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Propriedade do corpo: sujeito, direito e trabalho

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Academic year: 2021

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PROPRIEDADE DO CORPO: SUJEITO, DIREITO E TRABALHO

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina, como requisito para a obtenção do título de Doutora em Ciências Humanas. Orientador: Prof. Dr. Alexandre Fernandez Vaz

Co-orientadora: Profa. Dra. Franciele Bete Petry

Florianópolis 2017

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Ficha de identificação da obra elaborada pelo autor,  através do Programa de Geração Automática da Biblioteca Universitária da UFSC. Seré Quintero, Cecilia    Propriedade do corpo : sujeito, direito e trabalho / Cecilia Seré Quintero ; orientador, Alexandre  Fernandez Vaz, coorientador, Franciele  Bete Petry, 2017.    228 p.    Tese (doutorado) ­ Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós­Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas, Florianópolis, 2017.    Inclui referências.     1. Ciências Humanas. 2. Corpo. 3. Propriedade. 4. Sujeito. 5. Modernidade. I. Fernandez Vaz, Alexandre . II. Bete Petry, Franciele . III. Universidade Federal de Santa Catarina. Programa de Pós­Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas. IV. Título.

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PROPRIEDADE DO CORPO: SUJEITO, DIREITO E TRABALHO

Esta Tese foi julgada adequada para obtenção do Título de Doutora em Ciências Humanas e aprovada em sua forma final pelo Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas, do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina

Florianópolis, 20 de setembro de 2017 ________________________

Prof. Dr. Alexandre Fernandez Vaz (orientador) ________________________

Profa. Dra. Franciele Bete Petry (co-orientadora) ________________________

Profa. Dra. Teresa Kleba Lisboa Coordenadora do Programa de Pós-Graduação

Interdisciplinar em Ciências Humnas Banca Examinadora:

________________________

Prof. Dr. Alexandre Fernandez Vaz (orientador) – UFSC ________________________

Prof. Dr. Raumar Rodríguez Giménez (membro externo) – Udelar (URU) ________________________

Prof. Luis E. Behares (membro externo) – Udelar (URU) ________________________

Prof. Dr. Raúl Burgos (membro interno) – UFSC ________________________

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O trabalho de escrever uma tese sempre se realiza graças a um conjunto de pessoas, grupos e instituições que dão suporte acadêmico, institucional e afetivo e que fazem que, embora solitário, não seja um trabalho individual. Não sendo possível nomear a todos, quero expressar agradecimento especial a:

Alexandre Fernandez Vaz, que depois de cinco anos de trabalho em conjunto, continua orientando minhas inquietações de pesquisa, promovendo o trabalho de pensamento com rigorosidade, paciência e carinho;

A Franciele Bete Petry, co-orientadora da tese, por ter aceitado formar parte desta pesquisa;

A Selvino J. Assmann, por compartilhar sua extraordinária e provocativa forma de pensar;

A Raumar Rodríguez Giménez, grande companheiro de trabalho intelectual, incansável leitor e crítico afetuoso;

A Luis Ernesto Behares, referência de trabalho acadêmico, por contribuir em minha formação e por sua leitura e comentários a uma versão preliminar desse trabalho;

A Edgardo Castro, Amaro Fleck e Delamar Dutra, que compuseram a banca de qualificação em abril de 2016, fazendo importantes comentários para a continuação do trabalho de pesquisa;

A Emiliano Gambarotta por seus críticos comentários a uma versão preliminar da pesquisa;

A Jaison José Bassani, Raúl Burgos, Luis E. Behares e Raumar Rodríguez Giménez, que compuseram a Banca Examinadora fazendo apontamentos para continuar pensando a temática desta pesquisa, e fizeram parte do momento de culminação do doutorado;

Ao grupo Cuerpo, Educación y Enseñanza (ISEF-UdelaR), suporte de minha atividade de pesquisa, admirável espaço de debate e produção de ideias;

Ao Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contemporânea, importante lugar de intercambio e formação com discussões de grande qualidade;

Ao Laboratoire d’études et recherches sur les logiques

contemporaines de la philosophie, da Universidade Paris 8, e

especialmente a Patrice Vermeren por sua acolhida entre agosto de 2016 e março de 2017, e a Alain Badiou, Bertrand Ogilvie e Georges Vigarello por seus extraordinários seminários; agradeço também à

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minha estadia na França;

Ao Centro Interdisciplinario Cuerpo, Educación, Sociedad (CICES) da Universidad Nacional de La Plata, por receber-me em agosto de 2017 para seguir pensando em conjunto, pelos debates e encontros; este intercâmbio foi possível graças ao Programa Escala de Estudantes de Pós-graduação, da Associação de Universidades Grupo Montevidéu (AUGM);

Ao Instituto Superior de Educación Física (UdelaR) pelo apoio para a realização de pós-graduação no exterior;

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES/Brasil), que outorgou a bolsa de pesquisa para realizar o doutorado;

À turma de 2014 do DICH, pelos lindos encontros e debates; a Monique e Rochelle, por compartilhar um pedacinho da França com muito carinho; a Marie e Marina pela linda companhia e amizade;

À querida colônia uruguaia da Armação, que deram intensidade e companhia para esses anos tão especiais;

A Ramírez e Canelones, pelo carinho, a companhia e o apoio incondicional;

A meus amigos, os novos e os de sempre, os de aqui e os de lá, aos meus pais e meus irmãos.

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O indivíduo moderno diz “tenho um corpo” e realiza, com esta afirmação, três operações. Por um lado, põe o corpo como um objeto, do qual se apropria como um produto da mente que pensa. Por outro lado, realiza um deslocamento metafísico do eu, ao situá-lo fora do corpo que diz possuir. Finalmente, estabelece, entre esse eu que fala e o corpo que se torna objeto, uma relação que é de apropriação. Esta pesquisa indaga os fundamentos que permitem ao indivíduo afirmar a seu corpo como uma propriedade, assim como em certos efeitos e formas que toma essa relação do sujeito consigo mesmo no mundo moderno. A propriedade do corpo, que à primeira vista exige uma divisão no sujeito, funciona a sua vez como fonte de todo direito e propriedade ulterior, tal como começa a configurar-se a partir das doutrinas jusnaturalistas. A universalização do sujeito de direito e a universalização da condição de proprietário, foram solidárias com a configuração da modernidade e, especificamente, com a da força de trabalho como propriedade inalienável do trabalhador assalariado. Contudo, ao considerar ao sujeito como efeito de linguagem, se põe em questão essa apropriação imaginária do corpo e permite discutir certos efeitos dessa relação naturalizada entre corpo, direito e propriedade que teve importantes efeitos na política moderna e contemporânea.

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El individuo moderno dice “tengo un cuerpo” y realiza, con esta afirmación, tres operaciones. Por un lado, pone al cuerpo como un objeto, del que se apropia como un producto de la mente que piensa. Por otro lado, realiza un desplazamiento metafísico del yo, al situarlo fuera del cuerpo que dice poseer. Finalmente, establece, entre ese yo que habla y el cuerpo que deviene objeto, una relación que es de apropiación. Esta investigación indaga en los fundamentos que permiten al individuo afirmar a su cuerpo como una propiedad, así como en ciertos efectos y formas que toma esta relación del sujeto consigo mismo en el mundo moderno. La propiedad del cuerpo, que a primera vista exige de una división en el sujeto, funciona a su vez como fuente de todo derecho y propiedad ulterior, tal como empieza a configurarse a partir de las doctrinas iusnaturalistas. La universalización del sujeto de derecho, así como la universalización de la condición de propietario fueron solidarias con la configuración de la modernidad, y específicamente con la de la fuerza de trabajo como propiedad inalienable del trabajador asalariado. Con todo, al considerar al sujeto como efecto del lenguaje, se pone en cuestión esta apropiación imaginaria del cuerpo y permite discutir ciertos efectos de esta naturalizada relación entre cuerpo, derecho y propiedad que ha tenido importantes efectos en la política moderna y contemporánea.

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As abreviaturas das obras mais citadas aparecem na língua das referências consultadas.

