Colegiado da Luz Hermética
Fundado a Serviço da A∴A∴
C O R R E N T E 9 3
Vol. I
No. 04
An V2, in 0° , in 29° An. CXII da Era Thelêmica
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Conteúdo
Editorial 3
Liber CL: De Lege Libellum 9
Saudação ao Sol entrando no Signo de Virgem 21
O Rito do Eremita de Yod 22
O Adepto Menor & a Invocação do Daemone 24 O Sagrado Anjo Guardião é um Indivíduo Objetivo 32
LVX et NOX 35
Fontes Bibliográficas 46
Notícias da Linha de Frente 48
Colegiado da Luz Hermética 49
Corrente 93, Vol. I, No. 4. © 2016 Fernando Liguori
© 2016 Sociedade de Estudos Thelêmicos
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A Sociedade de Estudos Thelêmicos é uma organi-zação da sociedade civil com sede em Juiz de Fora, Minas Gerais. Tem como objetivo promover o de-senvolvimento humano através das atividades rea-lizadas por seus movimentos organizados. Através de nosso trabalho, promovemos atividades para elevação da consciência por meio da realização de projetos sociais sustentáveis, pesquisas, aulas
ex-tensivas, seminários e cursos intensivos, prepara-ção e divulgaprepara-ção de estudos e relatórios, edições e publicações.
Corrente 93 é uma publicação da SETh, Sociedade de Estudos Thelêmicos, em nome da A∴A∴, que aborda temas sobre Magia, Tarot, Qabalah, Filoso-fia de Thelema, Tradição Tântrica, Yoga, Āyurveda e temas conectados como Ocultismo Thelêmico. Os recursos gerados com a venda de exemplares são integralmente reinvestidos no projeto, promo-vendo seu desenvolvimento organizacional e téc-nico, buscando sempre oferecer melhor conteúdo. Citações de trechos desta publicação podem ser usadas, desde que mencionada à fonte e que te-nham autorização escrita dos autores.
O copyright © de todo material de autoria de Aleis-ter Crowley pertence à O.T.O.
Editorial
Care Frateres et Sorores,
Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.
em vindo a edição No. 4 do Jornal Corrente 93. Esse é um projeto do Outer College Brasil, linha da A∴A∴ transmitida por Frater ON120 e Colegiado da Luz Hermética através da SETh, órgão oficial de divulgação dos trabalhos desses dois Colegiados Thelêmicos. Esse jornal cumpre a finalidade de divulgar os trabalhos, projetos e publicações da A∴A∴ e C.L.H. Enquanto o livro Os Rituais do Tarot ainda está em construção, os Probacionistas do C.L.H. estão seguindo as instruções publicadas no Jornal. Esse livro trata-se de um curso de um ano que orienta uma prática pessoal diária, executada de forma sistemática através do processo ritualístico da Teurgia, envolvendo o Tarot e a ascensão nos Caminhos da Árvore da Vida. Como Probacionista do C.L.H., o Candidato é requerido seguir três Votos Sagrados:
1. Obediência: Significa aceitar ser dirigido no trabalho da Ordem. Sem a aceitação e o cumprimento deste voto é impossível haver qualquer tipo de relação entre a Ordem e o Candidato. De fato, até que a obediência seja praticada e compreendida, não existe aspiração real, apenas esperança vaga ou coisa pior.
2. Simplicidade: Significa descartar aquilo que não é necessário, que não é essencial, a fim de estar receptivo a Corrente 93. Isso implica uma liberação dos condicionamen-tos pré-concebidos em relação à realização da Grande Obra.
3. Castidade: Significa aceitar ser dirigido em um método particular seguindo uma dis-ciplina determinada com fidelidade e continuidade de propósito.
No caminho para conseguir realizar essa tarefa dos três Votos Sagrados, o Candidato deve ter:
Capacidade de trabalhar sozinho e em silêncio. Determinação obstinada.
Economia de meios, quer dizer, a capacidade de dirigir as energias para Grande Obra, deixando de perdê-la nas trivialidades do dia-a-dia.
Eu gostaria de aproveitar a oportunidade deste editorial para sempre fazer algumas consi-derações filosóficas e práticas. A intenção é abrir um diálogo com o leitor. Esteja à vontade para continuar enviando suas perguntas e sugestões. Esse será um espaço para responde-las da melhor maneira possível.
Nesta edição do Corrente 93, vou começar assim: não existe maior ilusão na escalada do Monte Abiegnus do que aquela falácia do tornar-se um deus. Me parece que isso tem demolido muitos castelos de areia e rasgado muitas coroas de papel. A pergunta que per-manece é: você, Candidato, está preparado para assumir o prístino brilho de sua Estrela e tomar seu lugar entre os deuses ou cairá no sopé da montanha, o Castelo da Perdição, para ser controlado como um escravo, seja por deuses, demônios ou de si mesmo?
Seja como for, ao longo de vinte anos como ācāryā da A∴A∴ eu tenho observado a ascensão e queda de Probacionistas, Neófitos, Zelators, Práticos, Filósofos e Adeptos. Por-que isso ocorre com muitos Candidatos a Obra? As respostas podem ser muitas, pois a ruina de cada um depende de muitos fatores. No entanto, é sadio olhar para os métodos da A∴A∴ tentando buscar por lacunas, pontas soltas que podem, ao olhar desapercebido, levar Can-didatos ao solo e por mais que suportemos as quedas que todos nós experimentamos ao longo da jornada, é saudável parar e olhar atentamente o sistema de frente, adaptando cada ponto as suas necessidades e natureza interior. Esse é um dos nuances que envolve a relação professor-aluno na A∴A∴: o Superior deve ser capaz de avaliar o Candidato e lhe auxiliar a adaptar da melhor maneira possível. Uma tradição somente perdura no tempo quando man-tém suas bases intactas, mas isso é impossível de ser feito sem uma aplicação adequada dos métodos de transmissão da tradição. Esses, por outro lado, devem refletir o momento, as demandas e expectativas de uma época. Sem essa adaptação, qualquer tradição está fadada ao fracasso.
Eu citei acima que uma das qualidades essenciais ao Candidato é obediência. Infeliz-mente, isso tem sido muito mal compreendido pelos Irmãos da A∴A∴. A falta de conheci-mento espiritual, a ignorância acerca da relação professor-aluno na Santa Ordem tem levado muitos Candidatos a queda. Em certo ponto do caminho, o Candidato não pode se dar ao luxo de desprezar ou ignorar os apontamentos secretos de seu Superior na Ordem. E até mesmo os Adeptos do Grau de Amante ainda mantêm laços de obediência e reverência para com seus Superiores e nisso reside um mistério profundo pouco difundido entre os Irmãos da Ordem. Crowley adverte que após a assinatura do Juramento de Filósofo o Candidato deve evitar deixar a Ordem. Isso é um aviso sério ao olhar mais atento. O Grau de Filósofo é um dos mais preocupantes porque é nessa etapa que Vontade e desejo são ajustados em seus respectivos lugares. A maioria dos Candidatos falha mais na esfera de Netzach-Vênus do que em qualquer outro Grau. Isso ocorre porque os homens não conseguem compreender e abraçar completamente a fórmula feminina do Amor internamente. Ao invés disso, eles pro-jetam seu anima, aliado ao fato de que algumas mulheres também têm feito isso nessa es-fera. Embora muito pouco seja dito, o trabalho na esfera de Netzach prepara o Ego como um Cálice apropriado para receber as instruções superiores da LVX oculta do Sagrado Anjo Guardião. No entanto, há um mistério nesse processo e é preciso olhar para ele de forma lúcida: em Tiphereth, a zona de poder do trabalho mágico do Adepto, é apenas o começo da relação com o Anjo. Muitos se enganam que essa relação seja estabelecida efetivamente no trabalho do Adepto Interno. Mas não é assim. A verdade é que o Anjo não se manifesta em sua completude abaixo do Abismo. As conexões estabelecidas aqui capacitam o Adepto a receber lampejos de seu Anjo estando ele em Malkuth, mas para que isso aconteça, o Prático deve devotar-se completamente aos ritos de adoração – bhakti-yoga – para que os canais de per-cepção sejam limpos e as conexões estabelecidas. No Colégio Externo da A∴A∴ o Candidato deve forcar-se no trabalho das esferas de Hod, Netzach e Tiphereth inúmeras vezes na in-tenção de equilibrar sua consciência para então tornar-se o Cálice para o Amado. Isso signi-fica que não se trata de assumir um Grau e ir adiante. A A∴A∴ não é uma Ordem ou Frater-nidade horizontal no qual a autoridade de um Grau é automaticamente conquistada ao as-sumi-lo. Nessas condições o trabalho do Grau trata-se de uma escolha pessoal. Mas na A∴A∴ não é assim! Nós somos uma organização científica e nosso propósito é único: conheça-te a ti mesmo.
