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Centro de Estudos Portugueses

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Academic year: 2021

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Belo Horizonte Faculdade de Letras da UFMG

v. 36 n. 55 jan./jun. 2016

R e v i s t a

Centro de Estudos Portugueses

do

ISSN 1676-515X (Impressa) ISSN 2359-0076 (eletrônica)

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CONSELHO EDITORIAL DA REVISTA CONSELHO ADMINISTRATIVO Vice-Reitora: Sandra Regina Goulart Almeida

FACULDADE DE LETRAS Diretora: Graciela Inés Ravetti de Gómez

Vice-Diretor: Rui Rothe-Neves CENTRO DE ESTUDOS PORTUGUESES Coordenadora: Silvana Maria Pessôa de Oliveira

ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA

Centro de Estudos Portugueses FACULDADEDE LETRASDA UFMG Av. Antônio Carlos, 6627 - Sala 3049 - Pampulha 31270-901 - Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil

Fone: (31) 3409-5134 Fax: (31) 3409-5120 e-mail: [email protected]

Marcus Vinícius de Freitas (UFMG) Maria Zilda Ferreira Cury (UFMG)

Mercedes Brea (Univ. de Santiago de Compostela) Paola Poma (USP)

Raquel de Souza Madanelo (UNIFESP) Rogério Barbosa da Silva (CEFET-MG) Silvana Maria Pessoa de Oliveira (UFMG) Viviane Cunha (UFMG)

Wagner José Moreira (CEFET-MG) Ângela Beatriz de Carvalho Faria (UFRJ)

Ângela Vaz Leão (UFMG/PUCMinas) Annie Gisele Fernandes (USP) Annick Moreau (Universidade de Poitiers) Barbara Spaggiari (Universidade de Perugia) Bernardo Nascimento de Amorim (UFOP) Cid Ottoni Bylaard (UFC) Edgard Pereira (UFMG) Ida Maria Santos Ferreira Alves (UFF) Lélia Maria P. Duarte (PUC-Minas)

Mônica Valéria Vitorino Rogério Barbosa da Silva Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa Viviane Cunha

Wagner José Moreira Ana Lúcia Esteves dos Santos

Bernardo Nascimento de Amorim Luiz Fernando Ferreira Sá Marcus Vinícius de Freitas Maria Cecília Bruzzi Boechat Matheus Trevizam

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R e v i s t a

do

Centro de Estudos Portugueses

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Organização deste número: Silvana Maria Pessôa de Oliveira Arturo Diaz

Formatação: Alda Lopes Capa: Pedro Freitas

REVISTA DO CENTRO DE ESTUDOS PORTUGUESES. - v. 1, n. 1, (jun. 1979). - Belo Horizonte : Faculdade de Letras da UFMG, 1979

-il. ; 22 cm. Resumo bilíngue. Semestral.

Continuação do Boletim do Centro de Estudos Portugueses, a partir do v. 21, n. 28/29, (jan.-dez. 2001).

ISSN 1676-515X (impressa) e-ISSN 2359-0076 (online)

1. Literatura portuguesa. 2. Literatura brasileira. 3. Literatura africana (Português). 4. Língua portuguesa. 5. Lingüística.

CDD : 869

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NOTA DE APRESENTAÇÃO ... 7 DOSSIÊ "LIVRO DO DESASSOSSEGO"

Os muitos desassossegos

The several unquietnesses

Jerónimo Pizarro ... 11 O rizoma pós-moderno e a escrita heteronímica

no Livro do Desassossego

The postmodern rhizome and the heteronymic writing in the Book of Disquiet

Arturo Diaz ... 29 O tédio no Livro do desassossego

The tedium in The book of disquiet

Adriano de Oliveira ... 49 O projeto do Livro do Desassossego e o romantismo alemão

The Book of Disquiet project and the German Romanticism

Cláudia Souza ... 65 SEÇÃO VARIA

Herberto Helder: corpografi a simbólica, simbologia corporal

Articulations entre le corps, l’écriture, le paysage et la traduction poétique de Herbert Helder

Erick Gontijo Costa ... 79 Automatismo e indiferença em A Máquina de Joseph Walser,

de Gonçalo M. Tavares

Automatism and indifference in Joseph Walser’s Machine by Gonçalo M. Tavares

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The poet Castilho, or “what a sensible heart shall do” “in this real life’s prosaic land”

Eduardo da Cruz ... 105 RESENHAS

MATOS FRIAS, Joana. Cinefi lia e cinefobia no modernismo

português (vias e desvios). Porto: Edições Afrontamento, 2015.

Patrícia Resende Pereira ... 125 TAVARES, Gonçalo M. Os velhos também querem viver.

Rio de Janeiro: Foz, 2014.

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Este volume da Revista do Centro de Estudos Portugueses publica um dossiê dedicado ao Livro do Desassossego, obra máxima e laboratório experimental da criação de Fernando Pessoa/Bernardo Soares. O volume abre com o artigo de Jerónimo Pizarro, um dos mais respeitados “pessoanos” da atualidade, responsável pela recente edição crítica da referida obra na INCM e líder dos pesquisadores que trabalham com o espólio do poeta, constituído por cerca de trinta mil documentos. No texto, o professor colombiano analisa a pluralidade de que é feito o Livro,

uma arca dentro da Arca, a partir de comentários acerca de suas muitas

versões; fornece preciosas informações relativamente à composição dos fragmentos que o compõem e propõe que seja lido e investigado tendo em conta, pelo menos, três níveis de entrada crítica.

O ensaio de Arturo Diaz, em clave fi losófi ca, empenha-se em efetuar uma leitura deleuziana do Livro, na medida em que se vale do conceito de “rizoma” para pensar o modo de composição fragmentária do volume, sob o signo da conexão múltipla e heterogênea. Também os conceitos de diferença e multiplicidade são importantes operadores conceituais para pensar o projeto pessoano da expressão da pluralidade ontológica e da variedade do mundo.

Por sua vez, Adriano de Oliveira dedica-se a examinar a obra de Bernardo Soares tendo em perspectiva a temática do tédio, sentimento/ conceito que assume especial relevância para se compreender esta faceta de Pessoa, o reverso inseparável do seu desassossego ontológico.

Em viés comparatista, Cláudia Souza encerra o dossiê, em texto que tece aproximações entre o projeto que enformou o Livro do

desassossego e as concepções desenvolvidas pelo denominado “primeiro

romantismo alemão”. O fragmento, mais uma vez, é o elemento que fornece os alicerces para a concretização do empreendimento pessoano de que o Livro é uma das realizações mais fulgurantes.

A seção VARIA inicia-se com um estudo de Erick Gontijo Costa que tem como foco a articulação, na poesia de Herberto Helder, entre vida

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e escrita. Convocam-se, para o efeito, os referenciais teóricos advindos da fi losofi a, da psicanálise e da teoria da literatura.

Na sequência, A máquina de Joseph Walser, volume que compõe a tetralogia O reino de Gonçalo M. Tavares, é o alvo da análise crítica desenvolvida no texto de Rodrigo Medeiros Campos.

Por sua vez, o artigo de Eduardo Cruz propõe-se a acompanhar e avaliar a produção do poeta romântico português António Feliciano de Castilho, tendo em perspectiva os posicionamentos éticos e estéticos nela veiculados.

Duas resenhas encerram o volume. A de Patrícia Resende analisa o mais novo livro da ensaísta e professora Joana Matos Frias sobre o cinema modernista em Portugal; a de Roberto Menezes debruça-se sobre uma novela-poema de Gonçalo M. Tavares recentemente publicada no Brasil, Os velhos também querem viver.

Silvana Pessôa de Oliveira Arturo Diaz

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eISSN: 2359-0076

DOI: 10.17851/2359-0076.36.55.11-27

Os muitos desassossegos

The several unquietnesses

Jerónimo Pizarro

Universidad de los Andes, Bogotá / Colômbia [email protected]

Resumo: O presente artigo tem por objetivo discutir a problemática

existente em torno das várias versões que constituem o Livro do Desassossego, obra proteiforme do poeta português Fernando Pessoa.

