LUTA VERMELHA CONTRA A CARESTIA DE VIDA (1951-1954)
Rodrigo Lourenço Oliveira1 Introdução
Durante o período democrático, entre 1945 e 1964, o comportamento do Partido Comunista do Brasil (PCB)2 pode ser dividido em diferentes fases, definidas por mudanças significativas em sua linha de ação (SEGATTO, 2003). Ateremo-nos brevemente ao ínterim 1948-1954, na divisão proposta por José Segatto3 – apesar de julgarmos necessário efetuar um recuo temporal para a obtenção de uma visão complexificada da trajetória do partido. Partindo de uma sucinta discussão bibliográfica sobre esse intervalo, buscaremos refletir sobre a atuação do partido em relação à problemática da luta contra a carestia de vida através das diretrizes expostas no Manifesto de Agosto (1950) e do conteúdo veiculado pelo jornal Imprensa Popular durante o governo democrático de Getúlio Vargas (1951-1954) em relação à cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal.
Ede Soares (2016) afirma que ex-militantes e acadêmicos convergem na conclusão de que a linha de radicalização aderida com os manifestos de 1948 e 1950 se mostrou prejudicial para o partido. Ambos reconhecem o distanciamento entre tais proposições e as vontades populares. Esse descompasso teria levado ao enfraquecimento e isolacionismo político do Partido Comunista do Brasil à época.
De acordo com Hélio da Costa (1999), pode-se perceber um claro desalinhamento entre a base militante e a cúpula central. Não parecia correto a uma parcela de pecebistas o abandono das instituições sindicais pregado nos manifestos. Temiam o isolamento político e a perda das alianças e avanços que haviam conquistado no pós-redemocratização. O radicalismo não parecia uma estratégia praticável e que lhes rendesse benefícios concretos a curto/médio prazo. Desse modo, a dupla militância (nos sindicatos oficiais e nas organizações paralelas) se apresentou como uma alternativa recorrente. Essa realidade também foi
1 Mestrando em História na Universidade Federal Fluminense (UFF).
2 Nome utilizado pela agremiação até 1961, quando foi alterado para Partido Comunista Brasileiro. 3 Para o autor, os momentos seriam 1943-1947,1948-1954, 1954-1958 e 1958-1964. O ano de 1943 aparece devido à reorganização do partido na chamada Conferência da Mantiqueira.
observada por Camila Figueiredo (2017) no que tange ao estado de Minas Gerais e pelo próprio Soares (2016) em relação à cidade baiana de Alagoinhas, por exemplo.
Tal crítica expressa pela historiografia e contida nas memórias de ex-militantes foi percebida posteriormente pelos dirigentes do partido. Em 1952, a política de abandono das instituições sindicais oficiais foi revista. Entretanto, essa reorientação só contemplava o âmbito sindical, não se estendendo a visão política geral contida no Manifesto de 1950, que só viria a ser alterado posteriormente em decorrência do suicídio de Getúlio (PRESTES, 2015). Por opção metodológica, procuraremos abordar a atuação pecebista para além do universo sindical e sua luta por aumento de salários, visto sua ampla exploração historiográfica.
Manifesto de Agosto e a carestia
Dentre os documentos que expressam a virada de ação do PCB, o Manifesto de Agosto, de 1950, merece uma análise detalhada por expressar de forma mais elaborada e definitiva as bases da atuação durante o governo democrático de Vargas (1951-1954).
O texto foi atribuído a Luiz Carlos Prestes, mas refletia o pensamento do partido como um todo. Nele, o governo Dutra era criticado por seu “servilismo” e caracterizado como “a maior humilhação até hoje imposta à nação” por ser um “governo de traição nacional que entrega a nação à exploração total dos grandes bancos trustes e monopólios anglo-americanos”. Por isso, o caminho revolucionário da luta armada era apresentado como solução através do “armamento geral do povo”. Também era expresso que a conquista do poder deveria vir por meio da formação da Frente Democrática de Libertação Nacional. Esta seria formada pela união de diferentes atores sociais comprometidos com um “governo efetivamente democratico e popular”, mas caberia ao proletariado o papel principal e dirigente. Contudo, a via democrática não era ignorada por completo, havendo o reconhecimento de seu valor apesar dos limites impostos na atuação através das instituições burguesas.
