Geruza Kretzer
DIVERSIDADE DE USOS E TIPOS EDILÍCIOS:
DINÂMICAS LOCAIS EM FLORIANÓPOLIS-SCDissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Catarina para a obtenção do Grau de Mestre em Arquitetura e Urbanismo.
Orientador: Prof. Dr. Renato Tibiriçá de Saboya
Florianópolis 2018
Ficha de identificação da obra elaborada pelo autor através do Programa de Geração Automática da Biblioteca Universitária da UFSC.
Geruza Kretzer
DIVERSIDADE DE USOS E TIPOS EDILÍCIOS: DINÂMICAS LOCAIS EM FLORIANÓPOLIS-SC
Esta Dissertação foi julgada adequada para obtenção do Título de “Mestre” e aprovada em sua forma final pelo Programa de
Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Catarina.
Florianópolis, 30 de maio de 2018.
________________________ Prof. Fernando Simon Westphal, Dr.
Coordenador do Curso Banca Examinadora:
________________________ Prof. Renato Tibiriçá de Saboya, Dr.
Orientador/Moderador
Universidade Federal de Santa Catarina
________________________ Prof. Almir Francisco Reis, Dr. Universidade Federal de Santa Catarina
________________________ Prof. Vítor Oliveira, Dr.
AGRADECIMENTOS
Agradeço aos meus pais, José Rubens e Silvana, que sempre me incentivaram, apoiaram e me encorajaram a perseguir meus sonhos.
Ao meu orientador, Renato Saboya, que desde a graduação vem contribuindo para o meu crescimento acadêmico. Agradeço por toda a troca de conhecimento e ajuda nos momentos de dificuldade.
À Banca Examinadora, Prof. Almir Reis e Prof. Vítor Oliveira, que deram importantes contribuições para a evolução deste trabalho.
À Universidade Federal de Santa Catarina, por mais uma oportunidade, e à CAPES, pelo auxílio financeiro para realização desta pesquisa.
A todos os amigos que eu tive o prazer de conhecer no PósARQ, que foram essenciais para o desenvolvimento da pesquisa.
Aos amigos arquitetos e urbanistas, Adriana de Lima Sampaio, Laís Moretto, Lígia Sell, Renato Niero, Paula Polidório e Monique Daniel, agradeço por todas as conversas, discussões, apoio e incentivo.
Agradeço também aos amigos do Observatório da Mobilidade Urbana da UFSC, que me ajudaram com a obtenção de dados e contribuíram para o meu crescimento profissional e acadêmico.
À minha tia Ingrid Knihs, que me incentivou e apoiou durante toda a trajetória.
Às amigas de longa data, Marcella Gonçalves, Manoela Marchi, Danielle Muller, Nathalia Souza, Caroline Cardoso, Bruna De Paoli e Monique Becker, que me proporcionaram bons momentos e fizeram com que todo o processo fosse mais leve.
Por fim, a todos que de algum modo estiverem presentes durante esses últimos dois anos, o meu muito obrigada!
RESUMO
Os diferentes tipos de usos do solo são parte importante das dinâmicas das cidades e, quando em conjunto, geram uma diversidade que contribui para a vida urbana variada e complexa. As características edilícias são intimamente relacionadas à existência de diferentes usos e, portanto, podem ser determinantes para a promoção da vitalidade urbana. Apesar de alguns estudos realizados sugerirem que há uma relação entre características arquitetônicas e usos do solo, ainda deve ser melhor explorada qual a relação existente entre estes dois elementos. É com esse intuito que este estudo busca avançar no conhecimento quanto a esse fenômeno na cidade de Florianópolis-SC. Para investigação, foram extraídos 65 trechos de vias selecionadas com auxílio da sintaxe espacial e dados de densidade populacional. Foram levantados dados referentes às características das edificações e usos do solo, e na sequência, com o intuito de investigar de que modo a diversidade de usos se relaciona com os aspectos edilícios, os dados foram processados para a elaboração de gráficos de dispersão e diagramas Spacemate. Alguns trechos também foram selecionados para elaboração de uma análise pormenorizada. Os resultados obtidos indicam que trechos com maior diversidade de usos tendem a ter também maior variedade nas suas tipologias edilícias. Também há uma tendência de que trechos que contenham edificações mais próximas às vias, com uma boa densidade de aberturas e alta visibilidade, tenham uma maior chance de serem diversos. Por fim, a análise pormenorizada apontou que existe relação direta entre as configurações edilícias e a incidência de alguns tipos usos. Além disso, a complementaridade das atividades e os usos existentes no térreo das edificações mostraram ter um impacto direto na vida do espaço urbano.
Palavras-chave: Tipos Edilícios, Diversidade de Usos, Vitalidade Urbana, Morfologia Arquitetônica.
ABSTRACT
The different land uses are an important part of cities’ dynamics and, when combined, generate a diversity that contributes to a varied and complex urban life. Building features are intimately related to the existence of different land uses; therefore, they might be determinant for the promotion of urban vitality. Although some studies suggest that there is a relation between architectural features and land uses, the influence between these two elements is not yet fully explored. With this purpose, this study looks into this phenomenon in Florianopolis-SC. The approach is applied in a sample of sixty-five street segments similar from a syntactic and population density point of view. In order to investigate if and how mixed-uses and building aspects were related, building features and land use data were collected and displayed in scatter plots and Spacemate diagrams. Some street segments were also selected for a detailed analysis. The results indicate that street segments with greater land use diversity tend to have a greater variety of building types. Furthermore, there is a greater chance of having land use diversity on street segments with buildings arranged closer to the streets, with a higher than average opening density and high visibility. Lastly, the detailed analysis showed that there is a direct relation between building characteristics and the incidence of certain land use types. Moreover, the complementarity between activities and ground floor land uses have a direct impact on urban life.
