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Histórias de professores e processos de formaçãosubjetivação

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H I S T Ó R I A S

D E P R O F E S S O R E S

E P R O C E S S O S

D E F O R M A Ç Ã O /S U B J E T I V A Ç Ã O utsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

(HISTORIES OF TEACHERS ANO PROCESSES OF FORMATION/SUBJETIVATION)

RESUMO

hgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

E s t e t r a b a l h o a p r e s e n t a a l g u m a s c a t e g o r i a s a n a

-l í t i c a s d a p e s q u i s a " I m a g e n s d e P r o fe s s o r : s i g n i fi c a

-ç õ e s d o t r a b a l h o d o c e n t e " , ] r e a l i z a d a n a r e d e m u n i c i p a l

d e e n s i n o d e S a n t a M a r i a , R S . A t r a v é s d o t r a b a l h o c o m

a s h i s t ó r i a s d e v i d a e r e l a t o s a u t o b i o g r á fi c o s l a n ç a -m o s u -m o l h a r , u -m a e s c u t a , s o b r e o s p r o c e s s o s d e c o n s

-t r u ç ã o er e c o n s t r u ç ã o d o s e r p r o fe s s o r . A a n á l i s e d e s t e s p r o c e s s o s s ã o d i s p o s i t i v o s p a r a a i n s t a u r a ç ã o d e u m a

fo r m a ç ã o c o n t i n u a d a .

P a l a v r a s - c h a v e : h i s t ó r i a s d e p r o f e s s o r e s , p r o c e s s o s

d e f o r m a ç ã o , s u b j e t i v i d a d e s .

ABSTRACT

T h i s w o r k p r e s e n t s s o m e a n a l y t i c c a t e g o r i e s o f

t h e r e s e a r c h " I m a g e s o fT e a c h e r : s i g n i fi c a n c e s o ft h e

e d u c a t i o n a l " w o r k , a c c o m p l i s h e d i n t h e m u n i c i p a l n e t

o ft e a c h i n g o fS a n t a M a r i a , R . S . . T h r o u g h t h e w o r k w i t h

t h e l i fe h i s t o r i e s a n d a u t o b i o g r a p h i c a l r e p o r t s l a u n c h e d

a g l a n c e , o n e l i s t e n s , a b o u t t h e c o n s t r u c t i o n p r o c e s s e s

a n d r e c o n s t r u c t i o n o fb e i n g a t e a c h e r . T h e a n a l y s i s o f

t h e s e p r o c e s s e s i s d e v i c e s fo r t h e i n s t a u r a ç ã o o f a

c o n t i n u o u s fo r m a t i o n .

K e y w o r d s : t e a c h e r s '

histories,

f o r m a t i o n p r o c e s s e s , s u b j e c t i v i t i e s .

MLKJIHGFEDCBA

VALESKA FORTES DE OLIVEIRA I

-CH

U

r - .• • •

t:S

-

r I ,

P E R 'C D /(~ O S

Esta investigação se coloca na

perspec-tiva de Bueno et ai (1993, p308), na qual, na

intenção de revisitar o passado através do tra-balho da memória, o professor se permite um "Tal exercício, ao mesmo tempo que os leva a

desenvolver um trabalho de desconstrução das

imagens que a memória oficial guardou de sua profissão", possibilitando uma reconstrução do modo próprio de se perceberem."

Como uma memória subterrânea, como

grupo sujeitado, o professor, ao relatar a sua

história de vida, sistematiza acontecimentos

significativos no seu processo de formação e

subjetivação. Esse trabalho de reconstrução de si mesmo tende a definir o lugar social do pro-fessor e suas relações com os outros.

Que lembranças têm os professores do

cotidiano das escolas que fizeram parte da sua

formação? Que práticas em sala de aula lhes

acionaram dispositivos de produção do ser

professor? Que professores são lembrados

através do trabalho da memória? Os

mode-los e práticas dos seus professores

influenci-aram na escolha do magistério? Como o

professor se tornou o que é na sala de aula

hoje? O que atualizam nas suas práticas?

Essas questões são pistas da investigação e

do trabalho de formação que está sendo

rea-lizado com o material organizado, através do

trabalho da memória.

Ao colocarmos o professor no centro da

investigação, partilhamos da intenção de

ins-tituir uma nova cultura na formação de

pro-fessores, já lançada por Nóvoa (1994a

).

I

Professora Titular do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSM, R.S. Pesquisadora do CNPq.

