UNIJUI – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
DHE – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADE E EDUCAÇÃO
CURSO DE PEDAGOGIA
O TECER DA DOCÊNCIA: MEMÓRIAS DE PROFESSORA
Acadêmica: Patrícia Simara Kerber Orientadora: Profª Ms. Lídia Inês Allebrandt
IJUÍ/RS
PATRÍCIA SIMARA KERBER
O TECER DA DOCÊNCIA: MEMÓRIAS DE PROFESSORA
Monografia apresentada pela acadêmica Patrícia Simara Kerber como exigência do curso de graduação em Pedagogia da Universidade Regional
do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – Unijuí, sob a orientação da professora Ms. Lídia Inês
Allebrandt.
IJUÍ/RS
Aprovada em:
BANCA EXAMINADORA
_________________________________________________ Lídia Inês Allebrandt
Mestre em Educação
__________________________________________________ Priscilla Lucena Vianna Dias
Mestre em Educação
AGRADECIMENTOS
Neste momento de agradecer as lágrimas tomam conta de meu rosto, pois foram tantas as pessoas que participaram e me ajudaram nesta minha caminhada de constituir-se professora. No entanto, há algumas pessoas que são extremamente especiais e que participaram da minha história de vida e tecem esta história comigo e estão presentes neste trabalho.
Primeiro quero agradecer imensamente aos meus pais que foram meus primeiros mestres, pelos valores que me ensinaram que contribuem na constituição da pessoa que sou. Pelo amor e suor de seu trabalho que dedicaram a mim, sem eles seria impossível estar redigindo essas palavras...
Agradecer aos professores que tive e que de fato foram professores, pois lembro e me espelho neles até hoje....
Ao meu namorado, companheiro de todas as horas, que sempre me incentivou a acreditar e ir em busca dos meus sonhos, depositando toda confiança em mim...
Às minhas amigas Géssica Hermes, Aline Kehl e Estéfani Bruxel Vione, em especial a Géssica Hermes, que conheci na universidade, companheiras de tantos trabalhos feitos juntos, conversas jogadas fora, e minha segunda família, pois quando estamos longe de casa, os amigos se tornam nossa família.
À professora Lídia Allebrandt, que orientou-me neste trabalho, pela sua sabedoria e paciência, sabedoria em suas palavras ao orientar-me na escrita e paciência por ouvir minhas angústias, e os medos que me afligiam.
É a paixão pelo homem que faz o educador. Mario Osorio Marques
RESUMO
Este trabalho apresenta estudo monográfico intitulado O Tecer da Docência: memórias de professora, por meio do qual narro como fui me constituindo professora. Busco nas experiências vividas desde a infância até o presente momento na universidade evidenciar o processo identitário pessoal e, principalmente, profissional forjado por muitas histórias, convívio com a família, amigos, professores, colegas de aula e de trabalho, especialmente a convivência com as crianças; estudos teóricos e práticas pedagógicas desenvolvidas nos estágios curriculares, bem como no trabalho como professora nos anos iniciais e na educação infantil. Experiências marcadas pela reflexão da prática educativa e concepções teóricas, pelas indagações e angústias, as quais agregaram valor ao meu fazer docente permeado pela pesquisa e escrita que possibilitam saberes docentes. Para compreender este processo dialogo com educadores, que concebem o professor como: aquele que propicia uma ação dialógica com os sujeitos que participam de sua prática educativa, reconhecendo que ao ensinar também aprende. O professor não transfere conhecimento nenhum aos educandos, todavia pela mediação pedagógica, possibilita que este construa seu próprio conhecimento, tendo como referência sua experiência e o contexto social, cultural e político. Aprendi que a educação é processo de humanização do sujeito, o qual não se dá apenas na escola e nem é tarefa apenas do professor, mas da sociedade em geral; bem como que a educação formal tem compromisso com a construção dos conhecimentos universais, sendo o professor responsável pela organização do ensino que gere aprendizagens. Concluo este estudo afirmando que narrar minhas experiências de vida e minha trajetória de formação profissional docente oportunizou-me perceber o significado de refletir sobre a formação docente, compreender que a constituição pessoal e profissional se tecem na interação com os demais sujeitos, por meio da socialização de experiências, diálogo com os conhecimentos e o contexto gerando articular teoria e prática que propicia a práxis educativa.
Palavras-chaves: Identidade Pessoal e Profissional; Experiência Docente; Formação
Sumário
1. INTRODUÇÃO ... 8
2. UM POUCO DA HISTÓRIA DO SURGIMENTO DA PROFISSÃO DE PROFESSOR/A ... 10
2.1 Escolhas Metodológicas ... 15
3.MEMÓRIAS DA CONSTITUIÇÃO PESSOAL E PROFISSIONAL ... 16
3.1 O Curso Normal: um começo na formação profissional ... 19
3.2 A formação universitária: momento de aprofundar conhecimentos e ressignificar práticas ... 21
3.3 Exercício da profissão em escola da educação básica e como estagiária em escola de educação infantil e a formação em serviço pela via do PNAIC ... 27
3.4 Complementação da formação universitária: a experiências de ser bolsista do PIBID-Subprojeto Pedagogia ... 29
5. CONCLUSÃO ... 30
1. INTRODUÇÃO
Refletindo sobre o processo de iniciação à docência na contemporaneidade, trago neste estudo monográfico minhas memórias de vida e constituição docente tomando-as como referência do estudo.
De um modo geral, na maioria das vezes pensamos a formação docente, no âmbito apenas de formar-se professor, no entanto, é importante rememorarmos um pouco sobre nossa vida, nossas concepções, nossa infância, buscando destacar fatos importantes que constituem nossa identidade pessoal e profissional. O lugar de saber que as experiências emergem no pensar a formação de professor.
A origem desta pesquisa, está relacionada a minha história pessoal e profissional, respondendo algumas de minhas indagações acerca de como me constituí e me constituo professora. O que me fez pensar na profissão docente? Quais os aspectos relevantes que contribuem na minha constituição docente? Ser professor ou apenas mais um professor? Todas indagações que me levaram a pensar o processo de formação docente.
No primeiro capítulo, trago alguns aportes teóricos a respeito da história e do surgimento da profissão docente. Destacando o quando e como deu-se o início da profissão, e as leis que regulamentam o direito que temos à educação. Enfocando ideias de pensadores como Marques, Nóvoa, e Freire.
No segundo capítulo, realizo relato e análise de minhas memórias da constituição pessoal e profissional. Em que relembro minha infância, as brincadeiras que praticava, os valores ensinados por meus pais, aspectos que contribuíram na escolha profissional. Minhas memórias contextualizam o meu fazer docente.
