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Estatutos da Igualdade Racial Prof. Mateus Silveira

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Estatutos da Igualdade Racial

Prof. Mateus Silveira

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NEGROS, PARDOS E ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL

LEI Nº 12.288, DE 20 DE JULHO DE 2010

Institui o Estatuto da Igualdade Racial; altera as Leis nºs 7.716, de 5 de janeiro de 1989, 9.029, de 13 de abril de 1995, 7.347, de 24 de julho de 1985, e 10.778, de 24 de novembro de 2003.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

TÍTULO I

Disposições Preliminares

Art. 1º Esta Lei institui o Estatuto da Igualdade Racial, destinado a garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às de- mais formas de intolerância étnica.

Parágrafo único. Para efeito deste Estatuto, considera-se:

I – discriminação racial ou étnico-racial:

toda distinção, exclusão, restrição ou prefe- rência baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto anular ou restringir o reconhecimen- to, gozo ou exercício, em igualdade de con- dições, de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econô- mico, social, cultural ou em qualquer outro campo da vida pública ou privada;

II – desigualdade racial: toda situação injus- tificada de diferenciação de acesso e fruição

de bens, serviços e oportunidades, nas es- feras pública e privada, em virtude de raça, cor, descendência ou origem nacional ou ét- nica;

III – desigualdade de gênero e raça: assime- tria existente no âmbito da sociedade que acentua a distância social entre mulheres negras e os demais segmentos sociais;

IV – população negra: o conjunto de pes- soas que se autodeclaram pretas e pardas, conforme o quesito cor ou raça usado pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ou que adotam autodefi- nição análoga;

V – políticas públicas: as ações, iniciativas e programas adotados pelo Estado no cum- primento de suas atribuições institucionais;

VI – ações afirmativas: os programas e me- didas especiais adotados pelo Estado e pela iniciativa privada para a correção das de- sigualdades raciais e para a promoção da igualdade de oportunidades.

Art. 2º É dever do Estado e da sociedade garan- tir a igualdade de oportunidades, reconhecendo a todo cidadão brasileiro, independentemente da etnia ou da cor da pele, o direito à participa- ção na comunidade, especialmente nas ativida- des políticas, econômicas, empresariais, educa- cionais, culturais e esportivas, defendendo sua dignidade e seus valores religiosos e culturais.

Art. 3º Além das normas constitucionais relati- vas aos princípios fundamentais, aos direitos e garantias fundamentais e aos direitos sociais, econômicos e culturais, o Estatuto da Igualda- de Racial adota como diretriz político-jurídica

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a inclusão das vítimas de desigualdade étnico- -racial, a valorização da igualdade étnica e o for- talecimento da identidade nacional brasileira.

Art. 4º A participação da população negra, em condição de igualdade de oportunidade, na vida econômica, social, política e cultural do País será promovida, prioritariamente, por meio de:

I – inclusão nas políticas públicas de desen- volvimento econômico e social;

II – adoção de medidas, programas e políti- cas de ação afirmativa;

III – modificação das estruturas institucio- nais do Estado para o adequado enfren- tamento e a superação das desigualdades étnicas decorrentes do preconceito e da discriminação étnica;

IV – promoção de ajustes normativos para aperfeiçoar o combate à discriminação étni- ca e às desigualdades étnicas em todas as suas manifestações individuais, institucio- nais e estruturais;

V – eliminação dos obstáculos históricos, socioculturais e institucionais que impedem a representação da diversidade étnica nas esferas pública e privada;

VI – estímulo, apoio e fortalecimento de iniciativas oriundas da sociedade civil dire- cionadas à promoção da igualdade de opor- tunidades e ao combate às desigualdades étnicas, inclusive mediante a implementa- ção de incentivos e critérios de condiciona- mento e prioridade no acesso aos recursos públicos;

VII – implementação de programas de ação afirmativa destinados ao enfrentamento das desigualdades étnicas no tocante à edu- cação, cultura, esporte e lazer, saúde, segu- rança, trabalho, moradia, meios de comuni- cação de massa, financiamentos públicos, acesso à terra, à Justiça, e outros.

Parágrafo único. Os programas de ação afirmativa constituir-se-ão em políticas pú- blicas destinadas a reparar as distorções e

desigualdades sociais e demais práticas dis- criminatórias adotadas, nas esferas pública e privada, durante o processo de formação social do País.

Art. 5º Para a consecução dos objetivos desta Lei, é instituído o Sistema Nacional de Promo- ção da Igualdade Racial (Sinapir), conforme es- tabelecido no Título III.

TÍTULO II

Dos Direitos Fundamentais

CAPÍTULO I DO DIREITO À SAÚDE

Art. 6º O direito à saúde da população negra será garantido pelo poder público mediante po- líticas universais, sociais e econômicas destina- das à redução do risco de doenças e de outros agravos.

§ 1º O acesso universal e igualitário ao Sis- tema Único de Saúde (SUS) para promoção, proteção e recuperação da saúde da popu- lação negra será de responsabilidade dos órgãos e instituições públicas federais, esta- duais, distritais e municipais, da administra- ção direta e indireta.

§ 2º O poder público garantirá que o seg- mento da população negra vinculado aos seguros privados de saúde seja tratado sem discriminação.

Art. 7º O conjunto de ações de saúde voltadas à população negra constitui a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, organizada de acordo com as diretrizes abaixo especifica- das:

I – ampliação e fortalecimento da participa- ção de lideranças dos movimentos sociais em defesa da saúde da população negra nas instâncias de participação e controle social do SUS;

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II – produção de conhecimento científico e tecnológico em saúde da população negra;

III – desenvolvimento de processos de infor- mação, comunicação e educação para con- tribuir com a redução das vulnerabilidades da população negra.

Art. 8º Constituem objetivos da Política Nacio- nal de Saúde Integral da População Negra:

I – a promoção da saúde integral da popula- ção negra, priorizando a redução das desi- gualdades étnicas e o combate à discrimina- ção nas instituições e serviços do SUS;

II – a melhoria da qualidade dos sistemas de informação do SUS no que tange à coleta, ao processamento e à análise dos dados de- sagregados por cor, etnia e gênero;

III – o fomento à realização de estudos e pesquisas sobre racismo e saúde da popu- lação negra;

IV – a inclusão do conteúdo da saúde da po- pulação negra nos processos de formação e educação permanente dos trabalhadores da saúde;

V – a inclusão da temática saúde da popu- lação negra nos processos de formação po- lítica das lideranças de movimentos sociais para o exercício da participação e controle social no SUS.

