Movimentos sociais urbanos como objeto de estudo
Má r c ia Ba n d e ir a d e Me l l o Le i t e Nu n e s
Como a ssin a la Jo rd i B o r j a 1, "o te rm o m ovim ento u rb a n o é ex tra o rd in a ria m e n te genérico. Seu único v alor reside em a ssin a la r a ex istên cia de u m tip o de conflitos sociais que a té u m a época re c e n te n ão tin h a m especificidade n e m c ien tífic a n e m p o lítica”. É e x a ta m e n te n a busca de ta l especificidade que se vai s itu a r a lite r a tu ra
m ais re c e n te sobre o te m a. Nela, a c h a m a d a Q uestão U rb a n a 2 é vista em u m de seus aspectos específicos — a eclosão de m ovim en to s sociais u rb an o s a p a r tir de co n trad içõ es g e ra d a s pelo próprio desenvolvim ento do capitalism o. A lite r a tu r a que t r a t a do t e m a 8 p ro c u ra d isc u tir as questões te ó rica s e p o líticas que em b asam a p ro b lem ática, ao lad o de e n te n d e r eventos tã o diversos q u a n to a lu ta dos negros am erican o s p a r a im p ed ir a dem olição de g ra n d e p a rte do gueto de N ew ark, em Nova Jersey , o m ovim ento ecológico nos E stados U nidos, 0 m ovim ento dos “p obladores” n o Chile, a o rg a n iz a
ção de u m a fe s ta p a ra e v ita r a dem olição dos pavilhões do Les H alles em P a ris e a o n d a de q u e b ra -q u eb ras de tra n s p o rte s coleti vos no R io de J a n e iro e São Paulo.
1 BORJA, Jordi. Movimentos sociales urbanos. Buenos Aires, Ediciones Siap — Planteos, 1975.
2 Questão Urbana é a expressão que se refere à problemática que decorre dos reflexos do processo de desenvolvimento do capitalismo e as impli cações de intervenção do Estado na esfera do consumo coletivo no meio urbano.
A publicação, em 1977, do artig o “A R ev o lta dos S ub u rb an o s ou ‘P a trã o , o T rem A traso u ’ ”, de V erena M artinez-A Iier e José Á lvaro Moisés 4, ao m esm o tem po em que propõe o estu d o m ais sistem ático de m ovim entos sociais u rb an o s n o B rasil, p erm ita , a tra v é s d a re visão dele m esm o e de o u tro s tra b a lh o s sobre o te m a — ta r e f a a que se propõe este a rtig o — a colocação de alg u m as questões a c e r ca d a relev ân c ia te ó ric a do estudo de m ovim entos sociais u rb a n o s p a r a a s ciências sociais co n tem p o rân eas, bem como favorece um a in d ag ação m ais siste m á tic a ace rca do seu significado e de su as im plicações p a ra a ação po lítica — aspecto a lta m e n te privilegiado pela lite r a tu r a sobre o tem a.
M an u el C astells e Jo rd i B orja, dois dos au to re s que vêm a n a li san d o e s ta p ro b lem átic a m ais de p erto , co n sid eram que a eclosão de m ovim entos sociais u rb a n o s revela o su rg im en to d e u m a nova fo rm a de conflito social d ire ta m e n te lig a d a à organização coletiva do m odo de v id a e, m a is especificam ente, d e c o rre n te de contradições específicas d a p ro b lem ática u rb a n a . T a is co n tradições, fru to d e con trad içõ es m ais a m p las g e ra d a s no p ró p rio in te rio r do capitalism o, podem se r sin te tiz a d a s com o: a co n trad içã o fu n d a m e n ta l g erad a pelo desenvolvim ento do cap italism o p a ra le la m e n te a o desenvolvi m e n to do m ovim ento operário e dem ocrático e que im plicou no a u m en to d as pressões sociais p o r u m m a io r nível n o eq u ip am en to u r b an o e que leva à seg u n d a co n tra d ição , a que se d á e n tre o m odo in d iv id u al de a p ro p riaç ão d a s condições de vida e o m odo coletivo de gestão d sste processo, j á que este e sb a rra , p o r um lado, no c a r á t e r p riv ad o e p a rc e lá rio dos ag en tes econôm icos que nele in te r vêm e, p o r o u tro no divórcio e n tre o c a r á te r global dos problem as e s u a a d m in istra ç ã o setorializada.
