UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – UNIJUÍ
DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO CURSO DE PSICOLOGIA
FELIPE BRENTANO CANEPPELLE
O SUJEITO PSICANALÍTICO E AS TRANSFORMAÇÕES DO LAÇO SOCIAL
SANTA ROSA 2019
FELIPE BRENTANO CANEPPELLE
O SUJEITO PSICANALÍTICO E AS TRANSFORMAÇÕES DO LAÇO SOCIAL
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Graduação em Psicologia do Departamento de Humanidades e Educação da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul - UNIJUI, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Psicologia.
Orientadora: Janete Teresinha de Aquino Goulart
SANTA ROSA 2019
FELIPE BRENTANO CANEPPELLE
O SUJEITO PSICANALÍTICO E AS TRANSFORMAÇÕES DO LAÇO SOCIAL
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Graduação em Psicologia do Departamento de Humanidades e Educação da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul - UNIJUI, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Psicologia.
Aprovado em: Santa Rosa, 11 de Dezembro de 2019.
BANCA EXAMINADORA
________________________________________ Prof.ª Carolina Baldissera Gross
Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUI) / Departamento de Humanidades e Educação (DHE)
________________________________________ Prof.ª Janete Teresinha de Aquino Goulart
Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUI) / Departamento de Humanidades e Educação (DHE)
O SUJEITO PSICANALÍTICO E AS TRANSFORMAÇÕES DO LAÇO SOCIAL Felipe Brentano Caneppelle1 Resumo: A introdução da psicologia e da psicanálise na leitura dos mais diversos objetos tomados por ambas ciências como o comportamento, as funções psíquicas, a organização mental e mesmo as questões relacionadas à adaptação social e a manutenção da civilização e da sociedade, vem abrindo muito as percepções sobre a subjetividade e produzindo outros olhares com novas possibilidades de pensar o humano e suas relações. A sociedade é fruto do processo de construção coletiva dos homens e de suas culturas, a psicanálise vai pensar esses sujeitos e sua organização psíquica através do inconsciente, o articulando como oriundo de uma construção psíquica que inicia junto à vida do sujeito, ou até mesmo, para alguns autores, antes. Organiza-se a cultura, o laço social e o discurso social em volta de um agente, ou seja, aquele que enuncia, aquele que promove o movimento. Evidencia-se que a sociedade evolui de acordo com o desenvolvimento do sujeito e que, contudo o sujeito não é soberano frente ao movimento cultural, visto que esse se desenvolve dentro desse contexto. O estudo vai ser realizado de forma bibliográfica e qualitativa, promovendo reflexões através de obras já produzidas dentro da esfera psicanalítica. O ponto de partida será o sujeito psíquico, após isso se passará a pensar em seus derivados: a linguagem, a cultura e o laço social – se utilizando de alguns elementos vinculados ao estudo da sociedade, à sociologia.
PALAVRAS-CHAVE: Sujeito. Significante. Outro. Cultura. Laço social.
Abstract: The introduction of psychology and psychoanalysis in the reading of the most diverse objects taken by both sciences, such as behavior, psychic functions, mental organization and even issues related to social adaptation and the maintenance of civilization and society, has been wide opening the perceptions about subjectivity and producing other looks with new possibilities to think human relationships. Society is in itself a product of the collective construction process of men and their cultures, psychoanalysis seeks to shed light upon the psychic organization of those subjects through the unconscious, articulating the state of being as starting together with one’s life, or even to some authors, before it. It is evident that Society has evolved according to the development of being, however being is not the sovereign when it comes to social movements, as those developments are made in the context of cultures. This thesis seeks to, in a bibliographical qualitative manner, promote reflections through the collected works that have already been produced in the sphere of the psychoanalytical field. Its point of origin being the psychic being, and afterwards things originated from it such as: language, culture, social bonds – and vinculated elements pertaining to the study of society in the field of sociology.
KEYWORDS: Being. Significant. Other. Culture. Social bond.
Introdução
Na investigação da condição humana, diferenciando-os dos animais, surgem teorias, constituem-se grupos, estruturas e políticas. O humano tem como característica a construção e a transformação, tanto dos fatores naturais, quanto do seu próprio modo de agir com os semelhantes A ideia primeira do presente trabalho está direcionada ao laço social e o que se coloca em seu entorno, mas também ao que foi fundamental para a construção desse dizer sobre o encontro entre humanos. Para tanto pensa-se inicialmente em Freud e Lacan sem se distanciar do campo do qual pode-se beneficiar com essa leitura, o campo da psicologia.
A psicologia enquanto ciência se articula elencando inúmeros objetos de estudos, algo que não é comum na maioria das ciências, visto que o estudo de um objeto pressupõe um elemento central. A psicanálise vai estudar o humano enquanto um ser estrutural, onde os elementos de sua expressividade, por exemplo, revelam algo que está para além, algo que diz de um saber, de uma constituição e de um processo de construção psíquica constante.
Em 1900, Freud em sua obra “Interpretação dos sonhos” ancora sua grande descoberta - a ideia do inconsciente - produzindo as bases do que é a psicanálise contemporânea, transcendendo o viés orgânico e abrindo espaço para uma concepção de uma dimensão psicológica.
Lacan foi um psicanalista francês, nascido em 13 de abril de 1901, o autor tem seu percurso relacionado à Psicanálise, Filosofia, Antropologia, Literatura, Linguística e Topologia, se coloca inicialmente como Freudiano e, após um percurso de releitura da obra de Freud, cria uma escola cujo reconhecimento atinge uma dimensão significativa dentro e fora dos círculos psicanalíticos. Reflete sobre o papel da psicanálise e propõem uma virada quando toma da linguística e da antropologia elementos para novas configurações e leitura acerca dos fundamentos da constituição psíquica e da estruturação do sujeito psíquico por ele definidos em sua origem a partir da linguagem.
A construção do presente texto visa promover uma reflexão acerca do sujeito, do processo de subjetivação a partir da cultura e dos laços sociais estabelecidos. O estruturalismo Freudiano é uma das bases pela qual se irá trabalhar, revelando a dinâmica entre sujeito e cultura onde um não é soberano ao outro, mas promovem movimentos que
se influenciam entre si, e com isso mudam elementos sociais, políticos, subjetivos, discursivos e clínicos.