Por volta de 2003 enviei uma carta a Kenneth Grant (1924-2011) perguntando quais foram os motivos que o levaram a fazer uma adaptação no sistema de Crowley, que ele vis-lumbrou como a união entre a estrutura da A∴A∴ e os Graus da O.T.O. Embora ele confesse que tenha falhado nisso – motivo pelo qual a sua Ordem Tifoniana hoje passa por uma re-formulação no seu sistema – me deu insights valiosos acerca do papel da mulher tanto na O.T.O. quanto na A∴A∴. Inspirado por Grant, Euclydes Lacerda (1936-2010) já havia nos
passado essa reflexão, quando começamos a trabalhar sobre os rituais de iniciação da O.T.O. deixados por Crowley já em 1999.
Eu pensava na época (e ainda penso hoje) que Crowley comprometeu muito do trabalho da O.T.O. e da A∴A∴ não observando o papel da mulher no sistema. Em Netzach, por exemplo, se constrói um trampolim, através do Pilar da Mão Direita, para o coração de Tiphereth usando a fórmula de BABALON. Crowley se esforçou em explicar o aspecto masculino desse processo, a fórmula ABRAHADABRA, mas até o momento ninguém foi capaz de vislumbrar a necessidade em ensinar a contraparte feminina. [...] Embora meus esforços em unir os sistemas da A∴A∴ e da O.T.O. tenham se tornado infrutíferos, é preciso consertar essa falha de Crowley em ambos os sistemas.1
Desde então eu venho me debruçando sobre essa lacuna e penso ter encontrado algumas alternativas, tanto nos rituais de iniciação da O.T.O. quanto no curso dos Graus da A∴A∴. Alguns, é claro, se levantarão contra a hipótese de Crowley ter cometido algum tipo de erro ou completo descaso com o papel da mulher na iniciação. Ponderemos todos nós nesse mo-mento, acerca dessa ideia: Aleister Crowley, o homem, magista, avātar etc., não é o sistema. Ele foi a voz, o promulgador, o zelador e permanece o primeiro professor. No entanto, Thelema sustenta a si mesma! Não se trata, dessa maneira, em um culto centrado na imagem e personalidade de Aleister Crowley, caso contrário estaríamos todos praticando certo tipo de crowleyanismo, o que temos a certeza absoluta que Crowley nunca desejou que se tor-nasse a Filosofia de Thelema, não depois de tantos esforços.
Sobre esse tema em relação aos rituais da O.T.O. eu tenho feito algumas observações nas Crônicas da O.T.O. Em relação ao curso dos Graus na A∴A∴ eu ainda não escrevi muito. Como postulei diversas vezes acerca dos rituais da O.T.O., é necessário fazer uma revisão na aplicação deles sobre a psicologia e fisiologia feminina. Da mesma maneira, é imperativo na A∴A∴ que as mulheres sigam o mesmo curso de iniciação que os homens? A luz da razão não, pois as fórmulas mágicas aplicadas ao homem e a mulher são distintas. Vamos usar o Corrente 93 para desenvolver essa ideia.
Nota importante: Eu recebi alguns e-mails e avisos de que eu deveria parar de falar
acerca do sistema de iniciação da O.T.O. Aproveito essa oportunidade para esclarecer alguns pontos:
1. Não existe lei além de Faz o que tu queres. Dessa maneira, se eu falo acerca do sis-tema de iniciação da O.T.O. é por este motivo que segue:
2. Sou um iniciado da O.T.O. desde 2000 e embora eu esteja afastado da Ordem, tenho quase vinte anos de experiência no trabalho dos Graus, seus rituais de iniciação e fórmulas mágicas, principalmente em meu trabalho com a Tradição Brasileira da O.T.O. (via Euclydes Lacerda) e outras potências espúrias como Fundação O.T.O., O.T.O. Tifoniana e Ritos Unidos O.T.O.
3. Eu não tenho direito algum para falar em nome da O.T.O., mas como membro, tenho o direito de falar sobre ela e uma vez que eu não infrinja sua constituição, não há nada de errado em esclarecer pontos obscuros do sistema da Ordem ou mesmo cri-ticá-la quando a sabedoria vê que certos caminhos levam a becos sem saída.
4. Na A∴A∴, quando alguém atingia o Grau de Adepto Maior 6°=5⌷, Crowley insistia que
os métodos da O.T.O. deveriam ser utilizados para adestrar, aumentar e controlar a força mágica. Por que então eu não iria falar do Arcano da O.T.O. sendo ele tão válido aos ordálios e tarefas que seguem este e o Grau subsequente? Sou da seguinte opi-nião: ao atingir o 6°=5⌷ A∴A∴, o Adepto deve consistentemente trabalhar com as
fórmulas mágicas ensinadas pela O.T.O., o que inclui a realização semanal da Missa Gnóstica, seja no seu original ou adaptada para duas pessoas.2
5. Finalmente, um thelemita pode ser muito bem definido pela palavra independente. Alguém independente é aquela pessoa que age por si mesma, sem se preocupar com os julgamentos, apontamentos ou opiniões alheias. É libertando a mente de influên-cias externas, quer acidentais, quer emotivas, que a tornamos capaz de discernir algo da verdade das coisas. [...] Talvez a primeira percepção será a de que todas as influên-cias externas serão, em sua esmagadora maioria, desfavoráveis ao processo de con-quista mental.3
Eu escrevi dois artigos4 faz pouco tempo que tratam de um assunto especial: existe uma
maneira correta de se interpretar Thelema? Existe um manual de conduta universal para o thelemita? Existe thelemita ideal? Uma vez que não há lei além de Faz o que tu queres,5 não!
Cada thelemita deve escolher para si um conjunto de regras pelas quais deseja viver, alinhado a execução de sua Verdadeira Vontade. Dessa maneira, não existe um suposto the-lemita ideal pois, uma vez que cada um possui sua própria Verdadeira Vontade, as Leis que regem seu universo podem ser distintas das Leis que regem outro universo. Dessa maneira, Thelema se trata de uma Filosofia Universalista, pois ela abraça uma certa diversidade, dei-xando a cargo de cada um salientar em sua vida aqueles aspectos de Thelema que mais lhe são convenientes. Isso, por sua vez, produz pontos de vista distintos e às vezes bem contrá-rios e sob a estrita ótica de Thelema, não existe possibilidade real de dizer se fulano ou bel-trano está ou não agindo segundo os princípios essenciais de Thelema. Para agir segundo os princípios essenciais de Thelema, o que é preciso é executar a Verdadeira Vontade. Sob certo ponto de vista, todos nós estamos, a nossa própria maneira, executando a Verdadeira Vontade.6 Por conta disso, é impossível mensurar a jornada do outro nesses termos.
Durante muitos anos, nós, Superiores da A∴A∴, notamos entre os estudantes mais no-vos grande rebeldia, violência contra autoridade de qualquer tipo, principalmente conec-tada a religião cristã. Mas é preciso observar que Thelema não se opõe a nada. Não se trata de uma doutrina anti-cristã ou até mesmo anti-satanista. Seria até controverso, uma vez que a própria O.T.O. preserva os mistérios do cristianismo primitivo. Essa rebeldia, portanto, é alimentada por certa ignorância acerca dos arcanos que envolvem Thelema. O que Thelema irá criticar no cristianismo e em outras religiões organizadas é a fórmula mágica pela qual elas transmitem a iniciação. Tendo O Livro da Lei trazido uma nova aurora na interpretação dessas fórmulas, claro está o fato de que Thelema irá, por sua vez, reivindicar uma nova maneira de ver a natureza, o mundo e a iniciação. Nesse caminho, Thelema irá desafiar pon-tos de vista estabelecidos, paradigmas religiosos conservadores. Isso, certamente, é um atrativo para muitos rebeldes, antiautoritários, desprivilegiados, alienados, desorientados e infelizes com o status quo. Pessoas que estão bem estabelecidas no status quo não precisam de uma nova visão de mundo. Por outro lado, certa insatisfação é louvável para colocar al-gumas forças em movimento. No entanto, a rebeldia no caminho espiritual pode ser uma faca de dois gumes. Uma pessoa independente é, de certa maneira, um revolucionário. Re-volucionários lutam pela causa da Liberdade. Rebeldes, por outro lado, costumam lutar pela causa da rebeldia. São coisas completamente diferentes.
Os interessados em Thelema ancoram perspectivas distintas em sua busca:
2 Veja meu artigo Uma Loja da O.T.O. m sua Casa no Corrente 93 Vol. I, No. 3. 3 Aleister Crowley, Livro Quatro (Parte I).
4 Thelemita Ideal?, publicado em O Olho de Hoor: Zero e Repensando Yama & Niyama, publicado em Yoga para
Magistas: Ensaios Místicos. Estes artigos estão disponíveis na internet.
5 Liber AL, III:60.
Alguns veem Thelema como uma poderosa força revolucionária na cultura, política e até nas artes. Seus interesses podem ser em qualquer área onde pessoas estão mais abertas a descontruírem antigas ideias na intensão de estabelecerem um Novo Aeon.
Muitos se interessam por Thelema em virtude de sua visão positiva do sexo e da sexualidade, que afrouxa os jugos que a religião organizada estabelece.
Outros projetam em Thelema uma doutrina antigovernista e anárquica. Outros ainda enxergam em Thelema a solução para uma sociedade renovada.
Existem àqueles que praticam Thelema com um ardoroso espírito religioso. Mas também existem àqueles que veem Thelema como uma doutrina antirreligiosa. Uns buscam em Thelema por uma associação perfeita entre a prática da magia e a
busca pelo ideal místico da iluminação.
