PARTE 2: A PERCEÇÃO VISUAL APLICADA AO CONTEXTO HISTÓRICO DO DESIGN DE PRODUTO
2.4. O Legado da Bauhaus em Contexto Americano
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Resumidamente, tendo em conta as oportunas aproximações temporais e espaciais geradas, assim como o facto de questões como a relação entre perceções cognitivas, fisicalidade e materialidade dos objetos/imagens estar no centro dos problemas fenomenológicos que interessavam tanto aos psicólogos da Gestalt, como a muitos dos professores da Bauhaus, é normal que essa conexão tenha ocorrido entre os momentos e protagonistas referidos (Little, et al., 2015, p. 46).
O grande empenho no desenvolvimento de tal percurso de pensamento, definiu um marco que eternizou a Bauhaus como a origem de um legado que foi sendo transmitido e apurado por estudiosos interessados nestes temas, e que permitiram que hoje seja possível ter uma noção cronológica e evolutiva de conceitos tão intrinsecamente presentes no pensamento projetual do designer industrial.
s.d.). À semelhança do que acontecia na Bauhaus, Albers lecionava, dentro da vertente das artes visuais, questões como a cor, a luz e a forma.
Por fim, de referir ainda o nome de László Moholy-Nagy, convidado para ser o diretor da New Bauhaus - American School of Design152 no seu primeiro ano letivo em 1937, onde se manteve como diretor até ao ano de 1945153.
Estas mudanças foram cruciais para o desenvolvimento do design americano e para a sua entrada numa posterior fase pós-modernista, como será exposto.
2.4.1. Questões Estéticas e Percetivas do Design Industrial Americano Moderno Os anos 30 americanos foram um marco na evolução conceptual e ideológica da indústria, e consequentemente do design, que se viria a enraizar nas décadas seguintes.
Essa grande mudança deveu-se sobretudo à necessidade de renovar a confiança social na economia, de forma a dinamizar o mercado de compra e venda de produtos, que estagnara devido ao clima de incerteza económica após a Grande Depressão de 1929154.
Com a crescente instabilidade europeia existente no período entre guerras, e com a imigração de muitos artistas e designers, houve uma natural mescla de conceitos e ideologias que se mostrou muito profícua no desenvolvimento e evolução, não só em termos estéticos e projetuais, como sociais e económicos. A maior facilidade de difusão de ideias levou a uma maior homogeneidade entre continentes que, ainda que com características diferentes, se regiam pelos mesmos princípios base. Estava assim criada a ponte para fenómenos como a Art Déco155 ou o Estilo Internacional focado na arquitetura.
Focando apenas o campo do design industrial, a Art Déco mantém-se como um marco extremamente relevante. Apesar de toda a sua sumptuosidade, esta começa a adaptar-se,
152American School of Design: é a Escola fundada por industriais norte-americanos, entre eles Walter Paepcke, responsável pelo convite a László Moholy-Nagy para a sua direção. Apesar de fundada com o nome “New Bauhaus - American School of Design”, no ano de 1939 muda a sua denominação para “The School of Design in Chicago”, sendo que por fim, em 1945, com a anexação ao MIT (Massachusetts Institute of Technology) recebe o nome pelo qual ainda hoje é reconhecida “The Institute of Design”.
153 Por falta de financiamento, a Escola foi obrigada a encerrar ainda durante primeiro ano-letivo, tendo retomado atividade no ano seguinte já sob apoios externos.
154 Grande Depressão de 1929: teve por base a quebra da bolsa e do valor de grande parte das ações americanas, o que levou os Estados Unidos a entrar em recessão.
155 Ver “Art Déco” em “Glossário - Tendências, Estilos e Movimentos”.
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aproximando-se mais da vertente industrial (como é exemplo a aplicação de novos materiais como o aço inoxidável, os plásticos e os tratamentos como a cromagem). Foi este conjunto de acontecimentos que estiveram na base do desenvolvimento de dois dos conceitos mais significativos do design americano: o “styling” e o “streamlining”.
Nos anos 30, ambos os conceitos surgem indissociavelmente por partilharem um objetivo:
tornar a aparência de um objeto mais apelativa, levando-o a ser desejado e comprado.
