UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
EDUARDO ELIAS ERTHAL
CREDIBILIDADE NO JORNALISMO ONLINE
Ijuí 2012
EDUARDO ELIAS ERTHAL
CREDIBILIDADE NO JORNALISMO ONLINE
Monografia apresentada ao Curso de Comunicação Social – Jornalismo da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ, como requisito parcial à obtenção do título de bacharel em Jornalismo.
Orientador: Marcio da Silva Granez
Ijuí 2012
EDUARDO ELIAS ERTHAL
CREDIBILIDADE NO JORNALISMO ONLINE
Monografia apresentada ao Curso de Comunicação Social - Jornalismo da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul - Unijuí
Data de aprovação:___/___/___
Banca Examinadora:
____________________________________ Profº Marcio da Silva Granez (orientador)
____________________________________ Profª Lisandra Portela Steffen (arguidora)
____________________________________ Profº André de Oliveira Gagliardi (suplente)
AGRADECIMENTOS
Agradeço, em primeiro lugar, a minha família, pois sem ela a realização deste trabalho não seria concretizada. Em segundo lugar, minha namorada Lúbia, que esteve sempre ao meu lado. Agradeço também os professores, dos quais possuo admirável respeito, pois nunca me negaram uma explicação e sempre conceberam especial motivação em cada trabalho produzido.
Obrigado aos meus colegas, parceiros e amigos que possuo e conquistei durante esta inesquecível trajetória. Sem a ajuda deles, os trabalhos não seriam concretizados e não seriam tão prazerosos de realizar como foram.
Meu muito obrigado, enfim, a todos aqueles que, de uma ou outra maneira, tornaram este sonho uma realidade.
RESUMO
A Sociedade da Informação, da qual a maioria de nós faz parte, hoje, exige velocidade em tudo que é produzido. No jornalismo online esta máxima é ainda mais presente. Contudo, ao primar pela instantaneidade das informações, a qualidade é a principal comprometida neste processo. Desta forma, o presente trabalho elabora uma série de fatores que podem ajudar, principalmente, os jornalistas, a transmitirem suas informações com conteúdo e disciplina, conquistando, assim, credibilidade junto ao público. Por meio da verificação exata dos fatos, compromisso com a verdade, respeitando a dignidade humana e primando pelo interesse público, o jornalista pode agregar, ao longo do tempo, confiança à suas informações, tornando o veículo, inserido no ambiente online, para o qual atua, digno de credibilidade.
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ... 8
2. A PLATAFORMA E O PROFISSIONAL ... 10
2.1OJORNALISMOONLINE ... 10
2.2 O JORNALISTA MULTIMÍDIA ... 14
3. DEONTOLOGIA E ÉTICA DA INFORMAÇÃO ... 19
3.1 ÉTICA, MORAL E DEONTOLOGIA ... 20
3.2 ORIGEM DOS CÓDIGOS DEONTOLÓGICOS ... 22
3.3 O CONTEÚDO DOS CÓDIGOS ... 24
3.3.1 Missão da imprensa ... 26
3.3.2 Liberdade de imprensa ... 26
3.3.3 Verdade como dever fundamental ... 29
3.3.4 Respeito pela dignidade humana ... 32
3.4 RESPEITO AOS CÓDIGOS ... 33
4. A BUSCA DA CREDIBILIDADE ... 35
4.1 CONTEÚDO E QUALIDADE NAS INFORMAÇÕES ... 35
4.2PARTICIPAÇÃODOPÚBLICO ... 39
4.3 A FIGURA DO EDITOR ... 42
4.4VELOCIDADEDASINFORMAÇÕES ... 43
5. CONCLUSÃO ... 48
REFERÊNCIAS ... 50
ANEXO 1 – CÓDIGO DE ÉTICA DOS JORNALISTAS BRASILEIROS ... 52
ANEXO 2 – ENTREVISTA AMAURI KNEVITZ JR./CORREIO DO POVO... 58
1. INTRODUÇÃO
A comunicação é um processo contínuo de transformação. Respiramos, hoje, a chamada Sociedade da Informação, na qual compartilhamos, a todo instante, milhares de bytes, ou dados, ou, o que nos interessa: informação. A maioria de nós vive a efervescência de uma era tecnológica. Não há melhor oportunidade de conectar a comunicação com a tecnologia.
Por isso, novas oportunidades de trabalho estão sendo criadas a partir das relações virtuais. Por outro lado, muitas das profissões já migraram ou ainda estão migrando para o ambiente digital. Isto é o que vem acontecendo com o jornalismo: novos empregos e segmentos da informação; antigos cargos com novas funções e assim por diante.
Nossa pesquisa neste estudo manter-se-á restrita ao jornalismo conhecido como online. Muitas análises são construídas a partir deste assunto, tanto focadas apenas no caráter técnico quanto este aliado à prática e à teoria. Todos argumentam que o ambiente online é muito frágil, devido às mudanças constantes sob o efeito de novas tecnologias.
Para tanto, torna-se cada vez mais difícil pensar em ações e projetos a longo prazo na perspectiva digital. É necessário, contudo, que alguns ideais sejam mantidos ou mesmo haja a tentativa de consolidá-los. Para o jornalismo online, especialmente, uma característica que precisa ser almejada pelos veículos de comunicação é a credibilidade.
Neste caso, existem alguns passos que um veículo precisa seguir no caminho em busca da credibilidade e, consequentemente, obter um sucesso “social” e até econômico. Por sua vez, este trabalho pretende discutir apenas as formas que competem ao estudo da área da comunicação.
Neste sentido, a presente monografia irá abordar o papel dos jornalistas e dos veículos neste processo de construção da credibilidade. Numa sociedade da informação regida pela agilidade e rapidez, os mesmos vêm transmitindo informações sem qualidade, deixando o público confuso e com um sentimento de desconfiança.
Desta forma, num primeiro momento vamos tentar compreender a plataforma na qual o jornalismo online está inserido. Isto é, observar algumas mudanças que
surgiram ao longo do caminho, a partir da adoção e adaptação de uma ideologia tecnicista. A partir daí, verificar-se-á transformações que dizem respeito ao trabalho do jornalista e novas funções agregadas ao profissional.
Em seguida, deixaremos de lado os aspectos tecnológicos e vamos refletir a cerca dos princípios e valores que norteiam a profissão do jornalista. Buscar-se-á definir parâmetros e conceitos sobre as normas estabelecidas aos profissionais da mídia e estabelecer os verdadeiros significados dos códigos aos jornalistas.
Por fim, a partir da compreensão dos estudos descritos acima, procurar-se-á desenvolver opções aplicáveis aos jornalistas, que, por sua vez, servirão como base para aqueles que desejam, em meio ao turbulento universo online, construir e oferecer credibilidade, tanto às informações-notícias quanto à própria instituição midiática em si.
Não mais que isso, este trabalho não é um “manual de como alcançar a credibilidade”. É, porém, uma simples análise crítica de como o jornalista deve encarar seu trabalho num futuro próximo, a partir do entendimento de seu papel como função social.
2. A PLATAFORMA E O PROFISSIONAL
“Além de uma preparação técnica diversificada, para dominar pelo menos os instrumentos básicos de produção multimédia, o jornalista vai necessitar ainda de melhor preparação intelectual. Porque tudo lhe vai ser exigido” – Anabela Gradim.
A tecnologia transformou o mundo. São novos hábitos de viver, novas maneiras de consumir, novas formas de se comunicar. Entre tantas mudanças, o jornalismo está se redescobrindo, no que diz respeito à transição do offline para o online.
Nesta nova fase, os protagonistas são os jornalistas, que veem sua profissão e rotina de trabalho afetadas e tem de absorver novas funções que antes não lhes eram direcionadas. A missão é tornar o jornalismo online dinâmico, sem perder as tradicionais tarefas de informar e comunicar com qualidade.