Keywords: Building types, mixed-use, urban vitality, architectural morphology.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Esquema organizacional de um Shopping Center, comparando os usos principais com os pequenos estabelecimentos. ... 32
Figura 2 – Diversidade de usos representada como um processo cíclico. ... 34
Figura 3 – Simulação da aplicação da fórmula de entropia de Shannon. ... 56
Figura 4 – Simulação da aplicação da fórmula de entropia de Shannon. ... 56
Figura 5 – Simulação da aplicação da fórmula de entropia de Shannon. ... 57
Figura 6 – Triângulo com a separação de funções do MXI. .... 59
Figura 7 – Explicação para diversidade usando o índice de Gini-Simpson e a True Diversity. Exemplo: Diversidade de usos do solo. ... 61
Figura 8 – Transformações edilícias ao longo do tempo. ... 67
Figura 9 – Parâmetros do Form Based Code. ... 74
Figura 10 – Relação entre o GSI, FSI, OSR e L no diagrama Spacemate. (Números referentes à Figura 11) ... 79
Figura 11 – Três áreas com 75 unidades habitacionais/ha. (Números referente à Figura 10) ... 79
Figura 12 – Grupos de Tipos Arquitetônicos no Spacemate. .. 80
Figura 13 – Nove tipos diferentes de ambiente construído. ... 80
Figura 14 – Localização da cidade de Florianópolis. ... 86
Figura 15 – À esquerda, análise sintática com destaque para os trechos de integração global média e alta. À direita, análise sintática com destaque para os trechos com alta escolha local (r1500m). ... 88
Figura 16 – Os trechos representados na cor amarela foram selecionados a partir dos critérios adotados pelas variáveis de controle. a) Seleção dos trechos sobrepostos aos setores censitários com a representação de densidade habitacional/hectare em Florianópolis; b) Aproximação dos
trechos selecionados com base na análise sintática; c) Aproximação dos trechos selecionados sobrepostos aos setores censitários com a representação de densidade habitacional/hectare. ... 89
Figura 17 – Trechos de vias selecionados no sorteio de amostra aleatória. ... 90
Figura 18 – Identificação dos lotes e edificações em um trecho selecionado para análise. ... 91
Figura 19 – Fatores utilizados para a classificação dos tipos edilícios específicos. ... 97
Figura 20 – Exemplos de aplicação da categorização em tipo arquitetônico específico. ... 98
Figura 21 – Análise em cada um dos níveis ... 104
Figura 22 – Localização dos trechos viários da análise pormenorizada. ... 106
Figura 23 – Posição correspondente de cada trecho nas escalas das diferentes medidas de diversidade de usos. ... 106
Figura 24 – Frequência dos tipos edilícios levantados. ... 111
Figura 25 – Frequência da disposição dos tipos edilícios levantados. (Tipo A – Isolado; Tipo B – Frente ou fundo de lote; Tipo C – Posicionado em umas das extremidades laterais; Tipo D – Em fita; Tipo E – Posicionado no perímetro do lote e Tipo F – Ocupando toda a área do lote ... 112
Figura 26 – Média do número de economias pela disposição dos tipos edilícios levantados. (Tipo A – Isolado; Tipo B – Frente ou fundo de lote; Tipo C – Posicionado em umas das extremidades; Tipo D – Em fita; Tipo E – Posicionado no perímetro do lote e Tipo F – Ocupando toda a área do lote. . 113
Figura 27 – Média da Quantidade de Usos Específicos pela disposição dos tipos edilícios levantados. (Tipo A – Isolado; Tipo B – Frente ou fundo de lote; Tipo C – Posicionado em umas das extremidades laterais; Tipo D – Em fita; Tipo E – Posicionado no perímetro do lote e Tipo F – Ocupando toda a área do lote. ... 114
Figura 28 – a) Gráfico de dispersão entre a Densidade de Economias Linear X True Diversity – Usos Gerais; b) Gráfico
de dispersão entre a Densidade de Economias Linear X Quantidade de Usos Específicos. ... 115
Figura 29 – Gráficos de dispersão entre proporções de diferentes usos do solo e a True Diversity - Usos Gerais e a Quantidade de Usos Específicos. a) Proporção de Uso Residencial X True Diversity – Usos Gerais; b) Proporção de Uso Residencial X Quantidade de Usos Específicos; c) Proporção de Uso Comercial X True Diversity – Usos Gerais; d) Proporção de Uso Comercial X Quantidade de Usos Específicos; e) Proporção de Uso de Serviço X True Diversity – Usos Gerais; f) Proporção de Uso de Serviço X Quantidade de Usos Específicos; g) Proporção de Uso Institucional X True Diversity – Usos Gerais; h) Proporção de Uso Institucional X Quantidade de Usos Específicos. ... 116
Figura 30 – Diagrama Spacemate com a distribuição dos trechos de vias representados de acordo com a intensidade da Quantidade de Usos Específicos. ... 117
Figura 31 – Diagrama Spacemate com a distribuição dos trechos de vias representados de acordo com a intensidade da Quantidade de Usos Específicos sobrepostos aos 9 tipos de ambiente construído. ... 118
Figura 32 – À esquerda, diagrama Spacemate com os trechos de vias representados de acordo com intensidade da True
Diversity elaborada com a classificação de usos gerais. À
direita, diagrama Spacemate com os trechos de vias representados de acordo com a quantidade de usos CNAE. . 119
Figura 33 – Diagrama Spacemate com a distribuição dos trechos de vias representados de acordo com proporção de uso residencial. ... 120
Figura 34 – Diagrama Spacemate com a posição das edificações. ... 121
Figura 35 – Diagramas Spacemate com a distribuição dos lotes de acordo com a categorização de usos. a) Lotes X Quantidade de Usos Gerais; b) Lotes X Quantidade de Usos Específicos; c) Lotes X Quantidade de Usos CNAE. ... 122
Figura 36 – Gráficos de dispersão entre a Quantidade de Usos Específicos e quantidade de tipos edilícios. a) Quantidade de
Tipos Edilícios Nominais X Quantidade de Usos Específicos; b) Quantidade de Tipos Específicos Completos X Quantidade de Usos Específicos; c) Quantidade de Tipos Especificos – 4 Dígitos X Quantidade de Usos Específicos; d) Quantidade de Tipos Especificos – 3 Dígitos X Quantidade de Usos Específica. ... 124
Figura 37 – Gráficos de dispersão entre a Quantidade de Usos Específicos e dimensões gerais dos tipos edilícios. a) Taxa de Ocupação X Quantidade de Usos Específicos; b) Índice de Aproveitamento X Quantidade de Usos Específicos; c) Porcentagem Livre por Lote X Quantidade de Usos Específicos; d) Porcentagem Livre por Trecho X Quantidade de Usos Específicos; e) Média do Número de Pavimentos X Quantidade de Usos Específicos; f) Continuidade das Fachadas X Quantidade de Usos Específicos. ... 125
Figura 38 – Gráficos de dispersão entre a Quantidade de Usos Específicos e os anos de construção dos edifícios. a) Quantidade de Usos Específicos X Ano Mínimo de Construção; b) Quantidade de Usos Específicos X Ano Médio de Construção; c) Quantidade de Usos Específicos X Ano Máximo de Construção. ... 126
Figura 39 – Gráficos de dispersão entre os afastamentos dos tipos edilícios e a Quantidade de Usos Específicos. a) Afastamento Frontal Médio X Quantidade de Usos Específicos; b) Proporção Colada à Rua X Quantidade de Usos Específicos; c) Proporção Afastada da Rua X Quantidade de Usos Específicos; d) Proporção de Fundos X Quantidade de Usos Específicos. ... 127
Figura 40 - Gráficos de dispersão entre a visibilidade dos tipos edilícios e a Quantidade de Usos Específicos. a) Densidade Linear de Janelas X Quantidade de Usos Específicos; b) Densidade Linear de Janelas no Térreo X Quantidade de Usos Específicos; c) Densidade Linear de Portas; X Quantidade de Usos Específicos d) Densidade Linear de Aberturas X Quantidade de Usos Específicos; e) Alta Visibilidade X Quantidade de Usos Específicos; f) Média Visibilidade X Quantidade de Usos Específicos; g) Baixa Visibilidade X Quantidade de Usos Específicos. ... 128
Figura 41 – Disposição das edificações nos lotes. ... 131
Figura 42 – Diagrama Spacemate com a posição dos trechos selecionado para a análise pormenorizada. ... 131
Figura 43 - Diagrama Spacemate com a representação dos trechos e lotes da análise pormenorizada. ... 133
Figura 44 – Legenda de cores adotada para a classificação dos usos nos trechos da análise pormenorizada. ... 134
Figura 45 – Trecho 42 - Rua Visconde de Ouro Preto. Tipos Edilícios, Usos do Solo e Horário de Funcionamento nos dias úteis. ... 138