Muitos buscam Thelema na oportunidade de praticarem uma filosofia de vida que lhes permita serem eles mesmos, completos e entusiasmados, seja através do es-forço, talento ou mérito.
Alguns chegam até Thelema através das ideias disseminadas por Raul Seixas e Paulo Coelho, pensando eles se tratar de um culto mágico misterioso que licencia o uso deliberado de drogas e orgias sexuais.
Poucos buscam em Thelema o ideal da Grande Obra.
Por mais de vinte anos, tenho praticado Thelema como filosofia de vida e mecanismo de autoconhecimento. Sua prática tem me dado a oportunidade de enxergar com clareza as forças ocultas que arrastam e escravizam minha consciência e a possibilidade de libertar-me desses grilhões ocultos ancorado na LVX do Daemone. Por mais de vinte anos eu tenho praticado Thelema me baseando nas Leis fundamentais e princípios que ela promulga e que me causam uma sensação genuína de conforto espiritual. Thelema me oferece um caminho de karma-yoga seguro pelo qual é possível realizar a Grande Obra através do empodera-mento de mim mesmo. Acima de tudo, pratico Thelema porque no presente ela representa a atual configuração espiritual assumida pela humanidade. Thelema provê, no meu enten-dimento, os mecanismos mais efetivos pelos quais o despertar espiritual pode ser cultivado por homens e mulheres de toda parte nos dias de hoje.
Logo acima, eu falei que Thelema sustenta a si mesmo. Portanto, não importa a natu-reza da busca de cada um, pois Thelema pode ser isso tudo descrito acima e muito mais, uma vez que não existe lei além de Faz o que tu queres, todos são livres para interpretar e praticar Thelema segundo seu nível de entendimento, compreensão e iniciação. Através das edições mensais do Jornal Corrente 93 e das revistas anuais O Olho de Hoor, a Sociedade de Estudos Thelêmicos tem a oportunidade de difundir a Lei de Thelema. Nesse processo, nós entendemos que toda tradição precisa, a sua melhor maneira, adaptar a transmissão de sua doutrina e códices de modo mais adequado ao tempo de quem recebe a mensagem.
Muitas descobertas foram feitas desde a passagem de Crowley, que não teve acesso a toda tecnologia e fontes que temos disponíveis hoje. Nossa função, portanto, é trazer The-lema e a prática do Iluminismo Científico para os dias atuais.
Nesta edição do Corrente 93 nós temos alguns temas enriquecedores. Aleister Crowley abre esse número com Liber CL: De Lege Libellum. Trata-se de uma explanação acerca de O Livro da Lei e os privilégios daquele que aceita a Lei de Thelema como filosofia prática de vida.
O Adepto Menor & a Invocação do Daemone é uma epístola escrita por Frater ON120 acerca do trabalho realizado pelos Adeptos Externo e Interno na A∴A∴ e a invocação do Sagrado Anjo Guardião.
O Sagrado Anjo Guardião é um Indivíduo Objetivo é um texto de Aleister Crowley pu-blicado em Magick Whithout Tears e trata da natureza do Anjo.
LVX et NOX é uma epístola sobre o Ritual Safira Estrela. Muito pouco conhecido, este ritual encerra um mistério profundo que forja uma conexão entre os Mundos de Atziluth e Briah através de uma fórmula mágica conhecida como ARARITA. Nos termos práticos, pela dança de êxtase ofidiano produzida por uma série de casamentos místicos nos quadrantes do espaço constrói-se um hexagrama poderoso que é capaz de aniquilar completamente a dualidade do Adepto.
Amor é a lei, amor sob vontade. Frater ON120 6°=5⌷ A∴A∴
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A∴A∴ PUBLICAÇÃO EM CLASSE E IMPRIMATUR N. Fra. A∴A∴ A LEIFaz o que tu queres há de ser tudo da Lei.
m retidão de coração vinde até aqui, e ouvi-me; pois sou eu, , quem deu esta Lei a todo aquele que se considera a si mesmo santo. Sou eu, não outro, que quer vossa completa Liberdade, e ascensão em vós de total Conheci-mento e Poder.
Vede! o Reino de Deus está dentro de vós, assim como o Sol mantém-se eterno nos céus, igualmente à meia-noite e ao meio-dia. Ele não se levanta; ele não se põe; é apenas a sombra da terra que o esconde, ou as nuvens sobre sua face.
Deixai-me, então, declarar-vos este Mistério da Lei, como me foi dado conhecer em diversos lugares, sobre as montanhas e em desertos, mas também em grandes cidades; o que eu digo para vosso conforto e boa coragem. E assim seja para todos vós!
Sabei, primeiro, que da Lei brotam quatro Raios ou emanações; de modo que se a Lei for o centro de vosso próprio ser, eles necessariamente deverão vos preencher com seus secretos benefícios. E estes quatro são: Luz, Vida, Amor e Liberdade.
Pela Luz olhareis sobre vós mesmos e vereis Todas as Coisas, que, em verdade são apenas Uma só Coisa, que tem sido chamada pelo nome Nada, por uma causa que mais tarde vos será declarada. Mas a substância da Luz é Vida, posto que, sem Existência e Energia, ela seria nula. Pela Vida, portanto, vós sois feitos vós mesmos, eternos e incorruptíveis, flame-jantes como sóis, auto-criados e auto-suportados; cada um o centro único do Universo.
Agora, como pela luz vós vistes, pelo amor vós sentis. Há um êxtase de puro Conheci-mento e outro de puro Amor. E este Amor é a força que une coisas diversas, para a contem-plação, na Luz, da Unidade delas. Sabei que o Universo não está em descanso, mas num ex-tremo movimento cuja soma é Descanso. E este entendimento, de que estabilidade é Mu-dança, e Mudança é Estabilidade; que Ser é Tornar-se, e Tornar-se é Ser; é a Chave do Palácio Dourado desta Lei.
Finalmente, pela Liberdade, há o poder de dirigir vosso curso de acordo com vossa Vontade. Pois a extensão do Universo é sem limites, e vós sois livres para fazer vosso prazer como quiserdes, vendo que a diversidade do ser é também infinita. Pois também isto é a
Alegria da Lei: que não há duas estrelas semelhantes, e vós deveis entender também que esta multiplicidade é, ela mesma, Unidade, e sem ela a Unidade não poderia existir. E isto é um duro discurso contra a Razão; vós compreendereis quando, subindo acima da Razão, que é apenas manipulação da mente, chegardes ao Conhecimento puro através da percepção direta da Verdade.
Sabei, também, que estas quatro Emanações da Lei flamejam sobre todos os cami-nhos; vós as usareis não apenas nestas Rodovias do Universo, das quais eu escrevi, mas em todo Atalho de vossas vidas diárias.
Amor é a lei, amor sob vontade.
- I - DE LIBERDADE
Da Liberdade que eu primeiro quereria vos falar, pois, exceto que sejais livres para agir, vós não podeis agir. Porém, todas as quatros dádivas da Lei devem ser, em algum grau, exerci-das, visto que estas quatro são uma. Entretanto, para o Aspirante que vem ao Mestre, a pri-meira necessidade é Liberdade.
O maior dentre todos os grilhões é a ignorância. Como um homem será livre para agir, se ele não conhece seu próprio propósito? Vós deveis, portanto, antes de mais nada, desco-brir que estrela, de todas as estrelas, vós sois; vossa relação com as outras estrelas ao vosso redor; e vossa relação e identidade com o Todo.
Em nossos Livros Sagrados são descritos diversos métodos de fazermos esta desco-berta; e cada um deve realizá-la por si mesmo, alcançando absoluta convicção pela experi-ência direta; não apenas raciocinando e calculando o que é provável. E a cada um virá o conhecimento de sua vontade finita, através da qual um é poeta, outro profeta; um trabalha com aço, outro com jade. Mas também para cada um virá o conhecimento de sua Vontade infinita, seu destino para realizar a Grande Obra, a realização de seu Verdadeiro Ser. Desta Vontade, deixai-me, pois, falar claramente a todos, já que ela pertence a todos.
Entendei, agora, que em vós mesmos há um certo descontentamento. Analisai bem sua natureza: no final, há, em todo caso, uma conclusão. O mal brota da crença em duas coisas: o Ser e o Não-Ser, e do conflito entre eles. Isto também é uma restrição da Vontade. Aquele que está doente está em conflito com o seu próprio corpo; aquele que é pobre está em disparidade com a sociedade; e assim por diante. Finalmente, portanto, o problema está em como destruir esta percepção de dualidade, em atingir a apreensão da unidade.
Agora, então, suponhamos que vós viestes ao Mestre, e que Ele vos declarou o Cami-nho desta consecução. Que vos impede? Ai! Existe ainda muita Liberdade ao longe. Entendei isto claramente: que se estais certos de vossa Vontade e certos de vossos meios, então quais-quer pensamentos ou atos que são contrários a esses meios são contrários, também, àquela Vontade.
Se, portanto, o Mestre impusesse a vós um Voto de Santa Obediência, a concordância não seria uma entrega da Vontade, mas um cumprimento desta.