Palavras-chave: Fernando Pessoa; Livro do desassossego; poesia

portuguesa.

Abstract: This article aims to discuss the topic regarding the several

versions of which O livro do desassossego is consisted, a protean work by the Portuguese poet Fernando Pessoa

Keywords: Fernando Pessoa; Book of disquiet; Portuguese poetry.

Data de recebimento: 14 de setembro de 2015 Data de aprovação: 16 de outubro de 2015

Nas páginas seguintes gostaria de me ocupar novamente da questão dos muitos desassossegos, isto é, da existência de um livro plural que é muitos Livro do Desassossego, visto que do Desassossego

temos menos um livro do que uma realidade arquivística e que todas as tentativas de transformar essa realidade num livro único são póstumas. Signifi cativamente, o projecto de investigação mais recente sobre o Livro

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do Desassossego, coordenado por Manuel Portela, já não passa pela

tentativa de organizar novamente o Livro, mas pela construção de um

arquivo digital desse livro proteico, como Pessoa, e intitula-se: “Nenhum problema tem solução”.1 O que Manuel Portela sugere é algo que já outros

críticos tinham afi rmado antes, e talvez ninguém com tanta força quanto Leyla Perrone-Moisés num artigo de 1990: “O verdadeiro e defi nitivo

Livro do desassossego nunca existiu, e não existirá jamais” (2001,

p. 293). Mas porquê esse livro é vários livros e porquê se transformou em mais livros e porquê não existirá jamais como um único livro, “verdadeiro e defi nitivo”? Simplesmente, porque Pessoa foi várias “pessoas-livros” (PESSOA, 2010, tomo 1, p. 447) –Fernando Pessoa, Vicente Guedes e Bernardo Soares, no caso do Livro do Desassossego–, porque Pessoa não

chegou a organizar esse todo sonhado do qual só publicou alguns trechos em vida, e porque, como consequência do anterior, o editor de Pessoa não poderá nunca organizar de um modo “verdadeiro e defi nitivo” o que o próprio autor não chegou a dispor numa determinada ordem. Mas é este um problema ou, utilizando uma linguagem quase técnica, um problema passível de correcção? É porventura problemático que Pessoa não tenha sido uno e que um conjunto de “trechos, bocados, excerptos do inexistente” (PESSOA, 2013b, p. 354) –palavras de difícil tradução, aliás– não possam formar um único livro? Penso que não. Penso que não é um problema, é apenas a realidade, e que, portanto, não precisa de ser solucionado nem corrigido. A meu ver, temos que nos adaptar à pluralidade literária de Fernando Pessoa da mesma forma que temos que reconhecer a pluralidade editorial dos seus livros –nomeadamente do

Desassossego–, visto que não é negativo, e sim extremadamente positivo,

pois é um signo de vitalidade, que Pessoa seja cada dia mais múltiplo em termos de edição e de interpretação. Todo autor está destinado a multiplicar-se (a ser multiplicado) e muito mais um que se multiplicou e deixou as suas arcas para a posteridade. Pessoa leva –e isso é bom– a abandonar uma certa nostalgia de unidade e a reconhecer que o nosso Pessoa é só “Um Fernando Pessoa”, para evocar Agostinho da Silva.

Para me ocupar da questão dos muitos desassossegos, vou tentar explicitar alguns dos diferentes níveis aos quais o Livro é múltiplo.

1 O título remete para a primeira linha de um trecho do Livro do Desassossego datado

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Parece-me necessário esclarecer esses níveis para que se perceba bem até que ponto há muitos desassossegos e haverá muitos mais.

O primeiro que é importante frisar é que o Livro que fi cou não

era um Livro, com maiúscula e em singular, mas vários livros, como defenderam, entre outros, Jorge de Sena (1979) e Leyla Perrone-Moisés (2001a), e que, portanto, o que aconteceu depois da morte física de Pessoa, em 1935, não foi tanto a multiplicação do uno, como o big bang do que já era diverso à partida. O Livro do Desassossego foi

inicialmente um “breviário do decadentismo” (LIND, 1983), uma série de apoteoses e de glorifi cações, um conjunto de litanias e de devaneios, um livro de máximas e de conselhos, um manual de maneiras de bem sonhar –com um capítulo intitulado “Educação sentimental”–, um diário íntimo de viagens nunca feitas e lúcidos exames de consciência de um solitário pelas fl orestas do alheamento. Este foi o primeiro Livro, de

pendor pós-simbolista, com algumas passagens sensacionistas tardias, escrito pelo leitor de Henri-Frédéric Amiel, de Joris-Karl Huysmans, de Oscar Wilde, de Maurice Maeterlinck, de Mário de Sá-Carneiro, entre outros. Como Georg Rudolf Lind explica, “os textos desta primeira fase distinguem-se bastante pela artifi cialidade rebuscada da sua dicção pós-simbolista dos textos da segunda fase, os quais tendem à simplicidade e exactidão da expressão, e isto apesar da sua proximidade com o género da poesia em prosa” (1983, p. 21). Esses textos terão sido escritos fundamentalmente entre 1913 e 1918 (embora alguns em 1919-1920), quase todos se encontram manuscritos e por volta de 1915, ou depois, iam ser unifi cados mediante o recurso a um autor fi ctício, Vicente Guedes, cujos escritos –alguns contos e poemas ostentam a assinatura de Guedes– nunca foram reunidos e editados por separado. Desde meados da década de 1910, Fernando Pessoa percebeu que a diversidade dos textos destinados ao Livro podia ser atenuada mediante a exclusão de aqueles

mais dissemelhantes, mas também recorrendo a um autor, isto é, a uma forma de unidade que funcionasse como suporte da heterogeneidade. Já o diria Michel Foucault mais tarde: “O autor é ainda aquilo que permite ultrapassar as contradições que podem manifestar-se numa série de textos: deve haver –a um certo nível do seu pensamento ou do seu desejo, da sua consciência ou do seu inconsciente– um ponto a partir do qual as contradições se resolvem, os elementos incompatíveis encaixam fi nalmente uns nos outros ou se organizam em torno de uma contradição

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fundamental ou originária” (2000, p. 53).2 Se Pessoa tivesse publicado os

trechos do Livro do Desassossego para o qual escreveu textos prefaciais

por volta de 1917, talvez tivesse dado a conhecer só uma selecção deles antecedida de um texto que incluísse uma apresentação de Vicente Guedes. Mas esse livro nunca chegou a existir.

De facto, passou quase uma década e por volta de 1929 Pessoa retomou o Livro. O novo livro tinha, por assim dizer, uma nova

personagem: a cidade de Lisboa (daí uma frase famosa: “Oh, Lisboa, meu lar!”3); tinha um novo empregado de escritório: Bernardo Soares,

que era conhecido entre os colegas –tinha-os!– como o “Sr. Soares”; tinha paisagens mais reais, isto é, com menos cisnes, lírios, ciprestes, palácios e príncipes, e mais praças, largos, jardins, varinas e eléctricos. Os trechos deste livro já não tinham títulos “grandiosos” (PESSOA, 2013b, p. 528), terão sido escritos entre 1929 e 1934, quase todos se encontram dactilografados (alguns até são cópias a químico de originais enviados para uma revista), têm anotações nas margens como se de provas tipográfi cas se tratasse e iam ser assumidos por um segundo autor fi ctício, Bernardo Soares, cujos escritos –alguns contos estão atribuídos a Soares– ainda não foram publicados por separado. Por volta de 1930 o artifício teria sido o mesmo de 1915: dar unidade a uma multiplicidade de trechos optando por um único autor; com a diferença de que os textos da segunda fase do Livro do Desassossego são mais homogéneos e

referem muito mais o local de trabalho do semi-heterónimo Soares. Por isso, o maior desafi o de Fernando Pessoa no início da década de 1930 não terá sido a selecção dos textos tardios –muitíssimos deles revistos– mas a falta de harmonia destes com os mais antigos. Numa nota datável de 1931, Pessoa considera necessário dotar de unidade psicológica e estilística ao Livro; para este fi m, pondera adaptar os trechos antigos à

“vera psychologia” (2013b, p. 527) de Bernardo Soares, menos dandy

do que Vicente Guedes, e leitor, como este, de Stéphane Mallarmé,

2 “L’auteur, c’est encore ce qui permet de surmonter les contradictions qui peuvent se

déployer dans une série de textes : il doit bien y avoir –à un certain niveau de sa pensée ou de son désir, de sa conscience ou de son inconscient– un point à partir duquel les contradictions se résolvent, les éléments incompatibles s’enchainant fi nalement les uns aux autres ou s’organisant autour d’une contradiction fondamentale ou originaire” (FOUCAULT, 1969, p. 85).

