• Nenhum resultado encontrado

PARADOXOS E SINTOMAS DO IMAGINÁRIO ECOLÓGICO MESTRADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2019

Share "PARADOXOS E SINTOMAS DO IMAGINÁRIO ECOLÓGICO MESTRADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA"

Copied!
183
0
0

Texto

(1)

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

FABIOLA CORBUCCI

A ESTÉTICA DA PULSÃO DE MORTE NA

CONSCIENTIZAÇÃO AMBIENTAL:

PARADOXOS E SINTOMAS DO IMAGINÁRIO ECOLÓGICO

MESTRADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA

(2)

FABIOLA CORBUCCI

A ESTÉTICA DA PULSÃO DE MORTE NA

CONSCIENTIZAÇÃO AMBIENTAL:

PARADOXOS E SINTOMAS DO IMAGINÁRIO ECOLÓGICO

Dissertação apresentada à Banca examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Comunicação e Semiótica sob orientação do professor Dr. Jorge de Albuquerque Vieira.

(3)
(4)

FABIOLA CORBUCCI

A estética da pulsão de morte na conscientização ambiental:

paradoxos e sintomas do imaginário ecológico

Dissertação apresentada à Banca examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo no dia 12 de maio de 2011, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Comunicação e Semiótica sob orientação do professor Dr. Jorge de Albuquerque Vieira.

________________________________________________________________ Prof. Dr. Ivo Assad Ibri (PUCSP)

________________________________________________________________ Prof. Dr. Christian Ingo Lenz Dunker (IP/USP)

_________ _______________________________________________________ Prof. Dr. Jorge de Albuquerque Vieira (PUCSP)

(5)
(6)

Agradecimentos

Ao CNPq e à PUC, pelo financiamento da pesquisa que deu origem a este trabalho. À PUC, pela estrutura educacional e administrativa. À Cida, pela prontidão e pelas informações. Aos professores, pelos ensinamentos e inspiração.

Ao meu orientador, Jorge de Albuquerque Vieira, pela atenção, dedicação e cuidado, além dos diálogos sempre estimulantes e do incentivo inestimável. Muito obrigada.

Aos professores Lucia Santaella e Oscar Cesarotto, pelas orientações durante o exame de qualificação.

Ao professor Eugênio Trivinho, pela abertura das possibilidades de diálogo nos grupos de pesquisa. Aos colegas do CENCIB, que me receberam nos espaços de discussão; principalmente ao Tales, pelas sugestões muito bem-vindas, ao Giovani, pela consideração, e ao Vinicius e à Heloisa, pelas conversas.

Muito obrigada ao Aidar, por todos os diálogos deliciosos, pelos ensinamentos reorientadores, pela amizade e pela dedicação inestimável nas leituras e nos comentários dos meus textos.

Àquelas que ajudaram a fundar meu percurso pela psicanálise e às quais devo a possibilidade de ter despertado para um caminho que me encanta cada vez mais: Katia Bautheney, minha orientadora da iniciação, e Lucia Valladares, minha orientadora da monografia.

Ao Arthur e à Emily, pela revisão do resumo em inglês. À Lê, pela tradução do resumo para o francês.

À Pema, sem a qual esta dissertação não seria finalizada como o foi, e muito provavelmente sequer teria sido iniciada, agradeço pela revisão do texto e pela tradução do resumo para o inglês. Mas agradeço sobretudo pela possibilidade de diálogo, cuja profundidade e rigorosidade tensionam sempre meu pensamento.

Ao Álvaro, de quem sempre espero uma canção, que transformou os últimos meses da minha vida no que há de mais intenso, surpreendentemente mais do que pode ser o período de finalização de uma dissertação. Ainda bem!

Aos meus amigos, Karen e Arthur, pela amizade que me sustenta.

À minha irmã, Silvia, pela presença exemplar: ao mesmo tempo reconfortante e provocante.

(7)

Aos pequenos, que constituem a mágica e o encanto do meu dia a dia.

(8)

Sistemas vivos não têm acesso ao real, mas têm que ser coerentes com ele, sob risco da destruição da espécie.1

(9)

Resumo

Considerando a relativa (in)eficiência da disseminada conscientização ambiental desenvolvida pelos meios de comunicação mais diversos como um sintoma social, em que um grande sucesso e um grande fracasso coexistem paradoxalmente, esta pesquisa investiga um tipo de imagem veiculado a essa comunicação temática com o propósito de discutir o imaginário que o alimenta. Verificamos que há um certo tipo de imagem que se enquadra no que denominamos estética da pulsão de morte: retrata, no nível indicial, ambientes degradados e fenômenos apocalípticos; no nível icônico, recorre a uma plasticidade que mimetiza as qualidades da morte. Por que esse tipo de imagem é apresentado mesmo quando o assunto tratado pretende clamar pela continuidade da vida? Essa questão instigou-nos a analisar a iconicidade (semiótica peirceana) das imagens catastróficas veiculadas pelos media como reveladora de um imaginário tanatofílico e promotora de um interpretante que convida à contemplação, à inércia, ao Nirvana. Para isso, indagamos sobre uma relativa inoperância das populações frente à grande demanda dos movimentos ambientais por uma transformação radical do modo de vida. Essa relativa inoperância, anunciada não apenas nos relatórios ambientais como nos media, surpreende diante da disseminação da questão ecológica un peut

partout nas sociedades urbanas pelo menos desde a década de 1960. É esse lapso paradoxal do movimento ambiental que é tomado como sintoma social e relacionado ao imaginário tanatofílico manifestado nas imagens da campanha ambiental generalizada dos media. Resgatamos, para isso, o contexto social, político e cultural do capitalismo moderno a fim de compreendermos melhor como a representação da natureza está implicada nas práticas cotidianas das sociedades urbanas. Refletimos, ainda, sobre as vicissitudes de um processo civilizatório glocalizante para a efetivação da relação dos homens com a natureza. Com esse suporte, propomos realizar uma discussão teórico-interpretativa sobre a comunicação imagética da campanha ambiental, sobretudo em suas dimensões psíquica e imaginária. Investigamos o discurso dessa disseminada campanha de conscientização ambiental a partir de uma análise de suas imagens para evidenciar pontos ou aspectos latentes e, com isso, construir uma interpretação sobre a inoperância frente à ameaça ambiental. Para isso, são fundamentais as teorias de Peirce e Freud, além das reflexões de outros autores, como Keith Thomas, José Augusto Pádua, Eugênio Trivinho, Vladimir Safatle e Slavoj Žižek. São centrais, ainda, conceitos como o de signo (ícone e índice, sobretudo, mas também o de símbolo), imaginário, fetichismo, inconsciente e pulsão de morte.

(10)

Abstract

The relative (in)efficiency of environmental awareness programs carried out by various communication media is considered here as a social symptom in which great success and failure paradoxically coexist. This research investigates one type of image related to this thematic communication with the purpose of discussing the imaginary on which it draws. We note that there is a type of image that fits into the aesthetics of the death drive: at the indexical level it portrays degraded environments and apocalyptic phenomena; at the iconic level it recurs to a plasticity that mimics the qualities of death. Why is this type of image presented even when the subject it addresses intends to promote the continuity of life? This question led us to analyze of the iconicity (Peircean semiotics) of the catastrophic images transmitted by the media as revealing a thanatophilic imaginary and promoting an interpretant that invites the observer to contemplation, inertia, and the Nirvana. With this purpose, the relative

inoperativeness of populations concerning environmental movements’ emphatic demand for a radical transformation in their ways of life is questioned. This relative inoperativeness, announced not only in environmental reports, but also in the media, is surprising in view of the widespread dissemination of the ecological issue in urban societies at least since the 1960s. We interpret this paradoxical gap in the environmental movement as a social symptom and relate it to the thanatophilic imaginary manifested in the images of the environmental campaign and generalized through the media. We draw on the social, political, and cultural context of modern capitalism with the purpose of better understanding how the representation of nature is implicated in the daily practices of urban societies. We reflect on the vicissitudes of a glocalizing process of civilization for the effectiveness of the human relation to nature. With this in mind, we carry out a theoretical and interpretive discussion of the visual communication accomplished by the environmental campaign, especially in its psychic and imaginary dimensions. We investigated the discourse of this widespread environmental campaign based on an analysis of its images in order to make evident latent points or aspects and, thus, interpret inoperativeness concerning the environmental threat. The theories of Peirce and Freud have been fundamental for our analysis, as well as reflections by other authors, such as Keith Thomas, José Augusto Pádua, Eugênio Trivinho, Vladimir Safatle, and Slavoj Žižek. Concepts such as sign (especially icon and index, but also symbol), imaginary, fetishism, the unconscious, and death drive are also central to our analysis.