Figura 46 – Trecho 48 - Rua Esteves Junior. Tipos Edilícios, Usos do Solo e Horário de Funcionamento nos dias úteis. ... 138
Figura 47 – Fotos do Trecho 42 (Rua Visconde de Ouro Preto) em diferentes períodos e horários. ... 139
Figura 48 – Fotos do Trecho 48 (Rua Esteves Junior) em diferentes períodos e horários. ... 140
Figura 49 – Trecho 39 – Rua Madre Benvenuta. Tipos Edilícios, Usos do Solo e Horário de Funcionamento nos dias úteis. ... 144
Figura 50 – Trecho 51 – Rua Ver. Frederico Veras. Tipos Edilícios, Usos do Solo e Horário de Funcionamento nos dias úteis. ... 144
Figura 51 – Fotos do Trecho 39 (Rua Madre Benvenuta) em diferentes períodos e horários. ... 145
Figura 52 – Fotos do Trecho 51 (Rua Ver. Frederico Veras) em diferentes períodos e horários. ... 146
Figura 53 – Número de pavimentos e anos construtivos. Os anos construtivos estão representados por meio de uma escala de cores, tipos edilícios mais antigos estão representados pela cor bordô e mais atuais pela cor amarela. ... 148
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 – Evidência empírica dos efeitos da Diversidade de Usos em estudos relacionados aos modos de deslocamento. ... 41
Quadro 2 – Evidência empírica dos efeitos da Diversidade de Usos em estudos relacionados à prática de atividades físicas. 47
Quadro 3 – Evidência empírica dos efeitos da Diversidade de Usos em outros estudos. ... 51
Quadro 4 – Classificações de usos utilizadas em estudos científicos. ... 53
Quadro 5 – Exemplo do significado dos diferentes valores do MXI – Mixed-Use Index. ... 58
Quadro 6 – Classificações de tipos edilícios utilizados em estudos científicos. ... 75
Quadro 7 – Dados levantados em campo para cada lote ou edificação. ... 92
Quadro 8 – Descrição das variáveis dependentes. ... 99
Quadro 9 – Descrição das variáveis independentes agregadas por trecho. ... 100
Quadro 10 – Trechos selecionados para a análise pormenorizada. ... 107
Quadro 11 – Trechos da análise pormenorizada e valores de diversidade de usos. ... 130
Quadro 12 – Descrição completa dos dados agrupados através do script em R. ... 167
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 23
1.1HIPÓTESE ... 24
1.2
RELEVÂNCIA DO TEMA ... 25
1.3
OBJETIVOS ... 26
1.3.1
Objetivos Específicos ... 26
2 REFERENCIAL TEÓRICO ... 29
2.1
DIVERSIDADE DE USOS DO SOLO ... 30
2.1.1
A combinação dos usos ... 31
2.1.2
Desafios para a existência da diversidade de usos .... 33
2.1.3
Os supostos benefícios da diversidade de usos ... 36
2.1.4
Os possíveis conflitos da diversidade de usos ... 38
2.1.5
Evidências empíricas ... 39
2.1.6
Classificações ... 53
2.1.7
Medidas de diversidade de usos ... 55
2.2
TIPOLOGIA EDILÍCIA ... 62
2.2.1
Conformação edilícia e forma urbana ... 65
2.2.2
Processos de transformação ... 66
2.2.3
As tipologias edilícias e os usos do solo ... 70
2.2.4
Classificações ... 72
2.2.5
Evidências empíricas dos diferentes tipos edilícios ... 76
2.3
REPRESENTAÇÃO DA FORMA URBANA ... 78
2.3.1
Spacematrix ... 78
2.4
SÍNTESE ... 82
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ... 85
3.1
DEFINIÇÃO DOS LOCAIS DE INTERESSE PARA ANÁLISE ... 86
3.2
SORTEIO DE AMOSTRA ALEATÓRIA ... 90
3.2.1
Identificação dos trechos para análise ... 91
3.3
LEVANTAMENTO DOS USOS DO SOLO E DOS TIPOS EDILÍCIOS ... 91
3.3.1
O tipo arquitetônico específico ... 96
3.4
AGREGAÇÃO DOS DADOS EM VARIÁVEIS DEPENDENTES E INDEPENDENTES POR TRECHO ... 98
3.4.1
Variáveis dependentes ... 99
3.4.2
Variáveis independentes ... 100
3.5
ANÁLISE EXPLORATÓRIA ... 102
3.5.1
Análises iniciais ... 102
3.5.2
Diagrama Spacemate ... 103
3.5.3
Gráficos de correlação ... 105
3.5.4
Análise dos resultados ... 105
3.6
ANÁLISE PORMENORIZADA DOS TRECHOS DE INTERESSE ... 105
3.6.1
Seleção dos trechos viários ... 105
3.6.2
Levantamento dos usos e tipos edilícios ... 108
3.6.3
Observações e registros fotográficos ... 108
3.6.4
Análise dos resultados ... 109
4 RESULTADOS ... 111
4.1
ANÁLISES EXPLORATÓRIAS INICIAIS ... 111
4.1.1
Tipos edilícios ... 111
4.1.2
Usos do solo ... 114
4.2
DIAGRAMAS SPACEMATE ... 117
4.2.1
Trechos de Vias ... 117
4.2.2
Edificações ... 120
4.3
CORRELAÇÕES ... 123
4.3.2
Dimensões Gerais dos Tipos Edilícios ... 124
4.3.3
Anos de Construção ... 126
4.3.4
Afastamento Frontal dos Tipos Edilícios ... 127
4.3.5
Visibilidade dos Tipos Edilícios ... 128
4.4
ANÁLISE PORMENORIZADA ... 129
4.4.1
Disposição nos lotes e Índices construtivos ... 130
4.4.2
Usos do Solo e Tipos Edilícios ... 134
4.4.3
Ano de construção dos edifícios ... 147
4.5
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ... 148
1 INTRODUÇÃO
As cidades são formadas por fragmentos em constante processo de transformação. Por isso, sua compreensão é fundamental para o entendimento do espaço urbano. Os diferentes tipos de usos do solo são parte importante das dinâmicas existentes, quando em conjunto, geram uma diversidade que contribui para a vida urbana variada e complexa.
Os usos do solo mudam rapidamente, exigindo das formas construídas adaptação às novas atividades. As edificações, controladas por uma gama de diferentes proprietários movidos por interesses particulares e econômicos, têm papel fundamental na incorporação desses novos usos. Com o passar dos anos são construídos edifícios para os mais variados fins, boa parte deles adaptados a necessidades que antes jamais haviam sido pensadas.
Alguns estudos abordam os efeitos que os diferentes tipos edilícios geram no espaço urbano. Com relação à diversidade de usos, um estudo aponta que as características arquitetônicas tendem a ter relações consistentes com a presença de atividades microeconômicas (NETTO; VARGAS; SABOYA, 2012), outro revela que quanto maior a integração, intensidade e compacidade de um conjunto de edificações, maior tende a ser a diversidade de usos em uma área (VAN DEN HOEK, 2008). Apesar desses resultados, há uma lacuna na literatura, pois nenhum desses estudos tem como foco principal a compreensão da influência existente entre os tipos arquitetônicos e a emergência da diversidade de usos. Além disso, a combinação de usos do solo que compõem a diversidade não é analisada de forma minuciosa, bem como as nuances da sua relação com características da forma construída, fato que pode levar à falta de compreensão dos aspectos da vida urbana resultante.
A simplificação na categorização dos tipos edilícios e o uso de diferentes medidas para a criação de um índice de diversidade de usos são fatores que devem ser melhor trabalhados. Esses aspectos são obstáculos na compreensão das relações entre essas variáveis, pois tornam frágeis as
análises de correlação com a intensidade e compacidade das construções, com as condições de afastamento e visibilidade entre lotes e ruas, e com a continuidade das fachadas entre os diferentes lotes urbanos. Por existirem primordialmente estudos quantitativos, nenhum se aprofunda nas singularidades das diferentes combinações de atividades e no modo como influenciam na configuração das edificações. Classificações mais detalhadas dos tipos edilícios podem auxiliar na constatação de padrões que revelem a existência de determinados tipos em áreas com maior diversidade de usos.
Tendo isso em vista, o presente estudo busca compreender: há influência dos diferentes tipos arquitetônicos no surgimento da diversidade de usos? A diversidade de usos se desenvolve mais onde há tipos edilícios com maior continuidade entre as fachadas, menores afastamentos frontais e mais intensidade e compacidade? Locais com maiores índices de diversidade de usos apresentam maiores variedades de tipos edilícios? Com a melhor compreensão desse fenômeno, será possível ampliar o entendimento quanto ao funcionamento da estrutura de toda a cidade, pois os tipos edilícios e os usos que comportam refletem e compõem parte das dinâmicas existentes no tecido urbano. A disposição das edificações nos lotes, suas configurações e relações com as ruas são fatores que podem estar intimamente relacionados à existência de diferentes usos, e, em conjunto, podem ser determinantes para a promoção da vitalidade urbana.
