O PAPEL DA EXPERIÊNCIA NA TEORIA DO CONHECIMENTO DE LEIBNIZ
Fábio Pereira Barros Mestrando em Ensino na Educação Básica na Universidade Federal do Espírito Santo–UFES E-mail: [email protected] Jair Miranda de Paiva Professor Adjunto da Universidade Federal do Espírito Santo-UFES E-mail: [email protected]
RESUMO: Este trabalho tem por objetivo a análise do papel da experiência na teoria do conhecimento de Leibniz. Nos Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano, o filósofo alemão afirma que existem representações que se encontram na alma humana antes de qualquer impressão sensível. As ideias estão no espírito virtualmente, pois Deus as colocou e somente através da reflexão e dos sentidos é que somos capazes de atualizá-las. E a experiência será de fundamental importância nesse exercício de ativação das ideias para que saiam de sua virtualidade.
Palavras-chave: Ideias. Experiência. Conhecimento. Razão.
ABSTRACT: This study aims to analyse the role of experience in the theory of Leibniz’s knowledge. In New Essays on Human Understanding, the German philosopher says that there are representations that are in the human soul before any sensitive printing. The ideas are virtually in the spirit because God put them and only through reflection and the sense is that we are able to update them. And the experience will be of fundamental importance in this exercise activation of the ideas to come out of its virtuality.
Keywords: Ideas. Experience. Knowledge. Reason.
1. INTRODUÇÃO
A história da filosofia é marcada, desde sua origem, por um intenso debate sobre o conhecimento. Em Platão e Aristóteles encontramos um dos primeiros desses grandes debates. Platão defendia a tese de que o conhecimento verdadeiro reside no mundo das ideias, e que as ideias já nascem conosco. Já Aristóteles assume uma posição oposta a Platão, defendendo a tese de que todo conhecimento tem sua origem na experiência.
Durante o período moderno, essas duas posturas tomam novo fôlego no debate entre empiristas e inatistas. A primeira delas, sustentada por Locke (1978), entre outros, afirmava que o conhecimento humano estava inevitavelmente determinado pela experiência e, nesse sentido, não haveria qualquer conteúdo na mente humana que não houvesse antes passado pelos sentidos. Nos Ensaios Acerca do Entendimento Humano, Locke procura refutar a tese inatista e desenvolver sua teoria empirista.
Tendo em vista a tese defendida por Locke, Leibniz redige entre 1695 e 1705 sua resposta ao texto do filósofo inglês, Os Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano, que só veio a lume em 1765, 49 anos após a morte de Leibniz. O filósofo alemão afirma que existem representações que se encontram na alma antes de qualquer impressão sensível. As ideias estão no espírito virtualmente, pois Deus as colocou e somente através da reflexão e dos sentidos é que somos capazes de atualizá-las. É desse modo que a produção de conhecimento se dá, ou seja, por meio da atualização operada pela reflexão e pela experiência. Assim, percebe-se que Leibniz atribui um novo papel a experiência.
2. AS IDEIAS INATAS DE FORMA VIRTUAL NO ESPÍRITO
Leibniz admite que existem certas estruturas geradoras de ideias inatas. No prefácio aos Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano, ele faz uma comparação com um bloco de mármore que tem veios, os quais desenham a figura de Hércules, e não outra figura. Para Leibniz, este bloco de mármore já está disposto, e Hércules, de algum modo inato, mesmo que para descobrir esses veios, seja necessário trabalho e atenção.
Serve-me também da comparação de uma pedra de mármore, a qual tem veios (...) se houvesse veios na pedra, que assinalassem a priori a figura de Hércules de preferência a outras, esta pedra seria mais determinada, e Hércules estaria como que inato nela de alguma forma, embora não se possa esquecer que se necessitaria de trabalho para descobrir tais veios, para limpá-los, eliminando o que os impede de aparecer. É desta forma que as ideias e as verdades estão inatas em nós: como inclinações, disposições, hábitos ou virtualidades naturais, e não como ações, embora tais virtualidades sejam sempre acompanhadas de algumas ações, muitas vezes insensíveis, que lhes correspondem (LEIBNIZ, 1980, Pref. p. 10).
O filósofo alemão afirma que há certas disposições e inclinações para determinadas ideias e que conduzem naturalmente para elas sem esforço. Mas há uma série de ideias inatas que não temos consciência e um dos motivos que nos fazem ignorar tais ideias é o fato
de que temos uma infinidade de conhecimentos que nem sempre percebemos, até mesmo quando temos necessidade deles, como foi afirmado acima. E para tomarmos consciência dos mesmos é preciso trabalho e atenção, como afirma Leibniz:
A apercepção do que está dentro de nós depende de uma atenção e de uma ordem. Ora, não somente é possível, mas é até conveniente que as crianças prestem mais atenção às noções provenientes dos sentidos, visto que a atenção é regulada pela necessidade (LEIBNIZ, 1980, p.41).