2 Pesquisa lnterinstitucional financiada pelo CNPq, F APERGS e FIPE - UFSM.

(2)

Olhando os processos de formação de professo-res temos um debate, instalado nos cursos de

licencia-turas, centrado nos currículos, nos conteúdos das

disciplinas, nas metodologias. Ainda no âmbito das

universidades temos os projetos de extensão,

caracte-rizados por "treinamento", "aperfeiçoamento",

"atua-lização" e tantas outras denominações, que temos

atribuído historicamente à preocupação com a

forma-ção dos profissionais na área da educação.

Na análise dos currículos dos cursos de

licencia-turas, não construímos um consenso do que seria o

mí-nimo comum exigido e quais seriam essas "disciplinas" que teriam o objetivo de discutir o "ser professor". Pen-sando o problema a partir dos seus fragmentos, que é a organização dos cursos de formação, de disciplinas que

não se comunicam, chegamos então, a' uma questão

paralisante que passa a discutir programas, carga horá-ria necessáhorá-ria e disciplinas, deixando entre outras

inda-gações, uma que nos parece ser o pressuposto inicial - a

concepção de formação.

Ao abordar a progressiva desqualificação do

tra-balho docente, Fonseca (1997, p.25) aponta que

hgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

e s s e p r o c e s s o a g r a v a - s e p r o g r e s s i v a m e n t e , t e n

-d o e m v i s t a a p e r m a n ê n c i a d o m o d e l o d e fo r

-m a ç ã o p r e d o m i n a n t e , l i c e n c i a t u r a s c u r t a s e

p l e n a s e s t r u t u r a d a s c o m b a s e n a d i c o t o m i a p r e

-p a r a ç ã o p e d a g ó g i c a ! c o n h e c i m e n t o e s p e c i fi c o

d a d i s c i p l i n a , p r e p a r a ç ã o p a r a o e n s i n o / p r e

-p a r a ç ã o p a r a a p e s q u i s a .

Em primeiro lugar, poderíamos reafirmar a

ne-cessidade de desmonte da concepção de formação que

termina no ato da "formatura". A complexidade do nosso

tempo, a velocidade com que as informações e o

conhecimento são produzidos, e, as exigências para

compreender e responder minimamente as questões

co-tidianas, exigem de nós uma atenção e um tratamento diferenciado.

Nesse sentido é que nos propomos olhar a

for-mação de professores a partir da produção do

profes-sor, da sua subjetividade, deslocando-a das questões

mencionadas acima.

No cenário dos estudos sobre formação de

profes-sores, produzidos mais recentemente, é significativa a

ênfase colocada sobre o professor, o professor como pes-soa. Como aponta Bueno (1996, p.8) "Esta 'viragem', tal como António Nóvoa (1992) caracteriza o redirecio-namento das pesquisas e das práticas de formação, tem

início, segundo ele, com a obra de Ada Abraham - O

p r o fe s s o r éu m a p e s s o a - publicada em 1984."

Olhando sob este aspecto, vivenciamos a

urgên-cia do debate sobre a subjetividade, banida por um

lon-go período, das construções científicas. Subjetividade

entendida no contexto que nos propomos, como produ-ção, como processo de subjetivação. (Guattari e Rolnik, 1996, p. 25,32 ).

P r o p o n h o , a o c o n t r á r i o , a i d é i a d e u m a s u b j e

-t i v i d a d e d e n a t u r e za i n d u s t r i a l , m a q u i n i c a , o u

s e j a , e s s e n c i a l m e n t e fa b r i c a d a , m o d e l a d a , r e

-c e b i d a , c o n s u m i d a .P a r e c e o p o r t u n o p a r t i r d e

u m a d e fi n i ç ã o a m p l a d a s u b j e t i v i d a d e , c o m o a

q u e e s t o u p r o p o n d o , p a r a , e m s e g u i d a , c o n s i

-d e r a r c o m o c a s o s p a r t i c u l a r e s o s m o d o s d e

i n d i v i d u a ç ã o d a s u b j e t i v i d a d e .

Ao processo de criação, um processo de metafor-mose pessoal e cultural, momentos em que a subjetivi-dade se reconhece num corpo que diz eu, Guattari (1996, p.33), atribui o conceito de singularização.

S e a c e i t a m o s e s s a h i p ó t e s e , v e m o s q u e a c i r

-c u n s -c r i ç ã o d o s a n t a g o n i s m o s s o c i a i s a o s c a m

-p o s e c o n ô m i c o s e p o l í t i c o s - a c i r c u n s c r i ç ã o d o

a l v o d e l u t a àr e a p r o p r i a ç ã o d o s m e i o s d e p r o -d u ç ã o o u d o s m e i o s d e e x p r e s s ã o p o l í t i c a e n

-c o n t r a - s e s u p e r a d a . Ép r e c i s o a d e n t r a r o c a m p o d a e c o n o m i a s u b j e t i v a e n ã o m a i s r e s t r i n g i r - s e

a o d a e c o n o m i a p o l í t i c a .