Considero também a opção por escolher o Curso Normal, o qual deu início à jornada no tornar-me professora. Os aprendizados que constitui, as primeiras dificuldades encontradas e o despertar da paixão em tecer-me professora.
Dou continuidade à minha escrita narrando o encantamento de estar na universidade, o que ela nos possibilita, as oportunidades que temos enquanto universitários. Destaco, ainda, elementos importantes da base do curso de Pedagogia, os aprendizados no decorrer dos componentes curriculares, as práticas desenvolvidas, as oportunidades de experienciar à docência, fazendo relações entre teoria e prática, na perspectiva de pensar a prática educativa. Concluo afirmando que pensar a formação docente através de minhas memórias e experiências, me faz pensa-las como possibilidade de saber. Minhas inquietudes me fizeram ir
além, me levaram à pesquisa, às analises e registros, os quais conduziram-me no tecer da docência. Não esquecendo que, a educação é um ato de amor e comprometimento, por isso, àqueles que conseguem compreende-la é que se constituem professores de fato.
2. UM POUCO DA HISTÓRIA DO SURGIMENTO DA PROFISSÃO DE
PROFESSOR/A
A distinção entre os que pensam e decidem sobre a educação, sem por isso se qualificarem como educadores, e os que a executam servilmente em práticas mecânicas relegou historicamente a um plano secundário as competências e, consequentemente, a formação do educador. (MARQUES,1990, p.54)
Diante de leituras e estudos é possível compreendermos que a profissão docente e a história da educação passaram por diversos momentos, é válido relembrarmos que no passado a Igreja era responsável pelos modelos escolares, onde no Brasil, os sacerdotes jesuítas tinham destinada a missão de ensinar, e posteriormente, esta responsabilidade é passada ao Estado, que substituiu por professores laicos os professores religiosos.
De acordo com Mário Osório Marques (2000), na história da educação é admirável saber que a maioria dos inovadores da Pedagogia foram de outras áreas que não a educação e, também, que não foram educadores de ofício.
Nas palavras de Nóvoa (2014, p.15), “a gênese da profissão de professor tem lugar no seio de algumas congregações religiosas, que se transformam em verdadeiras congregações docentes.” Para ele, a função docente iniciou-se de modo secundário não sendo especializada e, mais tarde, passa a ser uma profissão de fato, uma vez que com a intervenção do Estado, só seria possível ensinar, possuindo uma licença ou autorização do Estado, a qual pode ser considerada um processo decisivo na profissionalização da atividade docente.
Quanto ao surgimento da profissão docente aqui no Brasil, esta data de 15 de outubro de 1827, quando foi assinado um decreto imperial de D. Pedro I que dizia que todos os lugares/vilas deveriam ter suas escolas e, consequentemente, está fica sendo a data em que é comemorado o Dia do Professor, a qual foi oficializada apenas no ano de 1963.
Neste período de Império, sabemos que apenas as famílias ricas tinham acesso à educação, podendo contratar professores particulares para que ensinassem seus filhos (meninos), pois eram eles que “precisavam ser educados”, desta forma as meninas eram excluídas. Porém, a partir dos anos 30 com a implantação do ensino público gratuito, mais crianças e jovens puderam ser atendidos, sendo que o poder público tornou-se responsável pela
educação. Com isso, interiorizou-se os grupos escolares e se teve as primeiras escolas de formação superior em licenciaturas para os professores.
A Constituição Brasileira de 1988, em seu artigo 205, afirma que “a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. (Brasil,1988, p.34)
E conforme o artigo 206,será ministrada baseada nos princípios de:
I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições
públicas e privadas de ensino;
IV - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; V - valorização dos profissionais do ensino, garantido, na forma da lei, plano de carreira para o magistério público, com piso salarial profissional e ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, assegurado regime jurídico
único para todas as instituições mantidas pela União;
VI - gestão democrática do ensino público, na forma da lei; VII - garantia de padrão de qualidade. (BRASIL,1988, p.34)
Portanto, conforme a legislação, todos os brasileiros têm direito à educação gratuita e de qualidade. No entanto, vemos crianças e jovens que não aprendem e alguns destes abandonam a escola. Também penso quanto ao pluralismo de ideias e concepções pedagógicas, os quais ainda não estão presentes no cotidiano de alguns professores, que não estão abertos à novas ideias, à ouvirem opiniões diferentes, a dialogarem com seus colegas, àqueles professores que utilizam-se sempre dos mesmos métodos, mesmas concepções, como se todos fossem iguais, como se suas turmas fossem homogêneas.
Quanto à valorização profissional há discrepância salarial, os salários de professores variam muito em municípios e estados, quando comparados em nível federal. Embora haja um piso nacional, este não é garantido à todos os professores. E se compararmos o que ganha um professor com outras categorias vemos que o piso deveria ser mais elevado, oportunizando ao professor melhor rendimento para comprar livros, investir em cursos, enfim, qualificar sua formação. Com isso, percebe-se que a questão salarial acaba por gerar a necessidade de exercer a profissão em vários estabelecimentos, de modo que o rendimento mensal do professor seja melhor. Fato este que pode sobrecarrega-lo e comprometer sua prática docente.
Pensando no professor, que é responsável por organizar o processo de ensino e de aprendizagem dos estudantes, salientamos o que nos diz a Lei de Diretrizes e Bases 93/94 em seu artigo 62, ao se referir à formação deste profissional:
A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade Normal. (LDB,1994, p.22)
É válido ressaltarmos que esta é a formação mínima exigida em lei para que um professor possa atuar na área da educação, no entanto, não queremos e nem podemos pensar em um professor que, ao concluir a formação mínima exigida, pare por ai, um professor precisa estar sempre estudando, lendo, pesquisando, aperfeiçoando e ressignificando sua prática.
Gadotti (2011) defende a formação continuada e define a profissão de professor como:
Em sua essência, ser professor hoje não é nem mais difícil nem mais fácil do que era há algumas décadas atrás. É diferente. Diante da velocidade com que a informação se desloca, envelhece e morre, diante de um mundo em constante mudança, o papel do professor vem mudando, senão na essencial tarefa de educar, pelo menos na tarefa de ensinar, de conduzir a aprendizagem e na sua própria formação, que se tornou permanentemente necessária (GADOTTI, 2011, p.23)
Para Sacristán (apud Nóvoa,2014, p.71), “a profissão docente é uma semiprofissão” pois, de certo modo, depende de disposições político-administrativas, as quais ajustam o sistema educativo e também as condições do posto de trabalho. Desta forma, a profissão de professor foi “ganhando forma” à medida que se teve uma organização burocrática dentro dos sistemas escolares, tendo sua essência refletida nas condições que o meio possibilita. Os professores foram constituindo-se autônomos no momento em que começaram a estabelecer vínculos e relações com a burocracia que governa o sistema educativo, começaram a serem ouvidos e compreendidos.