3 Cf. “Que humano era o toque metallico dos electricos! Que paysagem alegre a simples

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mas também do Padre António Vieira e dos retóricos do século XVIII; e projecta “fazer uma revisão geral do proprio estylo” (2013b, p. 527), mantendo uma característica expressiva comum a todos os trechos do

Livro, quer antigos, quer recentes: “o devaneio e o desconnexo logico”

(2013b, p. 527). Mas mesmo adaptando uns trechos à psicologia de Soares e revendo o estilo de todos os selecionados, fi cava o problema de onde inserir ou para onde transferir aqueles que tinham títulos “grandiosos” (2013b, p. 528). Pessoa duvidava entre incluir ou excluir, por exemplo, trechos como “Marcha Funebre do Rei4 Luiz Segundo da Baviera” e

“Symphonia de uma Noite Inquieta” (2013, p. 528). Perante as dúvidas que o autor nunca resolveu, a minha posição tem sido muito simples: se nós não quisermos suplantar Pessoa, quer adaptando, revendo, inserindo ou transferindo trechos, o mais simples é não misturar os antigos com os recentes, tentando rasurar as diferenças, e não excluir os classifi cáveis sob títulos grandiosos, procurando criar um livro autónomo com eles. Já lamentava Georg Rudolf Lind que Pessoa não tivesse tido tempo para proceder a reformulação psicológica e estilística que projectou nessa nota de 1931, e que Jacinto do Prado Coelho tivesse misturado os textos da primeira fase com os da última fase, aumentando, assim, “a grande confusão que esta colecção de materiais produz no leitor inocente” (1983, p. 22). Para mim o leitor, para além da inocência da sua leitura, deve poder contextualizar os trechos do Livro do Desassossego, para perceber

até que ponto por volta de 1928-1929 toma forma uma nova proposta estética que fez possível retomar uma obra abandonada.

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Fig. 1. BNP/E3, 2-60r. Um trecho da segunda fase do Livro do Desassossego

escrito depois da nota de 1931 sobre a organização do livro.

Mas nesta ocasião interessa-me menos argumentar a favor ou contra de um determinado Livro, do que explicitar, como já disse, alguns

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O segundo que convém realçar é que o Livro, que devia ter um título “mais ou menos equivalente a dizer que contém lixo ou intervallo” (2013b, p. 527), e que até certo podia funcionar como um caixote de “lixo-luxo” (PERRONE-MOISÉS, 2001b) ou um cesto de intervalos lúcidos, é atribuído a fi guras semi-heterónimas, primeiro Vicente Guedes e depois Bernardo Soares, que nem são Fernando Pessoa nem os seus heterónimos, o que implica que podem ser tudo o que Fernando Soares era e não era (queria dizer Fernando Pessoa, o problema é que só se distinguem por uma letra, pois Soapes seria anagrama de Pessoa). De facto, já foi defendido que o Livro do Desassossego representa uma

síntese progressiva da obra pessoana e um microcosmo da multiplicidade desse universo textual.

Numa das primeiras comunicações dedicadas ao Livro, Maria

da Glória Padrão (1977) –que tinha lido os textos incluídos por Maria Aliete Galhoz na introdução de Obra Poética (1960) e por Petrus na

antologia Livro do Desassossego (1961)– deu numerosos exemplos do

que denominou migrações de textos. Assim, por exemplo, lembrou que num trecho de 1931 se lê: “muito mais longe está o homem superior (um Kant ou um Goethe, creio que diz [Haeckel]) do homem vulgar que o homem vulgar do macaco” (2013b, p. 411); e que num poema contemporâneo de Álvaro de Campos se encontram estes versos: “A capacidade de pensar o que sinto, que me distingue do homem vulgar | Mais do que elle se distingue do macaco. | (Sim, amanhã o homem vulgar talvez me leia e comprehenda a substancia do meu ser, | Sim, admitto-o, | Mas o macaco já hoje sabe lêr o homem vulgar e lhe comprehende a substancia do ser.)” (PESSOA, 1990, p. 268). Também evocou o poema “Tabacaria” (composto em 1928; publicado em 1933), que começa: “Não sou nada. | Nunca serei nada. | Não posso querer ser nada.” (PESSOA, 1990, p. 196), e citou um trecho de 1931, em que existe esta frase: “não pertenço a nada, não desejo nada, não sou nada” (2013b, p. 405). Simples coincidências e paralelismos? Não, antes indícios de um fenómeno mais profundo que perturbou a vários críticos pessoanos, entre eles Leyla Perrone-Moisés e Eduardo Lourenço.

Num artigo publicado na revista Persona em 1983, pouco depois

de publicado Fernando Pessoa, Aquém do Eu, Além do Outro (1982), e

reagindo à primeira edição do Livro do Desassossego (1982)

–esclareça-se que Petrus, em 1961, só tinha republicado alguns trechos já aparecidos em revistas–, Perrone-Moisés constata que “ao longo dessas páginas,

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encontramos passagens em que soam, inconfundíveis, as vozes de Álvaro de Campos, Alberto Caeiro ou de Ricardo Reis. A mais recorrente é a de Álvaro de Campos: em seu quarto andar, Bernardo Soares percorre os mesmos sítios da viagem num quarto que é “Tabacaria”. Mas o sorriso anti-metafísico de Caeiro também aparece em várias páginas, assim como o epicurismo triste e altivo de Reis [...] O mais curioso, a esse respeito, é o projeto explícito da heteronímia, assumido por Bernardo Soares. Num fragmento de 1930, ele resolve pôr no papel a descrição de um ideal; e esse ideal é “Sentir tudo de todas as maneiras”.5 O que

é aí espantoso é a qualifi cação de “ideal” para um projeto há muito realizado na poesia pessoana, e expresso muitos anos antes por Álvaro de Campos, com as mesmas palavras [nota: “Passagem das Horas”,

1916]” (PERRONE-MOISÉS, 2001b, p. 215-216).6 E poucas linhas

mais abaixo, a crítica brasileira acrescenta: “O fragmento designado como “Chapter on Indifference or something like that”7 propõe três

maneiras de “viver a vida em Extremo”. Essas três maneiras são: 1) “a posse extrema dela, pela viagem ulisséia através de todas as sensações, através de todas as formas de energia exteriorizada”; 2) “a abdicação inteira”; 3) “o caminho do perfeito equilíbrio”. Essas três maneiras não corresponderiam exatamente e respectivamente às de Álvaro de Campos, de Ricardo Reis e de Alberto Caeiro?” (PERRONE-MOISÉS, 2001b, p. 216). Sem dúvida, no Livro do Desassossego Pessoa estava a integrar

parcialmente uma grande parte do seu universo fi ccional.

5 Em Pessoa, 1982, tomo I, p.31 e Pessoa, 2013b, p. 294.

6 Na realidade, sendo o trecho datável de 1916, Pessoa manifesta o mesmo ideal no

Livro do Desassossego e na poesia de Álvaro de Campos em 1916.

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Fig. 2. BNP/E3, 7-20r. Um trecho da primeira fase do Livro do Desassossego,

datável de 1916, e contemporâneo do poema “Passagem das Horas”, 1916.