Obras de Descartes

Correspondencia Correspondencia con Isabel de Bohemia

Discurso Discurso del método

Investigación Investigación de la verdad por la luz natural

Meditaciones Meditaciones Metafísicas

Méditations Méditations Métaphysiques

Objeciones Objeciones y respuestas a las Med. Metafísicas

Principios Principios de Filosofía

Reglas Reglas para la dirección del espíritu

Obras de Thomas Hobbes

De Cive De cive: elementos filosóficos sobre el ciudadano

El Cuerpo El cuerpo. Primera sec. de los elementos de la filosofía

Leviatán Leviatán o la materia, la forma y el poder de un Estado eclesiástico y civil

Obras de John Locke

Ensayo Ensayo sobre el entendimiento humano

Tratado Segundo tratado sobre el gobierno civil

Obras de Karl Marx

El Capital El Capital: el proceso de producción del capital. Libro I

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1. INTRODUÇÃO...27 1.1 APRESENTAÇÃO...27 1.2 O SUJEITO PROPRIETÁRIO...33 1.3 O HOMEM E A PROPRIEDADE...36 1.3.1 Limiares da personalidade...37 1.3.2 O sentido da propriedade...39

2. “MEU CORPO”, O INDIVÍDUO, A PROPRIEDADE...43

2.1 COGITO, O SUJEITO MODERNO...43

2.1.1 O percurso de Descartes...51

2.2 “MEU CORPO”: DUAS SUBSTÂNCIAS, TRÊS NOÇÕES..53

2.2.1 Dualidade do termo “corpo”...57

2.2.2 A união do corpo e da alma...62

2.2.3 A união como noção primitiva...66

2.2.4 Um corpo que pensa (sentindo)...68

2.3 TER UM CORPO...78

2.3.1 A união e a propriedade...78

2.3.2 O ego proprietário do corpo...81

2.3.3 Da metafísica ao materialismo...86

3. O CORPO: DA PROPRIEDADE AO DIREITO...93

3.1 INTRODUÇÃO...93

3.2 UNIVERSALIZAÇÃO DO DIREITO: ENTRE O HOMEM E O CIDADÃO...94

3.3 A SEDUÇÃO DO LIBERALISMO: MAIS INDIVÍDUO, MENOS POLÍTICA...103

3.3.1 Do dever ao direito...103

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LOCKE...116

3.6 A PROPRIEDADE DO CORPO...118

3.7 APROPRIAÇÃO LIMITADA E ILIMITADA: DO CORPO AO DINHEIRO...121

3.8 O PREÇO DO HOMEM...123

3.9 BELLUM OMNIUM CONTRA OMNES: DA GUERRA AO MERCADO...128

3.10 O PODER DO CORPO...134

3.11 A SOCIEDADE POSSESSIVA DE MERCADO...138

4. FORÇA DE TRABALHO, CORPO E MERCADORIA...145

4.1 INTRODUÇÃO: SOBRE COMO O HOMEM SE CONVERTEU EM MERCADORIA...145

4.2 O INDIVÍDUO PROPRIETÁRIO DE SUA FORÇA...155

4.2.1 Servir-se do corpo...163

4.3 O CAPITAL DO CORPO...167

4.3.1 Capital Humano...169

4.3.2 O corpo: potência de capital...172

4.4 O SALÁRIO: O PREÇO DO CORPO...174

4.5 O HOMEM (TRABALHADOR) QUE SE PRODUZ A SI MESMO...182

4.6 O HOMEM (TRABALHADOR) QUE SE VENDE SE PERDE A SI MESMO...184

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS...191

5.1 O EGO PROPRIETÁRIO...191

5.2 A FORMA DA PROPRIEDADE DO CORPO...195

5.3 A PROPRIEDADE DO CORPO: UMA QUESTÃO DE METAFÍSICA...198

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5.5 UMA ORDEM SOCIAL DE INDIVÍDUOS PROPRIETÁRIOS ...202 5.6 TODA TROCA MERCANTIL CONCERNE AO CORPO....206 5.7 CORPO E POLÍTICA...208 5.8 OS LIMITES DA PROPRIEDADE...210 5.9 A PROPRIEDADE DO CORPO: UMA QUESTÃO

MATERIALISTA...212 REFERÊNCIAS...215

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1. INTRODUÇÃO

1.1 APRESENTAÇÃO

O indivíduo diz “tenho um corpo” e se refere a este baixo o possessivo “meu”. Através do emblema “meu corpo” e, inclusive, utilizando uma afirmação dupla com a forma “meu corpo é meu”, surgiram diversos debates no âmbito político contemporâneo. De forma geral, esses emblemas estiveram vinculados à afirmação de direitos individuais, por exemplo, a partir de movimentos sociais pela descriminalização do aborto, os debates em torno das cirurgias de redesignação sexual, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o consumo de substâncias psicoativas, etc. Do mesmo modo, a relação entre corpo e o possessivo “meu” funcionou na base de concepções cognitivistas e organicistas que supõe uma relação de causalidade entre o cérebro (identificado como órgão da mente) e o corpo (definido como o organismo do qual nos fala a medicina, a fisiologia, a biologia). A afirmação de um direito individual de dispor do próprio corpo pôs em jogo a afirmação de uma distância, entre um indivíduo, pessoa, sujeito de propriedade e um objeto, coisa apropriada, identificada principalmente como mero organismo, lugar de intervenções que, enquanto “próprio”, brindaria ao proprietário a potestade de dispor deste. Contudo, diversas legislações puseram em evidência limitações a esta forma de propriedade. O aluguel do útero, a interrupção da gravidez, a eutanásia ou o suicídio, a amputação voluntária de membros, a castração e a troca de órgãos genitais, a venda e doação de órgãos, são algumas das formas que põem no centro a questão da propriedade do corpo, assim como seus limites.

Diante das muitas formas de reivindicação da propriedade do corpo, perguntamo-nos: a que se deve essa relação de propriedade que o indivíduo estabelece com seu corpo? De onde vem essa relação? A modernidade se configura privilegiando a propriedade como forma de relação predominante que o indivíduo estabelece com as coisas do mundo. Entre essas coisas, o corpo não parece estar alheio, e também se torna uma propriedade que o indivíduo possui. Como proprietário de seu corpo, obterá sobre este seus direitos, será fonte de riqueza e objeto de seu governo e cuidado. O corpo, esse objeto falante do ser falante, será a primeira propriedade daquele que se reconhece em primeira pessoa e diz “Eu tenho um corpo”. A cisão, frente tal afirmação, é clara: “eu” e

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“corpo” não são o mesmo. Apenas assim será possível que se estabeleça uma relação de propriedade entre um e outro.

Do mesmo modo, a afirmação do corpo como propriedade põe em jogo a questão do sujeito. Se há um objeto de propriedade, é de se supor que atrás deste encontremos um proprietário. Contudo, se a divisão se instala dentro do sujeito, surge a seguinte interrogação: quem é esse que se reconhece e particulariza ao dizer eu e, a partir dele, se reconhece, da mesma forma, como proprietário de um corpo? O sujeito moderno se definiu a partir de uma divisão que o constitui. Nesta divisão a questão do corpo parece central. O dualismo cartesiano estruturou grande parte do imaginário coletivo no que diz respeito à configuração do humano. Da distinção de corpo e alma derivou uma afirmação do eu como individualidade empírica representante do indivíduo e, por isso, autoridade sobre sua dimensão orgânica. Essa dimensão egoica, que assegura a estabilidade do indivíduo, estrutura o que denominamos um ego proprietário1, ou seja, aquele que se afirma

sobre a capacidade de apropriação; aquele que, como sujeito egoico, tem consciência e se enuncia a si mesmo como proprietário. Apenas na medida em que “tem consciência” o sujeito poderá representar seu corpo como próprio, solidário com as formas do liberalismo político primeiro, do neoliberalismo depois. Convém, então, perguntar-se: quais elementos funcionaram na configuração do corpo como propriedade?

