Priscila Gomes Martins Universidade Federal de Goiás/Regional Catalão
Waldivino Gomes Firmino Universidade Estadual de Goiás/Câmpus Pires do Rio
VIVÊNCIAS ACERCA DA PROMOÇÃO E CUIDADOS EM SAÚDE: EXPERIÊNCIAS NO ASSENTAMENTO OLGA BENÁRIO EM IPAMERI (GO)
INTRODUÇÃO
A promoção e educação em saúde estão se (re)transformando em elementos de prioridade na conscientização de melhorias de saúde, quando se trata de populações não urbanas (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1998). Pessoas do campo ou que estão em constante busca pelo campo em seus itinerários cotidianos se encontram à margem dos cuidados integralizados, seja pela distância das áreas de centralização da saúde ou por inaplicabilidade de políticas de saúde, que contemplem todas as populações, independente do meio em que estejam inseridas (WUNSCH; et al, 2014); (VILLELA, 2015).
As comunidades de assentados rurais provenientes de Movimentos Populares por direitos à terra são constituídas por famílias que possuem distintos mecanismos culturais, históricos e sociais. A enfermagem como um dos pilares da saúde, tem o papel de buscar em conjunto com os sujeitos assentados a melhoria do bem-estar, para que a continuidade de suas lutas e conquistas não seja aniquilada por problemas de ordem física, emocional, social e espiritual (CAVALCANTE; NOGUEIRA, 2008). Necessita-se atentar para o cuidado especializado e singular dos asNecessita-sentados devido a múltiplos
fatores que distinguem seus hábitos e modos de vida. Tais fatores permitem um olhar repleto de sentidos de suas particularidades podendo dar ao profissional de saúde, significados da essência do viver rural e as necessidades em que esses sujeitos se encontram perante questões relacionadas à saúde (CARNEIRO, 2007); (LEITE et al, 2004).
Diante de tantas particularidades atribuídas às populações rurais, os questionamentos que perfazem esse trabalho são direcionados a explorar quais cuidados são praticados pelas famílias assentadas, como lidam com o processo saúde-doença e o olhar voltado para a exploração de elementos que potencializam ou fragilizam a saúde dessas famílias em estudo.
O diagnóstico desse presente estudo aponta para a verificação de novos métodos de cuidados e promoção em saúde para com os assentados, haja vista que os atendimentos de saúde, suas demandas e a oferta desses serviços de forma governamental ou não, atinge menos de 32,6% dos acampamentos e 23,7% dos assentamentos em território brasileiro. Os assentados que possuem acesso, de curta distância com postos de saúde, representam 56,8%, com o agravante de que desse percentual, muitos postos de atendimento à saúde não estão em funcionamento (BRASIL, 2012).
As populações assentadas constituem importantes segmentos sociais que firmaram sua legitimidade e influências no cenário social. Apesar do acesso à saúde integralizada não se estender a todos os assentados, o direito à saúde de movimentos rurais são garantidos pelos Conselhos Municipais e Estaduais de Saúde, criados conforme novo modelo preconizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), na Constituição Federal de 1988 e Lei Orgânica de Saúde n°.: 8.080/90 (CAVALCANTE; NOGUEIRA, 2008).
Portanto, cabe aos profissionais de saúde, especialmente a profissionais enfermeiros, garantirem que tais direitos cheguem efetivamente até às populações rurais, promovendo a equidade, universalidade, humanização e condições adequadas para a melhoria da saúde das pessoas que vivem no campo, visando respeitar as particularidades coletivas e individuais.
MINIMIZANDO DISTÂNCIAS ENTRE COMUNIDADE ASSENTADA E PROMOÇÃO DE SAÚDE
A pesquisa em fase de desenvolvimento está sendo realizada no Assentamento Olga Benário, o qual está localizado no município de Ipameri (GO) e distante 12 km de sua sede. O município faz parte da Microrregião Sudeste de Goiás. Ao verificar as idas e vindas dos assentados, desvela-se o fato de serem sujeitos que passaram por vivências conflituosas quando estes se alojavam precariamente em barracos de lona construídos às margens de rodovias, movidos continuamente pela esperança de conquista de terra para satisfazerem seus sonhos e idealizações. A partir dessas observações compreende-se que o processo saúde-doença presente na vida dos assentados vai além das especificidades fisiológicas, mostrando que marcas de adoecimento e fragilidade emocionais e psíquicas foram sendo impressas ao longo dessas andanças carregadas de momentos negativos e permeadas por incertezas. (FIRMINO, 2013).