Foi este aspecto o mesmo que impressionou Eduardo Lourenço, numa comunicação apresentada em 1984, em Nashville, no 2.o Congresso

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Internacional Pessoano.8 Essa comunicação intitulava-se “O Livro do

Desassossego, texto suicida?” e nela Lourenço afi rmava, tal como

Perrone-Moisés, que: “O Livro comporta todos os textos de Fernando

Pessoa, todas as suas mais características tonalidades desde o ultra-simbolismo sonambúlico dos jovens anos até ao ultra-simbolismo (ultra também ou menos ultra) de fi m de percurso e vida. [...] [O Livro é um]

texto onde dialogam indistintamente os fantasmas bem presentes de

Caeiro, Reis e sobretudo de Campos, mas igualmente o do nunca sepulto autor da “Floresta do Alheamento” que aqui, em sumptuoso “requiem” à memória do wagneriano Luís II, nos aparece como Fernando, rei da nossa Baviera de sonho” (LOURENÇO, 1993, p. 89). Assim reiterava algo que já tinha dito pouco antes: “Na realidade, são as mesmas intuições capitais, as mesmas imagens, os mesmos sintagmas, as mesmas metáforas, mas ditas, assumidas em nome de outro sujeito, onde se escuta a voz de todos os outros, Caeiro, Campos, Reis, separadas ou amalgamadas, mas também banalizadas, à medida exacta de um enunciador que não tem

projecto de existência como, a seu modo, o têm, por vontade expressa de Pessoa, não só Caeiro, Campos e Reis como o autor ortónimo envolvido no seu diálogo de sonho com o mundo e a vida um enunciador que não tem projecto de existência” (1993, p. 86). O Livro do Desassossego não

tinha, segundo Eduardo Lourenço, um enunciador com “projecto de existência” –ou só parcial, inconsistente ou passageiramente o teve– e daí uma importante distinção como a que conclui a sua comunicação: “[...] aos textos-diferentes que justifi cariam a mitologia heteronímica, [...]

opõe-se o texto-das-diferenças, chamado o Livro do Desassossego, onde

os escritos imaginários que designamos como Caeiro, Reis e Campos se articulam entre si e [com] os outros textos não-heteronímicos” (1993, p. 95). Na obra pessoana existiriam os textos distintivos ou diferenciais –nomeadamente os dos heterónimos– e os textos suicidas ou não isolados mediante a criação de um enunciador específi co e de um estilo, entre os quais o Livro do Desassossego teria um lugar destacado. Daí esta polémica

observação, visto que não está isenta de uma interpretação psicológica: “[...] o que o Livro do Desassossego nos traz é, de certo modo, sendo o

mesmo [Pessoa], uma diferente versão dele. É a sua versão em prosa,

[...] Em prosa signifi ca, segundo a indicação explícita do próprio

8 Esse Congresso não foi o 2.o, mas o 3.o se tivermos presente o I Simpósio Internacional

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Pessoa, em menos mentira, consubstancial a toda a expressão poética...

[cf. “Em prosa é mais diffi cil de se outrar”9] [...] como se Fernando

Pessoa, sob a mal fi ngida máscara de Bernardo Soares, retirasse toda a fi cção às suas fi cções, [...] Sem cair no poço sem fundo do psicologismo

(mas como evitá-lo?), a tentação é grande de escutar nestes textos aquela voz mais rente, mais próxima do silêncio, da opacidade, do não-dito e

não-dizível da existência que nós imaginamos como sendo a de Fernando Pessoa. Quer dizer, a menos mascarada, a menos fi ccional de um autor que teve a obsessão de nos prevenir que para ele, ou para quem o leia, tudo é máscara. [...] É nesse sentido e só nesse –embora o seja também pelo que nele é dito– que o Livro do Desassossego é um texto-suicida.

Em si, e em relação à mitologia de Pessoa, [...]” (1993, p. 86-88). Hoje não sei se ainda poderíamos considerar o Livro do Desassossego –ou

melhor, só esta obra pessoana– um livro suicida, mas o que é interessante salientar é que foi a multiplicidade inerente ao Livro, a polifonia do

mesmo, que fi zeram possível que Lourenço o considerasse suicida, e que, no fundo, isto queria dizer que o livro tinha sido uma espécie de diário semi-fi ccional de Fernando Pessoa, quer numa primeira fase, quer numa segunda. Quase um manuscrito para a posteridade, como o do Barão de Teive, com o qual o manuscrito do Desassossego tem muitas

semelhanças.10

O terceiro que é importante sublinhar é que o Livro só se

transformou num livro em 1982, e daí em diante numa série interminável de livros. De facto, se considerarmos as alterações de uma edição para

9 Com esta frase fecha um fragmento intitulado “Ficções do Interludio”, datável de

1931. Ver Pessoa, 1966, p. 106; e Pessoa, 2010, tomo I, p. 457.

10 Refi ra-se uma página de Eu Sou Uma Antologia (2013a, p. 55) “A Bernardo Soares,

Fernando Pessoa refere-se em alguns textos tardios e bastante citados. Num deles, Pessoa aproxima Soares do Barão de Teive (cf. 134) e de Alvaro de Campos (cf. 102), o que é relevante, visto existirem trechos do Livro que, temática e estilisticamente,

parecem fragmentos de Teive ou poemas em prosa de Alvaro de Campos. Confrontem-se, por exemplo, as passagens em que Soares fala da sua solidão e dos espíritos da sua espécie, como Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) ou Étienne Pivert de Senancour (1770-1846), com outros em que Teive traça uma genealogia espiritual quase idêntica. Ou compare-se o texto de 27 de Junho de 1930, que termina com a exclamação “Mas quantos Cesares fui!” (3-27r), com o poema “Pecado original” (70-59r) de Campos, em

que fi gura a mesma exclamação e outras afi ns”. Veja-se também o prefácio de Prosa de Álvaro de Campos (2012).

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outra e as dezenas de organizações propostas dentro e fora de Portugal, considero que é possível afi rmar que não há dois livros iguais, e que nem as sucessivas reedições de certas edições (em que não se distinguem as reimpressões das reedições) são idênticas.

Por comodidade e para simplifi car, pode afi rmar-se que todas as edições de Teresa Sobral Cunha, Richard Zenith e Jerónimo Pizarro são idênticas, mas é só por comodidade e para simplifi car. Para qualquer leitor atento resultará evidente que cada edição de Teresa Sobral Cunha comporta uma profundíssima revisão. O que pode resultar menos patente é que as edições de Richard Zenith e Jerónimo Pizarro, em que os fragmentos estão numerados, têm mudado. Abster-me-ei de falar das minhas edições, embora a que preparei para a INCM (2010) e a que preparei para a Tinta-da-china (2013) sejam, de facto, diferentes: na segunda, optei por colocar alguns textos prefaciais da primeira e da segunda fases do Livro no início de cada fase (e não na sua posição

cronológica) e corrigi algumas leituras. Limitar-me-ei, portanto, a comentar brevemente a edição que Zenith publicou na Assírio & Alvim, porque a sua aparente unidade dissimula uma multiplicidade mais profunda. Digo “dissimula”, porque certas características fazem pensar que essa edição é mais única do que é. Porquê? Porque em 15 anos só tem sido publicada por uma editora em Portugal, a Assírio & Alvim; porque o número total de trechos numerados nunca foi alterado; e porque o prefácio de 1998 foi aumentado, mas nunca foi substituído. Mas o que aconteceu entre 1998 (1.a ed.) e 2012 (10.a ed.) que pudesse ter obrigado

a rever a versão publicada em 1998? Primeiro, que em 2008 e em 2013 Teresa Sobral Cunha pôde publicar livremente duas edições do Livro do Desassossego que durante 1997-2005 não pôde (de facto, a Assírio &

Alvim bloqueou a saída da sua edição de 1997 e recuperou nessa data os direitos de exclusividade que tinha perdido em 1985, recuperado em 1997 e perdido novamente em 2006, passados já não cinquenta, mas setenta anos sobre a morte de Pessoa). Segundo, em 2010 apareceu a primeira edição crítica do Livro do Desassossego e essa edição pôs em causa a

inclusão de muitos trechos e a leitura de muitas passagens. O que fez Zenith depois de consultar as edições referidas que propunham um novo corpus da obra e uma leitura diferente de muitos trechos? Corrigir as suas leituras, é claro, e incluir e excluir fragmentos; o que é surpreendente é que o fez, quase dissimuladamente, sem nunca alterar a numeração dos trechos. Quando perdia um trecho procurava um outro para preencher o

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lugar; quando ganhava um trecho excluía um que tinha incluído apesar das dúvidas relativas à sua inclusão, e, se mesmo assim, não equilibrava as contas, então fundia dois trechos em um.

