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Ciênc. saúde coletiva vol.7 número2

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Academic year: 2018

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Os desafios da atenção nutricional diante de sua complexidade no Brasil

The challen ges of nutrition al care in the face its com plexity in Brazil

Sueli Rosina Tonial1

Considero profícuas as reflexões propostas pela autora. Assumo, entretanto, que li o artigo vá-rias vezes e tive dificuldade de iniciar o debate, pois, na minha opinião, foram elencados temas relevantes que, devido à importância e à com-plexidade, mereceriam, cada um, por si só, ar-tigo específico para ser discutido.

Adotando-se desde já a premissa da comple-xificação da situação nutricional no Brasil, as questões nutricionais, especialm ente as trata-das neste artigo, desnutrição e obesidade, assu-m eassu-m cada vez assu-m ais a n ecessidade de sereassu-m analisadas sob o enfoque da complementarida-de das abordagens complementarida-de estudo para dar conta complementarida-de uma realidade que é ao mesmo tempo social e biológica.

Diante da necessidade da objetivação optei, então, por debater sobre a transição nutricional do Brasil. Concordo com a autora que o quadro brasileiro aponta muito m ais para a com -plexificação do que para uma trajetória de oti-m ização. Resgato alguoti-m as idéias já apresenta-das, parcialmente, em trabalho recente em que discuto a questão em epígrafe (Tonial, 2001).

A expressão transição nutricional foi

prova-velmente utilizada, em primeira mão, por Mon-teiro et al. (1995) com o referência à realidade

brasileira, numa análise em que demonstraram a coexistência na população infantil, em 1974, de índices de 19,8% de desnutridos e 4,6% de obesos, percentuais que em 1989 eram respec-tivam ente 7,6% e 4,6%. Na população adulta, em 1974, identificaram 8,6% de desnutridos e 5,7% de obesos e em 1989, 4,2% de desnutri-dos e 9,6% de obesos.

Neste trabalho os autores concluíram que “o Brasil vem rapidamente substituindo o proble-ma da escassez pelo excesso dietético” e desta-caram que o aumento da obesidade entre adul-tos n o Brasil é m aior para os grupos de baixa renda. Apontaram tam bém que seriam neces-sárias informações detalhadas sobre as tendên-cias no consumo alimentar e na atividade física para investigar os fatores responsáveis pela as-censão da obesidade (Monteiro et al., 1995).

Schichieri et al. (1997), ao analisarem as

va-riações tem porais do estado nutricion al e de consumo alimentar no Brasil, apontaram o qua-dro nacional como um mosaico devido à

hete-rogeneidade estrutural da sociedade brasileira, discordando da idéia de transição epidemioló-gica que pressupõe um a evolução dos indica-dores para um nível mais elevado de saúde. De-monstraram ainda as tênues associações entre renda e prevalência da obesidade, quando ana-lisadas a partir de seu desenvolvimento crono-lógico, mais geral, em que a obesidade inicial-m ente predoinicial-m ina entre os inicial-m ais ricos e evolui temporalmente entre os mais pobres.

Monteiro (2000), analisando os estudos na-cionais de 1974-1975 e de 1989, afirm ou que, no período estudado, a obesidade ascendeu em todas as classes de ren da, m as o aum en to foi maior entre os indivíduos que pertenciam a fa-m ílias de fa-m en or ren da per capita. Apon tou,

também, diminuição da desnutrição em todos os níveis de renda familiar estudados, com um virtual desaparecim ento da desnutrição entre adultos de renda mais alta.

Apesar da redução da desnutrição no país, estudos con tinuam apon tan do prevalên cias consideráveis de subnutrição, especialmente nas regiões mais pobres, como menciona o texto em debate, nas pesquisas realizadas no Rio Grande do Norte em crianças menores de cinco anos e em recrutas e soldados da cidade de Natal.

Na capital do Estado do Maranhão, um a pesquisa sobre a saúde perinatal (1997-1998) identificou que cerca de 16% das mulheres apre-sentavam índice de massa corporal (IMC) me-n or que 18,5 (o dobro da prevalême-n cia me-n acio-nal). Este critério de classificação foi o mesmo utilizado para a avaliação nacional de 1989 que apontou uma prevalência de 8,2% de mulheres com subpeso (Tonial, 2001; Monteiro, 2000).