A modernidade se estrutura como o cenário a partir do qual o indivíduo se afirma sobre seu caráter de proprietário. A propriedade, forma predominante das relações que o indivíduo estabelece, junto com o universalismo moderno, serão chaves para que a condição de proprietário se estenda a todos e a cada um. As doutrinas do direito natural moderno tiveram um lugar central na afirmação de tal universalismo. Thomas Hobbes, representante de destaque dessas doutrinas, afirmou a universalidade através da generalização do caráter de súdito do homem, que por natureza “tem direito”. Logo John Locke depositará em todos os homens a propriedade de sua própria pessoa. 1 A expressão ego proprietário mantém suas solidariedades com a de “ego patrocinante”, que corresponde a Behares (2014, p. 117). Esta última se refere a “una construcción conceptual e ideológica, el ego, que patrocina toda una visión de lo social y lo humano, en todos sus componentes (el pensamiento, la voluntad y el lenguaje incluidos), a partir de la estabilidad de los individuos, detentores de las claves necesarias a su propia justificación”. A expressão procura contrapor o indivíduo egoico ao sujeito que se define a partir do inconsciente freudiano, e que com Lacan toma a forma de sujeito barrado, por tanto nunca possibilitado de ser finalmente proprietário de si.

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Mais tarde, a Revolução Francesa proclamará a universalidade da condição de cidadão e defenderá o direito à vida, à liberdade e à propriedade. Finalmente, com as declarações universais dos Direitos Humanos a universalidade se estenderá, formalmente, à mera condição de humanos (já não súditos, nem necessariamente cidadãos).

As ideias que se organizaram sob o nome de liberalismo não só instituíram todo um conjunto de liberdades individuais, mas se apresentaram como condição fundamental para o estabelecimento desta novidade: a propriedade privada associada ao corpo do indivíduo. Outra interrogação se faz presente: como se manifesta essa propriedade chamada “corpo”? A afirmação da propriedade é solidária com o próprio registro do mercado. Se o corpo se apresenta como uma propriedade, então podemos deduzir que terá um lugar de relevância no mercado. Marx parece ter notado uma cisão constitutiva do trabalhador. Este se vende, mas não a si mesmo, e sim a sua força. Apenas mantendo a cisão entre o si mesmo, portador de consciência, suporte do eu, e sua condição orgânica, fonte de sua força de trabalho, é possível que o indivíduo moderno se apresente no mercado como trabalhador. O mercado de trabalho é a forma que toma essa comercialização da força de trabalho, que sintetiza uma das formas na qual a propriedade do corpo se manifesta. Quanto mais se assegura a possibilidade de comercializar a força de trabalho, mais se afirma que essa é uma propriedade e, portanto, mais se define o indivíduo como seu próprio dono. A força de trabalho é a dimensão corpórea comercializada pelo mercado capitalista, ou seja, uma das formas que a mercantilização do corpo assume no mundo moderno. É aqui, então, que o corpo toma a própria forma de mercadoria, cujo caráter fetichizado o constituiu também em objeto de valor, de valor de uso e de valor de troca.

No entanto, considerar o corpo unicamente em seu caráter orgânico seria deixar de lado a via que se abre a partir da definição de um sujeito em e pela linguagem, sujeito que difere de toda forma de individualidade empírica (cf. MILNER, 1996). Dentro dos parâmetros do sujeito (e não do indivíduo), o corpo, mais do que definido por suas particularidades anátomo-fisiológicas, pode ser entendido como esse ponto de encontro entre essas particularidades e a condição falante do sujeito (cf. BRUNO, 2012; RODRÍGUEZ GIMÉNEZ, 2016). Contudo, a primazia do indivíduo no mundo moderno foi solidária com a primazia do corpo como estrutura orgânica. Ou seja, o indivíduo, como “máquina psicológica”, antes de suas relações com a linguagem (cf. BEHARES, 2007), é concebido como o agente de seus conhecimentos e, assim, das

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representações que estabelece com seu corpo. O corpo, uma máquina de carne que é possível conhecer e controlar, torna-se um objeto das disciplinas que se estabelecem comodamente, de um lado sobre as bases das denominadas “ciências naturais” e, de outro, sobre as teorias cognitivistas que se sustentam na relação íntima entre o conhecimento e isso que, desde Descartes, nos acostumamos a chamar de “mente” (cf. BEHARES, 2007). Tal solidariedade, entre o indivíduo e seu corpo, funda-se na possibilidade de estabelecer uma relação entre ambos. Uma relação sintomática, na medida em que se estabelecem relações entre o distinto, o que se reconhece por uma separação. Essa relação que se põe em evidência a partir de um possessivo (meu corpo) toma o caráter de uma relação de propriedade que, aqui, nos propomos analisar2. Não se

trata de desconsiderar o fato de que o sujeito não pode ser reduzido a esta individualidade empírica, nem o corpo limitado a seu componente orgânico. Mas a partir do momento em que uma “relação” se estabelece, o componente imaginário afirma de um lado a dimensão egoica e, de outro, o organismo como destino. Entre um e outro, um laço que os une e, ao mesmo tempo, os diferencia.

Perguntamo-nos, portanto, pela forma que toma a propriedade do corpo, considerando que a forma mercadoria não é alheia a esta apropriação. Porém o corpo não é qualquer propriedade. Não é uma propriedade que pode cindir-se completamente do indivíduo que a porta. Não pode vender-se nunca em sua totalidade se se considerar que, enquanto corpo falante, está sempre vinculado àquele que diz “meu corpo”. E só aquele que diz “meu corpo” pode vender sua força sem vender-se a si mesmo. Será pertinente, então, considerar que o corpo se apresenta, ao mesmo tempo, como uma propriedade alienável e inalienável do indivíduo: alienável na medida em que pode vender-se sob a forma de força de trabalho; inalienável na medida em que nunca pode vender-se completamente. O indivíduo moderno afirma-se, então, a partir da delimitação de um resto, orgânico, que recupera como propriedade.

Veremos, ao fim desta tese, que essa afirmação do indivíduo moderno, solidária com a consideração do corpo como uma propriedade, entra em questão quando se considera isso que, desde Lacan, podemos 2 Não estamos supondo que todo possessivo implique uma relação de propriedade. Contudo, o que parece colocar-se no centro da questão quando se afirma “meu corpo é meu” ou “tenho um corpo” não é unicamente uma relação que diz respeito ao “eu” que enuncia, mas principalmente uma relação de apropriação. Esse eu, que enuncia, se afirma como agente ativo tanto de seu enunciado quanto do objeto que ali se põe em questão: o corpo.

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definir como “ser falante”. Invertendo a relação de produção entre o ser e a linguagem, não é o indivíduo quem fabrica a linguagem e utiliza-a como instrumento, senão que o ser é um efeito do falar. Parlêtre foi o neologismo utilizado por Lacan (2012) para pôr ao ser (être) como um efeito da linguagem3. Baixo esta consideração, a linguagem será o lugar

em que o ser falante inscreverá seu desejo. Esta modulação supõe retirar a primazia da consciência (inclusive a consciência do próprio corpo), assim como do eu (a partir do qual se define isso que chamamos de ego

proprietário). Do suporte que brindava a transparência da consciência,

nos deslocamos à opacidade do inconsciente, questão que reconfigura a divisão do sujeito e, portanto, sua pretensão imaginária de ser proprietário do corpo. Contudo, a tentativa de compreender os fundamentos e as formas que afirmam o corpo como propriedade centralizou a análise na afirmação deste indivíduo que, pelo menos desde Descartes, se sustenta sobre um dualismo que põe de um lado a mente, fonte de representações, e de outro o corpo, comodamente identificado como o orgânico, objeto de representações dessa outra substância que elabora a organização imaginária do mundo.

De forma sintética, esta pesquisa analisa a configuração do corpo como propriedade do indivíduo moderno, procurando dar conta das seguintes perguntas: a que se deve esta relação de propriedade que o indivíduo estabelece com seu corpo? Quem é o sujeito que se define como proprietário de seu corpo? Quais elementos funcionaram na configuração do corpo como propriedade? Como se manifesta esta propriedade chamada “corpo”? Qual forma toma a propriedade do corpo?