A m bas e s ta s co n trad içõ es d e te rm in a riam , en tão , a in terv en ção m aciça do E stado n a g estão dos pro b lem as u rb an o s, com um papel duplo e c o n tra d itó rio : no p lan o econôm ico como in v estid o r e no p la n o técnico e político como a d m in istra d o r, ou seja, como “o rd e n a - d o r” d a vida c o tid ia n a d as m assas a tra v é s de sistem as de p la n e ja m e n to u rbano.
E sta in terv en ção , e n tra ta n to , longe de in tro d u z ir u m elem ento n e u tro n o processo, a c a b a p o r e s b a r ra r em seu p ró p rio p a p el con tra d itó rio de gestor do consum o coletivo ao m esm o tem p o que ex pressão, em ú ltim a in stâ n c ia , dos in tere sses d a s classes do m in an tes. Assim, a p re te n d id a n e u tra lid a d e e ra c io n a lid a d e do p la n e ja m e n to
u rb a n o é im possível de ser ob tid a e este se tra n sfo rm a , a p e n as, em “in s tru m e n to ” p a r a “su p e ra r as co n trad içõ es e a p a zig u ar os conflitos, em nom e de u m a ra cio n alid ad e té c n ic a a tra v é s d a qual é possível c o n ciliar in te re sse s sociais d iv erg en tes” 5.
D en tro d e sta perspectiva, C astells vê como um deslocam ento do pro b lem a c e n tra l e p rin c ip a l o a trib u ir-s e ao u rb a n o as cau sas de um c o n ju n to de fa to s e conflitos que, em b o ra se a p re se n te m sob u m a c ap a de pro b lem as u rb a n o s são, n a realid ad e, d eco rren tes de contradições m a is p ro fu n d a s in e re n te s ao desenvolvim ento c a p ita lis ta . Q uestiona, co n seq ü en tem en te, u m processo de m u d a n ç a social que s u rja d este novo cam po de contradições u rb a n a s sem u m a m u d a n ç a social e p o lítica global o que im plica, n a realid ad e, em que,
os movimentos urbanos só se convertem em movimentos sociais n a medida em que conseguem converter-se em um componente de um movimento político que controverte a ordem social; por
exemplo, a luta operária «
É com e s ta conversão que Jo rd i B o rja e stá preocupado ao in tro d u zir, em su a an á lise u m a relação f u n d a m e n ta l e n tre m ovim en to s u rb an o s e e s tru tu ra u rb a n a , b u sc an d o ro m p er e x a ta m e n te com a dicotom ia e stru tu ra s/p rá tic a s a p re s e n ta d a p o r c e rta s form ulações
teóricas. Em su a s p ró p ria s p a lav ras,
A análise dialética concebe toda estrutura como uma rea lidade contraditória e em contínua mudança. Estas contradi ções objetivas dão lugar a conflitos sociais que aparecem como agentes imediatos de mudança. Não há estruturas que não sejam outra coisa que não um conjunto de relações sociais con traditórias e conflitivas, mais ou menos cristalizadas, porém sempre em processo de mudança, nem movimentos urbanos, nos quais participam desigualmente todas as classes sociais, que não se situem sempre no seio das estruturas e as expressem e modifiquem constantemente ?.
Assim n ã o busca ele as fo rm as d ire ta s em que m ovim entos u r b a nos m odificam a e s tru tu r a u rb a n a , m a s m u ito m ais, “as a rtic u la ções a p a r tir d as q u ais aparecem , n o in te rio r de e s tru tu ra s d ad a s novos m ovim entos u rb a n o s e a fo rm a em que estes m ovim entos co n trib u e m p a ra m o d ificar as e s tru tu ra s e x iste n te s” 8. P o r isso fa la ele
em dois tipos de efe ito s possíveis dos m ovim entos reivindicativos u rb a n o s: os efeitos u rb a n o s e os efeitos políticos. Os efeitos u rb an o s tê m a v er com a resolução d a co n trad ição específica que gerou o m ovim ento, ou seja, re fe re m -se m ais a u m a m odificação n a relação p o p u laçã o -eq u ip am en to e a m odificações n a po lítica u rb a n a p ro p ria m e n te d ita . J á os efeito s políticos dos m ovim entos reivindicativos
u rb a n o s são m ais am plos e re su ltam , n a realid ad e, d a m odificação n a correlação de fo rç as que existe e n tre os grupos sociais, a p a ra to s políticos e in stitu içõ es que a tu a m no processo; além disso, deles de pen d e a g a ra n tia d a sa tisfa ç ã o d a reiv in d icação e a possibilidade de c o n tin u id a d e e desenvolvim ento do m ovim ento. B o rja c h a m a a a te n ção, e n tre ta n to , p a r a o fa to de que n e n h u m d estes dois tip o s e efei to s m o d ifica a lógica d a e s tru tu ra u rb a n a . P a r a ta l, to rn a -s e n e cessária u m a m u d an ç a, n a co rrelação de forças, m ais am p la e n tre as classes socais, ou seja, u m a m u d a n ç a n a c o n ju n tu ra política. Essa m u d a n ç a depende, e n tre ta n to , como a ssin a la m ta n to B o rja q u a n to C astells, d a in te g ra ç ã o d a s reivindicações u rb a n a s d e n tro de u m q u a dro m ais am plo de lu ta s políticas, ou seja, u m a convergência d e “di versos m ovim entos sociais que se potencializem m u tu a m e n te ” 9.