Parágrafo único. Os moradores das comuni- dades de remanescentes de quilombos se- rão beneficiários de incentivos específicos para a garantia do direito à saúde, incluindo melhorias nas condições ambientais, no sa- neamento básico, na segurança alimentar e nutricional e na atenção integral à saúde.

CAPÍTULO II

DO DIREITO À EDUCAÇÃO, À CULTURA, AO ESPORTE E AO LAZER

Seção I

DISPOSIÇÕES GERAIS

Art. 9º A população negra tem direito a parti- cipar de atividades educacionais, culturais, es- portivas e de lazer adequadas a seus interesses e condições, de modo a contribuir para o patri- mônio cultural de sua comunidade e da socie- dade brasileira.

Art. 10. Para o cumprimento do disposto no art.

9º, os governos federal, estaduais, distrital e municipais adotarão as seguintes providências:

I – promoção de ações para viabilizar e am- pliar o acesso da população negra ao ensi- no gratuito e às atividades esportivas e de lazer;

II – apoio à iniciativa de entidades que man- tenham espaço para promoção social e cul- tural da população negra;

III – desenvolvimento de campanhas edu- cativas, inclusive nas escolas, para que a solidariedade aos membros da população negra faça parte da cultura de toda a socie- dade;

IV – implementação de políticas públicas para o fortalecimento da juventude negra brasileira.

Seção II DA EDUCAÇÃO

Art. 11. Nos estabelecimentos de ensino funda- mental e de ensino médio, públicos e privados, é obrigatório o estudo da história geral da África e da história da população negra no Brasil, ob- servado o disposto na Lei no 9.394, de 20 de de- zembro de 1996.

§ 1º Os conteúdos referentes à história da população negra no Brasil serão ministra- dos no âmbito de todo o currículo escolar,

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resgatando sua contribuição decisiva para o desenvolvimento social, econômico, políti- co e cultural do País.

§ 2º O órgão competente do Poder Executi- vo fomentará a formação inicial e continua- da de professores e a elaboração de mate- rial didático específico para o cumprimento do disposto no caput deste artigo.

§ 3º Nas datas comemorativas de caráter cí- vico, os órgãos responsáveis pela educação incentivarão a participação de intelectuais e representantes do movimento negro para debater com os estudantes suas vivências relativas ao tema em comemoração.

Art. 12. Os órgãos federais, distritais e estaduais de fomento à pesquisa e à pós-graduação pode- rão criar incentivos a pesquisas e a programas de estudo voltados para temas referentes às relações étnicas, aos quilombos e às questões pertinentes à população negra.

Art. 13. O Poder Executivo federal, por meio dos órgãos competentes, incentivará as instituições de ensino superior públicas e privadas, sem pre- juízo da legislação em vigor, a:

I – resguardar os princípios da ética em pes- quisa e apoiar grupos, núcleos e centros de pesquisa, nos diversos programas de pós- -graduação que desenvolvam temáticas de interesse da população negra;

II – incorporar nas matrizes curriculares dos cursos de formação de professores temas que incluam valores concernentes à plura- lidade étnica e cultural da sociedade brasi- leira;

III – desenvolver programas de extensão universitária destinados a aproximar jovens negros de tecnologias avançadas, assegura- do o princípio da proporcionalidade de gê- nero entre os beneficiários;

IV – estabelecer programas de cooperação técnica, nos estabelecimentos de ensino públicos, privados e comunitários, com as escolas de educação infantil, ensino funda-

mental, ensino médio e ensino técnico, para a formação docente baseada em princípios de equidade, de tolerância e de respeito às diferenças étnicas.

Art. 14. O poder público estimulará e apoiará ações socioeducacionais realizadas por entida- des do movimento negro que desenvolvam ati- vidades voltadas para a inclusão social, median- te cooperação técnica, intercâmbios, convênios e incentivos, entre outros mecanismos.

Art. 15. O poder público adotará programas de ação afirmativa.

Art. 16. O Poder Executivo federal, por meio dos órgãos responsáveis pelas políticas de promo- ção da igualdade e de educação, acompanhará e avaliará os programas de que trata esta Seção.

Seção III DA CULTURA

Art. 17. O poder público garantirá o reconheci- mento das sociedades negras, clubes e outras formas de manifestação coletiva da população negra, com trajetória histórica comprovada, como patrimônio histórico e cultural, nos ter- mos dos arts. 215 e 216 da Constituição Federal.

Art. 18. É assegurado aos remanescentes das comunidades dos quilombos o direito à preser- vação de seus usos, costumes, tradições e mani- festos religiosos, sob a proteção do Estado.

Parágrafo único. A preservação dos docu- mentos e dos sítios detentores de reminis- cências históricas dos antigos quilombos, tombados nos termos do § 5º do art. 216 da Constituição Federal, receberá especial atenção do poder público.

Art. 19. O poder público incentivará a celebra- ção das personalidades e das datas comemo- rativas relacionadas à trajetória do samba e de outras manifestações culturais de matriz africa- na, bem como sua comemoração nas institui- ções de ensino públicas e privadas.

Art. 20. O poder público garantirá o registro e a proteção da capoeira, em todas as suas mo-

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dalidades, como bem de natureza imaterial e de formação da identidade cultural brasileira, nos termos do art. 216 da Constituição Federal.

Parágrafo único. O poder público buscará garantir, por meio dos atos normativos ne- cessários, a preservação dos elementos for- madores tradicionais da capoeira nas suas relações internacionais.

Seção IV

DO ESPORTE E LAZER

Art. 21. O poder público fomentará o pleno acesso da população negra às práticas despor- tivas, consolidando o esporte e o lazer como di- reitos sociais.

Art. 22. A capoeira é reconhecida como despor- to de criação nacional, nos termos do art. 217 da Constituição Federal.

§ 1º A atividade de capoeirista será reco- nhecida em todas as modalidades em que a capoeira se manifesta, seja como esporte, luta, dança ou música, sendo livre o exercí- cio em todo o território nacional.