Pois vede, o que vos impede? Ou vem de fora, ou vem de dentro, ou ambos. Pode ser fácil, para o buscador de mente forte, pisar sobre a opinião pública, ou arrancar de seu co-ração os objetos que ele ama, em um sentido; mas permanecerão, nele mesmo, muitas afei-ções discordantes, como também o laço do hábito; e também estes ele deve conquistar.
Em nosso mais Sagrado Livro está escrito: «tu não tens direito senão fazer tua von-tade. Faz isso, e nenhum outro dirá não». Escrevei isso também em vosso coração e em vosso cérebro: pois esta é a chave de toda questão.
Aqui a Natureza mesma é vosso orientador; pois em cada fenômeno de força e movi-mento ela proclama alto esta verdade. Mesmo numa questão tão pequena como enfiar um
prego numa tábua, ouvi este mesmo sermão. Vosso prego deve ser duro, liso, de ponta fina, ou não se moverá rapidamente na direção desejada. Imaginai então um prego de madeira podre, com vinte pontas: em verdade, isso não é mais um prego. Porém quase toda a huma-nidade se parece com isto. Eles desejam uma dúzia de carreiras diferentes; e a força que poderia ter sido suficiente para atingir eminência em uma é desperdiçada nas outras, elas são anuladas.
Aqui, então, deixai-me fazer uma confissão aberta, e assim dizer: apesar de eu ter me prometido, quase na infância, à Grande Obra; embora em minha ajuda tenham vindo as mais possantes forças em todo o Universo, para me segurar à promessa; apesar de agora o pró-prio hábito me constranger na direção correta; no entanto, eu não preenchi minha Vontade: eu me desvio diariamente da tarefa escolhida. Eu oscilo. Eu hesito. Eu me arrasto.
Que seja isto, então, de grande conforto para vós todos: que se eu sou tão imperfeito - e por verdadeira vergonha eu não enfatizei essa imperfeição - se eu, o Escolhido, ainda falho, quão fácil será, para vós mesmos, ultrapassar-me! Ou se apenas me igualásseis, então quão grande consecução seria a vossa!
Animai-vos, portanto, já que tanto o meu fracasso quanto o meu sucesso são argu-mentos encorajadores para vós mesmos.
Buscai-vos a vós mesmos astutamente, eu vos rogo, analisando vossos pensamentos mais íntimos. E primeiro vós descartareis todos esses grosseiros e óbvios obstáculos a vossa Vontade: ociosidade, amizades tolas, dedicações e diversões supérfluas; eu não enumerarei os conspiradores contra o bem estar de vosso Estado.
Após, encontrai o mínimo de tempo diário que é verdadeiramente necessário a vossa vida natural. O resto vós devotareis aos Verdadeiros Meios da vossa Consecução. E mesmo aquelas horas necessárias vós consagrareis à Grande Obra, dizendo conscientemente, sem-pre, enquanto ocupado com essas tarefas, que vós as executais apenas para preservar vosso corpo e mente saudáveis para a justa aplicação àquele sublime e singular Objeto.
Não demorará muito antes que comeceis a entender que uma tal vida é a verdadeira Liberdade. Vós sentireis distrações de vossa Vontade como sendo o que elas são. Elas não mais aparecerão como agradáveis e atrativas, mas como grilhões, como vergonhas. E quando tiverdes atingido este ponto, sabereis que vós passastes o Portal do Meio do cami-nho. Vós tereis unificado vossa Vontade.
Mesmo assim, se um homem estivesse sentado dentro de um teatro onde a peça o cansasse, ele daria boas vindas a toda distração e se divertiria com qualquer acidente; mas se ele estivesse interessado na peça, qualquer incidente o aborreceria. Sua atitude para com estes seria, então, uma indicação de sua atitude com relação à própria peça.
De início, o hábito da atenção é difícil ser adquirido. Perseverai, e vós tereis espasmos periódicos de revulsão. A própria Razão vos atacará, dizendo: «como pode um laço tão aper-tado ser o Caminho da Liberdade?»
Perseverai. Vós jamais conhecestes a Liberdade. Quando as tentações forem vencidas, quando a voz da Razão for silenciada, então vossa alma saltará adiante, desembaraçada, so-bre seu curso escolhido; e, pela primeira vez, vós experimentareis o extremo deleite de ser-des Mestres de Vós Mesmos e, portanto, do Universo.
Quando isto tiver sido plenamente atingido, quando estiverdes sentados seguramente sobre o selim, então podereis desfrutar também de todas aquelas distrações que primeira-mente vos agradaram e depois vos enfureceram. Agora elas nada mais farão pois são seus escravos e brinquedos.
Até que tenhais atingido este ponto, vós não sereis completamente livres. Vós deveis matar o desejo, e matar o medo. O fim de tudo é o poder de viver de acordo com vossa pró-pria natureza, sem perigo de que uma parte possa se desenvolver em detrimento do todo, ou a preocupação de que tal perigo não se erga.
O tonto bebe e se embebeda; o covarde não bebe, e treme; o homem sábio, bravo e livre, bebe e dá glórias ao Mais Alto Deus.
Esta, então, é a Lei de Liberdade: vós possuis toda Liberdade em seu próprio direito, mas deveis suportar o Direito com Poder: vós deveis ganhar a Liberdade para vós mesmos em muitas guerras. Ai das crianças que dormem na Liberdade que seus pais conquistaram para elas!
«Não existe lei além de Faz o que tu queres»: mas são apenas os maiores da raça que têm a força e a coragem necessárias para obedecer a isto.
Ó homem! observa-te a ti mesmo! Com que aflição tu foste feito! Quantas idades se foram até a tua formação! A história do planeta está narrada na própria substância do teu cérebro! Foi tudo isso em vão? Não há propósito em ti? Foste tu feito assim para comer, procriar e morrer? Não penses assim! Tu incorporas tantos elementos, tu és o fruto de tan-tos Æons de labor, tu és feito tal qual és, e não de outro modo, para algum Fim colossal.
Anima-te, pois, para buscá-lo e fazê-lo. Nada pode te satisfazer senão o preenchimento de tua Vontade transcendente, que está escondida dentro de ti. Para isto, então, levanta-te; às armas! Conquista tua Liberdade para ti mesmo! Golpeia duro!
- II - DO AMOR
Está escrito que «amor é a lei, amor sob vontade». Aqui há um Arcano Oculto, pois no idioma grego , Amor, tem o mesmo valor numérico que , Vontade. Por isto nós entendemos que a Vontade Universal é da natureza do Amor.
Ora, Amor é o incêndio em êxtase de Dois que querem se tornar Um. É, pois, uma fór-mula Universal de Alta Magia. Pois vede agora como todas as coisas, estando em sofrimento causado pela divisibilidade, devem por necessidade, querer a Unidade como seu remédio.
Aqui também é a Natureza guia daqueles que procuram Sabedoria no seu seio: pois, na união de elementos de polaridade oposta, há uma glória de calor, de luz e de eletricidade. Assim, também na humanidade, nós vemos o fruto espiritual da poesia e de todos os gênios nascendo da semente daquilo que é apenas um gesto animalesco, na estimativa daqueles versados em Filosofia. E deve ser fortemente notado que as mais violentas e divinas paixões são aquelas entre pessoas de naturezas extremamente desarmônicas.
Mas agora eu deveria fazê-los saber que na mente não há tais limitações, a respeito de gêneros, que previnam o homem de se apaixonar por um objeto inanimado, ou por uma ideia. Pois, para aquele que esteja algo adiantado no Caminho da Meditação, parece que to-dos os objetos, salvo o Objeto Único, são desagradáveis, tal como lhe pareceu antes, a res-peito dos seus desejos ocasionais, em relação à Vontade. Assim, portanto, todos os objetos devem ser agarrados pela mente e aquecidos no sétuplo forno do Amor, até que, numa ex-plosão de êxtase eles se unam e desapareçam; pois sendo eles imperfeitos, são destruídos por completo na criação da Perfeição de União, tal como as pessoas do Amante e do Amado se fundem no ouro espiritual do Amor, que não conhece pessoas, mas compreende tudo.
Já que cada estrela é apenas uma estrela, e a união de quaisquer duas é apenas um êxtase parcial, deve o aspirante à nossa santa Ciência e Arte aumentar-se constantemente através deste método de assimilação de ideias; e, no final, tornando-se capaz de apreender o Universo em um pensamento, possa ele se lançar sobre aquilo com toda força de seu Ser e, destruindo a ambos, tornar-se aquela Unidade cujo nome é Nada. Buscai todos vós, por-tanto, constantemente vos unir em êxtase com cada e toda coisa que existe, e isto pela má-xima paixão e sede de União. Para este fim, tomai, principalmente, todas as coisas que sejam naturalmente repulsivas, pois aquilo que é agradável é assimilado facilmente e sem êxtase: é na transfiguração do que é indesejado e nojento No Amado, que o Ser é sacudido nas raízes do Amor.
Assim, no amor humano também vemos que homens medíocres desposam mulheres inúteis; mas a História nos ensina que os supremos Mestres do mundo buscam sempre as mais vis e mais horríveis criaturas para suas concubinas, ultrapassando até as leis limitado-ras do sexo ou dos gêneros em sua necessidade de transcender a normalidade. Não basta a tais naturezas excitar ardor ou paixão: a imaginação mesma deve ser inflamada por todos os meios.
