta
catalisada pela enzima glicofosfomutase (BIESEK et al., 2005).
No músculo em exercício, a glicose-6-fosfato inicia a via glicolítica para
fornecer energia sob a forma de ATP (adenosinatrifosfato). De acordo com a
demanda exigida pelo exercício, o estoque de glicogênio muscular vai sendo
depletado e ocorre a captação da glicose circulante proveniente do glicogênio
hepático. A captação de glicose sanguínea será acentuada à medida que a
reserva de glicogênio muscular diminua em função da demanda metabólica
induzida pelo exercício (GOMES, GUERRA e TIRAPEGUE, 2005).
Considerando que o glicogênio muscular é um dos responsáveis pelo
mais intenso for o exercício, maior será a necessidade de carboidrato (SAPATA,
FAYH & OLIVEIRA, 2006).
O consumo de CHO antes do exercício pode ser importante para a
manutenção das concentrações de glicemia, via liberação hepática durante o
esforço prolongado. Entretanto, a elevação da concentração de insulina
plasmática que ocorre seguida à ingestão do CHO pode ser desvantajosa caso
ocorra supressão da oxidação de gorduras com conseqüente aumento da
oxidação de CHO. Este quadro pode diminuir a concentração de glicemia no
exercício prolongado e, consequentemente, interferir no desempenho físico
(BURKE et al., 1998).
Este desequilíbrio metabólico pode ser atenuado pela escolha do IG do
CHO a ser consumido, que resultaria em menores alterações nas respostas
glicêmicas e insulinêmicas ( BURKE et al., 1998; M. SIU & WONG, 2004;
STEVENSON, WILLIAMS & NUTE, 2005). Thomas, Brotherhood e Miller (1994)
foram um dos primeiros a investigar a aplicação do IG na nutrição desportiva.
Seu objetivo era de adiar a instalação da fadiga em exercícios de endurance
prolongados. Eles observaram que o consumo de uma refeição de baixo IG 1
hora antes do exercício (pedalar a 65-70% do VO2 max), retardou em 20 minutos o tempo de exaustão quando comparado a de alto IG (117± 11 vs 97 ± 11 min,
p< 0,05). Este estudo deu suporte à hipótese de que o consumo prévio de
refeições de baixo IG prolonga a duração de exercícios de endurance.
Estudando a aplicação do IG no desempenho, Kirwan et al. (2001)
investigaram se a ingestão pré-exercício de refeições com moderado e alto IG
afetaria a variabilidade da glicemia durante o exercício e o seu desempenho.
café da manhã de moderado IG (~61; MOD-IG), ou alto IG (~82; HI-IG), ou
apenas água, sendo este último considerado controle. Todas as refeições foram
consumidas 45 min antes do exercício, que consistia em pedalar em um
cicloergômetro a 60% VO2pico até a exaustão. Neste estudo, o tempo de
exercício foi significativamente maior com a refeição de MOD-IG quando
comparada com o controle, contudo, não houve diferença entre o HI-IG e o
controle (MOD-IG, 165±11; HI-IG 141±8; Controle 134±13 min). A cinética da
glicemia se mostrou favorável na manutenção da normoglicemia com a refeição
de MOD-IG. Os autores concluíram que administrar refeições de moderado IG,
45 min antes do exercício proporciona melhora no desempenho físico.
Entretanto, Febbraio e colaboradores (2000) não verificaram resultados
positivos no desempenho durante o exercício com a manipulação do IG. Oito
homens treinados realizaram 120 min em um cicloergômetro à 70% VO2 pico, seguidos de uma performance de 30 min. Foram realizados 3 testes de forma
aleatória. Cada voluntário consumia, aleatoriamente, uma refeição de alto IG
(HGI), baixo IG (LGI), ou placebo (suco, Con) 30 min antes do exercício, em dias
distintos. Ocorreram variações significativas (p<0,01 e p<0,05, respectivamente)
nas concentrações de glicemia e insulinemia no período posprandial entre os
testes com consumo de HGI, comparados com LGI e Con. Houve maior
disponibilidade de utilização de CHO com a refeição de HGI. Entretanto, não foi
observada nenhuma diferença na performance de 30min para as 3 refeições.
