UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE BELAS-ARTES
DESIGN E VISUALIDADE:
Aspetos da Perceção Visual aplicados ao Design de Produto
Inês Carrilho Lérias
Dissertação
Mestrado em Design de Equipamento Especialização em Design de Produto
Dissertação orientada pela Professora Doutora Isabel Maria Dâmaso Rodrigues
2019
2
DECLARAÇÃO DE AUTORIA
Eu Inês Carrilho Lérias, declaro que a presente dissertação / trabalho de projeto de mestrado intitulada “Design e Visualidade: Aspetos da Perceção Visual aplicados ao Design de Produto”, é o resultado da minha investigação pessoal e independente. O conteúdo é original e todas as fontes consultadas estão devidamente mencionadas na bibliografia ou outras listagens de fontes documentais, tal como todas as citações diretas ou indiretas têm devida indicação ao longo do trabalho segundo as normas académicas.
O Candidato
Lisboa, 28 de Outubro de 2019
RESUMO
Perceção visual e design de produto; uma relação intrínseca onde a componente humana é o elo de ligação.
A necessidade de entender e definir os mecanismos e processos que determinam a existência da perceção e da sua componente visual enquanto características individuais, leva à necessidade de relacionar estes fatores com questões indissociáveis da atividade e interação humanas, onde o design é parte integrante.
Competindo ao designer o papel de fazer com que cada um veja as suas necessidades colmatadas por meio de uma ferramenta pensada para esse efeito (esteja esta dentro do campo dos objetos ou dos serviços), torna-se indiscutível a necessidade de que os fatores visuais e interativos do Homem sejam bem conhecidos e entendidos como forma de encontrar essa “solução ótima”.
Transpondo o aspeto percetivo para o contexto deste trabalho - dentro da questão da relação com o objeto e a sua evolução, - é de focar o período compreendido entre a revolução industrial e a atualidade, através do ponto de vista do Design. Cabendo a esta atividade a tarefa de identificar necessidades e procurar as respetivas soluções, trata-se de entender, por um lado, a forma como metodológica e processualmente a faceta projetista do designer evoluiu nos campos pedagógico e prático, e por outro, o impacto que esta teve a nível social e vice-versa. Para isso, o entendimento das principais teorias percetivas estudadas ao longo do último século, é um referencial crucial para entender essa evolução.
Identificado esse percurso até chegar à atualidade, torna-se necessário estabelecer o
“estado da arte” no que concerne a essas questões. Tendo em consideração a sua indispensabilidade para um designer, é crucial manter esse conhecimento atualizado de forma a poder ser gerido aquando da atividade projetual, uma vez que a sua função assenta no conhecimento e entendimento da componente humana face ao que o rodeia.
Palavras-chave: perceção visual; design industrial; teorias da forma-função; binómio objeto-utilizador; pedagogia
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ABSTRACT
Visual perception and product design; an intrinsic relationship where the human component is the connecting link.
The need to understand and define the mechanisms and processes that determine the existence of perception and its visual component as individual characteristics, leads to the need to relate these factors to inseparable issues of human activity and interaction, where design is an integral part.
Once it is up to the designer the ensurance that each person sees his or her needs bridged by tools designed for this purpose (whether it is within the field of objects, or services), the need for visual factors and man's interactive ideas to be well known and understood, is the way to find that “optimal solution”.
Transposing the perceptive aspect into the context of this work - within the question of the relationship with the object and its evolution, - we must focus on the period between the industrial revolution and the present, through the point of view of design. Given the task of identifying needs and finding their solutions, it is about understanding, on the one hand, how methodologically and procedurally the designer facet of the designer has evolved in the pedagogical and practical fields, and on the other, the impact it has had at the social level and vice versa. For this, the understanding of the main perceptive theories studied over the last century is a crucial reference to understand this evolution.
Once this path is identified, it becomes necessary to establish the “state of art” about these issues. Given its indispensability for a designer, it is crucial to keep this knowledge updated so that it can be managed during design activity, once its role is based on the knowledge and understanding of the human component about his surrounding environment.
Keywords: visual perception; industrial design; form-function theories; object-user binomial; pedagogy
AGRADECIMENTOS
A realização deste trabalho, apesar do gosto com que foi feito, contou com incontáveis horas de pesquisa, leitura e desenvolvimento de texto, que apenas foram possíveis pela paciência e apoio de quem me rodeia.
Antes de mais, quero agradecer à minha Mãe pelo seu incondicional apoio que tantas vezes me ajudou a manter o espírito positivo e a superar as incertezas que, como partidas, vão surgindo quanto mais nos embrenhamos neste caminho. Quero ainda agradecer-lhe pela companhia, compreensão e pelas inúmeras horas de silêncio que tão generosamente me concedeu para que pudesse trabalhar em casa.
Quero igualmente fazer um agradecimento especial à minha orientadora, a Professora Isabel Dâmaso, pela sua constante disponibilidade em me ajudar, assim como pelas suas sugestões e visão conhecedora que tão cruciais foram para estabelecer o caminho tomado.
Quero ainda agradecer a todos os professores que ao longo destes últimos cinco anos me têm acompanhado e enriquecido com a partilha dos seus conhecimentos, e aos quais devo o gosto tomado pelas matérias abordadas ao longo desta dissertação.
Deixo também um agradecimento a todos os que, de forma mais ou menos direta, participaram neste trabalho, partilhando o seu tempo e conhecimento comigo.
Por fim, mas não com menos importância, quero agradecer a todos os meus amigos que foram compreensivos o suficiente para entenderem a minha “presença menos presente”
nos últimos tempos, e pelo apoio e interesse que demonstraram relativamente ao meu percurso.
A todos, um grande obrigada!