Nós, então, emancipados de toda lei básica, que faremos para satisfazer nossa Von-tade de União? Nada menos que o Universo para nossa amante; nenhum bordel mais cir-cunscrito que o Espaço Infinito pode ser o nosso âmbito; nenhuma noite de arrebatamento que não seja coeva com a Eternidade!
Considerai que, tal como o Amor é poderoso para trazer todo Êxtase, assim a ausência de amor é o maior dos suplícios. Aquele que é frustrado no Amor sofre de fato, mas aquele que não tem ativamente em seu coração esta paixão por algum objeto é enfraquecido pela dor do suplício. E este estado é misticamente chamado de «secura». Para isto, creio eu, não existe cura senão a paciente persistência em uma Regra de Vida.
Mas esta secura tem sua virtude, pois através dela a Alma é purgada das coisas que impedem a Vontade; pois quando a secura é também perfeita, então é certo que de modo algum poderá a Alma ser satisfeita, senão pela Consecução da Grande Obra. E isto, em almas fortes, é um estímulo para a Vontade. É o Forno da Sede que queima toda escória dentro de nós.
Mas, para cada ato de Vontade, há uma Secura particular correspondente; e na medida em que o Amor cresce dentro de vós, assim crescerá o tormento de Sua ausência. Seja tam-bém isto, para vós, como um consolo no ordálio! Além do mais, quanto mais intensa é a praga da impotência, mais rápida e repentina ela tende a ser abatida.
Eis aqui o método de Amor em Meditação: que o Aspirante primeiro pratique e depois se discipline na Arte de fixar a atenção sobre qualquer coisa à vontade, sem permitir a mí-nima distração imaginável.
Também, que ele pratique a arte da Análise de Ideias, e a de recusar permitir à mente sua reação natural a elas, agradáveis ou desagradáveis; fixando-se assim a si mesmo, em Simplicidade e Indiferença. Sendo estas coisas alcançadas em sua devida estação, sabei que todas as ideias terão se tornado iguais em vossa apreensão, já que cada uma é simples, e cada uma é indiferente: qualquer uma delas permanecerá na mente à Vontade, sem se in-quietar ou lutar, nem tendendo a passar qualquer outra. Mas cada ideia possuirá uma espe-cial qualidade comum a todas: nenhuma delas é O Ser; já que é percebida pelo Ser como Algo Oposto.
Quando isto for perfeito e profundo no impacto de sua realização, então é o momento do aspirante dirigir sua Vontade de Amor sobre ela, de forma que a inteira consciência en-contre o foco sobre esta Ideia Única. E, a princípio, ela poderá ser fixada e morta, ou leve-mente mantida. Poderá, então, passar à secura, ou a repulsão. Mas, por fim, pela pura per-sistência nesse Ato de Vontade de Amar, o próprio Amor se erguerá, como um pássaro, como uma flama, como uma canção, e a Alma inteira voará numa trajetória flamejante de música, até o Derradeiro Céu de Possessão.
Agora, neste método há muitas estradas e caminhos, alguns simples e diretos, alguns escondidos e misteriosos mesmo como ocorre com amor humano, no qual nenhum homem foi feito do mesmo modo que os primeiros rabiscos de um Mapa; pois o Amor é infinito em diversidade, assim como são as Estrelas. Por este motivo, eu deixo que o Amor, por si pró-prio, domine no coração de cada um de vós: pois ele vos ensinará corretamente, se vós ape-nas o servíreis com diligência e devoção, mesmo ao abandono.
Vós não devereis vos recear ou surpreender com as estranhas peças que ele pregará: pois ele é um garoto travesso e atrevido, sábio nos Artifícios de Afrodite, Nossa Senhora, sua
doce Mãe, e todos os seus gracejos e crueldades são temperos de um astucioso confeito ao qual nenhuma arte pode se igualar.
Regozijai-vos, portanto, em seu jogo, não diminuindo, de modo algum, vosso próprio ardor, mas brilhando com o tormento de seus açoites e fazendo do próprio Riso um sacra-mento coadjuvante do Amor, assim como no Vinho de Rheims há fagulhas e trapaças tal como se fossem ministros do Alto Sacerdote de sua Intoxicação.
Também é justo que eu vos escreva da importância da Pureza no Amor. Agora, esta matéria não diz respeito ao objeto ou método da prática: o essencial é que nenhum elemento alienígena se intrometa. E é da mais particular pertinência ao aspirante nesse primário e mundano aspecto de seu trabalho, no qual ele se estabelece a si mesmo no método, através de suas afeições naturais.
Sabei, pois, que todas as coisas são máscaras ou símbolos da Verdade Única, e a natu-reza serve sempre para apontar a mais alta perfeição sob o véu da mais baixa perfeição. Portanto, então, toda arte e ofício do amor humano vos servirá como um hieróglifo, pois está escrito que Aquilo que está acima é como o que está embaixo, e que Aquilo que está embaixo é como o que está em cima.
Portanto, quanto a isto, também vos convém tomar bastante cuidado, para que de ne-nhum modo falheis neste assunto de Pureza. Pois, apesar de cada ato dever ser completo em seu próprio plano, e nenhuma influência de qualquer outro plano dever ser trazida a sua interferência ou confusão - pois tudo isso é impureza - ainda assim cada ato deve ser, em si mesmo, tão completo e perfeito que seja um espelho da perfeição de todo outro plano e, portanto, vir a partilhar da pura Luz do altíssimo. Também, posto que todas as ações devem ser atos de Vontade em Liberdade em todo os planos, todos estes são, na realidade, apenas um; e assim a mais baixa expressão de qualquer função dessa Vontade deve ser, ao mesmo tempo, uma expressão da mais alta Vontade, ou somente Verdadeira Vontade, o que já está implícito na aceitação da Lei.
Que seja também entendido por vós que não é necessário ou certo suprimir a ativi-dade natural de qualquer tipo, tal como certas pessoas falsas, eunucos do espírito; o mais corrompido ensinamento para a destruição de muitos. Pois em qualquer coisa habita sua própria perfeição, e neglicenciar a total operação em função de qualquer parte traz a distor-ção e a degeneradistor-ção do todo. Agi, portanto, de todas as maneiras, mas transformando o efeito de todas essas maneiras no Único Caminho da Vontade. E isto é possível, porque todos os caminhos são, em Verdade, Um Caminho; o Universo mesmo sendo Um e Um Só, e sua aparência como multiplicidade, como a ilusão cardinal de que o verdadeiro objeto do amor é dissipar.
Na aquisição do Amor, há dois princípios: o da maestria e o da concessão. Mas a natu-reza destas é difícil de explicar, pois são sutis, e mais bem ensinadas pelo Próprio Amor no curso das Operações. Mas deve ser dito geralmente que a escolha de uma fórmula ou de outra é automática, sendo trabalho dessa mais íntima Vontade o que está vivo dentro de vós. Não busqueis, então, determinar conscientemente esta decisão, pois aqui o verdadeiro ins-tinto não é passível de erro.
Mas agora eu termino sem mais delongas: pois em nossos Livros Sagrados estão es-critos muitos detalhes da verdadeiras práticas de Amor. E aqueles são os melhores e mais verdadeiros, os quais são sutilmente escritos em símbolo e imagem, especialmente em Tra-gédia e Comédia, pois a natureza inteira destas coisas é deste tipo, a própria Vida sendo o fruto da flor do Amor.
É, pois, da vida que eu devo agora escrever a vós, visto que por todo ato de Vontade no Amor, vós estais a criando, uma quinta essência mais misteriosa e regozijante do que julgais, pois isto que os homens chamam de vida é apenas uma sombra daquela verdadeira Vida, seu direito de nascença e a dádiva da Lei de Thelema.
- III - DA VIDA
Sístole e diástole: estas são as fases de todas as coisas componentes. De tais, é também a vida do homem. Sua curva se ergue da latência do óvulo fertilizado, dizeis, a um zênite do qual declina até a nulidade da morte? Bem considerado, isto não é totalmente verdadeiro. A vida do homem é apenas um segmento de uma curva serpentina que alcança a infinidade, e seus zeros apenas marcam as mudanças de + para - e de - para + nos coeficientes de sua equação. É por este motivo, entre muitos outros, que homens sábios na antigüidade esco-lheram a Serpente como o hieróglifo da Vida.
Vida é, pois, indestrutível, como tudo mais. Toda destruição e construção é mudança da natureza do Amor, como eu vos descrevi no capítulo prévio. No entanto, como o sangue em um pulsar não é o mesmo sangue do próximo, assim a individualidade é, em parte, des-truída a cada vida que passa; não, mesmo a cada pensamento.
O que então faz o homem, se ele morre e renasce; uma mudança em cada alento? Isto: a consciência de continuidade dada pela memória; a concepção de seu Ser como algo, cuja existência, longe de estar ameaçada por estas mudanças, é na verdade assegurada por elas. Então, que o aspirante à Sabedoria sagrada considere seu Ser não mais como um segmento da Serpente, mas como o todo. Que ele estenda sua consciência para encarar nascimento e morte apenas como incidentes triviais, como a sístole e a diástole do próprio coração; e ne-cessários como estas para sua função.