1 A complexidade humana
Há um percurso de grande relevância a ser retomado para que se haja a possibilidade de refletir acerca da organização e da subjetividade humana. Entende-se que há uma organização cultural que influencia na estruturação psíquica, mas também se entende que há uma estruturação psíquica que é determinante na organização cultural.
A psicanálise produziu elementos e reflexões fundamentais para que se possa pensar a subjetividade de forma mais profunda, seu centro está no desejo do sujeito, sujeito esse que aqui não é sinônimo de indivíduo, mas que apresenta uma construção específica. Conforme Gaufey (1996, p. 173)
O sujeito lacaniano encontra existência numa encruzilhada onde se cruzam um trabalho sobre a letra e o significante e uma posição descentrada do eu por relação ao processo da fala. Esses dois eixos (relativamente) independentes desenham indiretamente um lugar cujo registro de funcionamento é daqui em diante assegurado pela definição canônica segundo a qual o significante representa o sujeito para outro significante.
Tem-se, portanto, um processo de constituição onde a possibilidade de significação dá espaço para a formação do que a psicanálise chamou de sujeito. Aquele que só é um sujeito frente a um significante que nunca é definitivo, pois ele circula em conjunto com a linguagem. Nessa dialética de encontro e desencontro dos sujeitos e significantes há atrito, mudanças, alienações e separações, repetindo o que é da ordem do mal elaborado. A abordagem é, sobretudo, simbólica, onde a diferença é capaz de provocar problematizações e com isso dizer de parte da complexidade humana.
O sujeito não é passivo frente ao mundo e a cultura, mas ele se organiza a partir deles, o que se busca refletir, é a forma com que atua a dinâmica entre sujeito e cultura, uma vez que o sujeito é instituinte e instituidor dela.
Através da construção teórica sobre o sujeito psicanalítico, busca-se alguns elementos, relacionando-os com fenômenos observados pela sociologia, para pensar no movimento da cultura e do laço social.
Lacan (1955/56) vai dizer que o Outro é o “tesouro” do significante2. O termo
“Outro” traduzido do francês de “Autre” se diferencia do termo, também utilizado na obra lacaniana, “outro”. Destacar essa diferença, se torna relevante à medida em que Lacan demarca o viés de sociedades mais simples que as humanas, tomando o exemplo dos animais, pode-se perceber que o que é levado em conta é a noção de um i’autre3 imaginário, enquanto sociedades mais complexas levam em conta também um I’Autre4.
O significante produzindo-se no campo do Outro faz surgir o sujeito de sua significação. Mas ele só funciona como significante reduzindo o sujeito em instância a não ser mais do que um significante, petrificando-o pelo mesmo movimento que o chama a funcionar, a falar como sujeito (Lacan, 1964, p. 197).
O recém-nascido vem ao mundo, supõe-se, tendo um lugar simbólico, lugar este criado pelo imaginário daqueles que gestam a criança, que desde antes do nascimento criam narrativas sobre como esse filho vai ser, como vai se portar e o que vai fazer. O significante que vai estar presente no estabelecimento desses lugares está no Outro, é uma resposta a uma demanda externa ao sujeito, onde através de um processo de apreensão ele toma esses significantes para si. Tem-se aqui um ser chegando ao mundo, sendo atravessado pelo desejo, sofrendo com a falta, aderindo à linguagem e se formando enquanto sujeito faltante.
Retomando o final da citação de Gaufey (1996, p. 173) “(...) o significante representa o sujeito para outro significante”, trabalha-se o processo metonímico de acordo com o posicionamento do sujeito que fala, em concordância com seus significantes. Busca-se pensar aqui em uma natureza de significante que representa, e não que significa, trazendo o sujeito da psicanálise lacaniana como um efeito do significante.
Dessa forma se reforça que o processo de constituição implica em tomar os significantes que chegam através do Outro. O lugar de sujeito vai dizer de seu posicionamento frente aos significantes constituídos, posicionamento que vai dizer de um lugar frente ao outro social. Mas tal teorização convoca a pergunta de o que se é antes de
2 O termo significante foi tirado da linguística. Em Saussure, o signo linguístico é uma entidade psíquica
de duas faces: por exemplo, o significado ou conceito da palavra árvore é a ideia de árvore e não o referencial, a árvore real, e o significante, igualmente realidade psíquica, pois se trata não do som material que se produz quando se pronuncia a palavra árvore, mas da imagem acústica desse som, que se pode ter na cabeça quando, por exemplo, declama-se uma poesia sem pronunciá-la em voz alta.
3 “outro” de Lacan que diz respeito ao semelhante.
tornar-se sujeitos falantes? antes de ser atravessados pela linguagem e o que causa esse atravessamento?
Nesse momento tem-se a oportunidade de situar a importância do Outro e do outro na constituição humana, contudo, o porquê do humano ser essencialmente um ser social.
Lacan no “Seminário, livro 16: de um Outro ao outro” (1969) vai dizer:
(...) a partir do momento em que se monta a mesa de jogos, e Deus sabe se ela já está montada, o sujeito, antes de ser pensante, primeiro é a. E é depois que se coloca a questão de ligar a isso o fato de que ele pensa. Mas ele não precisou pensar para ser fixado como a. Isso já está feito, ao contrário do que se pode imaginar em razão da lamentável carência, da futilidade cada vez mais flagrante de toda a filosofia, isto é, que é possível virar a mesa do jogo (p. 157 e 158)
Quando se situa o sujeito, inicialmente, no lugar de “a”, se faz necessária uma reflexão acerca do que é ser “a”. A origem de tal conceito está em Freud (1900), que em sua investigação vai se pôr a escutar aquilo que os pacientes têm a dizer sobre suas problemáticas, e com isso, observa que o desejo se põe como motor dos sujeitos, onde o processo da constituição psíquica possibilita a interpretação do social.
O desejo na psicanálise se organiza de uma forma diferente do que o entendido
na época de sua teorização, na passagem do século XIIX para século XIX. A psicanálise funda o que se chama de desejo inconsciente. Durante as etapas iniciais da vida, supõem-se que haja um movimento de desupõem-senvolvimento através do primeiro laço de amor - o laço materno – contudo, o social impõe limites, a criança vai vivenciar um processo de constituição que será determinante na construção das compreensões acerca do mundo e das relações entre sujeitos e objetos.