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ÍNDICE DE CONTEÚDOS
Declaração de Autoria Resumo
Abstract Agradecimentos Índice de Conteúdos Índice de Figuras e Tabelas
Índice de Nomes e Datas de Nascimento/Falecimento
Introdução
Definição do Tema Objetivos da Investigação Estrutura da Investigação Metodologia
PARTE 1. PERCEÇÃO VISUAL ENQUANTO CARACTERÍSTICA HUMANA
1.1. Sistema Visual Humano
1.1.1. Olho Humano: Estrutura Morfológica e Fisiológica (síntese) 1.1.1.1. Pupila e Íris
1.1.1.2. Córnea 1.1.1.3. Humor aquoso 1.1.1.4. Cristalino 1.1.1.5. Humor Vítreo 1.1.1.6. Retina
1.1.2. Cérebro humano – estrutura morfológica e fisiológica (síntese) 1.1.2.1. Quiasma Ótico
1.1.2.2. Corpos Geniculados Laterais 1.1.2.3. Córtex Visual
1.1.3. Processo de visão
1.1.3.1. Captação de Informação 1.1.3.2. Transformação
1.1.3.3. Transmissão 1.1.3.4. Interpretação 1.1.4. Tipos de visão
1.1.4.1. Visão Escotópica e Fotópica
2 3 4 5 6 10 12
15 16 17 20
21
21 21 21 23 23 24 24 25 25 26 27 27 28 28 29 30 31 31 32
1.1.4.2. Visão Cromática e de Claro-Escuro 1.1.4.3. Visão 3D
1.2. A Luz enquanto Estímulo Visual 1.2.1. A Cor como Fenómeno da Luz
1.3. Perceção: Cérebro-Mente – Sensação, Perceção e Cognição 1.3.1. Perceção Visual
1.3.2. Teorias da Perceção Visual
1.3.2.1. Teoria da Inferência Inconsciente e Método de Introspeção Experimental
1.3.2.2. Teoria “Top-Down” de Richard Gregory
1.3.2.3. Teoria “Down-Top” de James Gibson – Teoria “Ecológica”
1.3.2.4. Theory of “Cues” - Teoria das Hipóteses 1.3.2.5. Teoria Estratificada de David Marr 1.3.2.6. Teoria da Gestalt
1.4. A Ilusão enquanto Fenómeno Percetivo
1.4.1. Ilusões Visuais: Óticas, Sensoriais e Percetivas 1.4.1.1. Ambiguidade
1.4.1.2. Distorção 1.4.1.3. Paradoxo 1.4.1.4. Ficção
1.4.2. Uma Necessidade: Ilusão, Arte e Design
PARTE 2. A PERCEÇÃO VISUAL APLICADA AO CONTEXTO HISTÓRICO DO DESIGN DE PRODUTO
2.1. Origem dos conceitos de “designer” e “design industrial”
2.2. Questões Formais e Funcionais entre o final do Século XIX e XX: um Preâmbulo para o Modernismo
2.2.1. Valores Formais e Estéticos do Advento Modernista: Principais Eventos 2.2.1.1. Arts and Crafts: o Movimento Inglês
2.2.1.2. Reino Unido (Escócia)
2.2.1.3. Bélgica: Art Nouveau e a Questão Visual e Produtiva do Objeto 2.2.1.4. Áustria: Secessão Vienense
32 33
34 36
38 40 41
42 42 44 44 45 47
51 52 54 56 56 57 59
62
62
66 69 70 72 72 73
8 2.2.1.5. Alemanha
2.2.1.5.1. Jugendstil e a Questão Gráfica
2.2.1.5.2. Deutscher Werkbund enquanto Preâmbulo para a Bauhaus
2.3. Bauhaus: um Marco nas Questões Formais, Produtivas e Percetivas do Design na Era Moderna
2.3.1. Antecedentes Históricos
2.3.2. Bauhaus: um Marco na História (Formal e Funcional) do Design 2.3.2.1. Weimar – Walter Gropius (1919-25)
2.3.2.2. Dessau – Walter Gropius (1925-28) 2.3.2.3. Dessau – Hannes Meyer (1928-30) 2.3.2.4. Dessau – Mies Van der Rohe (1930-32) 2.3.2.5. Berlim – Mies Van der Rohe (1932-33)
2.3.3. A Importância do Estudo da Cor e da Forma, e a sua relação com a Perceção Visual na Bauhaus
2.3.3.1. Johannes Itten
2.3.3.1.1. Teoria e Prática da Forma 2.3.3.1.2. Teoria das Cores
2.3.3.1.3. Teoria dos Contrastes 2.3.3.2. Wassily Kandinsky
2.3.3.2.1. Teoria da Forma 2.3.3.2.2. Teoria da Cor
2.3.3.2.3. Teoria da Forma e da Cor: uma Linguagem Universal 2.3.3.3. Paul Klee
2.3.3.3.1. Teoria da Forma 2.3.3.4. Josef Albers
2.3.3.4.1. Teoria da Forma
2.4. O Legado da Bauhaus em Contexto Americano
2.4.1. Questões Estéticas e Percetivas do Design Industrial Americano Moderno
2.5. O Legado da Bauhaus em Contexto Europeu (Alemanha) 2.5.1. Hfg-Ulm
2.5.1.1. Perceção Visual e Comunicação
2.5.1.2. Perceção Visual e Estética da Informação
2.5.1.3. Departamento de Design de Produto/Construção: Die Gute Form
74 75
75
77 77 78 79 83 84 86 86
87 88 89 90 93 95 95 96 96 99 100 101 103
106 107
110 110 113 114 112
2.5.2. O legado de Max Bill: “Less is More” - 10 Princípios do Good Design
2.6. Pós-Modernismo: um Marco na Perceção Visual do Objeto de Design 2.6.1. Anti-Design ou Design Radical Italiano
2.7. O Novo Milénio: a Importância dos Princípios Antigos no Design Atual
PARTE 3: PERCEÇÃO VISUAL E ENSINO EM DESIGN DE EQUIPAMENTO:
LEVANTAMENTO DE DADOS
3.1. Breve Introdução
3.2. Conclusões Retiradas dos Inquéritos Realizados
Conclusão Glossário
Características e Fenómenos relativos à Visão Características relativas à Luz e à Cor Fenómenos da Luz
História da Luz e da Cor (principais marcos cronológicos) Tendências, Estilos e Movimentos
Conceitos de Psicologia, Filosofia, Comportamento e Comunicação
Bibliografia de Referência Bibliografia Consultada Fontes Iconográficas Anexos
120
122 122
125
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128 129
140 152 152 153 154 155 159 162
164 169 171 174
10
ÍNDICE DE FIGURAS E TABELAS
22 23 26 26 28 30 49 53 53 55 55 55 56 56 57 57 58 61 80 81 81 81 84 85 91 Figura 1. Esquema Ilustrativo da Morfologia Principal do Olho Humano
Figura 2. Íris distendida (cima), Íris Contraída (baixo) Figura 3. Esquema Ilustrativo do Sistema Visual Central
Figura 4. Esquema Ilustrativo de Distribuição de Informação do Campo Visual Figura 5. Esquema Ilustrativo das “Áreas de Brodmann” do Córtex Visual Figura 6. Esquema Ilustrativo da Composição de um Neurónio
Figura 7. Esquema Ilustrativo das Principais “Leis da Gestalt”
Figura 8. Quebra Visual devido à Existência de mais do que um Meio de Propagação Figura 9. Ilusão Cromática – “Faixas de Mach”
Figura 10. Ambiguidade – “Cubo de Necker”
Figura 11. Ambiguidade – “Vaso de Rubin”
Figura 12. Ambiguidade - “Jovem ou Idosa?”