E n a c o n ju n tu ra política que B o rja vê a m ediação m ais fu n d a m e n ta l e m ais co n d icio n an te p a r a a p o ten cialid ad e que u m m o vim ento social u rb a n o te m p a r a m o d ificar a e s tru tu r a u r b a n a 10. D isto tu d o re s u lta a consideração de que, n a v erdade, o conceito de m ovim ento social u rb a n o p re te n d e r te r eficácia a n a lític a
às custas de considerar como um movimento urbano típico um caso específico: o daqueles movimentos das classes popu lares que, partindo de reivindicações urbanas, alcançam um nível de generalidade de objetivos e de potencialidade política que modificam as relações de poder entre as classes 11. E quivalente à re le v ân cia que B o rja e m p re sta à c o n ju n tu ra po lític a é a im p o rtâ n c ia que C astells a trib u i à lu ta p o lític a como es fe ra fu n d a m e n ta l p a ra se com p reen d er a p o te n c ia lid a d e revolucio n á r ia de um m ovim ento social u r b a n o 12, pois é d e n tro d ela que se to m a passível a su a conversão em m ovim ento político que co n tro v e rte a ordem social.
E ste q uadro de re fe rê n c ia teórico serve de p an o de fu n d o p a ra que am bos os au to re s exercitem su a cap acid ad e a n a lític a n o estudo
» BORJA. Opus cit.
10 BORJA. Opus cit. 11 BORJA. Opus cit.
de alg u n s m ovim entos sociais urbanos. C astells se p reo cu p a com o m ovim ento dos “p obladores” no Chile, com os com itês de cidadãos em Q uebec e M o n treal, com o m ovim ento c o n tra a ren o v ação -d e p o r- ta ç ã o em P a ris e com o m ovim ento ecológico n o s E stad o s Unidos. In te re s s a n te é observ ar que estes q u a tro casos p arecem se d istrib u ir ao longo de u m c o n tin u u m que tem , n u m a de su a s extrem id ad es, aquele em que a a rtic u la ç ã o e n tre m ovim ento reiv in d ica tiv o u rb a n o e lu ta po lítica m ais a m p la se f a r ia com m a io r clareza — o m o v im ento dos pobladores no Chile — e, n a o u tra , aquele em que, n ã o se desenvolvendo ta l a rtic u la ç ã o — ou m elhor, fa zen d o -se ela com grupos d o m in a n te s — n ã o se v e rific a ria n e n h u m a p o ten cialid ad e e n q u a n to m ovim ento político — o m o vim ento ecológico n o s EEUU. Nos dois casos in term ed iá rio s, e s ta a rtic u la ç ã o te r ia sido te n ta d a , porém sem m a io r possibilidade de êxito. No m ovim ento c o n tra a re n o v a ç ã o -d ep o rtação em P aris, as lu ta s que se desenvolveram nos diversos setores d a cidade n ão ch eg aram , p a r a C astells, a u ltra p a s s a r os aspectos p u ra m e n te reivindicativos, quer, em alg u n s casos, p o r seu c a rá te r am ad o rístico e fracio n a d o , quer, em outros, pela frag ilid ad e p o lítica dos grupos que te n ta m e x tra p o la r os objetivos do m ovim ento p a r a questões p o líticas m a is gerais. No caso dos co m itês de cidadãos de Q uebec e M o n treal, a exigência precoce, devida
à c o n ju n tu ra p o lítica d a s d u a s cidades, de u m a definição do m o v im ento em term o s de objetivos de classe, te r ia acab ad o por lev ar a seu fracasso.
