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MISERICÓRDIA NO ANTIGO TESTAMENTO 1

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Academic year: 2022

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Revista Litterarius – Faculdade Palotina www.fapas.edu.br/revistas/litterarius

Pedro Kramer*

Resumo: A misericórdia de Deus no Antigo Testamento revela-se basicamente em três modos diferentes. Há textos nos quais ela se manifesta na sua iniciativa livre e gratuita, transformando a situação de escravidão do povo de Israel em vida de libertação. Há outros nos quais a misericórdia de Deus substitui sua justa sentença punitiva e exterminadora. Há ainda outros que descrevem a ação punitiva de Deus, mas depois ele se arrepende e age com muita misericórdia. Essa misericórdia de Deus é o critério como as pessoas devem encarná-la e testemunhá-la nas suas relações sociais. Sua vivência cria relações fraternas e sororais de qualidade e um mundo quase paradisíaco.

Palavras chave: Misericórdia. Compaixão. Ternura. Arrependimento. Desumanidade.

Mercy In The Old Testament

Abstract: The mercy of God in the Old Testament reveals itself basically in three different ways. There are texts in which it manifests itself on its available and free initiative, transforming the situation of slavery of the people of Israel in life’s freedom. There are others in which the mercy of God replaces their just sentence terminator und punitive. There are still others that describe the punitive action of God, but after he repents and acts with much mercy.

That God’s mercy is the criterion as people must incarnate her and bear witness to it in their social relations. Your experience creates fraternal and sororal relations of quality and a world almost paradise.

Keywords: Mercy. Compassion. Tenderness. Repentance. Inhumanity.

1 Texto apresentado durante as atividades acadêmicas realizadas na Semana Santa 2016, da Faculdade Palotina, com o tema "Na paixão de cristo encontramos o rosto da misericórdia do Pai".

* Doutor em Teologia, na área do Antigo Testamento, com a tese doutoral: 'Origem e legislação do Deuteronômio. Programa de uma sociedade sem empobrecidos e excluídos', no Instituto Ecumênico de Pós- graduação, São Leopoldo, RS. Professor de exegese do Antigo Testamento e História de Israel na Fapas – Faculdade Palotina, Santa Maria, RS. E-mail: [email protected]

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Introdução

Como um pai é misericordioso com seus filhos assim Iahweh é misericordioso com aqueles que o temem (Salmo 103,13).

Eu quero primeiramente agradecer aos coordenadores da atividade acadêmica, nesses três primeiros dias da Semana Santa em 2016, com o título 'A Paixão de Cristo e o Ano da Misericórdia', pelo convite para apresentar o estudo do tema da 'Misericórdia no Antigo Testamento'. É muito acertada a decisão de interromper as atividades curriculares normais na Semana Santa para assim poder se preparar melhor para a celebração dos conteúdos centrais da fé cristã, especialmente do Tríduo Pascal.

Essa pesquisa compõe-se de três partes. A primeira versa sobre o louvor da misericórdia de Deus no Sl 103. Neste salmo a misericórdia de Deus se revela na sua iniciativa e na sua ação livre e gratuita, perdoando os pecados de idolatria, as faltas contra a vida e as transgressões do direito, da justiça e da fraternidade de muitos israelitas, abrindo- lhes assim a possibilidade de vida nova e de esperança num novo futuro. O evangelho da misericórdia de Deus está também presente no oráculo do profeta Oseias em Os 11,7-9. Neste texto, a misericórdia de Deus transparece claramente no fato de Iavé, após a culpa comprovada do seu povo, ter tido todas as razões para destruí-lo. Ele, no entanto, substitui essa sentença condenatória pela misericórdia, preservando-o da morte. O evangelho da misericórdia de Deus é também destacado na descrição do dilúvio em Gn 5,6-8,22. Após a destruição de quase toda a criação em consequência do pecado destruidor da vida, a misericórdia de Deus fala mais alto e, em vista disso, ele jura que nunca mais haverá um dilúvio sobre a terra.

A segunda parte destaca a encarnação da misericórdia de Deus nas pessoas. Estas se tornam representantes e testemunhas da sua misericórdia no convívio com as demais pessoas.

A humanização da misericórdia de Deus cria relacionamentos fraternos e sororais de qualidade e espaços de vida semelhantes a um paraíso.

A terceira parte visa familiarizar-se com a terminologia da língua hebraica relativa à misericórdia no Antigo Testamento para que sua melhor compreensão desperte missionárias e missionários da misericórdia no mundo de hoje. Algumas conclusões e a bibliografia completam essa pesquisa bíblico-teológica sobre a misericórdia.