(11)

Résumé

Tenant en compte l’(in)efficience de la conscientisation environnementale développée par les plus divers moyens de communication comme un symptôme social où une grande réussite et une grande faillite coexistent paradoxalement, cette recherche a investigué un type d’image lié à celle communication thématique afin de discuter l’imaginaire qui l’alimente. Nous avons vérifié qu’il existe un certain type d’image qui s’insère à ce que nous appelons de l’esthétique

de la pulsion de mort: cet image trace, dans le niveau indicial, des environnements dégradés et des phénomènes apocalyptiques et, dans le niveau iconique, il recourt à une plasticité qui mimétise les qualités de la mort. Pourquoi adopte-t-on ce type d’image, même quand le sujet traité souhaite appeler pour la continuité de la vie? Cette question a instigué à analyser l’iconicité (sémiotique peircienne) des images catastrophiques apportés par les medias comme un révélateur d’un imaginaire thanatophilique et comme un promoteur d’un interprète qui invite à la contemplation, à l’inertie, au Nirvana. Pour cette fin, nous interrogeâmes sur une relative inefficacité des populations face à la grande demande des mouvements environnementaux pour une transformation radicale du mode de vie. Cette relative inefficace qui est annoncée non seulement par les rapports environnementaux, mais aussi par la media, cause surprise devant la dissémination de la question écologique un peu partout dans les sociétés urbaines, au moins depuis les années soixante. Il est dans ce lapsus paradoxal du mouvement environnemental qui a été amené à un symptôme social et donc lié à l’imaginaire thanatophilique manifesté dans les images des campagnes environnementales généralisées des medias. À ce but, nous avons regardé le contexte social, politique et culturel du capitalisme moderne afin de mieux comprendre de quelle manière la représentation de la nature s’implique dans les pratiques quotidiennes des sociétés urbaines. En outre, nous avons réfléchit sur les vicissitudes d’un procès civilisateur glocalisante pour l’effectivité de la relation des humains avec la nature. Sur cette base, nous proposons de réaliser une discussion théorique-interprétative sur la communication visuelle de la campagne environnementale, surtout dans ses dimensions psychique et imaginaire. Nous travaillons pour investiguer le discours de la disséminée campagne de conscientisation environnementale à partir d’une analyse de ses images pour évidencier des points ou des aspects latentes et pour, à travers cela, construire une interprétation sur l’inefficacité face à la menace environnementale. Pour ce faire, il était fondamental les théories de Peirce et Freud, sans parler des réflexions d’autres auteurs comme Keith Thomas, José Augusto Pádua, Eugênio Trivinho, Vladimir Safatle et Slavojzizek. Et il a été central les concepts comme le signe (l’icône et l’indice, surtout, mais aussi, le concept de symbole), l’imaginaire, le fétichisme, l’inconscient et la pulsion de mort.

(12)

Sumário

Introdução ... 01

Capítulo 1 - Natureza? Qual?... 09

1.1 – O termo natureza 09

1.2 – A natureza na modernidade 12

1.2.1 Argumentos sobre o predomínio humano: da religião ao capitalismo 16 1.2.2 Entre mito e ciência: a origem da dominação na alteridade e no medo 19

1.3 – A natureza no sistema capitalista 23

1.3.1 Urbanização e industrialização: a apropriação capitalista da natureza 24 1.3.2 Sociedade de consumo: a natureza como objeto de consumo, sem limite 27 1.3.3 O desencantamento do mundo: a natureza como objeto do conhecimento 35

Capítulo 2 - Movimento Ambiental e processo de glocalização... 45

2.1 – Movimento Ambiental como movimento histórico-epistemológico 46

2.2 – Meios de comunicação e conscientização ambiental 54

2.2.1 O glocal 57

2.2.2 Movimento Ambiental e glocalização 60

Capítulo 3 – Psicanálise e imagem ... 73

3.1 – Por que a psicanálise? 74

3.1.1 O sintoma social 78

3.1.2 Fetichismo e imaginário social 84 3.1.3 A pulsão de morte 93

3.2 – Por que imagens? 100

3.2.1 – Por uma semiótica psicanalítica das imagens: estética da pulsão de morte 104 3.2.2 – O sublime e a contemplação: aesthesis de Thanatos 110

Capítulo 4 - Análise das imagens... 116

4.1 – Descrição e análise das imagens 118

4.2 – Resumo das características principais 145

4.3 – Escuta das imagens: revisitar o sintoma 146

4.3 – Discussão: revisitar a interpretação 150

Conclusão ... 154

(13)

Introdução

O grande risco de um raciocínio apocalíptico é que na mesma extensão em que convence, também imobiliza.1

Várias questões a respeito da degradação ambiental contemporânea têm preenchido discussões acadêmicas, políticas, místicas e privadas das mais variadas formas e sob o domínio de múltiplos campos, como a ética, a economia, a sociologia, a educação e a biologia. Os espaços mediáticos também enfatizam a questão diariamente. Da mesma maneira, uma diversidade de práticas relacionadas à questão ambiental tem ocorrido na sociedade por meio de movimentos sociais (ditos) ecológicos, ambientalistas ou sustentáveis, que declaram defender desde a sociedade à natureza e às gerações futuras. Assim, é possível averiguar o crescimento do interesse pelo tema ambiental e pela conscientização sobre a degradação no aumento da aparição do tema nos meios de comunicação desde a década de 1960, além de sua institucionalização nas legislações e nos projetos educacionais.

Apesar desse fenômeno de escala global2 que marcou o final do século XX e o início do XXI com a ecologia, a degradação ambiental parece persistir – ao menos, ela continua sendo anunciada nos meios de comunicação e vastamente discutida nos diversos espaços acadêmicos. Não só a degradação é trazida como real. A ineficiência, ou insuficiência, dos empreendimentos pessoais ou coletivos para alterar o processo de degradação é igualmente apresentada como real3. Diante disso, aparece uma revanche de novos discursos a respeito,

1

Richard Falk apud Lasch, 1986, p. 11.

2 É verdade que o berço das discussões ditas ecológicas foi a Europa. Contudo, desde sempre as preocupações

referiam-se aos problemas ambientais globais ou, quando locais, passíveis de serem espalhados por todo o mundo. Antes do século XX, questionamentos sobre a degradação ambiental já pululavam em discussões acadêmicas ou públicas (como provam as cartas escritas por naturalistas desde o século XVIII). Pádua (2002), por exemplo, discute a expressão da questão ambiental no âmbito da política brasileira do século XVIII. Mas é possível discriminar o tema ambiental como um dos assuntos centrais dos meios de comunicação e dos governos apenas por volta da metade do século XX em diante.

3 Uma fala da ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, é bastante exemplar dessa sensação de

(14)

agora, da persistência da degradação nos mesmos espaços que se dedicaram a pensar a degradação em si. Destacam-se, sobretudo, as reflexões acadêmicas realizadas nas ciências naturais, sociais, políticas e econômicas, que originaram, inclusive na esteira da interdisciplinaridade, grupos de pesquisa e programas de pós-graduação dedicados às ciências ambientais.