Para tanto, este trabalho espera pôr em jogo, em termos teórico-metodológicos, as relações entre discurso e condições de possibilidade que permitam rastrear os fundamentos e elementos a partir dos quais o indivíduo se depara com o fato de “ter um corpo”. Ou seja, realiza-se uma pesquisa de corte teórico a partir da qual se possa obter os fundamentos para compreender o fato de que o corpo se apresenta como uma propriedade individual, cuja forma chega até nossos dias como uma 3 Embora a tradução por “ser falante” possa resultar contraditória, ou não captar em si todas as conotações implícitas no neologismo, preferimos utilizá-la aqui, principalmente pela significativa referência que seguimos da obra de Jean-Claude Milner, onde subsiste a expressão “ser falante” (être parlant). Por outro lado, seria preciso aprofundar o fato de que Lacan (2012) afirma, junto a definição deste parlêtre, o ter um corpo, pondo em jogo as dimensões imaginária, simbólica e real, questão que excedeu a orientação que tomou esta pesquisa.

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relação natural, e acaba como sustentação de grande parte dos discursos políticos contemporâneos. Para isso, se realizará uma reconstituição, interpretação e análise de obras chave de autores considerados relevantes na configuração da propriedade do corpo. Parte-se da análise do sujeito cartesiano, considerando que se encontra ali um ponto significativo para a posterior configuração de um ego proprietário de seu corpo. A partir de Descartes, analisa-se a fórmula “meu corpo”, tendo em conta seus limites e sua função como antecedente da fórmula da propriedade do corpo. A partir daí nos remeteremos a certos referenciais do liberalismo clássico, onde se destacam, sobretudo, as obras de Thomas Hobbes e John Locke, figuras a partir das quais se consolida esta apropriação do indivíduo em relação a si mesmo. Finalmente, centramos a discussão sobre as bases do que se reconhece como materialismo marxista, onde o argumento de Marx será objeto central de análise. Em todos os casos as obras dos autores mencionados são colocadas em diálogo com outras consideradas significativas, seja por sua proximidade, seja por sua contraposição. Igualmente, optou-se por uma perspectiva de análise que, embora saibamos não abarcar a totalidade das possibilidades, consideramos relevantes para indagar cada uma dessas questões. Deste modo, nos baseamos principalmente nas pesquisas de Jean-Luc Marion para problematizar a questão do sujeito cartesiano e a paradoxal dualidade que este estabelece. Para a análise das posições liberais optamos pela perspectiva introduzida por Crawford Macpherson, que fornece elementos interessantes para indagar sobre a questão do indivíduo e a propriedade em relação ao corpo. Finalmente, para a análise do argumento de Marx consideramos a via que se abre de Luis Althusser a Jean-Claude Milner, incluindo assim a posição de Jean Baudrillard, tal como certas críticas realizadas por Hannah Arendt. Cabe destacar, do mesmo modo, que não se trata de uma leitura de toda a tradição que compõe cada um dos autores introduzidos neste trabalho, mas sim que nos propomos discutir certos textos identificados como significativos no conjunto. Assim, por exemplo, se analisam as

Meditaciones Metafísicas de Descartes, o Leviatán de Thomas Hobbes,

o Segundo Tratado sobre el Gobierno Civil de John Locke, os

Manuscritos econômico-filosóficos e El Capital de Karl Marx, mas estas

leituras são realizadas procurando identificar e analisar elementos chave para a compreensão da consolidação do corpo como propriedade. Isso não supõe uma análise de toda a tradição de Descartes, de Hobbes, de Locke, nem de Marx, nem mesmo de sua atualidade, tarefas que deveriam ser objeto de outros trabalhos orientados nessa direção. Apesar

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desta advertência metodológica, cabe destacar que em todos os casos procurou-se manter a fidelidade dos textos e considerar as variações dentro dos autores, superando os limites que se estabelecem no recorte do conjunto de uma obra4.

1.2 O SUJEITO PROPRIETÁRIO

Como já mencionamos, a pergunta pela propriedade do corpo põe em jogo a questão do sujeito. Com duas orientações distintas, pensar ao corpo como propriedade deriva na pergunta pelo sujeito que se torna proprietário. De um lado, nos perguntamos por esse sujeito que diz “meu corpo”. É uma interrogação que refere à configuração do sujeito em si, e sua resposta incluirá questões metafísicas, enquanto um ego se afirma como proprietário diferente dessa materialidade que pertence a ele. Do outro lado, a pergunta pelo proprietário do corpo implicará um componente externo ao sujeito, e remeterá ao conjunto de aspectos sociológicos e políticos que permitem ao indivíduo afirmar sua propriedade corpórea. Neste segundo caso, contudo, deverá ser considerada uma operação universalizante a partir da qual as particularidades serão uma instância a posteriori.

De forma introdutória, apresentamos nesta primeira secção alguns elementos para situar a questão do sujeito e da propriedade, indagando no lugar do corpo nessa relação.

No segundo capítulo desta pesquisa orientamo-nos a responder pela questão do sujeito presente em afirmações do tipo “meu corpo”, “tenho um corpo”, “meu corpo é meu”. Quem é o que diz “meu corpo”? Tal afirmação põe em jogo ao menos dois elementos: há uma objetivação do corpo, que se distingue da entidade que enuncia; e há um deslocamento metafísico dessa entidade, que se coloca fora desse corpo afirmado como próprio. Para realizar essa indagação recorremos à fórmula que inaugura o sujeito moderno. Será com Descartes que analisaremos essa distância entre uma coisa que pensa, res cogitans, e o corpo que afirma ter.

É uma questão que percorre, de diferentes maneiras, a filosofia moderna, e aqui nos deteremos principalmente a partir da figura de 4 Toma-se a noção de “obra” aqui tal como apresenta Milner (1996, p. 14), é dizer: “como ese principio de unicidad que permite introducir en lo múltiple de la cultura un balance y diferenciaciones”. É por isso que uma obra “no es necesariamente un libro, ni siquiera necesariamente un libro. La obra no es una materia, es una forma, y es una forma que la cultura organiza”.

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Descartes. Contudo, é importante reconhecer toda uma tradição que põe em jogo esta relação de cada um com seu corpo. Husserl, Spinoza, Malebranche, Leibniz, para nomear apenas alguns, também poderiam ter sido objeto de investigação. As limitações deste trabalho, entretanto, fizeram com que nos centráramos apenas em um dos filósofos considerados inaugurais do pensamento moderno, inclusive por que, ainda sem supor que seja unicamente a figura de Descartes a que define a questão, não podemos deixar de considerar que a modernidade é intrinsecamente cartesiana.

Também não tem menos relevância, portanto, ter em conta que a afirmação de um corpo específico do sujeito, que com Descartes se afirma através de um possessivo (“meu corpo”), aparecerá posteriormente e de forma explícita em Kant (1988, p. 198): “Nuestro cuerpo nos pertenece a nosotros mismos”. Superando as possibilidades deste trabalho, é importante considerar que, como aponta Balibar (2013, p. 45), a “invenção” do sujeito transcendental é uma saída e uma interpretação do cartesianismo. Deve-se ver que, com Kant, há uma operação histórico-filosófica que “descubre el sujeto en la substancia del cogito cartesiano, y revela la substancia en el sujeto (como ilusión trascendental), instalando de este modo a Descartes en esa situación de 'transición' (…), que los filósofos de los siglos XIX y XX no dejaron de comentar” (BALIBAR, 2013, p. 46).

No segundo capítulo, em suma, aborda-se a questão do corpo e sua propriedade a partir da divisão e união que põe em jogo este filósofo do corte moderno. Do dualismo cartesiano à união como terceira noção primitiva, indagamos como a propriedade do corpo anuncia-se sem ainda definir-se completamente.