É com esse intuito que este trabalho busca explorar os tipos edilícios e sua influência na emergência da diversidade de usos na cidade de Florianópolis-SC. São analisados diferentes tipos de classificações edilícias e distintas medidas de diversidade de usos, para assim verificar quais seus potenciais e fragilidades. O estudo consiste no levantamento de dados referentes a características das edificações e usos do solo e, posteriormente, processamento e confronto das variáveis para análises e síntese dos resultados.
1.1 HIPÓTESE
1 – Conjuntos de edificações com maior continuidade nas fachadas, e maior proporção de edificações sem muros e afastamentos frontais, tendem a facilitar a instalação de usos não residenciais e, por isso, abrigar maior diversidade de usos do que conjuntos mais dispersos ou isolados.
2 - Locais com maior diversidade de usos apresentam tipos edilícios mais variados, o que possibilita a instalação de diferentes atividades.
1.2 RELEVÂNCIA DO TEMA
As edificações são um dos elementos fundamentais para a garantia de uma boa estrutura urbana. Elas contribuem de forma crucial para a experiência espacial e para a consciência do espaço como lugar. Rowley (1996) aponta que lugares com diversidade de usos tendem a apresentar uma variedade de tipos edilícios, promovendo a legibilidade nos ambientes de pequena escala. Com a identificação de evidências da relação entre os diferentes tipos edilícios e a diversidade de usos do solo, poderão ser promovidos tecidos e formas urbanas mais legíveis e adaptáveis, com capacidade de se ajustar com mais facilidade aos possíveis padrões de crescimento urbanos almejados, seja através do projeto ou por meio de leis de ordenamento territorial.
No contexto da Área Conurbada de Florianópolis, a proporção de atividades residenciais para não residenciais é de aproximadamente 84% x 16% (segundo dados do CNEFE1).
Portanto, a capacidade de abrigar usos não residenciais parece ser o fator mais determinante para o surgimento da diversidade de usos do solo. Os tipos edilícios podem ser determinantes para a promoção dessa diversidade, pois algumas características tipológicas são mais amigáveis para a existências de diferentes atividades. Edificações mais próximas às ruas, com inexistência de muros e maior
1 Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos. IBGE
continuidade da fachada, tendem a promover o surgimento de usos comerciais, especialmente de varejo, pois estes se beneficiam da visibilidade e facilidade de acesso por parte dos pedestres nas calçadas. Características de disposição no lote, configuração dos pavimentos e relação das edificações com as ruas são outros fatores que podem incentivar ou dificultar o surgimento de usos diferenciados. Em conjunto, todos esses elementos edilícios podem gerar condições compatíveis com a incidência de um menor ou maior número de usos. Tendo isso em vista, o estudo dessa problemática é fundamental, pois pode ajudar a entender como a relação de interdependência entre edificações e usos favorece ou dificulta a diversidade, especialmente quando se considera que há ampla evidência empírica na literatura que mostra haver influência direta desta no modo como ocorre a vitalidade nos espaços urbanos, conforme será visto mais adiante, na seção 2.2.
1.3 OBJETIVOS
O objetivo geral do trabalho é investigar as relações existentes entre os tipos arquitetônicos e a diversidade de usos do solo, assim como o modo como influenciam nas dinâmicas urbanas locais.
1.3.1 Objetivos Específicos
1- Investigar de que modo a diversidade de usos se relaciona com as dimensões gerais dos tipos edilícios (taxa de ocupação, índice de aproveitamento, porcentagem livre no lote, número de pavimentos); 2- Verificar se locais com maiores índices de diversidade
de usos apresentam maior variedade de tipos edilícios; 3- Verificar se trechos viários com edificações
posicionadas mais próximas às ruas, com maiores níveis de visibilidade entre lote e rua, e maior continuidade entre as fachadas, apresentam maiores taxas de diversidade de usos;
4- Investigar as singularidades das diferentes combinações de atividades e o modo como influenciam na configuração das edificações e dinâmicas urbanas locais;
5- Investigar diferentes formas de operacionalização da diversidade de usos e sua capacidade de representar o fenômeno.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
Para Coupland (1997), grandes mudanças ocorreram nas últimas décadas, e é provável que muitas venham a ocorrer no futuro. A tecnologia, os arranjos familiares e sociais e os padrões de emprego, assim como muitos outros aspectos, são diferentes hoje se comparados a décadas passadas. Algumas mudanças foram repentinas, já que as novas tecnologias introduzem novas oportunidades instantaneamente disponíveis para todos. Outras levam mais tempo, mas podem ter um efeito igualmente significativo.
Na sociedade atual muitos padrões de atividade vêm se alterando. Com o auxílio da tecnologia, muitos usos que exigiam grandes escritórios para realização de suas atividades, atualmente se comportam em pequenos espaços. Essas mudanças são uma pequena amostra de como os padrões das atividades podem se alterar, e de como, por sua vez, afetam na necessidade de requisitos para diferentes tipos edilícios (COUPLAND, 1997).
Netto, Vargas e Saboya (2012) fazem uma reflexão interessante quanto à complexidade existente entre espaços, atividades e atores envolvendo a configuração arquitetônica:
As relações entre ação, espaço público aberto, espaço interno da edificação e as atividades que esta abriga consistem na verdade na ponta visível de uma rede de alta complexidade, conectada a uma infinidade de atores cujas ações são realizadas em outros lugares e tempos – uma rede de ações e circulação de informação e artefatos que se completa no momento da interação e troca final no interior da arquitetura e na sua relação aos canais do espaço público. A escala do edifício e suas relações imediatas em complexos urbanos colocam-se como uma das forças estruturantes da cidade, sobre as quais as relações macroscópicas tornam-se reconhecíveis e nas quais as dinâmicas
cotidianas reproduzem processos sociais e microeconômicos geograficamente mais amplos. ((NETTO; VARGAS; SABOYA, 2012)
Tendo isto em vista, o referencial foi dividido de modo a esclarecer os principais conceitos, propriedades e elementos da diversidade de usos e dos tipos edilícios, principais temas tratados neste trabalho.
2.1 DIVERSIDADE DE USOS DO SOLO
A diversidade de usos expressa o grau de mistura entre diferentes tipos de uso do solo compreendidos em uma determinada área de um espaço físico (SAELENS; SALLIS; FRANK, 2003; EWING; CERVERO, 2010), e é abordada nas mais variadas áreas de estudo, como nas questões relacionadas a práticas de atividades físicas e no planejamento de transportes. Além disso, é tratada como um dos elementos indutores da promoção de vitalidade nos espaços públicos das cidades.
Jacobs (2014) é uma das primeiras a defender veementemente a diversidade urbana. Segundo a autora, o desenho e a distribuição de suas atividades econômicas são essenciais para garantir espaços urbanos eficazes. Ela elenca quatro aspectos que seriam fundamentais para o enriquecimento dessa diversidade: os usos principais combinados, as quadras curtas, os prédios antigos e a concentração de habitantes. A primeira condição está intimamente relacionada à questão da diversidade de usos, “o distrito, e sem dúvida o maior número possível de segmentos que o compõem, deve atender a mais de uma função principal; de preferência, a mais de duas” (JACOBS, 2014 p.165). A partir de então, a diversidade de usos do solo se tornou uma questão muito relevante no urbanismo e no planejamento urbano.
A diversidade de usos pode ocorrer em diferentes escalas urbanas, podendo ser no nível da cidade; entre distritos e bairro; entre ruas e outros espaços públicos; entre edificações e
quadras; ou entre edifícios individuais. É um conceito ambíguo e multifacetado que auxilia na compreensão da estrutura dos assentamentos urbanos (ROWLEY, 1996). Coupland (1997) ressalta que o termo é amplamente usado, mas seu conceito é raramente definido, podendo causar uma confusão considerável principalmente no que diz respeito à escala da referência de análise.