Para fixar a mente nesta apreensão da Vida, dois modos são preferíveis como prelimi-nares das maiores realizações que serão discutidas em sua própria ordem, experiências que transcendem mesmo aquelas consecução de Liberdade e Amor, das quais eu até aqui es-crevi, e esta de Vida que eu agora registro neste meu pequeno livro que estou compondo para vós, de modo que possais chegar ao Grande Preenchimento.
O primeiro modo é a aquisição da assim chamada memória mágicka, e a maneira está descrita, acurada e claramente em certos de nossos Sagrados Livros. Mas, para quase todos os homens isso é uma prática de excedente dificuldade. Que o aspirante, então, siga o im-pulso de sua própria Vontade, na decisão de escolher isto ou não.
O segundo modo é fácil, agradável, não tedioso e, no final, tão certeiro quanto o outro. Mas, assim como o erro no primeiro reside no Desencorajamento, neste deveis vos precaver de Falsos Caminhos. Em verdade, posso dizer, geralmente, de todas as Obras, que há dois perigos: o obstáculo do Fracasso, e a armadilha do Sucesso.
Agora, este segundo modo é a dissociação das entidades que fazem vossa vida. Pri-meiro - porque é mais fácil - vós deveríeis segregar aquela Forma que é chamada de Corpo de Luz (e também por muitos outros nomes), e lançar-vos a viajar nesta Forma, fazendo a exploração sistemática desses mundos, que estão para outras coisas materiais assim como o vosso Corpo de Luz está para a vossa própria forma material.
Agora, vos ocorrerá nestas viagens que atingireis muitos portais através dos quais não estareis aptos a passar. Isto é porque vosso Corpo de Luz ainda não é suficientemente forte, ou suficientemente sutil, ou suficientemente puro; e vós devereis, então, aprender a dissociar os elementos daquele Corpo, por um processo similar ao primeiro; vossa consci-ência permanecendo no mais elevado, e deixando o mais baixo. Nesta prática vós continua-reis, flexionando vossa Vontade como um grande Arco, para enviar a flecha de vossa cons-ciência através de céus sempre mais altos e mais santos. Mas a continuidade neste Caminho é, por si mesma, de vital importância: pois acontecerá que o próprio hábito vos persuadirá de que o corpo que nasce e morre, dentro de um espaço tão pequeno quanto um ciclo de Netuno no Zodíaco, não é essencial ao vosso Ser; que a Vida de que vos tornaste um comun-gante - enquanto que ela mesma sujeita à Lei de ação e reação, de vazante e enchente, sístole
e diástole - está, no entanto, insensível às aflições daquela vida que vós anteriormente assu-mistes ser vosso único laço com a Existência.
E aqui deveis resolver que vosso Ser faça o maior dos esforços; pois tão floridos são os prados deste Éden, e tão doces os frutos de seus pomares, que vós amareis demorar-vos neles, e deleitar-vos em ociosidade e brincadeiras ali. Portanto eu vos escrevo com energia que não deveis fazer assim, para obstáculo de vosso verdadeiro progresso; pois todas essas alegrias são dependentes da dualidade, de forma que o verdadeiro nome delas é Dor de Ilu-são, como a vida normal do homem, que resolvestes transcender.
Seja de acordo com vossa Vontade; mas aprendei isto, que (como está escrito) só são felizes aqueles que desejaram o inalcançável. Será então melhor, no final, se for vossa Von-tade encontrar sempre seu principal prazer no Amor, isto é, na Conquista e na Morte; isto é, em Render-se, como eu já vos escrevi. Assim, então, vos deleitareis nesses prazeres já des-critos, mas apenas como brinquedos, mantendo vossa hombridade firme e intensa para pe-netrar em êxtases mais profundos e santos, sem a prisão de vossa Vontade.
Além do mais, eu queria que soubésseis que, nesta prática, se perseguida com ardor inesgotável, há esta especial graça: vós chegareis, como que por acaso, a estados que trans-cendem a prática mesma, sendo da natureza dessas Obras de Pura Luz que eu quero vos escrever no capítulo que segue a este. Pois há certos Portais que nenhum ser que ainda es-teja cônscio de dividualidade, isto é, de Ser e não-Ser como opostos, pode atravessar; e no ataque contra esses Portais, em fogoso assalto de ardor celestial, vossa flama queimará ve-ementemente contra vosso Ser grosseiro, apesar de ele já ser divino além da sua imaginação presente, e o devorará numa morte mística; de forma, então, que na Passagem do Portal tudo é dissolvido em amorfa Luz de Unidade.
Agora, pois, retornando desses estados de ser - e no regresso também há um Mistério de Alegria - vós sereis privados do Leite de Escuridão da Lua, e sereis feitos comungantes do Sacramento de Vinho que é o sangue do Sol. No entanto, no início pode haver choque e conflito, pois o velho pensamento persiste pela força de seu hábito: é deixado para vós a criação, por repetido ato, do verdadeiro hábito correto desta consciência da Vida que habita Luz. E isto é fácil, se vossa vontade for forte; pois a verdadeira vida é tão mais vívida e quin-tessencial que a falsa, que (como eu rudemente estimo) uma hora da primeira faz uma im-pressão sobre a memória, igual a um ano da última. Uma única experiência, que em duração pode ser apenas uns poucos segundos de tempo terrestre, é suficiente para destruir a crença na realidade de nossa vã vida sobre a terra: mas isto se dissipa gradualmente se a consciên-cia, através de choque ou medo, não adere a ela, e a Vontade não combate continuamente pela repetição daquela felicidade - mais linda e terrível que a morte - que foi vencida pela por virtude de Amor.
Há, além disso, muitos outros modos de atingir apreensão da verdadeira Vida, e os dois que seguem são de muito valor para quebrar o gelo de vosso erro mortal na visão de vosso Ser. E destes o primeiro é a constante contemplação da identidade do Amor e Morte, e compreensão da dissolução do corpo como um ato de Amor executado sobre o corpo do Universo, como também está extensamente escrito em nossos Sagrados Livros. E, com este, vai, como se fosse irmã com seu irmão gêmeo, a prática do amor mortal, como um sacra-mento simbólico daquela grande Morte; tal com está escrito: «Mata-te a ti mesmo», e ainda: «Morre diariamente».
E o segundo destes modos menores é a prática da apreensão e análise mental das ideias, principalmente como eu já vos ensinei; mas com especial ênfase em coisas natural-mente repulsivas, em particular a própria morte, e seus fenômenos subordinados. Assim, o Buda recomendava a seus discípulos que meditassem sobre Dez Impurezas, isto é, sobre dez casos de morte por decomposição; de forma que o Aspirante, identificando-se com seu pró-prio cadáver em todas estas formas imaginadas, pudesse perder o natural horror, repug-nância, medo ou desgosto que ele pudesse ter tido por elas. Aprendei isto: toda ideia, de
qualquer tipo, se torna irreal, fantástica, e a mais manifesta ilusão, se sujeita à investigação persistente, com concentração. E isto é particularmente fácil de conseguirmos no caso de todas as impressões corpóreas; porque todas as coisas materiais, e especialmente essas de que nos tornamos primeiramente cônscios - a saber, nossos próprios corpos - são as mais grosseiras e as mais desnaturais de todas as falsidades. Pois existe em todos nós, latente, aquela Luz onde nenhum erro pode perdurar, e Ela já ensina ao nosso instinto a rejeitar, antes de mais nada, esses véus que mais estreitamente a envolvem. Assim, em meditação, é (para muitos homens) mais proveitoso concentrar a Vontade de Amar sobre os sagrados centros de força nervosa; pois estes, como todas as coisas, são aptas imagens ou verdadeiros reflexos de seus semelhantes em esferas mais finas; de forma que, suas naturezas grosseiras sendo dissipadas pelo ácido dissolvedor da Meditação, suas almas mais finas aparecem (por assim dizer) nuas, e exibem sua força e glória na consciência do aspirante.
Sim, deixai, verdadeiramente, que vossa Vontade de Amar queime impacientemente em direção a esta criação, em vós mesmos, da verdadeira Vida, que rola suas ondas através do mar sem praia do Tempo! Não vivais vossas desprezíveis vidas no temor das horas! A Lua, e o Sol, e as Estrelas, pelos quais medis o Tempo, são eles mesmos apenas servos da-quela Vida que pulsa em vós, alegre rufar de tambores enquanto marchais triunfantes pela Avenida das Idades. Então, quando cada nascimento e morte vossos forem reconhecidos nesta percepção como meros marcos sobre vossa Estrada sempre viva, o que será dos tolos incidentes de vossas desprezíveis vidas? Não são eles apenas grãos de areia soprados pelo vento do deserto, ou pedras que vós chutais com vossos pés alados, ou clareiras verdejantes onde comprimis o musgo e a relva elástica em vossa dança lírica? Para aquele que vive na Vida, nada importa: seu é o eterno movimento, energia, deleite de Mudança infalível. Incan-sáveis, vós passeais de Æon a Æon, de estrela a estrela; o Universo, vosso campo de recreio, com sua infinita variedade de diversão, sempre velho e sempre novo. Todas essas ideias que engendram dor e medo são conhecidas em sua verdade, e assim se tornam a semente de alegria: pois vós estais certos, além de toda prova, que jamais podeis morrer; que, apesar de mudares, mudança é parte de vossa própria natureza. O Grande Inimigo se tornou o Grande Aliado.