§ 2º É facultado o ensino da capoeira nas instituições públicas e privadas pelos capo- eiristas e mestres tradicionais, pública e for- malmente reconhecidos.

CAPÍTULO III

DO DIREITO À LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA E DE CRENÇA E AO

LIVRE EXERCÍCIO DOS CULTOS RELIGIOSOS

Art. 23. É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas litur- gias.

Art. 24. O direito à liberdade de consciência e de crença e ao livre exercício dos cultos religio- sos de matriz africana compreende:

I – a prática de cultos, a celebração de reu- niões relacionadas à religiosidade e a fun- dação e manutenção, por iniciativa privada, de lugares reservados para tais fins;

II – a celebração de festividades e cerimô- nias de acordo com preceitos das respecti- vas religiões;

III – a fundação e a manutenção, por inicia- tiva privada, de instituições beneficentes ligadas às respectivas convicções religiosas;

IV – a produção, a comercialização, a aquisi- ção e o uso de artigos e materiais religiosos adequados aos costumes e às práticas fun- dadas na respectiva religiosidade, ressalva- das as condutas vedadas por legislação es- pecífica;

V – a produção e a divulgação de publica- ções relacionadas ao exercício e à difusão das religiões de matriz africana;

VI – a coleta de contribuições financeiras de pessoas naturais e jurídicas de natureza privada para a manutenção das atividades religiosas e sociais das respectivas religiões;

VII – o acesso aos órgãos e aos meios de co- municação para divulgação das respectivas religiões;

VIII – a comunicação ao Ministério Públi- co para abertura de ação penal em face de atitudes e práticas de intolerância religiosa nos meios de comunicação e em quaisquer outros locais.

Art. 25. É assegurada a assistência religiosa aos praticantes de religiões de matrizes africanas in- ternados em hospitais ou em outras instituições de internação coletiva, inclusive àqueles sub- metidos a pena privativa de liberdade.

Art. 26. O poder público adotará as medidas ne- cessárias para o combate à intolerância com as religiões de matrizes africanas e à discriminação de seus seguidores, especialmente com o obje- tivo de:

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I – coibir a utilização dos meios de comuni- cação social para a difusão de proposições, imagens ou abordagens que exponham pes- soa ou grupo ao ódio ou ao desprezo por motivos fundados na religiosidade de matri- zes africanas;

II – inventariar, restaurar e proteger os do- cumentos, obras e outros bens de valor ar- tístico e cultural, os monumentos, manan- ciais, flora e sítios arqueológicos vinculados às religiões de matrizes africanas;

III – assegurar a participação proporcional de representantes das religiões de matri- zes africanas, ao lado da representação das demais religiões, em comissões, conselhos, órgãos e outras instâncias de deliberação vinculadas ao poder público.

CAPÍTULO IV DO ACESSO À TERRA E À MORADIA ADEQUADA

Seção I

DO ACESSO À TERRA

Art. 27. O poder público elaborará e implemen- tará políticas públicas capazes de promover o acesso da população negra à terra e às ativida- des produtivas no campo.

Art. 28. Para incentivar o desenvolvimento das atividades produtivas da população negra no campo, o poder público promoverá ações para viabilizar e ampliar o seu acesso ao financia- mento agrícola.

Art. 29. Serão assegurados à população negra a assistência técnica rural, a simplificação do acesso ao crédito agrícola e o fortalecimento da infraestrutura de logística para a comercializa- ção da produção.

Art. 30. O poder público promoverá a educa- ção e a orientação profissional agrícola para os trabalhadores negros e as comunidades negras rurais.

Art. 31. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas ter- ras é reconhecida a propriedade definitiva, de- vendo o Estado emitir-lhes os títulos respecti- vos.

Art. 32. O Poder Executivo federal elaborará e desenvolverá políticas públicas especiais volta- das para o desenvolvimento sustentável dos re- manescentes das comunidades dos quilombos, respeitando as tradições de proteção ambiental das comunidades.

Art. 33. Para fins de política agrícola, os rema- nescentes das comunidades dos quilombos re- ceberão dos órgãos competentes tratamento especial diferenciado, assistência técnica e li- nhas especiais de financiamento público, des- tinados à realização de suas atividades produti- vas e de infraestrutura.

Art. 34. Os remanescentes das comunidades dos quilombos se beneficiarão de todas as ini- ciativas previstas nesta e em outras leis para a promoção da igualdade étnica.

Seção II DA MORADIA

Art. 35. O poder público garantirá a implemen- tação de políticas públicas para assegurar o di- reito à moradia adequada da população negra que vive em favelas, cortiços, áreas urbanas subutilizadas, degradadas ou em processo de degradação, a fim de reintegrá-las à dinâmica urbana e promover melhorias no ambiente e na qualidade de vida.

Parágrafo único. O direito à moradia ade- quada, para os efeitos desta Lei, inclui não apenas o provimento habitacional, mas também a garantia da infraestrutura urba- na e dos equipamentos comunitários asso- ciados à função habitacional, bem como a assistência técnica e jurídica para a constru- ção, a reforma ou a regularização fundiária da habitação em área urbana.

Art. 36. Os programas, projetos e outras ações governamentais realizadas no âmbito do Siste-

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ma Nacional de Habitação de Interesse Social (SNHIS), regulado pela Lei no 11.124, de 16 de junho de 2005, devem considerar as peculiari- dades sociais, econômicas e culturais da popu- lação negra.

Parágrafo único. Os Estados, o Distrito Fe- deral e os Municípios estimularão e facilita- rão a participação de organizações e movi- mentos representativos da população negra na composição dos conselhos constituídos para fins de aplicação do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS).

Art. 37. Os agentes financeiros, públicos ou pri- vados, promoverão ações para viabilizar o aces- so da população negra aos financiamentos habi- tacionais.

CAPÍTULO V DO TRABALHO

Art. 38. A implementação de políticas voltadas para a inclusão da população negra no mercado de trabalho será de responsabilidade do poder público, observando-se:

I – o instituído neste Estatuto;

II – os compromissos assumidos pelo Brasil ao ratificar a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discri- minação Racial, de 1965;

III – os compromissos assumidos pelo Bra- sil ao ratificar a Convenção no 111, de 1958, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que trata da discriminação no empre- go e na profissão;

IV – os demais compromissos formalmente assumidos pelo Brasil perante a comunida- de internacional.

