Anabela Giestas
Tiróide
Tiróide
TSH
Iodo
IODO
Introdução
O iodo é um componente das hormonas tiroideias (tiroxina – T4 e
triiodotironina – T3 correspondendo a 65% e a 59% do seu peso
molecular, respetivamente).
Estas hormonas são responsáveis pela regulação do metabolismo
celular e desempenham um papel determinante no crescimento e
desenvolvimento dos órgãos, especialmente do cérebro.
Nos seres humanos, o máximo crescimento e desenvolvimento
cerebral ocorre durante o período fetal e nos dois ou três
primeiros anos de vida
1.
Efeitos da gravidez na fisiologia da tiróide
In Williams Textbook of Endocrinology, 11th edition
Durante a gravidez as necessidades de hormona tiroideia aumentam (20 -
40%).
Alteração Fisiológica Consequências na tiróide SBG (Serum thyroxine-binding globulin) T4 e T3 Totais; produção T4
Volume plasmático “Pool” T4 e T3; produção T4; débito cardíaco Expressão de D3 na placenta e útero (?) Produção T4
hCG (Human chorionic gonadotropin) no 1ºT T4 livre; TSH; produção T4 Excreção renal de iodo Necessidades de iodo
Consumo de oxigénio (materno, fetoplacentar) Taxa metabólica basal; débito cardíaco Síntese fetal de T4 no 2ºT e 3ºT
As necessidades de iodo durante a gravidez estão aumentadas pelas
seguintes razões
2:
da necessidade da tiroxina (T4) para manter o normal
metabolismo da mulher.
Transferência de T4 e iodo para o feto durante a gravidez.
da depuração renal na grávida.
Dieta ++
Necessidade diária de iodo (adulto) ~100-150 mcg
Absorção no intestino delgado (~100%)
Perdas pela tiróide
Desiodação extra-tiroideia das iodotironinas
[Iodo] plasmático baixa
(reservatório periférico ~250 mcg vs reservatório tiróide 8000 mcg)
Transporte para a tiróide
(outros: glândulas salivares e mamárias, ...)
Excreção renal
Excreção de iodeto é semelhante à ingestão diária
( 90% do iodo ingerido é excretado pela urina na gravidez)
3
Iodeto completamente filtrável reabsorção 60-70%
Iodo
F O N T E S
Os alimentos que contêm mais iodo na sua composição são, entre outros, as
algas, o peixe, o leite e seus derivados e alguns produtos hortícolas
4.
Alimentos mcg/100g
1g de sal iodado 10-40 Atum, cavala e ostra 50-60 Camarão 130 Bacalhau fresco 170 Sardinha e mexilhão 95-100
Algas para sushi 16 Batata cozida com casca 60 Marisco 66 Espinafre 56
A concentração de iodo nos alimentos depende de
inúmeros fatores, tais como: teor de iodo na água e
nos solos, utilização de desinfetantes iodados na
indústria alimentar e uso, na agricultura, de
As necessidades diárias de iodo variam ao longo do ciclo de vida
3,5.
Dose diária recomendada (DDR):
IOM (Institute of Medicine)
0-6 meses = 110 mcg 6 meses-1 ano = 130 mcg Crianças até 8 anos = 90 mcg 9-13 anos = 120 mcg
Adolescentes e adultos = 150 mcg Grávidas = 220 mcg
Amamentação = 290 mcg
OMS (Organização Mundial de Saúde)
≤ 5 anos = 90 mcg 6-12 anos = 120 mcg
≥ 12 anos e adultos = 150 mcg Gravidez e amamentação = 250 mcg
Em adultos a ingestão de iodo a partir de 1100 mcg/dia pode torna-se prejudicial
6.