O autor lembra que a profissão docente não empunha sozinha a responsabilidade sobre a atividade educativa, uma vez que temos autoridades políticas, econômicas e culturais que contribuem no processo educativo, de modo que, as tarefas educacionais sejam abraçadas por todos, numa ação conjunta de humanização dos sujeitos. A profissão docente se faz totalmente
partilhada e isso explica alguns conflitos existentes numa sociedade tão complexa, onde as significações divergem entre grupos sociais, culturais e econômicos.
Dada a complexidade do exercício da profissão, nos encontramos inúmeras vezes marcados pelos desassossegos que nos amedrontam e nos trazem incertezas sobre o ser professor. É como se não tivéssemos a tão desejada “luz no fim do túnel”, impedindo-nos de darmos o próximo passo. Sobretudo, isso acontece pois somos seres humanos, incompletos (como nos ensina Freire) e nossa prática está voltada irredutivelmente para humanos. Tudo que acontece dentro ou fora da escola, de algum modo adentra, afeta e interfere no dia-a-dia do professor.
Cabe lembrar que em seus escritos Freire (1996, p.22) afirma que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção. Nessa perspectiva, o professor é aquele que entra em uma sala de aula e sabe ouvir e dialogar com os sujeitos (aprendizes), propiciando a construção de conhecimento. Ele sabe que precisa ser autoridade, porém não autoritário.
Para o autor (1996, p.23) “quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender”. O que caracteriza a ação dialógica no processo educativo e da chamada partilha que Nóvoa enfatiza. Portanto, para que possamos ensinar, precisamos aprender e ao ensinar aprendemos o que ensinamos. Logo, ensinando e aprendendo é que pode pensar maneiras e métodos de ensinar/aprender e, assim, vamos nos constituindo professor.
Para um dos idealizadores do Curso de Pedagogia da UNIJUI, professor Mário Osório Marques (1995)
Ser professor significa exercer o domínio de seu específico campo e processo de trabalho, passo a passo e a qualquer momento, o que significa trabalhar com o rigor científico dos conhecimentos que faz seus e com os meios materiais e instrumentais de que se apropria na capacidade de elaborá-los ou de reconstruí-los segundo as exigências de sua proposta pedagógica. (MARQUES, 1995, p.118)
Para ele, a docência se configura em competência no momento que a prática avança por meio do discurso argumentativo e da reflexão pessoal, tornando-se, deste modo, práxis de vida. Em suas reflexões Marques (1995, p. 120, apud Marques, 1992:158-60)
Converte-se à docência no desafio de realizar na sala de aula o trânsito, ou melhor, a ruptura dos conceitos usuais para os que instrumentalizam a prática científica e destes para aqueles, no vai-e-vem da prática à teoria e da teoria à prática, processo de tradução/retradução.
Nóvoa (2014) chama a atenção para função dos professores a qual é definida pelas necessidades sociais, sendo que o sistema educativo deve dar resposta, que sejam justificadas e mediatizadas por meio da leitura técnica pedagógica.
Contudo, pensar a profissão de professor nos leva a percorrer inúmeros caminhos, é visível o melhoramento e aperfeiçoamento da profissão com o passar do tempo, tivemos muitos avanços, no entanto, ainda precisamos continuar progredindo em alguns aspectos, como por exemplo, na valorização do professor.
2.1 Escolhas Metodológicas
Ao pensar a profissão docente e o seu processo de formação, ponho-me a pensa-la por meio do método auto biográfico, que permite dar maior atenção aos processos da minha formação docente.
Nóvoa e Finger (2010) contribuem para o método auto biográfico articulando que em educação este método de pesquisa produz conhecimentos sobre a formação da pessoa, das aprendizagens que a mesma têm, das suas relações, seus modos de ser, de fazer e de biografar resistências e pertencimentos.
Assim sendo, a formação docente significada e compartilhada através da pesquisa auto biográfica, me orienta no tecer de meu estudo, é uma maneira de pensar e identificar na minha história de vida, o que de fato foi formador, havendo um respeito para com o meu processo de formação, me possibilitando o ir além nesta ação de verificação e compreensão do processo educativo e de formação.
Ao rememorar minhas lembranças de infância e minha trajetória escolar e acadêmica, assim como os valores que me foram ensinados, ponho-me em processo de investigação e consequentemente de formação, tanto pessoal como profissional, numa interlocução de saberes e aprendizagens.
Escrever sobre si, ou melhor, sobre mim, me permite olhar e ressignificar à docência de outra maneira, pois quando escrevo sobre minha própria história de vida e consigo a partir dai dialogar com alguns educadores e estudiosos, permito-me a minha formação, bem como, interpreto-a como um saber crítico no qual eu vou aprendendo a decifrar-me.
Por isso, busco pensar a formação docente e como ela se dá, a partir da auto biografia, que acredito ser a metodologia de pesquisa que se adequa àquilo que busco como resposta para minhas indagações do tecer-se professora.
3.MEMÓRIAS DA CONSTITUIÇÃO PESSOAL E PROFISSIONAL
A identidade não é um dado adquirido, não é uma propriedade, não é um produto. A identidade é um lugar de lutas e de conflitos, é um espaço de construção de maneiras de ser e de estar na profissão. Por isso, é mais adequado falar em processo identitário, realçando a mescla dinâmica que caracteriza a maneira como cada um se sente e se diz professor. (NÓVOA, 2007 p.16)
De acordo com Nóvoa, a identidade não é um dado adquirido, um produto, ao contrário, a identidade é um processo inacabado, que se configura a medida que, vamos estabelecendo relações sociais/culturais, as quais vão configurando nosso processo identitário.
Por isso, na busca de meu processo identitário como professora, voltei ao passado e analisei o presente, para, então, narrar experiências de como fui construindo minha identidade profissional que parte da identidade pessoal. É por meio de minhas experiências que me constitui e me constituo professora, também propicio o amadurecimento profissional e penso minha formação docente. Como cita Marques (1988) “A experiência é uma situação em que podemos dizer aos outros o que fizemos, o que aprendemos.” (Marques, 1988, p.51)
Sobre o conceito de experiência, Larrosa revela que
A experiência seria aquilo que nos passa. Não o que passa, senão o que nos passa. Um saber finito ligado ao amadurecimento de um indivíduo particular (...); saber que revela o homem singular e sua própria finitude (...); um saber particular subjetivo, relativo, pessoal. Ninguém pode evitar a experiência. Ninguém pode aprender da experiência de outrem a menos que essa seja de algum modo vivida (...); um saber que não se pode separar do indivíduo concreto no qual se encarna. Não está, como no conhecimento científico, fora de nós, senão que só tem sentido no modo pelo qual se configura uma personalidade, um caráter, uma sensibilidade ou, enfim, uma fórmula humana que é por sua vez ética e uma estética. (1996, p.136-141apud RUFINO, 2001, p.27)
Recordar minha infância, as brincadeiras, os amigos e os professores com os quais aprendi e convivi é algo que não existem palavras que possam explicar, pois é uma maneira de fazer um reencontro comigo mesma.