Art. 39. O poder público promoverá ações que assegurem a igualdade de oportunidades no mercado de trabalho para a população negra, inclusive mediante a implementação de me- didas visando à promoção da igualdade nas

contratações do setor público e o incentivo à adoção de medidas similares nas empresas e or- ganizações privadas.

§ 1º A igualdade de oportunidades será lo- grada mediante a adoção de políticas e pro- gramas de formação profissional, de empre- go e de geração de renda voltados para a população negra.

§ 2º As ações visando a promover a igual- dade de oportunidades na esfera da admi- nistração pública far-se-ão por meio de nor- mas estabelecidas ou a serem estabelecidas em legislação específica e em seus regula- mentos.

§ 3º O poder público estimulará, por meio de incentivos, a adoção de iguais medidas pelo setor privado.

§ 4º As ações de que trata o caput deste ar- tigo assegurarão o princípio da proporcio- nalidade de gênero entre os beneficiários.

§ 5º Será assegurado o acesso ao crédito para a pequena produção, nos meios rural e urbano, com ações afirmativas para mulhe- res negras.

§ 6º O poder público promoverá campa- nhas de sensibilização contra a marginaliza- ção da mulher negra no trabalho artístico e cultural.

§ 7º O poder público promoverá ações com o objetivo de elevar a escolaridade e a qua- lificação profissional nos setores da econo- mia que contem com alto índice de ocu- pação por trabalhadores negros de baixa escolarização.

Art. 40. O Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador (Codefat) formulará políticas, programas e projetos voltados para a inclusão da população negra no mercado de tra- balho e orientará a destinação de recursos para seu financiamento.

Art. 41. As ações de emprego e renda, promo- vidas por meio de financiamento para consti- tuição e ampliação de pequenas e médias em-

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presas e de programas de geração de renda, contemplarão o estímulo à promoção de em- presários negros.

Parágrafo único. O poder público estimula- rá as atividades voltadas ao turismo étnico com enfoque nos locais, monumentos e ci- dades que retratem a cultura, os usos e os costumes da população negra.

Art. 42. O Poder Executivo federal poderá im- plementar critérios para provimento de cargos em comissão e funções de confiança destinados a ampliar a participação de negros, buscando reproduzir a estrutura da distribuição étnica na- cional ou, quando for o caso, estadual, observa- dos os dados demográficos oficiais.

CAPÍTULO VI

DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

Art. 43. A produção veiculada pelos órgãos de comunicação valorizará a herança cultural e a participação da população negra na história do País.

Art. 44. Na produção de filmes e programas destinados à veiculação pelas emissoras de te- levisão e em salas cinematográficas, deverá ser adotada a prática de conferir oportunidades de emprego para atores, figurantes e técnicos ne- gros, sendo vedada toda e qualquer discrimina- ção de natureza política, ideológica, étnica ou artística.

Parágrafo único. A exigência disposta no caput não se aplica aos filmes e programas que abordem especificidades de grupos ét- nicos determinados.

Art. 45. Aplica-se à produção de peças publicitá- rias destinadas à veiculação pelas emissoras de televisão e em salas cinematográficas o dispos- to no art. 44.

Art. 46. Os órgãos e entidades da administração pública federal direta, autárquica ou fundacio- nal, as empresas públicas e as sociedades de economia mista federais deverão incluir cláusu-

las de participação de artistas negros nos con- tratos de realização de filmes, programas ou quaisquer outras peças de caráter publicitário.

§ 1º Os órgãos e entidades de que trata este artigo incluirão, nas especificações para contratação de serviços de consultoria, con- ceituação, produção e realização de filmes, programas ou peças publicitárias, a obriga- toriedade da prática de iguais oportunida- des de emprego para as pessoas relaciona- das com o projeto ou serviço contratado.

§ 2º Entende-se por prática de iguais opor- tunidades de emprego o conjunto de medi- das sistemáticas executadas com a finalida- de de garantir a diversidade étnica, de sexo e de idade na equipe vinculada ao projeto ou serviço contratado.

§ 3º A autoridade contratante poderá, se considerar necessário para garantir a prá- tica de iguais oportunidades de emprego, requerer auditoria por órgão do poder pú- blico federal.

§ 4º A exigência disposta no caput não se aplica às produções publicitárias quando abordarem especificidades de grupos étni- cos determinados.

TÍTULO III

Do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial

(SINAPIR)

CAPÍTULO I

DISPOSIÇÃO PRELIMINAR

Art. 47. É instituído o Sistema Nacional de Pro- moção da Igualdade Racial (Sinapir) como for- ma de organização e de articulação voltadas à implementação do conjunto de políticas e ser- viços destinados a superar as desigualdades ét-

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nicas existentes no País, prestados pelo poder público federal.

§ 1º Os Estados, o Distrito Federal e os Mu- nicípios poderão participar do Sinapir me- diante adesão.

§ 2º O poder público federal incentivará a sociedade e a iniciativa privada a participar do Sinapir.

CAPÍTULO II DOS OBJETIVOS

Art. 48. São objetivos do Sinapir:

I – promover a igualdade étnica e o com- bate às desigualdades sociais resultantes do racismo, inclusive mediante adoção de ações afirmativas;

II – formular políticas destinadas a comba- ter os fatores de marginalização e a promo- ver a integração social da população negra;

III – descentralizar a implementação de ações afirmativas pelos governos estaduais, distrital e municipais;

IV – articular planos, ações e mecanismos voltados à promoção da igualdade étnica;

V – garantir a eficácia dos meios e dos ins- trumentos criados para a implementação das ações afirmativas e o cumprimento das metas a serem estabelecidas.

CAPÍTULO III

DA ORGANIZAÇÃO E COMPETÊNCIA

Art. 49. O Poder Executivo federal elaborará plano nacional de promoção da igualdade racial contendo as metas, princípios e diretrizes para a implementação da Política Nacional de Promo- ção da Igualdade Racial (PNPIR).