Bacallao e Peña (2000) declararam que, ape-sar da redução global da prevalência da desnu-trição energético-protéica nas últimas duas dé-cadas na América Latina e no Caribe, em 1995, cerca de 11% de crian ças m en ores de cin co an os en con travam -se em déficit de peso para sua idade e que essa é um a das m anifestações mais visíveis da pobreza.

Os autores ressaltam que as transformações sociais, econôm icas e dem ográficas ocorridas globalmente, durante as duas últimas décadas, coin cidiram com alterações n o perfil epide-m iológico nos padrões aliepide-m entares e de ativi-dades físicas, conferindo heterogêneos padrões nutricionais em diferentes situações e que,

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pecialmente, entre adultos, tanto em países de-senvolvidos com o em algum as regiões de paí-ses em desenvolvimento, enfraquecem as asso-ciações de desnutrição e enfermidades transmis-síveis com a pobreza; e da obesidade e enfermi-dades crônicas com bem-estar econômico.

Apontaram ainda que os padrões variáveis de comportamento e desenvolvimento socioe-conômicos e culturais podem estar conduzindo a um padrão de associação inversa, de acordo com o ritmo e o modelo de transição epidemio-lógica-nutricional característico de cada país. Entretanto, destacaram as dificuldades de serem estabelecidas associações do estado nutricional: (a) as condições socioeconômicas, pois elas po-dem variar de um país para o outro ou mesmo entre regiões, além das lim itações dos estudos n a sua caracterização; (b) a heterogen eidade dos indicadores e pontos de corte nas classifica-ções para identificar o estado nutricional; (c) ou advertem que as associações podem ser dissimu-ladas por fatores culturais, ecológicos ou sociais. Sobre o aumento da obesidade, estudos in-dicam que os determ in an tes do problem a do excesso de peso no caso brasileiro podem não depender somente das modificações no modelo de alim entação; eles podem decorrer, tam -bém, de alterações ontogenéticas (relacionadas à associação entre a desnutrição intra-uterina e obesidade na fase adulta) ou de problemas co-mo a redução da atividade física entre os indi-víduos (Schichieri et al., 1997; Sawaya, 1995).

Den tre os determ in an tes do padrão ali-mentar que se caracteriza pelo aumento de car-boidratos originários de farináceos e açúcares refinados, evidencia-se uma dieta caracterizada por calorias vazias, isto é, de alim en tos n ão acompanhados por nutrientes importantes (mi-n erais, vitam i(mi-n as e proteí(mi-n as) ou que os pos-suem em baixas quan tidades. Este con sum o alim entar associa-se m uito m ais ao custo dos alim en tos do que ao con hecim en to do valor nutricional, e desmistifica, como bem apontou a Escoda, a suposição de que o povo não se ali-menta corretamente por ignorância aliali-mentar. Essa assertiva foi confirmada, também, por ou-tros estudiosos (Minayo, 1986; Aguirre, 2000).

Dados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF, 1987-1988), em comparação com os da-dos do Endef, registraram importante redução do consumo de feijão e aumento da participa-ção calórica de óleo vegetal na dieta dos brasi-leiros (Schichieri et al., 1997).

O estudo qualitativo sobre con sum o ali-m entar entre as ali-m ulheres obesas eali-m São Luís

demonstrou alto consumo de óleo vegetal. Uma dieta composta basicamente de ovo frito, fari-nha e açúcar, destacando, entre outros alimen-tos, o baixo consumo de feijão. Estes dados po-dem colaborar para ampliar a explicação do au-mento da obesidade, tendo em vista que as gor-duras fornecem cerca do dobro de Kcal em re-lação a consumo igual de carboidratos ou pro-teínas. Eles tam bém reforçam a teoria de que, dian te da escassez, os in divíduos selecion am alim entos de m enor custo e que lhe conferem maior saciedade. Praticam, assim, uma lógica de economia doméstica e biológica (Tonial, 2001).

