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PESCA E TRABALHO DOMÉSTICO: A INVISIBILIDADE DO TRABALHO FEMININO

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Academic year: 2021

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PESCA E TRABALHO DOMÉSTICO:

A INVISIBILIDADE DO TRABALHO

FEMININO

Kelem Ghellere Rosso1, Cíntia Souza Batista Tortato2, Letícia Ayumi

Duarte3, Luciana Maestro Borges4, Elaine Mandelli Arns5

1Instituto Federal do Paraná

-Campus Paranaguá - e-mail: [email protected]

2Instituto Federal do Paraná

-Campus Paranaguá - e-mail: [email protected]

3Universidade Federal do

Paraná - e-mail: [email protected]

4Instituto Federal do Paraná

-Campus Paranaguá - e-mail: [email protected]

5Instituto Federal do Paraná

-Campus Paranaguá - e-mail: [email protected]

Este trabalho visa analisar as relações entre gênero e invisibilidade do trabalho feminino, com base nas atividades desenvolvidas pelo projeto de extensão “Mulheres das Ilhas do Litoral do Paraná: resgaste de saberes e empoderamento” (IFPR/Câmpus Paranaguá). Tal projeto surgiu da demanda de mulheres pescadoras de quatro comunidades da baía de Pinheiros (Guaraqueçaba, Paraná) que participam do Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais do Litoral do Paraná (MOPEAR), tem foco no resgate de saberes tradicionais envolvidos com a dinâmica das comunidades pesqueiras, bem como no fortalecimento da identidade das mulheres pescadoras. Estruturado a partir de oficinas, numa das etapas do projeto deu-se atenção para a questão da invisibilidade do trabalho feminino no contexto trabalhado, sobre a qual se desenvolverá as reflexões do trabalho aqui apresentado. A literatura sobre as relações de gênero e pesca chamam a atenção para a nítida desigualdade existente nesse campo, com atividades bem demarcadas para o homem e para a mulher, sendo a pesca considerada, geralmente, como atividade masculina. Assim, o trabalho da mulher é invisibilizado, não sendo reconhecido, em algumas ocasiões, pelas próprias mulheres que o desempenham. Essa concepção parte de uma visão fragmentária da atividade da pesca, já que desconsidera a multiplicidade de atividades que também são fundamentais para o seu resultado final. As atividades realizadas em terra são desconsideradas, como o processamento dos pescados e até mesmo a sua comercialização. Essa invisibilidade tem graves consequências para a continuidade da atividade da pesca artesanal em comunidades tradicionais, pois levanta entraves para o necessário reconhecimento das mulheres como profissionais da pesca, seu acesso a benefícios sociais, e a valorização de seu papel na construção de sua identidade coletiva e territorial.

Resumo

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1. INTRODUÇÃO

O projeto de extensão “Mulheres das Ilhas do Litoral do Paraná: resgate de saberes e empoderamento” se articula com a necessidade de problematizar o lugar da mulher no interior das comunidades pesqueiras. As relações de gênero nesse espaço chamam a atenção pela nítida desigualdade, com atividades bem demarcadas para o homem e para a mulher, sendo a pesca considerada atividade essencialmente masculina. Por trás dessa definição, esconde-se o trabalho da mulher que assim torna-se invisível (BECK, 1 991 ). Com a perda de espaço para a pesca artesanal, que em geral é a maior ou até mesmo a única fonte de renda das famílias, têm-se olhado com mais atenção para as atividades das mulheres e se apontado para a necessidade de repensar a importância da sua participação na geração de renda familiar e na articulação com a comunidade.