Entre esses diversos espaços de reflexão que procuram dar conta de construir uma explicação para a degradação ou para sua persistência; bem como elaborar delineamentos para uma conscientização efetiva, os estudos de comunicação, por um lado, parecem ser capazes de iluminar um campo de análise que abre perspectivas de reflexão não necessariamente contempladas nos estudos sociais – que focam sobretudo a crítica político-econômica do sistema capitalista. Os estudos de comunicação dão atenção a essa prática fundamental das sociedades contemporâneas que é a produção de discursos por meios cada vez mais tecnológicos e arraigados no cotidiano. Além disso, embora eles não negligenciem a dimensão socioeconômica, abrangem a dimensão cultural (antropológica) naquilo que ela engendra de mais sutilmente manifesto na construção social, a saber, o imaginário4. Nesse sentido, os estudos da comunicação, justamente por beberem interdisciplinarmente em teorias sociais, psicológicas e antropológicas, podem realizar uma leitura das relações humanas a partir das empiricidades comunicacionais. Em outras palavras, trazer a questão ambiental para o campo de estudos da comunicação é olhar para ela como um fenômeno que é, além de histórico, sociológico, político e cultural, um fenômeno comunicacional. Dessa maneira, enfatiza-se esse último aspecto da questão ambiental sem desprezar sua complexidade.

Tendo em vista o contexto social imerso na questão ambiental e a perspectiva comunicacional de investigação, a problemática desta pesquisa apareceu-me ao indagar, a partir de um viés psicológico, as motivações para a continuidade da degradação ou, em outras palavras, as motivações de uma inoperância (com toda significância paradoxal que essa expressão possa ter). Na verdade, esta pesquisa nasceu, de fato, de um incômodo muito particular diante de um certo tipo de imagem5 vinculada a notícias, campanhas ou outras formatações comunicacionais cujo tema central era a questão ambiental. Pareceu-nos, a uma

coisas com tão pouco resultado prático. Era como se aquele conhecimento avançado e aquela linguagem especializada nos apartassem do mundo corriqueiro das pessoas” (Marina Silva, 2003, p. 09, In: Trigueiro, 2003).

4 Entre as possíveis definições de imaginário, adota-se a formulada na reflexão de Cornelius Castoriadis (1982

[1974]), então inspirada na tríade lacaniana: Imaginário, Real e Simbólico.

(15)

certa altura da observação dessa comunicação temática, que tais imagens tinham uma marca relativamente frequente: a morte. Além disso, mais do que a um símbolo recorrente – e, por sinal, nada casual –, muitas imagens apelavam para uma construção plástica mais ou menos definida (a que chamarei de “estética da pulsão de morte”), que poderíamos delimitar, muito sinteticamente, a partir dos seguintes traços: 1) cores pastéis ou regime de preto e branco, configurando uma homogeneidade cromática, e 2) disposição repetitiva, quase infinita, de objetos parciais que formam uma textura (também) homogênea do objeto total. De certa maneira, esse tipo é chocante: terrível e belo, ao mesmo tempo. Por que esse tipo de imagem é tão frequente, mesmo quando o assunto tratado quer clamar pela continuidade da vida?

Dado que tais imagens são frequentemente expostas em múltiplos suportes comunicacionais (revistas, jornais, Internet, livros, postais, televisão, cinema), submetendo o observador a uma série interminável delas ao longo de sua vida, a conjunção desse recurso estético com o símbolo da morte pareceu abrir espaço para um efeito social explosivo, ou melhor, “implosivo”. Este trabalho pretendeu argumentar justamente sobre essa hipótese de um “efeito implosivo” que é, em última instância, a passividade diante da questão ambiental configurada, a partir de tais imagens mas também para além delas, como urgência de mudança integral de hábitos. Adotar o termo “passividade” carece de explicação. É apenas

Figura 1: Peixe e terra. Imagem encontrada em:

(16)

quando consideramos, de fato, o grande turbilhão de discursos e práticas que surgiram ao redor do mundo, implementando nas profundezas da cultura uma mentalidade ecológica, que podemos nos perguntar sobre a estranha continuidade da degradação. Que tipo de mudanças o movimento ambiental teve a competência de introduzir em uma sociedade que, apesar dela, no cômputo geral de seus objetivos, fracassa em relação aos ideais dos movimentos sociais pela mudança de hábitos e pela preservação? Que cidadão já não se perguntou por que não é capaz de, mesmo entendendo as consequências de seus hábitos, alterá-los? Como é possível, mesmo tendo alcançado uma compreensão ou tendo consciência de que seus hábitos levam ao pior, ainda assim não alterá-los? Parece tratar-se de um paradoxo: uma

passividade frente à radical permeabilidade da questão ecológica no social. Nesse sentido, tal efeito implosivo é, diante da declarada intenção da “campanha ambiental” – entendida aqui como esse grande e disseminado empreendimento social para a conscientização6–, um paradoxo. E este paradoxo se dá de forma paralela, então, à estética paradoxal do belo/terrível das imagens7.

O símbolo da morte e o “convite não-intencional” 8 a uma postura contemplativa ou resignada instigaram-nos a considerar a pulsão de morte como sendo a pulsão particularmente expressa na comunicação dessas imagens. Dado que a campanha ambiental luta pela vida, nada mais sintomático do que encontrar, no lugar de um Paraíso, um convite ao Nirvana, com toda a ambiguidade paradisíaca e mortífera que convém ao último. Daí também termos considerado válido refletir sobre a possibilidade de um sintoma social ou um

sintoma da cultura particularmente expresso no “Movimento Ambiental” 9.

6 Considero “campanha ambiental” o conjunto dos discursos que se pretendem conscientizadores, tenham eles

viés educativo declarado ou não. De capas de livros sobre o tema ambiental a suportes mais inusitados, como adesivos de carros, todos podem ser submetidos a essa grande generalização que abarca a comunicação da questão ambiental, sendo passíveis de pertencer a um imaginário coletivo.

7 Poder-se-ia colocar mais um paradoxo: no interior mesmo desse grande Movimento Ambiental, que atinge

proporções capazes de dar nome a nossa época como A época ecológica, a passividade, a inércia dos hábitos, a inoperância e a imutabilidade ganham status tão relevantes quanto as reverberações “verdes”. Isso, em última instância, autorizar-nos-ia a nomear nossa época com algo estranho à ecologia: O Século da Destruição (como bem nomeou Lasch, 1986, p.72).

8

Um tipo de convite que bem poderia ser denominado “inconsvite”, a fim de destacar sua dupla face: convite explícito e convite inconsciente, no sentido de expor um retorno do recalcado.

9 É imprescindível que se entenda aqui um deslizamento semântico sem o qual a compreensão do que se propõe

adiante fica, de saída, impossibilitada ou mal-apreendida. O que chamamos “Movimento Ambiental” (em maiúscula) não é um movimento social, o aglomerado de pessoas que juntas reivindicam algo, mas o

(17)

Ao trazer a metapsicologia freudiana para a reflexão, consideramos interessante indagar uma forma geral ou privilegiada de expressão imagética da questão ambiental. Nesse sentido, este estudo procurou investigar o imaginário dominante a respeito da “Natureza” e da “vida futura”, apreensível na construção dos discursos ambientais por meio dessas imagens. A complexidade desta investigação, contudo, nos fez tratar do problema o tanto suficiente para traçar apenas alguns dos aspectos mais relevantes.

Considerando a proposta acima ilustrada, é preciso adiantar que a discussão perderia completamente seu sentido se lhe fossem amputadas, de saída, duas coisas. A primeira é uma ontologia própria da metapsicologia freudo-lacaniana. Isso porque não só a discussão, mas a própria questão que colocamos só tem sentido dentro de uma perspectiva epistemológica em que a noção de inconsciente, mais do que um arsenal teórico-conceitual metapsicológico, tem sua pertinência assegurada em relação aos fenômenos sociais10. Ou seja, é preciso esclarecer que há pressupostos ontológicos, além de uma metapsicologia, dos quais a pesquisa parte.