Figura 13. Distorção - “Ilusão Müller-Lyer”
Figura 14. Distorção - “Ilusão de Ponzo”
Figura 15. Paradoxo - “Ilusão Blivet”
Figura 16. Ficção - Ilusão Periférica Figura 17. Ficção - “Grelha de Hermann”
Figura 18. Op Art Design - Martinelli Luce Cobra E2, Marcello Morandini Figura 19. Armchair (1922), Marcel Breuer
Figura 20. Chair (1920), Gerrit Ritveld Figura 21. Kettle (1922), Theodor Bogler
Figura 22. Wassily Chair - Model B3 chair (1926), Marcel Breuer Figura 23. Plano de Estudos segundo Itten (1923)
Figura 24. Armchair ti 244 (1928), Joseph Albers Figura 25. Círculo de Cor de Itten
Figura 26. Estrela (cima) e Esfera (baixo) de Cor de Itten Figura 27: Relação Cores/Formas
Figura 28: Elementos Gráficos de Sons definidos por Paul Klee Figura 29: Abstract Trio (1921), Paul Klee
Figura 30: Instrument for New Music (1914), Paul Klee Figura 31: Bei Haus 2 (1928-29), Jose Albers
Figura 32: Stacking Tables (1927), Josef Albers Figura 33: Protótipo Schlörwagen (1939)
Figura 34: Sistema de Comunicação Generalizada, Claude E. Shannon Figura 35: Ironwork (1959), Reinhold Weiss
Figura 36: Sewing Machine (1959), H. Gugelot, H. Lindinger e H. Müller Kuhn Figura 37: U-Bahn Subway (1959), H. Gugelot, H. Lindinger e H. Müller Kuhn
Figura 38: M 125 Furnishing System (1959), H. Gugelot, H. Lindinger e H. Müller-Kuhn Figura 39: Modelos Relógio de Pulso Chronoscope (1962), Max Bill / Junghans
Figura 40: Cupboard 'Carlton' (1981), Ettore Sottsass (Memphis) Figura 41: Morning After Mug (1950s), Cleminsons California Pottery Figura 42: Resultados questão 1
Figura 43: Resultados questão 2
Figura 44: Relógio de Pulso Chronoscope (1962), Max Bill/Junghans (questionário) Figura 45: Resultados questão 3
Figura 46: Berlin Chair (1923), Gerrit Rietveld (questionário) Figura 47: Resultados questão 4
Figura 48: Resultados questão 5 Figura 49: Resultados questão 6
Figura 50: Exemplos para identificação Bauhaus, Hfg-Ulm e Anti-Design (questionário) Figura 51: Resultados questão 7
94 98 100 101 101 105 105 109 114 118 118 119 119 120 123 124 129 131 132 132 133 133 134 136 138 138
12 . Abraham Moles (1920-1992)
. Adolf Hitler (1889-1945) . Adolf Hölzel (1853-1934) . Adolf Loos (1870-1933) . Albert Einstein (1879-1955) . Alhazen (965-1040) . Al-Kindi (801-873) . António Damásio (1944-) . Aristóteles (384-322 a.C.) . Artur Braun (1910-1989) . Auguste Lumière (1862-1954) . Augustine Fresnel (1788-1827)
. Richard Buckminster Fuller (1895-1983) . Charles Ashbee (1863-1942)
. Charles Eames (1907-1978)
. Charles Rennie Mackintosh (1868-1928) . Charles Wheatstone (1802-1875) . Christiaan Huygens (1629-1695) . Christian von Ehrenfels (1859-1932) . Claude E. Shannon (1916-2001) . D. H. Schuster (1964-)
. David Hubel (1926-2013) . David E. Little (1958-) . David Lindberg (1935-2015) . David Marr (1945-1980) . Denis Diderot (1733-1784) . Detlef Mertins (1954-2011)
1 Não se sabe ao certo a data de nascimento e falecimento de Euclides de Alexandria, mas pensa-se que terá vivido apenas durante o século III a.C.
. Demócrito de Abdera (460-370 a.C.) . Dieter Rams (1932-)
. Edgar Kaufmann, Jr (1910-1989) . Edgar Rubin (1886-1951) . Empédocles (495-444 a.C.) . Epicuro de Samos (341-270 a.C.) . Erasmo Ciolek ou Vitélio (1235-1285) . Ernst Mach (1838-1916)
. Erwin Braun (1921-1992) . Ettore Sottsass (1917-2007)
. Euclides de Alexandria (século III a.C.1) . Filippo Marinetti (1876-1944)
. Frances Macdonald (1873-1921) . Frank Lloyd Wright (1867-1959) . Franz Carl Müller-Lyer (1857-1916) . Frederick Taylor (1856-1915)
. Friedrich Vordemberge-Gildewart (1899-1962) . Galeno de Pérgamo (130/129 -? a.C.2) . George Berkeley (1685-1753) . George Palmer (1746-1826) . Gerhard Marcks (1889-1881) . Gerrit Rietveld (1888-1964) . Gert Kalow (1921-1991) . Gillo Dorfles (1910-2018) . Gui Bonsiepe (1934-) . Gustav Klimt (1862-1918)
. Gustav Theodor Fechner (1801-1887)
2 Existem diferentes datas atribuídas ao falecimento de Galeno de Pérgamo, entre elas 199, 210 ou 227 a.C.
ÍNDICE DE NOMES E DATAS DE NASCIMENTO/FALECIMENTO
. Hannes Meyer (1889-1954) . Hans Gugelot (1920-1965) . Hans Wegner (1914-2007) . Helmut Müller-Kühn (1929-2017) . Henry Cole (1808-1882)
. Henry Dreyfuss (1904-1972) . Henry Ford (1863-1947)
. Henry Van de Velde (1863-1957) . Herbert Lindinger (1933-) . Herbert Ohl (1926-2012) . Herbert Read (1893-1968) . Hermann Bahr (1863-1934) . Hermann Muthesius (1861-1927) . Hermann von Helmholtz (1821-1894) . Horst Rittel (1930-1990)
. Immanuel Kant (1724-1804) . Isaac Newton (1643-1727)
. Jacob Christoph Le Blon (1667-1741) . Jacobus Oud (1890-1963)
. James Gibson (1904-1979) . James Clerk Maxwell (1831-1879) . James Herbert MacNair (1868-1955) . James Watt (1736-1819)
. Jean Baudrillard (1929-2007)
. Jean Le Rond D’Alembert (1717-1783) . Jean Prouvé (1901-1984)
. Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
3 Existe alguma incongruência face ao ano de nascimento de John Peckham. Alguns autores apontam a data de 1232 (como Luís Miguel Bernardo na sua obra “Histórias da Luz e das Cores”, vol. 1) e outros 1230 (ver Wikipédia inglesa), 1225 (ver a obra “Bonaventure”
Christopher M. Cullen, p. 20) ou 1240 (como pode ser lido na obra “Perceiving in Depth, Vol.
. Johannes Itten (1888-1967) . Johannes Kepler (1571-1630) . John Broadbent (1872-1938) . John Locke (1632-1704) . John Peckham (12323-1292) . John Ruskin (1819-1900) . Josef Albers (1888-1976) . Josef Hoffmann (1870-1956)
. Josef Müller-Brockmann (1914-1996) . Joseph Maria Olbrich (1867-1908)
. Karlfried Graf von Dürckheim(1896-1988) . Korbinian Brodmann (1868-1918)
. Kurt Koffka (1886-1941)
. László Moholy Nagy (1895-1946) . Le Corbusier (1887-1965) . Leon Battista Alberti (1404-1472) . Leonardo da Vinci (1452-1519) . Leucipo de Mileto (século V a.C.4) . Linda Holtzschue (1938-)
. Louis Albert Necker (1786-1861) . Louis Lumière (1764-1948) . Louis Sullivan (1856-1924) . Ludimar Hermann (1838-1914)
. Ludwig Mies van der Rohe (1886-1969) . Luís Miguel Bernardo (19??-)
. Luís Veiga da Cunha (1936-) . Lyonel Feininger (1871-1956)
1: Basic Mechanisms” de Ian P. Howard e Brian J. Rogers).
4 Não se sabe ao certo a data de nascimento e falecimento de Leucipo de Mileto, mas pensa-se que terá nascido na primeira metade do século V a.C. e falecido entre o final deste século e o início do seguinte.