Tentando adentrar o campo da economia

subjeti-va, nos propomos através dos relatos autobiográficos

orais e escritos dos professores, conhecer os

dispositi-vos acionados em indivíduos que "entraram na

profis-são por acaso", "nunca se imaginaram professores", e

que hoje estão nas salas de aula.

Os

p r o fe s s o r e s , n a n o s s a i n v e s t i g a ç ã o , s ã o s u j e i -t o s c a t e g o r i za d o s q u e , p o r m e i o d a s s u a s

h i s t ó r i a s p r o fi s s i o n a i s , d o s s e u s r e l a t o s a u t o b i

-o g r á fi c -o s , r e o r g a n i za m a t r a v é s d o t r a b a l h o d a

m e m ó r i a , e x p e r i ê n c i a s , a c o n t e c i m e n t o s s i g n i fi

-c a t i v o s n a c o n s t r u ç ã o d a s s u a s p e r fo r m a n c e s ,

g e r a n d o u m p r o c e s s o d e a u t o fo r m a ç ã o . A p o n t a

M o i t a ( a p u d N ó v o a , 1992, p .1 1 4 ) q u e " o e d u c a -d o r é o p r i n c i p a l ' u t e n s í l i o ' d o s e u t r a b a l h o e

q u e é o a g e n t e p r i n c i p a l d a s u a fo r m a ç ã o .

As aprendizagens situadas em tempos e espaços

determinados e precisos atravessam a "ida dos

(3)

tos.

o

acesso ao modo como cada pessoa se forma, como

a sua subjetividade é produzida, permite-nos conhecer

a singularidade da sua história, o modo singular como

age, reage e interage com os seus contextos.

Nossa perspectiva não é a de afirmação de uma

identidade docente, ao contrário, nos propomos pensar

o processo de produção do ser professor a partir de

devires, de agenciamentos que atravessam os sujeitos e

configuram subjetividades.

Histórias de vida põem em evidência o modo

como cada pessoa mobiliza os seus conhecimentos, os

seus valores, as suas energias, configurando

subjetivi-dades, num diálogo com os seus contextos. Numa

his-tória de vida podem ser identificadas as rupturas e as

continuidades, "as coincidências no tempo e no

espa-ço, as "transferências" de preocupações e de

interes-ses, os quadros de referência presentes nos vários

espaços do quotidiano". (Moita

hgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

a p u d Nóvoa, 1992,

p.116-7).

Nesse processo de investigação/formação

impõe-se a criação de condições de uma implicação de todos os participantes. A qualidade do material produzido

de-pende do envolvimento de cada participante, do desejo

e capacidade de fazer memória da sua vida. O contrato

de confiança é construído a partir da relação com os

narradores, assumindo faces distintas: a de

colabora-ção, a de partilha, a de escuta empática. A participação neste trabalho contém um caráter formativo em relação

a todas as pessoas nele implicadas. A apropriação que

cada pessoa faz do seu patrimônio existencial, através

de um dinâmica de compreensão retrospectiva, é fator

de formação.

No depoimento de uma das professoras

envolvi-das na pesquisa percebemos a atualização das

impres-sões do passado na construção de uma representação

do que seja um professor:

B o m , a i m a g e m d e p r o fe s s o r s e m p r e e s t e v e p r e

-s e n t e n a m i n h a v i d a , p o r q u e n a m i n h a v i d a , a

m i n h a m ã e e r a p r o fe s s o r a , e e u m e s e n t i a fa s -c i n a d a p e l a s e s t ó r i a s d e l a . ( ...) B o m , a m i n h a

m ã e , e l a s e m p r e c o n t a q u e , n a é p o c a d e l a ,

o

c u r s o n o r m a l o fe r e c i a m u i t a c u l t u r a . ( . . .) A n t e s

o p r o fe s s o r t i n h a u m a fo r m a ç ã o g e r a l m a i s a m

-p l a , c o m m u i t a c u l t u r a e e n t e n d i a b e m d e s u

-p r i r a s n e c e s s i d a d e s d a s p e s s o a s , t a m b é m a s

n e c e s s i d a d e s a fe t i v a s . ( P r o fe s s o r a A )

O significado das histórias profissionais,

orga-nizadas através dos relatos autobiográficos está na

oportunidade não só de buscar imagens instituídas dos

UTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

- - -

MLKJIHGFEDCBA

...-.. B C H -U F C '

P E R iÓ D iC O S

professores em relação à sua formação, à sua escolha

profissional, à sua performance numa sala de aula, mas

também, por meio das imagens de hoje, repensar as

imagens do passado, não no sentido de ficar preso a

ele, mas de poder recriar estas imagens de professor

que marcaram e que ficaram registradas na sua

memória.