2.1.1 A combinação dos usos
Para Jacobs (2014), a movimentação de pedestres e a diversidade de atividades que promovem a segurança dependem do alicerce econômico proveniente de usos principais combinados, definidos como aqueles que atraem as pessoas a um local específico, ou seja, que funcionam como ímãs. Exemplos disso são escritórios, fábricas, moradias, espaços de educação e lazer, entre outros. A existência desses usos principais isolados pode gerar uma diversidade urbana relativamente ineficiente, no entanto, quando são efetivamente associados a outros – que promovem o uso do espaço em horários alternativos – o resultado pode ser considerado estimulante, tornando o ambiente fértil para a
diversidade derivada. Esse termo é aplicado aos usos que
surgem em consequência dos usos principais existentes, tirando proveito das pessoas atraídas por estes, tais como unidades comerciais de pequeno porte, restaurantes, lanchonetes, bares, entre outros. Se existir uma quantidade suficiente de elementos incomuns ou singulares, o conjunto de empreendimentos pode tornar-se, por acumulação, um uso principal (JACOBS, 2014).
Bentley et al. (2005) dão um exemplo de como os usos principais dão suporte aos usos secundários comparando com o funcionamento dos shoppings centers. As lojas âncoras atraem um grande número de pessoas ao complexo, enquanto as lojas secundárias, essenciais para a diversidade, aproveitam-se e dão suporte ao fluxo de pedestres entre os dois extremos, como se observa na Figura 1. Para Jacobs (2014), a mescla de usos principais deve levar a um resultado cotidiano e habitual de
mistura de pessoas, em consequência, gerando uma sustentação econômica mútua.
Figura 1 – Esquema organizacional de um Shopping Center, comparando os usos principais com os pequenos estabelecimentos.
Fonte: Bentley et al., 2005, p.30.
Em seu livro, Jacobs (2014) cita Larry Smith, economista especializado em usos do solo, que cria uma associação interessante quando compara edifícios de escritório com peças de xadrez.
Todos os usos principais, sejam de escritórios ou moradias, sejam de salas de espetáculo, são as peças de xadrez da cidade. Aquelas que se movem diferente das outras devem ser empregadas conjuntamente para lograr o máximo. E, assim como no xadrez, um peão pode tornar-se uma rainha. Mas o desenvolvimento urbano tem essas diferenças em relação ao xadrez: o número de peças não é determinado por regras. Se bem colocadas, as peças se multiplicam. (SMITH, apud JACOBS, 2004, p. 183) É importante destacar que há uma relação de dependência entre a combinação de atividades e o número de usuários que utilizam um espaço. Essa relação interage com fatores econômicos – com o aumento da densidade de usos há uma maior probabilidade de atração de demanda – o que pode
levar ao aumento do valor da terra. Os serviços de varejo geralmente ocupam o térreo das principais fachadas dos edifícios, e são os que trazem os maiores retornos de aluguel. Esses usos geram a principal demanda nos horários comerciais e, se estiverem combinados com usos residenciais, podem estimular o uso de instalações noturnas – clubes, bares, restaurantes (ROBERTS; LLOYD-JONES, 1997)
2.1.2 Desafios para a existência da diversidade de usos Apesar de a diversidade de usos ser almejada, ela não é simples de ser alcançada. Para Van den Hoek (2008), a promoção da diversidade de usos deve ser resultado da interação de diversos atores e fatores. Apesar de muitas vezes imporem restrições de natureza conflitante, se o debate para a criação da diversidade de usos ocorrer de forma individual, a sua promoção se torna difícil. Para o autor, a diversidade de usos deve ser compreendida como um processo cíclico, conforme o representado na Figura 2. Como observa-se, os fatores – sejam econômicos, políticos, culturais, entre outros – estão relacionados diretamente aos atores, promotores das ações e principais influenciadores da adequação dos espaços urbanos aos programas almejados. A partir disso, o desenho urbano resultante e o efeito produzido geram consequências diretas para os fatores, o que torna o processo cíclico. Para o autor, é através da interação entre todas essas categorias que a diversidade de usos se origina.
A partir de consultas a planejadores urbanos e órgãos públicos, o autor elenca alguns obstáculos para alcançar a diversidade de usos. Aqui são citados alguns:
• Os consumidores e empreendedores têm receio de que a presença de outras atividades possa prejudicar os valores imobiliários de suas propriedades. A diversidade de usos é vista como um risco;
• Em alguns casos, as ideias modernistas da cidade funcional prevalecem nos processos de planejamento; e
• Políticos têm medo de introduzir a diversidade de usos como princípio, pois torna o desenvolvimento mais difícil de controlar e gerenciar.
Figura 2 – Diversidade de usos representada como um processo cíclico.
Fonte: Van den Hoek, 2008, p.5.
Além desses fatores, uma série de outras variáveis devem ser analisadas e consideradas em conjunto para que áreas com diversidade de atividades tornem-se realmente eficientes. Para Jacobs (2014), uma mistura de usos satisfatória deve conter uma quantidade de componentes que seja suficientemente complexa para gerar a interação entre os diversos usos.
Embora as cidades possam ser apropriadamente chamadas de geradoras naturais de diversidade econômica e incubadoras naturais de novas empresas, isso não significa que as cidades gerem diversidade automaticamente, pelo simples fato de existirem. Elas a geram por causa das diversas e eficientes combinações de
usos econômicos que formam. (JACOBS, 2014, p.163)
Estudos de viabilidade econômica devem ser realizados para checar a aptidão das áreas para o desenvolvimento de usos diversos. Yeang (2000) ressalta a importância de serem realizadas avaliações quanto à compatibilidade entre usos propostos, de modo a evitar possíveis conflitos futuros. A hierarquia urbana também deve ser levada em conta, pois grande parte das cidades são divididas entre áreas centrais, zonas de transição e áreas periféricas. As zonas de transição são campo fértil para a ocorrência da diversidade de usos, pois fazem a ponte entre as zonas centrais e residenciais. Essas zonas geralmente compreendem as áreas com a maior variedade de usos, com incidência de comércios, serviços e residências. A dinâmica resultante da combinação entre as diversas atividades econômicas garante a diversidade social, fator importante para distribuição de diferentes tipos arquitetônicos ao longo dos setores urbanos.
Para Bentley et al. (2005), tanto empreendedores quanto planejadores urbanos estão interessados em espaços urbanos eficientes, e para que isso ocorra, a promoção de áreas com diversidade de usos é fundamental. Para maximizar a variedade de usos de uma área devem ser considerados três fatores principais:
• A gama de atividades que se deseja alcançar; • A possibilidade de fornecer espaços compatíveis
para abrigar essas atividades; e
• A criação de incentivos para interações positivas entre os diferentes usos.
Para Jacobs (2014), a existência de prédios antigos auxilia na compatibilização do espaço para a instalação de diferentes usos. Se uma área contiver apenas edifícios novos, as empresas que ali estarão terão que arcar com custos mais altos, referentes às novas edificações. Para a existência de uma diversidade de usos eficiente é necessária uma mistura de empresas com rendimentos altos, médios e baixos, assim, para que toda a gama de empresas consiga arcar com as despesas é necessária a mescla com prédios antigos. Bentley et al. (2005)
também defendem essa ideia e apontam que a variedade de alugueis gerada pelos edifícios de diferentes idades e condições possibilitam a existência de pequenos comércios e serviços. 2.1.3 Os supostos benefícios da diversidade de usos
Nas últimas décadas alguns autores vêm elencando aspectos positivos relacionados à existência de uma maior diversidade de usos do solo em áreas urbanas. Os benefícios aqui apresentados possuem diferentes graus de corroboração por evidências empíricas, mas são fundamentais para o entendimento da complexidade envolvendo a diversidade de usos.