Iodo
Défice de iodo
(dieta pobre em iodo) Redução da T4 com aumento da TSH, sem alterações na T3
Diminuição do ratio DIT/MIT diminuição do ratio T4/T3
Aumento da actividade da desiodase tipo 2 e diminuição da desiodase tipo 3
Desenvolvimento de bócio e hipotiroidismo nos défices graves e prolongados
Excesso de iodo
(amiodarona, produtos contrastados...) Diminuição da organificação do iodo (normalmente transitório - escape)
Inibição da libertação das hormonas tiroideias
(diminuição da proteólise da TG)
Diminuição da hipervascularização (D. Graves) Hipertiroidismo – fenómeno Jod-Basedow
Áreas de iodocarência, bócio nodular
Hipotiroidismo (ausência de escape ao efeito WC)
Tiroidite Hashimoto, D. Graves tratadas com I131
Iodo
*
Volume tiroideu
Tiroglobulina
Iodo urinário (iodúria)
Bom indicador da ingestão de iodo, visto que a maior parte do iodo
ingerido é excretado na urina.
Na gravidez, cerca de 90% do iodo ingerido é excretado pela urina
3.
Indicador de ingestão de iodo de base populacional e não um
marcador individual.
Avaliação da ingestão de iodo
Os valores de iodúria que indicam uma adequada ingestão de iodo
são distintos nos diferentes grupos populacionais
7
Gravidez:
Nas lactantes, os valores de iodúria devem ser ≥100mcg/L (< à
da grávida, devido ao facto de uma percentagem de iodo ser
excretada no leite materno)
3.
Iodúria (mcg/L)
Aporte Iodado
< 150
Insuficiente
150 – 249
Adequado
250 – 499
Mais que adequado
≥ 500
Excessivo
Iodúria (mcg/L)
Défice de Iodo
50 – 99
Ligeiro
20 – 49
Moderado
Em Portugal: estudos verificaram que aporte de iodo é
insuficiente de acordo com as recomendações da OMS
Estudo realizado com 3631 grávidas em 17 maternidades, do Interior, Litoral e Regiões Autónomas de Portugal:
83% das grávidas do Continente consomem menos iodo do que é recomendado e apenas 17% têm valores de iodúria adequados (>150 mcg/L)8.
As iodúrias obtidas nas Regiões Autónomas são significativamente inferiores às obtidas no Continente. Na Madeira 92% das grávidas apresentam níveis inadequados (<150 mcg/L) e nos Açores 99%9.
Estudo realizado na região do Minho demonstrou que mulheres em idade fértil e grávidas apresentavam deficiência de iodo com uma mediana de iodúria <75 mcg/L10.
Verificou-se a existência de bócio em 14% das grávidas.
Num outro estudo11 dos mesmos investigadores e na mesma região, verificou-se que o
perfil das hormonas tiroideias durante a gravidez não era o adequado para suprir as necessidades do feto.
Consequências da carência de iodo na gravidez
TSH, Tg e T3/T4 molar
T4 livre
Hipotiroidismo materno
Bócio na mãe e no filho
Alterações no desenvolvimento neurológico do feto
Na sua forma mais extrema pode resultar em cretinismo da criança
7O feto só consegue sintetizar hormonas tiroideias de uma forma
significativa a partir do meio da gravidez pelo que depende do aporte
materno de iodo até às 20 semanas de gestação
12.
Défice de iodo na gravidez
Hipotiroidismo materno
O hipotiroidismo materno está associado a
complicações obstétricas e fetais.
A ingestão de iodo durante a gravidez é essencial à síntese de hormonas
tiroideias da mãe que por sua vez são necessárias à maturação do sistema
nervoso central do feto e subsequente neuro-desenvolvimento da
criança
12,13,14.
As hormonas tiroideias asseguram um desenvolvimento programado e
coordenado do sistema nervoso central do feto e da criança, sendo a
deficiência de iodo uma das causas evitáveis de distúrbios no
desenvolvimento ou de doenças mentais
15.
O feto é particularmente vulnerável às alterações provocadas pelas
deficiências de iodo numa fase precoce da gravidez. Se a suplementação
começa só na primeira visita pré-natal pode já ter sido ultrapassado este
período relevante. Nas mulheres que estão a planear engravidar, há
evidência de que a suplementação de iodo contribui para atingir os valores
recomendados
16.