3. DISTINÇÃO ENTRE PERCEPÇÃO E APERCEPÇÃO
Leibniz chama atenção para a distinção entre percepção e apercepção, assim diz: “o estado passageiro, envolvendo e representando a multiplicidade na unidade ou na substância simples, é precisamente o que se chama percepção, que deve distinguir-se da apercepção ou consciência” (LEIBNIZ, 1974, p. 64). O filósofo afirma que a faculdade de perceber é o constituinte básico de todas as almas. Por isso a percepção é essencial, ou seja, uma ação que nunca deixa de ocorrer. Logo, nenhuma alma se encontra sem percepção, e o ser humano nunca se encontra sem pensamentos1:
Sem dúvida, o pensamento é uma ação e não pode ser a essência: entretanto, é uma ação essencial, sendo que todas as substâncias possuem tais ações essenciais (...). Não estamos nunca sem percepções (LEIBNIZ, 1980, p. 114).
De acordo com Leibniz, uma alma tem percepção quando ela “nota” um objeto externo. Isto é, quando ela se dá conta, atenta para o ente material que afeta sensivelmente o corpo orgânico ao qual está ligada: “direi que temos uma sensação, quando nos damos conta de um objeto externo” (LEIBNIZ, 1980, p. 113). Sentir e perceber são fenômenos que dependem da capacidade do sujeito para decompor um objeto em suas qualidades simples (sensação) e de recompô-lo como um todo, dando-lhe organização e significação (percepção). A sensação conduz à percepção como síntese ativa, isto é, que depende da atividade do entendimento.
Quando a alma humana reflete, ela se apercebe das ideias inatas que traz consigo mesma em seu entendimento puro, pois, a reflexão é uma atenção àquilo que está dentro da 1 Num primeiro momento, Leibniz (1980) designa a ação da faculdade de perceber pelo termo pensamento. Contudo, o filó-sofo retifica posteriormente o uso do termo pensamento, afirmando que ele se refere à modificação especifica da faculdade de perceber humana, sendo mais correto nos referirmos à ação da faculdade de perceber presente em todas as almas pelo termo de percepção.
alma. Mas é preciso fazer uma observação no que diz respeito à apercepção. Este conceito é utilizado por Leibniz com certa equivocidade, pois tanto animais quanto seres humanos são capazes de apercepção: “eis por que os animais não possuem entendimento (...) se bem que tenham a faculdade de aperceber-se das impressões mais notáveis e mais distinguidas, assim como o javali percebe uma pessoa que grita para ele e vai direto em direção à pessoa” (LEIBNIZ, 1980, II. xxi. §5, p 124). Entretanto, no que concerne aos seres humanos, a apercepção é o mesmo que consciência2. Podemos dizer que apercepção é uma percepção seguida de consciência. Ou seja, temos uma apercepção quando tomamos consciência de algo. Leibniz diz que apercepção e consciência é a mesma coisa: “apercepção ou consciência” (LEIBNIZ, 1980, II. xxvii, §23, p. 184).
Todavia, há graus na atenção dispensada pelo espírito às ideias inatas. Assim afirma o filósofo: “existem graus na dificuldade que temos de nos aperceber do que está em nós” (LEIBNIZ, 1980, I. i. §5, p 34). Leibniz nos diz com mais detalhes sobre esse grau de apercepção e a dificuldade que há em aperceber ou tomar consciência de tais ideias:
É verdade que começamos antes a dar-nos conta das verdades particulares, como começamos pelas ideias mais compostas e mais grosseiras; todavia, isto não impede que a ordem da natureza comece pelo mais simples, e que a razão das verdades mais particulares dependa das mais gerais, das quais são apenas exemplo. E, quando queremos considerar o que está em nós virtualmente e antes de qualquer apercepção, temos razão em começar pelo mais simples. Pois os princípios gerais entram em nossos pensamentos, dos quais constituem a alma e a conexão. Eles são ali necessários, da mesma forma que os tendões e os músculos o são para andarmos, embora não pensemos neles. O espírito se apoia sobre esses princípios a todo momento, mas não chega tão facilmente a distingui-los e representá-los distinta e separadamente, visto que isto exige uma grande atenção ao que ele faz, e a maior parte das pessoas, pouco habituadas a meditar, não têm tal atenção (LEIBNIZ, I. i. §20, p. 39).