Sintetizando: como a inclusão ou a exclusão de fragmentos difi cilmente podia ser realizada sem alterar a numeração dos trechos, Zenith optou –nomeadamente na 8.ª edição (2009)– por efectuar “acrescentos, exclusões, deslocações e fusões” de modo a “manter a mesma numeração das edições anteriores” (PESSOA, 2009, p. 38-39). Assim, por exemplo, acrescentou dois textos diferentes para substituir sucessivamente o antigo trecho 212 (três máximas atribuídas a Álvaro de Campos), primeiro por um apontamento fi losófi co e depois por um texto em que se fala da morte; excluiu, passadas seis edições (1.a, 2.a,

3.a, 4.a, 5.a e 6,a), as máximas de Campos, e passada uma edição (a 7.a),

o apontamento fi losófi co, textos que provisoriamente formaram parte do corpus do Livro do Desassossego; deslocou o antigo trecho 123 para o

fi nal do trecho 138, porque Teresa Sobral Cunha fez notar, em 2008 (in

Livro do Desassossego, 2008, p. 511-523 e 642), que o 123 era o fi nal

do 138; e portanto fusionou estes dois trechos, tal como fusionou, por exemplo, os trechos 371 e 372 (note-se que neste parágrafo refi ro sempre a numeração das edições Assírio & Alvim). Não pretendo discutir a legitimidade destas acções, sobre as quais guardo grandes reservas, mas sim considero importante sublinhar que elas existiram porque a edição de Zenith não é monolítica nem estática –embora tente ser apresentada com frequência como tal– e porque, em termos teóricos, convém reiterar que os textos não são entidades abstractas, mas entidades históricas que mudam e se transformam com o tempo, e que o sentido dos textos é inseparável da sua materialidade. A este respeito, basta confrontar as imagens referentes aos casos citados.

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Livro do Desassossego (1998) Livro do Desassossego (2007)

Livro do Desassossego (2012)

Livro do Desassossego (1998) Livro do Desassossego (2012)

Fig. 3. Trechos excluídos, incluídos, deslocados e fusionados da edição de Richard Zenith do Livro do Desassossego, entre 1998 e 2012.

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Em suma, são pelo menos três os níveis aos quais o Livro do Desassossego é muitos livros. Primeiro, é muitos, porque há pelo menos

dois livros identifi cáveis, correspondentes às duas fases de escrita da obra; a inexistência de um livro fechado e integramente revisto aquando da morte de Fernando Pessoa, em 1935, só fez mais múltiplo o que já era diverso à partida. Segundo, o Livro terá funcionado menos para a criação

de uma individualidade alterna a Fernando Pessoa –como Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis– e mais para a criação de um Fernando Pessoa semi-heterónimo em que quase todos os seus ideais (os do sensacionismo, por exemplo) e muitas das suas vozes (nomeadamente a de Campos) estão presentes. Terceiro, o Livro, depois de publicado em 1982,

nunca voltou a ser o mesmo, pois nunca foi estabelecido e organizado da mesma forma por dois editores, e alguns dos editores históricos do livro, como Teresa Sobral Cunha, já fi zeram mais de uma proposta de edição. De certa forma, o Livro do Desassossego simboliza as arcas pessoanas, pois

os escritos guardados nessas arcas são peças de um labirinto impossível (no sentido em que Manuel Gusmão denominou o Fausto “o poema

impossível” [1986]), são testemunhos de um universo polifónico e são os textos-base de um trabalho editorial que está longe de se esgotar, de atingir uma estabilidade mínima. Queríamos mais sossego crítico ou editorial? Não era em Fernando Pessoa que o íamos encontrar. De facto, a obra pessoana pode ser lida como uma realização do desassossego, isto é, como a materialização do que não nos podia tranquilizar, e por isso nem sequer a preparação demorada de uma nova edição ou de um novo livro de ensaios costuma trazer sossego. Daí que me pareça previsível que as futuras edições do Livro e os futuros estudos sobre o Livro só nos

desassosseguem mais. Mas quem tem medo do desassossego?

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eISSN: 2359-0076

DOI: 10.17851/2359-0076.36.55.29-47

O rizoma pós-moderno e a escrita heteronímica

no Livro do Desassossego

The postmodern rhizome and the heteronymic writing

in the Book of Disquiet

Arturo Diaz

Faculdade de Filosofi a de Braga, Braga / Portugal [email protected]

– Para o poeta Manuel Gusmão e o fi lósofo Gilles Deleuze

Resumo: Este breve ensaio focaliza dois tópicos e visa uma leitura deleuziana do Livro do desassossego. Em primeiro lugar, do ponto de vista da sua composição estrutural, o Livro é um rizoma pós-moderno, composto de fragmentos que se conectam entre si, diferenciando-se. Esta composição fragmentária exprime, por sua vez, uma outra cisão ontológica na personalidade plural e descentrada de Fernando Pessoa, gerada pelo movimento da Diferença interna. Esta abordagem pós-moderna da obra-prima pessoana resulta do génio intempestivo pessoano que soube assimilar certa tradição do século XIX, soube ousar experimentar novas possibilidades, no âmbito do modernismo de

Orfeu, e abrir as novas clareiras de um tempo a vir, que confi guram a nossa

contemporaneidade do século XXI. Nesta dimensão intempestiva desse porvir pós-moderno, interessa-nos realçar certos sinais e sintomas, como a nossa leitura do drama em almas interactivas, a partir do movimento dessa diferença ontológica, pura intensidade diferenciante. Daí o jogo ideal das diferenças, no pensamento e na criação, desse drama estático e rizoma heteronímico. Trata-se de um jogo ontológico em que, havendo lugar para o acaso, o aleatório e o devir-outros, se opera a cisão fractal da subjectividade. Neste jogo ideal das diferenças, que confi guram a dramaturgia heteronímica, as multiplicidades

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virtuais (afectos, visões ou perceptos) atualizam-se na consciência fl uida da singularidade-Bernardo Soares e inscrevem-se no plano da expressão.

Palavras-chave: pós-moderno; rizoma; diferença; devir; multiplicidade;

virtual; singularidade.

Abstract: This short essay on The book of disquiet, from a Deleuzian’s

reading, focuses on two essential topics. Firstly, from the point of view of its structural composition, The book of disquiet is post-modern rhizome, for it consists of fragments that are connected to each other, but differing among themselves. This fragmentary composition expresses, in its turn, another ontological split in the plural and decentred personality of Fernando Pessoa that is generated by the movement of internal difference. This postmodern approach of The book of disquiet proceeds from the untimely genius of its author, who knew how to assimilate certain traditions of the nineteenth century; to dare to try new possibilities in modernism with

Orpheus; and to open new clearings of a time to come, which represents our

contemporary twenty-fi rst century. In the untimely dimension of this postmodern future, we are interested in highlighting certain signs and symptomsfrom the movement of the ontological difference – a pure differentiating intensity – as it is done in our reading of the drama in interactive souls. Hence the ideal set of differences in thought and creation of the static drama and the heteronymic rhizome. This is an ontological set in which if there is space for chance, random and becoming-other the fractal breakup of subjectivity then operates. In this ideal set of differences that shapes the heteronymic dramaturgy, the virtual multiplicities (affects, perceptions or visions) update themselves on the fl uid consciousness of the singularity that is Bernardo Soares and they are part of the plan of expression.