Como fazer suplementação de iodo na gravidez
Dose diária recomendada (DDR)
7
OMS: 250 mcg durante gravidez e amamentação e de 150 mcg/dia para as
mulheres em preconceção
IOM: 220 mcg durante gravidez e 290 mcg durante amamentação
ATA (American Thyroid Association): 250 mcg durante gravidez e
amamentação
Iodúria de pelo menos 150 mcg
Vitaminas/suplementos com iodo (150-200 mcg/dia)
Sal iodado
A iodização universal do sal pode eliminar a necessidade de suplementação
específica na gravidez e lactação
9.
A utilização de sal iodado (20-40 mg de iodo por quilo de sal) é uma prática
Suplementos com iodo
Marca comercial
Dose de iodo
Iodo
Yodafar®
200 mcg, 300 mcg
Yodiquer®
200 mcg
Ácido fólico + iodo
IOB9®
200 mcg
Polivitamínico
Forgest®
150 mcg
Natalben Preconceptivo®
150 mcg
Natalben Supra®
200 mcg
Natalben Lactação®
200 mcg
Centrum Materna®
200 mcg
Matervita®
200 mcg
Matervita Lactancia®
200 mcg
Efeitos adversos
Doses de iodo usadas no sal iodado ou nos suplementos pré-natais
são seguras e raramente causam efeitos adversos:
Risco de hipertiroidismo em grávidas de áreas com bócio endémico ou
grávidas com nódulos funcionantes
Risco de agravar o hipotiroidismo em grávidas com tiroidite autoimune
Ingestão excessiva de iodo também tem impacto na função tiroideia fetal
->
inibe organificação de iodo fetal
->
risco de hipotiroidismo e bócio
fetal (efeito Wolff-Chaikoff)
Os benefícios da suplementação com iodo são superiores aos riscos
em regiões com deficiência em iodo
Dose máxima recomendada (grávidas e lactantes)
4:
< 500 mcg dia (OMS e ATA)
< 1100 mcg dia (IOM)
Quando não usar iodo na gravidez
Suplementadas com polivitamínicos que contêm iodo
Patologia tiroideia:
Tiroidites autoimunes
Hipertiroidismo
Doença de Graves
Nódulos tiroideus funcionantes
Hipotiroidismo medicado com levotiroxina
Avaliar a função tiroideia
Orientação da DGS, nº 011/2013 (26/08/2013)
1.
As mulheres em preconceção, grávidas ou a amamentar devem receber um suplemento
diário de iodo sob a forma de iodeto de potássio – 150 a 200 mcg/dia, desde o período
preconcecional, durante toda a gravidez e enquanto durar o aleitamento materno exclusivo,
pelo que deverá ser prescrito o medicamento com a substância ativa de iodeto de potássio
na dose devidamente ajustada;
2.
Nas grávidas e mulheres a amamentar com indicação clínica para receberem
suplementos vitamínicos (gestação múltipla, vegetarianas ou com uma dieta inadequada), há
que contabilizar naquela dose diária recomendada de iodeto de potássio, a quantidade de
iodo já existente nos suplementos vitamínicos;
3.
Nas mulheres com patologia da tiroide o iodeto de potássio pode estar contraindicado,
devendo a decisão médica ser tomada caso a caso;
4.
De forma a contribuir para a ingestão apropriada de iodo há, naturalmente, que
assegurar uma alimentação variada, incluindo alimentos que, habitualmente, são fontes de
iodo, em particular: pescado, leguminosas e hortícolas e, ainda, leite e outros produtos
lácteos. Recomenda-se, também, a substituição do sal comum por sal iodado.
Conclusões
O iodo é um oligoelemento essencial à vida, obtido a partir de fontes
exteriores ao organismo humano, através da alimentação e acumulado na
glândula tiroide, tendo como função a biossíntese das hormonas tiroideias
18.
As necessidades de iodo durante a gravidez estão aumentadas.
Durante a preconceção, gravidez e amamentação impõe-se uma adequada
ingestão de iodo necessária para completar as necessidades da grávida, para
a maturação do sistema nervoso central do feto e para o seu adequado
desenvolvimento.
As grávidas e as lactantes são um grupo de risco para a carência de iodo
19,20.
Estudos demonstram que a suplementação com iodeto de potássio permite
atingir os valores recomendados de 250 mcg/dia
3.