Além disso, e este é o segundo ponto, se lhe fosse cobrada uma demanda por demais pragmática – em que a metodologia de análise constrangesse a reflexão a dados quantitativos e testes estatísticos –, a pesquisa seria esvaziada de seu interesse principal, a saber, uma reflexão de caráter teórico-especulativo. Não se procurou verificar, por meio de medidas quantitativas, obtidas a partir de um corpus investido de delimitações, a eficiência (recepção) da conscientização ambiental. Não se pretendeu fazer uma pesquisa que quantificasse o quanto de conscientização uma determinada imagem promove em uma determinada pessoa ou grupo de pessoas. Se elas são ou não eficientes é uma discussão que se poderá fazer, mas enquanto discussão hipotética, não testável. Tampouco se almeja discutir o papel de um emissor em particular na conscientização ambiental – por exemplo a revista x, o jornal y ou a ONG z. Analisaram simbologias instituídas (e disseminadas) e a partir delas se construíram especulações referenciadas. Nesse quadro, o que se pretendeu foi uma discussão muito menos empírica e concreta, e muito mais teórica e filosófica. A ideia foi discutir as possibilidades mesmas de um discurso conscientizador, levantando conceitos e teorias que pudessem operar uma análise da comunicação em sua esfera mais profunda – seja

10 Se considerarmos a proposta zizekiana em “Como Marx inventou o sintoma?” (In: Um mapa da ideologia,

(18)

chamada de psíquica ou de imaginária. Por outro lado, embora a discussão pretendesse manter com a filosofia uma amizade essencial, não se tratou, em hipótese alguma, de uma questão filosófica tout court. Interessou-nos discutir, em tom filosófico, sobre uma manifestação muito geral, disseminada e, por isso, sob certos aspectos, branda, fugidia, esparsa ou não evidente. Tratamos de perguntar quais aspectos sensíveis e emotivos e que tipos de imaginários são mobilizados por um certo tipo de imagem. Mais do que isso, interrogamos sobre o que há de não declarado, implícito e latente no discurso (re)produzido por elas, e como estariam vinculando ou construindo discursos contrários aos declaradamente pretendidos. Entretanto, não se tratou de uma análise exaustiva, que buscasse esgotar todos os elementos, ou enumerar e discutir todos os possíveis símbolos e imaginários mobilizados numa imagem ou num discurso, pois as imagens costumam abrir a interpretação para uma polissemia que, submetida à interpretação, apenas aumenta as possibilidades de resultados, tornando-os quase inesgotáveis.

Dessa maneira, a discussão se dá muito mais em linhas gerais do que sobre casos específicos. Tratou-se de selecionar, sem dúvida, alguns exemplos que nos serviram como verdadeiros condensadores de uma tendência da “campanha ambiental” em geral. A partir desses exemplos, pretendemos ter apontado alguns aspectos que davam margem à discussão sobre a simbologia referente à representação de natureza veiculada por essa tendência.

Enfim, como primeira reflexão, não se espera que ela ultrapasse o nível da especulação. Aposto no que disse Freud em Além do princípio de prazer (1920): há sempre um primeiro movimento de toda teoria científica que é especulativo, sendo que uma postura propositiva, ou, pelo menos, não de todo comprovativa, pode dar frutos interessantes. Com todo o risco de receber o mesmo tipo de crítica destinada ao conturbado texto freudiano, quase poderia dizer o mesmo que ele:

[que] o que se segue é pura especulação e às vezes demasiadamente extremada, que o leitor aceitará ou recusará segundo sua posição particular sobre tais assuntos. [O que se segue] constitui, afinal, uma tentativa de perseguir e esgotar uma ideia, por curiosidade de ver até onde nos levará. (Freud, 2003 [1920], p. 2517, tradução minha)

(19)

ela poderia ser complementada ao elaborarmos a ideia de que o Movimento Ambiental põe em marcha uma campanha generalizada cujo imaginário a respeito da natureza e da vida futura revela o que é da ordem da pulsão de morte. Tudo isso por meio de uma postura fetichista que tem todo respaldo da construção social da realidade contemporânea.

Diante do exposto, o horizonte desta pesquisa poderia ser definido da seguinte maneira: discutir a produção e os efeitos potenciais de um certo tipo de imagem da campanha ambiental a partir de uma investigação que integre abordagens teórico-metodológicas do campo da comunicação com os aportes analíticos da metapsicologia psicanalítica e da semiótica peirceana. Os efeitos procurados das imagens são sobretudo psicológicos e práticos, enquanto a produção é investigada tanto na dimensão contextual (sociocultural) quanto plástica (qualidades sensíveis).

Para isso, consideramos importante trazer, no capítulo 1, uma discussão sobre o termo natureza. Tal contextualização, dado o objeto, poderia se estender demasiadamente, e ainda assim seria insuficiente. Portanto não esperamos esgotá-la, mas trazer alguns elementos essenciais para nossa discussão. No contexto da modernidade, as transformações econômicas, culturais e técnicas são relacionadas às transformações epistemológicas para especularmos como foram constrangidas as formas tanto teóricas quanto práticas de concepção de Natureza. Keith Thomas (1988) oferece um quadro histórico da modernidade que nos permite entender o surgimento da sensibilidade quanto aos animais e vegetais num mundo em que a dominação e a exploração cresciam constantemente. Olgária Matos (1987) fornece uma chave de leitura comparativa entre mito e ciência em que os argumentos sobre a superioridade do homem em relação aos outros seres são evidenciados nos dois tipos de discurso, apontando a existência de uma fundamentação comum para além da dimensão econômica e cultural: o medo da alteridade. Para finalizar o capítulo, aspectos gerais do sistema capitalista são retomados para indicarmos possíveis implicações para a concepção de natureza: urbanização, industrialização, consumismo e desencantamento do mundo.

(20)

fetichismo ao estudar o status da virtualização da existência e, como consequência, da imagem.

Após ter feito essa contextualização crítica nos capítulos precedentes, foi reservado espaço, no capítulo 3, para sistematizar os conceitos da psicanálise e da semiótica que fundamentam a construção da estratégia metodológica utilizada para abordar as imagens selecionadas para análise (no capítulo 4). Dessa maneira, o capítulo 3 prepara a fundamentação teórica da metodologia de leitura das imagens, ao mesmo tempo em que, de posse dos conceitos psicanalíticos, dá os primeiros passos da argumentação em favor da hipótese sobre a estética da pulsão de morte. Para isso, Freud e, em menor medida, Lacan são tomados como referência para compreendermos as noções de sintoma social e pulsão de morte. Andre Green (1988) complementa a concepção de pulsão de morte que adotamos neste trabalho. Slavoj Zizek e Vladimir Safatle fornecem ainda bases teóricas para as noções de fetichismo e fantasia ideológica, a partir das quais se podem articular psicanálise e reflexão social.

(21)

Capítulo 1

Natureza? Qual?

Investigação preliminar sobre o significante natureza na modernidade

Existe uma ecologia das ideias danosas, assim como existe uma ecologia das ervas daninhas11.

1.1 O termo natureza

O termo “natureza” foi, desde os primórdios da reflexão humana, de grande importância, apesar de ter hospedado tantas significações (ou justamente por isso). Principalmente, compareceu como um dos polos da dualidade primordial “natureza versus cultura”, que persegue como um fantasma qualquer reflexão sobre o humano. Segundo Pádua, “ela sempre foi uma categoria central do pensamento humano, ao menos na cultura ocidental, desde a Antiguidade” (2010, p. 83). Se considerarmos as grandes reflexões intelectuais do mundo ocidental, é impressionante observar que virtualmente todos os pensadores tiveram que, em algum momento, trabalhar esse significante, conferindo a ele os mais diversos significados12.

Para além das construções dos pensamentos, podemos localizá-la determinando, influenciando ou inspirando praticamente qualquer âmbito da existência humana, até porque o termo adquire uma plasticidade bastante grande, designando desde coisas materiais a essências. Entre os gregos, a natureza comparecia como elemento motivador da criação da

11 Gregory Bateson (1987 [1980]).

12 O problema das traduções entre línguas de culturas contemporâneas, mas distintas, ou de culturas de épocas

(22)

mitologia e como inspiradora do sistema religioso, numa espécie de configuração entre formas animais e humanas, de poderes naturais e características humanas; e estava presente desde os estudos de ordem mais prática da geometria e da cosmologia até a reflexão mais abstrata da filosofia da physis e a respeito da polis. Atualmente, com a questão ambiental no topo dos assuntos mediáticos – e também como questão central da política e da economia –, esse termo continua recebendo inúmeras significações, inclusive contraditórias, e, mais importante, uma grande carga afetiva, relacionada sobretudo ao medo da destruição da Terra e da espécie humana, seja por um descontrole das tecnologias, seja pela criação de um mundo artificial, em que a natureza seria perdida (Cf. Lasch, 1986; Beck, 2008).