Contudo, lembro que desde criança, uma das brincadeiras que mais me interessavam era brincar de “aulinha”. No começo, brincava com alunos imaginários, no pátio de casa. Pegava
um caderno e um lápis e dava aula. Mais tarde, quando já tinha uns oito para nove anos, meus alunos já eram “verdadeiros” (minhas amigas), e, por vezes, até tínhamos classes e cadeiras para organizar nosso ambiente de sala de aula. Lembro-me bem que as atividades que constituíam o meu brincar de aulinha eram as mesmas passadas pela professora da escola. E que até chamada eu fazia, bem como a correção das atividades que passava, escrevendo com a caneta azul se tivesse certo e utilizando a vermelha se estivesse errado, pois era assim que minha professora fazia.
É impossível esquecer os momentos em que organizava a reunião como os pais, o momento da entrega de boletins e a conversa com cada pai e/ou mãe sobre o seu filho. Para este momento de reuniões, as minhas amigas, que eram minhas alunas, se transformavam em pais para participarem destas reuniões.
Hoje, memorando essas lembranças, percebo e entendo alguns conhecimentos construídos no curso de Pedagogia, de como nossa infância, nossas brincadeiras, contribuem para nosso processo identitário e escolha profissional. Além disso, quando penso na profissão de professor, já vou relembrando de todos os professores que tive e de algum modo valorizo aqueles que entendo serem bons professores, percebo o quanto nos espelhamos neles e de como são exemplo para nós.
Rufino (2001) contribui com essa ideia quando lembra que:
Têm na memória aqueles que forma significativos em suas vidas, aqueles bons em conteúdos mas não em didática, aqueles que contribuíram para sua formação humana, aqueles que sabiam lidar com questões de disciplina, aqueles que valorizavam os alunos, aqueles que levavam a sério a sua função. (RUFINO, 2001, p.48)
Rememorar minha infância, me faz repensar inúmeras coisas, mexe com meus sentimentos, me faz lembrar de coisas boas e ruins, no entanto, me faz sentir-se viva, me faz saber que meus sonhos, minhas brincadeiras que posso dizer que eram preferidas, hoje vão tornando-se realidade. E como sugere Dias, “as lembranças de infância são experiências significativas, algumas positivas outras nem tanto, que marcam as trajetórias e constituem identidades”. (Dias, 2014, p.24)
Sempre dizia que iria ser professora, porém essa escolha começou a concretizar-se no momento em que conclui o Ensino Fundamental e, na sequência, vinha o Ensino Médio. Daí as opções: continuar em casa com meus pais e fazer o Ensino Médio noturno, ou sair de casa e
fazer o Curso Normal? Optei pela segunda alternativa, e dei início à minha profissão de professora, a qual não me arrependo nenhum pouco.
Além de lembrar das brincadeiras de infância, que fazem parte da minha constituição identitária, acredito terem igual importância os valores que meus pais passaram a mim. Valores que carrego comigo, como humildade, simplicidade, honestidade, sinceridade, e que fazem parte da pessoa que sou. Ter a humildade de saber que posso sempre aprender algo novo com qualquer pessoa, não sendo ignorante de pensar que sei tudo, ser honesto e admitir quando sei ou não sobre algo, e simples na maneira de ser e agir com os outros, carregar comigo minhas raízes e orgulhar-se delas. Penso que a educação que recebi em casa, os valores que me foram ensinados, contribuem e constituem a pessoa e profissional que sou.
3.1 O Curso Normal: um começo na formação profissional
Quando iniciei o Curso Normal, tudo era muito novo e diferente. A escola, as pessoas, colegas, pois eu vinha do interior e lá escola era menor, as pessoas eram parecidas comigo na sua maneira de ser, de agir. Mas agora na cidade, tudo era um pouco diferente. No entanto, logo fui me familiarizando, as coisas começaram a melhorar, e eu fui me adaptando aos costumes da cidade e das pessoas.
Ao iniciar as primeiras aulas do Curso Normal, gostei, pois estava encantada com o que aprendia e a metodologia adotada pelas professoras era fantástica. As aulas me prendiam a atenção, tudo era muito bom, nem percebia o tempo passar. Também lembro-me a dedicação, a paixão com que as professoras mediavam suas aulas, era impossível não ficar fascinada e sonhar com o momento em que eu estaria exercendo a profissão como elas. Me imaginava no lugar delas.
É claro que não posso esquecer das primeiras dificuldades encontradas, que me apavoraram um pouco, mas não me fizeram desistir. As brigas entre alunos, xingamentos de alunos para seus professores, discussões, alunos com dificuldades de aprendizagens, entre outros. As primeiras vezes em que presenciei essas cenas, me retrai um pouco, e já começava a pensar, se realmente era isso que eu queria. Também lembrava-me muito de quando eu frequentava o Ensino Fundamental, de momentos em que essas mesmas cenas aconteciam, mas que na época eu, como aluna, nem percebia direito, mas que agora, olhando com um outro olhar, olhar de uma futura professora, me angustiava e me fazia pensar e repensar a prática educativa.
Nas palavras de Peres que evidencia os conflitos vividos:
O saber e o sabor de ir se fazendo professor(a) tem um tempero de mel e de fel, em que nossas dúvidas e incertezas deverão ser suficientes para nos colocar num lugar do suposto saber provisório. E, desse modo, vamos nos formando operantes e aprendizes do caminho a ser trilhado, juntamente com muitos outros. (PERES, apud OLIVEIRA, 2006, p.56)
Aprendi que o tecer da profissão docente tem diversos saberes e sabores, alguns que gostamos mais e outros nem tanto, mas penso que é assim que vamos trilhando nossa profissão, aprendendo, ensinando, acertando e errando. Tudo serve de aprendizagem, todos os saberes e sabores tem algo a contribuir no processo de formação, nos fazem refletir sobre todas as coisas que significam e afetam a arte de tornar-se professor.