2.1 O JORNALISMO ONLINE
A mídia online tornou-se o objeto de estudo de vários pensadores e críticos, não só da sociedade intelectual do ambiente comunicacional, como de praticamente toda a esfera pensante das áreas sócio-educativas. A maior discussão se concentra, sobretudo, em formas de obter lucros econômicos advindos do ambiente digital.
Desta forma, a Internet acumula em sua plataforma diversos serviços e o povo conectado “Vê fotos, assiste a vídeos, paga contas, faz compras, vota no próximo eliminado do big brother e faz fofoca. Tudo isso às vezes no meio tempo de um download de música” (SILVA, 2010, p. 43).
Pode-se perceber que são várias atividades ao mesmo tempo e, realmente, é isso que ocorre com quem está sentado em frente ao computador, com quem possui um smartphone ou um tablet. Além destas opções, é tudo muito rápido, cada vez mais instantâneo. Com o jornalismo não é diferente.
Falamos aqui do jornalismo online, aquele que além de ser apenas a transposição das versões impressas e offline para o formato eletrônico, como também “O jornalismo produzido especificadamente na e para a Web, e a que também se tem vindo a chamar “ciberjornalismo”, “webjornalismo” ou “jornalismo na internet” (SERRA, 2003, p. 349).
Este jornalismo é o que promove a notícia instantânea. Não podemos, no entanto, esquecer que esta relação já acontece há mais tempo. Claro que cada época viveu a sua instantaneidade, como, por exemplo, na era do rádio ou na da televisão, porém nada comparado com o que presenciamos hoje.
Além de toda esta rapidez, a quantidade de informações que são geradas no ambiente virtual nunca foi tão expressiva. Nos portais de notícias, blogs, vlogs, flogs e nas redes sociais é possível compartilhar informações 24 horas por dia, sete dias por semana.
Hoje, as pessoas conectadas recebem cerca de sete exabytes de dados por dia (o equivalente à capacidade de armazenamento de 1,4 bilhões de computadores pessoais), o que, como explica Cardoso (2010), é impossível de ser absorvido e/ou utilizado nessa verdadeira enxurrada de conteúdo, por mais “organizada” que seja.
Sendo assim, há um receio do internauta em se basear nas notícias disponíveis, grosso modo, espalhadas pela rede. Conforme Soares (2010, p. 40), “É natural que, diante de um cenário de mudanças, o ser humano sinta insegurança e apreensão”, pois não está - embora devesse estar - presente em nossa cultura confiar nas informações que nos são transmitidas.
Além disso, não são apenas os grandes jornais que detêm todo o controle da informação, pois “O internauta também produz conteúdo, essa é a chamada web 2.0” (SILVA, 2010, p. 43). Não existem mais barreiras além do contato físico, “A palavra chave é multimídia. [...] As pessoas postam fotos, vídeos, recados, mantêm um blog, fazem debates, propaganda, desenham, jogam, conversam, se olham...” (SILVA, 2010, p. 43).
O leitor digital também possui algumas peculiaridades quanto a sua leitura. Para entendê-los é preciso conhecê-los. São adolescentes e jovens adultos com até 30 anos1. Segundo Anabela Gradim (2003, p. 126), eles “Veem e leem menos
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notícias, sabem menos do que se passa no mundo à sua volta, e o seu interesse por tais temas não tenderá a desenvolver-se com o passar dos anos”.
Ainda, conforme Gradim (2003), oitenta por cento destes leitores conduzem sua leitura visualmente, destacando apenas algumas palavras e frases. Não é difícil saber o porquê de microblogs como o “Twitter”, ou mesmo as redes sociais funcionarem tão bem com este público, que se vê pressionado a escrever tanta coisa em até 140 caracteres.
Desta forma,
A escrita para a Web vai acompanhar estas mutações, privilegiando textos ainda mais curtos e directos; palavras sublinhadas ou destacadas por cores, o hiperlink [...]. As actualizações devem ter sempre em conta a criação de um contexto, ao invés de irem sendo empilhadas à medida que o acontecimento decorre (GRADIM, 2003, p. 127).
Por isso, os textos na Web devem conter, preferencialmente pensando neste público,
Uma ideia por parágrafo e o recurso a uma ou várias pirâmides invertidas; uma escrita semelhante à da televisão e não redundante relativamente aos restantes elementos que compõem a peça (links para outros textos, fotos, áudio, vídeo) (GRADIM, 2003, p. 127).
Além destas transformações no modo de produzir a notícia, o mais importante é o papel do internauta, o qual se torna mais exigente, pois possui conhecimento técnico, porque ele também pode ser um produtor.
[...] O leitor quando busca na internet uma matéria sobre um escândalo qualquer, quer mais, [...] um recorte substancial, de preferência com links que o levem a perfis e histórico de todos envolvidos. Para após isso não só tirar suas conclusões como opinar, seja no seu próprio blog ou no blog do jornal (SILVA, 2010, p. 44-45).
De tal modo, o leitor de um blog, o ouvinte de uma Webrádio ou o telespectador de um vídeo no “YouTube”, pode ser o mesmo que escreve para o blog, seleciona as músicas da Webrádio e que posta o vídeo na rede. O antigo receptor agora também é emissor e vice-versa, constantemente.
Ainda muito mais que um produtor, o internauta, que antes era apenas audiência, constrói a sua própria audiência ao emitir opiniões e divulgar informações. Neste sentido, Penido explica que à medida que a audiência produz conteúdo ela
“Exerce o peso de sua influência na polarização dos discursos, na disseminação de informações e na reorganização das narrativas jornalísticas” (PENIDO, 2010, p. 169).
É uma inversão de papéis. Tanto o jornalista quanto o “prosumidor”, como Penido define o produtor e consumidor de informações, detêm o poder da palavra. Portanto,
O jornalista precisa também pensar e trabalhar a organização de múltiplas narrativas em linhas de leitura, trabalhando em conjunto com seu público prosumidor, na tarefa de dar sentido e forma ao caos informacional em explosão na Internet dos dias de hoje (PENIDO, 2010, p. 169).
É, talvez, por esta ideia de cultura livre2, como sustenta Lawrence Lessig, que está presente em nossa cultura pensar que tudo está ao alcance de todos na Web. Mas é necessário ser entendido que entre tantos serviços no mundo digital, o jornalismo é mais um a engrossar esta lista e, por sinal, um dos que mais rendem acessos. A notícia, porém, ficou desvalorizada, ou seja, perdeu seu valor como mercadoria.
As informações que comentamos até agora, disponíveis gratuitamente na rede, não continuaram sendo uma “moeda de troca” como os demais serviços. Fonseca cita Ciro Marcondes Filho, o qual afirma que a informação por si só não é mercadoria e primeiro ela precisa ser transformada em notícia para, então, ser vendida como tal.
O autor de O Capital da Notícia também denuncia o valor de uso e o valor de troca da informação jornalística nas sociedades capitalistas. [...] Chama a atenção, entretanto, para o diferencial da mercadoria notícia em relação a outros produtos. As mercadorias, para Marx, são de fato a forma elementar de riqueza do capitalismo, mas uma informação pura e simples não é mercadoria; a informação precisa antes ser transformada em notícia e vendida como mercadoria (FONSECA, 1995, p. 3).
A relação do capital com a notícia surgiu já no início da imprensa, como ainda explica Ciro Marcondes Filho, citado por Fonseca (1995, p. 1), quando a imprensa “Na sociedade capitalista é uma instituição-suporte, tanto que é impossível pensar o
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Estudo que deu origem ao projeto Creative Commons, que visa rever os conceitos de direito autoral e copyright por meio de um conjunto de licenças. Para mais informações, recomenda-se a leitura do livro Cultura Livre: Como a Grande Mídia Usa a Tecnologia e a Lei Para Bloquear a Cultura e Controlar a Criatividade (2004), de Lawrence Lessig.
capitalismo sem imprensa, [...] da mesma forma que seria impossível pensar numa imprensa sem capitalismo”.