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1 O drama da misericórdia de Deus

Infelizmente encontra-se ainda muito difundida no meio do povo a ideia de um Deus no Antigo Testamento que é violento e vingativo, que é fiscalizador e castigador, que é um juiz implacável e sem misericórdia, que é arrogante e prepotente porque só admite a si mesmo como objeto de veneração e de seguimento. De fato, é sumamente lamentável que no Antigo Testamento haja textos que parecem incitar as pessoas ao ódio, à vingança e à matança indiscriminada. Se eu pudesse, eu já teria arrancado alguns desses textos da Bíblia e os teria jogado fora dela. Eu, no entanto, reconheço que essa ação não é a mais recomendada e nem o método da censura a certos textos e da exclusão deles seja o caminho mais indicado. Em vista disso, a decisão do papa Paulo VI foi duramente criticada quando ele impôs a exclusão de certos salmos ou versículos de outros da Liturgia das Horas no artigo 131 da 'Introdução Geral à Liturgia das Horas' do ano de 1971. Segundo esse documento oficial do papa, os Sl 58; 83; 109 e versículos de mais dezenove salmos foram banidos da Liturgia das Horas e nunca são usados como Salmos Responsoriais nas liturgias da Palavra e da Eucaristia (ZENGER, 1998). Se, no entanto, formos comparar os três salmos completamente excluídos e os versículos de dezenove outros com os cento e cinquenta salmos do Saltério da Bíblia e alguns textos nos livros do Deuteronômio e de Josué com os demais livros do Antigo Testamento, então, o número de textos, supostamente incitadores de violência e de vingança, é muito pequeno. A solução, portanto, é a procura de entender e de explicar esses textos no contexto da sua época como recomenda a exegese moderna. E, além disso, eu tenho dúvidas se nossas orações seriam muito diferentes daqueles salmos, se estivéssemos na mesma situação dos vários salmistas. Será que nós, hoje, rezaríamos com palavras muito diferentes dos salmistas se nós também fôssemos injustiçados ou perseguidos inocentemente por pessoas inimigas que procuram nos destruir como reza o Sl 85,7: “Ó Deus, quebra-lhes os dentes na boca, arranca as presas dos leõezinhos, ó Iahweh! Que se diluam com água escorrendo, murchem como erva pisada, como lesma derretendo ao caminhar, como aborto que não chega a ver o sol!”

Esse texto supostamente vingativo é apenas um exemplo. Por outro lado, o número de textos que testemunham um Deus amor, libertador, criador, justiceiro, bondoso, condutor fiel, amigo e companheiro de caminhada é infinitamente superior. A estes eu pretendo agora adicionar aqueles que falam do Deus Iavé com um Deus misericordioso, compassivo, cheio de

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piedade e de ternura, comprometido com as pessoas pobres, injustiçadas, exploradas e oprimidas, tornando-se o advogado delas.

1.1 Evangelho da misericórdia de Deus no Salmo 103

A fé no Deus da misericórdia, da compaixão e da ternura é muitas vezes explicitada no Antigo Testamento através da assim chamada ‘fórmula da graça ou da gratuidade’ como ela se encontra no Sl 103 e em vários outros textos:

8Iahweh é misericórdia (rahúm) e compaixão (hanún), lento para a cólera e cheio de ternura (héssed); 9ele não vai disputar perpetuamente e seu rancor não dura para sempre. 10Nunca nos trata conforme nossos pecados (het’), nem nos devolve segundo as nossas faltas (‘awón). 11Como o céu que se alteia sobre a terra, é forte sua ternura (héssed), por aqueles que o temem. 12Como o oriente está longe do ocidente, ele afasta de nós as nossas transgressões (pechá‘). 13Como um pai é misericordioso (rahém), com seus filhos, Iahweh é misericordioso (rahém), com aqueles que o temem; 14porque ele conhece nossa estrutura, ele se lembra do pó que somos nós (Sl 103, 8-14; cf. Sl 86,15; 116,5; 145,8; Nm 14,18; Ne 9,17; Sb 15,1).

Ex 34,6-7 tem um enfoque pouco diferente dos textos acima porque ele ressalta que Iavé é misericordioso e age conforme sua misericórdia, mas não deixa ninguém impune.

No Sl 103 nós encontramos todos os vocábulos que se relacionam com o tema da

‘misericórdia’ no Antigo Testamento. A abordagem da terminologia hebraica sobre a misericórdia, no entanto, só será apresentada na terceira parte desse estudo.