Evidencia-se, assim, a capacidade do homem de

conseguir relacionar a vida atual com as lembranças do passado e vice-versa. Com o passar do tempo, o ser hu-mano começa a construir imagens nítidas do passado,

exigindo a capacidade de refletir essas lembranças, a

partir da ótica do presente, para que não acabe vivendo

em territórios do passado.

O trabalho da memória que revisita imagens do

passado, significativas na produção do professor,

indi-ca também representações de como este deseja ser

vis-to no presente.

Afirma Thomson (1997, p.57), que:

A o n a r r a r u m a h i s t ó r i a , i d e n t i fi c a m o s o q u e

p e n s a m o s q u e é r a m o s n o p a s s a d o , q u e m p e n

-s a m o -s q u e -s o m o -s e o q u e g o s t a r í a m o s d e s e r .

A s h i s t ó r i a s q u e r e l e m b r a m o s n ã o s ã o r e p r e

-s e n t a ç õ e -s e x a t a -s d e n o -s -s o p a -s -s a d o , m a s t r a ze m

a s p e c t o s d e s s e p a s s a d o eo s m o l d a m p a r a q u e s e a j u s t e m à s n o s s a s i d e n t i d a d e s e a s p i r a ç õ e s a t u a i s

As representações de si, recolhidas no passado,

mostram nos processos de formação do professor,

situ-ações, pessoas e acontecimentos significativos que

tra-zem as imagens do passado ao momento presente. A escolha da docência nem sempre foi tranqüila

para um número significativo de professores. Muitas

vezes, a escolha profissional foi fator de imposição

so-cial, familiar ou até mesmo de acesso facilitado aos

cursos de licenciaturas. Mesmo nesses casos, alguns

professores relatam as suas descobertas e aprendizagens em relação ao modo pelo qual foram se tornando pro-fessores:

d e s d e o i n í c i o e u n u n c a s o n h e i e m s e r p r o fe s

-s o r a , -s ó q u e h o j e , e m q u e -s t ã o d a p r á t i c a , a g e n t e

v a i a p r e n d e n d o , s e m p r e q u e r e n d o b u s c a r a l g o

d i fe r e n t e p a r a p o d e r a p e r fe i ç o a r , p o r q u e n a

m e d i d a e m q u e t u c o m e ç a a fa ze r u m a c o i s a ,

d e p o i s v a i d e s c o b r i n d o , v a i q u e r e n d o a l g o d i

-fe r e n t e , a g e n t e v a i a t é g o s t a n d o d a q u e l e t i p o

d e c o i s a . ( P r o fe s s o r a B )

(4)

q u a n d o m e

utsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

vi n a fr e n t e d e u m a t u r m a , p e n s e i : n o s s a , e u s o u p r o fe s s o r a ' E p o r m u i t o t e m p o

e u n ã o fu i p r o fe s s o r a , e u ' e s t a v a ' p r o fe s s o r a .

É

b o m l e m b r a r d o s a b s u r d o s , e u n ã o m e i m a g i

-n a v a p r o fe s s o r a , e e n t ã o , e s t a v a n a c a r r e i r a d o c e n t e . ( P r o fe s s o r a C)

Estar na carreira docente para um número signi-ficativo de professores, que jamais imaginaram-se como

tais, significa perfilhar-se à identidade da

professora-lidade (Pereira, 1997) configurada nos/pelos espaços e

discursos que se propõem a tal.

A perplexidade expressada em alguns relatos

mostram a concepção difundida e tomada como código de verdade na docência como profissional idade, deter-minando assim, um modelo e um espaço institucional, onde o sujeito se torna professor.

a s s i m c o m o e u e n t r e i n a U n i v e r s i d a d e e u s a í .