Tendo isso em vista, as atividades no setor estão centralizadas em atrair fiéis consumidores de notícias dos veículos tradicionais - entenda-se por jornal e revista impressos, rádio e televisão - para os meios digitais e, o principal, que paguem por este serviço.
Seguindo este embalo de um “tsunami” de informações, alguns jornais, especialmente aqueles que atuam tradicionalmente no formato impresso, começaram a disponibilizar, além de informações atualizadas, também as edições digitais em seus sites. Desta forma, estes veículos foram - e ainda estão - criando o hábito de leitura na tela.
De alguns anos para cá, os jornais passaram a cobrar por este conteúdo digital. Hoje, o número de assinantes de edições digitais já é significativo e outras formas de tornar o jornalismo online viável financeiramente vêm sendo discutidas. No entanto, este não é o foco do nosso trabalho, que apenas discutirá as alternativas que cabem ao jornalismo de produzir conteúdo online de relevância, para que, mais tarde, o veículo obtenha credibilidade junto ao público, o que pode ser, então, uma alternativa em busca de capital econômico.
Neste sentido, Silva abre uma discussão muito pertinente sobre o assunto: “Por que pagar por informação se podemos obtê-la de graça na internet? A resposta é: pela credibilidade da informação” (SILVA, 2010, p. 55). Pensando nisso, a seguir discutiremos o papel do profissional jornalista neste processo.
2.2 O JORNALISTA MULTIMÍDIA
A função de jornalista pode ser considerada uma das profissões mais afetadas no que diz respeito à rotina e, especialmente, na forma de produzir conteúdo nos tempos de Internet. O jornalista do século 21 é também chamado de “jornalista multimídia”.
O homem dos mil e um recursos, trabalha sozinho, equipado com uma câmara de vídeo profissional, telefone satélite, laptop com software de edição de vídeo e html, e ligação sem fios à internet (GRADIM, 2003, p. 117).
O jornalista já deixou a tempo de ser somente papel e caneta. Possui um emaranhado de suportes que o auxiliam na captação de diferentes formatos de uma mesma informação. Hoje é praticamente impensável um repórter, por exemplo, não conseguir um áudio, uma foto e até um vídeo do fato que está apurando.
Não bastasse este emaranhado de aparatos tecnológicos, ainda são somadas a este novo profissional outras exigências, como produzir “Para três ou quatro meios diferentes, que escrevam belas prosas para o jornal, realizem vivos para a TV, e sejam entrevistados pela rádio do grupo” (GRADIM, 2003, p. 122).
Pode-se perceber que a técnica vem ditando as regras do jogo. A tecnologia vem construindo e aperfeiçoando novos formatos de propagar a notícia.
O áudio visual é hoje uma forma de comunicação acessível e, cada vez mais, tão importante quanto a escrita. É indispensável ao jornalista atual ter domínio dessa linguagem, tanto para produzir quanto para consumir notícias (NATAL, 2010, p. 164).
O domínio de todas estas ferramentas se deve pelo fenômeno da convergência dos meios de comunicação, ou seja, diz respeito ao acesso, por diversas mídias, ao mesmo conteúdo, a mesma informação. Isto vem sendo chamado de cultura da convergência3. E esta convergência é que vem criando um tipo radicalmente novo de jornalismo, o multimídia, “Que usa uma combinação de textos, fotos, vídeo, áudio, animação e gráficos, apresentados num formato não linear e não redundante que intensifica as possibilidades de escolha do leitor” (GRADIM, 2003, p. 122).
Neste sentido, novas funções foram agregadas ao mesmo profissional jornalista e dominar tudo isso já deve fazer parte do seu trabalho, “Porque o seu leitor na internet domina e vai cobrar” (SILVA, 2010, p. 45). Vai cobrar, pois ele também possui, por meio do ambiente online, as mesmas fontes de informação que o jornalista, podendo facilmente publicar informações, assumindo-se jornalista, como explica Elisabete Barbosa (2003).
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Esta possibilidade, a qual espanta muitos profissionais, é a realidade que já mencionamos anteriormente e encontramos na Web: a força e o “poder” dos internautas como produtores e/ou agregadores de informações. Por meio das mídias sociais eles já servem como pautas de inúmeras redações. Querendo ou não, esta participação do público é importante.
Percebe-se, então, que há uma gama de informações que o próprio jornalista pode adquirir, tanto de seu público leitor quanto de seus próprios recursos. E é neste sentido que Silva abre a discussão de que
Para trabalhar com muita informação é necessário uma habilidade que não se aprende da noite para o dia, mas no mundo contemporâneo tal habilidade é uma competência que se faz necessária, e é largamente defendida por acadêmicos da área da Educação e da Comunicação (SILVA, 2010, p. 56).
Entra em jogo a figura do editor, o famoso gatekeeper, cuja função é agregada à de repórter para o profissional jornalista. Enquanto filtro do emaranhado de informações ao qual somos expostos diariamente, destaca Silva, “Cabe a ele avalizar o que é bom do que é ruim, e o que vale a pena ser repercutido do que não é relevante” (SILVA, 2010, p. 55-56).
É preciso entender, também, que estas informações são discursos, tanto de ordem institucional, o que compreende os veículos de comunicação, quanto de ordem prática, desenvolvida no contexto das relações sociais e
Do qual cada jornalista faz parte – tanto o repórter, que investiga e escreve a notícia, quanto o editor que, direta ou indiretamente, pauta, reescreve e decide o quê, o porquê e o como do que vai ser publicado (CHAPARRO, 1994, p. 100).
Tendo em vista o público, pode-se criar vínculos com o mesmo, que, muitas vezes, é especialista na área em que escreve, argumenta Barbosa (2003). Segundo a autora, os jornalistas já não devem se considerar selecionadores e controladores da qualidade do que é publicado. Isso representa que “A função de jornalista como gatekeeper não desaparece, mas transforma-se” (BARBOSA, 2003, p. 112), pois a informação valerá mais pela qualidade do que pela quantidade.
A qualidade, no entanto, pode estar comprometida com a convergência das mídias digitais. Para Gradim (2003), estão acelerando um processo que visa o lucro
por parte das organizações, que criaram o super repórter multimídia e o novo produto, sem qualidade, para oferecer ao seu público.
Deste modo, surgem algumas visões pessimistas relacionadas aos jornalistas, frutos da convergência dos meios, destaca Gradim (2003). Estas opiniões estão relacionadas à aparência estética dos profissionais; à qualidade inferior na produção, por sobrar menos tempo produzindo para vários suportes; e menos tempo para investigação e reflexão, o que também reflete na qualidade.
Para Nelson Robert, citado por Gradim, os repórteres multimídia dominarão múltiplos talentos, mas nenhum em profundidade. E para a busca e seleção destes, no futuro, “Um sorriso pepsodent e boa fotogenia dominarão sobre todos os outros valores” (GRADIM, 2003, p. 123.). Isto é, a aparência e a desenvoltura frente às câmeras, por exemplo, podem prevalecer sobre os valores de um bom profissional jornalista.
Quanto ao fato dos jornalistas estarem produzindo para vários meios, para Al Tompkins, enfatiza Gradim, sobra menos tempo para eles se dedicarem a investigação e verificação dos fatos, “Sob pena de perda de credibilidade e subsequente rejeição por parte do público” (GRADIM, 2003, p. 123).
No que se refere ao tempo de reflexão e, também, da apuração das informações, Gradim destaca Martha Stone, a qual vê na maioria dos “jornalistas de mochilas4”, profissionais medíocres,
Aos quais se colocam desafios éticos novos e difíceis de resolver porque a pressão da instantaneidade e da falta de tempo para investigar e refletir, aliada a um afrouxamento do controle editorial, levarão ao decaimento dos padrões de qualidade (GRADIM, 2003, p. 124).