O Sl 103 pode ser chamado de o ‘evangelho’ da misericórdia de Deus no Antigo Testamento. Para muitos pode soar estranho chamar um texto do Antigo Testamento de

‘evangelho’ porque este termo é um dos mais empregados no Novo Testamento e, além disso, designa os quatro evangelhos como livros do Novo Testamento. O vocábulo grego euangelion -‘evangelho’, no entanto, já aparece em Is 40,9 e 52,7, onde a expressão hebraica mebasseret Zion / Ierusalem foi traduzida para o grego da Septuaginta como euangelizomenos Zion/

Ierusalém: “Sobe a um alto monte, mensageira de Sião; eleva tua voz com vigor, mensageira de Jerusalém; eleva a voz, não temas; dize às cidades de Judá: 'Eis aqui o vosso Deus!'” Em Is 52,7 são proclamados belos os pés do ‘mensageiro’ que proclama boas novas e anuncia a salvação: “Como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz, do que proclama boas novas e anuncia a salvação, do que diz de Sião: 'teu Deus reina'. Estes textos proclamam a maior virada do povo de Israel em sua história: o fim do exílio na Babilônia, o retorno à terra prometida e a volta à situação de paz, xalom, e de salvação, yexuá, isto é, da

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reconstrução de Jerusalém e do país de Israel bem como da reconstituição da população israelita.

O Sl 103, de origem pós-exílica, reza exatamente esta situação da maior crise do povo de Israel na sua história e da sua maior experiência de libertação e de salvação. Ele testemunha a abertura de um novo futuro para este povo. Antes, porém, de poder proclamar o evangelho da misericórdia de Deus, ele recorda aos israelitas a causa do exílio: o abandono do Deus Iavé na opção pelos deuses estrangeiros. Ele descreve esta relação negativa dos israelitas para com seu Deus através dos termos ‘pecado’, ‘transgressão’ e ‘males’. Toda essa infidelidade a Deus através da maldade humana será perdoada, redimida, resgatada e curada por ele. Por todas essas ações maravilhosas de Deus na história, o salmista convida os israelitas ao louvor:

1Bendize a Iahweh, ó minha alma, e tudo o que há em mim ao seu nome santo!

2Bendize a Iahweh, ó minha alma, e não esqueças nenhum dos seus benefícios.

3É ele que perdoa todas as tuas faltas e cura todos os teus males. 4É ele quem redime tua vida da cova e te coroa de ternura e de misericórdia. 5É ele quem sacia teus anos de bens e, como a da águia, tua juventude se renova (Sl 103,1-5).

Nestes primeiros cinco versículos, o salmista emprega o verbo hebraico saláh, no sentido de ‘perdoar o pecado’. Quando os redatores bíblicos usam este verbo, eles sempre o conectam com Deus como sujeito. Eles assim explicitam que só Deus pode perdoar pecados e ninguém mais pode atribuir a si esse direito. O mesmo acontece quando eles empregam o verbo bara’, ‘criar’, para expressar que só ele pode criar do jeito como ele criou tudo. É a criação segundo sua marca registrada.

Apenas agora o salmista anuncia nos vv.8-14 o evangelho da misericórdia, da compaixão e da ternura de Deus, empregando uma fórmula muito especial, a ‘fórmula da graça ou da gratuidade’:

8Iahweh é misericórdia (rahúm) e compaixão (hanún), lento para a cólera e cheio de ternura (héssed). 10Nunca nos trata conforme nossos pecados, nem nos devolve segundo nossas faltas. 13Como um pai é misericordioso (rahém) com seus filhos, Iahweh é misericordioso (rahém) com aqueles que o temem.

O evangelho da misericórdia tem seu ponto de partida e seu fundamento no fato de Iavé perdoar o pecado dos israelitas. Essa ação misericordiosa tem como consequência a cura dos males, a retirada da cova do exílio, o coroamento de ternura e compaixão, a saciedade de bens e o rejuvenescimento maravilhoso como o da águia (ZENGER, 1997; RENDTORFF, 1999).

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1.2 Evangelho da misericórdia de Deus em Os 11,7-9

O evangelho da misericórdia de Deus é igualmente muito bem descrito nesse oráculo do profeta Oseias:

7Meu povo está obstinado em sua apostasia. Chamam-no do alto, mas ninguém se levanta! 8Como poderia eu abandonar-te, ó Efraim, entregar-te, ó Israel? Como poderia eu abandonar-te como a Adama, tratar-te como a Seboim? Meu coração (leb) se contorce dentro de mim, minhas entranhas (rahúm) comovem-se. 9Não executarei o ardor de minha ira, não tornarei a destruir Efraim, porque eu sou Deus e não homem, eu sou santo no meio de ti, não retornarei com furor (Os 11,7-9).