Yeang (2000) traz alguns benefícios da incidência da diversidade de usos, como:
• Acesso facilitado a comércios e serviços;
• Diminuição nos congestionamentos ligados a viagens diárias a trabalho;
• Melhores oportunidades para interação social; • Comunidades com diversidade social;
• Estimulação visual resultante da combinação de diferentes tipos edilícios;
• Uma maior sensação de segurança, com os “olhos da rua”;
• Melhor eficiência energética e uso mais eficiente de espaços e edifícios;
• Maior escolha de localização e estilo de edifícios; • Vitalidade urbana; e
• Maior viabilidade econômica para pequenos negócios.
Para Coupland (1997), enquanto algumas vantagens da promoção da diversidade de usos podem ser aceitas como absolutas, outras podem ser consideradas verdadeiras apenas em certas circunstâncias. O autor divide as vantagens em definitivas e possíveis, sendo:
Definitivas:
• Promoção do uso de propriedades indesejadas ou obsoletas;
• Aumento da probabilidade da locação de edifícios próximos, devido à variedade de usos do entorno. Possíveis:
• Redução no número de viagens, promovida pela proximidade entre casa e trabalho;
• Redução da emissão de gases; • Sustentabilidade;
• Vigilância natural da rua e consequente redução do número de crimes.
Van den Hoek (2008) também traz argumentos a favor do desenvolvimento urbano com incentivo à promoção da diversidade de usos. Esses foram elaborados a partir de conversas com profissionais da área de política pública e desenvolvimento e desenho urbano. São eles:
• Ambientes com funcionalidade diversa criam espaços com vida e convenientemente acomodam atividades diárias;
• Com a mistura de residências e locais de trabalho, o tráfego de automóveis é diminuído, resultando em ambientes eficientes e seguros;
• A presença de usos residenciais e de trabalho pode aumentar o potencial de amenidades, tanto para o consumidor quanto para o empreendedor;
• Diferentes funções resultam em diferentes tipos de edificação, resultando em uma maior diversidade e riqueza espacial;
• A diversidade de usos leva a uma otimização do uso do solo, pois são utilizadas as vias e espaços públicos tanto para trabalho quanto para a moradia, durante boa parte do dia;
• A diversidade de usos em ambientes com alta densidade pode aumentar o potencial do uso do transporte público, aumentando a sustentabilidade;
• Ambientes com uma maior diversidade de usos podem se ajustar a diferentes atividades e, por isso, também contribuir para a sustentabilidade; e • Espaços com uma maior variedade de usos
oferecem mais flexibilidade para o desenvolvimento de estratégias de desenvolvimento urbano, pois residências e escritórios podem se adequar a demandas de mercado.
Para Bentley et al. (2005), a variedade de usos desencadeia outros níveis de diversidade. Um lugar com diversidade de usos acarreta em uma variedade de tipos arquitetônicos com formas distintas, além de atrair pessoas em diferentes horas por diferentes motivos. Esses fatores causam variedade perceptiva, fazendo com que diferentes usuários interpretem o espaço de diferentes maneiras. Os autores destacam que a variedade de usos é a chave para a diversidade como um todo.
A diversidade de usos está intimamente relacionada a um número substancial de estabelecimentos funcionando em horários variados, o que é essencial para garantir requisitos básicos de vigilância. Lojas, bares e restaurantes atuam de forma variada e complexa, aumentando a segurança nos espaços públicos (JACOBS, 2014). Para Rowley (1996), a diversidade de usos promove a qualidade urbana, fazendo os assentamentos mais atrativos, vivos e sustentáveis. Segundo o autor, lugares que contêm uma diversidade de usos tendem a ter uma maior variedade de tipos edilícios, auxiliando na promoção da legibilidade em pequena escala.
2.1.4 Os possíveis conflitos da diversidade de usos Alguns mitos quanto aos benefícios da diversidade de usos são questionados, pois sua existência inevitavelmente traz alguns conflitos. Diferentes tipos de usos requerem suportes e necessidades distintas, o que faz com que nem todas as combinações se tornem apropriadas (YEANG, 2000).
Para Jacobs (2014), as combinações de usos existentes em uma cidade não são sinônimo de caos, mas sim, uma representação de uma organização complexa e desenvolvida. A autora faz uma reflexão quanto à relação entre a diversidade de usos e os usos nocivos, levando em conta alguns tipos de usos problemáticos, como os ferros-velhos, que se instalam em grandes áreas e não trazem nenhum retorno positivo ao espaço urbano. Para a autora, esses tipos de usos, considerados decadentes, se instalam em locais que não contêm magnetismo e movimento de pedestres. Ou seja, não se soluciona o problema da existência desses tipos de uso temendo a diversidade ou buscando sua extinção, mas sim formando e cultivando um ambiente econômico fértil para a diversidade urbana.
A outra categoria de usos que por alguns é vista como nociva é composta por bares, teatros, clínicas e fábricas, entre outros. Jacobs (2014) não interpreta essa categoria de tal modo, afirmando que essa visão provém dos efeitos resultantes de sua existência em subúrbios e área monótonas. Para a autora, em distritos movimentados esses usos “são indubitavelmente necessários, seja por sua contribuição direta para a segurança, para o contato público e a interação de usos, seja porque ajudam a sustentar a outra diversidade que recebe esses efeitos diretos” (JACOBS, 2004, p.255).
A maioria dos usos apresenta compatibilidade lado a lado, muitas das justificativas utilizadas para suas separações já não se sustentam. Alguns ainda são incompatíveis por causa de fatores como barulho e geração de tráfego, enquanto outros são incompatíveis devido ao status social que representam quando inseridos em determinados espaços.
2.1.5 Evidências empíricas
Foi desenvolvida uma pesquisa para investigar a literatura existente quanto aos efeitos da diversidade de usos na vitalidade urbana e, assim, contribuir para a construção de uma visão menos fragmentada sobre o tema. Para
desenvolvimento da pesquisa foi utilizada como base a revisão sistemática de literatura2.
Modos de Deslocamento
Conforme pode ser visto no Quadro 1, os primeiros estudos que buscaram explorar a relação entre a existência da diversidade de usos e o modo como se realizam os deslocamentos foram desenvolvidos nos Estados Unidos, em meados da década de 90. Os resultados obtidos nesses trabalhos revelam que a existência de comércios e serviços aumenta a probabilidade de uma viagem ser feita de modo ativo, e em áreas compactas, a diversidade de usos pode encorajar viagens não motorizadas. Quando analisados os efeitos da diversidade de usos nos deslocamentos não motorizados, constatou-se que há uma relação positiva pela escolha da bicicleta, além de ser um forte influenciador pela opção do caminhar (CERVERO, 1996; CERVERO; KOCKELMAN, 1997; CERVERO; DUNCAN, 2003).
Corroborando com essas evidências, outros estudos apontam que a diversidade de usos tem efeito positivo nos deslocamentos realizados por meio de caminhadas, bicicletas, e transporte coletivo, sejam eles realizados por motivo de trabalho, lazer ou estudo (DUNCAN et al., 2010; WINTERS et
al., 2010; MCCONVILLE et al., 2011; LARRANAGA; CYBIS,
2014; CHRISTIANSEN et al., 2016; CHAKRABARTI; SHIN, 2017; GEHRKE; CLIFTON, 2017; NOONAN et al., 2017).
Apesar dos efeitos positivos apontados, também foram encontrados alguns efeitos negativos associados à existência da diversidade de usos. Para Cervero (1996), quando os comércios e serviços estiverem afastados das unidades de habitação, ou seja, com distâncias maiores de deslocamento, a
2 O método utilizado foi o SSF – Systematic Search Flow
(FERENHOF ; FERNANDES, 2016), e seus resultados serão divulgados em forma de artigo em periódico, atualmente em elaboração. Neste trabalho, descrevemos apenas os resultados principais alcançados até o momento.
diversidade induz o deslocamento por meio de veículos particulares. Já para Grasser (2017), a densidade de unidades habitacionais e a proporção de áreas de uso misto de um recorte têm associação positiva com os deslocamentos realizados a pé, no entanto, a diversidade de usos – representada pelo índice de entropia – não apresenta nenhuma associação.