A meditação é colocada por Leibniz como o nível mais elevado de apercepção. Feita essa observação acerca da dificuldade e graus da apercepção, o filósofo continua afirmando que as ideias são, pois, inatas num certo sentido. Não estão em nós em estado de atualidade, mas virtualmente, ou potencialmente, e é através da reflexão e dos sentidos que a alma adquire consciência das mesmas. Nossa alma é pré-formada, isto é, contém virtualmente as verdades necessárias que descobrem e se tornam distintas pela reflexão e pelos sentidos. Percebe-se, a partir daí, que Leibniz atribui um novo papel à experiência, ao contrário de Locke que afirmava que a experiência era a fonte das ideias, Leibniz sustenta que ela é um 2 Leibniz afirma ser a mesma coisa apercepção e consciência. Todavia, os animais também têm apercepção, apesar de não se-rem capazes de consciência. Percebe-se que apercepção não é sempre sinônimo de consciência, mas apenas enquanto referente aos seres humanos. Pois, a apercepção implica também a consciência do Eu, isto é, toda consciência duma percepção envolve também a consciência de que “sou Eu” quem a percebe.
meio necessário para que as verdades passem do estado de virtualidade para o estado de atualidade.
Mas de que forma isto procede? Como é a atuação da experiência nesse processo de atualização do virtual? Para responder a essas indagações é preciso dar outro passo: fazer uma análise acerca das verdades de razão e das verdades de fato.
4. VERDADES DE RAZÃO E VERDADES DE FATO
Leibniz separou as verdades quanto à forma dessas verdades serem conhecidas: umas são conhecidas pela razão e outras pela experiência. Dessa forma, podemos perceber que o conhecimento humano se compõe das verdades de razão e das verdades de fato. Daí provém três princípios: o princípio da identidade, da contradição e o princípio da razão suficiente3. Para explicar a verdade de razão e a verdade de fato, Leibniz recorre a esses dois princípios, um trata das coisas a priori e outro das coisas a posteriori, ou seja, um não dependente da experiência e dos sentidos, mas dependente da razão; e outro dependente dos sentidos e da experiência.
4.1. Verdade de razão ou verdades necessárias
A razão como forma de conhecimento da realidade enuncia verdades inexoráveis cujas ideias são inatas, tais como as verdades da matemática, da aritmética e da geometria:
Filaleto – Que dizeis, porém, a este desafio de um dos meus amigos? Diz ele: se alguém puder encontrar uma proposição cujas ideias sejam inatas, que a indique, pois não poderia prestar-me um favor maior. // Teófilo - Mencionaria as proposições da aritmética e da geometria, que são desta natureza. Em termos de verdades necessárias, não é possível encontrar outras (LEIBNIZ, 1980, p. 40-41).
Então esses tipos de ideias são inatos, e podemos exemplificar dizendo que é 3 Princípio de Identidade quando o oposto se identifica consigo mesmo B = B. Acentua a ideia de conformidade de uma coisa consigo mesma. O Princípio fundamental para Leibniz é o Princípio de Identidade que é o princípio mais “importante” por assegurar a coerência interna do sujeito. Leibniz afirma que os nossos raciocínios são fundados em dois grandes princípios, o da contradição e o da razão suficiente. Pelo princípio de contradição, julgamos falso o que implica a contradição, e verdadeiro o que é oposto ou contraditório ao falso. Pelo princípio de razão suficiente nenhum facto poderia ser verdadeiro ou existente sem que haja uma razão suficiente para que isso assim seja, ainda que essas razões não possam ser conhecidas por nós.
racionalmente impossível que um triângulo não tenha três lados e que 2+2 não seja igual a 4. Pois, para Leibniz o conhecimento dessas verdades está fundamentado em dois princípios lógicos, isto é, o princípio de identidade e o princípio da contradição. Tanto o conhecimento da matemática, da geometria e da aritmética se reduz a estes princípios, pois encerram necessidade lógica. Isso traduz uma capacidade racional, puramente intelectual, para conhecer ideias que não dependem da experiência para serem formuladas e serem verdadeiras. As verdades de razão, portanto, são inatas. Assim afirma o filósofo:
Daqui parece dever-se concluir que as verdades necessárias, quais as encontramos na matemática pura e sobretudo na aritmética e na geometria, devem ter princípios cuja demonstração independe dos exemplos, e conseqüentemente também dos testemunhos dos sentidos, embora se deva admitir que sem os sentidos jamais teria vindo à mente pensar neles. (...) Também a lógica, a metafísica e a moral, uma das quais forma a teologia e a outra a jurisprudência, todas as duas naturais, estão repletas de tais verdades necessárias, e por conseguinte a sua demonstração não pode provir senão de princípios internos que se denominem inatos (LEIBNIZ, 1980, Pref. p. 9).