No contexto literário anterior, em Os 11,1-6, aparece muito bem a dialética entre o Deus amoroso e a rebeldia do povo de Israel: “Quando Israel era menino, eu o amei e do Egito chamei meu filho” (v.1). Essa relação amorosa entre Deus e o povo de Israel é descrita como um pai se relaciona com seu filho. Em vista disso, se afirma que Deus o ensinou a andar e cuidou dele. Esse seu amor não foi correspondido. Por isso segue a constatação: “Mas quanto mais eu os chamava, tanto mais eles se afastavam de mim. Eles sacrificavam aos baais e queimavam incenso aos ídolos” (v.2).

O v.7 sintetiza muito bem esse conflito: “Meu povo está obstinado em sua apostasia, chamam-no do alto, mas ninguém se levanta”. Por causa disso, Deus convoca seu povo ao julgamento. Após a comprovação da rebeldia do seu povo, ele teria todas as razões para condená-lo. Mas, se ele executar sua justa sentença, então, vai acontecer com ele o mesmo que já aconteceu com Sodoma (Adama) e Gomorra (Seboim), isto é, a destruição total. Nesta hora dramática surge do ‘coração’ (leb) de Deus a misericórdia que o leva a não aplicar sua sentença justa. No seu coração acontece uma reviravolta e nas suas entranhas (rahamái), isto é, no mais íntimo do seu ser ou na sua interioridade, ele se comove e se dilata em misericórdia: “Meu coração se contorce dentro de mim, minhas entranhas comovem-se: Não executarei o ardor da minha ira, não tornarei a destruir Efraim”. Suas razões para este ‘salto de coração’, isto é, do ardor da sua ira para a sua misericórdia em favor dos israelitas consiste neste fato: “eu sou Deus e não homem (’ich), eu sou santo no meio de ti, não retornarei com furor”. O profeta Oseias deixa transparecer claramente que Deus tem uma lógica de ação que nem sempre corresponde com a nossa lógica de agir. Deus é, de fato e por excelência, o misericordioso. Ele suspende sua justa sentença contra seu povo e a substitui pela misericórdia (Jr 31,20; Am 7,1-6.7-8; 8,1-2) (JANOWSKI, 1999).

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Esse oráculo do profeta Oseias relembra a história do pai dos dois filhos em Lc 15,11- 32. O mais novo pegou a parte da herança que lhe cabia, abandona seu pai e a casa paterna. Se o pai o abandonar, então, seu filho mais novo estará para sempre perdido. Nesta situação dramática se encontra Deus no oráculo do profeta Oseias. Se Deus agir como um juiz justo e condenar seu povo, cuja culpa já fora comprovada, então, ele estará irremediavelmente perdido. Mas, não! Nesta hora dramática Deus opta pela misericórdia e se relaciona com seu povo como um pai misericordioso. Perguntemo-nos: O que produz mais efeito na pessoa que errou? A punição ou a demonstração do seu erro acompanhada de misericórdia? É a demonstração do erro, acompanhada de misericórdia, em vez da aplicação da punição, uma fraqueza de autoridade ou de caráter?

1.3 Evangelho da misericórdia de Deus em Gn 6,5-8,22

O evangelho da misericórdia de Deus está igualmente muito bem descrito em Gn 6,5- 8,22. Este texto narrativo do dilúvio, no entanto, testemunha a misericórdia de Deus após a aplicação da sua justa sentença punitiva. Esta, após o dilúvio, foi substituída pela sua misericórdia, precedida por seu arrependimento e pela sua conversão. Em Gn 6,5-7 Iavé constata a grande maldade do ser humano sobre a terra, se arrepende até de tê-lo criado e decreta o desparecimento das pessoas, dos animais, dos répteis e das aves:

5Iahweh viu que a maldade do ser humano era grande sobre a terra, e que era continuamente mau todo desígnio de seu coração. 6Iahweh arrependeu-se de ter feito o ser humano sobre a terra e afligiu-se o seu coração. 7E disse Iahweh: Farei desaparecer da superfície do solo os seres humanos que criei – e com os seres humanos os animais, os répteis e as aves do céu – me arrependo de os ter feito.

Em Gn 8,20-22, no entanto, Iavé, ao respirar, após o dilúvio, o agradável odor do holocausto dos animais que Noé levara junto consigo na arca, substitui sua sentença punitiva através do dilúvio pela sua misericórdia: “Eu não amaldiçoarei nunca mais a terra por causa do ser humano, porque os desígnios do coração do ser humano são maus desde sua infância;

nunca mais destruirei todos os viventes, como fiz” (v.21).