Conclusões
Existe evidência científica recente da existência de deficiência de iodo em
populações de risco em Portugal, nomeadamente em grávidas e
lactantes
8,10,9,11.
A suplementação precoce de iodo em mulheres de áreas iodo-carentes (ex.
Portugal) na preconceção e gravidez precoce está associado a melhor
desenvolvimento neurocognitivo das crianças.
A dose de iodo recomendada na gravidez pode ser encontrada na maioria
dos polivitamínicos pré-natais.
Prescrever suplementos com iodo a todas as grávidas, exceto se já se
encontra a fazer vitaminas com iodo ou de antecedentes de patologia
tiroideia.
Bibliografia
1. Skeaff, S. Iodine Deficiency in Pregnancy: The Effect on Neurodevelopment in the Child. Nutrients
2011; 3:265-273.
2. Delange F. Optimal Iodine Nutrition during Pregnancy, Lactation and Neonatal Period. Int J
Endocrinol Metab. 2004; 2:1-12.
3. Andersson, M. et al. Prevention and control of iodine deficiency in pregnancy and lactating women
and in children less than 2 years-old: conclusions and recommendations of the technical Consultation. Public Health Nutrition 2007; 10(12A): 1606-1611.
4. European Food Safety Authority.Tolerable upper intake levels for vitamins and minerals. Scientific
Committee on Food. Scientific Panel on Dietetic Products, Nutrition and Allergies. 2006.
5. FAO, WHO. Vitamin and Mineral Requirements in Human. Nutrition, 2nd ed. Geneva: World Health
Organization, 2005. http://whqlibdoc.who.int/publications/2004/9241546123.pdf
6. Public Health Committee of the American Thyroid Association. Iodine Supplementation for
pregnancy and Lactation – United States and Canada: recommendations of the American Thyroid Association. Thyroid 2006; 16: 949-951.
7. World Health Organization. Assessment of iodine deficiency disorders and monitoring their
elimination: a guide for programme managers. – 3rd ed. Genève. 2007.
8. Limbert et al. Iodine Intake in Portuguese Pregnant Women: Results of a Countrywide Study. Eur J
Endocrinol 2010; 163: 631-635.
9. Edward Limbert et al. Aporte do iodo nas Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores. Rev Port
Bibliografia
10. Costeira, MJ et al. Iodine Status of pregnant women and their progeny in the Minho region of
Portugal Thyroid, 2008; 18: 1-7.
11. Costeira, MJ et al. Parameters of Thyroid Function Throughout and after pregnancy in a
Iodine-Deficiente population. Thyroid, 2010; 20: 995-1001.
12. Rebagliato et al. Iodine intake and maternal thyroid function during pregnancy. Epidemiology 2010;
21: 62-69.
13. Sarah C Bath, Colin D Steer, Jean Golding, Pauline Emmett, Margaret P Rayman. Effect of
inadequate iodine status in UK pregnant women on cognitive outcomes in their children results from the Avon Longitudinal Study of Parents and Children (ALSPAC). The Lancet, May 22, 2013.
14. Loewenthal Lola. Study links iodine deficiency in pregnancy with poor cognitive outcomes in
children. British Medical Journal, 23 May 2013.
15. Escobar, G. e Rey, M. Role of Thyroid hormone during early brain development. European Journal
of Endocrinology 2004; 151:25-37.
16. Zimmermann M, Delange F. Iodine supplementation of pregnant women in Europe: a review and
recommendations. European Journal of Clinical Nutrition 2004; 58: 979-984.
17. Andersson M, Karumbunathan V, Zimmermann MB. Global iodine status in 2011 and trends over
the past decade. J. Nut. 2012 Feb 29.
18. Yarrington, C. e Pearce, E. Iodine and Pregnancy. Review Article. Journal of Thyroid Research 2011;
1-8.
19. Andersson, M. et al. Iodine deficiency in Europe. A continuing public health problem. World Health
Organization, 2007.
20. Brantsæter AL, Abel MH, Haugen M, Meltzer HM. Risk of Suboptimal Iodine Intake in Pregnant