Isto quer dizer que estão virtualmente impressas como uma semente ou como um germe que se encontram no espírito e que constituem o próprio espírito. No entanto, por inatas não queremos dizer que as crianças já nascem sabendo geometria analítica. No curso da vida, do espírito, essas ideias se desenvolvem, se explicitam, se formulam, estabelecem-se e formam-se em sua relação, por exemplo, a matemática. Aprender matemática não é algo que se pareça em nada com a comunicação que um homem possa fazer a outro homem de uma verdade de fato, se alguém diz: o céu está nublado, este é um conhecimento de fato. Ocorre que não se aprende assim matemática. Para Leibniz, aprender matemática consiste em que as matemáticas latentes que estão em cada um saiam à superfície, que cada um descubra as matemáticas. Isso pode ser evidenciado nos Novos Ensaios, quando lembra a teoria da reminiscência de Platão, aquele diálogo em que Sócrates chama a um jovem escravo, Ménon, para demonstrar a seus ouvintes que esse rapaz também sabia matemática sem a ter aprendido, porque as matemáticas surgem, nascem no espírito por puro desenvolvimento dos germes racionais que estão nele.
(...) toda a aritmética e toda a geometria são inatas, estando em nós de maneira virtual, de maneira que podemos encontrá-las em nós considerando atentamente e ordenando o que já temos no espírito, sem utilizar qualquer verdade aprendida por experiência ou pela tradição de outros, como demonstrou Platão em um diálogo, no qual introduz Sócrates conduzindo uma criança a verdades estranhas simplesmente através das perguntas, sem ensinar-lhe nada. Podemos, por conseguinte, construir essas ciências em nosso gabinete e até com os olhos fechados, sem apreendermos pela vista ou
pelo tato as verdades de que temos necessidade... (LEIBNIZ, 1980, p. 33-34).
Nesse sentido, pode-se dizer que as verdades de razão são inatas, mas, não no sentido de pensar que um “ignorante”, que um menino já sabe geometria. Quer dizer que estas ideias estão virtualmente impressas como uma semente ou germes que se encontram no espírito e que constituem o próprio espírito. E todo homem pode vir a conhecê-las, sendo que, para isso, não precisa de experiência, mas somente do desenvolvimento desses germes já existentes, através da reflexão e da meditação4. E são esses “tipos” de verdades, verdades necessárias, que se encontram de forma inata na alma, que nos possibilitam chegar até a Razão e as ciências. Assim afirma o filósofo alemão:
Mas o conhecimento das verdades necessárias e eternas, elevando-nos ao conhecimento de nós próprios e de Deus, é que nos distingue dos animais e nos permite alcançar a Razão e as ciências. Isso o que denomina Alma racional, ou Espírito (LEIBNIZ, 1974, p. 66).
4.2. Verdades de fato ou verdades contigentes
As ideias que, ao contrário das racionais, precisam da experiência são as verdades de fato. Essas verdades exigem que as ideias sejam obtidas através da percepção e da memória. As verdades de fato são empíricas e se referem às coisas que poderiam ser diferentes do que são, mas que são como são porque há uma causa para que sejam assim. Por exemplo, se eu observo que os cabelos de minha irmã são castanhos, é porque alguma causa (no caso, os genes) fez com que eles tivessem essa cor. Mas nada impede que eles fossem louros, pretos ou ruivos, se houvesse alguma causa para isso. Como afirma Abbagnano: “tais verdades não se fundam no princípio da contradição: o que quer dizer que o seu contrário é possível. Fundam-se, ao invés, no princípio de razão suficiente” (ABBAGNANO, 1982, p. 15-16). Isso constitui o princípio da razão suficiente, ou seja, tudo o que existe e tudo o que percebemos possui uma causa determinada, seria, portanto, o conhecimento das causas. Ou seja, nada se verifica sem uma razão suficiente, isto é, sem que seja possível, àquele que conhece suficientemente as coisas, dar uma razão que baste para determinar que é assim e não de outro modo Mas tal razão não é uma causa necessária: é um princípio de ordem ou de concatenação pelo qual as 4 A reflexão nos faz pensar no que se chama o Eu e considerar que isto ou aquilo está em nós. É assim que, pensando em nós, pensando no Ser, na substância, no simples e no composto, no imaterial e até mesmo em Deus, concebendo como sem limites nele aquilo que em nós é limitado. A reflexão é uma “ferramenta” que nos dá suporte para alçarmos as ideias inatas. No entanto, a reflexão opera em conjunto com a experiência.
coisas que ocorrem se ligam umas às outras sem todavia formarem uma cadeia necessária. É um princípio de inteligibilidade que garante a liberdade ou contingência das coisas reais. No entanto, essa causa nem sempre pode ser conhecida. Leibniz diz que:
E o da Razão suficiente, pelo qual entendemos não poder algum fato ser tomado como verdadeiro ou existente, nem algum enunciado ser considerado verídico, sem que haja uma razão suficiente para ser assim e não de outro modo, embora freqüentemente tais razões não possam ser conhecidas por nós (LEIBNIZ, 1974, p. 66).