O que aconteceu para que Deus mudasse tão radicalmente de atitude, se arrependesse da sentença de destruição que tinha baixado através do dilúvio e agora age frontalmente diferente como tinha agido antes de decretar o dilúvio? Essa mudança de Deus, com toda a certeza, não foi provocada porque os seres humanos se arrependeram e deixaram de fazer o mal. Porque o v. 21 constata claramente: “os desígnios do coração do ser humano são maus

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desde sua infância” e infelizmente continuam na vida adulta. Por isso, não foi a conversão do ser humano que provocou a mudança da ação de Deus.

Em vista disso, como entender e explicar essa reviravolta na atitude de Deus? Eu penso que seria superficial e até mesmo incorreta a conclusão de alguém se ele chegasse a supor que Deus muda de atitude como nós podemos, de uma hora para a outra, mudar de humor. Parece-me que a resposta correta se encontra no próprio texto, ao constatar a sequência e a importância das ações de Deus. Elas são aqui de suma importância. Porque ele, primeiramente, decreta a destruição de tudo através do dilúvio. Mas, depois ele se arrepende e jura que nunca mais vai decretar um dilúvio sobre a terra. Por trás desse texto transparece claramente a fé do seu redator. Ele é um israelita que crê na misericórdia de Deus, cuja última ação e palavra são sempre sua compaixão com o ser humano. E se é a misericórdia sua última ação e palavra, então, há sempre esperança de um novo começo e de um novo futuro. Por isso, por mais longo e escuro que possa ser o túnel da nossa relação com Deus, no seu final nunca há o caos, o nada, o absurdo, mas a misericórdia e a atitude gratuita, livre e soberana de Deus.

Onde há misericórdia, há reinício, há futuro e há chance de vida nova.

A misericórdia de Deus e suas consequências em favor do ser humano são muito bem destacadas no v. 22: “Enquanto durar a terra, semeadura e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite não hão de faltar” (JANOWSKI, 1999; RENDTORFF, 1999). Se, portanto, alguém chegar à conclusão de que a punição seja a última, mas necessária alternativa, então, que esta seja aplicada com pouca raiva e menos ainda com rancor, mas com muita misericórdia. No caso da dúvida, é preferível errar, usando de misericórdia do que aplicando o rigor da lei.

2 Misericórdia de Deus encarnada nas pessoas

Na primeira parte desse estudo sobre a misericórdia de Deus foi destacado que “Deus é e age de modo misericordioso porque ele assume seu povo, independente da sua fraqueza e obstinação. [...] A misericórdia pertence à determinação do ser de Deus” (SOEDING, s/d, p. 2).

Quais são as consequências para uma pessoa que crê em Deus que é misericórdia, compaixão e ternura e que procura testemunhá-la na sua vida pessoal e na relação com as demais pessoas? Na exposição acima sobre a misericórdia de Deus foi

[...] preestabelecido um modelo para a atuação humana que os seres humanos devem praticar, agradecidos, em sua convivência. Em razão de sua própria experiência, o

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ser humano é capaz de repartir os atos de benevolência recebidos (KAMPLING, 2011, p. 313).

Em vista disso, o redator do Código da Aliança, Ex 20,22-23,33, é um dos muitos israelitas que acreditava profundamente na misericórdia de Deus e, agradecido, pela experiência da sua misericórdia em sua vida, procurava testemunhá-la nos seus relacionamentos com seus semelhantes, especialmente com os mais necessitados. Por isso, nas leis complementares ao décimo mandamento do decálogo ético em Ex 20,1-17, encontra- se a fundamentação teológica para o agir misericordioso dos israelitas em relação ao mais pobre: “Se ele clamar a mim, eu o ouvirei, porque eu sou compassivo” (hanún; Ex 22,26). O princípio orientador do décimo mandamento da Lei de Deus: “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher de teu próximo, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença a teu próximo”, adaptado e concretizado nas suas leis complementares, proíbe terminantemente a exploração dos indefesos, isto é, os estrangeiros e os oprimidos, as viúvas e os órfãos bem como a opressão dos israelitas necessitados e indigentes. A estes os credores deviam emprestar sem cobrar juros e devolver o manto, dado em penhor por algum empréstimo, antes do pôr-do-sol. O manto do pobre é como um cobertor porque com ele o israelita pobre se protege do frio durante a noite. O mandamento da Lei de Deus visa claramente proteger o patrimônio e o matrimônio do israelita livre e proprietário de terra e de bens. Sua adaptação e concretização na lei complementar em relação ao estrangeiro, à viúva e ao órfão prescreve concretamente o seguinte:

20Não afligirás o estrangeiro nem o oprimido, pois vós mesmos fostes escravos no país do Egito. 21Não afligirás nenhuma viúva ou órfão. 22Se o afligires e ele gritar a mim, escutarei seu grito; 23minha ira se acenderá e vos farei perecer pela espada:

vossas mulheres ficarão viúvas e vossos filhos, órfãos (Ex 22,20-23).