§ 1º A elaboração, implementação, coor- denação, avaliação e acompanhamento da

PNPIR, bem como a organização, articula- ção e coordenação do Sinapir, serão efetiva- dos pelo órgão responsável pela política de promoção da igualdade étnica em âmbito nacional.

§ 2º É o Poder Executivo federal autoriza- do a instituir fórum intergovernamental de promoção da igualdade étnica, a ser coor- denado pelo órgão responsável pelas políti- cas de promoção da igualdade étnica, com o objetivo de implementar estratégias que visem à incorporação da política nacional de promoção da igualdade étnica nas ações governamentais de Estados e Municípios.

§ 3º As diretrizes das políticas nacional e regional de promoção da igualdade étnica serão elaboradas por órgão colegiado que assegure a participação da sociedade civil.

Art. 50. Os Poderes Executivos estaduais, distri- tal e municipais, no âmbito das respectivas esfe- ras de competência, poderão instituir conselhos de promoção da igualdade étnica, de caráter permanente e consultivo, compostos por igual número de representantes de órgãos e entida- des públicas e de organizações da sociedade ci- vil representativas da população negra.

Parágrafo único. O Poder Executivo priori- zará o repasse dos recursos referentes aos programas e atividades previstos nesta Lei aos Estados, Distrito Federal e Municípios que tenham criado conselhos de promoção da igualdade étnica.

CAPÍTULO IV

DAS OUVIDORIAS PERMANENTES E DO ACESSO À JUSTIÇA E À

SEGURANÇA

Art. 51. O poder público federal instituirá, na forma da lei e no âmbito dos Poderes Legislativo e Executivo, Ouvidorias Permanentes em Defe- sa da Igualdade Racial, para receber e encami- nhar denúncias de preconceito e discriminação com base em etnia ou cor e acompanhar a im-

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plementação de medidas para a promoção da igualdade.

Art. 52. É assegurado às vítimas de discrimi- nação étnica o acesso aos órgãos de Ouvidoria Permanente, à Defensoria Pública, ao Ministé- rio Público e ao Poder Judiciário, em todas as suas instâncias, para a garantia do cumprimento de seus direitos.

Parágrafo único. O Estado assegurará aten- ção às mulheres negras em situação de vio- lência, garantida a assistência física, psíqui- ca, social e jurídica.

Art. 53. O Estado adotará medidas especiais para coibir a violência policial incidente sobre a população negra.

Parágrafo único. O Estado implementará ações de ressocialização e proteção da ju- ventude negra em conflito com a lei e ex- posta a experiências de exclusão social.

Art. 54. O Estado adotará medidas para coibir atos de discriminação e preconceito praticados por servidores públicos em detrimento da po- pulação negra, observado, no que couber, o dis- posto na Lei no 7.716, de 5 de janeiro de 1989.

Art. 55. Para a apreciação judicial das lesões e das ameaças de lesão aos interesses da popula- ção negra decorrentes de situações de desigual- dade étnica, recorrer-se-á, entre outros instru- mentos, à ação civil pública, disciplinada na Lei no 7.347, de 24 de julho de 1985.

CAPÍTULO V

DO FINANCIAMENTO DAS INICIATIVAS DE PROMOÇÃO DA

IGUALDADE RACIAL

Art. 56. Na implementação dos programas e das ações constantes dos planos plurianuais e dos orçamentos anuais da União, deverão ser ob- servadas as políticas de ação afirmativa a que se refere o inciso VII do art. 4º desta Lei e outras políticas públicas que tenham como objetivo

promover a igualdade de oportunidades e a in- clusão social da população negra, especialmen- te no que tange a:

I – promoção da igualdade de oportunida- des em educação, emprego e moradia;

II – financiamento de pesquisas, nas áreas de educação, saúde e emprego, voltadas para a melhoria da qualidade de vida da po- pulação negra;

III – incentivo à criação de programas e veí- culos de comunicação destinados à divulga- ção de matérias relacionadas aos interesses da população negra;

IV – incentivo à criação e à manutenção de microempresas administradas por pessoas autodeclaradas negras;

V – iniciativas que incrementem o acesso e a permanência das pessoas negras na edu- cação fundamental, média, técnica e supe- rior;

VI – apoio a programas e projetos dos go- vernos estaduais, distrital e municipais e de entidades da sociedade civil voltados para a promoção da igualdade de oportunidades para a população negra;

VII – apoio a iniciativas em defesa da cultu- ra, da memória e das tradições africanas e brasileiras.

§ 1º O Poder Executivo federal é autorizado a adotar medidas que garantam, em cada exercício, a transparência na alocação e na execução dos recursos necessários ao finan- ciamento das ações previstas neste Estatu- to, explicitando, entre outros, a proporção dos recursos orçamentários destinados aos programas de promoção da igualdade, es- pecialmente nas áreas de educação, saúde, emprego e renda, desenvolvimento agrário, habitação popular, desenvolvimento regio- nal, cultura, esporte e lazer.

§ 2º Durante os 5 (cinco) primeiros anos, a contar do exercício subsequente à publica- ção deste Estatuto, os órgãos do Poder Exe-

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cutivo federal que desenvolvem políticas e programas nas áreas referidas no § 1º des- te artigo discriminarão em seus orçamen- tos anuais a participação nos programas de ação afirmativa referidos no inciso VII do art. 4º desta Lei.

§ 3º O Poder Executivo é autorizado a ado- tar as medidas necessárias para a adequada implementação do disposto neste artigo, podendo estabelecer patamares de parti- cipação crescente dos programas de ação afirmativa nos orçamentos anuais a que se refere o § 2º deste artigo.

§ 4º O órgão colegiado do Poder Executi- vo federal responsável pela promoção da igualdade racial acompanhará e avaliará a programação das ações referidas neste ar- tigo nas propostas orçamentárias da União.

Art. 57. Sem prejuízo da destinação de recursos ordinários, poderão ser consignados nos orça- mentos fiscal e da seguridade social para finan- ciamento das ações de que trata o art. 56:

I – transferências voluntárias dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios;

II – doações voluntárias de particulares;

III – doações de empresas privadas e orga- nizações não governamentais, nacionais ou internacionais;

IV – doações voluntárias de fundos nacio- nais ou internacionais;

V – doações de Estados estrangeiros, por meio de convênios, tratados e acordos in- ternacionais.