Prosseguimos a análise, no terceiro capítulo, a partir da universalização, na modernidade, de certas condições que já se anunciavam com este sujeito cartesiano. A questão do direito parece central para a definição de um sujeito que se afirma como proprietário. Não optamos por uma análise jurídica do assunto, mas pela configuração de certas doutrinas que afirmam o sujeito como proprietário naturalmente. O direito de propriedade foi objeto da análise do segundo capítulo a partir das doutrinas do direito natural e a configuração do liberalismo clássico. Através das obras de Thomas Hobbes e John Locke, em diálogo com outros autores da época, veremos como se define uma sociedade de proprietários que inclui a propriedade do corpo. As obras de Locke e de Hobbes funcionaram como fonte de indagação, através das quais analisamos como a consolidação do

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jusnaturalismo funcionou na afirmação do corpo como uma propriedade individual.

O corpo será não apenas uma propriedade primeira do sujeito (propriedade que, com Locke, será deduzida da propriedade da pessoa), mas também fonte de riquezas e outras propriedades. Encontraremos, tanto em Locke quanto em Hobbes, um antecedente central da mercantilização do trabalho, questão que põe o corpo no centro, sua propriedade e sua configuração como mercadoria, aspecto que analisamos no quarto capítulo, a partir da obra de Marx. O indivíduo proprietário de um lado, e a definição de uma sociedade organizada através do mercado de outro, configurou o que Macpherson (2005) chamou “sociedade possessiva de mercado”, que será objeto deste terceiro capítulo, em que veremos como ali, no seio desta sociedade moderna, define-se um indivíduo proprietário de seu corpo.

O quarto e último capítulo aprofunda-se na configuração do corpo como propriedade, a partir das bases apresentadas pela tradição marxista. Centramo-nos tanto na obra de Marx quanto em certas críticas que resultam centrais para compreender essa mercantilização do corpo. Embora o comércio do corpo (venda de órgãos, tecidos, células, etc.) tenha sido questionado e proibido em um grande número de legislações internacionais (mostrando uma sacralidade do corpo), o trabalho emerge como forma universal de um intercâmbio que, paradoxalmente, organiza-se a partir do corpo. A figura do trabalhador ocupa um lugar central na análise que realizamos neste capítulo, posto que, como aponta Baudrillard (2000), implica uma “sobredeterminação metafísica” ao considerar que há um proprietário que vende sua força de trabalho. A condição de trabalhador livre, tal qual a de proprietário de sua força, são indícios para a análise desta forma-mercadoria que toma o corpo.

Indagamos uma co-dependência que funciona entre o trabalho assalariado e a propriedade do corpo através desta forma “força de trabalho”, analisando como essa “última instância” de determinação econômica que aponta o marxismo toca, também, nessa instância corporal que se coloca em jogo em toda forma de trabalho. Vimos, portanto, o corpo como um efeito da produção e, especificamente, do modo de produção capitalista.

A secção que conclui esta tese propõe uma abertura à consideração de certos efeitos que implica esta afirmação do corpo como propriedade. Ao realizar uma síntese do percorrido nesta pesquisa, apresentam-se alguns resultados alcançados no que diz respeito: a configuração de um sujeito que parece sustentar-se sobre um ego

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proprietário disso que objetiva como corpo; o caráter imaginário desta propriedade que funciona como um laço solidário com essa tentativa de unir os componentes do dualismo que Descartes parece ter afirmado; a certas consequências, apresentadas de forma heurística, que esta propriedade tem para o mundo contemporâneo; aos limites que tem esta fórmula da propriedade do corpo quando se considera, com o materialismo linguístico, isso que se chamou a determinação, em última instância, de significante.

1.3 O HOMEM E A PROPRIEDADE

Há uma distinção que separa de um lado as pessoas e, de outro, as coisas. Herdamo-la do direito romano. As pessoas são não-coisas, as coisas são não-pessoas (ESPÓSITO, 2016). Não sendo apenas as segundas objeto de domínio das primeiras5, se estabelece, além disso,

uma relação específica: contrato para as relações entre pessoas, propriedade para as que são entre pessoas e coisas. Entre ambas, a modernidade confirma uma relação instrumental.

Sem supor que pessoas e coisas sejam dados naturais, desde o ponto de vista estritamente jurídico o objeto de propriedade é a coisa, por oposição à pessoa, que toma o lugar do sujeito. Na medida em que as coisas se caracterizam por sua possibilidade de apropriação, as pessoas aparecem como uma elaboração que procura identificar o indivíduo sobre a cena jurídica (isso não supõe desconsiderar a existência de elementos não apropriáveis, res nullius, assim como a atribuição da categoria pessoa a uma entidade jurídica que não supõe uma existência individual). Ainda quando o termo “sujeito de direito” tenha adquirido potência através da ideia de um indivíduo amo de si mesmo e da natureza, este jamais substituiu o termo “pessoa”, que continua sendo um termo técnico dentro do direito civil (THOMAS, 1998). A pessoa é, neste sentido, um artifício técnico que, ainda na atualidade, evoca o sentido originário de máscara teatral, tela que se interpõe entre um ator e o mundo da representação. Essa distância mostra que a pessoa jurídica é diferente do sujeito real6. O relevante é

que a noção de pessoa, ainda quando esta se reduz à de pessoa física é, 5 A ironia do dispositivo, usando uma expressão de Foucault (2005), é que a política contemporânea inverte a relação de domínio e estabelece que são as coisas as que governam (MILNER, 2012b).

6 O que diz respeito à noção de sujeito e seu lugar de ativo e passivo na historia da subjetividade, cf. Le Gaufey (2010) e Castro (2005), dentre outros.

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ao mesmo tempo, um ser realmente existente, mas assim mesmo um ser desencarnado (embora não por isso todos os seres entravam nessa categoria, situação evidente se considerarmos o caso do escravo). Como aponta Thomas (1998), o direito leva em frente uma verdadeira dissociação dos sujeitos e dos corpos, para compor a “pessoa”. Daqui que a unidade da “pessoa” não recubra aquela do sujeito empírico, físico ou psicológico7. A pessoa, sujeito de direitos e de obrigações, não é o ser

humano concreto, com suas características físicas e psíquicas próprias, mas sim uma abstração da ordem jurídica, um ser imputado de regras jurídicas que regulam a este outro ser, humano, que subjaz (e esse ser humano subjacente pode, sob diferentes categorias, ser um, ou vários, e inclusive nenhum) (cf. THOMAS, 1998).

Essa dissociação, gerada no direito romano, subsiste no direito medieval e mantém-se praticamente intacta no direito moderno atual, no qual, por sua vez, inventa a categoria de pessoa física. O corpo, paradoxalmente, permanece alheio a esta expressão (cf. THOMAS, 1998; ESPÓSITO, 2016), e a pessoa física que, como categoria jurídica, representará o ser humano sobre a cena jurídica, será tão incorpóreo como a pessoa moral e, inclusive, como a pessoa jurídica. Neste sentido, a pessoa física conduz à censura do corpo, na medida em que essa existe no lugar do ser humano identificado por seu corpo. Faz parte dos efeitos que teve a distinção entre pessoas e coisas, que desencarnou o direito e permitiu aos juristas desenvolver uma reflexão liberta ao mesmo tempo da trivialidade e da sacralidade corporal (BAUD, 1993). Segundo Baud (1993), a invenção romana da pessoa jurídica teve por efeito censurar o corpo humano, fazendo com que a abstração da pessoa se instalasse substituindo a materialidade do corpo.

1.3.1 Limiares da personalidade

O antigo direito romano não apenas afirmava a distinção entre pessoas e coisas, mas também estabelecia, no interior da espécie humana, limiares de personalidade (cf. ESPÓSITO, 2016). Desde o status do pater até o de escravo, apresentava-se o espectro que definia, a sua vez, as possibilidades de apropriação.

7 No direito romano definia-se como “pessoa” ao sujeito titular de um patrimônio, e os agentes (filhos, escravos) que este patrimônio incluía, estavam habilitados a representá-lo juridicamente. Por esse motivo o direito reconhecia não indivíduos, mas sim pessoas e patrimônio, o que tornava diretamente concebível que um sujeito contivesse várias pessoas, e uma única pessoa vários sujeitos (cf. THOMAS, 1998).