Quadro 1 – Evidência empírica dos efeitos da Diversidade de Usos em estudos relacionados aos modos de deslocamento.
Autores Dependente(s) Variável(eis) Efeitos na Vitalidade Urbana
Cervero, R. (1996) Escolha modal nas áreas metropolitanas (EUA)
• A probabilidade de ser feito um deslocamento não-motorizado aumenta significativamente à medida que a densidade aumenta e onde há comércio e outras atividades
não-residenciais na vizinhança próxima;
• Se o comércio e serviço estiverem localizados na proximidade das unidades de habitação, os trabalhadores são mais propensos a fazerem a viagem por meio de transporte coletivo, a pé ou de bicicleta. No entanto, com distâncias
maiores, a diversidade de usos parece induzir o deslocamento por meio de veículos
particulares;
• A densidade e a diversidade de usos tendem a reduzir as taxas de proprietários de veículos. Cervero, R. and Kockelman, K. (1997) Modo de deslocamento dos residentes da Baía de São Francisco (EUA)
• Áreas compactas, com
diversidade de usos e desenho urbano favoráveis aos pedestres, podem diminuir as taxas de viagens por veículos
motorizados e encorajar as viagens não motorizadas;
• A diversidade tem um impacto modesto na demanda de viagens; entretanto, quando foi significativa, suas influências foram mais fortes do que a densidade;
• Ter atividades de varejo compreendidas dentro dos bairros foi mais associado à escolha de viagens com o propósito de trabalho. Cervero, R. and Duncan, M. (2003) Viagens não-motorizadas na Baía de São Francisco (EUA)
• A diversidade de usos foi positivamente associada à decisão pela escolha da bicicleta como modo de transporte. A diversidade balanceada com número de residências e empregos nos pontos de origem das viagens também contribui para o uso de bicicletas; • Dentre os fatores do ambiente
construído, a diversidade de usos na vizinhança do usuário foi o fator que influenciou de forma mais forte a opção pelo caminhar. Duncan, M. J. et al. (2010) Deslocamentos a pé (Austrália)
• A diversidade de usos do solo apresentou associações significativas com pelo menos um resultado positivo: a prática de caminhadas; Winters, M. et al. (2010) Modos de deslocamentos saudáveis (bicicletas versus carros) em Vancouver (Canada)
• Nas zonas de destino um alto percentual de áreas
educacionais e comércios de bairros com uma menor
concentração de usos de grandes lojas estava mais associado a uma maior probabilidade do uso de bicicletas; Larranaga, A. M. and Cybis, H. B. B. (2014) Deslocamentos motorizados e a pé de acordo
• Em viagens sem o propósito de ida ao trabalho ou ao estudo, uma melhor conectividade entre as ruas, comércios e serviços
com o propósito da viagem – Porto Alegre (Brasil)
próximos e uma boa diversidade de usos do solo contribuem para os deslocamentos serem feitos a pé. Gehrke, S. R. and Clifton, K. J. (2014) Modo de deslocamento em Portland, Oregon (EUA) • Se comparada à decisão de dirigir sozinho, o maior equilíbrio entre os usos residenciais e não residenciais aumenta significativamente a probabilidade de um indivíduo utilizar a bicicleta, caminhar, ou utilizar o transporte coletivo a partir de sua residência.
Sung, H. et al. (2014) Deslocamentos feitos a pé em Seoul (Coréia do Sul) • Para um raio de 250m e 500m, a diversidade de usos do solo é positivamente associada com a frequência da prática de caminhadas de 10 minutos. Para um raio de 1Km a
diversidade de usos do solo não mostrou uma associação significativa. Sung, H. et al. (2015) Atividades de caminhar e dirigir em dias de semana em Seoul (Coréia do Sul) • A diversidade de usos e um índice de balanço entre usos residenciais e não-residenciais não mostraram associação significativa pela escolha do caminhar ao invés do dirigir. No entanto, foi encontrada uma relação positiva entre a
diversidade de usos e o índice de diversidade de tipos edilícios. • A proximidade com edificações
comerciais encoraja atividades de caminhada. Sung, H. and Lee, S. (2015) Deslocamentos feitos a pé em Seoul (Coréia do Sul)
• Caminhadas são mais comuns em áreas residenciais onde usos não-residenciais e residenciais estão misturados. A prática de caminhadas é menos comum em áreas onde apenas usos não-residenciais existem.
Bahadure, S. and Kotharkar, R. (2015) Acessibilidade a destinos (Índia)
• Áreas com alta diversidade de usos possibilitam viagens mais curtas, menor número de veículos por proprietário e custos menores em deslocamento.
• Apesar do estudo apontar que ambientes com alta diversidade de usos são sustentáveis do ponto de vista dos
deslocamentos realizados, a pesquisa mostrou que os residentes preferem não morar nesses bairros; as pessoas preferem morar em bairros com a diversidade de usos moderada.
Steinmetz-Wood, M. and Kestens, Y. (2015) Deslocamento ativo (a pé ou de bicicleta) em Montreal (Canadá) • Se a rota de um deslocamento estiver compreendida no segundo, terceiro ou quarto quartil da conectividade ou da densidade de serviços, será maior a chance do deslocamento ser feito de forma ativa (a pé ou de bicicleta). No entanto, se a viagem estiver no segundo, terceiro ou quarto quartil da diversidade de usos do solo, diminui a probabilidade do deslocamento ser feito de forma ativa. Manoj, M. and Verma, A. (2016) Distância das viagens e modo de deslocamento em pessoas que não trabalham (Índia) • O aumento da diversidade de usos do solo tem efeito negativo na distância percorrida para a participação em atividades pessoais ou domésticas. • Tendo como base as distâncias
percorridas, as pessoas que não trabalham e possuem um veículo têm uma maior
sensibilidade para um aumento da diversidade de usos do solo McConville,
(2016) Montgomery
(EUA) de ½ ou ¼ de milha mostrou associações positivas com os deslocamentos a pé. Christiansen, L. B. et al. (2016) Deslocamentos feitos a pé e por bicicletas (Austrália, Bélgica, Brasil, Colômbia, República Tcheca, Dinamarca, México, EUA, Nova Zelândia e Reino Unido)
• Foram encontradas associações positivas entre diversidade de usos e deslocamentos a pé e por meio de bicicletas. Comparando com pessoas em áreas com um único uso (residencial), aqueles que vivem em áreas com proporções iguais de residência, comércio e usos institucionais eram 1,5 vez mais propensos a fazer os deslocamentos a pé. Boulange, C. et al. (2017) Modos de deslocamento em Melbourne (Australia) • As chances de utilização do veículo motorizado privado reduzem significativamente quando existe uma maior diversidade de usos do solo. Chakrabarti, S. and Shin, E. J (2017) Modo de deslocamento de estudantes até a escola em Massachusetts (EUA) • Considerando o modo de deslocamento de estudantes até a escola, a diversidade de usos ao longo do percurso foi positivamente associada com o modo de deslocamento feito a pé. Zandieh, R. et al. (2017) Prática de caminhadas externas em idosos em Birmingham (Reino Unido)
• Nas análises quantitativas, a diversidade de usos do solo foi positivamente associada à prática de caminhadas externas em idosos apenas em área com baixa segregação.
• Em análises qualitativas, os participantes apontaram como sendo importante a proximidade das residências com comércios e instituições religiosas. Em locais com alta segregação, a presença de certos usos (comércio, parques, restaurantes e cafés) não atraem as pessoas para a prática de caminhadas. O oposto
ocorre em áreas com baixa segregação. Grasser, G. et al. (2017) Deslocamentos feitos a pé e de bicicleta em Graz (Áustria) • Densidade de unidades habitacionais e proporção de diferentes tipos de uso do solo foram positivamente associados com o deslocamento a pé. • Nenhuma associação foi
encontrada com a diversidade de usos (índice de entropia) e o deslocamento por caminhadas.