Estes resultados corroboram com o estudo de Sparks, Selig e Febbraio
(1998), onde também foram administradas refeições com alto IG (HGI), baixo IG
(LGI) e placebo (CON), 45 min antes de um teste de 50 min em cicloergômetro à
autores, da mesma forma que no estudo citado anteriormente, verificaram
alterações nas respostas metabólicas (concentração plasmática de glicose,
insulina e ácidos graxos livres, RER – razão de trocas respiratória, e oxidação
de CHO), todavia, sem repercussão no desempenho.
Não apenas as refeições pré-exercício foram investigadas. Burke e
colaboradores (1998) analisaram o efeito do IG no pré-exercício no metabolismo
e no desempenho quando o CHO foi administrado durante o exercício. Seis
indivíduos treinados pedalaram em um cicloergômetro por 2 horas à 70% do VO2 max. Após este teste os voluntários realizaram uma performance de consumo de
300kJ. As refeições foram consumidas 2 horas antes do exercício e consistia
em uma de alto IG (HGI), outra de baixo IG (LGI) e uma geléia considerada
como controle (Con Trial). Imediatamente antes e durante o exercício, os
voluntários ingeriram uma solução que totalizava 24ml/kg peso corporal de
glicose. Apesar das diferenças pré-exercício na glicemia, insulinemia e
concentração de ácidos graxos livres, não houve diferença no tempo para
completar os 300kJ entre os 3 testes. Como conclusão, os autores
determinaram que, quando quantidades suficientes de CHO são consumidas
durante o exercício, as refeições com diferentes IG no pré-exercício
desencadeiam pequenas alterações no metabolismo, porém não afetam o
desempenho do exercício.
Uma outra linha de investigação a respeito do efeito do IG no
desempenho está no uso deste para indicar qual o melhor CHO a ser consumido
para aperfeiçoar a recuperação dos treinos. A indicação de que o consumo de
refeições de alto IG após o exercício melhora a recuperação é baseada nas
transporte de glicose e atividade da glicogênio-sintase estimulado pelo exercício
que favorece a ressíntese do glicogênio depletado. Quando nenhum CHO é
consumido durante o período de recuperação de exercício prolongado, muito
pouco glicogênio muscular é ressintetizado (STEVENSON, WILLIAM & BISCOE,
2005; DE SOUSA et al.,2006).
Em 1990, um estudo de Kiens e colaboradores compararam os níveis de
recuperação do glicogênio muscular por 44h após um exercício aeróbio. Os
indivíduos consumiram uma dieta com alto IG, ou baixo IG, em dias diferentes,
após o exercício. Como resultado, foi evidenciado melhor restabelecimento do
glicogênio muscular com a dieta de alto IG nas primeiras 6h de pós-exercício.
Entretanto, nas 20, 33 e 44h de recuperação, não houve diferença significativa
na recuperação do glicogênio, nos níveis de insulina e na glicose plasmática
entre as duas dietas (M.SIU & WONG, 2004).
Burke et al. (1993) reportaram que a ingestão de refeições com alto IG em
um período de recuperação de 24h, melhorou significativamente a ressíntese de
glicogênio quando comparada com refeições de baixo IG. Entretanto, os autores
reportaram na discussão que havia uma diferença significativa entre as refeições
quanto ao teor de fibras, onde a refeição com alto IG apresentava menor
quantidade. Isso poderia influenciar na absorção do CHO entre as duas
refeições e interferir diretamente na ressíntese do glicogênio.
Ainda a respeito da relação entre IG e melhora da recuperação em
exercícios prolongados, Stevenson e colaboradores (2005(c)) investigaram os
efeitos do IG no consumo de CHO no pós-exercício. Nove voluntários
participaram de 2 testes, cada teste com 2 dias de experimento. Em cada dia de
baixo IG (LGI= 35). No primeiro dia, os indivíduos correram por 90 min a 70%
VO2 max, posteriormente receberam, até o dia seguinte, refeições de alto ou baixo IG, aleatoriamente em dias distintos. No segundo dia, os voluntários
correram na mesma intensidade até a exaustão. O consumo de baixo IG
retardou o tempo para exaustão, quando comparado com alto IG (LGI, 108,9 ±
7,4 min e HGI, 96,9 ± 4,8 min, p< 0,05). Os resultados sugeriram que o aumento
da capacidade de endurance foi conseqüência do aumento da oxidação de
gordura, decorrente da dieta de baixo IG.