Keywords: becoming; difference; multiplicity; postmodern; rhizome;

singularity; virtual.

Data de recebimento: 17 de dezembro de 2015 Data de aprovação: 5 de janeiro de 2016

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1. O livro-rizoma e o laboratório experimental

“A pós-modernidade confi gura-se como uma reacção cultural, representa uma ampla perda de confiança no potencial universal do projecto iluminista.”

L. Chevitarese, “As ‘Razões’ da Pós-modernidade”

“O que temos aqui não é um livro mas a sua subversão e negação, o livro em potência, o livro em plena ruína, o livro-sonho, o livro-desespero, o anti-livro, além de qualquer literatura. O que temos nestas páginas é o génio de Pessoa no seu auge.”

Richard Zenith, Introdução ao Livro do desassossego

Vamos, por conseguinte, tentar pensar o conceito de pós-modernidade no Livro do desassossego, a partir de duas ideias fundamentais: primeiro, na própria organização caótica do Livro como um rizoma de conexão múltipla e heterogénea de fragmentos textuais; depois, na própria fragmentação ontológica ou cisão fractal do sujeito plural, na sua dispersão e errância nomádica nas sensações verdadeiras, após ter passado por um processo de despersonalização e dissolução da sua identidade substantiva e molar, processo esse gerado pelo movimento da diferença interna, intensiva.

Não obstante Bernardo Soares considerar esses fragmentos, que compõem a sua obra, um refugo, cacos e um intervalo, estamos perante a obra maior de Pessoa, naquele sentido de work in progress, pelo que ela tem de experimental e de intuições intempestivas sobre a pós-modernidade que estamos vivendo e nos afecta. De facto, a tese mais afi rmativa e contundente sobre o Livro foi exposta no ensaio do fi lósofo José Gil, Fernando Pessoa ou a metafísica das sensações (1987), quando nos diz estarmos perante um laboratório experimental, em que a matéria-prima do ofício poético-artístico são as sensações, que ele desfi a nas suas análises microscópicas. Neste processo experimental, não só a consciência imanente e imediata da sensação gera o heterónimo, como surgem novos órgãos intensivos nesse corpo fl uido e plástico, intenso, intensivo, que é o plano de consistência, onde Bernardo Soares constrói e agencia o seu corpo-sem-órgãos virtual.

Longe estamos nós das posições que vêem no Livro do

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é sustentável pelo próprio Bernardo Soares ao falar das suas Confi ssões e da sua autobiografi a sem factos, tal é a recorrência obsessiva do

eu ao longo do Livro. Pensamos, porém, que essa insistência no eu

instaura uma repetição diferenciante, um autêntico devir-outros. O eu de Bernardo Soares não é uma identidade substantiva solipsista, imune aos devires do mundo, nem o sujeito kantiano das sínteses, nem uma pessoa regida pelas escalas molares da representação; o eu soaresiano é, para utilizarmos uma expressão deleuzina de inspiração bergsoniana, uma multiplicidade virtual de sensações, ideias; afectos, perceptos e acontecimentos ou devires.

A actualização dessa multiplicidade virtual, no plano da expressão escrita e na consciência larvar do esteta-sonhador, determina a génese do heterónimo latente. Assim, do ponto de vista ontológico, o que é primeiro, em Bernardo Soares, é a tal Diferença interna, diferença diferenciante e pura intensidade virtual, que Deleuze vislumbrou no génio de Marcel Proust e Virginia Woolf. Bernardo Soares tem uma identidade, mas essa identidade é plural e descentrada, como sabemos, e um efeito do movimento da interna Diferença constitutiva. Podemos acrescentar que Bernardo Soares é uma fi gura intervalar entre o sonho e a vigília e uma singularidade plural, serial e descentrada pelo movimento da Diferença interna, que resulta da comunicação das séries de sensações, visões e audições; palavras, frases e ritmos. Em última instância, o eu é um dispositivo de forças que resulta do espelhamento de outras forças heterogéneas, que ele capta,forças essas que o nómada contemplativo extrai do mundo e exprime nos regimes de signos-partículas.

É neste contexto que o próprio título da obra tem um cunho marcadamente pós-moderno: o desassossego soaresiano é muito mais que um estado subjectivo ou existencial de inquietação, angústia e desespero; o desassossego exprime, justamente, enquanto passagem e intervalo, esse movimento do sentido da Diferença interna, o movimento próprio das multiplicidades virtuais: sensações, sonhos; afectos e perceptos; acontecimentos e devires; frases, ritmos e intensidades prosódicas. Trata-se de um desassossego ontológico que exprime o movimento das singularidades nómadas no campo transcendental do pensamento e do sentir criador de novas possibilidades de vida. Essas multiplicidades puramente virtuais e intensivas actualizam-se de dois modos, através do processo da coalescência bergsoniana: actualizam-se na consciência

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escrita. Assim, o desassossego exprime o puro movimento do

devir-outros, através dessa ritournelle do eterno retorno, que consiste na escrita

e no estilo como variação contínua de singularidades. Como precisa Pedro Eiras, “Pessoa não cria a heteronímia como contrária à sinceridade:

descobre que toda a escrita é heteronímica, incluindo a assinada por um

«Fernando Pessoa» que aliás “não existe, propriamente falando”, diz Campos (1997, p. 75)” (EIRAS, 2005, p. 208). Na realidade, Bernardo Soares, mais do que devir-outros, abrindo o limiar da heteronímia, devém sobretudo animal-impercetível-intenso-mulher, dada a sua condição de

nómada da consciência de si e de transeunte de tudo.

Daí todo um teatro ontológico no Livro do desassossego com os seus dinamismos espácio-temporais. Esses dinamismos exprimem o movimento de actualização das referidas multiplicidades virtuais na consciência larvar do esteta-sonhador e no plano de expressão escrita. Por isso, em Bernardo Soares, podemos afi rmar o primado ontológico do ser do devir, do ser que se diz do devir, no sentido espinosista em que podemos dizer que os modos também podem afectar a substância fi nita. Mais do que toda a cartografi a afetiva do pathos fi nissecular e do existencialismo ateu, o desassossego de Bernardo Soares tem um valor ontológico: exprime esses dinamismos e processos que afectam o ser na génese do sentido ou do acontecimento, como um devir incorporal impassível. Bernardo Soares devém-paisagem-mundo frequentemente sentado na sua cadeira de sonhador, numa génese estática ontológica, através dos agenciamentos coletivos de enunciação.

Não obstante vincarmos a tese de uma crise na modernidade, como projecto revisível e inacabado, vivemos numa época em que os sinais da incerteza, da descontinuidade, da fragmentação, do contingente, do caos, da perda de referências e dos valores confi guram uma pós-modernidade, como reacção cultural aos desastres da utopia da razão universal e do sonho iluminista. A descrição da nova conjuntura e idiossincrasia por David Harvey é, a este propósito, pertinente: “o pós-modernismo nada, e até se espoja, nas fragmentárias e caóticas correntes de mudanças, como se isso fosse o que existisse.” (HARVEY, 1994, p. 49). E, de facto, podemos dizer que essa fragmentação, descontinuidade do fi o narrativo e (aparente)sensação de caos, são três traços característicos da pós-modernidade que perpassam o nosso Livro do desassossego e, nesse sentido, sobressai o génio intuitivo e intempestivo de Bernardo Soares que viveu e soube dar expressão à nossa contemporaneidade, também

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ela marcada pelo dinamismo das multiplicidades, num jogo ideal de diferenças que comunicam, transversalmente por ressonâncias: “Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografi a sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confi ssões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer.” (SOARES, 1998, p. 54).