O Curso Normal possibilitou-me o pensar diferente, fez com que me encantasse com a profissão e a abraçasse com muito fervor. Todas as aprendizagens e dificuldades me fizeram amadurecer, me fizeram refletir e pensar que tipo de professora eu seria. Seria querida? Chata? Ouviria meus alunos? Seria de fato uma professora ou apenas mais uma professora? Todos estes questionamentos borbulhavam em meus pensamentos, e faziam com que me dedicasse sempre mais, estudasse mais, aproveitando ao máximo tudo o que minha formação estava me propiciando.
Lembro-me de todas as observações, substituição de professor, e estágios realizados, eram nestes momentos que eu revivia todo o aprendido em sala de aula, todas as concepções, aprendizagens, dúvidas e angústias, era como se tudo aparecesse nestes momentos. Porém, o melhor de tudo, era que eu sabia o que podia fazer ou não, sabia de que maneira eu podia agir, o que eu podia pedir, como eu podia ajudar, e se tivesse alguma dúvida eu sempre estaria amparada por minhas professoras, que sempre estavam por perto quando precisávamos.
Nestes momentos de observações, substituições, estágios, é que me deparo e rememoro as professoras que tivemos, lembro de quando eu era a aluna e me ponho a pensar, e agora, que tipo de professora serei eu? É difícil explicar, como em segundos passam pela minha cabeça a lembrança das boas professoras que tive, de como me encantavam, e eu queria ser como elas, e agora, eu estava tendo a oportunidade de ser.
Eu ia me constituindo professora em todos estes momentos, e também nos momentos de escrita, em que eu registrava minhas experiências, contando tudo o que eu fizera, como fizera, se tinha dado certo ou não, se os alunos gostaram ou não, ia descrevendo tudo, colocando algumas falas significativas dos alunos, anotando seus questionamentos, suas dúvidas, tudo eu registrava. E, nesse momento de registrar, eu ia pensando no que escrevia, refletia e ressignificava minhas experiências, complementando-as através da leitura.
Para Marques, (2006)
Importa o fato de que, ao escrever, estou sob a mira de muitas leituras. Acho-me numa interlocução de muitas vozes que me agitam, conduzem, animam, perturbam. É isso que faz de meu escrever uma interlocução de muitas vozes, numa amplificação de perspectivas, abertura de novos horizontes, construção de saberes novos. (MARQUES, 2006, p.28)
Entretanto, partindo deste fazer docente que registra, que atribui significados, que pensa o processo educativo numa perspectiva reflexiva, me ponho a falar sobre a continuidade de minha formação docente, a escolha pelo Curso de Pedagogia.
3.2 A formação universitária: momento de aprofundar conhecimentos e
ressignificar práticas
Logo que conclui o Ensino Médio na modalidade de Curso Normal, comecei a pensar mais uma vez sobre minha escolha profissional, pois para mim, agora era a hora de decidir realmente se eu seguiria ou não a profissão. Ouvi muito a opinião de outras pessoas, que me diziam ser uma linda profissão, mas que não valia a pena, pois a valorização era pouca, e que eu deveria escolher algo que valesse a pena, que “ganhasse dinheiro”. Porém, não pensei muito, na verdade segui os conselhos de meus pais, que desde criança me diziam que eu deveria ser aquilo que eu queira, que eu gostasse, por isso, segui com minha escolha e comecei a cursar Pedagogia na Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ.
Ingressar na U NIJUÍ foi o segundo passo no processo de constituição do ser professora. O mundo universitário é mágico, porque possibilita inúmeras reflexões e conhecimentos, aponta diversos caminhos teóricos e metodológicos e nos auxilia na escolha do caminho mais adequado aos sujeitos e ao contexto social e histórico. Cria desejos e vontade de sermos educadores críticos, criativos e humanos.
Ao pensar a profissão docente, o que é ser professor, busco rememorar alguns conhecimentos aprendidos no Curso de Pedagogia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ/RS) que contribuíram na formação profissional.
O Projeto Político Pedagógico do curso de Pedagogia da UNIJUÍ busca formar docentes que conheçam a área de formação, ampliando habilidades e competências que se fazem necessárias para o desempenho profissional.
Segundo o PPP (2009),
O Curso compromete-se com a formação de um educador autônomo, criativo e solidariamente responsável, para uma ampla interlocução com vistas à construção de valores para o entendimento das práticas educativas, bem como para a organização e condução delas pela recorrência aos saberes necessários e ao enfrentamento dos desafios postos, pela sociedade atual. (PPP, 2009, p.4)
Propõe a formação de um profissional que seja capaz de fazer esta relação entre teoria e prática, que conheça os saberes necessários para sua atuação profissional, sendo sujeito autônomo, que ao mesmo tempo em que entende a complexidade da educação escolar, saiba lidar com cada especificidade dentro e fora do ambiente escolar. Ao acadêmicos são colocados
inúmeros desafios que os façam pensar, analisar, propor alternativas, arquitetando sua imagem profissional diante da sociedade.
A Pedagogia organiza-se como uma área de conhecimento que busca pensar acerca da problemática educativa considerando sua totalidade e historicidade, a mesma orienta a ação educativa e sua contextualização, além de se preocupar com os métodos de ensino, modos de ensinar, e processos educativos. Seu objetivo principal é a formação humana.
Ela é entendida como uma teoria da educação, enfocando todas as áreas do conhecimento, tendo uma prática incontroversa na orientação da prática educativa. No entanto, devemos considerar que a Pedagogia, além de se constituir com um aspecto transdisciplinar, também valoriza as distintas formas de expressão e conhecimento.
Segundo Franco (2003), compete à pedagogia,
[...] o senso comum pedagógico, a arte intuitiva presente na práxis, em atos científicos, sob a luz de valores educacionais, garantidos como relevantes socialmente, em uma comunidade social. Seu campo de conhecimentos será formado pela intersecção entre os saberes interrogantes das práticas, os saberes dialogantes das intencionalidades da práxis e os saberes que respondem às indagações reflexivas formuladas por essas práxis. (FRANCO,2003, p.85)
A pedagogia é, também, um campo prático de conhecimento, sendo mediada pela ética e pela política, constituindo-se de diferentes formas e áreas de conhecimentos. É, pois, partindo da ética e da política que a mesma relaciona e profere os saberes científicos, os saberes da experiência, do senso comum pedagógico, atribuindo uma análise filosófica.
Vários autores, como Freire e Marques, defendem uma pedagogia em que o professor seja o mediador do processo socioeducativo capaz de contribuir na formação crítica relacionada à realidade social vivida e aos conhecimentos sistematizados e significativos para a vida em sociedade. A mera transmissão de conteúdo e memorização dos mesmos, assim como, tarefas repetitivas que não trazem nenhum significado, não fazem parte desse processo educativo, cujas práticas pedagógicas relacionam-se à realidade dos sujeitos, valorizam os saberes, as práticas, as experiências, os conhecimentos trazidos por ele, num movimento de diálogo com os conhecimentos sistematizados pelas diversas área, na perspectiva de analisá-los e reconstruí-los em contexto.