Um dos desafios da situação da mulher na pesca é o reconhecimento como profissionais da pesca. Ainda que boa parte delas não atuam como “embarcada” (denominação daquelas que trabalham no barco durante o processo de captura do pescado), elas desempenham atividades que garantem o processamento dos pescados e até mesmo a venda (Gerber, 201 3). Para a autora, ainda que sobre a realidade de comunidades pesqueiras de Santa Catarina:

...a denominada invisibilidade feminina na pesca se dá de duas formas. Uma, por parte de quem olha de fora, sejam órgãos públicos, acadêmicos, seja a população de forma mais ampla que não conhece, ou que não consegue supor, que existam mulheres pescadoras. Outra, diz respeito ao contexto interno em que as famílias e as próprias mulheres pescadoras, com ênfase nas que atuam em terra, muitas vezes não se dão conta de que sem elas, a pesca não se reproduz. As mulheres com as quais convivi estavam em, praticamente, todas as etapas e formas em que a pesca ocorre, seja pesca de cerco, de espera, de fundo, de anzol, de gaiola, de espinhel; de peixe, de camarão, de siri, de berbigão (GERBER, 2013, p.381).

O mesmo panorama relatado em Santa Catarina também está presente no contexto do litoral do Paraná. Além da falta de reconhecimento interno, um dos elementos externos que afetam diretamente o reconhecimento e que vem sendo alvo de debates entre as pescadoras artesanais do litoral do Paraná refere-se ao Decreto Federal 8425 de 31 de março de 201 5. As pescadoras têm encarado tal decreto como uma ameaça aos direitos conquistados como o seguro defeso, aposentadoria, auxílio maternidade e, acima de tudo, no reconhecimento enquanto pescadoras artesanais. Para além de uma discussão em torno de direitos trabalhistas que o reconhecimento no plano jurídico tem o poder de efetivar, as pescadoras demonstram preocupação em relação ao reconhecimento de sua identidade coletiva, uma vez que fazem parte de comunidades tradicionais. É nesse sentido que o projeto de extensão aqui relatado se caracteriza por uma ação direcionada a incrementar e disparar processos de empoderamento das mulheres em questão, entendendo que o empoderamento pode ter muitas vertentes, pode ser relacionado a habilidades, oportunidades, capacidades, podendo estar relacionado ao indivíduo ou a coletividade. O empoderamento nesse trabalho relaciona-se às mulheres, mas a partir dessa delimitação outras relações relaciona-se fazem necessárias, como as lutas pelos seus direitos fundamentais.

Para León (2001 ) as feministas que se aprofundam nas bases do empoderamento entendem que ele é um processo que acontece de diferentes formas em diferentes contextos. O empoderamento passa pelo plano individual, com o aumento da autoestima, e da autonomia. Pelo coletivo, com a capacidade de organização e mobilização em prol de objetivos comuns. O processo não acontece de maneira linear, desvinculado das relações sociais, históricas, econômicas, das necessidades urgentes de sobrevivência e da manutenção da vida. Por isso, muitas vezes, é contraditório, conflituoso e desestabilizador para alguns. Nesse sentido, entende-se que:

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...os processos de empoderamento são, para as mulheres, um desafio à ideologia patriarcal com objetivo de transformar as estruturas que reforçam a discriminação de gênero e a desigualdade social. O empoderamento, portanto, se entende como um processo de superação da desigualdade de gênero (LEÓN, 2001, p. 104).

Na mesma linha Meneghel, Farina e Ramao (2005) trabalharam com o processo de empoderamento em oficinas de narrativas de histórias com mulheres negras vítimas de violência. Para as pesquisadoras

O empoderamento significa um desafio para as relações de poder existentes; representa a expansão da liberdade de escolha e de atuação e o aumento da capacidade de agir dos sujeitos sobre os recursos e decisões que afetam suas vidas. É um processo que pode ajudar na superação da desigualdade de gênero, sempre que as mulheres reconhecerem a ideologia sexista e entenderem que essa ideologia perpetua a discriminação em relação a elas (MENEGHEL et al, 2005, p. 570).

Nesse caso o empoderamento almejado era direcionado ao resgate da autoestima, à desnaturalização da violência, da compreensão das prerrogativas de uma sociedade patriarcal e machista e seus mecanismos de submissão das mulheres. Levantar a cabeça, se entender como uma pessoa de direitos é um dos primeiros estágios do empoderamento.