De maneira geral, o texto girava em torno da problemática que envolvia a guerra da Coréia e o imperialismo estadunidense. A pauta da luta pela paz, como desenvolvido por Jayme Ribeiro (2003), ocupou papel central nos debates e movimentações comunistas início da década de 1950. Ribeiro afirma acertadamente que todas as demais questões apareciam ligadas a esse ponto fundamental. O empenho dos comunistas de todo globo estava
direcionado para a campanha contra a utilização das armas nucleares, notadamente por parte dos Estados Unidos. Porém, a luta pela paz também abarcava a criação de condições necessárias à sua existência. Desse modo, todo empenho em torno de questões políticas, econômicas e sociais estava diretamente ligado àquele compromisso, não perdendo assim sua centralidade nas demandas comunistas. Dizia o manifesto:
É através da luta diaria, da ação e do trabalho pertinaz que conseguiremos organizar o povo para essa grande batalha. É nessa luta diária, pelas reivindicações mais imediatas e sensiveis, sempre em intima ligação com a luta pela paz e pela independencia nacional, que se reforçará e ampliará no pais inteiro a FRENTE DEMOCRATICA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL. (Prestes dirige-se ao povo, Voz Operária, 5 de ago 1950, p. 6)
Fica evidente que a luta pelas questões sociais ainda era de suma importância, servindo inclusive para atrair a massa trabalhadora à defesa de outras pautas que não lhe atingissem cotidianamente ou de forma direta. Assim, apesar de aparecerem vinculadas à luta pela paz, não eram propriamente legadas a um plano inferior. Na perspectiva dos pecebistas, tais querelas se conectavam por serem todas produções da sociedade capitalista e do imperialismo estadunidense aliado aos seus “cúmplices” locais.
É dessa maneira que o tema da carestia de vida apareceria nas diretrizes do partido, apesar de não ser desenvolvido de maneira abrangente. Denunciava-se a situação econômica e social em que o país se encontrava com destaque para as supostas contradições encontradas nessa realidade, na qual uma pequena parcela do empresariado via seus ganhos aumentarem à custa da maioria trabalhadora. Outro argumento central sobre o tema relacionava o agravamento das condições de vida e sua perpetuação às opções políticas que colocavam como prioridade os gastos militares voltados à preparação para guerra, ao invés de investimentos que buscassem a melhoria do bem-estar da população. Segundo o documento, tais despesas chegariam a representar mais da metade do orçamento federal.
Por fim, o tema da carestia também apareceria quando o texto se direcionava diretamente a participação feminina. As mulheres eram chamadas a se organizar e lutar:
Operarias e camponesas, donas de casa, mães e esposas! Sois vós que primeiro sentis as agruras produzidas pela fome em vossos lares. [...]
Organizai-vos para a luta contra a fome e a carestia da vida. (Prestes
dirige-se ao povo, Voz Operária, 5 de ago 1950, p. 6)
A cúpula dirigente do PCB não enxergava diferenças entre o projeto varguista – calcado no trabalhismo – e o do general Dutra, de modo a, após sua eleição, apenas estender a Vargas a interpretação de um governo de traição nacional. O próprio manifesto já esboçava tal postura ao chamá-lo de “velho tirano” e “pai dos tubarões dos lucros extraordinários”.
Luta vermelha nas páginas do Imprensa Popular
O Manifesto de Agosto estabelece as bases da atuação pecebista nos anos que se seguiriam. Em um momento no qual os comunistas estavam focados na consolidação do movimento pela paz comandado pela URSS, seria a exploração da temática da carestia de vida que serviria como ponte para o diálogo com a classe trabalhadora. O trato das questões que impactavam diretamente no cotidiano da população a nível material se apresentava como caminho para a tentativa de manutenção da influência política do partido.
Para tal, se utilizariam, dentre outras estratégias, de jornais como o Imprensa Popular (IP), que não foram proibidos de circular após a cassação – apesar de sofrerem frequentes represálias. O periódico era tido como uma “arma de luta”, pois seria através dele que se rebateriam “os golpes dos que te exploram e oprimem”. A importância de um veículo que se propusesse a cumprir tal papel era tida como fundamental por sua capacidade agregadora e combativa: “Sem êle te sentes isolado da massa, distante dos companheiros e amigos, que por intermédio dele mais facilmente mobilizas” (Nossa Ferramenta. Nossa Arma de Luta. Imprensa Popular. 22 mar 1951, p.1-4).