Buscando na teoria freudiana a lógica de relação do sujeito/desejo haverá uma flexão que se caracteriza por três etapas. Parte-se inicialmente do “ser” o objeto de desejo materno, numa lógica dual onde a criança é totalmente dependente do outro materno recebe acolhimento e atenção integral. Chega-se a uma segunda lógica caracterizada pela busca do “ter” o desejo da mãe, aqui com a entrada do social, onde a criança com um pouco mais de tempo de desenvolvimento já percebe que a mãe não dedica sua integralidade a ela, então há a busca por reaver esse desejo. Por fim entra-se em uma terceira lógica, a de identificação com objetos de desejo externos a relação mãe/filho, tal lógica se dá a impossibilidade da realização desse desejo de integralidade com a mãe, o ter o desejo não é mais opção tendo em vista o complexo de castração.
Com isso, entende-se que, no início da vida humana, o sujeito necessita do outro para lhe amparar, pois não possui nem aparatos biológicos desenvolvidos para dar conta de suas necessidades. O momento do acolhimento materno também é o momento em que a criança está em lugar de objeto de desejo. A lógica da organização psíquica na idade adulta é uma lógica objetal, com a frustração do desejo de ser e ter o falo durante a infância se funda o sujeito desejante, o sujeito que tenta lidar com suas frustrações não mais através do impossível do amor materno, porém através da identificação com objetos.
Para destacá-lo um pouco mais diria que o desejo é coisa mercantil que há uma cotização do desejo que se faz subir e baixar culturalmente, e que do preço que se dá ao desejo no mercado dependem a cada momento a forma e o nível do amor. O amor, na medida em que ele mesmo é um valor, como muito bem dizem os filósofos, está feito da idealização do desejo (Lacan, 1963, p. 195). Pode-se, com isso, criar compreensões de como o desejo se articula, quando Lacan afirma que ele é coisa mercantil, se utiliza do vazio da palavra “coisa” o articulando com o mercado. Tem-se um sentido de que o desejo é aquilo que nos move, não se tem palavra para nomear o desejo fundante, uma vez que é oriundo da falta constitutiva, porém tem-se meios de detem-sejar, sobretudo, detem-sejar uma completude que não tem-se completa, pois ao tem-se completar logo remete-se ao desejo fundante e tem-se um movimento que traz à tona que aquilo que se deseja não é essa coisa, esse objeto, mas outra coisa não nomeada. O movimento do desejo é coisa mercantil, pois do mercado extrai-se o outro, o Outro e as relações.
Uma falta recobre a outra. Daí, a dialética dos objetos do desejo, no que ela faz a junção do desejo do sujeito com o desejo do Outro – há muito tempo que eu lhes disse que era a mesma coisa – essa dialética passa pelo seguinte: que aí ele não é respondido diretamente. É uma falta engendrada pelo tempo precedente que serve para responder à falta suscitada pelo tempo seguinte (Lacan, 1964, p.203).
É justamente uma parcialidade do gozo5 destinada ao “objeto a” que vincula um
sujeito ao Outro. Para Lacan (1969), a noção de Outro começa numa aproximação entre inconsciente e linguagem, o diferenciado enquanto um lugar, diferente de outro semelhante. Funda-se aqui uma concepção de um grande Outro que não representa um igual, mas que traz a dimensão da diferença, portanto se caracteriza como um lugar simbólico, revelando o que está além do semelhante, o que está além da posição do eu. Dessa forma o Outro simbólico só pode ser entendido como um princípio do inconsciente,
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Lacan (1964) reflete sobre a pulsão na obra freudiana e constrói a noção de gozo ligado aos mecanismos inconscientes, sendo aquilo que diz respeito ao prazer, mas também diz respeito a uma perda, ou seja, um desprazer.
é um Outro que fala de onde se recebe as próprias mensagens, dessa forma o sujeito pode tomar sentido a aquilo que é da ordem do impossível, observa-se através da noção que se tem da morte, produzida através da alteridade6.
Portanto pode-se pensar a constituição do sujeito de um modo mais elaborado do que pelo simples movimento de alienação e separação materna, promovendo o pensamento de que há um “esclarecimento” que se caracteriza como o avesso da alienação, contudo, para que um sujeito desejante se constitua não basta a identificação com o significante do Outro, mas a concepção de um gozo, inserindo a dinâmica do desejo e da falta, o que gera movimento, podendo-se pensar, nesse caso, como aquilo do desejo que não pode ser representado inteiramente pelo Outro, tendo em si uma satisfação apenas parcial.
Através de Lacan entende-se que em um momento anterior, o sujeito em constituição se coloca como “objeto a”. Esse posicionamento se dá através da relação dual entre a criança e quem toma a função materna. Há um momento em que o significante nome-do-pai promove um corte, esse movimento é a expressão da lei que vem de um terceiro. O corte, ao princípio do prazer, funda a falta e possibilita que esse sujeito possa direcionar seu desejo ao Outro, nesse momento o sujeito passa a ter acesso ao “tesouro” do significante, marcando na alteridade do Outro varias possibilidade de significações em relação direta com a cultura e com o laço social.
1.2 A cultura e o laço social
Para a psicanálise, não haveria de ser de outra forma a origem da cultura, se não por um trauma fundante, que se origina do movimento de segregação e com isso, para Lacan (1970 p.107) se funda a fraternidade, tendo agora que não olhar só para si, mas para o semelhante (outro) e ao Outro que surge no processo.
Em seu livro Totem e Tabu, Freud (1913) reflete sobre a origem da cultura e a forma com que essa se articula com a lei e as proibições trabalhando o examinando o sistema do Totemismo entre os aborígenes australianos. Faz referência a pesquisas desenvolvidas, e para tanto toma relatos colhidos a partir de tribos primitivas.
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O clã dos Aborígines Australianos se caracteriza por um macho alfa (tomado como um pai da horda) que tem ao seu dispor um harém de fêmeas e muitos filhos, sobrepondo sua vontade a todo o clã. Em dado momento seus filhos resolvem confrontar a tirania do pai, e criam-se as condições para que haja uma união dos irmãos em torno da questão. Essa união leva o pai da horda a morte, trazendo consequências ao clã.