Entretanto, estes resultados não são consenso na literatura. Erith e
colaboradores (2006) acompanharam 7 indivíduos por 22h realizando duas
sessões de exercício intermitentes. Duas sessões experimentais foram
planejadas, cada uma com 2 dias de coletas. Após a realização do protocolo de
exercícios, os indivíduos recebiam 5 refeições, sendo todas de alto ou baixo IG,
em dias distintos. Como resultado, não houve diferença no tempo de corrida, e
nem no número de sprints, em ambos os testes. A concentração plasmática de
glicose, a resposta insulínica, os ácidos graxos e o glicerol plasmático não
diferiram entres as duas refeições estudadas. O estudo demonstrou que a
ingestão de refeições de alto IG consumidas por 22h de recuperação de um
protocolo de exercício intermitente intenso, não afetou a performance de sprint
ou capacidade de endurance quando comparada às refeições de baixo IG
(ERITH et al., 2006).
Corroborando com este resultado, Stevenson, Willians e Biscoe (2005)
não verificaram diferença na recuperação após realização de exercícios
concluíram que a variação do IG da refeição pós-exercício não é importante, se
quantidades suficientes de CHO forem consumidas.
Em resumo, estes resultados demonstram que as questões que envolvem
a relação do IG e o desempenho, ainda não estão completamente esclarecidas.
Especialmente as associadas a intensidade do exercício realizado, haja vista
que quando se compara protocolos de exercícios com intensidades diferentes,
os resultados divergem.
4.3. A Interferência do Índice Glicêmico no Substrato Oxidado
Tem sido evidenciado na literatura que a manutenção da normoglicemia,
juntamente com a prorrogação do início da maior oxidação de CHO, pode adiar
a instalação da fadiga. Isso implica em considerar que o consumo do CHO antes
ou durante o exercício, seja a chave para se aperfeiçoar o desempenho
(KIRWAN, O’GORMAN & EVANS, 1998). Recentemente, a manipulação do
CHO com baixo IG, previamente ao exercício tem sido proposto como estratégia
efetiva na perda de peso (WYLIE-ROSETT, ISAACSON &
SEGAL-ISAACSON, 2004; STEVENSON et al., 2006).
A ingestão de CHO antes do exercício de endurance tem sido relatada
como benéfica por aumentar os estoques de glicogênio muscular e hepático
para a atividade. Entretanto, a resposta metabólica no período posprandial,
decorrentes do tipo de CHO consumido, pode elevar a concentração de insulina
plasmática e assim suprimir a oxidação de gordura e aumentar a de CHO
durante o exercício. Como conseqüência, há declínio na concentração de
glicose plasmática durante a sessão de exercício (MARANGON & WELKER,
Esta situação metabólica pode ser atenuada dependendo da origem do IG
do CHO a ser consumido (STEVENSON et al., 2005(a)). Há um consenso de
que o consumo de CHO de baixo IG anteriormente aos exercícios prolongados
promove melhor disponibilidade de energia para sua prática, pois, aumenta a
taxa de oxidação de gordura durante o exercício, quando comparado ao
consumo prévio de CHO de alto IG ( KIRWAN et al.,2001; M.SIU & WONG,
2004; STEVENSON et al., 2005a; STEVENSON et al., 2006).
Investigando a indicação para o pré-exercício com refeições mistas,
Stevenson, Williams e Nute (2005(a)), submeteram 9 homens ativos a 2
refeições previamente ao teste na esteira ergométrica (60 min á 70% VO2max),
com intuito de investigar como diferentes IG de duas refeições mistas poderiam
interferir como substrato energético para a execução do exercício. Cada
participante completou dois testes sendo que, em cada um destes, o voluntário
recebia um café da manhã, realizava um pós-prandial de 3 horas, consumia um
almoço seguido de mais 3 horas de pós-prandial e então iniciava o teste físico. A
única diferença entre os dois dias de teste foi o IG das refeições. Os resultados
indicaram que as refeições consideradas de baixo IG proporcionaram melhor
controle glicêmico nos dois períodos de pós-prandial quando comparadas ao
dia com refeições de alto IG. O baixo IG também foi mais eficiente para manter
as concentrações de glicemia durante o exercício, além de promover menor
resposta insulinêmica e favorecer a saciedade.