Enraizados nesta perfeição, vosso Ser tendo se tornado a verdadeira Árvore da Vida, vós tendes um fulcro para vossa alavanca: agora estais prontos para compreender que este pulso de Unidade é, ele mesmo, Dualidade; e, portanto, no mais elevado e mais sagrado senso, ainda Dor e Ilusão, os quais, tendo isto compreendido, aspirai ainda uma vez, mesmo à Quarta das Dádivas da Lei, ao Fim do Caminho, mesmo à Luz.
- IV - A LUZ
Eu vos rogo, sede paciente comigo naquilo que eu escreverei quanto à Luz; pois aqui há uma dificuldade, sempre crescente, no uso de palavras. Ainda mais, eu mesmo sou constante-mente arrebatado e subjugado pela sublimidade deste assunto, de forma que um linguajar simples pode se transformar em lirismo quando eu quereria marchar em paz com expres-sões didáticas. Minha melhor esperança é que vós possais compreender por virtude da sim-patia de vossa intuição; tal como dois amantes podem conversar em linguagem tão ininteli-gível a outros, que parece tola, indecente e tediosa; ou como naquela outra intoxicação, dada pelo Éter, os participantes comungam entre si com infinita imaginação, ou sabedoria, con-forme o temperamento ditar, por meio de uma palavra ou gesto, sendo iniciados à apreen-são pela sutileza da droga. Assim possa eu, que estou inflamado com o amor dessa Luz e embriagado com o vinho etéreo desta Luz, comunicar-me não tanto com vossa razão e inte-ligência, mas com aquele princípio oculto em vós mesmos que está pronto para comungar comigo. Assim mesmo podem um homem e uma mulher enlouquecer de amor um pelo outro
- sem que qualquer palavra seja dita entre eles - por causa da indução (por assim dizer) de suas almas. E vosso entendimento dependerá de vossa maturidade para a percepção de mi-nha Verdade. Ainda mais, se ocorrer da Luz em vós estar pronta para explodir, então a Luz interpretará para vós estas minhas escuras palavras na linguagem da Luz, mesmo como uma corda musical inanimada, estando devidamente afinada, ressoará em seu tom peculiar, se este for emitido por outra corda. Lede, portanto, não apenas com vosso olho e cérebro, mas com o ritmo daquela Vida a qual vós alcançastes pela vossa Vontade de Amar, despertada a passos de dança por estas palavras, que são os movimentos do bastão da minha Vontade de vos Amar e, assim, inflamar vossa Vida em Luz.
(Neste ânimo, me interrompi na escritura deste meu pequeno livro e, por dois dias e duas noites sem dormir, eu fiz considerações, lutando veementemente com meu espírito, para que não vos falhe, por pressa ou por descuido.)
No exercício de Vontade e Amor estão implicados movimento e mudança; mas em Vida é ganhada uma Unidade que se move e muda apenas em pulso ou fase, mesmo como a música. Ainda na consecução desta Vida vós já tereis tido a experiência de que aquela Quinta-essência é pura Luz, um êxtase amorfo e sem marco ou limite. Nesta Luz nada existe, pois Ela é homogênea; e, portanto, os homens a têm chamado de Silêncio, e Escuridão, e Nada. Mas neste, como em qualquer outro esforço por nomeá-la, está a raiz de toda falsidade e apreensão errônea, já que todas as palavras implicam alguma dualidade. Portanto, apesar de eu chamá-la Luz, ela não é Luz, nem ausência de Luz. Muitos também têm tentado des-crevê-la por contradição, já que, através da transcendente negação de toda fala, ela pode ser alcançada por certas naturezas. Também através de imagens e símbolos têm os homens se esforçado por expressá-la; mas sempre em vão. No entanto, esses que estavam prontos para perceber a natureza desta Luz têm compreendido por simpatia; e assim será com vós que leis este pequeno livro, amando-o. Entretanto, seja sabido por vós que a melhor de todas as instruções sobre esta questão, e a Palavra mais adequada ao Æon de Hórus, está escrita no Livro da Lei. No entanto, também o Liber Ararita é corretamente digno na Obra da Luz; tal como Trigrammaton na da Vontade; Cordis Cincti Serpente, no Caminho do Amor; e Liberi, naquele da Vida. Todos esses Livros, também tratam de todas estas Quatro Graças; pois, ao fim, vós vereis que toda e cada uma delas é inseparável de todas as outras.
Eu desejo vos escrever a respeito do número 93, o número de . Pois não apenas é o numero de sua interpretação , mas também o de uma palavra que vos será desconhecida a não ser que sejais Neófitos de nossa Santa Ordem da A∴A∴, palavra esta que representa em si mesma a ascensão da Voz que parte do Silêncio, e o retorno dela para lá, no Fim. Agora, este número 93 é três vezes 31, que é em hebraico LA, isto quer dizer NÃO, e assim nega extensão nas três dimensões do espaço. Também, eu quereria que meditásseis mui estritamente sobre o nome NU, que é 56, o qual é dito que dividamos, adicionemos, multipliquemos e entendamos. Por divisão surge o 0,12; como se estivesse escrito Nuit! Ha-dit! Ra-Hoor-Khuit! antes da Díada. Por adição ergue-se 11, o número da Verdadeira Magia; e por multiplicação temos Trezentos, o Número do Espírito Santo ou Fogo, a letra Shin [s], onde todas as coisas são consumidas totalmente. Com estas considerações, e um total en-tendimento dos mistérios dos Números 666 e 418, estareis poderosamente armados neste Caminhos de vôo distante. Mas vós deveríeis, também, considerar todos os números em suas escalas. Pois não há meio de resolução melhor que este da matemática pura, já que aí mesmo ideias grosseiras são refinadas, e tudo é arranjado e aprontado para a Alquimia da Grande Obra.
Eu já vos escrevi de como, na Vontade de Amar, a Luz se ergue como a parte secreta da Vida. E nos primeiros, nos pequenos Amores, a Vida alcançada é ainda pessoal; mais tarde, ela se torna impessoal e universal. Então, chega a Vontade, posso dizer, ao seu polo magnético, de onde as linhas de força apontam da mesma maneira para todos os caminhos e para caminho nenhum; e o Amor, também, é não mais um trabalho, mas um estado. Estas
qualidades se tornam parte da Vida Universal, que surge infinitamente com a injunção da Vontade e do Amor como inerentes àquela. Estas coisas, portanto, em sua perfeição perde-ram seus nomes e suas naturezas. No entanto, elas foperde-ram a Substância da Vida, seu Pai e a Mãe; e sem sua operação e impacto, a própria Vida gradualmente cessaria suas pulsações. Mas desde que a infinita energia do Universo inteiro está ali, o que então é possível, senão que ela retorne à sua própria Intenção Primeira, dissolvendo-se pouco a pouco, naquela Luz, que é a mais secreta e mais sutil Natureza?
Pois este Universo é em Verdade Zero, sendo uma equação da qual Zero é a soma. Donde isto é a prova: que se não fosse assim, o Universo estaria em desequilíbrio, e algo viria do Nada, o que é absurdo. Esta Luz ou Nada é, então, a Resultante, ou Totalidade, Uni-versal em Perfeição; e todos os outros estados, positivos ou negativos, são imperfeitos, já que omitem os seus opostos.
Porém, eu quereria que considerásseis que esta igualdade, ou identidade de equação, entre todas as coisas e Nenhuma, é muito absoluta; de maneira que vós não permanecereis mais em uma do que na outra. E vós compreendereis este Mistério maior muito facilmente, à luz dessas outras experiências que tereis tido, nas quais movimento e descanso, mudança e estabilidade, e muitos outros opostos sutis, foram redimidos à identidade pela força de vossa santa meditação.
A maior dádiva da Lei, então, decorre da mais perfeita prática das Três Graças Meno-res. E deveis trabalhar nesta Obra tão por completo que vos tornareis capazes de passar de um lado da equação ao outro à Vontade; não, de compreender o todo de uma só vez e para sempre. Assim, portanto, vossa alma atada ao espaço-tempo viajará de acordo com sua na-tureza em sua órbita, revelando a Lei àqueles que caminham acorrentados; pois que esta é a vossa função particular.
Agora, eis o Mistério da Origem do Mal. Primeiramente, nós chamamos por Mal aquilo que está em oposição a nossa própria vontade; é, portanto, um termo relativo, e não abso-luto. Pois toda coisa que é o maior dos males de alguém, é o maior dos bens de outrem; tal como a dureza da madeira, que cansa o lenhador, é a segurança daquele que se aventura sobre o mar num barco construído daquela madeira. E esta é uma verdade fácil de assimi-larmos, sendo superficial e inteligível para os de mente comum.