O princípio de razão suficiente conduz Leibniz a formular o conceito central da sua metafísica, o de substância individual. Uma verdade de razão é aquela em que o sujeito e o predicado são em realidade idênticos, onde não se pode negar o predicado sem contradição. Não se pode dizer, por exemplo, que um triângulo não tenha três lados e não tenha os ângulos internos iguais a dois retos, tais proposições são contraditórias, portanto impossíveis. Todavia, nas verdades de facto o predicado não é idêntico ao sujeito e pode ser negado sem contradição. O contrário de uma verdade de fato não é, por isso, nem contraditório, nem impossível. O sujeito dela deve, portanto, conter a razão suficiente do seu predicado.
Nisso está implícita uma exortação geral a que se busquem as razões suficientes de todas as coisas, de todos os fatos, segundo o máximo das nossas possibilidades. O que nos aproximaria cada vez mais de Deus, que conheceria a razão suficiente de todas as coisas. Para Leibniz, o princípio da razão suficiente ou a ideia de causalidade universal e necessária permite manter as ideias inatas e as ideias empíricas. Mas de que forma? Através da Matemática. Um bom exemplo são os conhecimentos da Física que “reúnem” verdades de razão e verdades de fato.
Os conhecimentos relativos à Física, apesar de trazerem em seu bojo juízos de razão provenientes da Matemática, não são meramente desta ordem, pois eles se baseiam também nas observações dos fatos e em juízos que não são passíveis de prova a priori. Por isso, Leibniz afirmará que suas conclusões são mistas e se seguem de premissas formadas por juízos de fato e de razão, juízos constituídos a partir de generalizações e juízos necessários:
Existem finalmente proposições mistas, as quais são tiradas de premissas das quais algumas provêm dos fatos e das observações, e outras são proposições necessárias; tais são uma série de conclusões geográficas e astronômicas sobre o globo da terra e sobre o curso dos astros, que nascem pela combinação das observações dos viajantes e dos astrônomos com os teoremas de geometria e de aritmética. Todavia, como segundo o uso dos mestres da lógica a conclusão
segue a premissa mais fraca e não pode fornecer mais clareza do que as premissas,
essas proposições mistas não podem apresentar mais do que a certeza e a generalidade que pertence às observações (LEIBNIZ, 1980, p. 362-363).
Apoiada em juízos de razão, isto é, matemáticos, a Física nos permite ascender às “razões dos fatos”, pois as ideias a priori que trazemos em nós mesmos correspondem exatamente à regularidade dos acontecimentos. Isso se verifica e se comprova pela capacidade de previsão que esses conhecimentos nos facultam: “ora, a conexão dos fenômenos, que garante as verdades de fato em relação às coisas sensíveis existentes fora de nós, se verifica por intermédio das verdades de razão, como as aparências da óptica se esclarecem pela geometria” (LEIBNIZ, 1980, p. 300).
5. A MATEMÁTICA E O CONHECIMENTO RACIONAL
Para Leibniz, existe um ideal de conhecimento que é o ideal da pura racionalidade. E entre esse ideal de conhecimento plenamente realizado na lógica e nas Matemáticas e o conhecimento um pouco “inferior” das verdades de fato que estão na Física não há um distanciamento ou um abismo, mas, pelo contrário, há uma continuidade de transições, de tal forma que o conhecimento consiste em elevar aos mais vastos territórios de verdades de fato em verdades de razão. De que forma? Introduzindo as Matemáticas na realidade. Assim o conhecimento será cada vez mais racional quanto mais for matemático. E Leibniz comprova inventando o cálculo infinitesimal, que dá um salto formidável no conhecimento de fato da natureza e amplia grandes setores da Física dando-lhe maior rigor.
Leibniz entendeu que as verdades matemáticas, as verdades da lógica pura, são verdades da razão; e, as verdades da experiência física são verdades de fato. Essas últimas são confusas e obscuras. O ideal do conhecimento é o conhecimento necessário, o qual nos fornece as verdades da razão, que são inatas, virtualmente impressas e independentes da experiência. (...) Ademais, Leibniz considerou que o conhecimento será cada vez mais racional quanto mais for matemático (MENEGHETTI, 2003, p. 145).