Este estudo apresenta como ponto relevante a manipulação de duas
refeições mistas, reproduzindo as situações usuais dos atletas, onde ficou
evidenciada maior oxidação de gordura após o uso da refeição de baixo IG, o
justificativa para este fato está na magnitude da hiperglicemia e hiperinsulinemia
pós-prandial das refeições de alto IG, que promovem maior oxidação de CHO
em relação à gordura e, desta maneira, modifica a participação deste
combustível no exercício. As dietas com baixo IG por sua vez, minimizam os
picos glicêmicos e insulinêmicos favorecendo a oxidação de gordura.
Buscando verificar se estas respostas metabólicas seriam as mesmas em
mulheres, Stevenson et al. (2007) analisaram a influência de refeições mistas
com diferentes IG (baixo IG 44 e alto IG 78), sobre o substrato energético em um
exercício subseqüente. Oito mulheres corredoras regulares (hábeis a correr por
1 h a ≈65% VO2max) foram submetidas a dois dias de testes escolhidos de forma aleatória. Após jejum noturno, as voluntárias recebiam, no laboratório café
da manhã de baixo (~ 44 IG) ou alto (~78 IG) IG e, imediatamente após um
pós-prandial de 3 horas, corriam na esteira, durante 60 minutos a 65% VO2max. Os resultados indicaram maior pico na concentração de glicose
plasmática e insulina sérica, nos 15 min de posprandial para o consumo da
refeição de alto IG, contudo, estes valores retornaram ao basal ao final do
período pós-prandial. A resposta na concentração de glicerol plasmático e ácido
graxo livre foi similar durante o experimento. Houve maior concentração
plasmática destes durante o exercício com o consumo prévio da refeição com
baixo IG. As taxas de oxidação de gordura no período de exercício foram
significativamente maiores após a refeição de baixo IG, quando comparadas
com as de alto IG, resultado este oposto à taxa de oxidação de CHO, que
permaneceu maior após a refeição de alto IG quando comparada com a de
O principal achado da pesquisa foi que o consumo prévio de refeição
mista com diferentes IG pode alterar, significativamente, em mulheres, o
substrato energético utilizado durante um exercício subseqüente. Dentro das
condições do estudo, os resultados corroboram com os achados anteriores,
indicando que tanto homens quanto mulheres respondem da mesma forma ao
IG do CHO ingerido no pré-exercício.
Ching-Lin-Wu e colaboradores (2003) investigaram a influência de
refeições ricas em CHO com diferentes índices glicêmicos sobre o substrato
utilizado em um exercício subseqüente. Nove corredores recreacionais
completaram 3 testes; alto IG (HGI), baixo IG (LGI) e jejum (FAST). Em cada
teste, os voluntários consumiam a refeição teste 3 horas antes de uma corrida
de 60 min na esteira a 65%VO2max. Os resultados indicaram que houve hiperglicemia e hiperinsulinemia durante o período pós-prandial, após as duas
refeições, HGI e LGI, quando comparadas com o jejum. A área abaixo da curva
da glicose plasmática foi significativamente maior para o HGI quando comparada
com o LGI. Entretanto, a concentração de ácidos graxos não esterificados ficou
mais baixa após HGI, comparada com LGI e o Jejum. A oxidação de gordura
apresentou diferença significativa, com maiores taxas durante o exercício após
refeição LGI do que após HGI (HGI 10,5± 2,7; LGI 19,3± 3,2 g/h).
É válido ressaltar que, mesmo quando não foi possível determinar a
interferência do IG nas refeições com relação ao desempenho, as respostas
metabólicas foram detectadas. Nos estudos de Sparks, Selig e Febbraio (1998)
e Febbraio et al. (2000), assim como nos estudos apresentados acima, houve
Diante das colocações expostas é possível verificar que as investigações
têm sido realizadas com diferentes períodos pós-prandial, de 30 min a 6 horas.