Apesar destas previsões desfavoráveis, o rumo que a atividade jornalística tomará nos próximos anos “Está muito mais nas mãos dos profissionais do ofício do que no surgimento de novas tecnologias” (HAIMAN apud GRADIM, 2003, p. 125). Desta forma, apesar destas revoluções tecnológicas, não podemos esquecer o papel do jornalista, que há alguns anos Sandro Vaia descrevia assim:
Jornalista é o mediador entre a informação bruta e a informação útil. É a mediação indispensável da inteligência humana que agrega valor à informação. Captar a informação na sua fonte de origem, contextualizá-la,
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hierarquizá-la, torná-la compreensível e disponibilizá-la ao consumidor final numa linguagem clara de forma a torná-la útil. Essa sempre foi a tarefa específica – e humilde – do profissional jornalista. As missões mais sagradas ficam para os sacerdotes (VAIA, 1997, p. 99).
Esta é a essência do jornalismo, que, “Somadas às técnicas tradicionais de pesquisar e verificar notícias, e ao rigoroso controlo ético dos factos apresentados, pois mesmo no futuro, os valores da fiabilidade e credibilidade continuarão em alta” (GRADIM, 2003, p. 128). Ainda, como afirma Haiman, citado por Gradim,
É obrigação de todos defender os valores clássicos, que têm produzido bom jornalismo, contribuindo para a construção de sociedades mais justas, democráticas, informadas, capazes de decidir esclarecida e racionalmente sobre os seus destinos (GRADIM, 2003, p. 125)
Na tarefa de “separar o joio do trigo”, avaliar sua produção em meio à falta de tempo e primar pela qualidade, o “novo” jornalista não pode levar em consideração apenas os aspectos tecnológicos deste processo. Valores morais e princípios éticos também devem compor o caráter de todo profissional, sendo que assim seu caminho para a credibilidade estará sempre aberto.
A seguir discutiremos estes valores, dos quais cada profissional deve se orientar também como cidadão, principalmente o jornalista, em busca do interesse público e o bem comum.
3. DEONTOLOGIA E ÉTICA DA INFORMAÇÃO
“Os media movem-se hoje em sociedades cada vez mais complexas. Esta complexidade afecta o funcionamento dos próprios media. Condiciona o trabalho dos jornalistas, a ponto de tornar problemática a sua liberdade de indivíduos, logo a sua capacidade de procurar livremente a verdade” – Daniel Cornu.
Apesar de buscarmos, hoje, novas formas de nos comunicar, compartilhar informações e conhecimentos por meio de novas tecnologias, devemos parar e observar tudo aquilo que norteia a nossa profissão, seja ela qual for. No jornalismo, especificadamente, muito se fala no futuro da profissão, muito mais no sentido tecnicista e deixa-se de lado o pensar em fazer jornalismo.
Toda discussão é válida, contudo, devemos ser críticos com aquilo que nos é apresentado. Desta forma, além dos conceitos que envolvem a técnica, descritos anteriormente, vamos nos ater, neste capítulo, a procurar entender o papel do jornalista na Sociedade da Informação.
Para analisar estes aspectos, vamos utilizar como referência os estudos do suíço Daniel Cornu, a partir de sua obra Jornalismo e Verdade (1994). Para iniciarmos nossa reflexão, primeiro vamos observar algumas considerações sobre a informação.
A informação como atividade jornalística, explica Daniel Cornu, quando difundida para grandes audiências através dos meios autônomos (jornais e revistas) e de difusão (rádio e televisão), ela se torna uma publicação. No entanto, quando é direcionada pelas mesmas mídias, porém para audiências restritas, o seu modo de comunicação é o da propagação, “Por isso, a informação jornalística não é, como tal, verdadeiramente comunicacional, no sentido de uma interatividade” (CORNU, 1994, p. 35).
Neste sentido, contudo, cabe aqui um questionamento: e a informação por meio da Internet? Ela coloca-se através de uma plataforma que contém meios de difusão, tornando-se uma publicação. A informação jornalística, porém, pode cumprir um papel comunicacional e interativo, como já vimos anteriormente, quando o próprio jornal deixa a audiência fazer parte do processo.
Tomando estes conceitos de informação como base, voltaremos um pouco no tempo para entendermos como a escrita nos ajudou na comunicação. A comunicação pela escrita, segundo Cornu, realizou-se através da luz da liberdade de expressão, conquistada, principalmente, nos séculos 17 e 18. Contudo, à medida que as técnicas de produção, a indústria da imprensa e a participação da publicidade nas receitas dos jornais, por exemplo, entraram em jogo, a partir do século 19, os jornalistas se viram frente a novos problemas. E assim, eles “Passavam do estatuto de artesãos intelectuais ao de produtores de notícias: quais eram, em tal situação, as condições de um exercício correto da sua profissão?” (CORNU, 1994, p. 35-36).
Interrogações como esta levaram à formulação de códigos deontológicos e à criação de órgãos de vigilância, como os Conselhos de Imprensa, destaca Cornu. Estes códigos visavam regulamentar e controlar o exercício da profissão, porém parte dos textos merece, hoje, uma revisão e questionamentos a cerca do seu conteúdo.
Um dos principais pontos a ser esclarecido, tanto para profissionais como para estudantes e a sociedade, é a diferenciação do que representam a ética, a moral e a deontologia. Os dois primeiros costumeiramente são confundidos, ou melhor, associados e postos lado a lado. A seguir, entenderemos o que compreende a cada um deles, no sentido da informação.
3.1 ÉTICA, MORAL E DEONTOLOGIA
Os termos ética e moral derivam do grego e do latim, respectivamente. Ambos têm a ver com os usos, os costumes. Apesar desta proximidade, a filosofia moderna procura diferenciá-los. André Lalande definiu a ética como a “Ciência que tem por objecto o julgamento de apreciação quando aplicado à distinção do bem e do mal” (LALANDE apud CORNU, 1994, p. 36). Por outro lado, distingue-a da moral, que corresponde “Ao conjunto das prescrições admitidas numa época e numa sociedade determinadas, o esforço para se conformar com essas prescrições, a exortação para as seguir” (LALANDE apud CORNU, 1994, p. 36).
Deste modo, a ética exige uma abordagem crítica, coerente e pessoal da vida. A moral, por sua vez, relaciona-se aos conjuntos de regras de comportamento de uma determinada sociedade em um determinado tempo. Para Cornu,
O acto moral refere-se, implícita ou explicitamente, a um fundo de normas comuns e convencionadas. A decisão ética passa por um processo interior crítico de fundação e de legitimação das normas (CORNU, 1994, p. 36).
É possível observar, agora, que a moral, ao referir-se às normas, pode estar relacionada com o direito. O direito é, pois, “A expressão legal do estado da moral colectiva de uma sociedade” (CORNU, 1994, p. 38). Logo, a ética é mais do que isso, pois “A questão ética surge „quando essa moral é ultrapassada por novas condições de existência. [...] E apresenta-se ao indivíduo, como a necessidade de escolher‟” (CORNU, 1994, p. 38).
As normas referentes ao direito geralmente se tornam legais perante o Estado a partir de valores morais comuns desta sociedade. A ética, por sua vez, está uma posição acima, digamos assim. Ela tem a moral como objeto de estudo e se aplica quando um povo já não possui mais condições morais de enfrentar determinada situação.
Compreendendo, assim, as relações entre moral e ética, moral e direito, podemos inserir agora a deontologia profissional em nosso estudo. A deontologia, conforme sua raiz grega, é a teoria dos deveres. O termo foi criado por Jeremy Bentham, em 1834. Não se aplica, porém, à ciência do dever em geral e ligada à liberdade do indivíduo, desenvolvida por Kant, “Pelo contrário, remete para uma abordagem empírica dos diversos deveres relativos a uma situação social ou a uma profissão determinada” (CORNU, 1994, p. 38).
Assim como existe uma deontologia para os jornalistas, também existe para os médicos e advogados, por exemplo. A formulação desta como um código, que apresente preceitos e artigos, assemelha-se com o direito. No entanto, a deontologia se vê limitada à sua autoridade e o direito voltado para os efeitos. Por sua vez, a deontologia profissional situa-se entre a moral e o direito.