14 . Marcel Breuer (1902-1981)
. Marcello Morandini (1940-) . Margaret Macdonald (1864-1933) . Marianne Brandt (1893-1983)
. Maurits Cornelis (M. C.) Escher (1898-1972) . Mario Ponzo (1882 - 1960)
. Max Bense (1910-1990) . Max Bill (1908-1994) . Max Braun (1890-1951) . Max Wertheimer (1880-1943) . Michel Eugène Chevreul (1786-1889) . Norman Bel Geddes (1893-1958) . Oskar Schlemmer (1888-1943) . Paul Hankar (1859-1901) . Paul Klee (1879-1940) . Peter Behrens (1868-1940) . Philipp Otto Runge (1777-1810) . Piet Mondrian (1872-1944) . Pitágoras de Samos (571-495 a.C.) . Platão (428/427-348/347 a.C.5) . Príncipe Alberto (1819-1861) . Rainha Victória (1819-1901) . Ray Eames (1912-1988) . Raymond Loewy (1893-1986) . Reinhold Weiss (1934-)
. René Magritte (1898-1967) . Reyner Banham (1922-1988) . Richard Gregory (1923-2010) . Robert Grosseteste (11756-1253) . Robert Hooke (1635-1703) . Roger Bacon (12207-1292) . Sigmund Freud (1856-1939) . Rudolf Arnheim (1904-2007) . Theo Van Doesburg (1883-1931) . Theodor Bogler (1897-1968) . Theodoric of Freiberg (1250-1310) . Thomas Young (1773-1829) . Tomás Maldonado (1922-2018) . Victor Horta (1861-1947) . Victor Vasarely (1906-1997) . Wassily Kandinsky (1866-1944) . Walter Gropius (1883-1969) . Walter Paepcke (1896-1960) . Walter Zeischegg (1917-1983) . Wilhelm Wundt (1832-1920) . William Morris (1834-1896) . Wolfgang Köhler (1887-1967) . Wulf Herzogenrath (1944-) . Zaratustra (660-583 a.C)
5 Existem algumas dúvidas referentes a ambos os anos de nascimento e morte de Platão, sendo que alguns autores situam o seu nascimento entre 428 e 428 a.C., e o seu falecimento entre 348 e 347 a.C.
6 Existe alguma incongruência face ao ano de nascimento de Robert Grosseteste. Alguns autores apontam a data de 1175 (como Luís Miguel Bernardo na sua obra “Histórias da Luz e
das Cores”, vol. 1) e outros 1168 (ver Wikipédia portuguesa).
7 Existe alguma incongruência face ao ano de nascimento de Roger Bacon. Alguns autores apontam a data de 1220 (como Luís Miguel Bernardo na sua obra “Histórias da Luz e das Cores”, vol. 1) e outros 1219 ou 1214 (ver respetivamente a Wikipédia inglesa e portuguesa).
INTRODUÇÃO
Definição do tema
Para a realização de um bom projeto, um designer deve procurar conhecimento em diversas áreas que possam, de alguma forma, estar interligadas com a atividade projetual.
Não se fala apenas do desenvolvimento das competências básicas requeridas a alguém que se interesse pela área, mas sim de um aprofundamento proveniente do alargamento de temáticas que tão benéfico demonstra ser para o desenvolvimento criativo.
A resposta aos problemas que são intrinsecamente parte do trabalho de um projetista, mais facilmente encontram a sua solução ótima, na mente daqueles que a cultivam.
Tendo em conta esse facto, surge este estudo apresentado sobre a forma de dissertação, que visa, desincentivar a secundarização da importância que um fator tão intrinsecamente humano como o é o da perceção visual, tem diretamente na questão do design, sobretudo a nível projetual do objeto industrial.
Sendo o tema vastíssimo, houve a necessidade de o restringir a uma direção, o que mostrou ser uma tarefa complexa logo ao início; a simbiose entre elas é tão forte que o leque de opções se mostrou, à partida, vasto.
O primeiro ponto de partida é o de que todo o conhecimento cognitivo/racional começa na perceção; esta é a sua base a priori, uma vez que se baseia em estímulos sensíveis, que nada mais são do que conhecimento por organizar. Tendo estabelecida essa premissa, é necessário olhar para a importância da perceção como transformadora da relação do indivíduo com o mundo, devido à sua capacidade em criar e ordenar padrões possíveis de entender, face a experiências prévias, geradoras de um novo tipo de conhecimento e interação. Pode assim falar-se em “conhecimento como sensação”.
Cingindo o foco à perceção visual, esta escolha deve-se ao facto de a visão ser o principal sentido humano na interação com o mundo e, consequentemente, com os objetos, havendo uma secundarização dos demais sentidos pela crescente força da imagem visual enquanto elemento de comunicação condicionante da forma como o mundo é percecionado.
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Sendo o propósito do estudo abordar a relação da perceção visual com o Design, é pretendido explorar a sua contribuição no campo projetual para além das questões racionais, havendo sim interesse na forma organizacional da informação sensorial do ponto de vista da transformação do concreto em abstrato e do subjetivo em universal, sem nunca perder a noção da componente humana. É essa mesma componente que se pretende como fio condutor implícito de forma mais ou menos direta ao longo dos temas em análise.
Desta feita, podendo ter sido feito um estudo relativo a um momento espácio-temporal mais próximo, a preferência foi, no entanto, dada a um levantamento histórico de eventos ou marcos que, na história do design, foram cruciais para o panorama atual, através da sua contextualização cronológica e do estabelecimento de comparações entre sociedades económica, cultural e historicamente diferentes.
Apesar de focar sobretudo o ponto de vista do design e do designer, não foi, no entanto, desvalorizada uma componente humana intrínseca a ambos, que tão importante é para a contextualização e entendimento da temática em si. O trabalho do designer é, em parte, o de gerir as necessidades existentes, tendo sempre em vista soluções que aliem a resolução do problema, à sua aceitação por parte de quem dela necessita, fator indissociável ao significado e simbolismo que determinado objeto material acarreta, sobretudo do ponto de vista do inconsciente mental, onde o campo da perceção se torna crucial para o seu entendimento.
Assim surge este trabalho sob o título “Design e Visualidade: Aspetos da Perceção Visual aplicados ao Design de Produto”
Objetivos da Investigação
Após a definição do tema, tornou-se mais uma vez necessário estabelecer limites, dentro dos quais teria de haver uma integração no assunto a abordar, que proviesse de uma definição mais geral e entrosasse momentos concretos, no campo particular do design.
Desta forma, a presente dissertação pretende responder à seguinte pergunta de investigação: quais as implicações que a componente de base científica associada à perceção visual tem a nível projetual no campo do design de produto?
Tratando-se o design de um campo de investigação que reúne em si a dimensão visual e a experiência prática e performativa da relação do Homem com os objetos, manifestando- se como a forma de atingir determinados fins relacionados com as suas ações quotidianas, trata-se aqui de entender como as questões da visualidade se manifestam nas escolhas que os designers fazem durante o processo de design. Para isso, é necessário, por um lado, entender o fenómeno percetivo, e por outro identificar historicamente momentos exemplificativos da sua influência direta nas escolhas do designer como projetista.
Desta forma, foram delineados três objetivos principais e respetivos desdobramentos em objetivos secundários:
. primeiro, identificar quais os mecanismos humanos que permitem a cada indivíduo ser dotado de capacidades percetivas a nível visual:
- definir o fenómeno da perceção de forma a que possa ser posteriormente mais fácil de abordar do ponto de vista do design;
- descrever quais os mecanismos físicos associados, assim como as principais teorias relativamente ao seu funcionamento enquanto característica intrínseca humana, e influência no seu comportamento;
. segundo, identificar quais os principais marcos na história do design que refletem a evolução do estatuto do objeto, assim como as suas repercussões na forma como, individual e socialmente, o Homem se relaciona com os objetos, numa abordagem dentro da cultura material e de design:
- interpretar como se pode adaptar os princípios percetivos estabelecidos dentro da questão cognitiva e sensorial, a questões teóricas e práticas do campo do design, tanto do ponto de vista projetual, quanto pedagógico;
. terceiro, a título complementar e perante uma amostra real, perceber qual o grau de consciencialização dos alunos de licenciatura e mestrado em Design de Equipamento da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa face às temáticas em questão:
- inquirir qual a importância por eles atribuídas ao estudo e conhecimento das questões percetivas para a melhoria da atividade projetual?