A precariedade das condições rurais de acesso à saúde dificulta a promoção de uma melhor qualidade de vida. Quando questionados, os assentados atendidos pela equipe de saúde voluntária relatam a dificuldade no acesso às redes de saúde, principalmente em função das intempéries, revelando desta forma a fragilidade do acesso a esses serviços, promovendo riscos de isolamento social, perdas de garantia ao direito à saúde, além de representar um risco potencial para o surgimento de doenças ou evolução potencializada de patologias pregressas.
Melhorar a situação de saúde e minimizar os agravantes é a principal meta da equipe de saúde da Prefeitura municipal de Ipameri. As ações voluntárias realizadas no Assentamento Olga Benário são pautadas no direito à saúde e a assistência, garantidas pelos órgãos governamentais e secretarias de saúde do estado, em conformidade com legislações que asseguram a integralidade e humanização da assistência da equipe com a população assentada. A saúde dos assentados e a adequada assistência são garantidas pela Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo e da Floresta de 2012/2015, que articula processos de desenvolvimento de políticas públicas de saúde
além de articular e corroborar para melhorias em saúde dessa população com outras legislações previstas no Ministério da Saúde (BRASIL, 2012 e 2015). As políticas nacionais estabelecem que as populações do campo estejam sempre em contato com os recursos naturais, a exemplo das plantas medicinais como será visto a seguir.
O MANEJO DAS PLANTAS MEDICINAIS DO LUGAR CONQUISTADO E AS POTENCIALIDADES INERENTES
Uma potencialidade observada no cotidiano dos assentados está diretamente relacionada ao uso da fitoterapia na prevenção de doenças, minimização de sintomatologias de doenças pregressas e demais processos de cura. O uso de plantas medicinais é observado como potencializador não só na busca por melhorias de saúde, mas também no fortalecimento de relações familiares, sociais e grupais firmando os vínculos entre assentados e constituindo uma fonte que se compartilha saberes e experiências (BRASIL, 2007). Quando a equipe de saúde estabelece a assistência no assentamento Olga Benário em Ipameri (GO), somam-se medicina tradicional à base de medicamentos industrializados e outros processos relacionados à saúde com medicina fitoterápica já preexistente entre os membros assentados, contribuindo dessa forma para que este duo de métodos assistenciais de saúde promova a melhoria em saúde e ofereça indiretamente troca de saberes entre profissionais de saúde e assentados (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1998).
Observa-se a valorização dada à natureza e seus recursos, pelos povos camponeses, seja para obtenção de renda com plantio de alimentos ou para tratar a saúde com as plantas medicinais. Muito se analisa durante a triagem de enfermagem no processo de aferição de sinais vitais a verbalização da utilização de xaropes, chás, banhos, inalações e outras alternativas de uso com plantas fitoterápicas, proporcionando nesse momento a troca de saberes e a orientação da equipe de saúde quanto ao uso da fitoterapia. As ervas constituem fontes economicamente viáveis de tratamento da saúde além de proporcionar aos assentados um espaço de valorização dos saberes populares medicinais quando se faz presente o ouvir terapêutico dos profissionais para com estes sujeitos.
Segundo Firmino (2013, p.51), as plantas medicinais nativas do Cerrado são importantes na medicina popular, além de enraizadas estas medidas populares na assistência da saúde no Cerrado estão presentes diversificadas espécies de plantas de uso medicinal e são corriqueiras na utilização pelas famílias do Assentamento. Destacam-se no Assentamento, o Algodãozinho ou Algodão do Campo (Cochlospermum regium), Pé de Perdiz (Croton Perdicipes) e o Velame Branco (Macrosiphonia velame), sendo as plantas mais utilizadas entre os assentados.
Portanto, as orientações da equipe de saúde juntamente com a troca de saberes entre os assentados acerca das plantas medicinais constituem importantes medidas preventivas de saúde que fortalecem o exercício profissional, segundo orientações e legislações da Federação, a qual se destaca o Decreto Presidencial referente às plantas medicinais e fitoterápicas no SUS no.: 5.813, de 22 de junho de 2006 (BRASIL, 2012).