Nesse sentido, os pecebistas se empenharam na construção de uma imagem negativa da administração Vargas e de seus integrantes, a começar pelo próprio presidente. Buscava-se evidenciar que estes membros do Estado não atuariam para fazer valer os interesses da classe trabalhadora, mas de um pequeno grupo de empresários e intermediários – do qual inclusive faziam parte. Esse artifício fica claro na matéria Lucra o fazendeiro Vargas com o aumento do
preço carne (Imprensa Popular, 31 jul 1952, p.8), em que se tenta criar uma dicotomia entre o
aumento do lucro dos criadores de gado e a dificuldade que teriam os trabalhadores de arcar com o reajuste. Getúlio ainda seria caracterizado como “segundo ou terceiro [maior] criador de gado do país” (Vargas, o esfomeador. Imprensa Popular, 1 ago 1952, p.3) e
frequentemente responsabilizado pessoalmente pela carestia que assolava a população por supostamente ser um dos que mais se beneficiariam da elevação de preços.
Tais pechas recairiam também sobre diversos integrantes do governo e permeariam constantemente a retórica do PCB de forma mais ou menos explícita. Em O natal mais negro
dos últimos tempos, há uma clara ilustração dessa estratégia através da revelação dos negócios
de supostos privilegiados:
Veja-se, por exemplo, o ex-Ministro Apolônio Sales: Vai ter um lucro fabuloso com a carestia do natal. Possui uma grande criação de perus e vai abater nada menos de dois mil [...] Pretende assim lucrar um milhão e seiscentos mil cruzeiros nas costas do povo. Outro que vai ter um bom lucro com o natal é o sr. Coriolano de Góes, diretor da Cexim: mancomunado com a Importadora Santa Rosa, esse privilegiado está fazendo o monopólio dos gêneros importados para o natal. [...] Mas, sem dúvida, o mais beneficiado de todos é o próprio presidente da República. Agora, com o fim do ano, está aumentando a matança de seu gado lá no sul, vendendo por bom dinheiro aos frigoríficos. (O natal mais negro dos últimos tempos. Imprensa Popular, 14 dez 1952. p. 4)
Além da insistência nessa narrativa, toda oportunidade possível era utilizada para atacar a figura de Vargas. Nem mesmo o aniversário do presidente passou impune. A data comemorativa do ano de 1951 foi tida como “um dia de luto”, no qual, em face da crescente carestia, seus apoiadores estariam “enterrando suas esperanças que o velho demagogo acendeu em sua campanha eleitoral” (Dia de festa ou de luto?. Imprensa Popular, 20 abril 1951, p.1). O mesmo aconteceria no ano seguinte, quando o jornal noticiaria um “enterro simbólico” de Getúlio levado a cabo pelo “povo carioca com seu característico e infalível espírito de humor contra os opressores e poderosos” (Enterrado Getúlio. Imprensa Popular, 23 abril 1952, p. 8).
Contudo, enquanto oposição política, o partido buscava atuar para além dessa tentativa de criação/reforço de um imaginário negativo acerca dos governantes. Procurava então dar visibilidade e estimular diferentes formas de manifestações de insatisfação. Como mostrava o Manifesto de Agosto, as arenas democráticas não deveriam ser renegadas. Frequentemente apareciam nas páginas do IP ações de parlamentares comunistas, apesar de estarem atuando
oficialmente por outras legendas. No Rio de Janeiro, o Partido Republicano Trabalhista (PRT) atuou como “legenda de aluguel” no pleito de 1950 (DICIONÁRIO HISTÓRICO BIOGRÁFICO BRASILEIRO CPDOC/FGV) e elegeu o deputado federal Roberto Morena, que comumente aparecia no IP criticando as autoridades competentes em discursos na tribuna da Câmara e participando de eventos que buscavam resoluções para a crescente carestia. É importante ressaltar também a existência de uma bancada comunista na Câmara Municipal, cujo líder seria o vereador Elizeu Alves. Somavam-se a esta Milton Lobato e Aristidis Saldanha, todos do mesmo PRT, mas com passados pecebistas e atuações que expressavam o pensamento do partido. O suplente Antenor Marques também apareceria criticando a condução governamental, numa demonstração desse “pecebismo parlamentar”:
O orador lembra o que o chefe do governo falara em mudar a política do governo Dutra, que vivia a conceder privilégios aos tubarões. No entanto, diz, o sr. Getúlio Vargas continua a fazer a mesma política, política de guerra, de aumento de incessante de impostos e de alta de preços. (Protesta o
Sr. Marques Contra a Carestia e as Violências, Imprensa Popular, 28 mar
1952, p. 4)
Ao que parece, não havia nenhum intuito de esconder a ligação desses parlamentares com o PCB devido à frequência com que apareciam no IP e pela forma e conteúdo de seus discursos, mesmo que suavizados. Entretanto, a atuação pecebista se dava principalmente para além dos limites das instituições da democracia burguesa, através da tentativa de mobilização da classe trabalhadora e de diferentes instituições da sociedade civil. Como já mencionado, era papel do periódico divulgar as demonstrações de insatisfação popular com o intuito de conferir legitimidade, estimulá-las e gerar uma sensação de representação de seus interesses por parte dos trabalhadores.