Neste pan oram a de convivên cia com pa-drões de obesidade e desnutrição, cabe acrescen-tar o peso das representações culturais do corpo e dos alimentos. As representações assumem di-ferenças que se exprimem em diferentes códi-gos de linguagem corporal de acordo com a cul-tura somática de cada grupo histórico e social. Elas podem se relacionar, dependendo do tem-po e lugar, à força funcional do cortem-po para o tra-balho e a alimentos fortes ou à construção so-cial de um modelo de beleza e agilidade, tendo como tipo ideal um corpo excessivamente ma-gro, também funcional, e a alimentos saudáveis (Boltanski, 1899; Fischler 1995; Tonial, 2001).

Com estas considerações, creio ter reforça-do, n o percurso de m in has argum en tações, o entendimento da determinação histórica da po-breza na condição m ais geral de m á nutrição, assim com o fez a autora no texto em debate e tantos outros cientistas sociais da nutrição já o fizeram.

Entretanto, contemporaneamente, cresce o número de indivíduos (especialmente mulheres jovens pertencentes a famílias de faixas de ren-da intermediárias e mais altas) em busca de um padrão de corpo, coercitivo, de magreza exces-siva. Esse comportamento pode configurar pa-tologias nutricionais de anorexia, bulimia e su-balimentação que se refletem em padrão antro-pom étrico deficitário, dificilm ente percebido ou recon hecido com o doen ça pelo in divíduo que convive com a patologia (Tonial, 2001).

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padrão clínico patológico e como tal devem ser consideradas e tratadas.

Assim como as outras patologias chamadas modernas ou do atraso, como bem pontuou Es-coda, e aqui estou me referindo apenas àquelas relacionadas à nutrição, embora possam ter di-ferentes etiologias, devem contar com um tema de saúde qualitativo e resolutivo. Um sis-tema que, no âmbito da clínica individual e co-letiva, ten ha profission ais capazes de realizar diagnósticos tão precisos quanto possíveis e de com preender, ainda, as diferentes possibilida-des etiológicas. Além disso, os profissionais de-vem ser com prom etidos com a resolução dos problemas a partir da prática clínica cotidiana, com o tam bém com a form ulação e gestão de políticas para o setor.

Finalmente, retomo outro ponto do debate de Escoda – a discussão sobre que pon tos de corte utilizar para a classificação nutricional e a interpretação do diagnóstico da desnutrição energético-protéica que acomete especialmente crianças, em condições socioeconôm icas e de saúde precárias, com conseqüências mais gra-ves, como a morte, de acordo com a idade e in-tensidade em que ocorre.

O tema é sem dúvida importante, contudo, bastante complexo. Haja vista as publicações da OMS (1995) e Waterlow (1996) que oferecem uma extensa revisão crítica dos conhecimentos mais recentes sobre o assunto. Sistematizam re-sultado de estudos, exam in am prin cípios da bioestatística aplicada e sustentam os diversos usos desses indicadores e índices. Explicam, so-bretudo, a questão da sensibilidade do método para identificar aqueles que mais necessitam de ações con cretas e eficazes an tes que a m or te chegue primeiro. Certamente, o critério de gra-vidade não deveria significar a exclusão para a atenção nutricional, mas dar mais para aqueles que mais precisam.

Creio que a questão que se coloca, então, é sobre a própria desorgan ização das ações de atenção nutricional no sistema formal de saúde. O que fazem, por exemplo, os profissionais da rede form al de saúde ao iden tificarem um a criança com desnutrição grave? Quem vive nas regiões que caracterizam a pobreza do país con-vive com a triste realidade de ter, não raramen-te, notícias de óbitos por desnutrição que nem chegam a ser notificados.

Embora o maior problema seja social, certa-m en te avan çaríacerta-m os certa-m uito certa-m ais do que já se avançou em termos de melhorias nos indicado-res nutricionais, mortalidade infantil e

expec-tativa de vida, se contássemos com modelo as-sistencial de saúde adequado, gestão adm inis-trativa e profissionais tecnicamente resolutivos. Quanto ao sistema de vigilância, creio que ele só existe, pelo próprio sentido da palavra, se for capaz de observar atentamente, tomar conta de. Não penso que o sistema praticado no Bra-sil, que apenas notifica (de forma precária), pos-sa ser verdadeiramente considerado um Sistema de Vigilância Nutricional. A vigilância pressu-põe uma política específica dentro do setor saú-de, e isto é muito m ais do que distribuir leite. Embora ainda se tenha muito por fazer em to-das as áreas, outros setores da saúde pública bra-sileira estão demonstrando que é possível con-tribuir para a aplicabilidade dos ideais transfor-mistas que fundamentam os princípios do SUS.