TÍTULO IV Disposições Finais

Art. 58. As medidas instituídas nesta Lei não ex- cluem outras em prol da população negra que tenham sido ou venham a ser adotadas no âm-

bito da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios.

Art. 59. O Poder Executivo federal criará instru- mentos para aferir a eficácia social das medidas previstas nesta Lei e efetuará seu monitoramen- to constante, com a emissão e a divulgação de relatórios periódicos, inclusive pela rede mun- dial de computadores.

Art. 60. Os arts. 3º e 4º da Lei nº 7.716, de 1989, passam a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 3º ...

Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem, por motivo de discriminação de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, obstar a promoção funcional.” (NR)

“Art. 4º ...

§ 1º Incorre na mesma pena quem, por mo- tivo de discriminação de raça ou de cor ou práticas resultantes do preconceito de des- cendência ou origem nacional ou étnica:

I – deixar de conceder os equipamentos ne- cessários ao empregado em igualdade de condições com os demais trabalhadores;

II – impedir a ascensão funcional do empre- gado ou obstar outra forma de benefício profissional;

III – proporcionar ao empregado tratamen- to diferenciado no ambiente de trabalho, especialmente quanto ao salário.

§ 2º Ficará sujeito às penas de multa e de prestação de serviços à comunidade, in- cluindo atividades de promoção da igualda- de racial, quem, em anúncios ou qualquer outra forma de recrutamento de trabalha- dores, exigir aspectos de aparência próprios de raça ou etnia para emprego cujas ativida- des não justifiquem essas exigências.” (NR) Art. 61. Os arts. 3º e 4º da Lei nº 9.029, de 13 de abril de 1995, passam a vigorar com a seguinte redação:

(14)

“Art. 3º Sem prejuízo do prescrito no art. 2º e nos dispositivos legais que tipificam os crimes resultantes de preconceito de etnia, raça ou cor, as infrações do disposto nesta Lei são passíveis das seguintes cominações:

...” (NR)

“Art. 4º O rompimento da relação de trabalho por ato discriminatório, nos moldes desta Lei, além do direito à reparação pelo dano moral, fa- culta ao empregado optar entre:

...” (NR) Art. 62. O art. 13 da Lei no 7.347, de 1985, passa a vigorar acrescido do seguinte § 2º, renume- rando-se o atual parágrafo único como § 1º:

“Art. 13. ...

§ 1º ...

§ 2º Havendo acordo ou condenação com fundamento em dano causado por ato de discriminação étnica nos termos do dispos- to no art. 1º desta Lei, a prestação em di- nheiro reverterá diretamente ao fundo de que trata o caput e será utilizada para ações de promoção da igualdade étnica, confor- me definição do Conselho Nacional de Pro- moção da Igualdade Racial, na hipótese de extensão nacional, ou dos Conselhos de Promoção de Igualdade Racial estaduais ou locais, nas hipóteses de danos com ex- tensão regional ou local, respectivamente.”

(NR)

Art. 63. O § 1º do art. 1º da Lei nº 10.778, de 24 de novembro de 2003, passa a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 1º ...

§ 1º Para os efeitos desta Lei, entende-se por violência contra a mulher qualquer ação ou conduta, baseada no gênero, inclusive decorrente de discriminação ou desigualda- de étnica, que cause morte, dano ou sofri- mento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto no âmbito público quanto no privado.

...” (NR)

Art. 64. O § 3º do art. 20 da Lei nº 7.716, de 1989, passa a vigorar acrescido do seguinte in- ciso III:

“Art. 20. ...

§ 3º ...

III – a interdição das respectivas mensagens ou páginas de informação na rede mundial de computadores.

...” (NR) Art. 65. Esta Lei entra em vigor 90 (noventa) dias após a data de sua publicação.

Brasília, 20 de julho de 2010; 189º da Indepen- dência e 122º da República.

(15)

ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

LEI Nº 13.694, DE 19 DE JANEIRO DE 2011

(publicada no DOE nº 015, de 20 de janeiro de 2011)

Institui o Estatuto Estadual da Igualdade Racial e dá outras providências.

O GOVERNADOR DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL.

Faço saber, em cumprimento ao disposto no ar- tigo 82, inciso IV, da Constituição do Estado, que a Assembléia Legislativa aprovou e eu sanciono e promulgo a Lei seguinte:

Art. 1º Esta Lei institui o Estatuto Estadual da Igualdade Racial e de Combate à Intolerância Religiosa contra quaisquer religiões, como ação estadual de desenvolvimento do Rio Grande do Sul, objetivando a superação do preconceito, da discriminação e das desigualdades raciais.

§ 1º Para efeito deste Estatuto, considerar- -se-á discriminação racial toda distinção, exclusão ou restrição baseada em raça, cor, descendência, origem nacional ou étnica que tenha por objetivo cercear o reconhe- cimento, o gozo ou o exercício dos direitos humanos e das liberdades fundamentais em qualquer campo da vida pública ou pri- vada, asseguradas as disposições contidas nas legislações pertinentes à matéria.

§ 2º Para efeito deste Estatuto, considerar- -se-á desigualdade racial toda situação in- justificada de diferenciação de acesso e fruição de bens, serviços e oportunidades, nas esferas pública e privada, em virtude de raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica.

§ 3º Para beneficiar-se do amparo deste Estatuto, considerar-se-á negro aquele que se declare, expressamente, como negro, pardo, mestiço de ascendência africana, ou

através de palavra ou expressão equivalen- te que o caracterize negro.

§ 4º Para efeito deste Estatuto, serão con- sideradas ações afirmativas os programas e as medidas especiais adotados pelo Estado e pela iniciativa privada para a correção das desigualdades raciais e para a promoção da igualdade de oportunidades.

§ 5º O Poder Público adotará as medidas necessárias para o combate à intolerância para com as religiões, inclusive coibindo a utilização dos meios de comunicação social para a difusão de proposições que expo- nham pessoa ou grupo ao ódio ou ao des- prezo por motivos fundados na religiosida- de.

