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Uma história ao deus-dará

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Academic year: 2021

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Uma história ao deus-dará

Maria Clara tinha sinceras dúvidas em nascer, mas, num de- terminado momento, num rompante qualquer, decidiu que era hora. A partir daí, começaram as artes do acaso, já que ela gostava de tomar decisões importantes em razão de fatos ca- suais, corriqueiros. Maria Clara tem muitos medos. Teme, por exemplo, morrer sem ter feito qualquer coisa notável.

Nossa história se passa na cidade do Rio de Janeiro, mais precisamente em Copacabana, onde Maria Clara trabalha como caixa de supermercado, entre 17h e meia-noite. Durante esse período, ela escuta bipes incessantes à medida que os pro- dutos são computados em sua máquina registradora, inventa histórias a respeito de cada um que por ela passa, e formula mais um pouco de sua própria e singular biografia.

Ela não sabe disso, mas a escolhi, dentre bilhões de pessoas, exatamente por essa particular habilidade. Ser ela e ser outros, inventando suas histórias.

Uma dessas histórias — a história na história — é a de Joa- na, que havia voltado da Europa recentemente e conheceu um homem, casado, que uma vez por semana a visitava. Nesse dia, ela comprava uma garrafa de vinho tinto seco e, às vezes, quei- jos e torradas. Geralmente era quarta-feira, e nossa protago- nista observava que o rosto de Joana adquiria uma vivacidade intensa, a espontaneidade livre e discreta do desconhecido.

Uma excitação indefinível que, ainda assim, cabia no espectro

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inexato da paixão. Quando percebia isso, ficava de certo modo feliz por ela e a invejava por ter alguém por quem se apaixo- nar. Nos outros dias da semana, Joana parecia estar sempre na fronteira entre a elegância aborrecida de um dia de trabalho e um choro embutido que parecia querer se arrebatar de seus olhos cansados.

Joana morava sozinha e tinha 34 anos de idade. Viveu em Madrid durante um ano, enquanto fez um curso de literatura espanhola, falava com sotaque mineiro e, quando sorria, es- premia os olhos que ficavam pequenos como olhos orientais.

Certa quarta-feira, ele não mais foi visitá-la e Joana se perdeu.

No dia seguinte, enquanto colocava suas compras no balcão, indagou de forma sutil:

— Você já se sentiu tão perdida a ponto de não saber o que fazer para jantar?

Maria Clara anuiu, pensando que se sentia assim quase to- dos os dias e que, na verdade, às vezes deixava o acaso decidir.

— O que você acha que devo comer hoje? — Joana pergun- tou, com uma vontade de desistência.

Maria Clara não sabia o que dizer, porque ela própria não sabia o que jantar. Mas num rompante, assim como nasceu, sugeriu:

— Vá comer fora.

Nessa hora ela teve certeza de que conseguia ver Joana do modo mais humano possível.

Decidiu, então, inventar para Joana um novo futuro, onde

inseriu Flávio, que por sua vez, havia se habituado a fazer com-

pras às onze da noite, quando os corredores estavam vazios e

os funcionários eram movidos por luzes estelares.

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Joana e Flávio, na história inventada por Maria Clara, se encontraram na fila do caixa rápido e descobriram que eram vizinhos de prédio. Nesse dia, Flávio acabou por levar inadver- tidamente um pacote de cereal que pertencia a Joana e, enver- gonhado, o deixou em sua portaria, com um bilhete e, claro, o número de seu telefone.

A partir daí, Maria Clara criava fins, meios, outros inícios, sinais muito próprios e, simplesmente, passava a ver apenas o que importava para a consistência de sua criação. Nos dias que Joana ia ao supermercado, Flávio não aparecia, o que significa- va, por óbvio, um revezamento natural das compras, já que os dois estavam juntos na história criada por Maria Clara.

E assim passavam os dias. Ela inventava Joanas, Fredericos, Luízas, Marias, Brunos, Flávios, Terezas. Imaginava Gabrielas e seus dramas invisíveis. Recriava Marcelos e seus cotidianos indecifráveis.

Gostava de inventar a solidão, pois podia preenchê-la de no- vas histórias, ocupá-la de futuros imprevisíveis.

Sua hora favorita da noite era por volta das 23 horas. A hora do prenúncio do dia seguinte, quando inventava futuros e se hipnotizava com o que criava. Era essa a hora do seu próprio esquecimento, hora em que cada um que circulava naquele su- permercado tinha uma história própria que ela, certamente, podia narrar a qualquer tempo.

Às vezes, João Cláudio, que trabalhava no setor de verduras e frutas, comentava algum fato de sua rotina e a distraía de suas elucubrações.

— Tem dias que as pessoas ignoram as batatas.

— O quê?

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— Tem dias que ninguém quer batata. Nem as moscas.

— Você tem arrumado direito as batatas? — questionou com certo ar de censura.

— É claro que sim — respondeu, pensativo.

— Vai ver que elas não estão bonitas.

— Estão ótimas. O problema não é esse.