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1 Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saú d e, Escola Nacion al d e Saú d e Pú blica, Fu n d ação Oswaldo Cruz. son ia@m an guin hos.en sp.fiocruz.br

em razão do afastamento do tema central. Pa-receu-nos essencial que se pusesse em foco, na introdução do tema, a exploração dos elos exis-tentes entre as grandes transformações ocorri-das nas últimas décaocorri-das – modificações da eco-nomia, urbanização acelerada, a queda da mor-talidade e fecundidade e o envelhecim ento da população – com o delineamento de um novo quadro, em que coexistem, de forma estreita, a deficiência e o excesso de energia, respectiva-m ente, a desnutrição e a obesidade. Diante da não-concretização da idéia de transição nutri-cional, o que vem chamando a atenção no caso brasileiro é exatam en te a pesquisa das razões da situação paradoxal observada a partir de es-tudos epidem iológicos, a saber, a convivência de adultos obesos e crian ças desnutridas n o mesmo domicílio (Doak et al., 2000). Tal

cons-tatação leva-n os a pen sar n a possibilidade de essas duas condições serem expressões de me-can ism os causais sim ilares, associados a um a dieta rica em gordura, proteína animal e pobre em fibra, bem como a um padrão sedentário de atividade física durante o trabalho e o lazer. Tu-do isso envolto em um contexto socioeconômi-co marcado pela pobreza e por grande carga de doenças infecciosas. O aprofundamento de tais questões poderia demarcar, ao menos em par-te, a com preensão da com plexidade da ordem sanitária, assunto que a autora apresenta como contundente para o desenvolvimento das atuais políticas públicas.

O segundo tópico – a discussão do valor do ponto de corte de indicadores antropométricos para seleção de grupos alvos para program as nutricionais – tem o mérito de deslocar as con-siderações restritas às questões estritam en te científicas para o âmbito do ético-social e da po-lítica. A constatação de declínio da prevalência de desnutrição crônica de 32%, em 1974, para 10,2%, em 1996, representando uma queda de 1,02% ao ano (Onis et al., 2000), é hoje o

argu-mento-chave para ampliar o intervalo da nor-m alidade (passar do percen til 10 para o per-centil 3), norteado pela lógica de dirigir as in-ter ven ções para aqueles que podem obin-ter os m aiores ben efícios. A título de con tribuição gostaríam os de in troduzir dois autores para subsidiar a discussão aberta por Escoda: Geof-frey Rose (1992) e David Pelletier (1994).

As idéias de Rose, que pensamos enriquecer o debate proposto, giram em torno de quatro pontos centrais: 1) os pontos de corte que dife-renciam doentes e não-doentes são arbitrários; 2) não existe um limiar de exposição abaixo do

Trocando idéias....

Talkin g about....

Sonia Azevedo Bittencourt1

Silvana Granado N . Gam a1

O artigo “Para a crítica da transição nutricio-nal”, de Escoda, ao retom ar o debate sobre as-sunto tão relevante, enfatiza a im portância de considerar a transição nutricional na agenda de formulações estratégicas que contribuam para o bem-estar da população.

Na primeira leitura do texto evidencia-se a compreensão da autora de que é preciso adotar um a visão tran sdisciplin ar, se o in tuito é au-mentar as chances de entender as dimensões e con seqüên cias de um processo de fascin an te complexidade. Talvez, o maior desafio de Esco-da ten ha sido o de obter um a visão am pla do problema como expressão das diferentes disci-plinas e de suas contribuições específicas.

Tendo como eixo o retrato da realidade bra-sileira, o artigo apresenta os resultados de vá-rios estudos epidemiológicos desenvolvidos no país duran te as últim as três décadas. A par tir daí, a m aneira pela qual é estruturado e enca-deado dá a impressão de que a autora traz para o debate duas gran des preocupações, porém en con tra dificuldades em alin havar assun tos tão cheios de nuances.