Alguns combinados seriam feitos para que todos participassem do assassinato e para que não houvesse uma reedição do modo original da organização, ou seja, ninguém poderia se isentar do ato coletivo. Após o assassinato todos os filhos são chamados a participar do banquete antropofágico que lhes colocaria em pé de igualdade frente ao ato cuja explicitação fica proibida de circular - Tabu. Após a morte do pai pelos filhos, ao invés do alívio, surge o sentimento de culpa, o pai morto permanece e, em seu lugar emerge a culpa. Ergue-se um Totem que passa a manter a organização do clã. Tomado da natureza, um animal, evento natural, ou a criação de uma imagem que representa o Totem, a quem se ofertará algo para que essa culpa seja expiada. Base da organização das religiões (crenças), instituições e sociedade.
“As mais antigas e importantes proibições ligadas aos tabus são as duas leis básicas do totemismo: não matar o animal totêmico e evitar relações sexuais com os membros do clã totêmico do sexo oposto.” (FREUD, 1913, p. 49). A sociedade apresenta um movimento civilizatório partindo da articulação da estruturação psíquica, que possibilita, aos membros do clã, uma leitura da barbárie e soluções alternativas.
“Esse crime está destinado a dar origem a toda a civilização futura, foi o ato criminoso memorável com o qual começaram a organização social, as restrições morais e religiosas.” (FREUD, 1913, p. 91). O movimento civilizatório, aqui, se caracteriza como um movimento posterior ao ato, havendo um processo de elaboração intermediando as possíveis saídas do clã.
A lógica do sujeito e a lógica da cultura não estão em descompasso, ao comparar Totem e tabu com o mito de Édipo7, localiza-se a relação entre estrutura subjetiva e
organização da cultura, de forma que se entende que nem uma precede a outra, mas que os sujeitos que coletivamente constituem a cultura, também são constituídos a partir dela.
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Mito utilizado por Freud (1920) para refletir sobre a estrutura psíquica, na obra freudiana Édipo passa de mito a complexo.
Édipo se torna um complexo, uma ferramenta elementar na obra freudiana a fim de pensar a neurose, neurose que através de seus elementos constitui a sociedade.
Se fez necessário um crime para perceber a importância da lei, para que assim se passe a compreender os elementos relacionados e buscar formas alternativas que possibilitem a vida social, a cultura se faz, nesse sentido, resultado dos mecanismos e das compreensões acerca da vida social, a reflexão sobre isso é necessária e em dado momento é nomeada de sociologia.
Para além dos Aborígenes Australianos, os pilares da sociedade também são pilares subjetivos inconscientes, o pai e a lei estão postos nas estruturas psíquicas, dessa forma, por exemplo, quando se retira o pai do seu lugar de lei mexe-se com pilares fundamentais na organização humana.
Lacan (1955-1956) vai trazer o nome-do-pai como um significante que dá base para que se possa se adequar as leis da sociedade, um significante que, atualmente, desde o desenvolvimento infantil faz sentido e deixa posto que para viver em sociedade é preciso, em alguma medida, abrir mão do prazer.
“A ordem que impede a colisão e o rebentar da situação no conjunto está fundada na existência desse nome do pai. (…) Essa Lei fundamental é simplesmente uma Lei de simbolização. É o que o Édipo quer dizer.” (Lacan,1955/56 p. 100-114). Na obra lacaniana, encontra-se a concepção do sistema psíquico construído em forma de linguagem, onde se entende que antes mesmo de entrar para a vida já se estabelecem significantes, através da projeção imaginária gerada pelo desejo materno. Inicialmente os significantes maternos são vazios de sentido para a criança recém-nascida, essa recebe o S18 da mãe, mas só quando consegue, através de seu saber, ressignificar e gerar um S29,
que a criança está constituindo um lugar de sujeito. O processo de tomar a diferença do Outro para si de uma forma simbólica implica na gênese da teoria construtivista, incluindo a ideia de continuidade do significante e da complexificação da estrutura psíquica.
“Não há sujeito se não há significante que o funde. É na medida em que houve essas primeiras simbolizações constituídas pelo par significante, o primeiro sujeito e a mãe.” (LACAN, 1958, p. 195). Desta forma cria-se espaço para pensar o sujeito
8 Entendido aqui como o lugar que, desde antes de nascer, essa criança já recebe no discurso. 9 Representa a interpretação do lugar de S1 pelo saber desse sujeito, fundando então um novo saber.
psicanalítico como um ser construído através de suas experiências, utilizando dos significantes do Outro para se apropriar daquilo que outrora fora desconhecido. Nesse momento, é pertinente refletir sobre alguns elementos da constituição do sujeito, para então perceber que o processo de constituição do sujeito, seus posicionamentos e significantes, é relacionado com a dialética do laço social.
A dialética do sujeito e do laço social consiste no movimento do sujeito e da sociedade através de seus atritos. A sociedade é formada de sujeitos da mesma forma que os sujeitos possuem bases culturais dentro de suas constituições. A constituição da cultura social e do sujeito sempre, independentemente do tempo, estão em movimento e esse movimento possibilita que haja uma continuidade frente aos elementos do presente.
1.3 O laço social e o significante
De 1893 a 1895 Freud, em seu livro “Estudo sobre a histeria” inaugura uma nova perspectiva acerca da histérica, até então se tinha a definição de Charcot, a colocando como uma psicopatologia. Freud traz a histeria como uma estrutura que vai dizer do posicionamento desse sujeito em interface com o seu desejo e o Outro. A quebra do enquadre psicopatológico da estrutura se faz necessário para pensar a diversidade no laço social dentro da lógica do discurso lacaniano.
De início pensou-se nos elementos que levaram a espécie humana a fundar a cultura. Percebe-se que a sociedade evolui conforme os elementos psíquicos se organizam e que com isso o relacionamento humano também se põe em movimento. O laço social vem dizer desse complexo estrutural, a passagem pelo Édipo que organiza o discurso e faz laço social.