Kim, T. et al. (2017) Deslocamentos feitos a pé nas proximidades das estações de metrô em Seoul (Coréia do Sul)
• Na escala do bairro, o efeito da diversidade de usos do solo no tráfego de pedestres apresentou associações positivas apenas para distâncias de 800m a 1000m a partir da estação de metrô.
• No nível da rua, a diversidade de usos foi positivamente associada com o volume de tráfego de pedestres nas distâncias de 400m ou menos a partir da estação de metrô, e no intervalo de 400-800m. Noonan, R. J. et al. (2017) Deslocamento ativo até a escola em Liverpool (Inglaterra)
• Quando os pais têm a percepção de que os bairros têm ruas bem conectadas ou com diversidade de usos do solo, há uma maior probabilidade de o deslocamento ser feito de forma ativa até a escola.
Fonte: Elaboração da autora, 2018.
Prática de Atividades Físicas
Conforme ilustra o Quadro 2, vários são os estudos que apontam que pessoas que vivem em locais com maior diversidade de usos do solo tendem a ser mais adeptas da prática de atividades físicas (FRANK; ENGELKE, 2005; LI, F.
et al., 2008; LOVASI et al., 2011; LOVASI et al., 2012; VAN
2017; TROPED et al., 2017). Para Moudon (2007), o aumento de caminhadas está relacionado com a existência de alguns usos específicos, como mercearias/mercados, locais de comer e beber e bancos.
No estudo desenvolvido por Kaczynski (2010), diferente da expectativa inicial dos autores, os resultados apontam que uma maior diversidade de usos no entorno de um parque foi negativamente associada à probabilidade de ele ser usado para atividades físicas. Segundo os autores, isto deve ser melhor investigado, pois o resultado pode ser consequência da posição do parque nas cidades – locais com baixa diversidade de usos tendem a ser mais residenciais, e em consequência, mais viáveis para a prática de atividades diárias. Já para Wei, Y. D. et al. (2016), diferente do que apontam os outros estudos, a diversidade de usos do solo não foi relacionada à prática de atividades físicas em nenhuma escala geográfica. A maioria dos estudos, entretanto, indica essa associação.
Quadro 2 – Evidência empírica dos efeitos da Diversidade de Usos em estudos relacionados à prática de atividades físicas.
Autores Dependente(s) Variável(eis) Efeitos na Vitalidade Urbana Frank, L. D. et al. (2005) Atividade física em Atlanta (EUA)
• As pessoas são mais ativas fisicamente e mais adeptas a cumprir a recomendação de caminhadas diárias quando vivem em bairros com boa oferta de comércios e serviços. Moudon, A. V. et al. (2007) Caminhadas em bairros em King County (EUA)
• Viver próximo a uma
mercearia/mercado, a um local de comer ou beber, e perto de um banco, foi correlacionado a um aumento de caminhadas no bairro. No entanto, ter muitas mercearias perto de casa foi negativamente associado com os deslocamentos feitos a pé. Li, F. et al. (2008) Atividades físicas em gerações pré e pós crescimento
• Bairros com baixa diversidade de usos e alta densidade de fast-food têm maior probabilidade de terem residentes acima do peso ou
populacional em
Portland (EUA) • Usuários de bairros com alta obesos. diversidade de usos, alta conectividade viária, melhor acesso a estações públicas de transporte e mais espaços abertos e verdes para recreação
apresentam maior probabilidade de se empenharem em participar de caminhadas e obedecer a recomendações de práticas de atividades esportivas. Kaczynski, A. T. (2010) Atividade física e disponibilidade de parques (Canadá)
• Análises mostraram que uma maior diversidade de usos no entorno de um parque foi negativamente associada à probabilidade de um parque ser usado para a prática de
atividades físicas;
• Parques com baixa diversidade de usos no entorno são
significativamente mais
suscetíveis de serem usados para a prática de atividades físicas. Troped, P.
J. et al. (2010)
Atividade física (EUA)
• Altos valores de diversidade de usos estão associados a altos níveis de atividade física moderada no buffer de 1Km a partir do ponto de origem da viagem; Lovasi, G. S. et al. (2011) Atividade física e obesidade em crianças da pré-escola em meio urbano em Nova Iorque (EUA)
• Diversidade de usos do solo, paradas de metrô, segurança ao pedestre, ruas com árvores e parques, têm uma associação positiva com uma maior média de atividades; Boarnet, M. G. et al. (2011) Atividades físicas e caminhadas (EUA)
• Maior prática de atividade física está associada a locais com poucos edifícios verticais com diversidade de usos (versus muitos ou nenhum); shoppings e sequências de lojas; restaurantes drive-through; locais para
práticas esportivas; e estruturas para estacionamento, que, quando presentes, têm o estacionamento como o uso predominante no nível da rua; • Edifícios contendo diversidade de
usos vertical – usos diferentes em pavimentos distintos –
mostraram-se positivamente associados a viagens por motivo de lazer;
• Edifícios contendo diversidade de usos vertical não mostrou associação com o total de
caminhada e com caminhadas por lazer; Van Dyck, D. et al. (2012) Frequência e duração da Atividade Física (PA). Caminhada e bicicleta para fins de transporte. (Bégica e EUA)
• Medidas de diversidade de usos foram positivamente relacionadas a caminhadas em Ghent e Seattle, e marginalmente relacionadas em Baltimore; Hajna, S. et al. (2013) Percepção da caminhabilidade (Canadá)
• Baixa correlação entre diversidade de uso do solo e percepção de caminhabilidade; Wei, Y. D. et al. (2016) Atividade física em Utah (EUA)
• A diversidade de usos do solo não foi relacionada à prática de atividades físicas em nenhuma escala geográfica. Cerin, E. et al. (2017) Atividade física (Austrália, Bélgica, Brasil, Colombia, República Tcheca, Dinamarca, China, México, Nova Zelândia, Espanha, Reino Unido e EUA)
• A diversidade de usos do solo foi positivamente associada à prática de atividades físicas em mulheres empregadas e em homens, independente do seu status de trabalho.
Troped, P. J. et al. (2017) Caminhadas em mulheres idosas (EUA)
• Mulheres idosas que moram em áreas residenciais com maior densidade populacional e maior concentração de lojas e serviços têm uma maior percepção positiva da diversidade de usos, o que, em consequência, gera mais caminhadas utilitárias e à lazer. Thornton, C. M. et al. (2017) Atividades físicas em idosos (EUA)
• Maior diversidade de usos do solo foi positivamente associada a caminhadas que tinham como destino um propósito específico. Fonte: Elaboração da autora, 2018
Outros Fatores
O Quadro 3 apresenta estudos que verificaram os efeitos da diversidade de usos em outros contextos. Brown, B. B. et al. (2009) obtiveram relações positivas quando correlacionada a diversidade de usos com o índice de massa corporal, e Gidlow et al. (2010) e Zhao e Chung (2017) encontraram associações positivas entre a saúde física e o acesso a locais com diversidade. A existência da diversidade de usos também foi positivamente relacionada com índices de segurança e caminhabilidade, além de mostrar ser benéfica para a saúde física e doenças crônicas, como a obesidade, diabetes e hipertensão (LESLIE; CERIN, 2008; SU et al., 2016). No âmbito da mobilidade urbana, a diversidade mostrou influenciar no aumento do volume de bicicletas, e na promoção do deslocamento ativo entre paradas de transporte coletivo e destinos não residenciais (CHEN; ZHOU; SUN, 2017; WANG; CAO, 2017).
Apesar dos efeitos benéficos, Wood et al. (2010) apontam que pessoas que vivem em áreas com maior diversidade de usos tendem a ter um senso de comunidade menor, e Botticello et al. (2014) constatam que a incidência da diversidade de usos tem efeito negativo na integração social e na independência física na participação comunitária de adultos com mobilidade reduzida adquirida.