F o i t ã o r á p i d o p a r a fa ze r o c u r s o , q u e e m

d o i s a n o s e m e i o n u n c a r e p r o v e i e m n e n h u -m a d i s c i p l i n a , e n t ã o e u fi z o c u r s o p o r fa ze r ,

m a s n u n c a s o n h a v a e m s e r p r o fe s s o r a , n e m

s e i , n e m p o r q u e e u fi z, e s s a é a m i n h a v e r d a

-d e . ( ...) p r á q u e m e n t r o u n a q u e l e a n o q u e e u

e n t r e i , e u o d i a v a s e r p r o fe s s o r a , a g o r a n ã o ,

q u e r d i ze r , a c a m i n h a d a q u e e u e s t o u t e n d o

m e s m o c o m o s c o l e g a s a q u i , e u a c h o q u e i s s o

v a i fa ze n d o q u e e u p e g u e g o s t o , v á t e n t a n d o

a l g o m a i s . ( P r o fe s s o r a B )

Na história de vida citada acima, percebemos o

processo singular de construção de uma professora, que mesmo não desejando a docência como escolha

profis-sional, foi construindo-se através de linhas de forças,

que atravessando e atualizando registros passados,

fo-ram configurando um outro sujeito.

Tomar-se um profissional é uma virtual idade,

podendo atualizar-se por intermédio da processual idade

que é a produção da subjetividade. A desinstalação

pro-duzida nos sujeitos, por ocasião do movimento, das

for-ças que atravessam, acabam por tornar urgente a

encarnação de uma outra formação existencial, um

ou-tro personagem, uma outra performance.

Sobre o atual e o virtual Deleuze ( a p u d Alliez,

1996, p.55) afirma que:

A r e l a ç ã o d o a t u a l c o m o v i r t u a l c o n s t i t u i s e m

-p r e u m c i r c u i t o , m a s d e d u a s m a n e i r a s : o r a o

a t u a l r e m e t e a v i r t u a i s c o m o a o u t r a s c o i s a s

e m v a s t o s c i r c u i t o s , o n d e o v i r t u a lMLKJIHGFEDCBAs ea t u a l i za , o r a o a t u a l r e m e t e a o v i r t u a l c o m o a s e u p r ó

-p r i o v i r t u a l , n o s m e n o r e s c i r c u i t o s o n d e o v i r

-t u a l c r i s -t a l i za c o m o a t u a l .

A virtual idade colocada na produção de subjeti-vidades, potencializa as pesquisas que têm se ocupado

com as histórias de vidas profissionais, através dos

re-latos autobiográficos, orais e escritos. E a memória é,

por excelência, o trabalho que organiza, busca, junta,

rejunta, cola, desmonta, dando uma configuração às

imagens que desenham novas subjetividades.

o

m a i s i n t e r e s s a n t e é q u e e u c o m e c e i a fa l a r , a c o n t a r a s m i n h a s h i s t ó r i a s , e , a o c o n t a r c o m e -c e i a a n a l i s a r p o r q u a n t o s c a m i n h o s já a n d e i , q u a n t a s p e s s o a s m a r c a r a m a m i n h a t r a j e t ó r i a ,

m a s e u p e n s o q u e j á m u d e i m u i t o , t e n h o m e s e n

-t i d o m e l h o r c o m o p r o fe s s o r a , a c h o q u e m a i s

m a d u r a n a p r o fi s s ã o .

Essa construção de si próprio é um processo de

formação, ou melhor, de autoformação. A instalação de

dispositivos que possibilitam a remernoração e a

refle-xão sobre os acontecimentos que produziram "marcas", que inscreveram registros acaba dando passagem a ou-tras criações. O sujeito de posse do seu "material" exis-tencial tem a possibilidade de ler a sua própria situação e aquilo que se passa em tomo dele. "Essa capacidade é que vai lhes dar um mínimo de possibilidade de criação e preservar esse caráter de autonomia tão importante. Esse processo deve permitir ao "grupo sujeito" construir seus referenciais próprios. (Guattari e Rolnik, 1996).

É nessa perspectiva que apostamos no trabalho

com relatos autobiográficos orais e escritos: a

instala-ção de uma outra cultura na formainstala-ção de professores.

A cultura do professor reflexivo que não projeta a sua

profissional idade num modelo identitário, produzido

num espaço institucional determinado. A aposta é na

profissional idade que prevê a capacidade de criação,

de singularização. Nesse sentido, o trabalho da

memó-ria não é o de resgate do fundamento. O sentido

rizomático na produção das subjetividades instaura uma

outra lógica: "o meio não é uma média; ao contrário, é

o lugar onde as coisas adquirem velocidade.' ( ...)' Um

rizoma não começa nem conclui, ele se encontra

sem-pre no meio, entre as coisas, inter-ser... '.(Deleuze e

Guattari, 1995, p.3 7)

Os contornos dessa análise e dessa aposta não

desconsideram as condições que se apresentam e

(5)

duzem subjetividades assujeitadas, que se submetem à

produção capitalística. De qualquer forma, são

condi-ções que, se tomadas como "a queixa de sermos nós", a

queixa de ser professor, transformam-se em

dispositi-os que (des)potencializam o movimento.