Um único pensamento de valor genérico revelou-se a mim. Verifiquei, também no meu caso, a paixão pela mãe e o ciúme do pai, e agora considero isso como um evento universal do início da infância (...) Sendo assim, podemos entender a força avassaladora de O Edipus Rex (...) a lenda grega capta uma compulsão que toda pessoa reconhece porque sente sua presença dentro de si mesma. Cada pessoa da plateia foi, um dia, em germe ou na fantasia, exatamente um Édipo como esse, e cada qual recua, horrorizada, diante da realização de sonho aqui transposta para a realidade, com toda a carga de recalcamento que separa seu estado infantil do seu estado atual. (Freud, 1897, p. 316)
Freud (1897) percebe que há elementos em comum entre os sujeitos, e que de alguma forma esses elementos se encontram na estruturação, tanto de um sujeito quanto de uma cultura. Justamente por ser concomitante a formação do sujeito e da cultura (ambos em eterno, enquanto vivos, processo de desenvolvimento) que édipo se torna um
complexo, é do confronto do sujeito com a lei, é do momento que aquele que está vivendo um de seus períodos centrais do desenvolvimento que passa a ter acesso a elementos que outrora não fora capaz de compreender, passa a ter uma noção maior da organização e do laço social.
(...) o que chamamos, a partir da psicanálise, de laço social? Trata-se da relação entre os seres humanos que se sustenta do discurso e, por meio dele, assume as modalidades de época e marcas de uma cultura determinada. Há laço social porque não há laço natural, na medida em vivemos em um mundo de linguagem. A esta aproximação geral é preciso acrescentar que o laço social se particulariza com as modalidades do gozo dos sujeitos que o realizam. (TIZIO, 2007)
O interessante de pensar o laço social é que ele se caracteriza por ser não-toda10, ou seja, não se trata de buscar uma harmonia entre elementos desarmônicos, mas sim de conseguir situar um sujeito que se posiciona frente a outro sujeito. O pacto fraternal, originado em totem e tabu, diz do prazer que é necessário abrir mão para que assim se possa conviver com o semelhante, porém dinâmica do relacionamento humano adquire mais complexidade. Nas junções sociais e na dinâmica do convívio, há sujeitos que antes eram vistos enquanto semelhantes (outros), que agora passam dizer de um Outro (movimento que explicita o fato do semelhante construir saberes sobre coisas que o sujeito não tem acesso, e, com isso, dizer de um discurso que ainda não produziu sentido para esse sujeito).
O laço social é criado pela linguagem, que por sua vez expressa-se através dos significantes e dos posicionamentos que esses articulam frente ao Outro. Entretanto o sujeito que se posiciona frente ao Outro e com isso estabelece a linguagem criando o laço social, em sua infância, é fruto a relação com o “tesouro do significante”, que está no Outro. Observa-se aqui uma via de mão dupla da organização do laço social e do significante, onde nem um é soberano frente ao outro.
Na tentativa de pensar o discurso social e sua articulação, Lacan (1970) no “seminário 17 - O avesso da psicanálise” evidencia os quatro discursos que estruturam o social e ainda propõe um quinto discurso. Para representar seus discursos e se fazer entender, Lacan (1970) se utiliza de matemas que se dão em dois níveis, quanto às posições e quanto aos termos.
10 O não-toda na obra lacaniana busca trazer uma reflexão critica acerca da ideia de universal, pontuando o valor da falta na constituição do sujeito e como essa falta é estruturante, também, para a sociedade.
Figura 1: Matema utilizado por Lacan para organizar a teoria dos discursos
Fonte: O avesso da psicanálise, LACAN (1970).
Para Coelho (2006), o discurso social nesse matema parte do agente, lhe diferenciando do outro e nessa relação bilateral o outro não é passivo, mas é a quem o discurso se dirige e quem precisa do agente para se constituir fazendo a construção da produção, trazendo a verdade como o que sustenta o discurso do agente, mas que não pode ser ao todo dita, havendo uma interdição entre a produção e a verdade. Seguindo a proposta de Lacan, ele apresenta o discurso do mestre da seguinte forma:
Figura 2: Matema do discurso do Mestre
Fonte: O avesso da psicanálise, LACAN (1970).
Para fazer tal analogia o autor busca inspiração em Hegel (1807) na obra “Fenomenologia do espírito”, onde tem-se uma reflexão acerca da relação senhor e escravo. Em Hegel (1807), o escravo renuncia ao mestre por medo da morte e através disso paga o preço - recebendo, nessa troca, a percepção única advinda de seu lugar de escravo da insustentabilidade do lugar do mestre- oferecendo o que tem de mais precioso: sua força de trabalho. Dessa forma funda-se um mestre, o mestre enquanto agente ordena ao escravo, que produz o objeto “a” (gozo) revelando sua falta ($) no lugar de semi-dito.
Dentro da construção teórica, cabe situar a construção de um discurso social na relação senhor/escravo, esse entendimento pode dizer muito de um certo tempo onde as relações de troca se caracterizavam através do trabalho escravo. Quando Lacan (1970) faz a leitura do texto de Hegel, se remete ao termo “mais-valia” utilizado na obra Marxista, e inclusive, utiliza do termo para se referir ao roubo do saber do escravo pelo senhor, porém faz algumas considerações que diferencia sua leitura da leitura marxista.
O que Marx denuncia na mais-valia é a espoliação do gozo. No entanto, essa mais-valia é o memorial do gozar, é o seu equivalente do mais-de-gozar. A sociedade de consumidores adquire seu sentido quando ao elemento; entre aspas, que se qualifica de humano se dá o equivalente homogêneo de um mais-de-gozar qualquer, que é o produto de nossa indústria, um mais-de-gozar - para dizer de uma vez - forjado. LACAN (1970, p. 76)
Mais-valia é um termo central da obra de Karl Marx (1867), faz alusão ao processo de exploração da mão de obra. O burguês oferece ao trabalhador um ofício, o remunerando pela sua mão de obra, porém nesse processo há uma diferença entre o que o trabalhador produz e o que recebe de pagamento, brecha onde o burguês retira sua parte do capital e amplia sua fortuna. Lacan não faz uma leitura sociológica, mas uma leitura psicanalítica, uma leitura do discurso, fazendo uso daquilo que já foi produzido sobre o tema antes.
Imagina-se que ele paga, por razões contábeis que têm a ver com a transformação do mais-de-gozar em mais-valia. Mas, primeiro, todos sabem que ele acrescenta regularmente sua mais-valia. Não há circulação de mais-de-gozar. E, muito especificamente, há uma coisa que ele nunca paga - é o saber. LACAN (1970, p. 77).