Essa lei complementar tem como finalidade proteger essa tríade, estrangeiro, viúva e órfão, porque são pessoas economicamente fracas e legalmente dependentes na sociedade israelita nos séculos VIII e VII a.C. A motivação para a observância dessa lei complementar é a opressão dos israelitas na escravidão do faraó: “pois vós mesmos fostes estrangeiros no país do Egito” (v.20).

A seguinte lei complementar em Ex 22,24-26 visa defender a vida dos israelitas, isto é, dos concidadãos pobres. Ela destaca que a vida está acima do direito à propriedade e aos bens dos israelitas credores:

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24Se emprestares dinheiro a um compatriota, ao indigente que está em teu meio, não agirás com ele como credor que impõe juros. 25Se tomares o manto do teu próximo em penhor, tu lho restituirás antes do pôr-do-sol. 26Porque é com ele que se cobre, é a veste do seu corpo: em que se deitaria? Se clamar a mim, eu o ouvirei, porque eu sou compassivo.

Talvez seja interessante constatar que o termo hebraico nessek, cuja tradução é ‘juro’, pode também significar ‘mordida’. O israelita credor, portanto, não deve emprestar cobrando juros, isto é, emprestando algo ao outro com uma ‘mordida’. A motivação ética para a observância dessa lei complementar é o clamor a Iavé dessas pessoas necessitadas que ele com toda a certeza ouvirá porque ele é compassivo (PIXLEY, 1987, p. 197-199).

Há, por outro lado, textos nos quais a misericórdia de Deus é contrastada com a falta de misericórdia dos seres humanos, como, por exemplo, em Am 2,6-16. O profeta Amós denuncia, no seu oráculo proferido pelo ano 760 a.C., os donos da economia, os chefes políticos, os juízes, os sacerdotes dos templos e os comerciantes por causa da sua ganância desenfreada. Para alcançar seus objetivos, eles “vendem o justo por prata e o indigente por um par de sandálias” (v.6). O profeta denuncia a coisificação de pessoas como o justo e o indigente que se tornam objeto de comercialização. Além disso, “eles esmagam sobre o pó da terra a cabeça dos fracos” (v.7), isto é, eles tratam os peões que trabalham na terra com violência e exploração. E ainda, “eles entortam o caminho dos oprimidos” que quer dizer que eles se aproveitam da boa fé e da honestidade dos oprimidos para induzi-los ao mal. A próxima denúncia é muito grave: “Um homem e seu pai vão à mesma jovem para profanar o meu nome santo”. Aqui o profeta está desmascarando o estupro das jovens escravas, usadas como objeto sexual pela família do seu proprietário. Essa desumanidade é, para o profeta,

“profanação do meu santo nome”, porque degradar a dignidade de um ser humano é comparável ao desrespeito da dignidade do próprio Deus porque ele é sua imagem e sua semelhança. Além disso, “eles se estendem sobre vestes penhoradas ao lado de qualquer altar”

(v.8), isto é, eles abusam das vestes penhoradas como garantia por algum empréstimo que deviam ser devolvidas às pessoas, à noite. E ainda “eles bebem vinho daqueles que estão sujeitos a multas, na casa de seu deus” (v.8). Isto alude à gente prepotente que abusa das suas funções para multar pessoas e assim poder se aproveitar dos bens adquiridos à força. Como este oráculo de Amós há tantos outros que apenas reforçam suas denúncias. Este basta para demonstrar o quanto os seres humanos podem se tornar desumanos, bestiais e selvagens nas relações com seus semelhantes.

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A falta de misericórdia, de compaixão e de ternura torna-se ainda mais evidente quando o profeta Amós descreve as ações misericordiosas e libertadoras de Iavé especialmente em favor da classe dirigente e da elite da capital Samaria do Reino do Norte, meados do século VIII a.C.:

9Mas eu destruíra diante deles o amorreu, cuja altura era como a altura dos cedros, e que era forte como os carvalhos! Destruí seu fruto por cima e suas raízes por baixo!