Jo rd i B o rja a n a lisa os m ovim entos u rb a n o s n a E sp a n h a e n tre 1939 e 1974. Após u m a série de considerações sobre o processo de in d u strializa ção e u rb an iz ação naquele país, que im plicou em altos custos sociais e no desenvolvim ento de u m co n ju n to de contradições que d e ra m origem aos m ovim entos u rb an o s, B o rja a ssin a la o s u r g im en to d estes j á ao fin a l d a d écad a de 60, q u an d o j á e x istiria um relativ o equilíbrio de fo rça s sociais em jogo e u m dinam ism o eco nôm ico que p e rm itiria m a expressão de reivindicações, seu re c o n h e cim ento e su a negociação. M ais a in d a , te ria m sido eles precedidos de u m in c re m e n to razoável dos m ovim entos re iv in d icativ o s tr a b a lh ista s, ta n to porque n e ste s h a v e ria u m a m a io r u n ifo rm id ad e ta n to de bases q u a n to de propósitos, q u a n to porque, d u ra n te certo te m
po, e ra possível a solução m ais ou m enos in d iv id u al dos problem as urb an o s agudos, como p o r exem plo a u rb an iz ação m a rg in a l e a a u - toconstrução n a p e rife ria dos ce n tro s urbanos.
levando ta m b ém a conseqüências políticas m ais gerais. E stas conse q ü ên cias — ou seja, os efeitos políticos produzidos pelos m ovim en to s u rb a n o s n e ste período — podem se r sin te tiz a d a s assim :
a) os m ovim entos u rb an o s fo rn e ceriam u m cam po de organização dos setores p o p u lares n a d efesa coletiva de seus in teresses b) ao m esm o tem po, fo rn e c e riam o cam po p a r a a convergência de
inte resses sociais d istin to s e, conseq ü en tem en te, p a r a a fo rm a ção de alia n ç a s de classe e, m ais a in d a , p a r a a colocação de a lte rn a tiv a s sociais e políticas.
c) F in alm en te1, c o n stitu iria m fa to r im p o rta n te de crise de certas fo rm as políticas, ou seja , p e rm itiria m que a população, ao se a g lu tin a r em organizações e b u sc ar a sa tisfa ç ã o de suas d e m a n das, a c en tu asse a crise n a s fo rm a s de a d m in istra ç ã o lo c a l13. M ais rec e n te m en te , V erena M artin ez-A lier e José Álvaro M oi sés 14 p ro c u ra ra m a n a lis a r a p o ten cialid ad e po lítica de alg u n s aspec tos do cotidiano d a s m a ssas p o p u lares u rb a n a s b ra sile ira s a tra v é s do estu d o de situ açõ es co n cretas, m ais especificam ente, da vag a de q u e b ra -q u e b ras de tre n s su b u rb an o s e ônibus que se in icia em ju n h o de 1974 nos g ra n d e s c e n tro s u rb a n o s do Rio de J a n e iro e São Paulo. A hip ó tese que serve aos au to re s como p o n to de p a rtid a p a ra e s ta ta r e f a p ro c u ra in te g r a r u m a explicação que vê situações deste cipo como explosões e sp o n tâ n e a s de m assas p o p u lares n u m a c o n ju n tu r a econôm ica a d v e rsa a u m a explicação que leva em consideração a c o n ju n tu ra p o lítica em que elas se dão. M ais a in d a , a tra v é s d a com preensão de su a d in â m ic a in te r n a e d a av aliação de seus efeitos sociais e políticos, os au to re s p ro c u ra m m o s tra r que ta is irrupções, a p e n a s a p a re n te m e n te e sp o n tân ea s, têm , n a realid ad e, u m a d in â m ica e u m a lógica p ró p ria s que lh e s e m p re sta m p o ten cialid ad e en q u an to fo rça social p a r a in te rv ir em processos sociais e políticos da sociedade b rasileira.