Onde em Marx se situa a Mais-valia, Lacan situa o mais-de-gozar. O trabalhador teria direito ao seu pagamento, na relação do roubo do saber o mais-de-gozar se articula com o saber roubado do escravo, que se faz necessário e que revela a farsa do semblante (S1) de poder do mestre. O roubo não é perfeito, tanto é que para o mestre continuar sendo mestre ele sempre terá que ter o saber de quem roubar, pois o saber da produção ele não possui. O S1 mostra seu semblante de poder enfraquecido por uma falta, essa posta no matema no lugar da verdade (o que é por gênese inacessível), acusada como $ (sujeito faltante).
O discurso do mestre é um dos quatro grandes discursos que estruturam o laço social, Lacan (1970) organiza, também, os demais discursos que, de alguma forma, se articulam com a lógica discursiva do mestre formulando o que aqui se chamará de discurso social.
Dentro dos quatro grandes discursos lacanianos, tendo o primeiro já minimamente elaborado acima, o segundo é o discurso da histérica, caracterizado por usar a mesma forma de matemá, porém incluindo um quarto de volta a sua estrutura, da seguinte forma:
Figura 3: Matema do discurso da histérica
Fonte: O avesso da psicanálise, LACAN (1970).
Quando Lacan (1970) articula o discurso da histérica ele faz a seguinte reflexão: “O que quer a histérica? (...) é um mestre. Isto é completamente claro. A tal ponto,
inclusive, que é preciso indagar se a invenção do mestre não partiu daí.” (p. 122). Pontua-se aqui que a histérica quer que o outro Pontua-seja um mestre, dono de Pontua-seu saber, mas também não quer que esse mestre saiba demais a ponto de a considerar um objeto, um prêmio pelo seu saber.
A reflexão lacaniana evidência o fato de que o discurso do mestre e da histérica não estão ligados somente pelos mesmos elementos lógicos escritos através da diferença de um quarto de giro, mas pelo fato de que essa diferença os articula de forma semelhante a articulação significante. É a diferença que possibilita um significante ser um sujeito para outro significante. Há uma dialética entre os elementos dos discursos que, por sua vez, revelam que o discurso social, leva em conta elementos dos quatro discursos, onde um engendra no outro os sentidos que dão origem a base da complexidade da linguagem contemporânea.
Partindo do matema da histérica observa-se o agente representado pelo $ (sujeito barrado), quer dizer, ela se coloca como um sujeito faltante e com isso busca algo que possa suprir essa falta. O semblante S1 aparece na sequência dizendo da articulação, ela se reporta ao mestre (S1) no lugar de outro, nessa relação entre histeria ($) e mestre (S1) vai surgir o produto, que é o saber do mestre (S2), onde o desejo da histérica aponta para um saber que se reporte ao $ e não ao “a”, pois esse mestre não pode saber muito a ponto de colocá-la em lugar de objeto.
“O desejo da histérica não é desejo de um objeto, mas desejo de um desejo, esforço para manter-se diante desse ponto de onde ela chama seu desejo, o ponto onde está o desejo do Outro.” ( LACAN, 1957/58, p. 407). A histérica quer um mestre, mas não um mestre completo - e sim um mestre faltante - tal qual está no discurso do mestre. O desejo histérico é o desejo de um desejo. Dessa forma, quando esse é objetificado ela o deseja em sua falta, é a articulação do impossível, a realização do desejo só poderia, contudo, resultar em uma resignificação, substituindo, na lógica libidinal, o objeto que outrora fora ansiado por outro.
Aqui se faz importante esclarecer que a relação do sujeito com o outro é, sobretudo, uma relação objetal. Quando se fala da alteridade dentro da psicanálise, se entende que as ferramentas para a relação com esse estão nas diferenças, pois é dessa forma que o significante se articula. A construção psíquica possibilita uma compreensão complexa acerca do que é do outro, porém dentro da lógica da cadeia significante a
relação é objetal, tendo início na relação objetal entre mãe e filho e sendo reorganizada durante a vida do sujeito.
Quando se afirma que a histérica deseja um desejo, está-se operando na lógica da falta. O desejo da histérica é da ordem do impossível, ele não pode ser objetificado, mas pode ser um objeto enquanto faltante. O objeto faltante por sua vez pode representar um desejo, o objeto adquirido não representa uma falta se não pelo marco da nova mobilização inconsciente que vai organizar esse novo desejo frente a outro objeto que está em falta.
O significante $ é o que o mestre oculta se colocando no lugar de S1, contudo $ é o significante assumido pela histérica. Se pensar na dialética entre os discursos é inegável tal articulação e visível sua relação com o laço social. Entende-se que a histérica evoca esse lugar discursivo ocupado pelo mestre ao mesmo tempo, seguindo a lógica lacaniano, que oculta o lugar de “a” em seu matema. A histérica não quer ser um objeto, mas quer ser desejada, o que acaba por ser a verdade de um mestre faltante, ao mesmo tempo que a verdade da histérica é pôr-se em lugar de objeto “a”.
O discurso do analista, tem o “a”, por sua vez, colocado no lugar lógico de agente, onde o outro está ocupado pelo $, obtendo a produção de um S1 estando o S2 no lugar da verdade.
Figura 4: Matema do discurso do analista
Fonte: O avesso da psicanálise, LACAN (1970).
É relevante atentar para que o discurso do analista é o único onde o outro é um sujeito de fato. Para o mestre, o outro é representado pelo saber do escravo, a relação da histérica com o outro se dá pela busca ao mestre, o analista vai se colocar no lugar de objeto, não sendo o dominante frente a esse outro, mas o reconhecendo enquanto sujeito, enquanto o universitário vai colocar esse outro em lugar de objeto.
(...) saldo da operação psicanalisante, como o que libera o que é uma verdade fundamental; o fim da análise é, a saber, a inigualdade do sujeito a toda subjetivação possível da sua realidade sexual e a exigência de que, para que esta verdade apareça, o psicanalista já seja a representação do que mascara, obtura, tampona essa verdade, e que se chama objeto “a”. LACAN (1967-68, p. 135)
O agente que desencadeia o discurso do analista é o “a”, tido como um objeto que se coloca como fonte de desejo a um sujeito ($). O sujeito vai projetar, através da relação analítica, suas questões. Para o analista o que está no lugar da verdade será o S2 (o significante do saber) podendo ser lido aqui como um suposto saber. Esta dialética vai sustentar, no discurso analítico, o lugar da falta para que o outro ($) possa produzir a manifestação de sua singularidade (representada no matema por S1).