Art. 2º O Estatuto Estadual da Igualdade Racial e de Combate à Intolerância Religiosa orienta- rá as políticas públicas, os programas e as ações implementadas no Estado, visando a:

I – medidas reparatórias e compensatórias para os negros pelas sequelas e consequ- ências advindas do período da escravidão e das práticas institucionais e sociais que con- tribuíram para aprofundar as desigualdades raciais presentes na sociedade;

II – medidas inclusivas, nas esferas pública e privada, que assegurem a representação equilibrada dos diversos segmentos raciais componentes da sociedade gaúcha, solidifi- cando a democracia e a participação de to- dos.

Art. 3º A participação dos negros em igualdade de condições na vida social, econômica e cultu- ral do Estado do Rio Grande do Sul será promo- vida através de medidas que assegurem:

I – o reconhecimento e a valorização da composição pluriétnica da sociedade sul- -riograndense, resgatando a contribuição

(16)

dos negros na história, na cultura, na políti- ca e na economia do Rio Grande do Sul;

II – as políticas públicas, os programas e as medidas de ação afirmativa, combatendo especificamente as desigualdades raciais que atingem as mulheres negras;

III – o resgate, a preservação e a manuten- ção da memória histórica legada à socieda- de gaúcha pelas tradições e práticas socio- culturais negras;

IV – o adequado enfrentamento e supera- ção das desigualdades raciais pelas estru- turas institucionais do Estado, com a imple- mentação de programas especiais de ação afirmativa na esfera pública, visando ao en- frentamento emergencial das desigualda- des raciais;

V – a promoção de ajustes normativos para aperfeiçoar o combate ao racismo em todas as suas manifestações individuais, estrutu- rais e institucionais;

VI – o apoio às iniciativas oriundas da so- ciedade civil que promovam a igualdade de oportunidades e o combate às desigualda- des raciais.

CAPÍTULO I

DO DIREITO À VIDA E À SAÚDE

Art. 4º A saúde dos negros será garantida me- diante políticas sociais e econômicas que visem à prevenção e ao tratamento de doenças gene- ticamente determinadas e seus agravos.

Parágrafo único. O acesso universal e igua- litário ao Sistema Único de Saúde – SUS – para a promoção, proteção e recuperação da saúde da população negra será propor- cionado através de ações e de serviços foca- lizados nas peculiaridades dessa parcela da população.

Art. 5º Os órgãos de saúde estadual monitora- rão as condições da população negra para sub-

sidiar o planejamento mediante, dentre outras, as seguintes ações:

I – a promoção da saúde integral da popula- ção negra, priorizando a redução das desi- gualdades étnicas e o combate à discrimina- ção nas instituições e serviços do SUS;

II – a melhoria da qualidade dos sistemas de informação do SUS no que tange à coleta, ao processamento e à análise dos dados por cor, etnia e gênero;

III – a inclusão do conteúdo da saúde da po- pulação negra nos processos de formação e de educação permanente dos trabalhado- res da saúde;

IV – a inclusão da temática saúde da po- pulação negra nos processos de formação das lideranças de movimentos sociais para o exercício da participação e controle social no SUS.

Parágrafo único. Os membros das comuni- dades remanescentes de quilombos serão beneficiários de incentivos específicos para a garantia do direito à saúde, incluindo me- lhorias nas condições ambientais, no sanea- mento básico, na segurança alimentar e nu- tricional e na atenção integral à saúde.

Art. 6º Serão instituídas políticas públicas de incentivo à pesquisa do processo de saúde e doença da população negra nas instituições de ensino, com ênfase:

I – nas doenças geneticamente determina- das;

II – na contribuição das manifestações ne- gras de promoção à saúde;

III – na medicina popular de matriz africana;

IV – na percepção popular do processo saú- de/doença;

V – na escolha da terapêutica e eficácia dos tratamentos;

VI – no impacto do racismo sobre as doen- ças.

Art. 7º Poderão ser priorizadas pelo Poder Pú- blico iniciativas que visem à:

(17)

I – criação de núcleos de estudos sobre a saúde da população negra;

II – implementação de cursos de pós-gradu- ação com linhas de pesquisa e programas sobre a saúde da população negra no âmbi- to das universidades;

III – inclusão da questão da saúde da popu- lação negra como tema transversal nos cur- rículos dos ensinos Médio e Superior;

IV – inclusão de matérias sobre etiologia, diagnóstico e tratamento das doenças pre- valentes na população negra e medicina de matriz africana, nos cursos e treinamentos dos profissionais do SUS;

V – promoção de seminários e eventos para discutir e divulgar os temas da saúde da po- pulação negra nos serviços de saúde.

Art. 8º Os negros terão políticas públicas desti- nadas à redução do risco de doenças que têm maior incidência, em especial, a doença falcifor- me, as hemoglobinopatias, o lúpus, a hiperten- são, o diabetes e os miomas.

CAPÍTULO II

DO DIREITO À CULTURA, À EDUCAÇÃO, AO ESPORTE E AO LAZER

Art. 9º O Poder Público promoverá políticas e programas de ação afirmativa que assegurem igualdade de acesso ao ensino público para os negros, em todos os níveis de educação, pro- porcionalmente a sua parcela na composição da população do Estado, ao mesmo tempo em que incentivará os estabelecimentos de ensino pri- vado a adotarem tais políticas e programas.

Art. 10. O Estado deve promover o acesso dos negros ao ensino gratuito, às atividades esporti- vas e de lazer e apoiar a iniciativa de entidades que mantenham espaço para promoção social desta parcela da população.

Art. 11. Nas datas comemorativas de caráter cí- vico, as instituições de ensino públicas deverão inserir nas aulas, palestras, trabalhos e ativida-

des afins, dados históricos sobre a participação dos negros nos fatos comemorados.

Art. 12. As instituições de ensino deverão res- peitar a diversidade racial quando promoverem debates, palestras, cursos ou atividades afins, convidando negros, entre outros, para discorrer sobre os temas apresentados.

Art. 13. O Poder Público deverá promover cam- panhas que divulguem a literatura produzida pelos negros e aquela que reproduza a história, as tradições e a cultura do povo negro.

Art. 14. Nas instituições de ensino, públicas e privadas, deverá ser oportunizado o aprendi- zado e a prática da capoeira, como atividade esportiva, cultural e lúdica, sendo facultada a participação dos mestres tradicionais de capo- eira para atuarem como instrutores desta arte esporte.