Ao relatar o processo de escolha profissional, os

professores explicitam essas queixas que não

mobili-zam, não dando acesso a outras subjetividades:

hgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

E u e s c o l h i o m a g i s t é r i o m a s e m u m a é p o c a q u e

s e r p r o fe s s o r r e p r e s e n t a v a m u i t o . T i v e o p o r t u

-n i d a d e d e s a i r d o m a g i s t é r i o , m a s a c h o q u e o

q u e e u s e i fa ze r b e m é d a r a u l a s . A í e u v o u fi

-c a n d o ... -c o m e s s e s a l á r i o , n ã o d á p r á p e n s a r

m u i t a c o i s a . ( P r o fe s s o r a E)

o

m a g i s t é r i o ( ..) A h ! C o m o t á d i fi c i l . E o l h a q u e e u j á fu i c o n s i d e r a d a u m ó t i m a p r o fe s s o r a .

E r a s e m p r e h o m e n a g e a d a p e l a s t u r m a s q u e e u

t r a b a l h a v a . H o j e , o d e s â n i m o

MLKJIHGFEDCBA

s ei n s t a l o u . ( P r o -fe s s o r a F )

A pesquisa que tem como eixo o estudo das

his-tórias de vidas de professores, constitui uma tentativa

de propiciar aos sujeitos envolvidos, a instauração de

um trabalho de autoformação, entendida como um

tra-balho de pesquisa e de reflexão das imagens construídas

sobre a docência. Este trabalho da memória permite

desconstruir imagens e estereótipos q u e se formaram

sobre a profissional idade, como uma estética do

pro-fessor (Pereira, 1997).

As memórias individuais são, no trabalho

refle-xivo, submetidas a um tal processo que leva o grupo à

construção de uma memória coletiva, a respeito de

inú-meros aspectos que caracterizam a vida profissional

(Bueno e t a l , 1993). Um desses aspectos, trazido pelos

relatos autobiográficos, diz respeito à condição do

pro-fessor, tematizada historicamente:

A r e fl e x ã o q u e fa zí a m o s n a d é c a d a d e 8 0 , e r a ,

p o r e x e m p l o , a n e c e s s i d a d e d e n ã o fa l a r m o s n a

c a t e g o r i a p r o fe s s o r p a r a c a r a c t e r i za r o t r a b a

-l h o d o c e n t e . P r o fe s s o r e r a o fu n c i o n á r i o d o e s

-t a d o . D e p o i s v e i o a e x p r e s s ã o e d u c a d o r , m a i s

p o l i t i za d a , e s t á v a m o s l e n d o P a u l o F r e i r e . N ã o

l e m b r o , m a s a e x p r e s s ã o ' ' p r o fi s s i o n a i s d a e d u

-c a ç ã o , t r a b a l h a d o r e s d a e d u c a ç ã o " e r a u m s i n

-t o m a d e m a i o r p o l i t i za ç ã o d a c a t e g o r i a e

d e m o n s t r a ç ã o d o t r a b a l h o a s s a l a r i a d o d o s d o

-c e n t e s . ( P r o fe s s o r a M )

o

trabalho que vimos desenvolvendo com os

pro-fessores participantes da pesquisa e do trabalho de

for-mação continuada, possibilitou o conhecimento das

experiências mais significativas destes, na construção

de uma prática docente. As histórias do seu passado de

vida escolar e profissional permitiu a organização de

categorias para um trabalho analítico e reflexivo pre-vistos no processo de formação dos professores.

Escolha profissional, processos de formação e gê-nero foram categorias que nesse primeiro momento,

tor-naram-se latentes nos relatos orais dos professores

envolvidos.

ossa pesquisa traz a perspectiva de gênero. como

categoria de análise, por acreditarmos que a

predomi-nância de mulheres na docência, faz com que esta se con-figure de uma forma singular, e, também, por pensarmos que as imagens que estas têm da docência sejam distin-tas das imagens construí das pelos professores homens.

A feminização do magistério não está, como afir-ma Pereira (1994, p.115),

a p e n a s n o fa t o d e e s t a p r o fi s s ã o a b r i g a r u m n ú

-m e r o d e -m u l h e r e s ( p r i n c i p a l m e n t e n a s s é r i e s

i n i c i a i s ) m a s m u i t o m a i s n u m c e r t o fa ze r fe m i

-n i -n o q u e a ís e c o n fi g u r a .

Esse fazer feminino não está ancorado num substrato

natural, se trata de uma construção social, de modos de

ser/fazer diferenciados historicamente.