Neste sentido da pós-modernidade, e no seguimento da tese de José Gil, pensamos que o Livro do desassossego é um plano de composição estética consistente, um ser de sensação heterogéneo, composto por afectos (devires), perceptos e conceitos. Como sabemos, a sensação é uma unidade psico-estética complexa que se decompõe em ínfi mas sensações, conforme o grau de acuidade da sua análise pelo intelecto expressivo. A sensação metafísica que nós privilegiamos é o desassossego ativo e criador, decorrente do mistério de existir no mundo. Para Bernardo Soares que ousa descascar as sensações até Deus e Caeiro, para quem os pensamentos são sensações, há uma relação de imanência entre as sensações, a consciência e a sua expressão. Nesta imanência, já não há aquela dissociação, inerente à fórmula fi ngir é conhecer-se, entre o pensar e o sentir, tão frequente no Pessoa ortónimo. Na imanência entre corpo escrevente e linguagem, as sensações nascem literárias, como num processo de automatismo psíquico, porque não há lugar para as mediações categoriais e representativas: “Sensações nascem analisadas./ Requinte entre a sensação e a consciência dela, não entre a sensação e o “facto” (SOARES, 1998, p. 498).

Podemos, agora, sublinhar a ideia de que, do ponto de vista da sua composição estrutural e do seu funcionamento genético, o Livro

do desassossego é um rizoma pós-moderno, tal é a impressão de caos

e da (aparente) falta de nexos de sentido que ressaltam da sua primeira leitura. Acresce a impressão de, nessa leitura propedêutica, entrarmos num verdadeiro labirinto de bifurcações e numa fl oresta de ramifi cações em que se cruzam vários planos. É como se o Livro, do ponto de vista da sua incessante reescrita textual, fosse um palimpsesto com camadas sobrepostas de sentido e um work in progress que não tem princípio nem fi m, nem eixo estruturante e fundador de sentido, tal como as fi guras pós-modernas do rizoma e da chaosmose.

No entanto, apesar dessa sensação de caos textual e de fragmentação ontológica decorrente da primeira leitura, há um sentido recorrente que se extrai: o da génese estática ontológica do nómada

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da consciência de si, capaz de devir-outros sur place, através do acto

de sonhar. Diz Bernardo Soares sobre a composição estrutural e o funcionamento do texto-rizoma, palimpsesto, labirinto de bifurcações e fl oresta de ramifi cações, onde o sentido prolifera, disseminando-se. E mais do que o esforço hermenêutico de aceder ao sentido originário do texto matricial, importa entrar no regime do ser unívoco da imanência através de aproximações laterais: “Tudo quanto o homem expõe ou exprime é uma nota à margem de um texto apagado de todo. Mais ou menos, pelo sentido da nota, tiramos o sentido que havia de ser o do texto; mas fi ca sempre uma dúvida, e os sentidos possíveis são muitos.” (SOARES, 1998, p. 164).

A própria composição fragmentária do Livro, sem um eixo fundador ou matriz originário do sentido, permite que qualquer fragmento se conecte com qualquer outro, assim como possibilita a conexão entre variados regimes de signos: os signos mundanos, os amorosos, os sensíveis e os estéticos. Assim, a dimensão rizomática pós-moderna do Livro implica duas propriedades, a conexão entre os fragmentos e a multiplicidade dos regimes de signos. O rizoma é justamente uma multiplicidade composta de dimensões, direcções e trajectos intensivos de sentido, que não começam nem acabam, porque, nesse milieu imanente, tudo recomeça sem cessar, num perpetuum mobile. Todo o começo é impensável, imemorial e virtual, porque, de certo modo, já se está na imanência, nesse meio intensivo, onde as coisas pegam e ganham

velocidade. As sensações, as emoções poéticas, os sonhos, os afectos

e os perceptos são essas dimensões do rizoma inscritas no Livro do

desassossego, como linhas de fuga, linhas de vida e criação:

À la différence des arbres et de leurs racines, le rhizome connecte un point quelconque avec un autre point quelconque, et chacun de ses traits ne renvoie pas nécessairement à des traits de même nature, il met en jeu des régimes de signes très différents et même des états de non signes. Le rhizome ne se laisse ramener ni à l’Un ni au multiple... Il n’est pas fait d’unités, mais de dimensions, ou plutôt de directions mouvantes. Il n’a pas de commencement ni de fi n, mais toujours un milieu, par lequel il pousse et déborde. Il constitue des multiplicités. (DELEUZE; GUATTARI, 1994, p. 31)

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Acresce que a pós-modernidade do Livro do desassossego (1997) decorre também do facto de estarmos perante uma obra cujos dinamismos composicionais e genéticos confi guram um chaosmos. Como sublinha Deleuze na Logique du sens, não se coloca o problema da alternativa entre o sentido já formado e o caos informe do non sens (disjunção exclusiva), mas da afi rmação da coexistência das singularidades, nómadas e pré-individuais, num plano de composição virtual, planómeno ou

“chaosmose” (disjunção inclusiva):

Nous ne pouvons accepter l’alternative qui compromet à la fois la psychologie, la cosmologie et la théologie tout entières: ou bien des singularités déjà prises dans des individus et personnes, ou bien l’abîme indifférencié. Quand s’ouvre le monde fourmillant des singularités anonymes et nomades, impersonnelles, pré-individuelles, nous foulons enfin le champ du transcendantal. (DELEUZE, 1997, p. 125)

O problema que aqui se coloca, e de que o próprio Bernardo Soares tem consciência, é o de aceder e entrar nesse campo transcendental das singularidades nómadas e pré-individuais, para poder começar a pensar, sentir e criar no regime das multiplicidades, no regime da imanência e do tal plano de composição consistente e heterogéneo de sensações e emoções poéticas; afectos e perceptos; acontecimentos e devires. Por isso, não se trata de colocar o falso problema da disjunção entre o sentido pré-formado da doxa ou o abismo do non-sens, mas de afi rmar a disjunção inclusa num mundo virtual ou num universo fi ccional, engendrado a partir do caos e que se erige como Chaosmos, composição estética do caos, composto de visões, perceptos e afectos ou devires, tal como o Livro do desassossego: “L’art n’est pas le chaos, mais une composition du chaos qui donne la vision ou sensation, si bien qu’il constitue un chaosmos, comme dit Joyce, un chaos composé –non pas prévu ni preconçu.” (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 204-295)

O sentido é extraído justamente de um caos de composição fragmentária, desconexa e ilógica, própria dos devaneios e dos sonhos de Bernardo Soares. Os sonhos são multiplicidades virtuais compostas de partículas fractais efémeras que cintilam no inconsciente e cuja duração é menor que a do mínimo tempo pensável. Relevam, por isso, de um princípio de indeterminação e de inconsciência. Bernardo Soares

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mergulha nessa região do inconsciente diferencial e explora o virtual subliminar de estados de consciência microscópicos, para daí extrair o sentido, os acontecimentos e os devires.

A chaosmose, de que falava James Joyce, além de apontar para um paradigma estético pós-moderno,é uma fi gura do inconsciente diferencial, enquanto produtor de sentido e condição do devir-outros, no plano de consistência do corpo-sem-órgãos. Os devaneios soaresianos aproximam a sua consciência desse universo onírico inconsciente povoado de partículas virtuais, algumas das quais emergem à superfície do plano de expressão. Nessa superfície metafísica, engendra-se o sentido: o sentido é o acontecimento e o acontecimento é toda a série de devires –devir-paisagem; devir-mulher; devir-sonho– da singularidade Bernardo Soares.

Por isso o Livro do Desassossego, enquanto rizoma, move-se efectivamente num novo paradigma estético pós-moderno que Guattari descreveu em termos de chaosmose. Aqui, a chaosmose não tem o sentido propriamente cosmológico relativo ao universo ordenado por uma inteligência ou racionalidade superior, mas indica o processo de génese do sentido a partir do inconsciente onírico diferencial de Pessoa-Bernardo Soares. Neste paradigma, a produção do sentido faz-se por comunicação de séries divergentes de palavras, frases, intensidades prosódicas, ritmos; gestos, cores, sons e ressonância em certos pontos singulares que se movem. Há aí, no texto soaresiano e no seu corpo escrevente, ressonâncias entre sensações heterogéneas e movimentos forçados, todo um conjunto de dinamismos espácio-temporais.