P a rtin d o de u m le v a n ta m e n to d a situ ação g eral dos tra n sp o rte s de m assas n a s d u as cidades — u m dos p o n to s de e stra n g u la m e n to no processo de rep ro d u ção d a fo rç a de tra b a lh o —, p ro c u ra m os au to re s a p o n ta r p a ra o tipo de in te rfe rê n c ia s oue o seu c a rá te r de ficien te p roduz sobre o co tid ian o daqueles que são obrigados a u ti liz a r estes serviços — in te rfe rê n c ia s n ão som ente ao nível das p re ocupações ace rca dos fre q ü e n te s a tra so s n a h o ra de e n tr a d a no em
-BORJA. Opus cit.
p rego m a s tam b ém , è m a is d ram ático a in d a , ao nível de su a p ró p ria sobrevivência, pois em v irtu d e do m a u esta d o de conservação d a red e fe rro v iá ria são fre q ü e n tes os ac id e n te s com u m g ran d e n ú m ero de m o rto s e feridos. Além disso, a b aix a ca p a c id ad e de re sp o n d er à s d em a n d a s p o r este tip o de tra n s p o rte n a s h o ra s de ru sh a lia d a à fa lta de d in h e iro p a r a o p a g am en to d a passagem , criou u m tip o es
pecial de passageiro, os ch am ad o s “p in g e n te s” que co n trib u em a in d a m ais p a ra elev ar a ta x a de acid en tes com m o rtes nos tre n s su b u r banos.
Assim é que o an o de 1974 vê a em erg ên cia de u m a v ag a de explosões p o p u lares em estações de subúrbios d as d u as cidades que ab rig a m u m eno rm e co n tin g e n te d a su a fo rç a -d e -tra b a lh o : O linda, Nilópolis, M orro Agudo, T om ás Coelho, Q ueim ados, A ustin, Nova Ig u a çu, M auá, E n g en h eiro T rin d a d e. Como a ssin a la m os próprios a u to res: Os pontos altos dos acontecimentos em 1975 são consti tuídos pela depredação simultânea de nove estações da Baixada Fluminense, em 11 de julho, causada pela paralisação de todas as composições nos ramais Santa Cruz e Japeri, entre 4h 30 e 10h 30 da manhã, apenas 24 horas após a depredação de outras duas estações na mesma região, pelas mesmas razões, e o des carrilamento de uma composição nas imediações da estação Magno, com 14 mortos e aproximadamente 370 feridos, no dia 18 do mês ic.
U tilizando descrições e d epoim entos de p a rtic ip a n te s a p re s e n ta dos p o r jo rn a is do Rio e d e São P aulo, o artig o p ro c u ra d e m o n stra r que o alvo ú ltim o d estas rev o ltas é o Estado.
Diversos indícios apontam para a natureza basicamente simbólica desses movimentos, embora seus efeitos não se esgo tem aí. Carecendo de meios para atingir diretamente o agente responsável pela gestão dos serviços de transporte que lhes são oferecidos —> o próprio Estado — devido à relação de forças existentes, as massas populares manifestam sua revolta depre
dando aquilo que está a seu alcance imediato, os trens e as estações ir>.
P a r a os au to res, a m assa que p a rtic ip a d e sta s ações o p e ra ria a tra v é s de u m a espécie de “efe ito -d e m o n straç ã o ” que a d e sc a ra cte
riz a ria e n q u a n to aglom erado casu al de pessoas que realizam u m a ação m o m e n tâ n e a e inconseqüente. M ais a in d a, p a r a isto co n trib u
r ia ta m b é m o p a r tilh a r de u m a situ açã o se m e lh a n te que levou ao desenvolvim ento d e u m a g íria e de fo rm as de o rg an ização in c ip ie n te s que, g e ran d o u m se n tim e n to de id e n tific ação e n tre seus m em bros, a c ab a p o r p ro d u z ir v á ria s fo rm a s de solidariedade.
A preocupação do artig o , porém , vai m ais a d ia n te . Como C as- te lls e B o rja, M artinez-A lier e Moisés estã o preocupados em a v a lia r a p o ten c ialid ad e po lítica d este tip o de m ovim ento e, d e te c ta n d o -a, d e m o n stra r a lógica que p re sid iria ta is ações a p a re n te m e n te desco- n e ctad as. P a r a eles, ta l p o te n cia lid a d e pode se r p erceb id a em dois níveis. O p rim eiro nível se refe re a seus efeitos deslegitim adores sobre o E stad o :
Se essas revoltas, por uma parte, são limitadas e não têm uma estrutura organizatória prévia, por outra constituem uma deslegitimação das autoridades estabelecidas e têm um signi ficado e efeitos políticos nítidos: a escolha de seus alvos não é arbitrária; as revoltas respondem a anseios coletivos, dados por condições estruturais semelhantes — a condição de força de trabalho dos usuários — e, finalmente, exigem uma defi nição por parte do próprio Estado i®.