Da profusão de significados a sua disseminação pelos domínios da vida humana, pode-se destacar uma marca importante, e constante, para o termo “natureza”: a

ambivalência afetiva e a ambiguidade epistemológica com que é tratado. Quando se chama de natureza o conjunto dos seres vivos, excluindo-se o homem, bem como os fatores abióticos dos ecossistemas, a natureza configura-se como o outro pleno: tudo aquilo que não é o semelhante, que não faz parte do eu (nem do nós). Já isto bastaria para colocá-la como ameaçadora e, portanto, alvo dos sentimentos mais hostis. Por outro lado, contudo, fica evidente a busca por representar a natureza como o fundamento de toda vida humana nessa grande “casa” que é a “mãe natureza”, fonte de todo alimento e, portanto, da própria vida. Outras maneiras de localizar a ambivalência do termo natureza é recorrer à polaridade “vida

versus morte”, ambas vinculadas ao natural.

Há também a “natureza interna”, o que supostamente resta de não humano no homem. Mas essa ideia esbarra em contradições e opiniões ainda mais divergentes: há quem pense, como Spinoza ou Nietzsche, que a cultura nada mais é do que uma natureza entre outras; outros, como Hegel, diriam que a natureza, ao contrário, é apenas uma cultura que se esqueceu como cultura. A questão toda reside em saber se chamamos Natureza aos processos mecânicos ou se, ao contrário, a ela cabe aquilo que é da ordem da liberdade, da aleatoriedade ou do caos. Mesmo a ideia de intenção é ora atribuída, ora negada à natureza. Se, por um lado, o caráter de intenção não se encaixa bem na ideia que fazemos da natureza, por outro, a mitologia nunca foi mais do que justamente um esforço para conferir intenção aos fenômenos naturais, e uma intenção bem definida: a do Bem Supremo13. Entretanto, não só a mitologia – essa ciência dos antepassados –, pois facetas do ambientalismo vão se

13

(23)

apoiar na mesma visão, impingindo o mesmo a uma natureza deificada. Enfim, a essa nossa representação tudo parece possível, sobretudo o que é contraditório, ambivalente ou ambíguo.

Reconstruir as significações que foram atribuídas a esse termo desde a Antiguidade, seja nos mais variados discursos (políticos, culturais ou acadêmicos), seja nas práticas desenvolvidas segundo cada modo de produção das sociedades humanas, é, portanto, um trabalho quase infinito14. Os estudos da história ambiental, disciplina surgida por volta da década de 197015, procuram localizar essas transformações, assim como entender quais mudanças epistemológicas e culturais reconfiguraram o lugar de agente histórico da natureza, buscando evitar, para pensar a história humana, tanto os reducionismos do determinismo biológico quanto aqueles do culturalismo que se pretende onipresente e onipotente. Nesse sentido, tal disciplina constitui-se como mais uma tentativa, entre as inúmeras já ensaiadas, de romper o dualismo e apostar num paradigma outro.

Atualmente, diante da possibilidade de uma degradação ambiental que ameaça a continuidade da vida humana, parece ser bastante interessante um tema de pesquisa que pretenda evidenciar as representações de natureza presentes na cultura. Para além da ameaça real da degradação, parece um tema importante porque sua retratação abunda nos meios de comunicação, agenciando os assuntos ambientais ou ecológicos como um dos mais importantes. Assim, estudar como os meios de comunicação (re)produzem mais certas representações da natureza em detrimento de outras é uma maneira de apreender como as sociedades urbanas lidam com a categoria “natureza”.

Parece frutífero investigar de que maneira as sociedades urbanas ocidentais (pós)modernas construíram seu(s) imaginário(s) sobre a(s) natureza(s). É certo que o lugar ocupado pelo mundo natural não é pequeno nas fantasias, mitologias e, mais atualmente, nos projetos de pesquisa científicos. A natureza é a grande incógnita que movimenta o pensamento do homem e, também, como pensava o Marx da maturidade, ao mesmo tempo o obstáculo e a matéria-prima do trabalho humano16. Como diria Freud (1996 [1930]), é contra as forças da natureza, e somente para lutar contra elas, que o homem uniu-se em grupos, criando regras morais e pondo-se a trabalhar, inventando e produzindo seu mundo técnico. À

14 Os cursos dados por Merleau-Ponty no Collège de France entre 1956 e 1960, reunidos no livro A Natureza

(2006), dão mostras do tamanho do esforço de um filósofo que pretendeu realizar uma leitura histórica das compreensões sobre “natureza” e suas respectivas implicações.

15

Para uma breve síntese da história da disciplina, ver Pádua (2010).

(24)

necessidade de proteção (trabalho sobre o mundo natural contra a fome e as intempéries) foi acrescentada a necessidade de compreensão (contra o medo das forças e fenômenos naturais) e, consequentemente, de domínio e controle. Isso fornece a mesma raiz tanto à mitologia (com a magia), quanto à ciência (com a tecnologia) (Cf. Matos, 1987; Atlan, 1993 [1986]).

Assim, perguntar quais são as representações sociais sobre a natureza construídas atualmente é algo bastante amplo e complexo. Certamente, o conjunto dessas representações está prenhe de contradições: ora protetora e geradora, ora avassaladora e mortífera, para começar. Como não poderia deixar de ser, a ambiguidade com relação ao outro se faz sempre presente. E a natureza é, para além do outro humano, O grande outro com o qual o ser humano, “caído do paraíso”17, tem que se confrontar – seja em si ou no ambiente. Caído do paraíso, não lhe resta mais a possibilidade de apenas fazer frente à alteridade do não humano: há ainda essa natureza interna que o desconcerta18, as paixões e, poderíamos colocar em termos psicanalíticos, o inconsciente.

1.2 A natureza na modernidade

A conversa de suprimir a crueldade pega nas cidades onde consideram a morte como coisa não natural, mas nas granjas bem geridas as pestes são um mal19. Na ciência, acredita-se vencer o medo quando nada mais

houver de ignoto, de estranho20.

Um dos possíveis enquadramentos temáticos da natureza na modernidade, e mais recentemente talvez o dominante, é o da natureza enquanto espaço ou ente em perigo, ameaçado. Pádua (2002) chama a atenção para o fato de que a ideia de que os homens têm a capacidade de destruição da natureza numa escala global é precisamente moderna. No século

17 Como diria Derrida em O animal que logo sou (2002).

18 Ver Olgária Matos em “A melancolia de Ulisses: a dialética do iluminismo e o canto das sereias”: “A

Odisseia revela os poderes celebrados no poema, suas relações com a dominação e a exploração; mostra como, desde o início do pensamento ocidental, a luta pela autoconservação e autonomia se vinculou ao [auto]sacrifício, à repressão, à renúncia. (...) A dominação do homem sobre si mesmo (...) Esta autonegação em nome da auto-afirmação é o ‘núcleo de toda racionalidade civilizatória’” (Matos, 1987, p.147-148).

19

Seamus Heaney apud Thomas (1988, p. 218).

(25)

XVIII já é possível encontrar “defensores da natureza”21, que alertavam para a possibilidade de o homem destruir seu habitat. E, embora problemas ambientais devastadores já tivessem dizimado ou produzido o exílio de civilizações inteiras22 ao longo de toda a história humana, é somente com uma mudança ao mesmo tempo sociológica e epistemológica propriamente moderna que a crítica dos problemas ambientais tal como a vemos hoje se tornou possível. A Natureza deixou de ser dada, imutável e independente do homem para configurar como passível de ser “perdida”, “corrompida” e, mais, essa perda encontrou lugar especial nas questões da humanidade.