— Qual é o problema então?

João Cláudio deu de ombros e voltou a arrumar cenouras e pimentões, deixando que ela pensasse no problema das bata- tas. Logo ela se esqueceu disso, e pensou que, lá no fundo, ado- rava seu trabalho. O bom de trabalhar no supermercado era que tudo tinha o seu lugar. Embora muitos clientes insistissem em largar pacotes de macarrão no meio dos molhos de tomate, ou latas de leite entre caixas de chá, sempre tinha alguém que reorganizava tudo nas prateleiras. Maria Clara pensava que, assim como o arroz, o feijão, a pipoca, o ser humano também tem, cada um, seu próprio e específico lugar. Às vezes, algumas pessoas ficam deslocadas, perdidas, como Joana, quando foi deixada pelo homem que a visitava às quartas-feiras. Algumas vezes esse lugar não é muito claro, definível e é necessário cer- to grau de esforço para encontrá-lo.

Mas como ela também adorava uma definição, ficava satis- feita em saber que seu lugar era no caixa rápido, o caixa n.º 01.

Essa posição particular lhe proporcionava uma análise distin-

tiva sobre os personagens que passavam as compras por sua

máquina registradora. Quase todos solitários. Quase todos

pensativos. Quase todos com pressa. Quase todos querendo

embalagens pequenas, desejando poucas unidades: uma cebo-

la, um tomate, duas latas de cerveja. Tudo era sempre rápido,

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breve, transitório, fugidio, limitado ao número de quinze pro- dutos, numa duração de cerca de dois a três minutos. Ninguém se demorava muito e ela se segurava na fugacidade de cada um para conseguir se encontrar.

Assumiu desta forma seu lugar de contar a história de quem por ela passava com iogurtes, massas, molhos, biscoitos, con- gelados, alfaces, tomates, maçãs. Criava o lugar de cada um, o desejo de cada um, o choro e o riso de cada um. Numa espé- cie de voyeurismo transcendente, onde não bastava ver o que acontecia, era necessário sentir como outra pessoa sentia. A maior graça era tentar descobrir isso tudo sem fazer pergun- tas. Porque inventar é descobrir-se em cada personagem.

Uma noite, Maria Clara me viu. Passei por sua máquina registradora com três iogurtes, dois pacotes de biscoito, duas barras de cereal e uma caixa de chá gelado. Ela me olhava en- quanto eu embalava minhas poucas compras e pegava meu cartão de crédito na carteira. Depois disse, assim como quem não quer nada:

— Acho que te vi na farmácia hoje mais cedo.

Eu respondi que era possível e perguntei:

— Qual o seu nome? — embora pudesse vê-lo escrito em seu crachá.

Ela respondeu:

— Irene.

Foi nessa hora que percebi que ela também se inventava.

Criando algo sobre mim, criou um outro personagem para si

mesma. Inventou Irene, inventou o que comprei na farmácia e

o que eu faria ao chegar em casa. Talvez tenha inventado essa

história inteira, do início ao fim. Talvez tenha inventado um

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meteoro a cair na Terra, extinguindo metade da população.

Talvez tenha inventado que me apaixonei por ela, porque, de fato, eu não conseguia tirá-la de meus pensamentos. Percebi, então, que ela queria algo que eu desconhecia. Desejava pro- fundamente algo que eu possuía. Algo que, no entanto, ainda não existia para ela. Algo notável e que só eu poderia lhe pro- porcionar.

Seu pedido secreto era quase uma súplica. Ela queria apro- veitar o acaso daquele singelo encontro, ocorrido quase à meia-noite, no prenúncio do dia seguinte. Aproveitar esse aca- so para decidir sua vida.

Cheguei em casa e comecei essa história. Maria Clara não saía de mim até que eu buscasse qualquer definição sobre quem ela era. Bebi o iogurte, o chá gelado, comi as barras de cereal e escrevi para ela a história de Irene, ou melhor, de Maria Clara.

A história da Irene inventada por Maria Clara, a caixa nº 01 do supermercado.

No dia seguinte, voltei ao mercado e não a vi. Fui, nova- mente, nos dias subsequentes, e nada. Perguntei sobre Irene e ninguém a conhecia. Perguntei sobre Maria Clara e ninguém sabia onde estava. Pensei que havia enlouquecido, quando um funcionário que segurava um saco de batatas na mão me disse:

— Ela foi embora. Meio assim, de repente.

— Meio assim, de repente? — repeti.

— Sim. Ela decidia coisas meio assim, de repente.

— Por quê?

Ele deu de ombros.

— Sabe-se lá — disse, desconsolado.

Fiquei em silêncio, olhando as batatas em suas mãos. Eu

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tinha escrito sua história. Eu precisava saber as razões de sua partida.

— Preciso voltar ao trabalho, hoje todo mundo quer batatas frescas.

Eu concordei, enquanto segurava nas mãos a história de sua vida inteira.

Sim, afinal, hoje é o dia em que todos querem batatas frescas.

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