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Estrutura da Investigação
Estruturalmente, o presente trabalho encontra-se dividido em três partes, excluindo a presente introdução e posterior conclusão, assim como o glossário e anexos.
Com o intuito de estabelecer um preambulo para as temáticas que se lhe seguem, a primeira parte visa definir as várias vertentes da perceção enquanto característica intrínseca ao Homem através dos seguintes pontos:
. caracterização do sistema visual humano, concretamente da estrutura morfológica e fisiológica do olho e cérebro, sem haver, no entanto, a pretensão de igualar a complexidade de um ensaio científico próprio do campo da medicina;
. faseamento do processo de visão em etapas desde a captação de informação até à sua interpretação, sempre na base do binómio olho-cérebro;
. estabelecimento do conceito de visão como múltiplo, no sentido em que a existência de vários tipos de visão, pode estabelecer diferentes reações percetiva;
. definição de “luz” enquanto informação visual, e de “cor” enquanto fenómeno da luz, pretendendo estabelecer a sua importância na visão, através da enumeração dos principais marcos na história do estudo da ótica;
. definição do conceito geral de perceção enquanto atividade cerebral, particularizando posteriormente para a questão da perceção visual em si mesma, através do levantamento de seis teorias, de entre as quais se destaca a “Teoria da Gestalt”, numa possível ponte para a questão do design;
. exploração do conceito de ilusão visual, estabelecendo a existência de múltiplas subcategorias nele inseridas, assim como a sua importância enquanto fenómeno percetivo.
No que concerne à segunda parte que dá corpo a este trabalho, pretende-se estabelecer qual o papel que a perceção teve ao longo da história do design industrial, tendo em conta toda a definição que foi feita previamente, fazendo sobressair alguns dos marcos mais relevantes não só do ponto de vista histórico, mas também da questão visual do objeto, daí que tenham sido estabelecidos os seguintes pontos a abordar:
. definição dos conceitos de “designer” e “design industrial” do ponto de vista histórico, procurando a origem dos mesmos;
. estabelecimento de uma cronologia onde determinados períodos e marcos concretos que antecederam o Modernismo serão identificados como parte de uma contextualização que permitirá entender momentos em análise no que diz respeito à evolução dos valores estéticos e visuais que o modernismo foi trazendo para o tratamento das questões formais, percetivas e funcionais inerentes ao objeto;
. análise da componente pedagógica e metodológica projetista da Escola Bauhaus do ponto de vista formal, produtivo e teórico do design, das quais será estabelecido um paralelismo com as questões percetivas da forma e a maneira como determinados pressupostos são adaptados a uma renovada visão do objeto, assim como uma nova forma de relacionamento direto para com a sociedade e com o consumidor em concreto;
. o ensino e estudo da questão percetiva focado na visualidade durante o período de funcionamento da Escola, focando para isso o trabalho de alguns dos principais mestres e docentes, sobretudo a nível das suas teorias da cor e da forma;
. estabelecimento do legado da Bauhaus em contexto americano, diferenciando os percursos seguidos, assinalando questões de ordem visual associadas à estética como o são o “streamlining” e o “styling”;
. estabelecimento do legado da Bauhaus em contexto europeu, focando sobretudo a Alemanha e mais concretamente a escola Hfg-Ulm como marco, assim como a sua forte componente funcionalista em questões como a comunicação, a “Teoria da Informação” e a metodologia de design, numa aproximação à Gute Form e à perpetuação que alguns desses princípios tiveram na metodologia atual;
. o Pós-Modernismo como disruptor do Funcionalismo e Racionalismo inerentes ao Modernismo, valorizando o papel que os movimentos de Design Radical italianos tiveram enquanto marcos nesse campo;
. breve salientar de algumas tendências genéricas e características repercussivas na perceção do objeto, na entrada no novo milénio e na atualidade.
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Por fim, relativamente à terceira parte, tendo em conta a sua componente de caráter prático, esta divide-se em duas fases:
. elaboração e colocação em prática de questionários a uma amostra na qual se inserem indivíduos de várias etapas do estudo em design;
. análise dos resultados de forma a obter uma amostra conclusiva que permita ter uma ideia do panorama atual relativamente à familiaridade dos setores, nos quais os indivíduos inquiridos se inserem, para com a questão percetiva no design.
Metodologia
Em termos metodológicos, a realização deste trabalho começou pela delimitação do tema que, à partida, teria de seguir um certo encadeamento lógico, que permitisse fornecer os dados necessários ao entendimento e contextualização das etapas seguintes.
Uma vez que houve temas abordados que não pertenciam diretamente à área de estudos do tema em causa, houve uma maior necessidade de procurar referências por meio da interligação e confrontação de informação, de forma a selecionar o mais rigorosamente possível, aquela que constitui o atual “estado da arte” nos diversos temas referidos.
Essa procura foi feita sobretudo através de referências bibliográficas de várias tipologias, tendo sido dada preferência à impressa e editada, devido ao rigor da sua revisão científica.
No entanto, no caso de serem temas recentemente abordados ou devido à sua sólida sustentação bibliográfica, foram igualmente utilizados artigos e trabalhos académicos como forma de complementar a informação disponibilizada.
Por fim, para responder ao último conjunto de questões relativamente ao impacto das temáticas no ensino atual, é de referir o levantamento de dados por meio da realização de questionários, cuja análise permitirá estabelecer em lato sensu o conhecimento da amostra face aos conceitos percetivos, assim como a sua aplicação em períodos e momentos específicos da história do design industrial.
Pretendeu-se assim, no seu todo, a obtenção de um trabalho completo que, apesar da sua forte componente teórica, fosse enriquecido por uma vertente de caráter prático que permitisse retirar uma conclusão fundamentada.
PARTE 1: A PERCEÇÃO VISUAL ENQUANTO CARACTERÍSTICA HUMANA
1.1. Sistema Visual Humano
O Ser Humano enquanto indivíduo é de uma complexidade tal que atualmente, mesmo face aos grandes avanços da medicina e da ciência, muito se encontra ainda por esclarecer relativamente ao funcionamento dos seus órgãos e sistemas.
Por esse mesmo motivo, o sistema visual não foge à regra. Apesar de atualmente se ter já uma base de conhecimento comprovadamente correta, isso não impede que daqui a uns anos esta seja total ou parcialmente refutada por novos conhecimentos adquiridos, como tem vindo a acontecer. O simples facto de este sistema depender grande parte da atividade cerebral, leva a que a falta de conhecimento que ainda existe em relação a este “super órgão”, impossibilite o conhecimento completo de qualquer função que dele dependa.
Uma dessas funções é a visão: esta é um dos cinco sentidos que permitem ao Ser Humano ter consciência para entender e interagir com o meio que o rodeia. Por isso, para entender o conceito de “visão” é importante pensar em termos de sensibilidade.