“Se não houvesse discurso analítico, vocês continuariam a falar como papagaios, a cantar o discurso corrente, a fazer girar o disco [...]” (Lacan, 1972, p. 48). O discurso do analista interroga e evidencia o mal-entendido. Ao colocar o saber no lugar de verdade põem-se a questionar o dogma, observa-se em Totem e Tabu que o dogma é a origem da cultura, o ato ritualístico está na base do confronto humano com o real e com aquilo que não se consegue suportar. O discurso do analista vai questionar o impossível de cada discurso e promover um movimento de reflexão e produção simbólica em cima do que faz questão ao sujeito.
O último discurso, formado pelo um quarto de giro, é o discurso do universitário. Esse discurso é desencadeado pelo S2 no lugar de agente, o “a” em lugar de outro, tendo o $ no lugar da produção e o S1 no lugar da verdade.
Figura 5: Matema do discurso do Universitário
Fonte: O avesso da psicanálise, LACAN (1970).
Lacan (1970) vai dizer que o discurso do universitário é o laço social que alicerça a ciência. O significante do saber (S2) ocupa o lugar de agente, e se materializa no lugar do professor, numa relação verticalizada com o outro, ocupado pelo objeto “a” (estudante). O produto vai ser um sujeito dividido ($) que dará sustentação a falta do saber que organiza a relação verticalizada do agente com o outro.
Observa-se que a verdade do discurso do Universitário está no S1, ou seja, no mestre. Quando Lacan (1970) considera o discurso do Universitário faz um esforço para situar que, de alguma forma, a atividade universitária é sustentada pelo discurso do mestre. O saber produzido pelo universitário será um saber acerca de um fazer, vai dar sustentação a uma finalidade tida como importante para o movimento da produção, será,
sobretudo, um estudo infinito elencando novos elementos (objetos) de acordo com as demandas criadas pelo discurso social.
Há uma dialética relevante a se observar, os discursos se articulam e se sustentam. O discurso do mestre está, de alguma forma, implicado nos outros três discursos, assim como os demais um no outro. A lógica é que esses quatro discursos, através de sua estruturação linguística, dão sentido às relações sociais se utilizando do tecido do laço social, contudo no seminário 18, Lacan (1971), articula um quinto discurso, o discurso que não fosse semblante, quebrando a lógica dos quatro grandes discursos e inaugurando novos traços ao laço social.
1.4 - Outro discurso na pós modernidade
O que aqui pode-se chamar de pós modernidade perpassa pela inclusão do discurso do capitalista ao laço social. Uma vez que os elementos subjetivos desenvolvem uma nova lógica discursiva que altera, em parte, a relação do sujeito com o Outro e com o semelhante (outro), deve-se esperar reflexos consideráveis na cultura. Para o sociólogo Bauman (2013, p. 44):
[...] Primeiro veio a ‘geração do baby boom’, seguida por duas gerações denominadas X e Y; mais recentemente [...] anunciou-se a iminente chegada da geração Z. Todas essas mudanças geracionais foram eventos mais ou menos traumáticos; em cada caso assinalaram uma quebra de continuidade e a necessidade de reajustes por vezes dolorosos, em função do choque entre as expectativas herdadas e aprendidas e as realidades imprevistas [...].
As mudanças sociais costumam ser gradativas e lentas, porém há uma aceleração desse processo criado pela gênese do discurso do capitalista. Quando Lacan (1970) elabora os quatro discursos, se utiliza da obra fenomenologia do espírito de Hegel (1807), como uma de suas bases. Nessa obra encontram-se reflexões de cunho filosófico acerca da relação entre mestre e escravo dentro do sistema da época. Ao propor a ideia de discurso do mestre em 1970, Lacan considera o tempo passado desde a produção hegeliana, portanto, se reconhece o fato de que há alguns elementos diferentes no laço social atual.
Em 1971 Lacan, no Seminário 18, infere que não há um discurso que não seja de semblante. Se observa o S1 no discurso do mestre o pondo como significante desencadeador, ou o $ no discurso da histérica a colocando como faltante. O elemento que desencadeia o discurso vai ser importante na sua articulação com os demais elementos
discursivos estruturados, e este age em forma de agente, onde Lacan (1971) também designa o lugar de semblante.
Os quatro grandes discursos são formados por um quarto de giro em cima de uma articulação de quatro elementos. Cada um deles tem seu lugar de enunciação, seu semblante específico, e a partir desse lugar articula-se com os demais, porém, em 1972 Lacan revela a possibilidade de uma outra lógica ao organizar o discurso do capitalista.
Figura 6: Matema do discurso do capitalista
Fonte: Estou falando com as paredes: conversas na Capela de Sainte-Anne, LACAN (1972). A atualização discursiva da lógica de um quarto de giro é algo que já se está previsto quando se fala em laço social. O laço social modifica e é modificado pelo sujeito, a humanidade de forma alguma é uma população de estrutura discursiva exclusivamente rígida, há flexões e reflexões ao decorrer do processo social desencadeado desde o primitivo.
O discurso do capitalista propõe um funcionamento que opera sem tropeços, de modo circular e sem corte, sem ponto de basta, ou seja, sem escansão. (...) O interessante na maquinaria discursiva é que ela - diferente de uma máquina qualquer - não fica indiferente à perda, buscando recuperação. É a esse funcionamento que Lacan concede estatuto de laço social. MALCHER E FREIRE (2016, p. 203).
O próprio discurso do capitalista coloca a si em cheque, visto que ao formular uma lógica que gira em torno de si se abre mão da perda, ou seja, da renúncia ao gozo. Para Malcher e Freire (2016) há nesse discurso a promessa de “forclusão da castração”11,
porém tal promessa não se cumpre, deslocando metonimicamente para um próximo objeto de consumo.
“[...] isso não tem como andar melhor, mas justamente isso anda rápido demais, isso se consome, isso se consome tão bem que isso se consuma” (Lacan, 1972, p.48). Tal organização lembra a obra de Freud “Além do princípio do prazer” (1920), onde os sistemas dos seres unicelulares se reproduzem infinitamente, desde que seja retirado os
11
A falta é negada por esse sujeito que em um ritmo cada vez mais acelerado organiza objetos tampões para seu desejo; pelo fato da falta ser estrutural, contudo, a forclusão da castração está fadada ao fracasso.