No sentido de relacionar o empoderamento das mulheres como uma possibilidade de empoderamento de toda a família, pois a melhoria das condições delas abre os caminhos para a melhoria das condições dos seus, sejam filhos e filhas, cônjuges ou pais e mães. Ao atingir a família e suas extensões o processo transcende o campo individual e pode então ser analisado do ponto de vista coletivo, em um primeiro momento nas relações mais próximas e depois abarcando o grupo de forma mais abrangente, antes como mulheres e então como comunidade. Assim, pensando nas possibilidades do empoderamento feminino como uma conquista de toda comunidade, numa perspectiva focada em um processo político de superação da realidade social e econômica da classe trabalhadora, Paulo Freire (1 986) retoma a questão do empoderamento rompendo com as argumentações de ordem individual ou psicológica (Meirelles; Ingrassia, 2006) e o considerando como algo relativo à classe social:

A questão do empowerment da classe social envolve a questão de como a classe trabalhadora, através de suas próprias experiências, sua própria construção de cultura, se empenha na obtenção do poder político. Isto faz do empowerment muito mais do que um invento individual ou psicológico. Indica um processo político das classes dominadas que buscam a própria liberdade da dominação, um longo processo histórico de que a educação é uma frente de luta. (FREIRE; SHOR, 1986, p. 72).

Portanto, partindo do trabalho com o individual, almeja-se aumentar as possibilidades de toda a comunidade de empoderar-se e adquirir as habilidades práticas e sociais para melhorarem suas condições de vida.

2. DESCRIÇÃO DA DINÂMICA

Como uma das atividades trabalhadas em forma de oficinas, a composição de uma agenda de trabalho foi aplicada num dos encontros com as mulheres das comunidades do litoral. Em oficinas anteriores, por meio de observação, percebeu-se que aquelas mulheres não se reconheciam como sujeitos na prática da pesca, mas como coadjuvantes,

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ainda que seus trabalhos fossem imprescindíveis para a efetivação da atividade pesqueira, pensou-se em uma atividade que proporcionasse a elas outra percepção de si mesmas. Deste modo, a oficina teve como objetivo esmiuçar as atividades diárias das mulheres de modo a tirar da invisibilidade das próprias percepções a variedade e importância dos trabalhos que elas desenvolvem ao longo de um dia. Para isso, em grupos (o reconhecimento da coletividade também coopera para a construção do empoderamento individual), as mulheres receberam uma folha de papel pardo onde havia o registro de horários, começando às 6 horas e terminando às 23 horas, em linhas, imitando a página de uma agenda. Nessa folha elas deveriam registrar suas atividades diárias, de meia em meia hora, passando pelo preparo do café até a arrumação dos filhos na hora de dormir e as atividades relacionadas à pesca, direta ou indiretamente.

Para iniciar a oficina, num momento de problematização do tema, foi lido o depoimento de uma pescadora catarinense (Gerber, 201 3) no qual relata como se tornou pescadora, a resistência que enfrentou do pai, e de como assume outras atividades em períodos “ruins” em que a pesca é escassa. As participantes foram estimuladas a relacionar suas vidas com a da pescadora, onde destacaram: a multiplicidade de atividades que desempenham; o que fazem nos períodos do ano em que a pesca é escassa (“períodos de miséria”); a relação de companheirismo e amor que a pesca exige.

A partir dessa discussão, as participantes construíram um calendário das épocas do ano com base nas características recorrentes das atividades de pesca e os tipos de peixes e pescados que são frequentes em cada uma dessas épocas. Assim, o ano ficou dividido em três épocas, segundo as categorias das participantes: “ruim” (maio a agosto), “mais ou menos” (setembro a novembro) e “bom” (dezembro a abril). Dessa forma, para dar sequência à dinâmica da agenda, elas foram divididas também em três grupos que correspondiam a cada uma dessas épocas do ano, e com isso em mente deveriam preencher os horários com as atividades diárias.

3. RESULTADOS DA DINÂMICA

No decorrer da oficina observou-se que elas demonstraram muita dificuldade em identificar como trabalho as atividades mais comuns como lavar a louça, cuidar dos filhos, varrer a casa, etc. Demonstrando a naturalização dessas atividades como próprias do dia a dia, sem entendê-las como trabalho. Ao final, sendo estimuladas a registrar o máximo de atividades, elas se impressionaram com o tempo dedicado ao trabalho e a variedade dessas atividades.