Existem diferentes formas de reação e aproveitamento da radiação eletromagnética que tão fundamental é para a vida no planeta. As plantas, por exemplo, utilizam-na como parte de um processo químico que lhes permite criar o açúcar necessário para a produção de energia. No entanto, grande parte dos animais, sejam eles de que classe ou categoria forem, utilizam essa luz não só para alimento celular produtor de energia, como também para entenderem o que os rodeia, processo que ocorre sobretudo através da visão. Esse grande grupo de animais, onde o Ser Humano está incluído, caracteriza-se por captar e transformar a luz por meio da interligação de dois grandes órgãos: o cérebro e o olho.
1.1.1. Olho Humano: Estrutura Morfológica e Fisiologia (síntese)
O olho humano apesar da sua complexidade é classificado simples8, comparativamente com outros sistemas visuais existentes na natureza. Composto por um par de globos oculares e os seus respetivos órgãos anexos – conjuntiva (zona de união do globo ocular
8 Ver “Olho Simples e Complexo” em “Glossário - Características e Fenómenos relativos à Visão”.
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à pálpebra), pálpebras inferior e superior, supercílios (ou sobrancelhas) e cílios (pestanas), musculatura extrínseca ocular (os seis pequenos músculos extraoculares mencionados em cada olho, trabalhando em par por oposição, de modo permitir movimentos em cada um dos três planos ortogonais) e aparelho lacrimal (secretor e excretor), (Teixeira, 2015, p.
12; Hubel, 1988, p. 34).
Apesar das funções cruciais dos seus vários anexos, é de focar os constituintes do globo ocular, uma vez que é neste que ocorre o processo de captação de informação que irá, posteriormente, permitir a visão.
Assim, a parte visível do globo ocular é constituído por uma região branca (a esclera), uma colorida (a íris) e uma negra (a pupila). A esclera trata-se de uma membrana protetora rígida que reveste o globo ocular até à região frontal, onde se encontra a córnea. É a mais exterior de três acamadas – além da coroide (parte integrante da úvea, juntamente com a íris e os músculos ciliares) e da retina (Teixeira, 2015, p. 13).
1.1.1.1. Pupila e Íris
Relativamente à pupila, esta é uma abertura para o interior do olho. A sua cor negra deve- se ao facto de não se encontrar iluminada por dentro. Este orifício é o local por onde a luz entra no aparelho visual. Este orifício não tem uma abertura constante; é regulado diretamente pela íris que, muito simplificadamente, contrai e distende de acordo com a informação obtida a nível do cérebro relativamente à quantidade de luz existente. Ou seja, quando existem baixos níveis de luminosidade9, o cérebro envia impulsos elétricos à íris
9 Ver “Luminosidade” em “Glossário - Características relativas à Luz e à Cor”.
Figura 1. Esquema Ilustrativo da Morfologia Principal do Olho Humano
estimulando-a de forma a que esta se contraia aumentando a sua abertura, e consequentemente a entrada de luz para que seja a necessária para o bom exercício da visão. O contrário ocorre se o nível de luminosidade for excessivo e possa, a longo prazo, causar dano aos órgãos a ele expostos10. A íris apresenta diferentes cores definidas geneticamente, de acordo com o índice de melanina (Gregory, 1978, pp. 52-53).
1.1.1.2. Córnea
Como foi referido anteriormente, existe uma zona frontal do olho coberta pela córnea.
Esta é uma membrana protetora (composta por seis camadas distintas) à semelhança da esclera. No entanto, contrariamente a esta, é transparente, uma vez que reveste a zona de entrada de luz no olho – a pupila. Precisamente nesse local, a córnea é substancialmente mais convexa do que a restante fisionomia do globo, tornando-se saliente a este. Não se encontra irrigada por vasos sanguíneos, sendo alimentada pela secreção lacrimal (lágrimas). Em termos de função, a córnea serve sobretudo para proteção e direcionamento (refração11) da luz (Gregory, 1978, pp. 49-51).
1.1.1.3. Humor aquoso
Ultrapassada a córnea, a luz irá deparar-se com um outro meio translúcido: o humor aquoso. A sua existência é fundamental para manter a pressão intraocular entre a córnea e o cristalino (Gregory, 1978, p. 51).
10 A este processo dá-se respetivamente o nome de midríase e miose.
11 Ver “Refração” em “Glossário - Fenómenos da Luz”.
Figura 2. Íris Distendida (cima), Íris Contraída (baixo)
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1.1.1.4. Cristalino
Relativamente ao cristalino, este é apelidado como a “lente do olho”. Sendo mais uma vez translúcido, leva a que haja alguma refração da luz. Tem uma forma biconvexa, que sofre transformações. Por ser a região responsável pelo direcionamento da luz para o interior do olho (mais concretamente para a retina), assim como pela focagem, esta necessita de se adaptar às diferenças de planos de observação – mais próximos ou mais distantes do observador. Para que isso aconteça, existe um processo chamado de
“acomodação do cristalino”. Por ser bastante gelatinoso e flexível, o cristalino permite ter tensões e distensões, cujos pontos de pressão se encontram lateralmente – os filamentos de zinn – servindo de ligação entre o cristalino e os músculos ciliares que proporcionam o seu movimento. Quando necessita de uma maior focagem – quando pretendemos ver pormenores a distâncias próximas do observador – os olhos tendem a convergir, e por consequência, o cristalino tende a tornar-se mais espesso (ou seja, mais convexo e acomodado), o que permite que haja uma maior superfície de entrada de luz a nível longitudinal. Aqui, os músculos ciliares encontram-se relaxados. No caso de objetos distantes – a partir dos seis metros pode falar-se em visão à distância – os olhos tomam cada vez mais uma posição paralela, e o cristalino reduz a sua secção longitudinal de forma a que a luz, que tem de percorrer um caminho mais longo, possa ser mais facilmente direcionada para a retina. Neste caso, os músculos ciliares encontram-se bem tencionados.
Com o progressivo envelhecimento, estes músculos assim como o cristalino começam a perder a sua elasticidade e rapidez de tensão/distensão, o que leva a um aumento do período de focagem dos indivíduos, assim como diversos distúrbios de visão12 (Gregory, 1978, p. 51).
1.1.1.5. Humor Vítreo
Antes de chegar à retina, a luz passa ainda por uma substância gelatinosa relativamente flexível, chamada humor vítreo. Esta substância, à semelhança do humor aquoso, tem por função manter a pressão na zona interior do olho, de forma a manter a sua forma esférica.
12 Ver “Distúrbios de Visão” em “Glossário - Características e Fenómenos relativos à Visão”.
1.1.1.6. Retina
Finalmente, após todo este percurso, a luz chega à camada mais interna das três já referidas13. Situada na zona posterior interna do globo ocular, considera-se pertence ao sistema nervoso central, uma vez que é nela que a luz é transformada em impulsos elétricos de forma a poder ser conduzida até ao cérebro e aí ser processada/interpretada.
A retina é extremamente irrigada por capilares sanguíneos e subdivide-se em diversas camadas celulares. Em termos sequenciais, do mais fundo do olho para o centro do mesmo, encontramos uma camada de melanina – o chamado epitélio – à qual se segue uma camada revestida por células fotorrecetores14. Essas células podem ser de dois tipos:
cones ou bastonetes15. Seguem-se mais quatro camadas de células: células horizontais, células-neurónio bipolares, células amácrinas e células-neurónio ganglionares (Hubel, 1988, pp. 36-39).
Mais à frente será retomada as suas respetivas funções no processo visual.
1.1.2. Cérebro humano – estrutura morfológica e fisiologia (síntese)
O cérebro é o órgão mais complexo existente no corpo humano. Por esse motivo, ainda muito se encontra por entender devido à complexidade e abrangência do seu funcionamento. Sabe-se ainda assim que é uma espécie de centro operacional responsável por todas as funções, órgãos e sistemas de um indivíduo (Damásio, 2000, p. 626).