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No entanto, como vimos no transcorrer da pesquisa, a modernidade afirma não apenas a universalização da categoria de pessoa, mas também a de proprietário. Ao estabelecer a força de trabalho como mercadoria afirma-se, como disse Marx (El Capital), uma propriedade presente inclusive na classe dos “despossuídos”. Mas também, na medida em que o trabalhador se apresenta ao mercado para vender essa força, configura-se deste modo como pessoa. Estabelece um contrato com o comprador e, com sua força de trabalho uma relação de propriedade, confirmando, desse modo, a distinção entre coisas e pessoas.

Não obstante, esses limiares de personalidade e de apropriação que encontrávamos no antigo direito romano subsistem sob novas formas. Quando o indivíduo afirma sua condição de proprietário de si mesmo ou de seu corpo frente a outros tipos de poderes que procuram pôr em disputa dita propriedade (Estado, Igreja, outros indivíduos, etc.), o que se põe em jogo é o espectro de possibilidades dessa condição de “proprietário”. Basta ver as lutas feministas que reivindicam “Nem Estado, nem marido, nem Igreja, nem partido” nas decisões individuais sobre o corpo da mulher, mostrando a atualidade dessa disputa pela condição de proprietário. Poderia se considerar que a história da humanidade é a história da universalização progressiva da condição de proprietário de si. Se as primeiras formas da propriedade se apresentavam de maneira excludente e dependente de outras condições (a de ser cidadão, a de ser pessoa), a modernidade instaura uma primeira universalidade ao estender a condição de ser sujeito de direito à condição de humano. Logo, tornar-se proprietário de si foi uma extensão deste sujeito definido por seus direitos, e o que será posto em disputa não será a condição de proprietário, mas sim os limites e potestades de tal propriedade.

Isso não supõe que o corpo tenha entrado explicitamente na categoria de coisa apropriável. Tanto Baud (1993) quanto Espósito (2016) mostram que o corpo permaneceu alheio tanto a condição de pessoa como a de coisa. Se o corpo tivesse entrado naturalmente na condição de coisa apropriável, se se tivesse definido sob os parâmetros do propius, expressão que dá origem à de propriedade, este poderia facilmente ter se afirmado por sua condição de não ser com-partilhado, declarando o caráter unitário de sua propriedade e afirmando o pertencimento exclusivo do indivíduo sobre a coisa, tal qual se incluía no termo latino originário. Do mesmo modo, se o corpo tivesse entrado na categoria de pessoa, então não se disputaria a sua condição de

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propriedade e, em todo caso, poderia outorgar-lhe o título de proprietário. No entanto, parece que o corpo em si não é suficiente para apresentar tais atribuições, e sua condição de tornar-se proprietário adquiriria as mesmas problemáticas que a de outorgar a condição de sujeito de direito a entes não-humanos. Embora no direito romano do corpo, como aponta Espósito, desde o plano normativo “no gozaba de ningún estatus jurídico propio ya que estaba en principio asimilado a la persona que lo encarnaba” (2016, p. 32), não é no corpo que se depositou a condição de “racional” do homem, que permite-lhe adquirir o título de pessoa ou, ao menos, de res-ponsável. O corpo, no caso, é como a infância do homem, que precisa de um adulto, de uma autoridade que assuma por ele a responsabilidade no que diz respeito ao mundo, segundo os termos apresentados por Hannah Arendt (1996). 1.3.2 O sentido da propriedade

A propriedade, de modo geral, é o que pertence a alguém ou que é próprio deste. Pelo menos desde Aristóteles, é possível identificar dois tipos de “propriedade”: por um lado aquele que denota a essência do sujeito, à qual se pode referir como “definição”; por outro, aquele que não denota a essência do sujeito, e para o qual o Estagirita reserva o nome de “propriedade” (Aristóteles, Política). Essa dualidade do termo mantém-se, podendo referir-se à propriedade de um objeto sob os dois sentidos: uma noção de propriedade como aquilo que remete à essência de algo, isso é, ao ser, suas particularidades, suas possibilidades (como, por exemplo: é uma propriedade dos corpos ocupar um lugar no espaço); e outra acepção onde o termo propriedade refere-se àquilo que, sem ser parte da essência de algo, foi adquirido por este e tal aquisição lhe outorgou direitos sobre a coisa. Já não se trata do ser, não remete à essência de uma coisa, mas sim a um “ter” ou possuir algo, possessão que dá ao proprietário certos direitos. Os direitos de propriedade serão, então, os direitos de dispor de um bem sem mais limitações do que aquelas impostas pela lei. A perda desta propriedade não afeta, em princípio e diferentemente da outra concepção, nada da essência do proprietário. Segundo o exemplo dado, um corpo não segue sendo corpo se não ocupa um lugar no espaço, enquanto a propriedade de ocupar um lugar no espaço é constitutiva de tal definição do corpo. Este perde sua concepção de tal ao perder dita propriedade. Contudo, um homem que possui riquezas não perde a sua condição de homem ao perder as

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riquezas, pois a propriedade, neste caso, não afeta nenhuma essência do sujeito que a porta, e se apresenta apenas como um anexo.

A distinção comporta, por um lado, a propriedade como um elemento intrínseco e, por outro, um elemento que se objetiva e distancia do proprietário da coisa, mantendo uma lacuna entre ambos, e onde poderá exercer um direito sobre esses objetos que se definem como propriedade. Dá-se conta, assim, de uma oposição que se estabelece com o termo propriedade: de um lado, o ser; do outro, o ter. Esta oposição incluirá, deste modo, outra: aquela entre sujeito (ser) e objeto (ter).

Embora não seja o tema dessa pesquisa remeter-se à essência do homem como ser dotado da propriedade do corpo, observamos que a primeira acepção do termo mostra a origem metafísica da definição de propriedade, ao referir-se a algo a princípio intangível. Isso que é próprio de algo e constitui sua essência não existe por si, fora desse algo que o detém. O ocupar um lugar no espaço (a extensão) não existe se não em um corpo. Esta via de análise deveria considerar as relações que se estabelecem entre propriedade e identidade, especialmente relevante quando se trata de pensar a relação entre o indivíduo e seu corpo. Para isso, convém lembrar com Milner que “dos seres no distinguidos por ninguna propiedad cuentan como Uno; y dos seres que cuentan como dos deben tener al menos una propiedad disemejante” (1999, p. 34). Aqui, o corpo não será uma propriedade do individuo em termos jurídicos, ou em termos de aquisição de um patrimônio, mas sim em termos de identidade do ser. O corpo é o que faz que dois seres não contem como Um, mas, ao mesmo tempo, faz com que esses dois seres contem, pelo corpo, como Um. Pelo corpo contam como um (o corpo como propriedade individual) e como Um (a propriedade do corpo do sujeito).

Contudo, quando consideramos, neste trabalho, a propriedade do corpo no que diz respeito ao indivíduo, será para indagar esse nexo que a modernidade afirma sobre o ter mais do que sobre o ser. Na base desta condição de “ter” uma propriedade, se encontrará a possessão primaria da própria pessoa. A referência emerge especialmente com John Locke que, com seu Segundo Tratado sobre el Gobierno Civil, configura na última década do século XVII um dos principais antecedentes das discussões modernas sobre a justificação da propriedade privada. Com Locke, afirma-se que a pessoa é algo que se tem. O homem, definido como o proprietário de sua pessoa, assim como “do trabalho de seu corpo e a obra de suas mãos”, estabelece o fundamento de toda e qualquer propriedade no homem a partir desta propriedade de si mesmo.

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Porém, entre a pessoa e si mesmo é possível estabelecer uma distância. Se, como dissemos, o termo pessoa remete a uma máscara que pousa sobre o sujeito, o mundo, cenário da humanidade, colocará aos homens frente a uma dualidade tal qual apareceria no teatro da Antiguidade. Uma máscara recobrirá os homens, em corpo e alma. Será sua condição de pessoa, tanto em seu sentido jurídico, mas inclusive além deste, que funcionará como imagem do sujeito. A pessoa, propriedade primária e condição de toda e qualquer propriedade, será essa imagem do sujeito que permitirá apropriar-se do mundo. Uma propriedade que lhe permitirá ter outras propriedades.