Entretanto, com relação ao protocolo de exercício, se observa tendência por
utilizar exercícios moderados de média a longa duração. É escassa na literatura
a investigação de como o IG da refeição prévia a um exercício aeróbio intenso
pode interferir no seu desempenho e /ou se há modificação na oxidação dos
substratos no período pós exercício. Diante disso, um dos objetivos do presente
trabalho foram o de buscar informações a respeito da predominância de
5. METODOLOGIA
5.1. Amostra
A amostra foi constituída por 11 voluntários, do sexo masculino,
fisicamente ativos, corredores recreativos selecionados a partir dos critérios
de inclusão detalhados no item 5.2. Os participantes do estudo foram
recrutados a partir de divulgação do projeto de pesquisa junto à uma
empresa de consultoria em treinamento (Ápice Treinamento Multidesportivo),
nas dependências da Universidade Católica de Brasília – UCB Campus I e
por convite direto.
Todos os participantes foram informados acerca da metodologia da
pesquisa, sobre os riscos e benefícios de sua participação no estudo e
assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE; Anexo 1) e a
um histórico de saúde (Anamnese; Anexo 2).
5.2 Aspectos Éticos e Critérios de Inclusão
Os procedimentos metodológicos adotados no presente estudo
envolvendo a aplicação dos testes em seres humanos foram analisados e
aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) (parecer Nº. CEP/UCB
157/2008) da Universidade Católica de Brasília – UCB (Anexo 3).
Previamente ao início dos testes, o termo de consentimento livre e
esclarecido (TCLE; Anexo 1) foi apresentado a cada voluntário. Neste
documento haviam informações detalhadas de todos os procedimentos
referentes à pesquisa tais como: qual a aplicação prática dos dados coletados;
quais dados seriam divulgados e o local onde estes dados seriam publicados.
benefícios da pesquisa mediante a aplicação dos testes e que os dados
coletados foram utilizados para fins acadêmicos, sendo mantido sigilo total
quanto à identificação dos participantes que, de acordo com o exposto
assinaram o TCLE.
Os critérios de inclusão são descritos a seguir. O não atendimento a
qualquer um dos itens determinava a não participação do indivíduo ao estudo:
- Possuir tempo de prática de corrida de no mínimo 2 anos;
- Não estar fazendo uso ou tratamento com nenhum tipo de medicamento;
- Não ser tabagista;
- Ter entre 25 e 40 anos de idade;
- Apresentar algum tipo de alergia e/ou intolerância aos componentes da
refeição-teste (maiores detalhes dos componentes da refeição-teste item 5.6.2);
- Ter disponibilidade de tempo no período da manhã para a realização
dos testes.
5.3 Delineamento
Todos os procedimentos foram realizados no Campus I da Universidade
Católica de Brasília (UCB). O mesmo possui infra-estrutura apropriada para a
realização da referida pesquisa dispondo de pista de corrida com metragem de
400 metros, laboratórios para coleta e análise das amostras. Na eminência de
um atendimento de emergência em virtude dos testes realizados, a UCB
disponibilizou um médico de plantão, presente no Laboratório de Avaliação
Física e Treinamento (LAFIT) nos dias e horários em que os testes foram
socorro de emergência, como aparelho de eletrocardiograma (ECG) e carro de
parada Cardiorrespiratória (PCR).
A Figura 1 apresenta o delineamento do estudo descrevendo a seqüência
de eventos desde a abordagem ao voluntário até a execução das sessões
experimentais.
1ª Visita TCLE Anamnese Antropometria
Teste Corrida 48h AIG 48h BIG 48h CON Sessões Experimentais
1º Contato
Aleatorizadas Convite
Figura 1. Delineamento do estudo. TCLE: termo de consentimento livre e esclarecido; AIG: Alto Índice Glicêmico; BIG: Baixo Índice Glicêmico; CON: Controle.
O presente trabalho de pesquisa apresentou como forma de delineamento
o modelo experimental, tendo como variável independente as diferentes
refeições e, como variáveis dependentes; glicemia, lactatemia e análise gasosa.
5.3.1 Procedimentos
Os voluntários realizaram 4 visitas ao Campus da UCB, sendo que na
primeira, o voluntário comparecia ao laboratório LAFIT para esclarecimento
detalhado do propósito e dos procedimentos da pesquisa, além da realização
das avaliações preliminares. As demais visitas foram realizadas diretamente na
pista de atletismo do campus 1 da UCB.
As sessões experimentais ocorriam sempre pela manhã, com início
aproximadamente às 8h e término próximo às 11h. Todas as 4 visitas foram
programadas para ocorrer dentro de no máximo 15 dias, com intervalo mínimo
de 48 horas entre as sessões, sendo estes previamente marcados com os