No caso do Ser Humano, este órgão tem um peso médio de 1.5 quilos, e um tamanho equivalente a dois punhos cerrados. Encontra-se dividido em dois hemisférios com funções autónomas, mas cooperativas entre si, unidos por meio de uma região denominada corpo colosso. Externamente, encontra-se protegido por uma caixa óssea: o crânio. Tem uma aparência rosa-acinzentada, e está coberto de sulcos de forma a poupar espaço dentro da caixa craniana. Este é ainda composto por dois tipos de massa: a cinzenta e a branca16. No entanto, ainda antes de chegar à massa cerebral, entre esta e o crânio,
13 De fora para dentro do olho: esclera, coroide e retina.
14 Excetuando uma pequena zona central, o ponto cego ou escotoma, onde de encontra a ligação do nervo ótico à retina.
15 Ver capítulo “1.1.4. Tipos de Visão” deste trabalho.
16 De forma muito sintética, a massa cinzenta é composta sobretudo por células nervosas (ou neurónios) e capilares sanguíneos, enquanto que a branca é constituída de células gliais – consideradas células de
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existem três camadas protetoras: as meninges. De fora para dentro, a dura-máter, a aracnoide e a pia-máter (Damásio, 2000, p. 627; Hubel, 1988, pp. 5-6).
O cérebro divide-se em várias regiões, que dizem respeito a diferentes órgãos e funções, o que determina que faça parte do sistema nervoso central. É assim um órgão com especialização funcional.
No que ao sistema visual diz respeito, a região principal até onde a informação tem de ser conduzida, é o córtex visual, localizado na região do lobo occipital.
Retomando a ideia de que o nervo ótico faz a ponte entre o olho e o cérebro: a primeira etapa por onde a informação visual circula, agora sob a forma de estímulo elétrico, é o quiasma ótico (Gregory, 1978, p. 44).
1.1.2.1. Quiasma Ótico
Neste local, a informação proveniente de ambos os olhos, é cruzada pela primeira vez. Este cruzamento é muito organizado e compartimentado. A sua forma em “X” leva a que a palavra
“cruzamento” não seja utilizada aleatoriamente. A informação que provém de cada olho é dividida em duas partes independentes e isoladas, de acordo com a região de cada retina da qual foi transmitida – esquerda ou
manutenção da camada cinzenta a nível de isolamento elétrico, nutrição das células nervosas e sustentação física da forma – e axônios mielínicos que permitem às células uma condução de impulsos nervosos mais rápida (Damásio, 2000, p. 627).
Figura 3. Esquema Ilustrativo do Sistema Visual Central
Figura 4. Esquema Ilustrativo de Distribuição de Informação do Campo
Visual
direita. À região esquerda de ambas as retinas, corresponde uma representação do que se encontra na zona direita do campo visual e vice-versa, uma vez que os raios luminosos têm uma direção reta face ao olho. A nível de separação de informação no quiasma, aquela que é proveniente dos lados esquerdos de ambas as retinas, irá seguir pelo lado homónimo do quiasma. O inverso ocorrerá com a informação enviada pelo lado direito das retinas.
Após esta separação, a informação irá ser transmitida a um par de corpos geniculados laterais por meio de dois tratos óticos – canais celulares (Gregory, 1978, p. 45).
1.1.2.2. Corpos Geniculados Laterais
Existem dois corpos geniculados laterais: o esquerdo e o direito. É ao neurobiologista David Hubel que se deve o conhecimento estrutural desta região. Segundo o que defende na sua obra “Eye, Brain and Vision” publicada pela primeira vez em 1988, a informação nesta região do cérebro é organizada topograficamente, ou seja, mediante uma espécie de
“mapeamento”.
A organização de cada corpo genicular é feita por meio de seis camadas de células que se encontram distribuídas por colunas. Ao longo dessas camadas, a informação proveniente de ambos os lados esquerdo ou direito (se estivermos a falar respetivamente do corpo geniculado esquerdo ou direito), é disposta de forma intercalada, de maneira a não se misturar. Após essa divisão, a informação é mais uma vez transmitida, desta feita para o córtex visual primário, o que acontece por meio de um conjunto de ramificações celulares chamadas radiação ótica (Hubel, 1988, pp. 59-62).
1.1.2.3. Córtex Visual
O córtex visual encontra-se subdividido em duas zonas: a primária e a secundária. Em cada um dos locais, diferentes fases do processo visual têm lugar.
De forma a melhor definir as diferenças entre eles, o anatomista alemão Korbinian Brodmann, dividiu o córtex cerebral em cinquenta e duas áreas distintas, – conhecidas por “Áreas de Brodmann” – sendo que, ao que ao córtex visual diz respeito, encontramos
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a seguinte divisão: Área 17 - córtex visual primário (V1), Área 18 - córtex visual secundário (V2) e Área 19 - córtex visual associativo (V3, V4, V5), (Damásio, 2000, pp. 627 e 635).
É na zona do córtex visual que ocorrem os processos de interpretação e categorização, que permitirão fazer corresponder a informação dispersa a um significado concreto.
1.1.3. Processo de visão
Como foi referido, a visão é um processo que permite captar informação luminosa e fazer com que esta seja interpretada a nível cerebral. Para isso depende de um complexo sistema que deve grande parte do seu funcionamento ao cérebro e aos olhos, socorrendo-se do sistema nervoso central para os fazer comunicar. Para isso, existe uma cadeia de tarefas distintas que têm de ser ordenadamente seguidas.
1.1.3.1. Captação de Informação
Quando se refere “informação”, no caso da visão, refere-se concretamente a “luz”. Este é o estímulo que consegue ser captado pelo olho humano.
Ao chegar ao olho, a luz é parcialmente absorvida17 e refletida18, não apenas pala córnea19, mas também pelas superfícies frontal e posterior do cristalino. A parte que é absorvida, ao passar por diversas camadas transparentes irá sofrer pequenas alterações relativamente a sua composição, sobretudo a nível de refração (Gregory, 1978, p. 52).
17 Ver “Absorção” em “Glossário - Fenómenos da Luz”.
18 Ver “Reflexão” em “Glossário - Fenómenos da Luz”.
19 Só ao nível da córnea ocorre cerca de 2/3 da refração total.
Figura 5. Esquema Ilustrativo das
“Áreas de Brodmann” do Córtex Visual
É no cristalino que ocorre quase toda a restante percentagem de refração. No entanto, essa não é a sua principal função; o poder de foco é a sua grande função: fazer os ajustes necessários para permitir ver com clareza a várias distâncias (Hubel, 1988, pp. 34-35).
O cristalino é ainda responsável pelo primeiro estágio de organização da informação visual, ou seja, a representação. Tendo em conta que o cristalino tem uma forma biconvexa, as representações formadas na superfície mais externa e interna do mesmo, terão algumas diferenças a nível de tamanho e nitidez: enquanto que a superfície frontal dá uma imagem maior e menos nítida, a superfície mais recuada dará uma imagem de menor dimensão, mas mais brilhante e por consequências mais nítida, a qual se encontra, por sua vez, invertida (Gregory, 1978, p.52).
Essa imagem invertida irá ser projetada na retina, passando pelo humor vítreo que pouca alteração irá produzir na luz. Chegando à retina, começa a segunda fase do processo: a transformação.