O agente do movimento do sentido é o precursor obscuro, a entidade virtual; o tal sentiendum ou insensível sentido, que é a singularidade, ou a case vide lacaniana ‘qui manque à sa place comme à

sa identité’. Por sua vez, o sentido não deriva de uma ordem ou harmonia

pré-estabelecida, mas de uma efectiva produção que extrai do caos do inconsciente diferencial os acontecimentos e devires, ou seja, o sentido através de concreções e preensões das singularidades moleculares em escalas de maior dimensão.

Bernardo Soares chega mesmo a traçar uma linha de coupure do caos indiferenciado das opiniões empíricas (doxa) para poder pensar no plano de imanência e criar no plano de consistência e de composição estética povoado de signos, entidades virtuais e Ideias estéticas, afectos e perceptos. Nesse plano de imanência, plano de consistência das sensações

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heterogéneas, ele pode devir-mulher-navio-página, traçando a tal linha de fuga abstrata no pensamento que o conecta com o dehors. Esse devir passa por uma intensifi cação do corpo empírico-transcendental de Bernardo Soares, constituído por zonas de indiscernibilidade objetiva, espaços vazios, onde o sentido-acontecimento circula. Em cada zona de indiscernibilidade, há um ponto singular constelado por pontos comuns. É através do domínio experimental dessa técnica do sonhar, enquanto viagem nas sensações verdadeiras, que ele pode devir-outros:

Sim, sonhar que sou por exemplo, simultaneamente, separadamente, inconfusamente, o homem e a mulher dum passeio que um homem e uma mulher dão à beira-rio. Ver-me, ao mesmo tempo, com igual nitidez, do mesmo modo, sem mistura, sendo as duas coisas com igual integração nelas, um navio consciente num mar do sul e uma página impressa dum livro antigo. Que absurdo que isto parece! Mas tudo é absurdo, e o sonho é o que o é menos. (SOARES, 1998, p.172-173)

2. A pluralidade ontológica

“A única realidade para mim são as minhas sensações. Eu sou uma sensação minha.”

Bernardo Soares, “Ideias metafísicas do Livro do desassossego”, p. 507

“ C r i e i e m m i m v á r i a s p e r s o n a l i d a d e s . C r i o personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não.” (LD, f. 299, p. 283)

Afi nal, essa composição rizomática, caótica e fragmentária do

Livro do desassossego acaba por ser a expressão de uma cisão ontológica

que ocorreu na personalidade de Fernando Pessoa e que Bernardo Soares repete, ad modum sui, descrevendo os seus processos genéticos. Essa expressão da cisão ontológica é virtual, uma espécie de anterior

simultâneo, uma vez que coexiste com o ato de escrita diferenciador

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heteronímia que Pessoa encenou em inúmeras cartas a João Gaspar Simões e Adolfo Casais Monteiro e que tem sido lucidamente pensada por Jorge de Sena (1982), Eduardo Lourenço (1993), Teresa Rita Lopes (1985) e José Gil (1987).

Importa, porém, salientar que essa fragmentação da identidade resultou de processos e técnicas que o nosso Pessoa-Bernardo Soares cultivou com esmero e prudência, lucidez e cálculo irónico, até se converterem em automatismos psíquicos, no plano do pensamento e da criação. Estamos a pensar concretamente na análise abstracta das sensações pelo intelecto expressivo, e na técnica do sonho, essa viagem imóvel nas sensações verdadeiras, sensações originárias e virgens, não contaminadas pela cultura e pelo estado de não-inscrição indiferenciadora da doxa. Estes processos que acabámos de referir encontram-se na origem do desdobramento da consciência pessoana e da consequente despersonalização. A consciência da sensação pelo intelecto expressivo gera o desdobramento do pensar e do sentir da personalidade e a consequente teoria do fi ngimento poético. Entra-se assim no limiar da heteronímia, através do devir-outros da singularidade nómada, Bernardo Soares.

Deu-se efectivamente uma fragmentação ontológica em Pessoa, produzida pelo pensamento abstracto e pela escrita heteronímica, porque o seu ser é fractal, emite partículas virtuais a uma velocidade absoluta. Podemos dizer que cada uma dessas partículas virtuais, que emerge do inconsciente diferencial produtor de sentido, é uma singularidade e um heterónimo latente, na composição rizomática dos movimentos desterritorializantes do Livro do desassossego. Digamos que o tal drama

em gente sem actos, drama em almas interactivas constitui um rizoma

heteronímico de proliferação de singularidades pré-individuais, em que se podem avaliar as relações interpessoais, mas sobretudo as poéticas, como expressões singulares de modos de sentir e ver o mundo.

Bernardo Soares viaja imóvel nas sensações, sonhando, e ao sonhar entra num devir-paisagem de campos e cidades, de vários países. Nessa viagem de sonho, opera-se o devir-imóvel, a génese estática ontológica que permite viver, sentir e ver mais, em menos tempo. No teatro do ser soaresiano, constelado de partículas fratais, a

meta-experiência da intensidade diferencial dá-se num curto espaço de

tempo, um mínimo de tempo pensável, mas os seus efeitos incorporais impassíveis afectam o corpo, tantas vezes dominado pelo cansaço, o

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tédio e o desassossego: “Cada vez que viajo, viajo imenso. O cansaço que trago comigo de uma viagem de comboio até Cascais é como se fosse o de ter, nesse pouco tempo, percorrido as paisagens de campo e cidade de quatro ou cinco países.” (SOARES, 1998, p. 283).

Acontece, porém, que Bernardo Soares prolonga a sua

meta-experiência mental e afectiva de devir nómada sur place. Ele concebe-se

e imagina-se vivendo em cada casa por que passa, extraindo desse viver modos de sentir a alegria, o tédio e a saudade. Ele vive essa génese estática ontológica, porque devém-imóvel e sente as sensações imanentes. Ocorre nele uma experiência do excesso, porque ele vive e sente na imanência, no exercício transcendental das suas faculdades da alma. Ele fala mesmo nessa paradoxal colheita dolorosa e feliz, porque ele extrai o sentido, o devir, as afecções da alma e os perceptos, a partir dos dados empíricos: “De modo que todas as minhas viagens são uma colheita dolorosa e feliz de grandes alegrias, de tédios enormes, de inúmeras falsas saudades.” (SOARES, 1998, p. 283).

Ele vai mais longe no seu devir-outro porque não se limita a viver nessas casas. Ele vive a vida de cada pessoa que habita essa casa; ele vive as vidas diferentes ao mesmo tempo, porque, nesse plano de consistência do heterogéneo intensivo, consegue sentir ao mesmo tempo sensações diversas, vendo-as por fora e sentindo-as por dentro. Entra, por assim dizer num agenciamento coletivo de enunciação ao devir-todo-o-mundo, sustentado por um plano de imanência, plano de consistência e de coexistência de sensações heterogéneas. Nesse plano de consistência, processa-se a sua dispersão ontológica, através de linhas de fuga compostas de partículas virtuais, como veremos, e a errância nomadológica do sentido:

Depois, ao passar diante de casas, de vilas, de chalés, vou vivendo em mim todas as vidas das criaturas que ali estão. Vivo todas aquelas vidas domésticas ao mesmo tempo. Sou o pai, a mãe, os fi lhos, os primos, a criada e o primo da criada, ao mesmo tempo e tudo junto, pela arte especial que tenho de sentir ao mesmo [tempo] várias sensações diversas, de viver ao mesmo tempo –e ao mesmo tempo por fora, vendo-as, e por dentro sentindo-as –as vidas de várias criaturas. (SOARES, 1998, p. 283).

Referências

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