Segundo ele, símbolos universais ou ideogramas deveriam ser introduzidos para o pequeno número de conceitos fundamentais necessários ao pensamento humano como as fórmulas são desenvolvidas em Matemática. O próprio silogismo deveria ser reduzido a uma espécie de cálculo expresso num simbolismo universal inteligível em todas as línguas. As controvérsias filosóficas dar-se-iam por terminadas, visto que, a verdade e o erro seriam apenas uma questão de cálculo correto dentro do sistema. Até porque novas descobertas podiam ser feitas por operações corretas, mais ou menos rotineiras, sobre os símbolos de
acordo com as regras do cálculo lógico.
Leibniz acreditava que a representação concreta do pensamento em símbolos adequados era o fio condutor e necessário que conduz a mente. E o desenvolvimento que ele imprime à lógica decorre do seu propósito de criar um método de representar o pensamento através de signos, de caracteres relacionados com o que se está pensando.
Na visão de Leibniz a linguagem universal deveria ser como a Álgebra ou como uma versão dos ideogramas chineses: uma coleção de sinais básicos que padronizassem noções simples não analíticas. Noções mais complexas teriam seu significado através de construções apropriadas envolvendo sinais básicos, que iriam assim refletir a estrutura das noções complexas e, na análise final, a realidade. O uso de numerais para representar noções não analíticas poderia tornar possível que as verdades de qualquer ciência pudessem ser “calculadas” por operações aritméticas, desde que formuladas na referida linguagem universal. Conforme o próprio Leibniz, “(...) quando aparecer uma controvérsia, já não haverá necessidade de uma disputa entre dois filósofos mais do que a que há entre dois calculistas (JESS, 2004, p.80).
Diante do que já foi exposto podemos, acerca das verdades de razão e verdades de fato, bem como seus respectivos princípios, perceber que para Leibniz o fundamento do conhecimento racional corresponde a dois princípios lógicos, isto é, os princípios de identidade e contradição. Além desses dois princípios, há outro chamado princípio de razão suficiente, segundo o qual, nada existe que não tenha uma causa. Para que uma coisa seja, é necessário que se dê uma razão porque seja assim e não de outro modo. Ao terceiro princípio, correspondem as verdades de fato. Estas não se justificam a priori, mas sim pelo princípio da razão suficiente. As verdades de fato são contingentes. A sua razão resulta de uma infinidade de atos passados e presentes que constituem a razão suficiente pela qual ele se dá agora. São atestadas pela experiência.
Então podemos concluir que razão e experiência atuam em conjunto na “produção” do conhecimento. Percebe-se que o princípio de identidade e o princípio de contradição estão atrelados às verdades de razão, e o princípio de razão suficiente às verdades de fato. O primeiro ligado à razão e o segundo à experiência. No entanto, não há um abismo entre esses dois tipos de verdades, há na verdade uma ligação através da Matemática, como afirma Leibniz: “... A verdade das coisas sensíveis se justifica pela sua ligação, a qual depende das verdades intelectuais, fundadas na razão, e das observações constantes nas próprias coisas sensíveis, mesmo quando as razões não apareçam” (LEIBNIZ, 1980, p. 361).
6.1. Razão, fundamento da verdade
Leibniz afirma que o fundamento de todas as verdades ou de todos os conhecimentos não pode ser a experiência, apesar da grande importância desta na produção do conhecimento, e passa, desta forma, a elencar as razões disso. O primeiro argumento levantado pelo filósofo nos mostra a insuficiência dos sentidos, visto que os mesmos nos põem em contato apenas com verdades particulares e individuais, o que não é suficiente para estabelecer a universalidade dessa verdade. Como afirma Marta de Mendonça, em seu artigo Sentidos da necessidade em Leibniz:
Nas verdades de experiência, não há elementos suficientes para se fundamentar um conhecimento universal e necessário, pois a indução não garante nunca a necessidade. Aplicada, como no contexto acontece, ao âmbito das verdades, a necessidade instala-se, modalizando-se, no âmbito das verdades de razão, deixando de fora todo o âmbito do conhecimento experiencial, o qual é incapaz, em virtude da sua origem, de se libertar da singularidade do fato concreto e de ascender à generalidade e à universalidade (MENDONÇA, 2005, p. 69).
Isso quer dizer que se partirmos de nossa experiência individual, jamais poderemos determinar que essa experiência seja universal e válida para todas as pessoas, épocas e locais. Pois segue que aquilo que aconteceu conosco não acontecerá necessariamente da mesma forma com outra pessoa. No prefácio aos Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano Leibniz diz que:
Os sentidos, se bem que necessários para todos os nossos conhecimentos atuais, não são suficientes para dar-nos-los todos, visto que eles só nos fornecem exemplos, ou seja, verdades particulares ou individuais. Ora, todos os exemplos que confirmam uma verdade de ordem geral, qualquer que seja o seu número, não são suficientes para estabelecer a necessidade universal desta mesma verdade, pois não segue que aquilo que aconteceu uma vez tornará a acontecer da mesma forma (LEIBNIZ, 1980, Pref. p. 8.).