E m ais:
Diversos indícios apontam para a natureza basicamente simbólica desses movimentos, embora seus efeitos não se es gotem aí. Carecendo de meios para atingir diretamente o agente responsável pela gestão dos serviços de transporte que lhes são oferecidos — o próprio EStado — devido à relação de forças existentes, as massas populares manifestam sua revolta depre dando aquilo que está a seu alcance imediato, os trens e as estações.
O o u tro nível d a eficácia política destes m ovim entos se refere à su a cap acid ad e de re a firm a r p a ra a m assa a su a p o ten cialid ad e en q u a n to fo rça social capaz d e in te rv ir no processo, refo rç a n d o seu p o ten cial reiv in d icativ o fu tu ro . Os dois níveis, porém , se re fo rç a ria m m u tu a m e n te j á que e x a ta m e n te o efeito “c o n ta m in a d o r” g e ra ria u m a necessidade, p o r p a rte do E stado, d e m a n te r o controle a tra v é s t a n to d a rep ressão policial — ju s tific a d a à s vezes, como fun ção d a in filtra ç ã o de elem en to s e s tra n h o s n e s ta s rev o ltas — q u an to d a cen s u ra — d a í os vários casos de prisões d e p a rtic ip a n te s nos m ovi m en to s após a concessão de e n tre v ista s a jo rn ais.
ação — os grupos sociais que a d esencadeiam , quer se ja m ou n ão m assa s populares, os ag en tes privados, m u ito fre q ü e n te m en te os re s ponsáveis p ela ação que serve de estopim ao su rg im en to de reiv in dicações, e o E stado, cujo p a p e l am bíguo de g esto r dos problem as u rb an o s, ao m esm o tem p o que expressão dos in teresses d a s classes d o m in a n te s —, os tra b a lh o s p ro c u ra m v erific a r a p o ten cialid ad e dos m ovim entos reiv in d icativ o s u rb an o s en q u a n to elem entos d esenca- dead o res de processo d e m u d a n ç a social m ais a b ran g en tes.
E sta p o ten c ialid ad e é d a d a e x a ta m e n te pela possibilidade de m odificação n a co rrelação d as fo rças sociais que se d e fro n ta m n este tipo de m ovim ento. M ais a in d a , B o rja e C astells se preocupam em a s s in a la r que ta l m odificação só se to rn a possível n a m ed id a em que aqueles grupos sociais que d esen cad eiam m ovim entos sociais u r ban o s am pliem os objetivos de su a ação, ou seja, ab an d o n em o ca r á te r p u ra m e n te reiv in d icativ o em relação a problem as u rb a n o s es pecíficos e, aliados a ou tro s grupos sociais, cheguem a u m a lu ta p olítica m ais a b ra n g e n te .
O a rtig o de M artinez-A lier e Moisés, porém , p re te n d e ir um pouco m ais além . P a r a eles, o próprio c a rá te r sim bólico d este tipo de ação, d a ria a m ovim entos como os q u e b ra -q u e b ras de tre n s sua p o ten cialid ad e po lítica pois, ao m esm o tem p o e m a.ue deslegitim am o E stado, a firm a m p a r a a p ró p ria m assa a p o ten cialid ad e de sua intervenção, re fo rç a n d o -a .
A lgum as questões, e n tre ta n to , surgem d este tipo de análise. A p rim e ira d elas diz resp eito ao tip o de evidências com que tra b a lh a m os a u to res. As a n álises de C astells e B orja, p o r exem plo, se a p re se n ta m u m q u ad ro de re fe rê n c ia tsó rico m u ito co erente n o aue se re fe re às h ip ó teses p a r a a in te rp re ta ç ã o d a questão, in fo rm a m p o u co, e de m a n e ira pouco siste m ática, sobre a s evidências em que se b ase a ra m p a ra os estudos realizad o s ac erca d e m ovim entos sociais concretos, como o dos com itês de cidadãos de Quebec, o m ovim ento dos “p obladores” no Chile, ou os m ovim entos sociais u rb a n o s n a E sp a n h a de 39 ã 74. As ú n ic a s re fe rê n cia s a dados e su a s fo n tes e n c o n tra m -se ao fin a l de cad a artig o , como por exem plo, a se g u in te observação de C astells ace rca das in form ações sobre a s quais se
apóia su a an álise acerca do m ovim ento dos “p obladores”, no C hile: — a experiência pessoal, por ocasião de estadias durante vá
— a colaboração com o grupo dé investigação sobre este tema na Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais de Santiago do Chile.