Neste trabalho não realizamos uma análise a partir do ponto de vista jurídico da ideia de propriedade do corpo. Apesar disso, nos remeteremos à forma propriedade tal qual esta se expressa no modo de produção capitalista, onde a proliferação de relações de propriedade forma parte de uma primazia do ter sobre o ser, que caracterizou a cultura ocidental (moderna).

Sob um modo de produção capitalista, a expressão jurídica das relações de produção existentes define-se como relações de propriedade (as mesmas relações que, segundo Marx, funcionaram como travas para o desenvolvimento das forças produtivas e deram lugar a uma época de revolução social) (cf. MARX, 2008). Cabe, portanto, um esclarecimento: o “direito de propriedade” é diferente da “relação de propriedade”. Essa distinção pode sustentar-se enquanto se considere a autonomia relativa que mantém a estrutura econômica (onde se efetuam as relações de propriedade) e a superestrutura jurídica e política (que dá lugar a um “direito” de propriedade). Evidentemente não se trata apenas de uma determinação em última instância da estrutura econômica, mas do mesmo modo de uma autonomia relativa desta no que diz respeito à superestrutura. Não são, pois, fenômenos que correm por vias independentes. É assim que se pode apontar uma identidade imediata da apropriação em sentido “econômico” e em sentido “jurídico”, onde esta segunda pode, inclusive, ser considerada como uma expressão da primeira (BALIBAR, 2010a, p. 248).

Como aponta Marx,

En cada época histórica la propiedad se ha desarrollado de modo distinto y bajo una serie de relaciones sociales totalmente diferentes. Por lo tanto, definir la propiedad burguesa no es otra cosa que exponer todas las relaciones sociales de

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la producción burguesa. Querer definir a la propiedad como una relación independiente, una categoría aparte y una idea abstracta y eterna, no es más que una ilusión metafísica o jurídica (MARX, 1987, p. 104).

Neste sentido, a análise que aqui apresentamos sobre a configuração de uma propriedade do corpo, faz parte dessa ideia de propriedade que funciona na intersecção entre a esfera econômica e a superestrutura jurídica, mas também política, filosófica, científica e ideológica. É por isso que começamos este trabalho de questionamento a partir de certos postulados que foram considerados como fundadores da modernidade. A evidência da existência a partir de cogito, a universalização da condição de sujeito de direito e a de proprietário, a configuração da força de trabalho como mercadoria, a emergência, finalmente, de um sujeito moderno, sujeito cartesiano, sujeito da ciência, mas também um sujeito definido no centro das tensões próprias de um modo de produção capitalista. É nessa articulação entre o modo econômico, a política, a filosofia e a ciência, que procuramos indagar um fenômeno especificamente moderno e que tomou um lugar dominante da cultura contemporânea: o fato de que o indivíduo se afirma como proprietário de seu corpo.

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2. “MEU CORPO”, O INDIVÍDUO, A PROPRIEDADE A afirmação da propriedade do corpo põe em jogo a questão do sujeito. A pergunta sobre a qual se estrutura esta questão se enuncia: qual é a relação entre corpo e sujeito? Sem pretender resolvê-la, este trabalho se propõe indagar a respeito da definição do sujeito moderno a partir do deslocamento que se afirma ao enunciar o corpo como uma propriedade. Se supusermos que entre corpo e sujeito existe uma “relação”, é porque ambos não se sobrepõem. Contudo, ao tratar-se da afirmação pela “propriedade do corpo”, então a questão passará, em grande medida, por um nível imaginário. A pergunta já não será, então, qual é a relação entre corpo e sujeito, mas sim: qual é a relação entre o indivíduo e seu corpo? As diferenças entre essas interrogações são, pelo menos, duas. Em primeiro lugar, a substituição da noção de “sujeito” por “indivíduo”, isso é, o ingresso a uma dimensão egoica onde o “eu” anuncia-se como portador da palavra. Em segundo lugar, a inclusão de um possessivo. O corpo é “seu” corpo, é um corpo que lhe pertence e que, diferentemente de outros, lhe é próprio a um indivíduo. O ingresso a esta dimensão imaginária requer de ambos componentes: a afirmação de um indivíduo que diz “eu” e que, tal como diz “eu”, diz “meu corpo”; e a definição de um corpo que se objetiva sob a afirmação de seu caráter de propriedade.

2.1 COGITO, O SUJEITO MODERNO

A afirmação de uma propriedade estabelece uma separação. Dizer “é meu” supõe, no mesmo enunciado, a existência de um “proprietário” e a existência de um “objeto” de propriedade. Há, por um lado, um sujeito que enuncia, e há, pelo outro, um objeto apropriado. Porém quando a questão passa por afirmar a propriedade do corpo, a distinção se instala no próprio sujeito. Dizer “meu corpo”, “meu corpo é meu” ou “tenho um corpo” são formas de estabelecer uma separação que não é, como a de qualquer outra propriedade, entre um proprietário e o mundo, mas que se encontra incluída na estrutura do sujeito e, ao mesmo tempo, o constitui.

O fato de afirmar um corpo como “meu” não supõe unicamente uma questão jurídica. Trata-se de considerar que a afirmação põe em jogo uma metafísica que tende a deslocar ao ego fora do corpo, ao mesmo tempo em que este adquire consistência em sua mera positividade física. O fato de que a questão da propriedade do corpo

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tenha cobrado força no cenário moderno supõe considerar um conjunto de elementos a partir dos quais esta afirmação pode enunciar-se como tal. Se se trata da propriedade da pessoa, a figura de John Locke parece, em principio, inescapável. A teoria política do individualismo possessivo, tal como pode se atribuir a Macpherson (2005), mostra que o cenário do liberalismo foi chave para a definição de um indivíduo que se estrutura sobre a condição de proprietário e, especificamente, de proprietário de si. Entre esta condição de proprietário de si e a propriedade da força de trabalho como forma fundamental da possessão de si mesmo, se observam solidariedades notáveis. Contudo, não resulta menor que esta afirmação da propriedade de si mesmo, na qual o corpo se apresenta inclusive como fundamento da propriedade, se tenha desenvolvido em continuidade com o cenário econômico, político, social, cultural e filosófico no qual, com Descartes, de define um corte. Trata-se de um novo começo à filosofia, à ciência e à questão da verdade, e trata-se também de um novo começo a partir do qual se estrutura a noção de sujeito. Não obstante, ainda quando Descartes possa situar-se no corte que inaugura o moderno, a bibliografia sobre a configuração do corpo como propriedade não parece remeter-se a esta figura mais do que tangencialmente (cf. por exemplo: LIARTE, 2015; MARZANO, 2002; SINTOMER, 2001; SCOTT, 1982, ARNOUX, 2003; dentre outros).

O sujeito cartesiano, que as teorias ad usum imputadas a Descartes reduzem a um dualismo corpo-mente, não foi observado como uma ruptura significativa para compreender esta forma de apropriação do sujeito. A ideia de corpo como propriedade foi questionada desde diferentes perspectivas (jurídica, sociológica, psicológica, filosófica) sem colocar Descartes como uma figura decisiva para determinar uma divisão do sujeito que dirá ter um corpo. De qualquer forma, o pensamento liberal parece funcionar como o ponto de origem de uma questão que, além de seu componente político, econômico ou inclusive jurídico é, antes de tudo, uma questão que remete ao sujeito.