Art. 15. O Estado deverá promover programas de incentivo, inclusão e permanência da popu- lação negra nos ensinos Médio, Técnico e Supe- rior, adotando medidas para:

I – incentivar ações que mobilizem e sen- sibilizem as instituições privadas de Ensino Superior para que adotem as políticas e ações afirmativas;

II – incentivar e apoiar a criação de cursos de acesso ao Ensino Superior para estudan- tes negros, como mecanismo para viabilizar uma inclusão mais ampla e adequada des- tes nas instituições;

III – dar cumprimento ao disposto na Lei Fe- deral nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da edu- cação nacional, e na Lei Federal nº 12.288, de 20 de julho de 2010, que institui o Esta- tuto da Igualdade Racial; altera as Leis nºs 7.716, de 5 de janeiro de 1989, 9.029, de 13 de abril de 1995, 7.347, de 24 de julho de 1985, e 10.778, de 24 de novembro de 2003, no que tange a obrigatoriedade da inclusão da História e da Cultura Afrobrasi- leiras nos currículos escolares dos ensinos Médio e Fundamental;

(18)

IV – estabelecer programas de cooperação técnica com as escolas de Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio e Ensi- no Técnico para a capacitação de professo- res para o ensino da História e da Cultura Negras e para o desenvolvimento de uma educação baseada nos princípios da equi- dade, tolerância e respeito às diferenças ra- ciais;

V – desenvolver, elaborar e editar materiais didáticos e paradidáticos que subsidiem o ensino, a divulgação, o debate e as ativida- des afins sobre a temática da História e Cul- tura Negras;

VI – estimular a implementação de dire- trizes curriculares que abordem as ques- tões raciais em todos os níveis de ensino, apoiando projetos de pesquisa nas áreas das relações raciais, das ações afirmativas, da História e da Cultura Negras;

VII – apoiar grupos, núcleos e centros de pesquisa, nos diversos programas de pós- -graduação, que desenvolvam temáticas de interesse da população negra;

VIII – desenvolver programas de extensão universitária destinados a aproximar jovens negros de tecnologias avançadas, assegura- do o princípio da proporcionalidade de gê- nero entre os beneficiários.

Art. 16. O Estado deverá promover políticas que valorizem a cultura “Hip-Hop” em suas manifes- tações de canto do “Rap”, da instrumentação dos “DJs”, da dança do “break dance” e da pin- tura do grafite.

CAPÍTULO III DO ACESSO AO MERCADO DE TRABALHO

Art. 17. O Poder Público deverá promover po- líticas afirmativas que assegurem igualdade de oportunidades aos negros no acesso aos cargos públicos, proporcionalmente a sua parcela na

composição da população do Estado, e incenti- vará a uma maior equidade para os negros nos empregos oferecidos na iniciativa privada.

Parágrafo único. Para enfrentar a situação de desigualdade de oportunidades, deverão ser implementadas políticas e programas de formação profissional, emprego e geração de renda voltadas aos negros.

Art. 18. A inclusão do quesito raça, a ser regis- trado segundo a autoclassificação, será obriga- tória em todos os registros administrativos dire- cionados a empregadores e trabalhadores dos setores público e privado.

CAPÍTULO IV

DAS TERRAS QUILOMBOLAS

Art. 19. Aos remanescentes das comunidades de quilombos que estejam ocupando terras qui- lombolas no Rio Grande do Sul, será reconheci- da a propriedade definitiva das mesmas, estan- do o Estado autorizado a emitir-lhes os títulos respectivos, em observância ao direito assegu- rado no art. 68 do Ato das Disposições Consti- tucionais Transitórias da Constituição Federal e na Lei nº 11.731, de 9 de janeiro de 2002, que dispõe sobre a regularização fundiária de áreas ocupadas por remanescentes de comunidades de quilombos.

CAPÍTULO V

DA COMUNICAÇÃO SOCIAL

Art. 20. A idealização, a realização e a exibição das peças publicitárias veiculadas pelo Poder Público deverão observar percentual de artis- tas, modelos e trabalhadores afrodescendentes em número equivalente ao resultante do censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

− IBGE − de afro-brasileiros na composição da população do Rio Grande do Sul.

Art. 21. A produção veiculada pelos órgãos de comunicação valorizará a herança cultural e a

(19)

participação da população negra na história do Estado.

Art. 22. Na produção de filmes, programas e pe- ças publicitárias destinados à veiculação pelas emissoras de televisão e em salas cinematográ- ficas, deverá ser adotada a prática de conferir oportunidades de emprego para atores, figu- rantes e técnicos negros, sendo vedada toda e qualquer discriminação de natureza política, ideológica, étnica ou artística.

Parágrafo único. A exigência disposta no

“caput” não se aplica aos filmes e aos pro- gramas que abordem especificidades de grupos étnicos determinados.

Art. 23. Os órgãos e as entidades da Administra- ção Pública Estadual poderão incluir cláusulas de participação de artistas negros nos contratos de realização de filmes, programas ou quaisquer outras peças de caráter publicitário nos termos da Lei Federal nº 12.288/2010.

§ 1º Os órgãos e as entidades de que tra- ta este artigo incluirão, nas especificações para contratação de serviços de consulto- ria, conceituação, produção e realização de filmes, programas ou peças publicitárias, a obrigatoriedade da prática de iguais opor- tunidades de emprego para as pessoas re- lacionadas com o projeto ou serviço contra- tado.

§ 2º Entende-se por prática de iguais opor- tunidades de emprego o conjunto de medi- das sistemáticas executadas com a finalida- de de garantir a diversidade étnica, de sexo e de idade na equipe vinculada ao projeto ou serviço contratado.

§ 3º A autoridade contratante poderá, se considerar necessário para garantir a prá- tica de iguais oportunidades de emprego, requerer auditoria por órgão do Poder Pú- blico.

§ 4º A exigência disposta no “caput” não se aplica às produções publicitárias quando abordarem especificidades de grupos étni- cos determinados.

CAPÍTULO VI

DAS DISPOSIÇÕES FINAIS

Art. 24. Esta Lei entra em vigor 120 (cento e vin- te) dias após sua publicação.

PALÁCIO PIRATINI, em Porto Alegre, 19 de janeiro de 2011.

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