Esta definição clarifica a diferença fundamental entre a ética da informação e a deontologia profissional dos jornalistas. Desta forma, Daniel Cornu explica que “Enquanto a ética intervém como força de questionamento do conjunto do processo
da informação, a deontologia reveste o alcance limitado de uma moral própria da actividade jornalística” (1994, p. 39).
É importante destacar, ainda, que atualmente a deontologia é habitualmente qualificada como profissional. Evoca deste modo um certo número de regras morais próprias do exercício de uma profissão. Contudo, entre a deontologia das profissões liberais, como médicos e advogados, e a dos jornalistas, existem diferenças importantes.
Para ingressar no exercício das profissões liberais, por exemplo, o profissional deve atender a uma legislação, a qual “Supõem uma formação determinada, processos de admissão, a inscrição numa Ordem” (CORNU, 1994, p. 40). Não bastasse, há regras internas e externas que, se infringidas, o profissional sofre punições que podem até excluí-lo da Ordem. No jornalismo, por outro lado, não existe nada além de censuras ou outras observações constrangedoras, mas que não expulsam o jornalista da profissão, como explica Cornu (1994).
No plano social, por sua vez, há poucas diferenças entre as práticas das profissões liberais. Os agentes da informação, porém, pertencem a diversas categorias profissionais, desde um repórter até um ilustrador, por exemplo. Até mesmo no curso superior de jornalismo se aprende a transitar nos diferentes campos de atuação, como redação, fotografia, edição, entre outros.
Por estas e outras características peculiares, como a fragilidade dos estatutos e a diversidade dos ofícios da profissão, argumenta Cornu, contribuíram para que os jornalistas sejam mais vulneráveis. Vulnerabilidade esta que se reflete na composição dos códigos.
3.2 ORIGEM DOS CÓDIGOS DEONTOLÓGICOS
Em um relatório redigido para a UNESCO sobre a Deontologia da Informação, J. Clement Jones explica as raízes dos problemas deontológicos no desenvolvimento da imprensa no século 19.
Se as empresas eram prósperas, a ponto de permitirem a formação das fortunas familiares consideráveis pelos proprietários dos jornais, os
trabalhadores da indústria tinham alguma razão de queixa relativamente aos seus salários e condições de trabalho (JONES apud CORNU, 1994, p. 42).
São visíveis aqui os problemas de fundamentação social e econômica da deontologia da informação. Além destes, existiam também “ingredientes vulgares” dos códigos de deontologia, como a
Subordinação dos meios de informação aos negócios, a influência crescente dos anunciantes sobre as políticas editoriais, a resistência dos jornais à mudança social, a exploração do fait divers e do sensacionalismo, os atentados à moralidade pública e à vida privada (CORNU, 1994, p. 42).
Partindo destas deficiências, os códigos ganharam forma. Otto B. Roegele destaca que “Hoje, os códigos deontológicos visam essencialmente a formulação de regras praticáveis. Têm por principal objectivo a defesa da reputação do jornalismo e familiarização dos jornalistas principiantes com os seus principais deveres” (ROAGELE apud CORNU, 1994, p. 42). Mas muito mais do que isso, os principais eixos dos códigos são a informação do público, respeito pela verdade e dignidade pela pessoa humana, a mesma dignidade cujo é o primeiro valor da Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948.
Os primeiros códigos nasceram no início do século 20, quando foram instituídos os primeiros Conselhos da Imprensa na Europa ocidental. Iniciativas mais antigas datam dos anos 10. O Conselho de Imprensa da Noruega foi fundado em 1912. Desde então foi reformulado e atualizado. A partir daí nasceram outras associações, sindicatos e clubes, como, por exemplo, na Suécia, em 1926 e na França, em 1918. O Tribunal de Honra sueco foi reformado em 1960 e na sua reorganização incluiu o posto do mediador ou ombudsman.
O ombudsman do modelo sueco tem o papel de
Servir de intermediário entre a redacção e o seu público, conciliar os pontos de vista, se necessário defender os interesses do leitor. Ao mesmo tempo serve de vigia, no próprio interior da redacção, vela pela observação das regras deontológicas durante o trabalho jornalístico, lembra incessantemente da dupla exigência da informação, que é respeitar a verdade e as pessoas (CORNU, 1994, p. 45).
É importante ressaltar, ainda, a criação da Declaração dos Jornalistas da Federação Internacional dos Jornalistas, em 1952, como resposta à Organização Internacional dos Jornalistas (OIJ), de obediência comunista.
Na América, em especial nos Estados Unidos, explica Cornu, a questão da liberdade de imprensa e a deontologia são arduamente discutidas, pois cada profissional almeja um código deontológico particular. O resultado é a diversidade de códigos existente no país. Já a declaração de princípios da Federação Latino-Americana dos Jornalistas (FELAP), foi fundada em 1976, cujo objetivo era tirar os meios de informação das mãos das classes dominantes.
É possível perceber, até aqui, que a consciência dos problemas deontológicos e as iniciativas para a criação de códigos nasceram no âmbito particular. No entanto, a UNESCO reuniu, a partir de 1978, as organizações internacionais e regionais de jornalistas profissionais de todo o mundo e concluiu, em 1983, a Declaração da Unesco,
Que estabelece, de acordo com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, que o exercício da liberdade de opinião, da liberdade de expressão e da liberdade da informação, reconhecido como parte integrante dos direitos do homem e das liberdades fundamentais, é “um factor essencial do reforço da paz e da compreensão internacional” (CORNU, 1994, p. 50).
E acrescentara, ainda, que “Devido ao importante papel desempenhado pela informação e pela comunicação no mundo contemporâneo, recaía sobre os media e os jornalistas uma responsabilidade social crescente” (CORNU, 1994, p. 50). Desta forma, é a partir desta Declaração da UNESCO sobre os media que “Visa servir de fundamento internacional comum e de fonte de inspiração aos códigos deontológicos nacionais e regionais” (CORNU, 1994, p. 50).
3.3 O CONTEÚDO DOS CÓDIGOS
É claro que se vamos aprofundar a discussão e realizar comparações entre os códigos, tornar-se-ia um trabalho de profunda análise, o que não nos compete neste momento. O objetivo é mais simples. Tomando como base a Declaração Universal dos Direitos Humanos5, de 1948, a Declaração da UNESCO sobre os
5
media6, de 1983, Cornu afirma que a Declaração de Munique7, de 1971, é a mais próxima da deontologia moderna. A partir destes, vamos comparar seus princípios com o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros8.
No Brasil, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), criada em 1969, propôs pela primeira vez, em 1994, o estímulo à criação de um “Código de Ética Conjunto” da área das comunicações. Conforme a Fenaj, o objetivo era englobar “Todos os setores empresariais e profissionais da área da comunicação, atribuindo condições de fiscalização e julgamento de questões com a participação da sociedade civil”.
No entanto, segundo a própria Federação, a discussão sobre a criação de um órgão de fiscalização profissional dos jornalistas é antiga. A primeira tentativa datava o ano de 1965. Na década de 1990, contudo, aumentou-se o debate sobre a criação do Conselho Federal de Jornalismo (CFJ), que conforme a Federação era “Um importante instrumento de valorização da profissão e de garantia de uma informação de qualidade, pautada em princípios democráticos e éticos”.
A criação do conselho foi pauta das discussões nos Congressos Nacionais de Jornalistas. Ocorreram também debates com a sociedade civil e projetos foram enviados ao Congresso Nacional. O esforço, porém, foi em vão, pois a criação do CFJ foi rejeitada pela Câmara dos Deputados em 2004.
Por sua vez, o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros está em vigor desde 1987. Sua última atualização aconteceu em 2007. Em suma, é um código bem desenvolvido, porém sua denominação é questionável, além de alguns pontos peculiares às denominações dentro da profissão, mas que não cabem ao nosso estudo.