A preocupação mais evidente é reafirmar a importância da manutenção da desnutrição na agen da de políticas públicas. Aqui se percebe um novo rumo no texto, pois são apresentadas discussões acerca da classificação, m agnitude, distribuição e evolução da desnutrição, deixan-do de ladeixan-do a preocupação inicial, a de apresen-tar as in form ações n ecessárias à descrição da transição nutricional brasileira.

Vários pon tos podem ser suscitados pelo artigo, o que revela a sua riqueza em termos de revisão do assunto e a sua relevância. Para esti-mular o debate e aprofundar as discussões, va-mos apresentar três tópicos.

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qual o risco de adoecer é nulo; 3) a maioria dos casos de muitas doenças tem origem entre pes-soas de baixo risco; e 4) estratégias restritas a grupos de alto risco podem ter impacto reduzi-do ao nível populacional. Essas idéias apóiam a opção de estratégias voltadas para a população como um todo e não apenas a indivíduos consi-derados de alto risco (Chor & Faerstein, 2000). No caso da desnutrição, a título de exemplo das concepções de Rose, pensamos no trabalho de Pelletier (Pelletier, 1994), o qual, através de modelos matemáticos, estimou que a desnutri-ção estava associada a cerca da metade de todos os óbitos ocorridos em crianças de países sub-desenvolvidos. E concluiu que não é suficiente dirigir os programas de intervenção exclusiva-m en te aos desnutridos graves; para se obter maior impacto na mortalidade, dever-se-ia in-cluir tam bém , por suas altas prevalên cias, os desnutridos leves e moderados.

Talvez a grande desigualdade observada na prevalência de desnutrição nas diferentes loca-lidades do país já justificasse a adoção de dife-rentes modelos de intervenção. Mas as contri-buições de Rose e Pelletier reforçam que ignorar a potencialização da desnutrição – independen-tem ente de sua gravidade – nas doenças m ais com un s n a in fân cia, correspon deria a n egli-genciar uma estratégia política mais ampla pa-ra, em última instância, quebrar o ciclo que le-va a desnutrição a aumentar a taxa de mortali-dade na infância.

No último tópico, quanto à disponibilidade das informações do estado nutricional da popu-lação brasileira, as reflexões de Escoda dão con-ta da en orm e con-tarefa para iden tificar correcon-ta- correta-mente tais problemas em toda a sua complexi-dade. Entretanto, à m edida que os gestores se tornam interessados em traçar novas estratégias para antecipar as tendências da transição nu-tricional, há de se esperar o aumento da neces-sidade de utilizar instrumentos de racionaliza-ção na definiracionaliza-ção de prioridades no planejamen-to das ações de saúde. Nesse sentido, há um es-paço aber to para o Sistem a de Vigilân cia Ali-mentar e Nutricional (Sisvan) colaborar na in-dicação da melhor alocação de recursos. Ainda hoje, as possibilidades de ampliação da atuação do Sisvan n o setor saúde têm -se con fron tado com dificuldades marcantes: pouco representa-tiva dos serviços de saúde, cobre apenas os ser-viços públicos de saúde, restringe-se à popula-ção de gestantes e crianças, além de não incor-porar, como uma de suas funções, o desenvol-vimento de estudos observacionais e o diálogo

com outros setores, que inclua, pelo menos, os Min istérios da Agricultura e da Educação e a sociedade civil organizada.

Referências bibliográficas

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Rose G 1992.The strategy of preventive medicine. Oxford

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Situação nutricional e transição epidemiológica

Nutrition al situation an d epidem iological tran sition

Eduardo Mota1

Na avaliação dos principais aspectos evolutivos da situação nutricional brasileira em décadas recentes, Escoda (2002) apresenta para o debate os questionamentos que aprofundam a reflexão sobre as características da transição nutricio-nal. A abordagem dos conceitos e métodos e do significado do quadro epidemiológico, no con-texto dos determinantes sociais e do impacto da fom e en dêm ica, resulta em elem en tos essen -ciais para as políticas, program as, ser viços e ações de atenção à saúde para o enfrentamento da situação.