Por isso propomo-nos indagar em torno à configuração desse sujeito que, a partir de Descartes, contará com certas condições de possibilidade que lhe permitirão enunciar ao seu corpo como uma propriedade. Partiremos do seguinte teorema: “hay entre el mundo antiguo y el universo moderno un corte” (MILNER, 1996, p. 40). Se nos guiarmos pela leitura de Jean-Claude Milner, é justamos a partir desse corte que se define o sujeito moderno. Suprimidas as continuidades, o moderno se estrutura sobre outras categorias que aquelas que

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estruturavam o mundo antigo. Assim havia enunciado Kojève, quem colocaria a procedência deste corte do lado do cristianismo (“la ciencia moderna nació de una oposición consciente y voluntaria a la ciencia pagana (…) constatando de ello que tal oposición apareció solo en el mundo cristiano”, Kojève, s/d, p. 5). Se ele se conjuga com a posição de Koyré, para quem a ciência moderna é a ciência galileana, que ao matematizar seu objeto o retira de suas qualidades sensíveis (cf. MILNER, 1996), obteremos que o corte se sucede entre a episteme antiga e a ciência moderna8. Seguindo o percorrido realizado por Milner,

vemos que Lacan (1966) completará a fórmula e estabelecerá uma relação bicondicional entre o moderno e a ciência galileana. O lema de Lacan será o seguinte: “todo lo que es moderno es sincrónico con la ciencia galileana, y sólo es moderno lo que es sincrónico con la ciencia galileana” (MILNER, 1996, p. 40).

Esta sincronia entre o moderno e a ciência galileana (que considera o objeto para além de suas qualidades sensíveis) será fundamental para determinar que Descartes se apresenta não só como o primeiro filósofo moderno, mas também como a figura que conceberá ao sujeito sob esses parâmetros. Temos, por um lado, que o moderno se funda como tal a partir de uma ruptura. Esta ruptura estará dada por uma condição epistêmica: retirar o objeto de suas qualidades sensíveis, ou seja, não supor que o objeto possa delimitar-se por uma dimensão puramente imaginária. Se um sujeito pode, portanto, ser definido como “moderno”, então haverá que remeter-se a um sujeito concebido não a partir de suas qualidades sensíveis, mas precisamente prescindindo destas. É aqui onde Descartes aparece como uma figura central, na medida em que define um sujeito que não precisa do que Milner (1996) chama de “marcas qualitativas da individualidade empírica”. Só a partir deste a priori de toda qualidade empírica será possível estabelecer uma correspondência entre o sujeito cartesiano, o sujeito da ciência e o sujeito moderno. O sujeito cartesiano, ou seja, esse sujeito que, como veremos na continuidade, Descartes funda a partir do Cogito, coincide com o sujeito da ciência moderna, galileana, enquanto trata-se de um 8 Daí deriva, como dirá Milner em outro de seus textos, que, se a ciência galileana dissolve as qualidades sensíveis, e se os objetos são só tais como “pacotes de qualidades”, então dissolver estas qualidades “es disolver los objetos; disolver los objetos es inscribirse en la estructura del saber absoluto y apartarse del saber relacional. Una de las diferencias entre la episteme antigua y la ciencia galileana puede ser entendida así: la episteme antigua es 'saber de' (de la physis, del número, del cosmos, etc.); la ciencia galileana es saber.” (MILNER, 2008, p. 57-58).

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sujeito sem qualidades sensíveis. Cindido de toda qualidade, o sujeito que aparece com Descartes é a própria figura do sujeito moderno.

Contudo, a expressão “sujeito cartesiano” requer, ao menos, duas precisões. Se se pode afirmar que em Descartes o sujeito é sem qualidades (tal como a fórmula que sintetiza Milner através de Lacan), é porque se refere ao momento do Cogito e ali se detém. Ou seja, trata-se de um sujeito que não está definido por atributos empíricos, sejam estes psíquicos ou somáticos. Tampouco está definido pelas propriedades qualitativas da alma. Embora estes aspectos possam ser deduzidos a

posteriori em Descartas (e além de Descartes), dizemos que o sujeito

moderno é o sujeito cartesiano enquanto este se remete estritamente ao

Cogito, entendendo como instância que supera todas as formas de

reflexividade e consciência, ou seja, que excede todas as formas de representações imaginárias do eu. É aqui onde o caráter universal cobrará sua maior força, é aqui onde o moderno se funda. O sujeito moderno é o sujeito que se define ali onde se pensa, como diz Milner (1996, p. 111) “aun cuando es imposible que el sujeto articule entonces 'luego yo soy' (…); es necesario y suficiente para ello que el sujeto no sea más que lo que incesantemente emerge y desaparece en una cadena significante”. Detendo a operação no Cogito, o sujeito se define e se suspende com independência das qualidades sensíveis, ou seja, como sujeito propriamente moderno como sincrônico da ciência galileana (lema de Lacan).

Este Cogito (sem qualidades) funciona para Descartes como a prova de existência9. Pouco importa, para provar sua existência, seu

caráter de verdadeiro ou de falso. Também é indiferente se é empírico ou não, racional ou absurdo, se o sonho o engana ou há loucura. As

Meditaciones de Descartes10, como experiência de pensamento, em suas

9 Podemos dizer, hipoteticamente, que se trata de uma prova que procura dar substância a uma das suposições sobre a que se estabelece o materialismo linguístico, a saber, que “hay”, “gesto de corte sin el cual no hay nada que haya” (MILNER, 1999, p. 9).

10 As referências às obras de Descartes se realizarão utilizando a primeira palavra do título da obra em cursiva: Meditaciones para “Meditaciones metafísicas”, Principios para “Los principios de filosofía”, Reglas para “Reglas para la dirección del espíritu”, Discurso para “Discurso del método”,

Investigación para “Investigación de la verdad por la luz natural”, etc. Para o

caso das referências em francês e latim, se seguirá a edição de Adam e Tannery, indicada com AT seguida do tomo e número da página correspondente. Devido ao fato de que a maioria das obras referenciadas estão em espanhol, os títulos se manterão neste idioma.

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afirmações e negações, levam à conclusão de que “eu sou, eu existo”, e esta afirmação não se baseia em outra coisa que não seja o pensamento, no Cogito. É a primeira operação na qual, a partir do Cogito, cogitando, se afirma uma existência, uma primeira verdade que funcionará como ponto de Arquimedes, base para sustentar todo e qualquer argumento futuro. Assim, afirma Descartes em seus Principios de Filosofia:

no podemos dudar que existimos mientras dudamos; y esto es lo primero que conocemos, filosofando con método. Ahora bien: rechazando de tal manera todo aquello de que podamos dudar, y aun imaginándolo falso, suponemos fácilmente por cierto que no hay Dios, ni cielo, ni cuerpos; y que aun nosotros mismos no tenemos manos, ni pies, ni, por último, cuerpo alguno; mas no por eso nosotros, que pensamos tales cosas, nada somos, pues repugna juzgar que lo que piensa, en ese mismo instante que piensa, no existe. Y por ende el primer y más cierto conocimiento que se ofrece al que filosofa con método es éste: pienso,

luego existo11 (DESCARTES, Principios, p. 9, grifos do autor).

Nos termos de Lacan (1966), o pensamento, enquanto funciona como causa (cogito ergo) funda o sujeito, mas o faz apenas na medida em que se enosa na palavra. Não é, portanto, nem um indivíduo biológico, nem uma evolução psicológica. Não é um sujeito que se defina por uma articulação entre corpo e alma, pelas qualidades desta articulação, ou pelos atributos das substâncias12. O sujeito é tal na

medida em que é efeito do Cogito. Ou seja, “si existe pensar, existe algún sujeto” (LACAN, 1966), e basta apenas com o “pensar” (Cogito) para que possa afirmar-se a existência do sujeito. É pelo fato de pensar, 11 A tradução “penso, logo existo” é problemática (cf. BALIBAR, 2011, p. 87-119). Neste caso, o original em latim expressa “ego cogito, ergo sum” (grifado) (AT, VIII, 7).

12 Segundo indica Descartes nos Principios de Filosofia, por substância “no podemos entender ninguna otra cosa sino la que existe de tal manera que no necesita de ninguna otra para existir” (Principios, p. 26). Embora imediatamente sinalize que apenas Deus é a substância que não necessita em absoluto de nenhuma outra, esclarece na continuação que convêm o nome da substância à corpórea e à pensante, enquanto “son cosas que sólo necesitan del concurso de Dios para existir” (Principios, p. 26).

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