Dessa maneira, diversas manifestações do repertório de ação, em seu sentido tillyano (ALONSO, 2015), dos cariocas apareceriam nas páginas do diário comunista – como passeatas e entrega de memoriais a autoridades (Passeata de protesto contra a carestia. Imprensa Popular, 3 fevereiro 1952, p. 4) – sendo sempre apoiadas e tidas como expressão do sentimento da população como um todo.
Nesse sentido, se faz necessário realçar o papel de protagonismo desempenhado pelas donas de casa, que era reforçado e incentivado pelo IP. A relação do PCB com as pautas femininas no início dos anos 1950 era, no mínimo, problemática. Como aponta Maria Lygia Moraes (2007), o próprio movimento comunista internacional, na figura da III Internacional Comunista (1919-1923), reconhecia a importância da incorporação de mulheres nas fileiras dos partidos – o que acontecia de forma precária no PCB (LÔBO, 2017) – mas relegava a um segundo plano suas “demandas específicas”. A luta contra a carestia de vida aparecia então como espaço privilegiado de ação feminina, uma vez que, pela perpetuação de uma construção sexista, caberia às mulheres a responsabilidade dos afazeres domésticos.
Na narrativa pecebista, que acompanhava o pensamento corrente, as donas de casa sempre apareciam como principais afetadas pelo constante aumento do preço dos gêneros. O diferencial nesta, é que se buscava atrelar essa “demanda” com o pensamento geral do partido – que relacionava a carestia com questões mais amplas, como o movimento pela paz. Tal estratégia aparece no texto Exigimos que as Mulheres Sejam Ouvidas:
Aqui está, minhas amigas, porque resolvi escrever-lhes esta carta, convidando a todas, que são mães e as que virão a ser um dia, a nos unirmos e protestarmos contra a falta dagua, contra a carestia, contra a deficiência de transporte, o preço dos apartamentos, o desamparo em que vive nossa infância e contra a ameaça da guerra, causadora dessas e de outras desgraças. (Exigimos que as Mulheres Sejam Ouvidas, Imprensa Popular, 9 nov 1952, p. 2)
É interessante perceber a mudança de abordagem, em que o discurso programático cede espaço para um apelo sentimental. Parte-se da condição das mulheres enquanto mães na tentativa de gerar uma aproximação com as leitoras, reforçando assim um suposto lugar que deveriam ocupar na sociedade e as responsabilidades que lhes caberiam.
Outra face desse movimento era a divulgação e o apoio às diferentes associações femininas, como a Federação de Mulheres do Brasil e a Associação Feminina do Distrito Federal. De acordo com Fanny Tabak (1983), tais organizações foram espaços cruciais para a iniciação de mulheres na esfera política e possuíam a luta contra a carestia como uma de suas principais pautas. Frequentemente apareciam notas sobre suas atuações nas páginas do IP,
principalmente convocatórias para reuniões e eventos. Também era comum a divulgação de manifestos e resoluções. Desse modo, havia quase que uma “apropriação” da atividade dessas agremiações. Não por acaso, Marcela Morente (2015) relata como a repressão governamental associava diretamente esses movimentos femininos aos comunistas. Ainda que essa relação realmente existisse em certos casos, essas associações de mulheres possuíam uma complexidade muito maior do que faziam crer os agentes policiais.
Considerações finais
Apesar de se tratar de uma pesquisa em andamento, pode-se delinear de forma geral o uso político da luta contra a carestia de vida pelo Partido Comunista do Brasil. Nesse momento de radicalização política marcada pelas diretrizes contidas no Manifesto de Agosto, essa tentativa de aproximação entre pautas ideológicas/programáticas e uma problemática que permeava o cotidiano carioca – e mesmo nacional – se apresentou como estratégia para manter a relevância política do partidão. Dessa maneira, os pecebistas buscaram reforçar sua oposição ao governo Vargas, promover o movimento pela paz e atrair o público feminino à suas fileiras.
Bibliografia
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