FATORES OBSERVADOS NO ASSENTAMENTO OLGA BENÁRIO DURANTE VIVÊNCIA DA EQUIPE DE SAÚDE: FRAGILIDADES X
POTENCIALIDADES DOS CAMPONESES
Algumas fragilidades que são agravantes de saúde foram observadas durante as ações voluntárias no Assentamento. A escassez de informações acerca dos cuidados relacionados à água é analisada quando se percebe a construção de um poço semiartesiano e a proximidade de moradias com um rio que drena entre as parcelas de terra. Nesse sentido a equipe orientou e atentou para os cuidados com doenças transmissíveis pela água contaminada e os métodos de fervura da água para consumo e outras utilizações, como lavagem de alimentos (MEDEIROS, 2004). A presença de muitas crianças no assentamento também constitui uma priorização das principais fragilidades daquele local, visto que muitas contraíram doenças virais e parasitoses intestinais.
Outro aspecto peculiar no tocante ao agravo de saúde está relacionado à possível utilização indiscriminada de agrotóxicos nas plantações, portanto a orientação recomendada pela equipe foi a procura pela ajuda de profissionais da área de Agronomia em parceria com o município para realizar as devidas orientações no uso
correto de agrotóxicos (LEITE, 2004). Incentivou-se à vacinação dos assentados pelo fato que algumas doenças endêmicas estão intimamente ligadas as condições de campo e floresta. A escuta terapêutica no momento dos atendimentos englobou manifestações de desesperança e dificuldades na gerência das parcelas, além de relatos de como os conflitos de suas conquistas perduram até os dias de hoje.
Doenças pregressas observadas com maior frequência entre os assentados foram a hipertensão e a diabetes, cujas consultas médicas são voltadas geralmente para a monitorização dessas doenças já existentes assim como a entrega de medicamentos conforme prescrição médica para controle dos sintomas. Outras queixas foram observadas como: cefaleia, doenças pulmonares, doenças virais e algias dentárias, já em crianças a presença da hipertermia e diarreias foi potencialmente acentuada.
Entretanto, potencialidades foram analisadas naquela população assentada, uma delas como já foi mencionada nesse estudo, é o uso da fitoterapia. A promoção de saúde da equipe também incluiu a orientação nutricional e a adequação de hábitos alimentares. Portanto, a equipe visou estabelecer horizontalidades de cuidados e ações afirmativas no Assentamento, ampliando a integralidade da saúde, do diálogo e interlocução de sujeitos, fazendo com que os assentados percebessem como protagonistas da melhoria da saúde e da continuidade de suas conquistas e aspirações cotidianas.
O artigo constitui-se de natureza qualitativa e tem o objetivo de diagnosticar elementos da saúde dos assentados. Faz uma abordagem da problemática a partir de métodos observacionais e descritivos, com enfoque em questões etnográficas, cujas discussões apresentadas ao longo do trabalho baseiam-se na percepção do pesquisador e sua relação com o sujeito pesquisado, buscando compreender e analisar os elementos que se relacionam direta ou indiretamente com a saúde.
O relato das experiências vivenciadas no campo de pesquisa segundo Lakatos e Marconi (2006), foi construído a partir da reflexão das observações do pesquisador durante o trabalho voluntário da equipe de saúde no Assentamento. As idas e vindas da equipe de saúde e a análise da evolução da promoção da saúde dos assentados resultou na construção deste artigo e nas reflexões aqui abordadas.
Os elementos para discutir as questões relacionadas à saúde, que estão presentes nesse artigo, foram obtidos pela observação e por relatos verbais para saber como os assentados lidam com a saúde. A opção de construir este trabalho sob esses moldes metodológicos justifica-se pelo fato de existir a necessidade de estudar as formas
naturais de cura adotadas pelos assentados através do olhar do pesquisador e dos relatos verbais e não verbais da realidade cotidiana do manejo da saúde.