Vivemos em uma sociedade onde as informações, as descobertas, as tecnologias acontecem e aprimoram-se em questão de minutos, por isso pautamos o processo de desenvolvimento da escola, que possibilite uma nova prática educacional, que considere os atuantes que conduzem o ambiente escolar, que tenham o ensino e a aprendizagem como
aspectos primordiais na transformação. Vimos que a escola da contemporaneidade acaba sofrendo com esse desenvolvimento acelerado, pois, de certa forma, acaba desgastando o aprimoramento do ensino, que precisa ser diariamente modificado, repensado, para que não se torne algo de pouca relevância, desgastante e não prazeroso ou desafiador ao aluno.
É necessário que o professor usufrua da pedagogia todos os dias, porque ele precisa repensar suas práticas educativas, transformá-las de modo que instigue os alunos, onde os mesmos sejam sujeitos da sua própria formação e o professor o mediador desse processo. O aluno precisa ver a escola como aquela que aprimore o seu conhecimento intelectual, e não como uma obrigação a ser cumprida diariamente e por muitos anos.
Ao ingressar na Universidade é visível o amadurecimento pessoal e também profissional, pois neste ambiente estamos rodeados de pessoas e profissionais que compreendem aquilo que queremos, que nos ensinam, que nos sugerem, que dialogam, que são sábios em suas palavras e só vem a somar em nosso aprendizado.
Pensar que se constroem inúmeras amizades, e que as mesmas se iniciam primeiramente pela via do conhecimento, pois formam-se grupos de estudos, de trabalhos e pesquisa, e através destes grupos é que vamos estabelecendo relações, percebendo afinidades e criando vínculos de amizades com nossos pares, e consequentemente, conhecendo e criando vínculos com os pares de nossos pares, assim se constroem amizades.
Amizades estas que levamos para a vida toda, amigos de curso, de trabalho, de estudos, enfim, amigos que lembramos sempre, os quais passam em diversos momentos a ser nossa segunda família, pois quando se está longe de casa, são eles que temos ao nosso lado quando precisamos.
Percebi que na universidade alguns conceitos e concepções aprendidos e trazidos do Curso Normal são aprofundados e alguns reorganizados e ressignificados, as bases teóricas são mais aprofundadas. No Curso Normal, eu “aprendi a ser professora”, mas na Pedagogia estudo e percebo que o campo de atuação de um pedagogo é enorme, são muitas as possibilidades de trabalho, tanto na área da educação como fora dela. Por isso, acredito ser válido relembrar algumas concepções aprendidas no curso.
As palavras de Rufino (2001) fazem sentido para mim, então faço de suas indagações as minhas indagações,
A formação inicial de magistério tinha colocado em mim a vontade de ser professora. A vontade não é fixa e pode ir embora nas primeiras dificuldades. Então, haveriam necessidades, desejos? Estes são mais permanentes. O curso de Pedagogia acrescentava pensamento crítico frente às realidades do mundo da vida. O que me sustentou? A prática de aprender a ensinar que vem se constituindo? A competência
que se construía? O meu jeito de ser? Os projetos da escola? Os outros que circulam meu fazer? Ou isso, ou aquilo, ou tudo isso? (RUFINO,2001, p.22)
O Curso de Pedagogia ocupa-se da formação participada, atendendo prioritariamente as dimensões profissional, conceitual e política, no sentido de que o pedagogo possa atuar de forma fundamentada e engajada. Diante disto, concebemos uma proposta curricular que privilegia componentes curriculares que, acredita-se, dão conta destas dimensões. Eles não se apresentam separadamente, mas são concebidos articulados, integrados ao longo do curso, por se entender ser necessária a superação da histórica sequência que inicia com os fundamentos teóricos para posteriormente abordar os componentes curriculares práticos. Entende-se que há necessidade de ampliar as formas mediadoras de formação, fazendo-se uma pedagogia comunicativa, interativa, enfatizando a perspectiva histórica e concebendo a educação e a cultura de forma articulada com o organismo social. Busca-se uma formação que considere os avanços, descentralize os debates - excessivamente acadêmicos - para uma perspectiva mais dialógica e capaz de usufruir dos recursos da tecnologia na educação. (PPP, 2009, p.7)
Os componentes curriculares do curso foram vários, mas busco destacar alguns que se fazem de extrema importância na formação de um pedagogo/(a). A gestão escolar, a educação infantil, os anos iniciais, a educação de jovens e adultos e a educação em espaços não escolares foram teorizados, discutido, analisados e vivenciados por meio da realização de estágios ou práticas.
A Gestão Escolar democratiza a ação de construção social da escola, bem como a realização de seu trabalho. Estas ações acontecem mediante a organização do Projeto Político Pedagógico; da tomada de decisões no coletivo, onde existe o compartilhamento de poder; a compreensão das questões de relações interpessoais da organização em seu modo dinâmico, contraditório e conflitivo, o que demanda liderança e articulação; e o entendimento de que, para que sejam possíveis mudanças no processo educacional, é necessário que haja mudanças nas relações sociais exercidas na escola e nos sistemas de ensino.
No entanto, para que se torne possível, busca-se pensar a gestão escolar no âmbito democrático-participativo, o qual valoriza a participação da comunidade escolar nas decisões escolares; arquiteta à docência como sendo um trabalho interativo; através de uma dinâmica intersubjetiva, de conversa e consenso pensa o funcionamento da escola; e que baseia-se na organização, planejamento, direção/coordenação, formação continuada e avaliação como elementos para a organização educacional.
No aprendizado sobre a Gestão Escolar, no componente curricular de Gestão Escolar dos Processos Educativos, foi realizada uma prática de estágio com duração de trinta horas, em uma escola que contemplasse a educação infantil, os anos iniciais e/ou finais da educação básica e o ensino médio. Nesta prática, realizávamos a leitura dos documentos da escola, como o Projeto Político Pedagógico, também acompanhávamos os afazeres da direção e coordenação da escola, assim como participávamos de reuniões pedagógicas e se fosse possível fazíamos alguma intervenção na mesma, visando estabelecer relações com o aprendido em aula, e agora visto na prática.
Lembro-me também dos componentes curriculares que abarcavam as concepções de Educação Infantil, de criança, do seu desenvolvimento afetivo, cognitivo e motor, das suas relações, vivências e brincadeiras. Tive oportunidade de conhecer os aportes legais e teóricos, ambos importantes para compreender este tempo pedagógico e seus sujeitos.