Como forma de atingir uma realidade em que a “evolução” e “facilitismo” fossem um
“must”, começaram a surgir necessidades até aí inexistentes, que por sua vez vinham aumentar a necessidade de aquisição de objetos acessíveis e quotidianos, que cumprissem funções que até aí eram feitas manualmente. Ainda que gerador de receita, este novo estilo de vida não era suficiente; era necessário algo mais para dinamizar de forma permanente a economia de consumo de produtos industrializados. A solução mais viável foi a de apelar ao consumo pelo gosto, e não pela utilidade.
Numa Era em que os objetos eram robustos e feitos para aguentar utilizações frequentes durante longos períodos temporais (os chamados “objetos para a vida”), a sua duradoura vida útil tornava-se um entrave a estes novos objetivos. Assim, e como forma de o combater, uma vez que esses objetos não viriam a ser substituídos mais cedo pelo incumprimento da sua função, a solução encontrada foi no sentido de apelar ao gosto e à aparência do objeto. Ao “estilo”.
O facto de tornar os objetos mais interessantes do ponto de vista visual, aumentava o desejo em os adquirir. Assim, por um lado, cada indivíduo ganhava a sensação de melhoria da qualidade de vida, por outro, em termos coletivos havia um crescimento económico por meio do aumento substancial de consumo. No entanto, esta ideia era completamente antagónica e disruptiva para com os princípios defendidos pelo funcionalismo.
Como ferramenta para esse mesmo propósito, surge o styling. Tendo uma forte presença nos mercados, surge por meio de diversas abordagens. Uma delas foi o streamlining156: por vezes classificado como um subgénero do styling, surge igualmente como uma variante mais moderada dentro da Art Déco. Devido às suas características específicas,
156 Ver “Streamlining” em “Glossário - Tendências, Estilos e Movimentos”.
os objetos streamline distinguem-se formal e esteticamente por transmitirem, de forma explícita, a ideia de velocidade.
Numa época em que o aerodinamismo157 estava em voga, uma “modernidade dinâmica” ia ao encontro dos desejos do
“sonho americano” típico da classe média norte americana. Tratava-se assim de uma espécie de:
“cosmética apropriada e cautelosa do produto (…) que lhe conferia um novo atrativo proporcionando elegância ao objeto” (Dorfles, 1991, p. 49).
Tal como o próprio styling, este estilo não era unanimemente aceite, sobretudo por designers e teóricos mais puristas e racionalistas apoiantes do funcionalismo, uma vez que, enquanto estes tentavam simplificar o desenho dos objetos ao essencial para que estes tivessem baixos custos de produção e pudessem ser acessíveis a classes mais baixas, os defensores do streamlining, por contrário, pretendiam atingir a classe média/alta, ou seja, a classe com maior poder de compra no mercado, oferecendo-lhe objetos apelativos e consequentemente de custo mais elevado (Erlhoff & Marshall, 2008, pp. 376-378).
No geral, a questão do styling não se limitou à América do Norte; inclusive na Europa existem exemplos claros da influência deste movimento.
No entanto, o styling foi e ainda é um dos grandes dinamizadores dos mercados, por criar as condições necessárias para o surgimento de conceitos como a “concorrência”158 ou a
“moda”159, que facilmente abre o paradigma para questões como as “tendências” ou o
157 Ver “Aerodinamismo” em “Glossário - Tendências, Estilos e Movimentos”.
158 À semelhança dos dias de hoje, este é um fenómeno permanentemente presente nos mercados seja de que área for, uma vez que, a partir do momento em que existe muita oferta, começa também a surgir a competição pela liderança de mercado e preferência na escolha dos consumidores. Para que tal seja conseguido, perante marcas concorrentes de um mesmo produto, o fator primordial que, na grande maioria das vezes leva um comprador a optar por um ou outro objeto funcionalmente semelhantes, é a sua aparência.
159 Ver “Moda” em “Glossário - Conceitos de Psicologia, Filosofia, Comportamento e Comunicação”.
Figura 33. Protótipo Schlörwagen (1939)
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“estilo”, indissociáveis de uma certa educação e evolução do gosto coletivo, que pela sua forte componente visual, muito deve à questão da valorização percetiva.
“O feio vende-se mal, logo é necessário valorizar os aspetos formais (baseando num redesign superficial), estimulando a compra (atuando sobre as esperanças e os desejos do consumidor) através de uma operação semântica (Raymond Loewy como citado em Lage & Dias, 2002, p. 127)160.