Esse fazer feminino, construído socialmente,

transparece nos desenhos da memória:

Q u a n d o r e s o l v i fa ze r o m a g i s t é r i o em e t o r n a r p r o fe s s o r a , p e n s e i q u e m e s m o n ã o a t u a n d o e u

p o d e r i a a p e r fe i ç o a r o m e u c o n h e c i m e n t o s o b r e

c r i a n ç a s , e u j á t i n h a t r ê s fi l h o s . M a s a c h o q u e

a m u l h e r t e m m a i s fa c i l i d a d e n o t r a t a m e n t o c o m

o s a l u n o s , e s s a c o i s a d e p r o fe s s o r a m i g o , q u e

o u v e , a c o n s e l h a . N o s s o s a l u n o s s ã o c o m o o s

n o s s o s fi l h o s , t ê m a t é , m u i t a s v e ze s , a m e s m a

i d a d e d o s n o s s o s . ( P r o fe s s o r a F )

A m u l h e r t e m u m j e i t o d i fe r e n t e d e s ea p r e s e n -t a r n a s a l a d e a u l a . N ã o s e i b e m o q u e é . M a s

t a m b é m é m e n o s p r o fi s s i o n a l , c o n v e r s a c o i s a s

q u e n ã o i n t e r e s s a m a o t r a b a l h o d a e s c o l a . ( P r o

-fe s s o r a E )

Nos relatos orais das professoras, os

atraves-samentos diferenciados que se dão nas vidas dos

sujeitos, produzem subjetividades singulares. Há

ma-nifestações que se configuram a partir de uma

produ-ção capitalística, globalizada. Também, nesse tema, há

(6)

uma tendência na reflexão de buscar o caráter

identitário: ser mulher professora é.

Algumas histórias de vidas de mulheres,

atravessadas por agenciamentos coletivos e

individu-ais, mostram a produção de subjetividades que

singula-rizando-se, fizeram da sua existência de mulheres e

professoras, processos criativos.

hgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

E u e r a u m a p r o fe s s o r i n h a . V o l t e i a e s t u d a r , fi z

u m a p ó s - g r a d u a ç ã o q u e m e d e s p e r t o u u m a p a i

-x ã o p e l o e s t u d o , p e l o c o n h e c i m e n t o . A c h o q u e

fo r a m a s l e i t u r a s , o s p r o fe s s o r e s e u m a g r a n d e p a i x ã o q u e m u d o u a m i n h a v i d a p e s s o a l . E u e s

-t a v a m u i -t o fe l i z. P a s s e i a fr e q ü e n -t a r a s r e u n i õ e s

d o s i n d i c a t o em e t o r n e i m i l i t a n t e d a e d u c a ç ã o .

E u fi z o m a g i s t é r i o p o r p a i x ã o d e e n s i n a r . M a s

t i v e m u i t a s p a i x õ e s n a v i d a . S e m p r e v i v i i n

-t e n s a m e n -t e a s a l a d e a u l a . O s a l u n o s , o s e s t u

-d o s , a s a u l a s p r e p a r a -d a s c o m c u i d a d o . B e m ,

e u p o s s o d i ze r , q u e e u s o u u m a p e s s o a q u e

c o n s e g u i m u d a r m u i t o eg r a ç a s a m i n h a a b e r -t u r a p a r a o n o v o .

Os processos de formação constituem outra

ca-tegoria de análise da pesquisa como os professores. Pro-cessos, aqui entendidos como os dispositivos acionados para a produção do ser professor. Nesse sentido, a for-mação não está sendo delimitada aos espaços

acadêmi-cos, nem mesmo ao tempo dedicado, por exemplo, a

um curso de licenciatura.

Não é incomum, encontrarmos nos relatos

auto-biográficos, a sensação descrita por professores de que não aproveitaram o espaço e o tempo determinados, para

que a formação se concretizasse. A concepção destes, é

de que há lugares e momentos que ensinam, que

for-mam o professor.

MLKJIHGFEDCBA

É verdade que essa formatação, proposta por

al-guns cursos de didática e metodologia, tem-se prestado a desconsiderar as histórias passadas sobre a vida escolar, a vida profissional e pessoal do futuro professor, privilegi-ando assim, um saber pronto. Saber este, reproduzido dos manuais de didática, que com raras exceções, apresentam a história das idéias pedagógicas, de uma forma simplista. Nessa perspectiva, reforça-se o caráter identitário das sub-jetividades que estão sendo produzidas.