10E eu vos fiz subir da terra do Egito e vos conduzi pelo deserto, durante quarenta anos, para tomar posse da terra do amorreu! 11Suscitei de vossos filhos, profetas, e de vossos jovens, nazireus! Não foi, realmente, assim, israelitas? Oráculo de Iahweh. 12Mas vós fizestes os nazireus beber vinho e ordenastes aos profetas: 'Não profetizeis!' (Am 2, 9-12).

Para essas classes sociais, econômicas, políticas, sacerdotais e pessoas responsáveis pelo direito nos tribunais, o profeta não tem muita esperança de mudança e de conversão, por isso lhes anuncia sua destruição:

13Pois bem! Eu vos taxarei no lugar como é taxado um carro cheio de feixes! 14A fuga será impossível ao ágil, o homem forte não empregará a sua força e o herói não salvará a sua vida. 15Aquele que maneja o arco não ficará de pé, o homem ágil não se salvará com os seus pés, o cavaleiro não salvará a sua vida, 16e o mais corajoso entre os heróis fugirá nu, naquele dia, oráculo de Iahweh (Am 2,13-16).

O exegeta Milton Schwantes resume seu comentário desse oráculo do profeta Amós em Am 2,6-16 com estas palavras:

O ‘terror total’, no qual vivem os pobres, é o que motiva sua defesa. Em Amós, essa defesa dá-se de uma forma tão intensa e radical que se pode afirmar que aí, nesse grito do pobre, tudo se decide. A veracidade da fé é afunilada em direção da defesa dos empobrecidos. Nessa questão concretíssima decide-se a teologia. ‘Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor’ (1Jo 4,8) (SCHWANTES, 2004, p.

110).

3 Os diferentes termos a respeito do tema da misericórdia no Antigo Testamento

Os autores que fizeram pesquisas mais ou menos amplas e profundas a respeito do assunto da misericórdia no Antigo Testamento são unânimes ao afirmar que os termos e a temática da misericórdia são elementares, centrais, básicos e profundos em toda a Bíblia. Isto porque a misericórdia não é só uma dimensão do ser e da essência de Deus, mas também do ser e da essência da pessoa. Ela igualmente não é apenas uma característica central de Deus e do ser humano em si mesmos, mas também numa relação de reciprocidade entre ambos.

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Misericórdia, portanto, não é apenas uma mentalidade ou um estado de espírito, mas ela é perceptível, sensível e tangível na ação. Por isso, com razão, fala-se das ‘obras de misericórdia’, por exemplo, em Mt 25,31-46. A misericórdia, por conseguinte, não é apenas um sentimento fugaz ou uma emoção passageira, mas, como mentalidade, espiritualidade e mística ela se explicita e se concretiza em ações. Em vista disso, poder-se-ia talvez definir a misericórdia como a relação passional, amorosa e caritativa de Deus ou da pessoa para com alguém que se encontra em situação de necessidade ou de culpa, em vista da solução do seu problema.

O redator do verbete ‘misericórdia’, Rainer Kampling, no Dicionário de termos teológicos fundamentais do Antigo e Novo Testamento, na sua ‘observação prévia’ a respeito desse vocábulo, escreve o seguinte:

A misericórdia está entre os conceitos teológicos centrais de toda a Bíblia e determina a ética bíblica como quase nenhum outro conceito. Essa situação deve-se ao fato de que a misericórdia é aplicada tanto a Deus como ao ser humano e se torna, dessa maneira, a fundamentação decisiva da atuação ética: por misericórdia, Deus age com misericórdia em relação aos seres humanos; o ser humano responde a isso ao testemunhar, por sua vez, numa atuação misericordiosa em relação ao outro ser humano a misericórdia divina que ele mesmo experimentou (KAMPLING, 2011, p. 313).

Se for verdade que os termos e o tema da misericórdia são tão centrais na Bíblia, então, pode-se presumir que tanto no hebraico como no grego não existam apenas um termo que possa abarcar ou abranger todo o conteúdo e todo o sentido dessa realidade que se chama misericórdia. E, de fato, existem vários vocábulos na língua hebraica que procuram explicitar e descrever o que se entende por misericórdia.

O termo hebraico que mais amplamente abrange o sentido de misericórdia é o verbo rahám que pode ser traduzido por ‘ser misericordioso, ter misericórdia, ser materno’ porque o substantivo réhem ou no plural rahamím significa originalmente ‘útero, ventre materno;

entranhas; misericórdia’. Esse termo destaca o aspecto emocional e sentimental na ligação materna e intrafamiliar bem como na relação com pessoas fracas e dependentes como crianças, pessoas necessitadas e dependentes de vícios. Em Is 49,10; 52,10 Iavé é simplesmente chamado de ‘o misericordioso’, merahém. Em Jr 31,20 se diz que a

‘misericórdia’ de Iavé por Efraim é exageradamente abundante.