Para ordenar a análise dos conteúdos dos códigos mencionados, vamos utilizar a sistematização de Daniel Cornu, cujo método é baseado em quatro eixos que orientam a reflexão sobre a ética da informação. São eles: “A missão da imprensa, a liberdade da informação como condição, a verdade como dever fundamental e o respeito da pessoa humana como limite” (CORNU, 1994, p. 57).
6 Disponível em http://utad0910epm.wikispaces.com/Declara%C3%A7%C3%A3o+da+UNESCO+sobre+os+media 7 Disponível em http://utad0910epm.wikispaces.com/Declara%C3%A7%C3%A3o+de+Munique 8 Disponível em http://www.fenaj.org.br/federacao/cometica/codigo_de_etica_dos_jornalistas_brasileiros.pdf
3.3.1 Missão da imprensa
A missão da imprensa é levar a informação até o público. Este é um direito dele, expresso no Preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, quando “O direito à informação, à livre expressão e à crítica é uma das liberdades fundamentais de todo o ser humano”. A Declaração da UNESCO orienta o mesmo sentido e inclui os meios, pois “O povo e os indivíduos têm o direito de receber uma imagem objetiva da realidade, pelo canal de uma informação precisa e completa, e de se exprimirem livremente por intermédio de diversos meios de difusão da cultura e da comunicação”.
No mesmo sentido, como apresenta o primeiro artigo, o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros “Tem como base o direito fundamental do cidadão à informação, que abrange direito de informar, de ser informado e de ter acesso à informação”.
É perceptível que a maioria dos códigos concorda no direito de receber e comunicar as informações. No entanto, o código brasileiro, por ser mais atual, exprime o direito à procura, ao acesso às informações, o que Cornu considera essencial para a deontologia, pois a mesma não procura buscar a liberdade de informação em privilégio para a própria imprensa. Ou seja, “Como a liberdade de expressão pertence a todos, a liberdade de imprensa é imediatamente relacionada com o público, destinatário da informação” (CORNU, 1994, p. 58).
Não obstante, a liberdade se entrelaça com a questão do interesse. Para Chaparro (1994, p. 119), “Só é notícia o relato que projeta interesses, desperta interesses ou responde a interesses”, desde que tais interesses sejam do público, dos leitores.
3.3.2 Liberdade de imprensa
Desta forma, a liberdade de imprensa não se baseia em o meio publicar o que deseja, mas, sim, em mostrar aquilo que é de interesse do seu público. Este, por sua vez, é constituído por cidadãos e “A imprensa tem por função informá-lo, tanto sobre
os factos como sobre as correntes de ideias, a fim de se criar uma opinião pública cuja expressão há-de ser organizada pela democracia” (CORNU, 1994, p. 58-59).
A comercialização do produto notícia contribui para esta função política original ser esquecida. No entanto, a Declaração da UNESCO assevera no seu terceiro princípio que “No jornalismo, a informação é entendida como um bem social e não como um simples produto”.
Deste direito do público a conhecer os factos e as opiniões procede o conjunto dos deveres e direitos dos jornalistas, que, segundo Cornu, só se torna realidade se garantirmos independência aos jornalistas e reconhecermos a dignidade da sua profissão. Embarcamos aqui no aspecto da liberdade de imprensa como condição.
O jornalista deve defender a liberdade da informação, o que compete, também, à crítica e ao comentário. Sendo assim, “A liberdade de informação é o espaço necessário à verdade. Sem liberdade, é ilusório esperar que a verdade possa ser respeitada ou, se preferir, que a mentira seja desalojada” (CORNU, 1994, p. 60). Desta forma, para o autor, o jornalista se torna vulnerável a pressões que visam omitir a verdade do público, mais presente que a pressão da censura.
Neste sentido, o jornalista é tentado a trocar seu trabalho por vantagens de seu interesse particular. A Declaração da UNESCO, desta forma, considera que “A integridade da profissão proíbe o jornalista de aceitar qualquer forma de remuneração ilícita e de promover interesses privados contrários ao bem-estar geral”. No código brasileiro, uma menção a este ato consta no sexto artigo, no qual é dever do jornalista “Combater e denunciar todas as formas de corrupção, em especial quando exercidas com o objetivo de controlar a informação”.
Cornu destaca também que esta disposição é desenvolvida pelo
Pressekodex9 alemão:
„A aceitação e a outorga de vantagens de qualquer espécie, que sejam susceptíveis de prejudicar a liberdade de decisão do editor ou da redacção, são incompatíveis com a credibilidade, a independência e a missão da imprensa‟ (CORNU, 1994, p. 61).
A independência do jornalista é visível quando ele recusa benefícios, tanto materiais como morais, bem como cortejos, lisonja, honras e “pequenos presentes”.
Conforme Cornu, a deontologia diz que “A decisão de dar ou reter uma informação, completa ou parcial, depende exclusivamente da responsabilidade do jornalista. Em nada deve depender de qualquer vantagem” (CORNU, 1994, p. 62).
Outra relação dentro de qualquer jornal e que gera muitos conflitos destina-se aos anunciantes. A Declaração de Munique recomenda que nunca se confunda o ofício de jornalista com o de publicitário ou de propagandista, e que não se aceite nenhuma orientação, direta ou indireta, dos anunciantes.
A palavra-chave deste relacionamento é a transparência. Isto é, como está intrínseco no código brasileiro, no artigo 12, o jornalista deve “Informar claramente à sociedade quando suas matérias tiverem caráter publicitário ou decorrerem de patrocínios ou promoções”. E quando isso se torna uma obrigação, Cornu orienta a seguir uma postura firme e negar-se a escrever, pois “É melhor nada dizer do que dizer conscientemente uma verdade truncada ou dar da realidade uma visão deliberadamente orientada” (CORNU, 1994, p. 63-64).
Esta postura, como tantas outras, é abarcada pelos direitos dos jornalistas. A Declaração da UNESCO é clara: “O papel social do jornalista exige que a profissão mantenha um alto nível de integridade. Isso inclui o direito que o jornalista tem de não trabalhar ao arrepio das suas convicções”. Na mesma linha, a Declaração de Munique apresenta que “O jornalista não pode ser obrigado a cumprir um ato profissional ou a exprimir uma opinião contrária à sua convicção ou consciência”.
No entanto, Cornu percebe dois níveis de regras que enquadram o trabalho do jornalista: o jurídico e deontológico. No âmbito do direito comum, do qual fazem parte o direito penal e civil, “Às quais o jornalista está sujeito como qualquer outro indivíduo, como o estão o seu empregador e a sua empresa” (CORNU, 1994, p. 69).
Na deontologia, o direito quase sempre a acompanha. A deontologia, no entanto, permite que o jornalista regule a sua atividade, explica Cornu. Desta forma, “Numa empresa mediática, a deontologia é, no essencial, um assunto dos jornalistas. Cada jornalista ou realizador, cada agente da informação é suposto a respeitá-la perante a sua comunidade profissional” (CORNU, 1994, p. 70).
Por outro lado, Cornu envolve um terceiro nível entre o jurídico e o deontológico: a linha editorial, considerada o nível profissional das empresas. Esta possui um caráter externo que se destina a harmonizar a concorrência ou a defender interesses comuns. O caráter interno está sujeito a linha geral, definida pela empresa midiática, mais conhecida como princípios editorias.
Como já observamos, o jornalista não é obrigado a jurar fidelidade pela linha. Sendo assim, “É no interior desta linha que se desenha a liberdade interna do jornalista” (CORNU, 1994, p. 71). Se, por um lado, o profissional possui a liberdade de imprensa ancorada na liberdade de informar, por outro lado ele é um trabalhador assalariado de uma empresa e “A sua liberdade corre o risco permanente de entrar em choque com os objectivos da empresa: econômicos, políticos ou morais”, observa Cornu (1994, p. 71). E quando o jornalista bater de frente com a empresa?
Cornu explica que a defesa do jornalista é garantida por uma “cláusula moral”. Ou seja, a mesma que destacamos anteriormente e que também se encontra no código brasileiro, artigo 13: “A cláusula de consciência é um direito do jornalista, podendo o profissional se recusar a executar quaisquer tarefas em desacordo com os princípios deste Código de Ética ou que agridam as suas convicções”.