“produtos do metabolismo” (p.218), ou seja, em uma produção acelerada e infinita há restos. Na obra freudiana os seres unicelulares se auto-consomem, o processo os leva a degradação e à morte. O discurso do capitalista tenta operar sem a entropia e a tentativa de evitar todas as perdas pode levá-lo a consumição.
[...] nada nesse mundo se destina a durar, que dirá para sempre. Objetos hoje recomendados como úteis e indispensáveis tendem a ‘virar coisa do passado’ muito antes de terem tempo de se estabelecer e se transformar em necessidade ou hábito. Nada é visto como estando aqui para sempre, nada parece insubstituível. Tudo nasce com a marca da morte iminente e emerge da linha de produção com o ‘prazo de validade’ impresso ou presumido [...]. BAUMAN (2013, p.22)
Os reflexos psíquicos da velocidade se apresentam também nos traços culturais de uma sociedade. A velocidade de consumo proposta por Lacan, também é proposta por Bauman, mas um dentro da ideia da lógica psíquica, e por outro dentro da ideia da pós modernidade. O consumo é não uma opção do sujeito, mas uma condição de viver em seu tempo, os elementos da cultura estão montados para isso, respondendo a velocidade do discurso referido.
A estrutura produtiva capitalista depende da maximização da extração de mais-valor. Quanto mais tempo uma mercadoria leva para ser produzida, entrar no mercado e ser consumida, menor o mais-valor produzido, realizado e reinvestido. Logo, a dimensão temporal está implicada tanto na produção da mercadoria, quanto na velocidade de seu consumo. Cumpre localizar melhor a questão que nos toca. Decerto que a aceleração dos processos implica uma redução cronológica de cada etapa, em sua duração, mas não é essa dimensão temporal que mais nos interessa. O que buscamos destacar é que tal aceleração possui um correlato lógico, estrutural, podemos até dizer, discursivo. (MALCHER e FREIRE, 2016, p. 81)
A organização psíquica estabelece a necessidade de que haja um instante de ver, um tempo de compreender para chegar ao momento de concluir pela renúncia do gozo. A estrutura produtiva do discurso do capitalista depende da mais-valia, quanto mais tempo demora para a mercadoria ser produzida, colocada no mercado e vendida, menor sua mais valia. A lógica do Time is money introduz uma aceleração dos processos onde o tempo de compreender tende a ser visto de uma forma problemática.
O gozo não deve mais ser adiado, sendo oferecido imediatamente pela via do consumo, das "latusas" (LACAN, 1970/1992, p.153-4) que povoam as vitrines e telas, objetos que encarnam o valor de troca travestidos de um valor de uso maquiado como uma necessidade urgente. Contudo, algo escapa tanto ao valor de uso quanto ao valor de troca, um gozo que não se deixa apreender, que resta como impossível, inacessível, deixando o consumidor frustrado e relançando a promessa: nada de tempo para compreender, que venha o novo lançamento! (MALCHER e FREIRE, 2016 p. 82)
A promessa de forclusão neurótica não se realiza, a lógica inconsciente cria novos mecanismos para se manifestar, ou seja, novos sintomas. A organização psíquica se mostra como um dos elementos centrais dentro da organização da cultura. Pode-se inferir que os sintomas dos sujeitos têm relação direta com o laço social, e que essa relação acaba por produzir movimento na cultura, a inclusão do discurso do capitalista na reflexão vem como uma forma de apontar esse movimento e de promover construção dentro da lógica do discurso.
Considerações finais
A construção psíquica diz das condições do sujeito de compreender o mundo e de se posicionar frente ao outro. Neste trabalho buscou-se elementos históricos do desenvolvimento humano e refletiu-se sobre eles à luz da psicanálise, se utilizando dos conceitos que dizem dos sujeitos, dos grupos, do laço social e da cultura. A psicopatologia na clínica contemporânea é um fenômeno que diz da ordem psicossocial, os elementos clínicos também mudam conforme transita o sujeito, a reflexão acerca desse movimento é necessária para que se possa continuar pensando no sujeito psíquico e nos processos pelos quais as sociedades passam frente aos traços de seu tempo
Buscou-se aqui refletir sobre as transições da humanidade, para tanto se utilizou de construções feitas antes mesmo do humano se constituir em sociedade. A humanidade vem de um extenso processo de evolução, marcada pela construção psíquica e as mudanças dos modos de convívio com o outro (semelhante) e a criação do Outro. Os processos mentais acabam por influenciar na estrutura social e por modificar a forma com que o homem direciona seu olhar para seu contexto.
O sujeito social é sempre um sujeito em constituição, contudo a sociedade partilha desse traço e se forma junto com o sujeito que a compõem. Traçar um paralelo entre o desenvolvimento do sujeito, dentro da cultura e dos costumes locais, e o desenvolvimento da sociedade é pensar em uma via de mão dupla, onde um altera o outro e com isso se produz os movimentos da sociedade.
O desejo é insaciável por gênese, o estruturalismo freudiano aponta os diferentes mecanismos de fala do inconsciente. O desejo põe-se como motor, a fala quando reprimida pelo discurso social se expressa através de sintomas. O inconsciente promove seu movimento, o sujeito realiza alterações no discurso social e isso altera a cultura, o laço social, os meios de gozo e o próprio sujeito. A psicanálise propõe o pensar acerca da
dinâmica inconsciente e daquilo que é produto do sujeito, tomando desde as manifestações subjetivas até a sociedade e as construções coletivas.
A inclusão do discurso do capitalista acresce novos fatores a sociedade contemporânea. Os quatro grandes discursos (Mestre, Histérica, Analista e Universitário) pressupõem uma lógica de operação que dizem respeito a posições do sujeito frente a um Outro, o discurso do Capitalista vai pôr o objeto no lugar do outro, nasce uma demanda de consumo a fim de tamponar a falta, contudo o estruturalismo freudiano nos esclarece que a falta é estrutural e que os mecanismos do inconsciente acabam por gerar novas formas de falar sobre essa falta, ou seja, novos sintomas, inclusive em processo de formação na mesma lógica de transição do movimento e do laço social.
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