O deslocamento da equipe de saúde até o Assentamento Olga Benário em Ipameri (GO) tem o intuito de realizar o trabalho voluntário por meio de atendimentos como: triagem realizada pela equipe de enfermagem com aferição de sinais vitais, atendimento médico, entrega de medicamentos prescritos pelo médico(a) responsável e orientação/educação em saúde realizada pela equipe voluntária aos assentados, na promoção de melhorias em saúde. A equipe de saúde que é composta por médicos, enfermeiros, odontólogos, agentes comunitários e outros profissionais e realiza tais ações desde o ano de 2013, sendo que neste ano de 2016 haverá continuidade das ações no segundo semestre.
As ações da equipe de saúde no Assentamento Olga Benário promovem a minimização dos agravos de saúde dos assentados e nesse sentido procura estabelecer a promoção e cuidados em saúde na prevenção primária, a qual os sujeitos estão expostos a fatores de risco podendo desencadear o início de processos patológicos. Na prevenção secundária é possível rastrear indícios patológicos e quais foram suas causas e também atua na prevenção terciária, na qual existe a preocupação de minimização de sintomatologias de doenças depois de serem detectadas, cálculo do tempo da instalação da doença detectada além de detecção e adoção de medidas clínicas para diminuir agravos passíveis que levem o indivíduo à morte (SZKLO, 2004). Observa-se no esquema a seguir, a linha de ações da hierarquia da prevenção:
Fonte: Adaptado de: SZKLO, A. S.; SOARES, J. B.; TOLMASQUIM, M. T. Energy consumption indicators and CHP technical potential in the Brazilian hospital sector. Energy Conversion and Management, Rio de Janeiro, Brasil, vol. 45, p. 2075 – 2091, 2004.
Os resultados deste estudo demonstram que o trabalho promovido pela equipe de saúde no Assentamento durante ações voluntárias, ocorre nos três níveis de prevenção, segundo demonstra SZKLO (2004). A manutenção do compromisso à saúde com populações assentadas é estabelecida a cada visita no Assentamento monitorando os possíveis agravos à saúde e promovendo a educação na melhoria da qualidade de vida. Sobretudo, o papel da enfermagem na equipe é de incentivar os assentados na reflexão de suas fragilidades e no auxílio de implementação de planos de cuidados, levando-os a perceber a ressignificação como membros de uma sociedade de extrema importância para ações políticas de saúde e outras conquistas (WUNSCH et al, 2014).
Mais do que cuidados assistencialistas de saúde relacionados às patologias realizam-se os cuidados integralizados que lançam um olhar sob a população camponesa, buscando verificar em qual área da vivência os assentados necessitam de cuidados, sejam em relações interpessoais, relações familiares complexas e questões emocionais relacionadas à luta e conquista de terras (CÓRDOVA; RIBAS; WOSNY, 2011).
Outro ponto importante a ser ressaltado é o acolhimento caloroso em que os assentados recebem a equipe de saúde, mostrando o quanto as necessidades e fragilidades são reais, apontando os fatores que precisam ser modificados no seio
camponês para estabelecer melhor qualidade de vida. A falta de informações, os precários hábitos alimentares e as distâncias com redes de assistência à saúde são fragilidades que incitam a luta por melhorias das condições de vida e que carecem ainda, apesar dos esforços da equipe, de transformações permanentes para adequação de promoção à saúde (MEDINA, 2014).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O desafio de prestar cuidados integrais ao Assentamento é aceito favoravelmente no intuito de mudanças significativas no processo de redução de agravos à saúde. Com estas reflexões a partir das vivências percebe-se a necessidade de qualificar ainda mais no âmbito acadêmico futuros profissionais de saúde que tenham um enfrentamento satisfatório frente à população camponesa quanto a seus direitos e garantias à saúde.
Ressalta-se notadamente, que as ações voluntárias por parte da equipe de saúde do município de Ipameri (GO) diminuem os riscos de doenças e promovem a integralidade dos assentados. Esse fato é percebido pelo acolhimento caloroso advindo das famílias de assentados, o que incentiva a continuidade das ações da equipe anualmente.
Participar dos atendimentos juntamente com a equipe de saúde da Prefeitura Municipal de Ipameri (GO) no Assentamento Olga Benário possibilitou, além do conhecimento das diversas áreas da saúde, construir laços de afetividade com os assentados. Atender àquelas pessoas e conhecer seus anseios mostrou como são necessárias tais ações em comunidades de assentamentos rurais.
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