Aqui é possível encontrar um quarto nível, como afirma Cornu (1994, p. 72), em que o jornalista “É fiel às suas convicções e à sua consciência. Reivindica um espaço de liberdade que é o da ética, no qual se enraízam as suas decisões, as suas opções pessoais”. Desta forma, “O jornalista não é só um homem que ganha a sua vida; é geralmente também um homem que tem opiniões ou convicções e que as utiliza na sua profissão” (CORNU, 1994, p. 72).
Neste sentido, aquele que prima por um bom trabalho, respeita o público e a si mesmo quando não esconde seus ideais. No entanto, estes devem estar relacionados ao bem coletivo, à verdade e respeitando a dignidade humana.
3.3.3 Verdade como dever fundamental
Informar o cidadão, a fim de que ele possa formar a sua opinião. Esta é a missão da imprensa. Para ser cumprida necessita de liberdade, pois só com ela o jornalista pode oferecer uma informação verdadeira e justa. A verdade, por sinal, é o princípio de todo código. Está na Declaração de Munique: “Respeitar a verdade sejam quais forem as consequências para ele próprio, tendo em conta o direito do público a conhecer a verdade”.
O Código de Ética brasileiro é direto: “A produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o
interesse público”. E acrescenta: “O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, deve pautar seu trabalho na precisa apuração dos acontecimentos e na sua correta divulgação”.
A busca da verdade consta de uma ou outra forma em todo código. No entanto, a exigência da verdade comporta em diversos fatores relacionados à apuração dos fatos.
O tratamento das fontes, por exemplo, assevera Cornu, está no cerne do trabalho do jornalista. Segundo o autor, “É o seu acto inicial. Não há informação sem procura das fontes, não há informação verídica sem rigor no tratamento dessas mesmas fontes” (CORNU, 1994, p. 76-77). A primeira questão que vem a tona refere-se ao sigilo da fonte, que a Declaração de Munique trata como dever e o código brasileiro como direito. Na versão brasileira, ainda, “É dever do jornalista não colocar em risco a integridade das fontes”. Além do mais, também é dever dele “Tratar com respeito todas as pessoas mencionadas nas informações que divulgar”, como consta no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros.
A apuração, na prática, muitas vezes é inimiga da urgência do trabalho jornalístico, o que “Reduz frequentemente essas operações à mera confirmação da fiabilidade, da credibilidade do informador” (CORNU, 1994, p. 77). Se a tarefa é difícil de ser cumprida pelo jornalista, a regra da deontologia, afirma Cornu, resume-se em transparência. Segundo o autor suíço, “Se a fonte como tal não pode resume-ser claramente situada, identificada ou confirmada, a deontologia obriga-o a abster-se” (CORNU, 1994, p. 77).
Contudo, duas práticas distintas entram em conflito com esta afirmação: a procura do “furo”, notícia dada em primeira mão, e o jornalismo dito “investigativo”. A “caça ao furo”, conforme Cornu, situa-se essencialmente no campo da rapidez. Podemos aqui ainda somar e associar esta “caça” com a velocidade da informação na Internet.
Sedimentados pela instantaneidade, jornalistas causam alvoroço por informações falsas divulgadas na mídia, fruto da sede pela notícia em primeira mão. No entanto,
Nesta prática do furo, os media como organizações, pela sua hierarquia, endossam uma responsabilidade maior: a informação dada em primeira mão permite aumentar as vendas, os índices de audiência. Que importa então se a notícia é inexacta ou falsa, será rectificada no dia seguinte! (CORNU, 1994, p. 77),
ou em algumas horas, minutos ou segundos mais tarde. Instantaneidade para informar, instantaneidade para corrigir.
Quanto ao jornalismo investigativo, o qual também usufruiu do poder do “furo”, “A natureza crítica de tais investigações exigidas é que estas nem sempre satisfazem as condições de transparência exigidas pela deontologia, não só perante o público, mas também para com as fontes” (CORNU, 1994, p. 80). Ou seja, no papel de investigador, o jornalista não atua como tal, e, sim, com outra identidade, sem revelar para a fonte.
Aqui o jornalista entra em conflito com o papel da polícia. Mais do que isso, “O jornalista é tentado a substituir a própria justiça: não revelar factos, mas denunciar e condenar pessoas sem esperar pelo julgamento dos tribunais” (CORNU, 1994, p. 80). As motivações, no entanto, são outras, como “A procura da verdade no interesse público em conhecê-la e não o ajuste de contas” e “O serviço da informação e não a satisfação de uma ambição pessoal” (CORNU, 1994, p. 80).
Todos estes princípios em relação às fontes também fazem valer a discussão de como o jornalista capta suas informações. O Código de Ética brasileiro recomenda que “O jornalista não pode divulgar informações obtidas de maneira inadequada, por exemplo, com o uso de identidades falsas, câmeras escondidas ou microfones ocultos, salvo em casos de incontestável interesse público e quando esgotadas todas as outras possibilidades de apuração”.
Entra em questão a recusa do uso de métodos desleais. Cornu sustenta a afirmação anterior quando a apuração
É a considerações de interesse público que recorrem os jornalistas de investigação [...]. Essas considerações autorizam-nos por isso a um uso excepcional de métodos desleais. Uso esses temperado pela evocação de uma „objecção de consciência‟, no caso de tais métodos lhe serem impostos. É abrir um espaço de julgamento do jornalista, que só pode fundamentar-se numa interrogação ética (CORNU, 1994, p. 84).
No entanto, quando tais informações são divulgadas por pressão do “furo”, da instantaneidade ou por equívoco, é fundamental que
Se um facto foi relatado de maneira incompleta ou inexacta, se o artigo ou a emissão contêm erros „materiais‟, tais erros devem ser corrigidos. Não há jornais nem jornalistas que não cometam erros. Os jornais sérios, e os
jornalistas rigorosos, distinguem-se dos outros aos publicarem esclarecimentos ou rectificações (CORNU, 1994, p. 85).
Outro elemento fundamental que oferece credibilidade ao jornalista, a partir da sua relação com a verdade, segundo Cornu, é o “segredo redactorial”. Para o autor, aqui a separação dos níveis da deontologia e do direito é ainda mais clara, pois
O reconhecimento legal do segredo redactorial cria um direito, posto ao dispor do jornalista-testemunha, destinado a proteger as suas fontes e a informar correctamente o público. Não constitui, como acontece com o segredo profissional (do médico, do pastor, do advogado...), uma obrigação. É perante a sua própria deontologia que o jornalista considera esse segredo como um dever (CORNU, 1994, p. 90).
São estas ações, de responsabilidade do jornalista, que criam o respeito para com o público.
3.3.4 Respeito pela dignidade humana
De todos os eixos que sustentam a ética na informação, este é o que norteia todos os códigos. Tanto que a proteção da honra e da vida privada é uma regra tão fundamental que “Sua presença num código deontológico parece ser uma redundância” (CORNU, 1994, p. 92). O respeito pela vida privada, destaca Cornu, está no cerne dos códigos deontológicos da imprensa, em todo o mundo.
Está na Declaração Universal dos Direitos Humanos, o qual considera “O reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis”. Na Declaração da UNESCO, expressa-se como “O respeito pelo direito do indivíduo à vida privada e à dignidade humana, em conformidade com as disposições do direito internacional e nacional sobre a proteção dos direitos e da reputação de outrem, proibindo a difamação, a calúnia, a injúria e a insinuação malévola, faz parte integrante das normas profissionais do jornalista”.
No Código de Ética brasileiro, é dever do jornalista “Opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos; respeitar o direito à intimidade, à
privacidade, à honra e à imagem do cidadão”. Todas estas contribuições somam na busca pelo papel da informação no nosso cotidiano, cujo objetivo é informar o cidadão por meio da verdade, para que ele forme sua opinião e torne-se crítico com as relações do seu ambiente social do qual faz parte.