Todo mal é, pois, relativo, ou aparente, ou ilusório; mas, voltando à filosofia, eu repe-tirei que sua raiz está sempre em dualidade. Portanto, o escape deste mal aparente é a busca da Unidade, o que vós fareis assim como eu já vos mostrei. Mas agora eu farei menção da-quilo que está escrito quanto a isto no Livro da Lei.
O primeiro passo sendo a Vontade, o Mal aparece como nesta definição; «tudo aquilo que impede a execução da Vontade». Portanto está escrito: «A palavra de Pecado é Restri-ção». Deve também ser notado que no Livro dos Trinta Æthyrs o Mal aparece como Choron-zon, cujo número é 333, que em Grego significa Impotência e Ociosidade; e a natureza de Choronzon é Dispersão e Incoerência.
Então, no Caminho do Amor, o Mal aparece como «tudo que tende a impedir a União de quaisquer duas coisas». Assim diz O Livro da Lei, sob a imagem da Voz de Nuit: «tomai vossa fartura e vontade de amor como vós quiserdes, quando, onde e com quem vós quiser-des! Mas sempre para mim». Pois todo ato de Amor deve ser «sob Vontade», isto é, de acordo com a Verdadeira Vontade, a qual não é permanecer contente com coisas parciais e transi-tórias, mas prosseguir firmemente até o fim. Assim também no Livro dos Trinta Æthyrs, os Irmãos Negros são aqueles que se fecham por completo, não querendo destruir a si mesmos pelo Amor.
Em terceiro lugar, no Caminho da Vida, o Mal aparece sob uma forma mais sutil, como «tudo aquilo que não é impessoal e universal». Aqui O Livro da Lei, pela Voz de Hadit, nos informa: «Na esfera Eu sou em toda a parte o centro». Novamente: «Eu sou Vida e o doador de Vida... 'vinde a mim' é uma expressão tola; pois sou Eu que vou.» «Pois Eu sou perfeito,
Não sendo». Pois esta Vida está em todo lugar e tempo de modo simultâneo; de forma que, Nela, estas limitações não existem mais. E vós tereis visto isto por vós mesmos: que em todo ato de Amor o tempo e o espaço desaparecem com a criação da Vida por sua virtude, assim como o faz a própria personalidade. Pela terceira vez, então, num senso ainda mais sutil, «A palavra de Pecado é Restrição.»
Finalmente, no Caminho da Luz, este mesmo versículo é a chave da concepção do Mal. Pois aqui Restrição consiste no fracasso em solucionar a Grande Equação e, depois, em pre-ferir uma expressão ou fase do Universo a qualquer outra. Contra isto nós somos prevenidos no Livro da Lei pela Palavra de Nuit, dizendo: «nenhuma... e dois. Pois Eu estou dividida pela graça do amor, pela chance de união», e portanto, «Se isto não for correto, se confundirdes as marcas do espaço, dizendo: Elas são uma, ou dizendo; Elas são muitas... então esperai os terríveis julgamentos...»
Agora, portanto, pelo favor de Thoth, eu cheguei ao fim deste meu livro: e armai-vos portanto com as Quatro Armas: a Baqueta para a Liberdade, a Taça para Amor, a Espada para Vida, o Disco para Luz: e com estas executai toda maravilha pela Arte de Alta Magia, sob Lei do Novo Æon, cuja Palavra é .
Saudações ao Sol entrando em Leão
A Filha da Espada Flamejante
Frater ON120 Fernando Liguori Care Frateres et Sorores,
Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.
audações ao Sol entrando em Virgem, O Profeta do Eterno: O Mago da Voz do Poder. O vigésimo Caminho é a Inteligência da Vontade, assim chamado porque constitui os meios de preparação de todas as coisas criadas, sendo por meio dessa inteligên-cia que a Sabedoria Primordial se torna conhecida. O Caminho de Yod liga Tiphereth a Chesed (o Arquiteto da Manifestação). Em suma, ele representa o começo independente da manifestação. Ele é o próprio ponto de origem de nosso Universo manifesto, em contato direto com a Fonte Divina de Todas as Coisas. É o Caminho através do qual o Demiurgo es-capa da escuridão. É a chegada da Luz da manifestação através do Microprosopus.
Como o signo de Virgem é atribuído ao vigésimo Caminho, entendemos que o Eremita é eternamente casto, puro e totalmente inocente. E como ele representa uma passagem para a ponte entre Macroprosopus e Microprosopus, também envolve determinadas qualidades de Daath.
Essas qualidades de Daath são representadas pelo próprio isolamento da figura: existe algo naturalmente misterioso e
insti-gante a respeito dessa figura de pé na escuri-dão segurando sua própria fonte de Luz. Pensa-se imediatamente em Diógenes de Co-rinto à procura de um homem honesto, ou em Moisés (cuja cabeça supostamente emanava raios de luz) ou em Cristo, como a Luz do Mundo. Pode-se também considerar, ao se es-tudar esta figura solitária, que o monasticismo surgiu no deserto do Egito, no terceiro e quarto séculos depois da morte de Cristo. O ex-tremo asceticismo e o afastamento da socie-dade eram considerados meios de se alcançar a perfeição. De fato, a própria palavra eremita deriva de uma palavra grega que significa ermo, deserto, o lugar onde alguns dos primei-ros monges viveram em quartos de uma só ja-nela.
O Eremita é uma expressão da mesma energia d’O Louco. Ele é ao mesmo tempo, a sá-bia velhice da Criança (da carta O Louco da Au-rora Dourada) e o imaculado início de uma
S
nova sequencia. É a pureza e inocência d’O Louco transformada na projeção de Microproso-pus através de Binah. A ideia de que O Louco (criança) é ao mesmo tempo O Eremita (ho-mem idoso) talvez possa ser melhor compreendida meditando-se sobre a serpente que se-gura a própria causa com a boca, o símbolo tradicional da sabedoria (Ouroboros).
O mais importante é que O Eremita representa a comunicação entre o Sagrado Anjo Guardião de Tiphereth (o Ruach) e o Eu Espiritual de Kether (o Yechidah). Por esta razão os textos da Aurora Dourada consideram o Eremita a primeira das três grandes cartas iniciató-rias, sendo as outras duas A Luxúria e O Carro. Com relação a isto, devemos observar que as experiências de todos esses Caminhos podem ser obtidas no Caminho d’A Alta Sacerdotisa. Este Caminho não apenas contém todos os Caminhos acima de Tiphereth como também ul-trapassa o Abismo com sua devastadora experiência da reconciliação divina através do iso-lamento.
Como quer que O Eremita possa ser descrito, trata-se fundamentalmente de uma carta de união. Ela representa o primeiro ponto de consciência, por parte do Sagrado Anjo Guar-dião, a respeito do Supremo Eu Espiritual, explicável apenas através da mais erótica das imagens. Esta ideia é apoiada pelo Sepher Yetzirah, o qual atribui o amor sexual à letra sim-ples Yod. Todavia, esta não é a sexualidade da cópula, pois a carta é a essência do isolamento e da singularidade. A sexualidade é auto-suficiente e independente, uma qualidade descrita crípticamente nos documentos da Aurora Dourada como prudência.
Yod está relacionado com Kether, não apenas por ser isolado e auto-suficiente, mas também por formar a raiz gráfica de todas as outras letras do alfabeto hebraico Além do mais, o Yod é fálico. Ele é o Fogo-Masculino que se precipita em direção á Água-Feminina. Na versão da Aurora Dourada, isso é simbolizado pelo sinal na frente do capuz do Eremita. O Yod dentro de um triângulo de Fogo significa que essa letra é a própria essência do fogo espiritual dentro do Microprosopus. Ele é, portanto, um aspecto da força de Chokmah. Ele é o pai de toda manifestação, abaixo do Abismo, o qual está relacionado ao Logos.
O Rito do Eremita de Yod
Estágio 1: Preparação
Prepare sua câmara ritualística.
Tire o Atu IX, O Eremita, do maço de cartas e coloque-o de pé no altar.
Estágio 2: Abertura da Kiblah
De pé, frente ao Norte, assuma a forma divina de Hoor-paar-Kraat e execute o Sinal do Silêncio.
Execute o Sinal de Puella e diga: menina, o dragão. Execute o Sinal de Puer e diga: menino, o leão. Execute o Sinal de Vir e diga: homem, o boi.
Execute o Sinal de Mulier e diga: a mulher satisfeita.
Execute o Sinal de Mater Triunphans e diga: a mãe triunfante.
Execute o Sinal de Tifon e diga: Hórus salta três vezes armado do útero de sua mãe. Har-pócrates, seu gêmeo está oculto dentro dele. Seth é a sua santa aliança, que ele revelará no grande dia de Maat.
Execute o Sinal da Caveira de Ossos Cruzados e diga: Que os Mestres da Sagrada Egrégora de Thelema e da Grande Fraternidade Universal possam me assistir neste momento, me inspirar com sua sabedoria e me proteger com seu amor, para que com eles eu possa me harmonizar e receber orientações através de minha intuição.
Execute o Sinal de Ísis a Mãe das Estrelas e diga: Ó, Grande Nuit! Senhora das Estrelas e do Espaço Infinito. Caminho eternamente sob e em teu corpo na travessia de meu deserto e no descanso de minha Alma. Neste momento, olho em tua direção e invoco Tua presença. AUMGN.