O verbo hanán pode ser traduzido por ‘ter compaixão, ter piedade, ter dó’. Ele enfatiza a solidariedade no sentido de favorecer alguém quando sua dignidade humana for desrespeitada e quando uma pessoa for humilhada e injustiçada.

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O substantivo héssed pode ser vertido para o português pelos termos ‘ternura, benevolência, gratuidade, favor, graça’. Ele ressalta a reciprocidade das pessoas entre si e com Deus e é expressão livre, gratuita e espontânea da grandeza de coração de alguém para com a outra pessoa. Nessa relação tanto Deus como as pessoas são capazes e estão dispostas a sacrificar algo de si ou se colocar em segundo lugar para beneficiar alguém. (SOEDING;

SCHRAMM).

A letra desse canto emprega muito bem a terminologia variada do Antigo Testamento sobre a misericórdia:

Vosso perdão vem renovar, vem renovar o nosso ser, Senhor!

Vosso perdão vem libertar, vem devolver ao coração o amor!

Misericórdia, nosso Deus, perdão!

Misericórdia, tende compaixão!

Vosso perdão vem nos erguer, vem nos erguer e nos fazer andar!

Vosso perdão vem reunir e quer fazer o povo mais feliz.

Conclusão

O estudo de algumas perícopes vétero-testamentárias revelou que o Deus da Bíblia é, por excelência, o Deus da misericórdia, da compaixão e da ternura.

O estudo desses textos deixou transparecer claramente que a vivência e o testemunho da misericórdia tanto divina quanto humana são causadoras e conservadoras da vida. Sem ela a vida é abafada e morre.

A interpretação dessas passagens bíblicas mostrou que a misericórdia humaniza e diviniza o ser humano, tanto o agente e o missionário da misericórdia como a pessoa agraciada por este dom livre, gratuito e espontâneo da misericórdia.

A compreensão da misericórdia nos textos do Antigo Testamento manifestou quão necessária e benfazeja é a vivência e o testemunho da misericórdia num mundo marcado por tanta violência e por tanto desrespeito à vida e à dignidade do ser humano.

Referências

CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A PROMOÇÃO DA NOVA EVANGELIZAÇÃO. Os Salmos da misericórdia. São Paulo: Paulus / Paulinas. 2015.

JANOWSKI, Bernd. “Der barmherzige Richter. Zur Einheit von Gerechtigkeit im Gottesbild des Alten Orients und des Alten Testaments”. In: Ruth Scoralick (org.). Das Drama der

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Barmherzigkeit Gottes. Studien zur biblischen Gottesrede und ihrer Wirkungsgeschichte in Judentum und Christentum. SBS 183. Stuttgart: Verlag Katholisches Bibelwerk. 1999.

KAMPING, Rainer. “Misericórdia”. In: Angelika Berlejung / Christian Frevel. Dicionário de termos teológicos fundamentais do Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Paulus / Edições Loyola. 2011.

PIXLEY, George. Êxodo. São Paulo: Paulinas. 1987.

RENDTORFF, Rolf. “Er handelt nicht mit uns nach unsern Suenden. Das Evangelium von der Barmherzigkeit Gottes im Ersten Testament”. In: Ruth Scoralick (org.). Das Drama der Barmherzigkeit Gottes. Studien zur biblischen Gottesrede und ihrer Wirkungsgeschichte in Judentum und Christentum. SBS 183. Stuttgart: Verlag Katholisches Bibelwerk. 1999.

SCHRAMM, Christian. Barmherzigkeit biblisch. Kurzdossier. Arbeitsstelle fuer pastorale Fortbildung und Beratung. Bibel im Bistum Hildesheim. (E-mail: [email protected]).

SCHWANTES, Milton. A terra não pode suportar suas palavras. Reflexão e estudo sobre Amós. São Paulo: Paulinas. 2004.

SOEDING, Thomas. Barmherzigkeit – wie weit reicht die Gnade? Neutestamentliche Orientierung in einem zentralen Begriffsfeld. (E-mail: [email protected]).

ZENGER, Erich. Die Nacht wird leuchten wie der Tag. Psalmenauslegungen.

Freiburg/Basel/Wien: Herder. 1997.

ZENGER, Erich. Ein Gott der Rache? Feindpsalmen verstehen. Freiburg/Basel/Wien:

Herder, 1998.

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