3.4 RESPEITO AOS CÓDIGOS
Como observamos até aqui, os sindicatos regionais de jornalistas e a Fenaj, por meio do seu código, propõem que “regras éticas” devem ditar os rumos da comunicação. As normas de conduta presentes no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros são aplicadas para a profissão em si, seja qual for o meio de divulgação. Contudo, o rádio, a televisão, os jornais e as revistas brasileiros10 possuem seus próprios códigos, por motivos de funcionalidade.
Além destes, as empresas jornalísticas também possuem seus próprios manuais de redação. A maior parte deles é dedicada à prática técnica do jornalismo, porém tentam abordar questões “éticas” e “morais”, mas acabam mais por confundir do que orientar. Chaparro, em seu estudo das práticas jornalísticas dos dois maiores jornais do Brasil, mostra como é evidente e confuso o conteúdo de tais manuais. Não bastasse, muitas vezes não há um mínimo de respeito a essas normas, o que compromete a qualidade das informações.
Uma resposta rápida para este problema poderia estar na sociedade moderna capitalista na qual vivemos. Nela, o negócio, literalmente, das empresas midiáticas é vender, conquistar audiência e lucrar, a qualquer preço. O sensacionalismo, cujo Código de Ética brasileiro tenta combater, é o carro-chefe de empresas pela venda de seus produtos midiáticos. No entanto, o problema está no que Chaparro definiu como uma “patologia complexa” dos jornalistas brasileiros.
Para o autor, o jornalismo brasileiro vive um desequilíbrio de identidade enquanto função social. Isto se deve ao desprezo e ao pouco caso que a imprensa
10
Código de Ética da Radiodifusão Brasileira, documento da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert); Código da Associação Nacional dos Jornais (ANJ); Princípios Éticos da Associação Nacional dos Editores de Revista (ANER).
brasileira faz da ética, principalmente a partir da ditadura militar de 1964 a 1984. Conforme Carlos Eduardo Lins da Silva, naquela época
A maioria dos jornalistas se colocou em posição de rechaçar observações críticas sobre o seu desempenho, sob a alegação de que tal tipo de comentários facilitaria a tarefa dos censores e da repressão. Durante quase 20 anos, crítica a jornalistas foi tacitamente considerada um ato a se evitar, em nome da liberdade (SILVA apud CHAPARRO, 1994, p. 105).
Desta forma, explica Chaparro (1994, p. 108), “O jornalismo brasileiro não sabe muito bem por que faz o que faz – mas sabe, e parece que muito bem, para que faz”. O autor sugere, ainda, que “Há que criar, com o rótulo de ética, normais morais particulares para controlar os jornalistas” (CHAPARRO, 1994, p. 102). Ora, nada mais é que um código deontológico para a profissão, o qual discutimos neste capítulo.
Até aqui consideramos os meios autônomos e de difusão, como citara Cornu. Mas nos questionamos: e o que acontece com a informação na Internet? As empresas de comunicação, a priori, utilizam-se do Código de Ética e de seus manuais como base para a produção digital.
Apesar disso, surgem algumas discussões sobre a criação de um código específico para o jornalismo online. Enquanto a elaboração deste não se concretiza, podemos vislumbrar um caminho para o futuro do jornalismo digital, embora não seja a solução de todos os problemas, pelo contrário, longe disso, apenas pode oferecer estabilidade para jornalistas e empresas: a credibilidade.
A credibilidade, sinônimo de confiança e boa reputação, não é o “super-herói” do jornalismo. Pode ser encarada, contudo, como um caminho para os jornalistas que desejam manter vivos os princípios comentados até aqui, e, ainda, para os veículos de mídia que almejam “um lugar ao sol” junto do seu público. O caminho para a credibilidade no jornalismo online será o tema do próximo capítulo.
4. A BUSCA DA CREDIBILIDADE
“A comunicação, na maior parte do tempo, não consiste em compartilhar pontos de vista comuns entre indivíduos livres e iguais, mas em organizar a convivência entre visões de mundo frequentemente contraditórias” – Dominique
Wolton.
A credibilidade é o reflexo de um jornalismo de qualidade produzido ao longo do tempo. Segundo o dicionário Houaiss, a credibilidade é uma “Característica do que é confiável”. Confiança, por sua vez, é o “Sentimento de segurança na sinceridade ou na competência de alguém; crença de que alguma coisa sucederá o bem; otimismo, esperança”. Toda empresa de comunicação almeja a confiança do seu público, mas nem sempre escolhe os melhores caminhos para conquistá-la.
Por outro lado, a confiança depende de muitos fatores que, em conjunto, constroem a reputação, a credibilidade da organização. Neste sentido, para auxiliar no desenvolvimento deste estudo foi realizada uma pesquisa com dois veículos de comunicação do estado do Rio Grande do Sul: o primeiro é o jornal Correio do Povo11, com sede na cidade de Porto Alegre; o segundo é o portal online de notícias
Paulo Marques Notícias12, que veicula informações da cidade de Três de Maio e
região.
A editoria online do site do Correio do Povo foi representada pelo jornalista Amauri Knevitz Junior, editor responsável na ocasião da pesquisa. Já o portal Paulo Marques Notícias foi representado pelo próprio criador do site e editor-chefe Paulo Marques. A partir desta pesquisa, aliada aos estudos desenvolvidos até aqui, partiremos em busca de um conjunto de fatores que podem definir a credibilidade de uma instituição de comunicação para com o seu público.
4.1 CONTEÚDO E QUALIDADE NAS INFORMAÇÕES
11
Para mais informações, ver anexo 2.
12
Atualmente, muitos dos veículos de comunicação que estão presentes no ambiente online ou só existem nele, sofrem com uma acomodação de notícias. Ou seja, não produzem novas informações, não agregam novos conteúdos aos seus espaços, fazendo com que se torne um mero agregador de notícias. Como explica Cardoso,
Um veículo, para ser considerado um jornal, requer a produção de conteúdo, e não somente a transcrição ou a edição de informação de terceiros. Porém, é muito comum encontrarmos na internet jornais online ou portais de notícias atuando de maneira semelhante ou igual aos agregadores de conteúdo (CARDOSO, 2010, p. 138).
De acordo com a pesquisa, o Correio do Povo se considera um produtor de notícias, “Ainda que boa parte do conteúdo seja proveniente de apuração dos repórteres do impresso e de agências, somos relativamente independentes para produzir material, de acordo com as possibilidades de escala e fluxo de notícias” (Anexo 2 – Entrevista Amauri Knevitz Jr/Correio do Povo). O editor de Paulo Marques Notícias considera que o site ora é produtor, ora é agregador de conteúdo. Esta compreensão entre um e outro é determinante para um veículo que deseja construir a sua credibilidade online.
Mas de qual conteúdo estamos falando? Informações existem aos montes na Internet. Sobre praticamente tudo e praticamente todos. Quem vive conectado não escapa das páginas de buscas. Estas, por sua vez, tornam-se fonte de pesquisa e os seus resultados são tomados como verdades,
Uma vez que hoje as pessoas pautam seus julgamentos em buscas no Google, e muitas vezes sequer questionam se aquilo que obtiveram como resposta na primeira página é o melhor resultado, ou então se aquelas matérias “top isso” “top aquilo”, são dignas de credibilidade ou meras propagandas maquiadas de notícia (SILVA, 2010, p. 57).
A tecnologia, desta forma, afetou o trabalho de diversos profissionais, em especial os jornalistas, pois “Alterou a natureza do conteúdo das notícias, modificou a estrutura e organização da redacção e da indústria noticiosa e, por fim, modificou a natureza das relações entre as organizações noticiosas e os seus variados públicos” (BARBOSA, 2003, p. 110).
Neste sentido, uma primeira grande mudança no trabalho do jornalista, destaca Barbosa (2003, p. 110), “É a utilização da Internet para investigação e