Dos aspectos m etodológicos considerados é necessário, porém , situar m ais precisam ente o foco principal das questões m ais relevantes. Reconhece-se a sensibilidade e a fidedignidade do método antropométrico para realizar estima-tivas de contagem de desnutridos em base po-pulacional, considerando-se o déficit nas

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ções peso, altura e idade como indicador bioló-gico da desnutrição. A adoção do restrito pon-to de corte, no percentil 3 do padrão de classi-ficação, se constitui em objeto central de ques-tionam ento dos m étodos aplicados ao estudo do estado nutricional. Neste ponto, mais espe-cificam en te, tem procedên cia a crítica da op-ção de detectar os estados graves de desnutri-ção, opção esta que se faz em detrimento de um maior grau de sensibilidade do indicador, entre tan tos estudos e até recen tem en te situado n o percentil 10 e, neste caso, importante para reve-lar também a ocorrência de formas leves e mo-deradas de desnutrição. O reconhecimento da magnitude da cronicidade e das expressões clí-nicas anteriores às de m aior gravidade, com o se assin ala com propriedade, é o que m ais se aproxima da avaliação da real situação da des-nutrição como parte do quadro de fome endê-m ica, eendê-m bora n ão revele por si só toda a sua extensão e complexidade.

Sobre isto, acrescentaria às considerações ex-postas ao debate, que não se aplica o conceito de falso-positivo utilizado como argumento para a adoção do restrito critério diagnóstico. Por um lado, porque não são “falsos” os indivíduos clas-sificados como positivos ao exame antropomé-trico quan do se revela algum grau de déficit nutricional e, por outro lado, porque se deno-m inadeno-m falsos-positivos aos que foradeno-m incluí-dos em um grupo definido pelo próprio critério de classificação. Em outras palavras, sabe-se que a opção por aumentar a especificidade do pro-cesso diagnóstico significa inevitavelmente di-minuir a sua sensibilidade. Na verdade, a razão seria outra e ainda mais grave, considerando-se que a intenção de avaliar a situação nutricional pelo restrito critério recentemente adotado re-vela que a modificação do critério diagnóstico dirige-se à dem onstração do sucesso de inter-venções pela m agnitude da redução da preva-lência de desnutrição grave e não pela reversão do quadro de fom e endêm ica. Em vista disso, pelo menos dois aspectos se destacam das ques-tões do método, no âmbito do conhecimento da situação epidem iológica da desnutrição e das políticas, programas e serviços de saúde volta-dos para sua reversão: as intervenções que pri-vilegiam a vigilância nutricional como parte da atenção integral à saúde devem ser dirigidas à prom oção e proteção da saúde, aí incluídas as ações que assegurem estado nutricion al ade-quado ao crescimento e desenvolvimento; a vi-gilância à saúde inclui a prevenção de riscos e agravos em todas as suas expressões, um a vez

detectáveis com o instrumental disponível e, os estados precoces de m an ifestações biológicas que comprometem o indivíduo constituem prio-ridade ain da m aior sob a perspectiva da pro-m oção da saúde. Nesse sentido, acrescenta-se que aspectos da má nutrição e de carências nu-tricion ais são igualm en te im por tan tes para o conhecimento da situação nutricional quando se pretende promover saúde no contexto das in-tervenções, ações e serviços.

Por tan to, o question am en to dos procedi-mentos metodológicos e suas implicações para o conhecimento da situação nutricional não se situam no âmbito das contradições entre a epi-demiologia, a clínica e o social. São as razões de uma dada abordagem metodológica que enviesa sua aplicação e os seus resultados. As aplicações do conceito e método de risco epidemiológico à vigilân cia nutricion al in dicam a opção por maior sensibilidade dos critérios diagnósticos, refinam ento da identificação e caracterização de grupos populacionais expostos e ações efeti-vas sobre todo o espectro de situações de risco que reduzam a m orbi-m or talidade associada aos estados carenciais. Adicionalmente, o con-ceito de risco epidem iológico oferece suporte aos estudos da determ inação social das situa-ções de exposição e agravo e contribui para o seu entendimento em relação aos processos so-ciais. A adoção de critérios diagn ósticos que servem a propósitos outros que não aqueles que contribuem para o estabelecimento de ações di-rigidas a melhoria das condições de vida e saú-de da população não se inclui entre os dilemas conceituais e metodológicos da epidemiologia.