Segundo Pádua, para que a questão ambiental alçasse o posto que tem hoje, uma complexa rede de mudanças – epistemológicas, sociológicas e técnicas – foi necessária e teve de se realizar ao longo da modernidade.

A modernidade da questão ambiental – da ideia de que a relação com o ambiente natural coloca um problema radical e inescapável para a continuidade da vida humana – deve ser entendida em sentido amplo. Ela não está relacionada apenas com as consequências da grande transformação urbano-industrial que ganhou uma escala sem precedentes a partir dos séculos XIX e XX, mas também com uma série de outros processos macro-históricos que lhe são anteriores e que com ela se relacionam (dentro do jogo de continuidades e descontinuidades que caracteriza os processos históricos). (Pádua, 2010, p. 84)

Dentre os “processos macro-históricos” que o autor traz estão, por um lado, a expansão colonial e a consequente incorporação de vastos territórios e ecossistemas, que coloca quase todo o mundo sob uma “economia-mundo”; por outro, a institucionalização da ciência enquanto a grande produtora de discursos de verdade, fazendo com que o modo de entendimento da realidade privilegie a universalidade e a “capacidade para estabelecer redes planetárias de investigação e troca de informações”.

A proposta de comparar regiões, produções naturais, economias e culturas – de constituir um saber geográfico planetário – é fundamental para entender a emergência de uma preocupação com os riscos da ação humana. A própria ideia de colapso, de destruição do futuro, começa a aparecer nesse contexto. (Pádua, 2010, p. 84)

21 Pádua (2002) traz alguns exemplos: entre outros, o próprio Lineu, nas últimas décadas do século XVIII, e o

brasileiro José Bonifácio de Andrada e Silva, por volta da virada do século XVIII. Personagens com alguma força política chamavam a atenção das instâncias governamentais para o perigo de uma agricultura mal implementada e de um desflorestamento exagerado. Houve ainda muitos outros brasileiros que, entre 1786 e 1888 (período abrangido pelo estudo de Pádua), denunciaram, tanto no âmbito político quanto na literatura, a degradação ambiental.

22 Clive Ponting (1995) traz vários exemplos nesse sentido. Há indícios de que problemas ambientais, mesmo

(26)

É assim que a questão ambiental, ou o que poderíamos chamar de Movimento

Ambiental23 enquanto movimento sócio-histórico, advém como fruto de uma cadeia de transformações. 1) Num certo nível, aparece uma mudança na dimensão da polis: o nascimento de um espaço urbano-industrial. 2) Noutro nível, a conquista europeia de territórios pelo planeta afora leva a uma certa consciência e a um certo saber geográfico planetário. 3) Também como fruto da expansão colonizadora, vai se instituindo uma “economia-mundo”, que põe em comunicação todo o planeta, possibilitando não só o transporte de coisas como também de pessoas e de ideias. Inicia-se um processo de existência planetária. 4) Por fim, a ciência toma o lugar de produção de discursos de verdade, com sua pretensão universalizante. Todos esses elementos são chamados a compreender o nascimento do que Pádua (2010) entende por “movimento ambiental sócio-histórico”, visto que o conjunto de ideais desse movimento tem sua condição de existência assegurada por essas transformações.

Outro historiador, antes de Pádua, empreendeu um estudo bastante amplo a respeito da categoria natureza. Keith Thomas, em seu O homem e o mundo natural (1988 [1983]), estuda as representações de natureza na cultura intelectualizada e científica, assim como na cultura popular, além das representações implicadas na vivência cotidiana com outras espécies: os discursos científico e religioso e a prática cotidiana. Sua pesquisa concentra-se na Inglaterra, durante os três séculos que antecedem a eclosão da Revolução Industrial, muito embora muitas de suas conclusões possam ser estendidas para outras regiões da Europa.

O que Thomas (1988) conclui sobre o nascimento de uma sensibilidade conservacionista é algo a ser relacionado com o que Pádua (2002) conclui sobre o nascimento da questão ambiental, sobretudo no que diz respeito à formação de um espaço urbano-industrial24. Thomas afirma que a mudança de sensibilidade em relação ao mundo natural pôde surgir apenas porque as pessoas se distanciaram do mundo rural e, com isso, das inúmeras práticas de utilização dos animais e plantas para a sobrevivência humana. A pergunta que ele se faz é: por que somente no início do período moderno surgiu uma preocupação com os direitos dos animais, sendo que possibilidade intelectual para tanto já estava presente na tradição judaico-cristã? A resposta de Thomas é a tese central de seu livro:

23 Ver nota 9, p. 4, acima.

24 Os outros três itens da proposta de Pádua serão retomados mais à frente, ainda neste capítulo. A investigação

(27)

[O]s processos puramente intelectuais precisam ser estimulados pela transformação social externa. O triunfo da nova atitude [frente ao mundo natural] esteve estreitamente vinculado ao crescimento das cidades e à emergência de uma ordem industrial em que os animais se tornaram cada vez mais marginais ao processo de produção. (Thomas, 1988, p. 217)

Assim, a nova sensibilidade apenas surgiu entre os que não se utilizavam diretamente dos animais, seja para o trabalho ou para a alimentação. O curioso é que, juntamente com essa nova sensibilidade, a exploração do mundo natural tornou-se intensificada como o meio rural jamais teria sido capaz de fazer. O desenvolvimento de uma nova sensibilidade, teórica, caminha juntamente com a intensificação de uma objetivação da exploração, na prática. A “sensibilidade protetora” surgiu apenas entre aqueles que, na rotina urbana, não destroncavam frangos, nem criavam porcos ou submetiam cavalos ao trabalho nas lavouras. Já Pádua afirma que a ideia de um sistema produtivo precisamente degradante, insustentável, aparece apenas na sociedade moderna. Parece que é apenas numa sociedade que se distancia da degradação prática e cotidiana, mas que a intensifica na industrialização, que a sensibilidade teórica e a epistemologia ecológica podem aparecer. Há que se entender, portanto, como é possível surgir, na mesma sociedade, tanto a prática de um sistema produtivo catastrófico quanto a sensibilidade conservacionista.

(28)

Contudo, é verdade que essa concepção, teórica, sobre a separação do homem, sobre seu predomínio sobre outros seres, ainda sustenta a prática atual, muito embora possamos ter localizado uma grande mudança de sensibilidade. Como bem aponta Thomas, o “predomínio do homem sobre o mundo natural foi e é, afinal de contas, uma precondição básica da história humana” (Thomas, 1988, p. 19). Thomas lembra que “‘civilização humana’ era uma expressão virtualmente sinônima de conquista da natureza” (Thomas, 1988, p. 31). Entre os séculos XVI e XVIII, o que se alteraram foram as maneiras pelas quais se racionalizou e se questionou tal predomínio. Em que medida podemos ainda pensar que ela é válida para nossos dias? E quais seriam as maneiras atuais de discursar sobre as relações do homem com o mundo natural? Mais que isso, quais as “ilusões” criadas para assegurar um predomínio do homem sobre a natureza?

Este assunto é de extrema importância para as ciências humanas, embora possa aproximar-se da biologia ou, no mínimo, ser um assunto muito rapidamente “biologizado” e, por isso, figurar como um falso problema para as ciências humanas. Na verdade, “é impossível desemaranhar o que as pessoas pensam no passado sobre as plantas e os animais daquilo que pensam sobre si mesmas” (Thomas, 1988, p. 19), e vice-versa25. A questão da separação entre natureza e cultura, homem e animal, liberdade e instinto, é, até hoje, uma mola propulsora básica da filosofia e das ciências humanas. Nesse sentido, encontrar representações da natureza é deparar-se com a representação sobre nós mesmos.

1.2.1 Argumentos sobre o predomínio humano – da religião ao capitalismo

Durante muitos séculos, o comportamento, a prática, ou seja, a realidade da relação com outros animais, podiam ser fundamentados na crença de que havia uma diferença de gênero26 entre a humanidade e as outras formas de vida. Já em Aristóteles se pode ver a crença na presença de uma alma exclusiva dos homens: a alma racional ou intelectual27. Mais tarde, com o cristianismo, a famosa ideia de que o homem teria sido feito à imagem e

25 Giorgio Agamben (2002), por exemplo, dedica uma de suas importantes reflexões ao tema na obra intitulada

O aberto – o homem e o animal (tradução livre de L’aperto: l’uomo e l’animale).