Alguns professores envolvidos com o trabalho

de pesquisa e formação, mostram-se surpresos com o

processo reflexivo que acionam ao falar sobre a sua

atu-ação profissional e a preparação para tal:

É i n t e r e s s a n t e , e u fi q u e i n o m a g i s t é r i o p o r a c a s o , n ã o h a v i a a fa c u l d a d e q u e e u s o n h a v a

e m fa ze r , n ã o p o d i a d e i x a r a c i d a d e . e n t ã o .fu i

u m a a l u n a fr a c a , t a l v e z m e d i a n a . P o s s o d i ze r

q u e n ã o fu i u m a d a q u e l a s a l u n a s e s t u d i o s a s .

Q u a n d o e s t a v a fr e n t e a m i n h a p r i m e i r a t u r

-m a , t r e -m i a t a n t o q u e i m a g i n e i n ã o q u e n ã o

c o n s e g u i r i a t e r m i n a r a a u l a . P a s s a r a m m u i

-t o s a n o s , a c h o q u e a p r á -t i c a m e e n s i n o u m u i

-t o , m u d e i d e e s c o l a . C a d a n o v a e s c o l a q u e e u

c h e g a v a e r a u m a m b i e n t e n o v o p a r a c o n h e

-c e r , m a s -c o m e ç o u a s et o r n a r u m d e s a fi o p a r a m i m . T e n h o e s t u d a d o c o m u m g r u p o d e c o l e

-g a s , p e n s e i e m fa ze r u m a p ó s - g r a d u a ç ã o , m a s

a c h o q u e o c o t i d i a n o m e e n s i n o u b a s t a n t e .

( P r o fe s s o r a B )

T u d o o q u e e u p r o c u r a v a e r a u m a fo r m a d e a p l i

-c a r t u d o o q u e e u t i n h a a p r e n d i d o n o c u r s o s d e

d i d á t i c a . M a s a r e a l i d a d e q u e s ea p r e s e n t o u a m i n h a fr e n t e e r a b e m d i fe r e n t e . T i v e q u e c r i a r

s e m p r e , a p r e n d i m u i t o c o m o s c o l e g a s m a i s e x

-p e r i e n t e s . ( P r o fe s s o r a D )

N u n c a i m a g i n e i s e g u i r o m a g i s t é r i o . N u n c a t i v e

u m a d i s c i p l i n a q u e m e d i s s e s s e o q u e fa ze r n u m a

s a l a d e a u l a . M e fo r m e i e m d i r e i t o , eh á a l g u n s a n o s m e t o r n e i p r o fe s s o r , a t r a v é s d a s h a b i l i t a

-ç õ e s q u e h a v i a m n a s e s c o l a s . M e d e s c o b r i fr e n t e

a o s a l u n o s . A s a l a d e a u l a é o m e u c h ã o . A c h o

q u e fu i a p r e n d e n d o a s e r p r o fe s s o r , a o l o n g o

d e s s e s a n o s . O s a l u n o s g o s t a m m u i t o d o m e u

j e i t o . ( P r o fe s s o r A )

Os processos de formação, as razões da escolha

profissional são categorias, assim como gênero, que se

configuraram como dispositivos para um trabalho de

autoformação com os professores que resolveram

na-vegar conosco, na aventura de sair e chegar em alguns

portos ancorados na memória, permitindo-se navegar

pelo prazer de descobrir, navegar pelo prazer de criar,

navegar pelo prazer de se autocriar.

REFERÊNCIAS

BIBLIOGRÁFICAS

ALLIEZ, Éric. D e l e u ze fi l o s o fi a v i r t u a l . São

Pau-lo: Ed, 34, 1996.

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-fi a s e F o r m a ç ã o d e P r o fe s s o r e s : um estudo

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(7)

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BUENO, Belmira Oliveira et aI. Docência, Memória e

Gênero: estudos alternativos sobre a formação de

professores.ln:

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capitalismo e esquizofrenia. v. I, Rio de Janeiro,

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de Educação da USP, em 16 de maio de 1994 (a)/

PEREIRA, Marcos Villela. A e s t é t i c a d a

profes-s o r a l i d a d e : um estudo interdisciplinar sobre a

sub-jetividade do professor. São Paulo: PUC, 1996.

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PEREIRA, Luisa Ribeiro. O fazer feminino do magistério

(tateando um objeto de pesquisa.) In: P r o j e t o H i s

-t ó r i a .Mulher e Educação. São Paulo, n.l l. novo 1994.

THOMSON, Alistair. Recompondo a Memória. Questões sobre a relação entre a História Oral e as memórias. In: PERELMUTTER, D. e ANTONACCI, M. A . (Orgs.)

É t i c a e H i s t ó r i a O r a l .São Paulo: PUC/SP. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e

do Departamento de História da PUC/SP, 1997.

MLKJIHGFEDCBA

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