759 Cadernos de Pesquisa, v. 35, n. 126, set./dez. 2005
Resenha
RESENHA
Cadernos de Pesquisa, v. 35, n. 126, p. 759-760, set./dez. 2005
O TEMPO NO COTIDIANO
INFANTIL: PERSPECTIVAS DE
PESQUISA E ESTUDO DE CASOS
Anna Bondioli (org.)
São Paulo: Cortez, 2004. 189p.
Como transcorre a vida infantil no co-tidiano?
Este é o tema discutido no livro, que reúne um conjunto de trabalhos apresenta-dos durante o seminário “Os tempos das crianças”, experiência realizada em 1999, no município de Cesena (nordeste da Itália), que debateu sobre a qualidade do tempo vivenciado pela criança em diversos contex-tos: na creche, na pré-escola, na escola de ensino fundamental, em casa e na cidade. Analisar os tempos e os espaços do cotidia-no infantil é a contribuição desse livro e um desafio para a área da educação, já que tais elementos não são neutros e revelam a pe-dagogia presente nas instituições educativas. O livro é organizado em três partes. A primeira, denominada “Na escola”, divide-se em cinco capítulos.
Bondioli, no primeiro capítulo, fala da observação como um valioso instrumento de pesquisa, por aproximar o pesquisador de seu objeto de estudo, principalmente quan-do se trata de temas relacionaquan-dos às práticas cotidianas. Dessa maneira, a autora apresen-ta, como proposta de análise para o contex-to educativo, o estudo do dia, uma catego-ria da vida cotidiana. Para esse estudo, indica os focos de observação que devem ser pri-vilegiados pelo pesquisador, formando uma grade de análise: espaço, participantes, ativi-dades, agrupamentos, modalidades de ges-tão, duração e posição na seqüência tempo-ral, além de apontar a necessidade da
elaboração de um parecer como forma de registro e análise dos dados.
No segundo capítulo, Galdabino suge-re uma forma de descrição do cotidiano da creche, baseada no instrumento de pesqui-sa apresentado no capítulo anterior com adaptações para o contexto. Após a discus-são dos focos de observação, a autora faz a descrição de um dia do cotidiano de uma creche, da região Nordeste da Itália.
Na mesma direção, Nigito, no terceiro capítulo, apresenta dados referentes a obser-vações realizadas em três turmas (dos peque-nos, médios e grandes) de uma creche muni-cipal da região da Lombardia, em três dias diferentes de pesquisa. Nesse relato, destaca-se a modalidade de gestão praticada nos diver-sos contextos. A modalidade relaciona-se com a organização geral da experiência e “(...) in-dica, por um lado, o grau de intervenção do adulto na situação, e por outro, o grau de li-berdade de decisão e de organização conce-dida às crianças”. A partir da análise dessas experiências, o artigo revela os padrões da organização do trabalho pedagógico que ca-racterizam as três turmas, cruzando suas se-melhanças e diferenças, bem como o uso e a qualidade do tempo nesses espaços.
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Resenha
pos necessários de ambientação às situa-ções, às atividades e à construção de rela-ções significativas.
Fechando a primeira parte, Ferrari des-creve o cotidiano vivido por crianças de uma turma de 1º ano de uma escola elementar
em uma cidade de província, durante o ano de 1993. As observações, o registro e a apresentação dos dados foram realizados a partir do roteiro da grade de análise do dia em que os pesquisadores traçaram as expe-riências deste contexto educativo. Segundo a autora, esse instrumento favorece “(...) a construção de competências de observação e de auto-análise no pessoal docente, de diversas ordens e graus da escola...”, além de significar uma possível reorganização do trabalho pedagógico na escola. Essas mudan-ças podem representar um novo olhar em relação à vida infantil, em que os tempos das crianças poderão ser mais valorizados que os tempos dos programas escolares.
Entre a casa e a escola, segunda parte do livro, Bondioli apresenta o dia de Érika, um estudo de caso da dinâmica da vida cotidiana. Inspirada nos estudos de Goffmann, a autora discute a participação da criança no jogo so-cial, expressão criada pelo pesquisador, para definir “(...) um conjunto mais ou menos for-malizado de regras que determinam o com-portamento dos indivíduos nas diferentes si-tuações e ocasiões da vida cotidiana, definem o papel dos participantes, orientam as moda-lidades com que estes se agrupam para de-senvolver as tarefas e as atividades específicas de cada encontro”. Isso significa, uma análise do envolvimento do sujeito, sua adesão e compreensão em relação às regras, ou me-lhor, sua participação efetiva na prática social. O estudo possibilita perceber a consti-tuição dos ambientes: os tempos, os ritmos, as experiências, as relações e suas diversas configurações, representando diferentes for-mas de aprendizagem e envolvimento.
Finalizando o livro, a terceira parte, “O tempo na vida cotidiana das crianças”, con-templa dois textos. O primeiro, escrito por Becchi e Borando, mostra uma pesquisa rea-lizada com um grupo de crianças pequenas e grandes, moradoras da cidade de Milão, sobre os tempos e os espaços vivenciados por elas no cotidiano doméstico.
Com uso de questionário, as pesqui-sadoras identificaram e traçaram um perfil dos diversos contextos nos quais elas se in-seriam, e numa segunda etapa, conseguiram informações mais apuradas sobre esses con-textos, mediante observações e outros ins-trumentos de pesquisa que revelaram como se concretizava a vida cotidiana dos dois gru-pos de crianças estudadas.
O segundo texto também apresenta uma pesquisa realizada por Zeiher com crian-ças de dez anos, moradoras de uma cidade da Alemanha. Nesse estudo, o autor descre-ve situações videscre-venciadas por duas crianças, Daniel e Thomas. O relato mostra dois mun-dos diferentes. Revela, no entanto, caracte-rísticas que os aproximam e que identificam a própria vida das crianças: suas ações e a produção da cultura infantil.
A pedagogia italiana, por intermédio dessa obra, nos faz repensar acerca dos tem-pos e dos espaços oportunizados às crianças, trazendo um debate bastante pertinente que deve ser encaminhado aos cursos de forma-ção de professores. Voltando à questão ini-cial do livro: como transcorre a vida infantil no cotidiano? Seria interessante acrescentar: o que devemos priorizar? Sim, essas são questões que precisamos discutir, a fim de construirmos uma pedagogia que valorize a infância.
Elisandra Girardelli Godoi