26 Todo o dilema, em parte ainda não digerido, nascido com a proposta darwiniana da evolução por seleção

natural, advém precisamente da quebra com uma origem divina para a essência humana. Mais do que inserir o homem numa cadeia evolutiva que não compreende distinções essenciais, a teoria de Darwin recusou a crença numa alma especialmente divina, inserindo definitivamente o homem entre os animais e, pior, não como o fruto de uma evolução progressiva em direção ao melhor e sim numa evolução sem finalidade (teleologia) teológica. A ausência de sentido (como o divino) da vida estava, pois, escancarada.

27 Como é sabido, Aristóteles propõe a existência de três tipos de alma, cuja presença nos seres vivos era seu

(29)

semelhança de Deus foi responsável por carregar ainda a marca da distinção de gênero. Com Descartes, a distinção tomou uma configuração mais moderna sem, contudo, abandonar a dimensão divina. Em 1630, aprimorando os argumentos escolásticos, Descartes defendia a distinção recorrendo, por um lado, à noção de autômato e, por outro, enfocando a dimensão espiritual: promovendo a profunda dualidade entre corpo e mente, natureza e cultura. Com isso, destituía os outros animais de qualquer traço de racionalidade e liberdade, além de retirar deles a sensibilidade – eram autômatos. Embora o corpo humano também fosse um autômato, sua atividade encontrava-se afetada pela mente, elemento exclusivo dos seres humanos. “Um deus transcendente, externo a Sua criação, simbolizava a separação entre espírito e natureza” (Thomas, 1988, p. 42). Diante do propósito explícito de Descartes de tornar os homens “senhores e possuidores da natureza” (Descartes apud Thomas, 1988, p. 41), o filósofo levou ao extremo o abismo que separava homens e natureza, inserindo na razão a autoridade da execução dessa distinção. Sua filosofia “instaurou um corte absoluto entre o homem e o restante da natureza, limpando dessa forma o terreno para o exercício ilimitado da dominação humana” (Thomas, 1988, p. 41) no solo da modernidade.

É verdade que essas distinções consistiam em argumentos muito vagos e dificilmente comprováveis. Diante da profusão de pontos que eram destacados para funcionar como marcas dessa distinção, o que existia era, no fundo, “uma acentuada falta de concordância sobre onde exatamente repousava a superioridade exclusiva do homem” (Thomas, 1988, p. 37). Desde animal que ri até animal racional, passando por cozinheiro e bípede implume, todas elas afirmavam a inferioridade dos outros animais. “Na prática, obviamente, o objetivo de tais definições nunca esteve tanto em distinguir os homens dos outros animais quanto em propor algum ideal de comportamento humano” (Thomas, 1988, p. 37). Daí poder surgir até a ideia de que o que distingue o homem dos outros animais é a propriedade privada28.

Assim, desde os argumentos que destacavam características anatômicas, linguísticas (fala) e intelectuais-cognitivas (razão), até os que apontavam para a capacidade de escolha (livre-arbítrio) – como fuga do instinto e fonte da verdadeira Liberdade –, os homens sempre procuraram construir discursos que, de alguma maneira, excluíam a natureza de si mesmos, o que lhes permitia fazer uso dela, objetivá-la. Como afirmaria Darwin, “os animais, que tornamos nossos escravos, não gostamos de considerar como semelhantes” (Darwin apud Thomas, 1988, p. 42).

28

(30)

Todos os argumentos até aqui resgatados têm, em alguma medida, uma fundamentação teológica. A recorrência àquilo que é da ordem do divino parece ter sido condição para a distinção entre homem e natureza29. Com a instauração do cristianismo pela Europa, pôde florescer um argumento de tipo teológico para o “predomínio do homem”. O

Gênesis está cheio de brechas que abrem a possibilidade de encontrar ali a indicação de uma exploração do meio ambiente, seja com finalidades utilitárias, produtivas ou não (para o bel-prazer da caça, por exemplo). Uma leitura possível do Gênesis leva a uma concepção da natureza como conjunto de materiais disponibilizados ao homem por Deus, um grande depósito de material de construção. Há trechos bem claros: “encher a terra e submetê-la”. Trabalhar a terra, derrubar as florestas e instalar a agricultura era o dever do homem. “Terra não cultivada significava homens incultos” (Thomas, 1982, p. 17).

A teologia da época assim fornecia os alicerces morais para esse predomínio do homem sobre a natureza, que tinha se tornado, em inícios do período moderno, um propósito amplamente reconhecido da atividade humana. (Thomas, 1988, p. 28)

Durante a Idade Média restava, portanto, muito pouco de uma deificação da natureza, própria a cultos pagãos da Antiguidade. Entretanto, é certo que se podem encontrar, ao longo da história, contra-argumentos que denunciavam as segundas intenções dos argumentos teológicos para a dominação da natureza. Um deles, que procura justificar o discurso sobre o predomínio sobre a natureza a partir de outras bases, pode ser encontrado, por exemplo, em Marx. Segundo o pensador,

não foi sua religião, mas o surgimento da propriedade privada e da economia monetária o que conduziu os cristãos a explorar o mundo natural de uma forma que os judeus nunca fizeram; foi aquilo que ele [Marx] chamou ‘a grande influência civilizadora do capital’ que, finalmente, pôs fim à deificação da natureza. (Thomas, 1988, p. 29)

Diante desse cenário de discursos e análises dos argumentos levantados para a dominação da natureza pelo homem, há que lembrar, contudo, que o discurso sobre o predomínio do homem sobre a natureza não esteve presente apenas na Europa ou no mundo cristão capitalista. Há, de fato, que lembrar que os desastres ecológicos não foram “privilégio” da modernidade, sequer da Europa ou do Ocidente (cristão). Inúmeros foram os casos de degradação ambiental na história humana, sobretudo após o aparecimento da

29 Remetemos o leitor ao texto de Vladimir Safatle, “Sobre a potência do inumano: retornar à crítica ao

humanismo”: “O que nos leva a perguntar se as tentativas de conservar a humanidade do homem não seriam, no fundo, maneiras relativamente astutas de perpetuar o pensamento ocidental sob a sombra de uma certa teologia que não tem coragem de dizer seu nome. Como se o homem fosse, no fundo, um astuto projeto

(31)

agricultura e da sedentarização. Dos sumérios na Mesopotâmia aos maias na América Central, passando pelos povos da Ilha de Páscoa, diversas organizações sociais, com sistemas religiosos e econômicos distintos, sofreram intensamente as consequências de seu modo de vida em relação ao ambiente natural30. Por isso, caberia interrogarmos outra dimensão da existência humana na qual pudéssemos evidenciar outras modalidades de discurso a respeito da separação entre natureza e humanidade, para além dos discursos econômico-político (Marx), filosófico (Descartes) e religioso (cristianismo). Para isso, parece frutífero resgatar os discursos da ciência e do mito.

1.2.2 Entre mito e ciência – a origem da dominação na alteridade e no medo

Já entre os séculos XVI e XVIII, a sujeição do mundo natural atendia não só ao funcionamento da produção econômica, como também aparecia no desenvolvimento das ciências (se é que é possível distinguir completamente o desenvolvimento da ciência do desenvolvimento técnicoprodutivo). Entre 1600 e 1700, cientistas como Francis Bacon entendiam que a finalidade da ciência era “devolver ao homem o domínio sobre a criação que ele perdera em parte com o pecado original” (Thomas, 1988, p. 32). A ideia aqui é a de um conhecimento que sirva a uma sujeição mais eficiente, a uma dominação mais potente que se expresse no controle e na máxima utilização da natureza a serviço da vida (capitalista) dos homens. Assim se fez com a botânica – que servia sobretudo à farmacologia – e com a zoologia – que além de embasar estudos anatômicos, fornecia informações sobre a domesticabilidade e a serventia dos animais.