A dinâmica da agenda conjugada com o calendário das épocas do ano possibilitou que elas observassem o impacto da pesca no seu cotidiano. Ao final, elas demonstraram surpresa ao perceberam a multiplicidade de atividades que as ocupam desde o momento em que acordam até o momento em que se deitam para dormir, assim fortalecendo o entendimento de si e também como trabalhadoras dentro da família; que a identidade de pescadoras é justa já que os seus dias e os seus anos são divididos de acordo com a pesca. Além disso, concluíram que desempenham um papel essencial para que a atividade da pesca possa ocorrer no âmbito familiar e na comunidade de pescadores artesanais/caiçaras.

Reconhecer-se enquanto pescadoras/trabalhadoras é fundamental para conquistar direitos e entender o seu papel dentro da família. A fonte de recursos da família, portanto, não depende somente dos maridos, pais ou filhos que pescam embarcados, mas também das atividades que elas desempenham na pesca e em casa. A dinâmica demonstrou a necessidade de tornar visível o trabalho da mulher pescadora. Não reconhecer esse trabalho parte de uma visão fragmentária da atividade da pesca, já que desconsidera a multiplicidade de atividades que também são fundamentais para o seu resultado final. As atividades realizadas em terra são desconsideradas, como o processamento dos pescados e até mesmo a sua comercialização. Essa invisibilidade tem graves consequências para a continuidade da atividade da pesca artesanal em comunidades tradicionais, pois levanta entraves para o necessário reconhecimento das mulheres como profissionais da pesca,

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seu acesso a benefícios sociais, e a valorização de seu papel na construção de sua identidade coletiva e territorial. Com base nisso, surgiu à proposta de problematizar, por meio de uma das oficinas que compõem o projeto de extensão, o lugar da mulher na pesca e como as próprias pescadores se entendem nesse processo. Assim foram desenvolvidas dinâmicas de grupo, a fim de que as pescadoras levantassem os elementos próprios do seu fazer cotidiano, que as identificam como pescadoras artesanais. Por meio dos relatos das participantes, foi possível observar o despertar de um processo de ressignificação de sua participação, na geração de renda familiar e na sua articulação pela defesa dos seus direitos enquanto pescadora. A dimensão da luta política em torno da construção da visibilidade (que se encontra em curso) pode ser notada pela mobilização entre as participantes após a oficina. Elas buscaram dialogar com outros movimentos de pescadoras no Brasil para se informarem sobre questões relativas ao Decreto Federal 8425 e se colocarem enquanto parceiras na luta pelo seu reconhecimento e pela efetivação de seus direitos trabalhistas, identitários e territoriais.

4. REFERÊNCIAS

BECK, Anamaria. Pertence à mulher: mulher e trabalho em comunidades pesqueiras do litoral de Santa Catarina. Revista de Ciências Humanas, vol. 7, n. 1 0, 1 991 .

FREIRE, Paulo. Shor, Ira. Medo e ousadia: o cotidiano de professor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1 986.

GERBER, Rose Mary. Mulheres e o mar: uma etnografia sobre pescadoras embarcadas na pesca artesanal no litoral de Santa Catarina, Brasil. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Tese de Doutorado, 201 3.

LÉON, Magdalena. El empoderamiento de las mujeres: encuentro del primer y tercer mundos en los estudios de género. La ventana, v.1 3, p. 94-1 06, 2001 . Acesso em 3 jul.

201 2. Disponível em

<http://publicaciones.cucsh.udg.mx/pperiod/laventana/Ventana1 3/vetana1 3-4.pdf>. Acesso em: 1 5 abr. 201 4.

MENEGHEL, Stela Nazareth; Farina, Olga; Ramao, Silvia Regina. Histórias de resistência de mulheres negras. Revista de Estudos Feministas, Florianópolis, v.1 3, n.3, dez. 2005.

MEIRELLES, Mauro; Ingrassia, Thiago. Perspectivas teóricas acerca do empoderamento de classe social. In: Revista Eletrônica Fórum Paulo Freire. v.2, n. 2, 2006.

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