A descrição da com plexidade do quadro epidemiológico nutricional é feita com precisão e clareza quando se situa nas condições gerais de saúde da população brasileira, no contexto da organização dos ser viços e do m odelo de atenção à saúde, e quando se articula isto aos elementos explicativos de sua determinação so-cial em décadas recentes. A ampliação do enten-dimento dos resultados dos inquéritos nutricio-nais, analisados à luz das desigualdades nas con-dições de saúde e da sua determinação social, e as expressões do traçado evolutivo dessas desigual-dades e de seu aprofundamento, caracterizado como transição nutricional, tornam-se no deba-te o foco da crítica metodológica e conceitual.

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tos caracterizam a transição nutricional, coe-rente, portanto, com o entendimento corrente sobre a transição epidem iológica no Brasil. A maior complexidade do quadro de riscos, agra-vos e doenças que caracteriza a situação epide-m iológica inclui tanto a diversidade e epide-m agni-tude das deficiências nutricionais, má nutrição, agravos associados e mudanças nos padrões de con sum o alim en tar, quan to as desigualdades sociais na distribuição desses graves problemas de saúde coletiva. Tomado como um processo, como indicam Possas & Marques (1994), o es-tado de transição da situação de saúde deve ser caracterizado pelos padrões evolutivos da mor-bidade, da m or talidade e da din âm ica dem o-gráfica e, por outra parte, Prata (2000) indica o entendimento da transição epidemiológica em sua dimensão ambiental. Na perspectiva do es-tudo das desigualdades sociais em saúde, a des-crição e o entendimento dos padrões de distri-buição espacial da desnutrição e de sua evolu-ção tem poral en tre grupos populacion ais se constituem em desafios para a produção de co-nhecimentos em saúde coletiva. A insuficiência de in form ações que revelem de m an eira perm an en te a situação nutricion al requer a aperm -pliação das avaliações e estudos, um a vez que não há um sistema efetivo de vigilância nutri-cional, com o se enfatiza. Mais especialm ente, com referência à transição nutricional, os ele-m en tos do quadro explicativo ar ticulados n o processo de determinação social das condições de saúde e aquelas dim ensões aplicadas ao es-tudo da transição da situação de saúde, demons-trados no artigo de Escoda (2002), apontam os cam inhos para as abordagens integradoras da análise de situação de saúde e de seus padrões evolutivos. Devem ser especialmente avaliadas as implicações do que se revela nesse debate pa-ra a reorganização de serviços e papa-ra a im ple-mentação de mudanças no modelo de atenção à saúde.

Referências bibliográficas

Escoda MSQ 2002. Para a crítica da transição nutricional. Ciência & Saúde Coletiva (7)2.

Possas CA, Marques MB 1994. Health tran sition s an d complex systems. A challenge to prediction? Ann. N. Y. Acad. Sci. 740:285-296.

Prata PR 2000.Epidemiological transition and the

geogra-phy of mortality in Brazil: a study into the vulnerabili-ty of human populations and the macro-environment. Tese de doutorado apresentada em Norwik, Inglater-ra, 375pp.

A autora responde

The author reply

Maria do Socorro Quirino Escoda

Agradeço aos editores por oportunizar a minha tentativa de contribuição na discussão de uma questão tão relevante para a sociedade brasilei-ra. Devo, em atenção aos mesmos, aos meus de-batedores e aos leitores desta revista, esclarecer que a origem deste artigo foi um resumo apre-sentado ao V Congreso Latinoamericano de Nu-trición da SLAN, em Buen os Aires, 2000, e a evento regional do mesmo ano em Cuba. Incli-n ei-m e, por taIncli-n to, a escrever sobre o que tem afligido minha tênue paciência acadêmica: ace-nos de que a transição nutricional em curso es-boçaria significativa m elhora da situação nu-tricional da população brasileira. Esta afirmati-va é freqüente nas análises, nas fontes de infor-m ação einfor-m saúde e no discurso de beinfor-m -inten-cion ados m em bros da sociedade civil. No re-forço deste argumento exemplificam que o pro-blem a nutricional que se apresenta na atuali-dade é a obesiatuali-dade. Como se esta, em todas as suas expressões, aliada ao rebaixamento da gra-vidade da desnutrição que persiste em suas for-m as leves e in terfor-m ediárias, n ão for-m en suradas, fosse resultado da otimização do consumo ali-mentar. A concepção dominante, me parece, es-taria aproximada por diferentes zooms de uma

mesma realidade.