Compreende-se a criança como um sujeito o qual tem desejos, ideias, opiniões, capacidade de decidir, de criar, de inventar, sendo que manifestam-se desde muito cedo, através de suas expressões, movimentos, nas suas vocalizações, no seu olhar e também através de sua fala.
Na realização dos componentes curriculares relacionados à Educação Infantil, que por sinal não foram poucos, buscou-se compreender o que é a educação infantil, assim como seus princípios éticos, estéticos e políticos, os quais são extremamente importantes no processo de desenvolvimento da criança. Foram inúmeros estágios de observação e docência que tivemos que desenvolver, nas diferentes faixas etárias que configuram a educação infantil.
Entendo que desejamos que as crianças sejam autoras de suas próprias aprendizagens, e que em nossas práticas pedagógicas buscamos vivenciar e produzir esta participação, de modo que elas possam participar com autonomia, liberdade, num processo de interação e cooperação. Formosinho e Oliveira enfatizam o significado da participação nos processos pedagógicos,
Uma pedagogia da infância participativa é, na essência, a criação de espaços-tempos pedagógicos onde as interações e relações sustentam atividades e projetos que permitem às crianças construir a sua própria aprendizagem e celebrar as suas realizações (2008, apud FORMOSINHO 2011, p.104)
Os componentes curriculares que tinham como propósito o estudo voltado aos Anos Inicias do Ensino Fundamental, de certo modo, davam continuidade ao debate sobre a aprendizagem e desenvolvimento da criança, considerando as diferentes áreas de conhecimento
e um sujeito que está em processo de alfabetização e letramento. Vimos que a leitura e escrita relacionam-se às práticas experimentadas já na educação infantil, por meio da ludicidade e das várias linguagens. Estudei e compreendi o processo de alfabetização e letramento, por meio de estudos teóricos e questões metodológicas, bem como o que considerar daquilo que as crianças possuem como conhecimento prévio, reformulando e reconstruindo-o. Também, tive entendimento acerca das legislações para os Anos Iniciais. Realizei observações, estágios e práticas com crianças que frequentam os anos inicias do ensino fundamental, que possibilitaram compreender e pensar situações de ensino e de aprendizagem tendo como referência os estudos teóricos e metodológicos.
Nos estudos desenvolvidos na Educação de Jovens e Adultos, compreendo ser esta uma modalidade de ensino que possui determinadas especificidades que buscam atender o interesse dos sujeitos envolvidos, sujeitos estes que, cursam esta modalidade de ensino por não terem tido a oportunidade de fazê-lo no ensino regular. Esta modalidade fundamenta-se numa prática educativa que considera os conhecimentos e saberes produzidos dos educandos e suas experiências de vida.
Assim como nos demais componentes curriculares, neste também tivemos a realização de observações e estágio. No entanto, percebe-se que a maneira como se pensa a prática educativa é um tanto diferente do que estou acostumada, pois nesta modalidade trabalhamos com adultos, e não com crianças, por isso, os métodos de ensino diferenciam-se, o diálogo é diferente, estamos rodeados de alunos jovens que apenas não tiveram a oportunidade de concluir a educação básica no ensino regular, e também pessoas mais velhas que em sua juventude não puderam estudar e que agora estão tendo a oportunidade, então são inúmeras situações e contextos, as facilidades e dificuldades são diferentes, e é necessário saber como trabalhar com cada uma delas.
Estas reflexões que trago são frutos dos estudos, pois durante a realização do Curso de Pedagogia foi possível entender a constituição docente articulando fundamentos teóricos metodológicos e experiências pessoais e profissionais.
Busquei trazer o que é defendido no PPP sobre a proposta curricular para a formação acadêmica e constatei que há avanços significativos na articulação teoria e prática e a articulação das dimensões profissional, conceitual e política.
3.3 Exercício da profissão em escola da educação básica e como estagiária em
escola de educação infantil e a formação em serviço pela via do PNAIC
Muito mais que novos olhares, novos conhecimentos, novas situações, novos saberes, a pedagogia me possibilitou trabalhar na área da educação desde que iniciei o curso, sempre tive estágios não obrigatórios e remunerados na Educação Infantil, além disso, também tive experiência como professora dos Anos Inicias do Ensino Fundamental, quando trabalhei com uma turma de 2° ano na rede municipal. Oportunidade que realizei o primeiro curso ofertado pelo MEC para implantação do PNAIC - Pacto Nacional Pela Alfabetização Na Idade Certa.
O PNAIC, é um programa que visa que as crianças estejam alfabetizadas até os oito anos de idade, idade está em que estão cursando o terceiro ano do ensino fundamental, não podendo haver reprovação até este período. Entendendo ser de extrema importância a implantação deste programa, pois o mesmo possibilita que o professor possa qualificar-se mais e melhor, participando das formações continuadas que o mesmo oferece, contribuindo e aprimorando sua prática docente, além de incentivar o professor com auxílio financeiro, ou seja, o professor está recendo auxílio financeiro para se qualificar.
Poder participar do primeiro ano do curso do PNAIC, propiciou-me entender mais e melhor o meu fazer docente, afinal estava sendo o primeiro ano em que atuava como professora dos anos inicias. O curso fez com que percebesse algumas questões na sala de aula que, como professora, não percebera; possibilitou estudar mais, pois tínhamos inúmeros cadernos para leitura sobre a alfabetização e letramento; oportunizou a socialização de experiências com outras professoras; apontou para a necessidade de reorganizar e repensar minha prática; assim como, refletir acerca de algumas questões vistas no curso de Pedagogia, como por exemplo, a importância do lúdico no processo de aprendizagem da crianças. Estar tendo a oportunidade de participar do curso, colocar em prática com meus alunos o aprendido e levar tudo isso para a universidade, e vice-versa, enriqueceu minha prática e experiência, enfim, emoldurou a arte de constituir-me professora.