— Sobretudo, a pesquisa sistemática que realizamos de julho a outubro de 1971 entre vinte e cinco dos acampamentos mais importantes de Santiago. Esta pesquisa foi dirigida pela equipe de investigação sobre os movimentos sociais urbanos C .I.D .U . (Centro Interdisciplinar do Desenvol vimento Urbano), em contato com militantes da Unidade Popular no seio do movimento dós pobladores. Reconstruí mos a história política e analisamos as características so ciais de cada um destes acampamentos, partindo de uma observação profunda e de entrevistas sistemáticas com os dirigentes, militantes e residentes. A pesquisa e a análise foram uma obra coletiva do conjunto da equipe de in vestigação populacional do C .I.D .U . ( . . . ) Dada a impli cação política deste tema, omitimos toda informação que permita identificar lugares, pessoas e organizações, exceto no que se referea fatos sociais historicamente conhecidos it. A despeito d e sta observação, e n tr e ta n to , o corpo do tra b a lh o p ro p ria m e n te d ito n ã o a p re s e n ta de fo rm a m a is sistem ática, como se ria de se e sp e ra r d a an álise sociológica de situações co n cretas, estes
dados.
Como C astells, tam b ém B o rja a p re s e n ta no início de seu livro as fo n tes de onde provêm os dados que utiliza. A su a an álise sobre os m ovim entos sociais n a E sp a n h a de 39 a 74, e n tre ta n to , em bora ap re se n te, a nível de seu discurso, u m a p e rfe ita coerência com os p ressupostos teóricos explicitados n o s dois a rtig o s aue a an tec ed em n o volum e, ta m b é m n ã o tr a z in co rp o rad o s os dados sobre os quais se baseia e a c a b a p o r conter, em m u ito s pontos, afirm a çõ es como:
Em Barcelona a oposição que despertaram os projetos de autopistas urbanos e a conseqüente eliminação de espaços pú blicos se revestiu de grande importância (Pl. Lesseps, Pl, Sal vador Anglada). O mesmo se poderia dizer. do Prado de San Sebastian, em Sevilha. Nestes movimentos, mais do que nos anteriores, se realiza uma convergência dos setores mais dire tamente afetados com outros: associações de outros bairros, de cidadãos, culturais, profissionais, etc. São precisadas alter nativas urbanísticas. O movimento adquire um nítido caráter de movimento de opinião pública is.
Apesar, e n tre ta n to , de to d a a ê n fa ss sobre a relev ân cia d as a r t i culações e n tre grupos sociais p a ra que estes ad q u iram um c a rá te r 17 CASTELLS. Opus cit.
m a is m a rc a d a m e n te político, B o rja deixa de lado — e o período ac im a é a p e n a s u m e n tre m u ito s exem plos sem e lh a n te s — a possí vel riqueza te ó ric a e p rá tic a de u m a análise m ais d e ta lh a d a do c a r á te r de que se rev este m ta is a lia n ç a s em seus aspectos concretos. D a m esm a lo rm a , ao a s s in a la r o reco n h ecim en to de d em a n d a s de grupos sociais acerca do desenvolvim ento u rb a n o de su as cidades, que se tra d u z p e la a ce ita çã o tá c ita ou ex p lícita das reivindicações, o que exerce a lg u m a in flu ê n c ia sobre a p o lítica u rb a n a , B o rja m e n ciona o P lan o C om arcal de B arcelo n a como u m exem plo d este f a to — sem e n tra r, porém , em seus aspectos concretos e m o s tra r como, n a p rá tic a , se d eu ta l in flu ên c ia, o que ca d a grupo p e rd eu e gan h o u s em que sen tid o e p a r a que lin h a s p o ste rio res de g an h o s políticos a p o n ta m e sta s conquistas parciais.