Além disso, podemos perceber a fragilidade dos órgãos dos sentidos, pois em meio a qualquer uma de nossas experiências cotidianas, em que sempre ocorre um número muito grande de afetações, Leibniz afirma que os órgãos sensoriais não são capazes de obter a sensação de todas elas, visto que isso ultrapassa seus limites. Assim, mesmo acordados, é
como se dormíssemos em relação a vários objetos que estão perto de nós:
Filaleto – Parece bem difícil conceber que nesse momento a alma pense um homem adormecido, e no momento seguinte em um homem acordado, sem que se lembre disso. // Teófilo – não somente isto é fácil de conceber, mas podemos até afirmar que algo de semelhante se observa todos os dias enquanto estamos em vigília; pois temos sempre objetos que atingem os nossos olhos ou os nossos ouvidos, e por conseguinte a alma também é atingida, sem que nos demos conta do fato, pois a nossa atenção está voltada a outros objetos, isto ao momento em que o objeto se torne suficientemente forte para atrair a si, redobrando a sua ação por qualquer outro motivo; era como um sonho particular em relação àquele objeto, e esse sonho se torna geral quando cessa a nossa atenção em relação a todos os objetos juntos. É também um meio para adormecer, quando repartimos a atenção para enfraquecê-la (LEIBNIZ, 1980, p. 66).
Outro argumento contra a noção de experiência como fundamento do conhecimento se inscreve da seguinte forma: o homem é diferente dos animais, por isso não pode ser regulado pela experiência. Os animais têm a impressão de que se guiam pela experiência, todavia o homem não pode se pautar unicamente pela experiência, mas por um princípio superior e inato: a Razão. Esta sim é capaz de estabelecer regras seguras para garantir a necessidade universal de uma verdade. No prefácio aos Novos Ensaios Leibniz afirma que:
É nisto também que diferem os conhecimentos dos homens em relação aos dos animais: os animais são puramente empíricos e se regulam exclusivamente à base dos exemplos, visto que jamais chegam a formar proposições necessárias, quanto possamos julgar; ao contrário, os homens são capazes de formar as ciências demonstrativas. É também por isso que a faculdade que os animais possuem de tirar conclusões representa algo de inferior à razão que observamos nos homens (LEIBNIZ, 1980, Pref. p. 9).
Além desses argumentos, Leibniz ainda diz que mesmo os defensores do empirismo admitem ideias que não têm origem apenas na sensação, mas que também provêm da reflexão. John Locke, por exemplo, em sua obra Ensaios Sobre o Entendimento Humano afirma que as ideias provêm da sensação e da reflexão. E a reflexão é, na verdade, uma atenção àquilo que está em nós. Por essa razão, Leibniz diz que não se pode afirmar que nada podemos haurir de dentro de nós, ou que nossa alma seja vazia a ser preenchida com as imagens que recebe de fora.
No entanto, a maior parte dessas representações não é conhecida por nós, elas são inconscientes. E uma importante questão colocada diante desse fato é a seguinte: de que forma tomamos consciência dessas ideias? A resolução desse problema nos revelará a verdadeira “função” da experiência, o papel desempenhado pela razão e a possibilidade do
conhecimento no sistema filosófico leibniziano.
7. O PAPEL DA EXPERIÊNCIA NA AQUISIÇÃO DO CONHECIMENTO
Leibniz nos diz que a alma humana não é capaz de refletir sem que haja sensação, ou percepção clara dos objetos que a afetam. A alma começa a refletir quando existe sensação, pois “... no que concerne ao homem, as suas percepções são acompanhadas de poder de refletir, que passa ao ato no momento em que existe matéria para isto” (LEIBNIZ, 1980, p. 88). Ou seja, no momento em que existe sensação, “os sentidos nos fornecem a matéria para a reflexão, e não pensaríamos sequer no pensamento se não pensássemos em alguma coisa, isto é, nas particularidades que os sentidos nos fornecem” (LEIBNIZ, 1980, p. 155). No entanto, isso não quer dizer que a experiência seja o fundamento do conhecimento, ela é imprescindível na aquisição do conhecimento, mas é a razão que confirma e dá validade universal a uma verdade.