A exemplo da opinião de Bacon, há que se destacar, portanto, o ideal, conscientemente declarado, dos cientistas modernos: o controle do homem sobre a natureza a fim de evitar o encontro com as forças destrutivas dela. Assim, apesar de seus discursos manifestarem uma agressividade iminente contra os outros seres, um “imaginário agressivamente despótico explícito em seu discurso de ‘posse’, ‘conquista’ e ‘domínio’” (Thomas, 1988, p. 35), os cientistas encaravam sua atividade como moralmente valorizada, já que promoviam a civilização e o progresso, além da proteção dos homens diante das forças naturais. Essa reflexão poderia ser desenvolvida segundo duas perspectivas: por um lado, a partir da noção de “razão de autoconservação”, trabalhada em geral pela crítica frankfurtiana e, por outro, por meio da psicanálise, com as noções de “conhecimento

(32)

paranóico” e de conhecimento via pulsão oral – no segundo caso relacionando o saber com a devoração e a destruição, e no primeiro caso com o controle.

Mesmo o Marx de O capital, neste caso em concordância com economistas de sua época, afirma o ideal de uso da natureza. Como bem coloca Chiarello a respeito do pensamento marxista,

[a] nova sociedade deve beneficiar unicamente os homens, e é por certo evidente que às custas da natureza. Esta deve ser dominada com gigantescos meios tecnológicos e com gasto mínimo de trabalho e tempo, e servir a todos os homens como substrato material de todos os bens de consumo imagináveis. (Chiarello, 2001, p. 30-31)

Essa noção de que a natureza deve receber tratos tecnológicos não descarta a ideia da dominação da natureza como um exercício de luta. Entretanto, para Marx, essa luta não está fora do desígnio natural. Tudo se passa como se, ao trabalhar a natureza, subjugando-a, recriando-a, o homem nada mais fizesse que levar a cabo o próprio “discurso natural” (Cf. Chiarello, 2001). Isso leva à seguinte proposição de Olgária Matos sobre o pensamento marxista:

A transformação da natureza pelo trabalho humano “naturaliza o homem e humaniza a natureza”. Não há, na teoria de Marx, dualismo entre homem e natureza, natureza e cultura, ciências da natureza e história. (...) A história da natureza é a história das relações que o homem estabelece com essa mesma natureza e, nessa relação, o homem a suprime enquanto dimensão que lhe é exterior, suprimindo, assim, o caráter de estranheza do real. (Matos, 2005, p. 24)

Em Freud, também é possível encontrar uma certa “naturalidade” (ao menos no sentido de algo inexorável) no embate entre homem e natureza. Quando o psicanalista reflete sobre os sofrimentos humanos e evidencia possibilidades de evitá-lo, pensa que a felicidade pode ser mais ou menos alcançada quando o homem se decide a enfrentar o “mundo”. O caminho é “o de tornar-se membro da comunidade humana e, com o auxílio de uma técnica orientada pela ciência, passar para o ataque à natureza e sujeitá-la à vontade humana” (Freud, 1996 [1930], p.85)31. Aqui, civilização é sinônimo de domínio (ciência) e trabalho (economia capitalista) sobre a natureza.

Contudo, apesar dessa variedade de discursos em que se pode apreender a ciência comprometida com uma justificativa para a dominação, seria um tanto apressado afirmar que ela inaugura um discurso de dominação – um discurso cuja fundamentação é construída pelo

31 É também verdade que, no mesmo texto, Freud chegará a ponderar sobre o fato de que o desenvolvimento

(33)

desejo de dominar forças potencialmente perigosas, pela ânsia de controlar os eventos naturais frente ao medo da desintegração do eu, da dor e da morte. Em última instância, trata-se do zelo pela comunidade humana.

De fato o mito, muito antes da razão inaugurada pela filosofia cartesiana e pela ciência moderna, procurou promover, a sua maneira, um controle da natureza. Olgária Matos, seguindo as análises frankfurtianas da Odisseia, num texto bastante rico, aponta como a ciência, assim como o mito, “encontr[a] suas raízes nas mesmas necessidades básicas: sobrevivência, autoconservação e medo (Angst)” (Matos, 1987, p. 141). Mito e ciência têm, nesse sentido, uma origem comum.

O discurso mítico é um artifício que procura, ao antropomorfizar a natureza, controlá-la e submetê-la às narrativas míticas, que amenizam o temor ao inserir na narrativa a gênese dos fenômenos. O desconhecido, o radicalmente outro, fonte das mais angustiantes preocupações, esteve sempre presente na relação com a natureza, cujo caos o mito procurava ordenar. Ordenar para prever e controlar. O mito pretendia, assim como a ciência, uma espécie de saber32 que administrava o medo frente ao desconhecido e ameaçador.

Mas há uma diferença em suas modalidades de enfrentamento do medo. A diferença é que no mito o homem assume seu assombro diante da natureza e estabelece um diálogo com ela, com as forças sobrenaturais. No mito, os elementos da natureza são como um espelho das paixões e sentimentos humanos: “O sobrenatural, espíritos e demônios, são imagens espelhadas dos homens que se permitem estar assustados pelos fenômenos naturais” (Matos, 1987, p. 147). O controle, portanto, é materializado apenas na narrativa mítica, e por isso, de certa maneira, restringe-se ao interior dos próprios indivíduos. Já a ciência procura, ao instaurar-se sobre uma razão técnica, instrumentalizadora – que pressupõe o desencantamento do mundo e o esgotamento do animismo – substituir o diálogo pelo método

de intervenção, ou seja, aliar saber e fazer (técnica). Para isso, o homem separa de si mesmo sua natureza, renunciando às paixões para entrar no universo da cultura33 (onde o que foi

32

Freud chama a atenção para o lugar do mito tanto em Totem e tabu (1912) quanto em O futuro de uma ilusão (1927). O psicanalista observa que o mito se funda no desamparo a que o sujeito está submetido tanto diante da natureza externa, das forças naturais que promovem os fenômenos naturais, quanto da natureza interna, essa instância “outra” que constitui o inconsciente e abarca o mundo pulsional.

33

Imagem

Figura 1: Peixe e terra. Imagem encontrada em:
Figura 1 – imagem 1. A imagem é a capa da edição 41 (maio de 2010) da revista Página 22, do  Centro de Estudos em Sustentabilidade da EAESP-FGV e pode ser encontrada no site:
Figura 2 – imagem 2. A imagem está presente na reportagem principal da revista Página  22, edição 41, de maio de 2010
Figura 3 – imagem 3. A imagem é capa da revista  Istoé, edição 2093, de 22/12/2009.
+7

Referências

Documentos relacionados

4 Este processo foi discutido de maneira mais detalhada no subtópico 4.2.2... o desvio estequiométrico de lítio provoca mudanças na intensidade, assim como, um pequeno deslocamento

Ao fazer pesquisas referentes a história da Química, é comum encontrar como nomes de destaque quase exclusivamente nomes masculinos, ou de casais neste caso o nome de destaque

A democratização do acesso às tecnologias digitais permitiu uma significativa expansão na educação no Brasil, acontecimento decisivo no percurso de uma nação em

São eles, Alexandrino Garcia (futuro empreendedor do Grupo Algar – nome dado em sua homenagem) com sete anos, Palmira com cinco anos, Georgina com três e José Maria com três meses.

Após extração do óleo da polpa, foram avaliados alguns dos principais parâmetros de qualidade utilizados para o azeite de oliva: índice de acidez e de peróxidos, além

Crisóstomo (2001) apresenta elementos que devem ser considerados em relação a esta decisão. Ao adquirir soluções externas, usualmente, a equipe da empresa ainda tem um árduo

b) Execução dos serviços em período a ser combinado com equipe técnica. c) Orientação para alocação do equipamento no local de instalação. d) Serviço de ligação das

Preliminarmente, alega inépcia da inicial, vez que o requerente deixou de apresentar os requisitos essenciais da ação popular (ilegalidade e dano ao patrimônio público). No