1.1.3.2. Transformação
Esta é a primeira e mais decisiva etapa de conversão de luz em informação que ocorre durante o processo visual e tem lugar em apenas uma região do olho: a retina.
Chegando a ela, a luz, apesar das inúmeras camadas celulares que internamente compõem a retina, vai diretamente para a camada mais funda, ou seja, para uma zona (preta) coberta de melanina; o epitélio pigmentar que impede que a luz se reflita para outras regiões do olho (Hubel, 1988, pp. 34-38). Como a luz ainda não foi tratada, vem na sua forma praticamente original – à exceção das refrações que sofreu até alcançar a retina – o que acaba por significar fortes intensidades lumínicas e grande quantidade de dados. No entanto, muitos desses dados são irrelevantes para o grau de interpretação do cérebro, o que leva a que os mesmos tenham de ser tratados no processo até chegar até ele.
Atingindo essa camada pigmentar, a informação segue posteriormente para os cones e bastonetes já referidos. Daqui os dados sofrem uma transformação, passando de um código fotónico para um eletroquímico, capaz de ser transmitido e interpretado pelo cérebro. Sob esta nova forma, os dados são transmitidos numa sequência de camadas celulares até ao nervo ótico que os conduzirá ao cérebro (Hubel, 1988, pp. 36-38).
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1.1.3.3. Transmissão
Os estímulos lumínicos uma vez transformados em impulsos eletroquímicos, passam a estar em condições de poderem ser levados até ao cérebro e aí processados por ele. Essa comunicação é feita por meio ligações nervosas estabelecidas por a nível celular. Essa transmissão é de cerca de 100 m/s, o que pode ser considerado uma velocidade baixa. No entanto, essa suposta reduzida velocidade é compensada pela quantidade de células nervosas e respetivas conexões (Damásio, 2000, pp. 631-632).
Por se tratar de células pertencentes ao sistema nervoso central, estas têm uma categorização diferente; podem ser apelidadas de “células-neurónio” ou simplesmente “neurónios”. Cada neurónio é constituído por um núcleo celular e terminações ramificadas envoltas numa membrana celular, pelas
quais é feita a comunicação neuronal: umas mais curtas e abundantes – as dendrites – e outras mais compridas – os axónios. Respetivamente, ramificações de receção e de envio.
A informação é transmitida, por meio da ligação entre axónios e dendrites (Damásio, 2000, p. 625). No entanto, ao ter uma constituição eletroquímica, pressupõe dois tipos de mecanismos diferenciados, mas complementares: as sinapses elétricas e as químicas.
Sinapses são zonas de grande proximidade existentes entre células nervosas, nas quais a informação é transmitida de uma célula pré-sináptica para a seguinte, a célula pós- sináptica. A energia libertada sob a forma de neurotransmissores manterá a cadeia que leva à fase seguinte20 (Gregory, 1978, pp. 31, 39-41).
É através da constante atividade e informação que sistematicamente vamos recebendo, interpretando e armazenando, que a atividade cerebral evolui, a par com as suas ligações21 (Holtzschue, 2011, p. 52).
20 Por não corresponderem a esta descrição, as células fotorrecetoras não são considerados neurónios pois apenas têm axónios, já que são a primeira camada celular da cadeia (Damásio, 2000, p. 625).
21 Existem dois tipos de ligações: estruturais e temporárias. As ligações de caráter estrutural lidam diretamente com o funcionamento do organismo – onde se incluem os cinco sentidos; as ligações temporárias, contrariamente às anteriores, requerem aprendizagem e desenvolvimento constantes.
Figura 6. Esquema Ilustrativo da Composição de um Neurónio
1.1.3.4. Interpretação
A interpretação é a última fase do processo. Tratando-se (como será visto mais à frente neste trabalho), de uma fase de processamento mental, e termos físicos, ocorre a nível do córtex visual22.
De forma muito sintetizada, é de referir a explanação que António Damásio faz na sua obra “O Mistério da Consciência”. Segundo ele, quando a informação visual chega ao primeiro elemento do campo associativo, ou seja, V1, não se encontra codificada em imagens, mas sim ao nível da deteção de contornos.
Segue-se, já no córtex visual secundário, uma cumulação de complexidade proveniente do domínio do campo da associação visual (entre a informação que provém da retina e aquela que se encontra disponível). Aqui, à informação vinda de V1 são acrescentadas
“características”, de forma a podermos ser capazes de distinguir orientações, contornos ilusórios que determinam se dado estímulo faz parte figura ou do fundo.
Ainda dentro do campo associativo, existem mais três áreas – V3, V4 e V5 – que vão aumentando o nível de complexidade até atingir a representação em imagem como a concebemos, associadas ao movimento, à profundidade, à cor, entre outras.
Apesar de apenas serem entendidas por meio de processos cerebrais, todas estas características são apreendidas pela informação retiniana, o que pressupõe uma especialização ao nível da visão, que leva a que cada Ser Humano saudável tenha “vários tipos de visão” combinados para dar a mais completa imagem do ponto de vista interpretativo.
1.1.4. Tipos de visão
Antes de concebermos uma imagem visual, existem diferentes tipos de visão, correspondente quer à capacidade de distinguir diferenças entre luz e ausência de luz, quer à acuidade visual da cor (Holtzschue, 2011, p. 45). Um indivíduo pode ser capaz de discriminar diferenças entre tons muito próximos de cinza, mas não ser capaz de detetar
22 Ver o capítulo “1.3.2.5. Teoria estratificada de David Marr” deste trabalho.
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diferenças entre dois tons de uma outra cor, por exemplo um vermelho. Isto acontece, uma vez que estes dois tipos de visão passam por regiões diferentes do sistema visual.
1.1.4.1. Visão Escotópica e Fotópica
Essa diferença ocorre ao nível das células fotorrecetoras da retina: os cones e os bastonetes. A grande diferença entre estes dois tipos de célula é o facto de uns – os cones – serem responsáveis pela visão fotópica ou diurna, ou seja, com grandes quantidades de luz, permitindo ter uma boa acuidade visual a nível de pormenores e cor; enquanto que os segundos – bastonetes – apenas funcionam em condições de pouca luminosidade, permitindo-nos ter a noção de contrastes. São responsáveis pela chamada visão escotópica ou noturna (Gregory, 1978, pp. 60-61).
Em termos numéricos, os bastonetes são muito superiores aos cones, uma vez que os segundos apenas se encontram na zona da fóvea – com cerca de 1.5 mm de diâmetro, situa-se diretamente na direção da íris, na região central do fundo do olho, onde tem uma forma ligeiramente côncava (Holtzschue, 2011, p. 51).
Em termos práticos, existe uma relação proporcional entre a capacidade em percecionar e distinguir matizes cromáticas e a qualidade da luz existente; ou seja, quando os objetos parecem mais coloridos, isso deve-se ao facto de existirem níveis de iluminação mais elevados. Consoante os níveis de luz vão reduzindo, a imagem vai perdendo nitidez, até chegar a um ponto em que o cérebro dispõe de tão pouca informação cromática para completar a imagem, que o faz com diferentes tons de cinza. Isto é sinónimo de que os cones “adormeceram”, e que cabe aos bastonetes a função fotorrecetora (Holtzschue, 2011, p. 52).
1.1.4.2. Visão Cromática e de Claro-Escuro
A visão cromática, como acabado de referir, está a cargo das células fotorrecetoras de tipo cone. O Ser Humano regular tem três tipos desta célula, denominados “large”,