Atuar como professora ou simplesmente auxiliar sempre me deixava muito ansiosa, no entanto, isso não impediu que em todas as instituições onde trabalhei aprendi novos saberes, novos olhares, novas ideias, pois cada uma apresentava singularidades e semelhanças. Todas oportunizaram experiências distintas, boas e ruins que possibilitaram cada vez mais o encantar-me pela profissão, perceber o quanto é agradável e maravilhoso era estar com as crianças, ouvi-las, ajudá-ouvi-las, ensiná-ouvi-las, aprender com elas. Até o simples fato de receber um abraço e um
beijo todos os dias, na chegada e na saída da escola, é inexplicável. Concordo com Dias quando afirma que “Aprendi que estar com as crianças era poder descobrir um mundo de oportunidades e possibilidades (...) estas me ensinaram o valor de um educador, e ainda, de como perceber o mundo que nos cerca de outras maneiras.” (Dias, 2014, p.30)
A orientação de Rufino (2001) é no sentido de que
As experiências do professor ao ingressar no mundo do trabalho docente, ao ensinar seus alunos, ao inserir-se nas regras da organização escolar, ao relacionar-se com os outros, consigo próprio, ao estudar, ao planejar suas aulas, ao rever-se como pessoa e nas tantas outras ações que fazem o seu cotidiano de ensinante, são possibilidades de constituição de saberes. (RUFINO, 2001, p. 29)
Estas experiências agregaram aprendizagens e conhecimentos, pois poder estar estudando e atuando na área foi e é extremamente importante, bem como articular teoria e prática, pois isso enriquece o fazer docente. Na escola surgem inúmeras situações que tem-se a necessidade de resolver e estas situações trazidas para a universidade, possibilitam refletir e reconstruir aquilo que fiz na escola. Por isso é que se torna tão enriquecedor, pois vivo na escola tudo o que aprendo na universidade e levo para a universidade o aprendido na escola. Neste movimento, saberes são ressignificados a todo momento, possibilitando a práxis reflexiva.
Ser acadêmica do curso de Pedagogia e atuar na área são de extrema importância, no entanto, minhas indagações e inquietudes enquanto acadêmica que impulsionam a participar de eventos, de seminários, de palestras, de cursos, a escrever artigos sobre minhas experiências e apresentá-los, complementando e aprimorando o meu constituir-se professora. E, por essas inquietudes, e este enriquecer docente é que participo do PIBID – Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência.
3.4 Complementação da formação universitária: a experiências de ser
bolsista do PIBID-Subprojeto Pedagogia
Na universidade várias portas se abrem, o ambiente universitário propicia inúmeras oportunidades, basta estar disposto e aproveita-las. Uma das oportunidades que tive, foi participar do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – PIBID, oferecido pela universidade com a intenção de contribuir para qualificação e formação docente dos acadêmicos da licenciatura, firmando uma parceria com escolas de educação básica da rede pública de ensino. Desde 2014 atuo como bolsista em uma escola pública, cuja inserção ocorre por meio interações com a comunidade escolar, observações de práticas e, atualmente, pela docência compartilhada entre docentes e acadêmicos da universidade com professores e estudantes da escola. O PIBID contribuiu muito na minha formação docente, por isso estou satisfeita com as aprendizagens que construí no decorrer das atividades desenvolvidas. As mesmas vêm ao encontro daquilo que aprendi na graduação de Pedagogia. É de grande valia poder relacionar àquilo que temos de teórico, com as atividades práticas, compreendendo e aprimorando conhecimentos, principalmente àqueles relacionados ao processo de alfabetização e letramento. Estar participando do programa nos coloca em vantagem no que se refere à produção de conhecimentos, pois conhecemos a realidade da sala de aula, estudamos, buscamos propor práticas pedagógicas que contribuam na aprendizagem das crianças e escrevemos sobre estas experiências. Ao articular de modo mais sistemático aspectos teóricos e metodológicos para resolver situações de aprendizagem, relembramos o que estudamos. Ao socializar experiências, debater e problematizarmos todas as situações de ensino e aprendizagem sejam elas boas ou ruins, pode-se refletir e buscar uma melhor maneira de conduzir a prática pedagógica e docente.
5. CONCLUSÃO
O sentido da narrativa de parte de minha experiência profissional é o de pensar a experiência como possibilidade de saber. Pensar a experiência como possibilidade de saber, na perspectiva da epistemologia da prática, traz para o centro da discussão o sujeito que a produz e o que produz, nesse caso, o professor e sua prática. (RUFINO, 2001, p.25)
O que posso dizer sobre esses conhecimentos e concepções aprendidas no Curso Normal e de Pedagogia da UNIJUÍ? Em primeiro lugar que os componentes e os estudos realizados por meio deles são os primeiros que nos colocam na profissão de professor, por isso é necessário conhecê-los, entendê-los, discuti-los e analisá-los, para poder compreender o que é a Educação Básica, o que cabe ao professor fazer e como fazer.
Para Mário Osório Marques, pioneiro no curso de Pedagogia da UNIJUÍ, os saberes da palavra e saberes da ação – necessitam transitar do familiar para o surpreendente, pela inquietação, através da experiência e da crítica, a fim de que se tornem saberes de experiência feitos. (Marques, 2000, p.56)
E, em segundo lugar, que durante o desenvolvimento de todas as observações e estágios busquei pensar e repensar o aprendido em sala de aula, relacionando teoria e prática, que nos auxilia na constituição docente. Era o momento que tinha para colocar em prática as teorias estudadas, fazendo indagações, partilhando vivências e experiências, enriquecendo o fazer docente e a práxis educativa.
A orientação de Marques é no sentido de que ao assumir o exercício autônomo da profissão, o profissional não interrompe seu período de formação, antes o retoma em novas bases, em desafios outros e em nível de mais estreita vinculação entre prática e teoria. (Marques,2000, p.55-56)
Acredito que este processo de interação entre teoria e prática dão significado à constituição docente, pois quando compreendemos a teoria e sabemos articulá-la na prática, nada mais preponderante do que analisá-la, registrá-la, fazer relações, atribuir novos significados, para alargar o olhar sobre o aprendido e o praticado. As experiências construídas durante a formação docente, contribuíram para compreender a profissão de professora como um processo no qual estudar é muito mais do que apenas aprender conhecimentos e conceitos, ou seja, apenas teoria, é reconhecer que é preciso apropriar-se da mesma por meio da práxis reflexiva.
Concluo que foi um desafio pensar a formação docente por meio de minhas memórias, uma vez que foi um exercício de resgate, reconhecer-me e analisar o caminho percorrido na formação pessoal e profissional. Foi significativo perceber que este processo de formação me fez relembrar minha educação na infância, as brincadeiras de professora, as quais foram os primeiros sinais que me diziam que eu queria professora. Os caminhos que percorri não foram nada fáceis, pois a tarefa de constituir-me professora impôs obstáculos, porém os venci, e me encho de orgulho ao dizer que esta é uma profissão gloriosa, que possibilita o tecer das demais profissões.
Formar-se professor todos podem formar-se, mas constituir-se professor é para àqueles que têm amor pelo que fazem, pois “a educação é um ato de amor, coragem e comprometimento, também considerada como processo humanizador...” (Dias,2014, p.101)
Narrar minhas experiências de vida e a trajetória de formação profissional docente oportunizou-me compreender que a constituição pessoal e profissional se tecem na interação com os outros sujeitos, por meio da leitura, da pesquisa, da socialização de experiências, do diálogo com os autores, as crianças e o contexto social e cultural capazes de gerar a práxis educativa.
6. REFERÊNCIAS
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