O filósofo diz que a alma humana se dá conta das ideias inatas presentes em seu entendimento quando os sentidos despertam em nós essas ideias. Os sentidos nos dão ocasião para apercebê-las. Leibniz afirma isto dizendo que: “existem ideias e princípios que não nos vêm dos sentidos, e que encontramos em nós sem formá-los, embora sejam os sentidos que nos dão ocasião para apercebê-los”. (LEIBNIZ, 1980, p. 31). Mas, apesar de necessários, os sentidos, considerados neles mesmos, não nos permitem aperceber as ideias inatas, porque eles se referem aos objetos externos e as ideias são inatas à alma. Desse modo, somos levados a perguntar: como exatamente os sentidos despertam na alma essas ideias, e o que significa dar ocasião para que a alma se dê conta delas? Bem, a essa pergunta Michael Pontes de Abreu responde afirmando que:
Sem os sentidos não poderíamos ter consciência, dado que não haveria os casos particulares disponibilizados por eles para que pudéssemos refletir e pensar abstratamente. Logo, pode-se concluir que o papel dos sentidos nessa apercepção das ideias inatas é o de disponibilizar casos particulares, dando à alma sobre o que pensar e refletir (ABREU, 2003, p. 28).
Leibniz dá um exemplo quando fala sobre a solidez: “no fundo a solidez, enquanto dá uma noção distinta, se concebe pela pura razão, embora os sentidos forneçam ao raciocínio material para demonstrar que ela está na natureza” (LEIBNIZ, 1980, p. 74).
particulares para que a alma humana reflita, ela adiciona a esses casos as ideias inatas de seu entendimento puro e pode se aperceber delas. Isso quer dizer que os sentidos despertam as ideias inatas em nós, dando à alma casos particulares para a aplicação dessas ideias e, consequentemente, a ocasião para que possamos apercebê-las quando adicionadas aos nossos pensamentos atuais que temos dos objetos. Leibniz diz: “reconheço que a experiência é necessária, a fim de que a alma seja determinada a estes ou àqueles pensamentos, e a fim de que preste atenção às ideias que estão em nós” (LEIBNIZ, 1980, p. 62).
Diante do que foi exposto até aqui, podemos concluir que não podemos desenvolver quaisquer conhecimentos sem o auxílio dos sentidos. Leibniz afirma que as duas fontes de nossos conhecimentos, fontes das quais a razão se utiliza, são a sensação e a reflexão:
Assim sendo, inclino-me a crer que, no fundo, a opinião do nosso autor (Locke) não difere da minha, ou melhor, da opinião geral, na medida em que esta reconhece duas fontes dos nossos conhecimentos, a saber, os sentidos e a reflexão (LEIBNIZ, 1980, Pref., p. 11).
Então, o homem pode conhecer, e o conhecimento tem a razão como seu fundamento. Só que a razão não atua sozinha, a razão “opera” com o auxílio da experiência. E para que o homem possa conhecer é preciso que haja esforço, é preciso refletir sobre aquilo que a alma já traz consigo: as ideias inatas. Percebe-se que a razão e a experiência atuam em conjunto na “produção” do conhecimento.
8. CONCLUSÃO
Nos Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano, de Leibniz, discutimos acerca da importância da experiência na aquisição do conhecimento. Leibniz afirma que as ideias estão na alma no estado de virtualidades. Deus as inscreveu em nosso espírito e por isso já nascemos com elas. No entanto, a maior parte dessas representações não é conhecida por nós, elas são inconscientes. A grande questão colocada diante desse fato foi a seguinte: de que forma tomamos consciência dessas ideias?
O filósofo alemão afirma existir uma infinidade de conhecimentos que nem sempre nos damos conta deles, não temos consciência de vários desses pensamentos, por isso é preciso que tenhamos atenção acerca dessas percepções, refletir acerca delas para que assim nos apercebamos da existência de tais ideias, tomando consciência das mesmas. E a experiência será de fundamental importância nesse exercício de ativação das ideias para que saiam de sua virtualidade.
A experiência, juntamente com a reflexão, tem a função de retirar o véu que encobre as ideias inatas. A experiência tem um papel imprescindível e também novo na teoria do conhecimento de Leibniz. Este é inatista e diferentemente de outros adeptos dessa postura, ele pensa a experiência como um “elemento” sem o qual o conhecimento não se dá. Os inatistas afirmam que a razão é a senhora que nos proporciona o conhecimento. Leibniz diz que o conhecimento só é possível com a atuação da razão com a experiência, ou seja, na produção do conhecimento a razão opera juntamente com a experiência.
Como citar este trabalho: BARROS, F. P.; PAIVA, J. M. de. O papel da experiência na teoria do conhecimento de Leibniz. Filosofando: Revista Eletrônica de Filosofia da UESB. Vitória da Conquista, v. 3, n. 2, p. 25-39, 2015.
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