J á o artig o de M artin ez-A lier e Moisés tr a z em si, incorporados, u m c o n ju n to de1 d ad o s ex traíd o s, b asic am en te , de m a té ria s p u b lica d as em jo rn a is do Rio de J a n e iro e São P a u lo a respeito dos su cessivos q u e b ra -q u e b ras de tr e n s e estações n a s d u a s cidades. E m b o ra este seja, c e rta m e n te, u m aspecto b a s ta n te positivo do tr a b a lho, o tip o de evidências a p o n ta d a s parece in su ficien te, em alg u n s
m om entos, p a ra co rro b o ra r a s hipóteses to m a d a s como p o n to de p a rtid a no tra b a lh o e, em outros, ch eg a m esm o a co n tra d iz e r o tip b de in fe rê n c ias que delas se tira , como no p a rá g ra fo que se segue:
Mesmo para os participantes individuais das revoltas, esse “efeito-demonstração” opera. É só um usuário mais ousado ou mais irritado iniciar o protesto para que a revolta se tom e coletiva: "Chegou à estação quando a revolta já estava no auge. Entusiasmado pelo que acontecia, entrou no meio da multidão, gritando quebra! quebra! ( . . . ) As pessoas que estavam do lado de fora da estação, no pátio, também aderiram à revolta, depõe um usuário preso após a depredação da estação de Mauá, no subúrbio de São Paulo”. Um pedreiro preso em outra ocasião semelhante, relata que “às 5h, dirigiu-se à estação para ir a Pirituba, onde trabalha ( . . . ) Que, enquanto aguardava, foi a um bar tom ar uma pinga e, ao voltar, encontrou o tumulto formado ( . . . ) Viu então um moreno claro, estatura mediana, magro, arrancando um telefone e chutando-o. Resolvendo imi
tá-lo, foi preso”. Essa massa popular não é um aglomerado casual de pessoas, cuja ação é momentânea e inconseqüente i». In te re s s a n te a ob serv ar n e ste tre c h o é e x a ta m e n te o fa to de que
£0 e x trai. U m a q uestão a le v a n ta r seria, p o rta n to , sab er e x a ta m e n te a té que p o nto a sim ples ex istên cia de ações por “e fe ito -d e m o n stra- ção” im plica n a e x istên c ia de u m a ação o rg a n iz a d a d a q u al nem m esm o os p ró p rio s a to re s tê m consciência.
A u tilização a p e n a s de dados de jo rn a is, p o r o u tro lado, parece d e ix a r a lg u m a s la c u n a s de in fo rm a ção que, se m elh o r p reen ch id as com u m tra b a lh o de cam po m a is sistem ático , e v ita ria m a seg u in te in ferê n cia ace rca d a in sta la ç ã o de sistem as eletrô n ico s em su b sti tuição a sistem as se m i-au to m ático s de controle em alg u n s ra m a is: Cabe ressaltar que esse sistema semi-automático de contro le é a causa recorrente de avarias e acidentes; porém, até hoje, a sua substituição por um sistema eletrônico de controle restringe-se aos ramais de Duque de Caxias e Belfort Roxo, no Grande Rio e, significativamente, a Mogi das Cruzes, em São Paulo. Neste local esse sistema foi montado após o aci dente com o Trem de Estudantes, em 1972, que resultou em 24 estudantes mortos. É claro, neste caso, que quando grupos de classe média são diretamente atingidos pela precariedade dos serviços de transporte, as medidas de melhoramento ten
dem a ser mais imediatas 20.
E m bora a explicação a p re s e n ta d a se ja p e rfe ita m e n te a d e q u a d a ao caso de Mogi d as Cruzes, ela c e rta m e n te n ão se ap lica a D uque de C axias e B e lfo rt Roxo.
D a m esm a form a, in fe rê n c ia s ace rc a do c a rá te r sim bólico deste tip o de ação p ressupõem algo como u m a in ten c io n a lid a d e in co n sci e n te dos a u to re s que m erecia u m a in v estig ação m ais a p ro fu n d a d a , sob pena de que ta l in te n c io n a lid a d e se ja m u ito m ais u m a d eco rrên cia lógica do q u ad ro de re fe rê n c ia teórico u tilizado do que de evidências em p íricas b u scad as de fo rm a sistem á tic a.
T ais questões, e n tre ta n to , poderão ser s a tisfa to ria m e n te re sp o n didas à m e d id a em que, alçado à posição de p reocupação socioló gica c o n te m p o râ n e a fu n d a m e n ta l, o estudo de m ovim entos sociais no m eio u rb a n o se c o n stitu a em o b je to de estudo que p e rm ita a diversificação d e an álises de situações co n cretas. Só a p a r tir d a í se rá possível u m a m a io r se g u ra n ç a p a ra extrapolações teó ricas e p r á ti cas m ais ab ra n g e n te s.