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Os debatedores aprofun daram elem en tos da discussão que eu telegraficamente mencio-nei, na minha excessiva paixão pela síntese e re-con hecida dificuldade n a n arrativa escrita. A eles, m in has palavras, m eus pen sam en tos e meus melhores gestos de reconhecimento pela real contribuição ao tema e ao meu aprendiza-do. Não tenho o que lhes retorquir ou refutar, no sentido literal da réplica. Faço, portanto, al-gumas considerações sobre o que me ocorre de m ais contundente dentre as questões por eles pontuadas.

Destaco de Eduardo Mota as consistentes e respeitosas considerações que tece:

• Na procedente observação que faz acerca do que m e refiro sobre as contradições e dilem as entre a epidemiologia, a clínica e o social. Bem dito e, para o enquadramento do meu discurso, entendo que os dilemas são entre si – as contra-dições que ocorrem são na práxis do campo da clín ica e do social n a utilização dos procedi-mentos epidemiológicos – e não da ciência em si. Confessamente, os contextualizei mal. Enten-di, ademais, que este autor sugere e assim con-cordo que os vieses que perpassam as opções por determinados procedimentos metodológi-cos podem dar guarida a interesses de racionali-dade de recursos e leituras diferen ciadas de uma dada realidade.

• O entendimento mútuo de que o reconhe-cimento da magnitude da cronicidade é o traço mais forte da situação nutricional brasileira co-mo parte do quadro de fome endêmica, e que a cronicidade, por si, não expressa toda a exten-são e a complexidade desse quadro. A comple-xidade con siste n a estrutura das relações dos meios de produção e determina organização so-cial cuja condução no nível macro, através das políticas públicas e estas, na concepção de suas finalidades sociais e transversalidades na inter-venção, não altera os determinantes sociais es-pecíficos da questão alimentar e nutricional.

De Sonia e Silvana, e Sueli:

• Além da reconhecida dificuldade de me fa-zer en ten der, a elegân cia com que avaliam as possibilidades que tem o texto, sen ão para o aprofundamento, para a revisão do tema. • Esclareço que não esbocei tentativa de dis-cutir os determ inantes e sim os processos e as características da transição nutricional. Neste sentido, considero que as autoras o enriquece-ram ao procederem à m eticulosa com pilação de estudos e dados que considero complemen-tares ao esclarecim ento da transição m as que, no meu modesto entendimento, conferem

pe-sos iguais para multifatores que não são funda-mentais na determinação social e explicação do problema. Por exemplo, não me parece um pa-radoxo a convivên cia da obesidade de ordem alim en tar por déficit, com a desnutrição. Ao con trário, são faces da m esm a m oeda, com o tento explicitar no texto. A teoria da determina-ção social da doença é a ferramenta mais apro-xim ada na explicação da realidade sanitária e nutricional. As expressões mórbidas ontogené-ticas da obesidade n ão são de etiologia social n em têm a m agn itude para o setor saúde em termos da elevada prevalência que as duas for-mas de obesidade alimentar. E estas têm distin-tas etiologias: a dos ricos e a dos pobres, n os pontos extremos da escala de consumo.

Quanto às idéias citadas de Rose e Pelletier, sem tecer maiores comentários, friso que con-cordo com as duas prim eiras n a defin ição de elegibilidade e prioridade da atenção nutricio-nal. As dem ais reforçam em sentido contrário os procedim entos que questiono na prioriza-ção dessa atenprioriza-ção.

• Merece registro especial o que as autoras avaliam sobre a incipiente vigilância alimentar e nutricional, sua amplitude e complementari-dade a ser im plem entada no contexto da vigi-lância à saúde. Entendo que, a rigor, não existe SISVAN no Brasil. Ocorrem sistem as localiza-dos de informação de dalocaliza-dos antropométricos, não sistematizados, consolidados e padroniza-dos, posto que: a caracterização da vigilância é a sua condição de quantificação e de alarme na predição das tendências, de ação através da hie-rarquização do tratamento e intervenção em to-das as formas e estágios to-das doenças nutricio-nais de maior prevalência.

Referências

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